O problema de gênero
Em 1990, a filósofa estadunidense Judith Butler (1956-) lançou o livro Problemas de gênero:
feminismo e subversão da identidade. Até então, o feminismo trabalhava com a ideia de que
havia uma categoria “mulher”, que representaria todas as mulheres existentes. Ser mulher seria,
na lógica da identidade, pertencer a um grupo que tem certas características. Butler critica essa
noção de identidade, pois ela exclui mulheres que não se encaixam na identidade definida e implica
estabilidade, enquanto Butler entende que as pessoas estão sempre mudando.
Como leitora de Beauvoir, Butler defende a separação entre sexo e gênero. “Tornar-se mulher” é
aprender uma série de comportamentos culturais, não biológicos. Butler nota que Beauvoir nunca
disse que era preciso ter sexo feminino para se tornar mulher. Ou seja: qualquer corpo, com sexo
masculino ou feminino, pode se tornar mulher, já que isso é estritamente cultural.
Butler traz outros questionamentos: por que só podem existir dois gêneros? Se gênero é algo
descolado do sexo, por que ainda achamos que para cada sexo existe um gênero? Sendo gênero
uma construção cultural, por que não concebemos um número maior de gêneros? Atualmente, há
pessoas não binárias, que não se identificam nem com o gênero masculino, nem com o feminino,
reforçando os argumentos de Butler.
■ Linn da
Quebrada (1990-)
apresenta-se em
São Paulo (SP),
2023. Essa artista
brasileira, mulher
trans e ativista, ADRIANO VIZONI/FOLHAPRESS
trata do tema
da transgene-
ridade em suas
composições.
NÃO ESCREVA
ATIVIDADES Consulte orientações no Manual do Professor. NO LIVRO.
1. Na concepção de Butler, por que há problemas na noção de identidade da mulher?
1. Ela exclui pessoas que não se encaixam na identidade definida e pressupõe uma estabilidade, como se a pessoa não pudesse mudar.
2. O que significa dizer que gênero tem uma descontinuidade em relação ao sexo?
2. Significa que o sexo biológico e o gênero são totalmente separados, um não determina o outro.
3. Em uma folha sulfite A4, faça um cartaz pelo fim de todas as discriminações. O cartaz deve conter:
• uma frase em destaque, que funcione como a palavra de ordem contra a discriminação;
• dois parágrafos de texto, que expliquem a importância da convivência sem atitudes discriminatórias;
3. Produção pessoal. Garanta que as produções dos estudantes não violem os
• uma imagem ou desenho. direitos humanos.
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C A PÍ TU L O
A epistemologia da diferença sexual
O filósofo espanhol Paul B. Preciado (1970-) é um homem
trans que, na trilha de pensadoras como Judith Butler, reflete
sobre gênero atualmente. Preciado faz parte dessa popula-
ção que, muitas vezes, é considerada “doente”, “perigosa”.
Um dos seus livros, Eu sou o monstro que vos fala, é
uma reflexão sobre a ideia que as pessoas heterossexuais
SEBASTIAN REUTER/GETTY IMAGES
e cisgênero têm em relação à população LGBTQIAPN+.
Ao se denominar “monstro”, Preciado não está se depre-
ciando, mas se definindo como alguém que escapa das
normas do que ele chama de epistemologia da diferença
sexual.
A epistemologia da diferença sexual determina, por ■ Paul B. Preciado discursa ao ser pre-
exemplo, que a mulher verdadeira é aquela que nasceu com miado por seu documentário Orlando,
o sexo feminino e que a relação afetiva verdadeira só existe minha biografia política no Festival
Internacional de Cinema de Berlim
entre duas pessoas de sexos diferentes. Por isso, Preciado (Alemanha), em 2023.
afirma que essa epistemologia é binária e normativa.
No entanto, o filósofo demonstra que uma epistemologia A crítica ao binarismo, empreendida tanto
por Judith Butler quanto por Paul Preciado,
não é “natural”: ela provém do sistema histórico antecedido tem início no pensamento do filósofo
por outras epistemologias. Ele destaca, por exemplo, que, argelino Jacques Derrida (1930-2004). Ele
até o século XIX, o corpo feminino não era considerado apontava que todo o pensamento ociden-
anatomicamente diferente do corpo masculino. Ou seja, tal era binário, trabalhando com pares
de conceitos, como cultura e natureza,
até o século XIX, havia o que ele chama de “paradigma forma e matéria, verdade e ficção etc. Um
monossexual”, pois a Biologia e a Medicina não enxergavam dos pares mais importantes é o homem e
dois sexos, mas um só. Para os médicos, homens e mulheres a mulher, ou masculino e feminino. Para
tinham exatamente o mesmo órgão sexual, só que, nas Derrida, há fenômenos que não podem ser
pensados na lógica binária.
mulheres, esse órgão era interno e, nos homens, externo.
Só depois do século XIX, a Medicina passou a conceber dois
órgãos diferentes. Isso mostra como sexo e gênero não são Saiba mais
naturais, e sim historicamente construídos por discursos • DOSSIÊ denuncia 230 mortes e violências
científicos, religiosos etc. de pessoas LGBT em 2023. [S. l.]: Obser-
Preciado mostra como a Medicina e a Psicanálise foram vatório de Mortes e Violências LGBTQIA+
muitas vezes condescendentes com a violência que a no Brasil, 13 maio 2024. Disponível em:
[Link]
população LGBTQIAPN+ sofreu ao longo da história. Em [Link]/dossie/mortes-lgbt-2023/.
muitos países, a homossexualidade foi, ou ainda é, consi- Acesso em: 30 set. 2024.
derada crime. Pessoas que se relacionam com outras do O site traz informações sobre a vio-
mesmo gênero foram presas e punidas, e essa perseguição lência contra pessoas fora da hete-
ronormatividade.
foi apoiada e legitimada por saberes médicos e jurídicos.
ATIVIDADE Consulte orientações no Manual do Professor. NÃO ESCREVA
NO LIVRO.
• A população LGBTQIAPN+ luta em diversos países pelo fim da discriminação e por direitos iguais.
Você conhece as leis que contemplam essa população no Brasil? Faça uma pesquisa e encon-
tre pelo menos duas leis que combatem a discriminação ou promovem a inclusão de pessoas
LGBTQIAPN+. Escreva um pequeno texto sobre as leis que você encontrou.
Os estudantes podem falar de leis que criminalizam a homofobia e de leis inclusivas, como o direito à união estável
entre pessoas do mesmo sexo. 289
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Queer
A palavra “queer” vem do inglês e quer dizer “ridículo”, “estranho”,
mas também pode significar “extraordinário”. Nos anos 1980, os Estados
Unidos se deparavam com grande quantidade de casos de pessoas con-
taminadas pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Em alguns
países, o HIV infectou mais homens homossexuais, que foram, assim,
estigmatizados. Esses homens, assim como pessoas lésbicas, bissexuais
e transgênero, eram vistos como “estranhos” por pessoas heterosse-
xuais e cisgênero.
“Queer” era um termo usado para depreciar pessoas LGBTQIAPN+.
No entanto, essas mesmas pessoas se apropriaram do termo e passaram
Saiba mais
a se designar queer, transformando o sentido da palavra, que passou a
ser positivo. Ser queer é fazer parte de um grupo bastante heterogê- • CARVALHO, Tobias.
neo e diverso, avesso às definições cristalizadas dos sujeitos. Enquanto Quarto aberto. São
Paulo: Companhia
a ideia de homens e mulheres cisgênero e heterossexuais apresenta das Letras, 2023.
identidades fixas, estáveis, que não mudam, o queer se pretende aberto, A história relata o
instável, indeterminado. cotidiano de um
A teoria queer é o nome dado a estudos que unem feminismo, jovem que passa
por dores da vida e
psicanálise e pós-estruturalismo (uma corrente filosófica francesa do reflete sobre o amor,
século XX). Os teóricos queer são críticos da noção de sujeito e questio- a morte e a própria
nam o que Butler chamou de heteronormatividade ou Preciado chamou sexualidade.
de epistemologia da diferença sexual.
MARK A LEE/[Link]
■ Manifestação LGBTQIAPN+ e
Black Lives Matter (em tradução
livre, "Vidas negras importam").
Tacoma (Estados Unidos), 2020.
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