Cultura Geral de Moçambique
Cultura Geral de Moçambique
Nota: Este artigo é sobre o país. Para a ilha, veja Ilha de Moçambique. Para a dança, veja Moçambique (dança).
Entre o primeiro e o século V, povos bantus migraram de regiões do norte e oeste para essa
região. Portos comerciais suaílis e, mais tarde, árabes, existiram no litoral moçambicano até a
chegada dos europeus. A área foi reconhecida por Vasco da Gama em 1498 e em 1505 foi
anexada pelo Império Português. Depois de mais de quatro séculos de domínio português,
Moçambique tornou-se independente em 25 de Junho de 1975, transformando-se na República
Popular de Moçambique pouco tempo depois. Após apenas dois anos de independência, o país
mergulhou em uma guerra civil intensa e prolongada que durou de 1977 a 1992. Em 1994, o país
realizou as suas primeiras eleições multipartidárias e manteve-se como uma república
presidencial relativamente estável desde então.
A única língua oficial de Moçambique é o português, que é falado principalmente como segunda
língua por cerca de metade da população. Entre as línguas nativas mais comuns estão o macua,
o tsonga, ndau, chuabo e o sena. A população de cerca de 30 milhões de pessoas é composta
predominantemente por povos bantus. A religião com o maior número de adeptos em
Moçambique é o cristianismo (a denominação católica é a que reúne maior número de adeptos),
mas há uma presença significativa de seguidores do islamismo. O país é membro da União
Africana, da Commonwealth Britânica, da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP),
da União Latina, da Organização da
República de Moçambique
Conferência Islâmica, da Comunidade para o
Moçambique
Desenvolvimento da África Austral e da
Organização Internacional da Francofonia.
Etimologia
Bandeira Emblema
O nome Moçambique, primeiramente utilizado
Hino: Pátria Amada
para a ilha de Moçambique, primeira capital da
1:01
colónia, teria derivado do nome de um
comerciante árabe que ali viveu, Musa Al Bik,
Mossa Al Bique ou Ben Mussa Mbiki.[7]
História
Primeiros povos
Capital Maputo
e maior cidade
Gentílico moçambicano(a)
moçambicanas durante a Idade Média • Total US$ 12,681 mil milhões *[3]
(século V ao XVI) não eram muito robustas e
• Per capita US$ 429[3]
[9]
pouco restou delas, como o porto de Sofala.
IDH (2021) 0,446 (185.º) –
baixo[4]
O comércio costeiro de Moçambique
primeiramente foi dominado por árabes e Gini (2014) 54[5]
Domínio português
Embora a influência portuguesa tenha se expandido de forma gradual, o seu poder era limitado e
exercido por colonos individuais a quem era concedida uma extensa autonomia. Os portugueses
foram capazes de arrancar grande parte do comércio litorâneo dos árabes entre os anos de
1500 e 1700, mas, com a tomada do Forte Jesus de Mombaça (no atual Quénia) pelos árabes
em 1698, o pêndulo começou a oscilar na outra direção.[11][12] Como resultado, o investimento
português diminuiu enquanto Lisboa dedicou-se ao comércio mais lucrativo com a Índia e o
Extremo Oriente e ao processo de colonização do Brasil. Durante essas guerras, tribos árabes do
atual Omã recuperaram alguma parte do comércio da África Oriental a norte de Moçambique.
Muitos prazos haviam diminuído em meados do século XIX, mas vários deles sobreviveram.
Durante o século XIX outras potências europeias, particularmente os britânicos (Companhia
Britânica da África do Sul) e os franceses (Madagáscar), tornaram-se cada vez mais envolvidas
no comércio e na política da região em torno dos territórios da África Oriental Portuguesa.[12]
Movimento de independência
Com ideologias comunistas e anticoloniais espalhando-se por toda a África, muitos movimentos
políticos clandestinos foram estabelecidos em favor da independência de Moçambique. Estes
movimentos afirmavam que as políticas e planos de desenvolvimento elaborados pelas
autoridades do governo eram voltadas apenas para o benefício da população portuguesa que
vivia em Moçambique, sendo que pouca atenção era dada à integração das tribos
moçambicanas e ao desenvolvimento das comunidades nativas.[15] De acordo com as
declarações oficiais da guerrilha, isso afetava a maioria da população indígena, que sofria tanto
com a discriminação patrocinada pelo Estado quanto pela enorme pressão social. Muitos
sentiam que tinham recebido muito pouca oportunidade ou recursos para melhorar as suas
competências e melhorar a sua situação económica e social a um grau comparável à dos
europeus moçambicanos. Estatisticamente, os brancos portugueses de Moçambique eram de
facto muito mais ricos e qualificados do que a maioria negra nativa. Como resposta ao
movimento guerrilheiro, o governo português iniciou mudanças graduais, com novas políticas
socio-económicas e igualitárias para todos os cidadãos a partir da década de 1960 e,
principalmente, da década de 1970.[16]
Após dez anos de guerra e com o retorno de Portugal à democracia através de um golpe militar
de esquerda em Lisboa, que substituiu o regime do Estado Novo em Portugal por uma junta
militar (a Revolução dos Cravos, de abril de 1974), e na sequência dos Acordos de Lusaka, a
FRELIMO assumiu o controle do território moçambicano. Moçambique tornou-se independente
de Portugal em 25 de junho de 1975. Após a independência, a maioria dos 250 mil portugueses
que viviam em Moçambique deixaram o país, alguns expulsos pelo governo, outros fugindo com
medo.[18]
Guerra civil
Uma das primeiras ações do novo governo, sob a presidência de Samora Machel, foi estabelecer
um Estado unipartidário baseado em princípios marxistas. Cuba e União Soviética foram as
primeiras nações a estender os laços diplomáticos ao novo país, ajudando-o também com
forças militares, como forma de manter a independência e reprimir a oposição.[16][20] Logo após
a independência, o país foi assolado por uma guerra civil longa e violenta entre forças
oposicionistas da anticomunista Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) e o regime
marxista da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Este conflito, combinado com as
disputas diplomáticas e envolvimento do governo com movimentos guerrilheiros em países
vizinhos,[21] como a Rodésia (em que o governo moçambicano apoiou o grupo guerrilheiro
organizado pelo Exército Africano para a Libertação Nacional do Zimbábue (ZANLA)[21] e a
África do Sul do regime de apartheid (na qual o governo moçambicano proveu ajuda ao grupo
capitaneado por Nelson Mandela[22]) além do excesso de planeamento central e implementação
de políticas socialistas ineficazes[23] que resultaram nas severas dificuldades econômicas que
caracterizaram as primeiras décadas de independência de Moçambique, resultado das práticas
adotadas pelo então regime vigente no país.[16]
Este período também foi marcado pelo êxodo de cidadãos portugueses,[24] do colapso da
infraestrutura nacional, da falta de investimentos em ativos produtivos e da nacionalização, pelo
governo, de indústrias de propriedade privada, além de várias crises de fome generalizadas.
Durante a maior parte da guerra civil, o governo central comandado pela FRELIMO foi incapaz de
exercer controle efetivo fora das áreas urbanas do país, muitas das quais eram controladas a
partir da capital, Maputo. Estima-se que a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) tenha
exercido controle em áreas que incluíam até 50% das partes rurais de várias províncias, e os
serviços de assistência médica de qualquer tipo foram interrompidos por anos. O problema se
agravou quando o governo cortou gastos em assistência médica.[25] A guerra civil foi marcada
por diversas violações dos direitos humanos cometidas por ambos os lados do conflito, cenário
que se tornou ainda pior quando a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) começou a
usar táticas terroristas e a atacar civis indiscriminadamente.[26][27] O governo central executou
dezenas de milhares de pessoas ao tentar estender seu controle por todo o país e mandou
muitas pessoas para campos de reeducação, onde centenas foram mortos.[28][26]
Período multipartidário
Até 1993, cerca de 1,5 milhão de refugiados moçambicanos tinham procurado asilo em países
vizinhos como Maláui, Zimbábue, Essuatíni, Zâmbia, Tanzânia e África do Sul como resultado da
guerra civil e da seca que havia retornado, fenómeno que foi parte da maior repatriação
testemunhada na África subsaariana.[33] No entanto, em anos recentes, Moçambique
experimentou a volta do conflito armado em 2013, principalmente nas regiões centro e norte do
país.[34] Em 5 de setembro de 2014, o ex-presidente Armando Guebuza e o líder da RENAMO,
Afonso Dhlakama, assinaram o Acordo de Cessação das Hostilidades, o qual colocou fim às
atividades militares hostis e permitiu com que ambos partidos concentrassem-se nas eleições
gerais realizadas em outubro de 2014. Porém, logo após as eleições gerais, uma nova crise
política emergiu e o país está novamente à beira de um conflito armado. A RENAMO não
reconhece o resultado das eleições gerais e demanda o controle de seis províncias — Nampula,
Niassa, Tete, Zambézia, Sofala e Manica — locais onde o partido alega ter ganho a maioria dos
votos.[35]
Geografia
Imagem de satélite de
Moçambique
Com 801 537 km quadrados de área territorial, Moçambique é o 34º maior país do mundo em
área territorial, sendo comparável em tamanho à Turquia. Moçambique está localizado na costa
sudeste da África.[36] O Rifte Africano Oriental estende-se até ao sul de Moçambique. O ponto
mais alto de Moçambique é o Monte Binga, localizado na fronteira do país com Zimbábue, que
se eleva a 2 436 metros acima do nível do mar.
Moçambique está situado na costa oriental da África Austral, limitado a norte pela Tanzânia, a
noroeste pela Zâmbia e Maláui, a oeste pela Essuatíni e pelo Zimbábue, a sul e oeste pela África
do Sul e a leste pelo Canal de Moçambique, uma porção do oceano Índico. O país limita-se,
ainda, através de suas águas territoriais, com Madagáscar e as Comores, no Canal de
Moçambique.[37]
A norte do rio Zambeze o território é dominado por um grande planalto, com uma pequena
planície costeira bordejada de recifes de coral e, no interior, limita com maciços montanhosos
pertencentes ao sistema do Grande Vale do Rifte. A sul é caracterizado por uma larga planície
costeira de aluvião, coberta por savanas e cortada pelos vales de vários rios, entre os quais
destacando-se o rio Limpopo.[37]
O Parque Nacional da Gorongosa, localizado na província de Sofala, possui uma área de 3 770
km quadrados, no extremo sul do grande vale do Rifte da Africa Oriental. A exuberância
paisagística e a particularidade da fauna bravia deste Parque tornam-no um dos principais
atrativos turísticos. No parque, há a presença de elefantes, a na foz do Zambeze onde
predomina o búfalo, além de reservas parciais como a de Gilé e a do Niassa respectivamente a
nordeste de Quelimane e nas margens do rio Rovuma. Também no parque da reserva natural de
Bazaruto se podem avistar aves exóticas, recifes de corais e espécies marinhas protegidas
como dugongos, golfinhos e tartarugas marinhas.[40]
Clima
O clima do país é húmido e tropical, influenciado pelo regime de monções do Índico e pela
corrente quente do Canal de Moçambique, com estações secas de maio a setembro. A
pluviosidade anual é alta, especialmente no norte do país. A pluviosidade é mais forte, por um
lado, nas terras altas na fronteira com o Zimbábue e o Maláui, e por outro lado, na costa entre
Maputo e Beira, a qual está exposta às chuvas acompanhadas de vento durante todo o ano.[41]
As temperaturas médias em Maputo variam entre os 13–24 °C em julho a 22–31 °C em
fevereiro.[42] A estação das chuvas ocorre entre outubro e abril. A precipitação média nas
montanhas ultrapassa os 2 mil mm. A humidade relativa é elevada situando-se entre 70 a 80%,
embora os valores diários cheguem a oscilar entre 10 e 90%. As temperaturas médias variam
entre 20 °C no Sul e 26 °C no norte, sendo os valores mais elevados durante a época das
chuvas.[42]
Seca, desertificação e chuvas causadas por ciclones tropicais estão causando problemas
ambientais. As inundações causadas por um furacão em 2000 foram os piores em 50 anos.
Centenas de milhares de famílias tiveram que deixar as suas casas.[43] No entanto, a preparação
da população para desastres melhorou e os danos causados pelas inundações na primavera de
2007 foram significativamente menores. Na primavera de 2008, grandes evacuações foram
realizadas em áreas de inundação.[44]
Demografia
De acordo com os resultados do Censo de 2017, Moçambique tem 27 909 798 habitantes, um
aumento de 7 330 533 ou 35,6% em relação aos 20 579 265 registados no Censo de 2007.[2] As
províncias da Zambézia e Nampula são as mais populosas do país e concentram cerca de 39%
da população moçambicana.
Composição étnica
Os macuas são o grupo dominante na parte norte do país, os sena e shonas (principalmente
ndaus) são proeminentes no vale do Zambeze e os tsongas são predominantes no sul de
Moçambique. Outros grupos incluem os macondes, WaYaos, suaílis, tongas, chopes e ngunis
(incluindo zulus). Povos bantos compreendem 97,8% da população, enquanto o restante,
incluindo africanos brancos (em grande parte de ascendência portuguesa), euro-africanos
(mestiços de povos bantos e portugueses) e indianos.[45] Cerca de 45 mil pessoas de
ascendência indiana residem em Moçambique.[46]
Durante o governo colonial português, uma grande minoria de pessoas de ascendência
portuguesa vivia permanentemente em quase todas as regiões do país[47] e moçambicanos com
sangue português, no momento da independência do país, eram cerca de 360 mil pessoas.
Muitos deles deixaram a região após a independência moçambicana em 1975. Há várias
estimativas para o tamanho da comunidade chinesa em Moçambique, sete mil a doze mil
pessoas.[48][49]
Urbanização
Idiomas
O português é a língua oficial e a mais falada do país, usada por pouco mais da metade da
população (50,4%). Cerca de 39,7%, principalmente a população africana nativa, usam o
português como segunda língua e 12,78% falam-no como primeira língua. A maioria dos
moçambicanos que vivem nas áreas urbanas usam o português como principal idioma.[50][51]
As línguas bantas de Moçambique, que são as mais faladas no país, variam muito em seus
grupos e, em alguns casos, são bastante mal analisadas e documentadas.[52] Além de ser uma
língua franca no norte do país, o suaíli é falado em uma pequena área do litoral próxima à
fronteira com a Tanzânia; mais ao sul, na Ilha de Moçambique, o mwani, considerado como um
dialeto do suaíli, é falado. No interior da área de suaíli, o maconde é o idioma mais falado,
separado da área onde ciyao é usado por uma pequena faixa de território de falantes da língua
macua. O maconde e o ciyao pertencem a grupos linguísticos diferentes,[53] sendo o ciyao muito
próximo da língua mwera da área do planalto Rondo, na Tanzânia.[54] Alguns falantes do nianja
são encontrados na costa do lago Maláui, bem como do outro lado do lago na fronteira com o
Maláui.[55][56]
Há falantes de macua, com uma pequena área de língua eKoti no litoral. Em uma área
abrangendo o baixo Zambeze, falantes da língua sena, que pertence ao mesmo grupo da língua
nianja, são encontrados, com áreas que falam a CiNyungwe rio acima. Uma grande área de
língua chona se estende entre a fronteira do Zimbábue e do mar. Anteriormente essa língua era
considerada uma variante do ndau,[57] mas agora usa a ortografia chona padrão que surgiu no
Zimbábue. Há também grupos falantes da língua tsonga, enquanto o tsua ocorre no litoral e no
interior. Esta área de linguagem se estende até a vizinha África do Sul. Ainda relacionados a
estes idiomas, mas diferentes, estão os falantes do chope ao norte da foz do Limpopo e os
falantes da língua ronga na região imediatamente ao redor da cidade de Maputo. As línguas
deste grupo são, a julgar pelos vocabulários curtos,[52] muito vagamente semelhante ao zulu,
mas obviamente não são do mesmo grupo linguístico. Há pequenas comunidades falantes do
suázi e zulu em áreas de Moçambique imediatamente ao lado da fronteira com a Essuatíni e
com Cuazulo-Natal, na África do Sul.
Religiões
Cristianismo 56,1%
Islamismo 17,9%
Animismo 1,2%
Por força de sua Constituição, Moçambique é um estado laico, sendo expressamente proibido
no texto constitucional quaisquer discriminações ou acepções baseadas na religião, garantindo-
se, também, a liberdade religiosa a todos os cidadãos. A legislação moçambicana exige que
todas as organizações religiosas sejam registradas junto ao Ministério da Justiça, Assuntos
Constitucionais e Religiosos, embora não sejam aplicadas sanções aos grupos religiosos pela
ausência deste registro. Locais de culto também são protegidos por força legal e, de igual modo,
também é assegurada a objeção ao serviço militar por razões religiosas.[58]
O censo de 2017 revelou que os cristãos formam 56,1% da população (maioria Católica, com
cerca de 27,2%) e os muçulmanos compunham 18,9% da população de Moçambique, enquanto
4,8% das pessoas afirmaram praticar outras crenças religiosas, principalmente o animismo.
Cerca de 13,9% dos moçambicanos não tinham crenças religiosas e outros 2,5% não
especificaram pertencer a algum grupo religioso.[59] Há uma aderência significativa de parte da
população à crenças religiosas tribais sincréticas, sendo este um segmento não incluído nas
estimativas oficiais governamentais.
A Igreja Católica Romana estabeleceu doze dioceses no país (Beira, Chimoio, Gurué, Inhambane,
Lichinga, Maputo, Nacala, Nampula, Pemba, Quelimane, Tete e Xai-Xai; arquidioceses são Beira,
Maputo e Nampula). Estatísticas para o número de católicos variam entre 5,8% da população na
diocese de Chimoio, para 32,50% na diocese de Quelimane.[60]
A Fé Bahá'í tem estado presente em Moçambique desde o início da década de 1950, mas não se
identificava abertamente nesse período devido à forte influência da Igreja Católica no governo,
que não a reconheceu oficialmente como uma religião mundial. Com a independência, em 1975,
o país viu a entrada de novos pioneiros. No total, havia cerca de três mil bahá'ís declarados em
Moçambique em 2010.[63]
Governo e política
A FRELIMO foi o movimento que lutou pela libertação desde o início da década de 1960. Após a
independência, passou a controlar exclusivamente o poder, aliada aos países do então "bloco
socialista", e introduzindo um sistema político de partido único, semelhante ao praticado
naqueles países.[64] O regime provocou a hostilidade dos estados vizinhos segregacionistas
existentes na altura, África do Sul e Rodésia, que apoiaram elementos brancos recolonizadores e
guerrilhas internas. Esta situação viria a transformar-se numa guerra civil que durou 16 anos. O
fim desse conflito armado foi marcado pela assinatura do Acordo Geral de Paz (AGP), em Roma,
Itália, em 1992. No entanto, em 2013, Moçambique presenciou o retorno do conflito armado[34]
entre a FRELIMO e a RENAMO, afetando a população principalmente das regiões centro e norte
do país. Apesar das inúmeras negociações, um novo acordo de paz ainda não foi concluído.
Samora Machel foi o primeiro presidente de Moçambique independente e ocupou este cargo até
à sua morte em 1986. O seu sucessor, Joaquim Chissano, negociou o fim da guerra civil e
introduziu um sistema multipartidário que integrou o principal movimento rebelde, a Resistência
Nacional Moçambicana (RENAMO). Neste novo sistema, a Frelimo permaneceu no poder até os
dias actuais, tendo ganho as eleições parlamentares realizadas em 1994, 1999, 2004 e 2009,
mesmo com acusações de fraudes. O Movimento Democrático de Moçambique (MDM), uma
dissidência da RENAMO, constituiu-se em bancada parlamentar em abril de 2010. O MDM
atualmente tem dezassete deputados na Assembleia da República, desde as últimas eleições
gerais realizadas em 2014. O regime prevalecendo em Moçambique desde inícios dos anos
1990 evidenciou sempre défices democráticos, que o sucessor de Joaquim Chissano, Armando
Guebuza, tentou colmatar nos anos 2000.[65]
Direitos humanos
Em 2018, uma reportagem publicada no jornal português Público alegava que as terras mais
férteis de Moçambique, especialmente no corredor de Nacala, estão a deixar de ser exploradas
pelos moçambicanos e milhares de camponeses ficam sem terra, e lançados na pobreza, a
troco de falsas promessas de multinacionais do sector agrário. Portugal, com a Portucel
Moçambique à cabeça, é o país da Europa que mais área explora nesta zona.[70]
Relações internacionais
Apesar de alianças que datam da luta de independência continuem a ser relevantes, a política
externa de Moçambique tornou-se cada vez mais pragmática ao longo do tempo. Os dois pilares
da política externa moçambicana são a manutenção de boas relações com seus vizinhos e de
manutenção e expansão de laços com os parceiros de desenvolvimento. Durante os anos 1970
e início dos anos 1980, a política externa do país era indissoluvelmente ligada à Rodésia e África
do Sul, bem como pela concorrência das superpotências da Guerra Fria, Estados Unidos e União
Soviética. A decisão de Moçambique de impor sanções na Organização das Nações Unidas
(ONU) contra a Rodésia e negar a esse país o acesso ao mar, fez o governo liderado por Ian
Smith realizar ações ostensivas e secretas contra os moçambicanos. Embora a mudança de
governo no Zimbábue, em 1980, tenha removido esta ameaça, o governo da África do Sul
continuou a apoiar a RENAMO em sua guerra com o governo da FRELIMO.[71]
O Acordo de Nkomati de 1984, apesar de falhando em seu objectivo de acabar com o apoio sul-
africano à RENAMO, abriu contactos diplomáticos iniciais entre os governos moçambicano e
sul-africano. Esse processo ganhou impulso com o fim do regime do apartheid, que culminou
com o estabelecimento de relações diplomáticas plenas com a África do Sul em outubro de
1993. Embora as relações com os vizinhos Zimbábue, Maláui, Zâmbia e Tanzânia continuassem
ocasionalmente tensas, os laços de Moçambique com esses países continuam fortes.
Subdivisões
Economia
A moeda oficial é o metical, que substituiu a moeda antiga a uma taxa de mil para um. O metical
antigo foi retirado de circulação pelo Banco de Moçambique até o final de 2012. O dólar
estadunidense, o rand sul-africano e, recentemente, o euro também são moedas amplamente
aceitas e utilizadas em transações comerciais no país. O salário-mínimo legal é de cerca de 60
dólares por mês. Moçambique é membro da Comunidade para o Desenvolvimento da África
Austral (SADC — sigla em inglês). O protocolo de livre comércio da SADC visa tornar a região da
África Austral mais competitiva, ao eliminar tarifas e outras barreiras comerciais. Em 2007, o
Banco Mundial falou sobre o "ritmo de crescimento económico inflado" de Moçambique e um
estudo conjunto do governo e de doadores internacionais no mesmo afirmou que "Moçambique
é geralmente considerado como uma história de sucesso na ajuda humanitária". Também em
2007, o Fundo Monetário Internacional (FMI) disse que "Moçambique é uma história de sucesso
na África subsaariana." No entanto, apesar deste aparente sucesso, tanto o Banco Mundial
quanto a UNICEF usaram a palavra "paradoxo" para descrever o aumento da desnutrição infantil
crónica em face ao crescimento do PIB moçambicano. Entre 1994 e 2006, o crescimento médio
do PIB foi de aproximadamente 8% ao ano, no entanto, o país continua sendo um dos mais
pobres e subdesenvolvidos do mundo. Em uma pesquisa de 2006, três quartos dos
moçambicanos afirmaram que nos últimos cinco anos a sua situação económica permaneceu a
mesma ou tornou-se pior.[81]
No entanto, a economia de Moçambique tem sido abalada por uma série de escândalos de
corrupção política. Em julho de 2011, o governo propôs novas leis anticorrupção para
criminalizar o peculato, o tráfico de influência e a corrupção, depois de inúmeros casos de
desvio de dinheiro público. Esta legislação foi aprovada pelo Conselho de Ministros do país.
Moçambique condenou dois ex-ministros por corrupção desde 2011.[87] Moçambique foi
classificado no 123º lugar entre 174 países no Índice de Percepção de Corrupção de 2012 feito
pela Transparência Internacional.[88] De acordo com um relatório de 2005 feito pela Agência dos
Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID — sigla em inglês), "a escala e o
âmbito da corrupção em Moçambique constituem um motivo de alerta."[89]
Infraestrutura
Saúde
A taxa de fecundidade moçambicana é de cerca de 5,5 nascimentos por mulher. O gasto público
em saúde foi de 2,7% do PIB em 2004, enquanto as despesas privadas em saúde somaram 1,3%
no mesmo ano. Os gastos com assistência médica per capita era de 42 dólares (PPC) em 2004.
No início do século XXI, havia três médicos por 100 mil habitantes de Moçambique e a
mortalidade infantil era de 100 por mil nascimentos em 2005.[90]
Em Junho de 2011, o Fundo de População das Nações Unidas divulgou um relatório sobre o
estado da obstetrícia no mundo. O documento contém dados sobre a força de trabalho e as
políticas relacionadas com a mortalidade neonatal e materna em 58 países do mundo. A taxa de
mortalidade materna por 100 mil habitantes em Moçambique era de 550 em 2010, comparado
com 598,8 em 2008 e com 385 registrado em 1990. A taxa de mortalidade em menores de 5
anos por 1 000 nascimentos é de 147. O objetivo deste relatório é destacar maneiras para que
os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio da ONU possam ser alcançados, especialmente os
objectivos 4 (reduzir a mortalidade infantil) e 5 (diminuir a taxa de morte materna). Em
Moçambique, o número de parteiras por 1 000 nascidos vivos é de 3 e o risco de morte para
mulheres grávidas é de 1 em 37.[93]
Segurança alimentar
O país tem uma das taxas de prevalência de AIDS mais altas do mundo. A prevalência do vírus
em Moçambique é mais um ponto de vulnerabilidade para as famílias de baixa renda da zona
rural do país; o mesmo agrava níveis de pobreza e malnutrição extremos. Esses fatores colocam
em risco a produção agrícola do país. Cerca de 15% de mulheres grávidas entre os 15 e 49 anos
de idade estão infetadas pelo vírus. A epidemia tem um carácter heterogêneo em termos
geográficos e socioeconômicos. A principal via de transmissão continua a ser sexual em cerca
de 90% dos casos em adultos.[103]
Educação
Em 2007, um milhão de crianças ainda não iam à escola, a maioria delas de famílias rurais
pobres, e quase a metade de todos os professores em Moçambique ainda estavam
desqualificados. A escolarização de meninas aumentou de três milhões em 2002 para 4,1
milhões em 2006, enquanto a taxa de conclusão aumentou de 31 mil para 90 mil.[108]
Transportes
Existem mais de 30 000 km de estradas, mas grande parte da rede não é pavimentada. Como
nos seus vizinhos da Commonwealth, o sentido de circulação de tráfego em Moçambique é pela
esquerda com os condutores do lado direito dos automóveis, sendo portanto um dos únicos
dois países lusófonos a possuir esta característica (o outro é Timor-Leste). Existe um aeroporto
internacional em Maputo, 21 outros aeroportos pavimentados e mais de 100 pistas de
aterragem com pistas não pavimentadas.[45]
Na costa do Oceano Índico existem vários grandes portos marítimos, incluindo Nacala, Beira e
Maputo. Existem 3 750 km de vias navegáveis interiores, assim como ligações ferroviárias que
servem as principais cidades e ligam o país ao Maláui, ao Zimbabué e à África do Sul. O sistema
ferroviário moçambicano foi desenvolvido ao longo de mais de um século a partir de três portos
diferentes no Oceano Índico que serviram como terminais para linhas separadas para o interior.
As estradas de ferro foram os principais alvos durante a Guerra Civil Moçambicana, foram
sabotadas pela RENAMO e estão a ser reabilitadas. Uma autoridade paraestatal, a Portos e
Caminhos de Ferro de Moçambique, supervisiona o sistema ferroviário e os seus portos
conectados, mas a gestão tem sido largamente terceirizada. Cada linha tem seu próprio
corredor de desenvolvimento.[45]
Em 2005, havia 3 123 km de via férrea, consistindo de 2 983 km de bitola de 1 067 mm (3 pés e 6
polegadas), compatível com sistemas ferroviários vizinhos e uma linha de 140 km de bitola de
762 mm (2 pés e 6 polegadas), a Ferrovia de Gaza.[45] A rota central da Corporação Ferroviária
da Beira liga o porto da Beira aos países sem litoral do Maláui, Zâmbia e Zimbabué. A norte
deste, o porto de Nacala também está ligado por via férrea ao Maláui e, ao sul, Maputo está
ligado ao Zimbabué e à África do Sul. Essas redes interconectam-se apenas através de países
vizinhos. Uma nova rota para o transporte de carvão entre Tete e Beira estava planeada para
entrar em serviço em 2010[109] e, em agosto de 2010, Moçambique e Botsuana assinaram um
memorando de entendimento para desenvolver uma estrada de ferro de 1 100 km através do
Zimbabué, para transportar carvão de Serule até um porto de águas profundas na vila de
Techobanine, em Moçambique.[110]
Cultura
Artes
A música de Moçambique pode servir a muitos propósitos, que vão desde a expressão religiosa
até cerimônias tradicionais. Os instrumentos musicais são geralmente feitos à mão e incluem
tambores feitos de madeira e pele de animal, como a lupembe, um instrumento de sopro feito de
chifres de animais ou madeira, e a marimba, que é uma espécie de xilofone nativo. A marimba é
um instrumento popular entre os chopes da costa centro-sul moçambicana, que são famosos
por sua habilidade musical e de dança. A música de Moçambique é semelhante ao reggae e ao
calipso caribenho. Outros tipos de música são populares em Moçambique, como a marrabenta e
outros tipos de música lusófona, como o fado, o samba, a bossa nova e o maxixe.[111]
Os macondes são famosos por suas máscaras e esculturas elaboradas de madeira, que são
geralmente usadas em danças tradicionais. Existem dois tipos diferentes de esculturas em
madeira: as shetani (espíritos malignos), que são em sua maioria esculpidas em ébano, e as
ujamaa, que são esculturas em forma de totem que ilustram rostos realistas de pessoas e de
várias figuras. Essas esculturas são geralmente referidas como "árvores genealógicas", porque
contam histórias de muitas gerações.[111]
Durante os últimos anos do período colonial, a arte moçambicana refletiu a opressão pelo poder
colonial e tornou-se símbolo da resistência. Após a independência em 1975, a arte moderna
passou para uma nova fase. Os dois artistas moçambicanos contemporâneos mais conhecidos
e mais influentes são o pintor Malangatana Ngwenya e o escultor Alberto Chissano. Uma boa
parte da arte pós- independência, durante os anos 1980 e 1990, reflete a luta política, a guerra
civil, o sofrimento, a fome e a luta.[111]
Literatura
Tem-se que uma parte significativa da produção literária moçambicana se deve aos poetas da
chamada "literatura europeia". Estes poetas são aqueles que, sendo etnicamente caucasianos,
centram toda, ou quase toda a temática de suas obras nos problemas cotidianos de
Moçambique, exercendo expressiva influência na identidade nacional do país. Alberto de
Lacerda, Reinaldo Ferreira, Glória Sant'Anna, António Quadros, Sebastião Alba e Luís Carlos
Patraquim são alguns dos escritores pertencentes a este grupo literário.[114]
Culinária
Comunicações
Os programas de rádio são a forma mais influente de mídia no país devido à sua facilidade de
acesso.[116] As estações de rádio estatais servem um número de ouvintes superior ao das rádios
privadas. A Rádio Moçambique é a emissora com o maior número de ouvintes[116] e que foi
criada pouco depois da independência de Moçambique.[119]
As estações de TV vistas pelos moçambicanos são, entre outras, a TVM, a STV e a TV Miramar.
Através de cabo e satélite, os telespectadores podem acessar dezenas de outros canais
africanos, asiáticos, brasileiros e europeus.[carece de fontes]
Desportos
Feriados
25 de Dia das Forças Armadas de Libertação Em homenagem ao início da luta armada de libertação
setembro Nacional nacional
25 de
Dia da Família Natal
dezembro
Ver também
Literatura de Moçambique
Português moçambicano
Notas e referências
Notas
1. Outras línguas nacionais não oficiais, mas protegidas constitucionalmente são, incluindo
mas não se limitando a: macua, tsonga, ajaua, sena, xona, chuabo, nianja, ronga, maconde,
nhúngue, chope, guitonga, suaíli
Referências
1. Artigo 10 da Constituição
3. Fundo Monetário Internacional (FMI), ed. (abril de 2018). «World Economic Outlook Database»
([Link]
y=2016&ey=2023&scsm=1&ssd=1&sort=country&ds=.&br=1&c=688&s=NGDP_R%2CNGDP_RP
CH%2CNGDP%2CNGDPD%2CPPPGDP%2CNGDP_D%2CNGDPRPC%2CNGDPRPPPPC%2CNGD
PPC%2CNGDPDPC%2CPPPPC%2CPPPSH%2CPPPEX%2CNID_NGDP%2CNGSD_NGDP%2CPC
PI%2CPCPIPCH%2CPCPIE%2CPCPIEPCH%2CTM_RPCH%2CTMG_RPCH%2CTX_RPCH%2CTX
G_RPCH%2CLP%2CGGR%2CGGR_NGDP%2CGGX%2CGGX_NGDP%2CGGXCNL%2CGGXCNL_N
GDP%2CGGXONLB%2CGGXONLB_NGDP%2CGGXWDG%2CGGXWDG_NGDP%2CNGDP_FY%2C
BCA%2CBCA_NGDPD&grp=0&a=) . Consultado em 22 de julho de 2018
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