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Habilidades Adaptativas e Inclusão no Trabalho

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Estudo das Habilidades Adaptativas

Desenvolvidas por Jovens com Síndrome de


Down Incluídos e não Incluídos no Mercado de
Trabalho
Adaptive Skills Developed by Young People With Down
Syndrome Included and not Included in the Labor Market

Maria Luiza Gomes-Machado Resumo


Especialista em Psicologia Clínica/Educacional; Doutoranda em
Ciências pela Universidade Federal de São Paulo e Psicóloga da O objetivo deste artigo é apresentar a relação entre
APAE de São Paulo. o desenvolvimento de habilidades adaptativas por
Endereço: Rua Agostinho Rodrigues Filho, 410, ap. 81, Vila Clemen- pessoas portadoras de síndrome de Down (SD) e sua in-
tino, CEP 04026-040, São Paulo, SP, Brasil.
E-mail: malugmachado@[Link]
clusão no mercado de trabalho. Este estudo analisou as
habilidades desenvolvidas por pessoas incluídas e não
Brasilia Maria Chiari
incluídas no mercado de trabalho. A pesquisa revelou
Professora Titular e Livre-Docente da Disciplina de Distúrbios da
que as pessoas portadoras de habilidades adaptativas
Comunicação Humana do Departamento de Fonoaudiologia da
Universidade Federal de São Paulo. prévias são favorecidas na seleção para o trabalho,
Endereço: Rua Botucatu, 802, Vila Clementino, CEP 04023-062, em detrimento das demais. Em seguida analisaremos
São Paulo, SP, Brasil. tais resultados, confrontando-os com alguns fatores
E-mail: chiaribra@[Link] condicionantes do desenvolvimento de tais habilidades
prévias, tais como o ambiente familiar, assim como
1 Trabalho baseado na Dissertação de Mestrado intitulada “Inclu-
são Profissional da Pessoa com Síndrome de Down: Relevância das as influências socioculturais. Por fim, apontaremos a
Habilidades Adaptativas”, apresentada à Universidade Federal de necessidade de inclusão das demais pessoas com SD.
São Paulo [Departamento de Fonoaudiologia] para obtenção do Palavras-chave: Síndrome de Down; Família; Cultura;
título de Mestre em Ciências. Habilidades Adaptativas; Trabalho.

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Abstract Introdução
The aim of this paper is to present the relationship A crescente luta pelos direitos das pessoas com defi-
between the development of adaptive skills by people ciência deve ser vista como parte de um movimento
with Down syndrome (DS) and their inclusion in the emancipador de maior alcance, que pretende reformar
labor market. This study examined the skills develo- as bases da sociedade, criando canais efetivos de parti-
ped by people included and not included in the labor cipação política, reconhecimento social e exercício da
market. The research showed that people with prior cidadania. Os obstáculos são muitos. Passam pela su-
adaptive abilities are favored in the work selection to peração de um capitalismo excludente, condição para
the detriment of the others. In the following pages, o surgimento de uma sociedade emancipada (Antunes,
we will analyze these results, comparing them with 2006; Martins, 2007). Todavia, dentro dos limites desta
some of the factors that condition the development pesquisa, discutiremos a importância do trabalho como
of such prior skills, such as family environment and fator de estímulo para o desenvolvimento das pessoas
sociocultural influences. Finally, we will indicate the com deficiência intelectual. A inclusão de pessoas com
need to include the other people with DS. deficiência tem provocado inúmeras transformações
Keywords: Down Syndrome; Family; Culture; Adaptive em nossa sociedade, principalmente no que se refere
Skills; Work. à criação de políticas públicas e diretrizes que visem
garantir a inclusão educacional, profissional e social
dessas pessoas (Unesco, 1994). Entretanto, o percurso
rumo à equidade de oportunidades se mostra ainda
desafiador para as pessoas com deficiência intelectual
(DI), sobretudo no que tange à inclusão desses indiví-
duos no mercado de trabalho.
Estudos revelam que a taxa de empregabilidade
entre pessoas com DI é menor que entre aquelas com
outros tipos de deficiência (Pastore, 2000; Olney e
Kennedy, 2001). Para as pessoas com DI, o emprego
protegido continua sendo a principal via de acesso ao
trabalho. Ora, se estamos trabalhando sob a perspecti-
va da inclusão efetiva dessas pessoas, devemos questio-
nar essa situação na medida em que ela colabora para
manter a segregação das pessoas com DI.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o
emprego protegido ainda constitui a principal forma
de ocupação para jovens e adultos com DI (66%). Já as
situações de inclusão profissional nas quais os empre-
gados com DI compartilham o mesmo local de trabalho
com outros funcionários, dentro das empresas, têm
índice bem menor (44%). Do mesmo modo, aponta-se
correlação entre elevada renda do país e maior número
de programas de inclusão profissional para pessoas
com DI (WHO, 2007, p. 47).
Diversos fatores contribuem negativamente para o
processo de inclusão da pessoa com deficiência inte-
lectual no mercado de trabalho.
Por um lado, podemos citar os estigmas, tais como
a crença de que são incapazes, de que não conseguem
maior independência e de que necessitam de constante

Saúde Soc. São Paulo, v.18, n.4, p.652-661, 2009 653


supervisão (Scheid, 2005). Essas incapacidades, de os autores consideram a adaptação como um processo
modo geral, têm sido atribuídas à condição genética, autorregulatório de equilíbrio e de transações efetivas,
desconsiderando-se o potencial e as habilidades a ser realizado pelo sujeito em seus diferentes âmbitos de
estimuladas e desenvolvidas (Gomes-Machado e Mon- interação social.
toro, 2002; Stray-Gundersen, 2007). No Brasil, a Associação de Pais e Amigos dos Excep-
Por outro lado, podemos apontar a falta de preparo cionais de São Paulo (APAE de São Paulo) é considerada
dos empregadores e dos funcionários das empresas, referência nacional no atendimento às pessoas com SD,
bem como o pouco suporte no processo de adaptação acompanhando-as desde o nascimento até a velhice. Ao
ao emprego (Burge e col., 2007). Além de combater os longo desse processo, pessoas com SD têm sido inclu-
estigmas, precisamos ressaltar a relevância da capa- ídas no mercado de trabalho formal, ainda que em nú-
citação profissional das pessoas com DI, o que pode mero pequeno, se compararmos a população de pessoas
contribuir para o desenvolvimento de sua autonomia com SD que ingressam nos programas da instituição.
(Gomes-Machado, 2005; Steiner, 2006). Em levantamento realizado na instituição, observamos
Schalock (1992) propõe abordar as questões perti- que o índice de pessoas que adentram o programa de
nentes à deficiência intelectual a partir de uma pers- estimulação precoce chega a mais de 90%. No percurso
pectiva ecológica, isto é, considerar o funcionamento dessas pessoas pelos programas oferecidos pela APAE
do sujeito em consonância com o entorno e com os de São Paulo, a grande maioria dos portadores de SD é
apoios recebidos ao longo da vida, tanto no âmbito encaminhada aos programas de cunho ocupacional, em
familiar quanto no comunitário. detrimento do programa de capacitação e orientação
Foi considerando essa visão ecológica do sujeito, para o trabalho, frequentado por menos de 1% desses
não mais centrada nos déficits e no quociente intelec- indivíduos. Nesse sentido, observamos que as pessoas
tual (QI), que o diagnóstico da DI passou a incluir a com DI que apresentam habilidades prévias em nível
avaliação das habilidades adaptativas (APA, 2002). Isso considerado satisfatório são aquelas que se encontram
porque começou a ser valorizado todo o histórico da incluídas no mercado de trabalho. Porém, como esse
pessoa e o quanto, pela estimulação recebida ao longo número representa apenas uma pequena porcentagem
da vida (aceitação familiar, reconhecimento das possi- dos deficientes, podemos supor que essa inclusão se
bilidades de desenvolvimento, participação social), ela realiza pela lógica do capitalismo, segundo a qual, em
pode melhor aproveitar o próprio potencial. Portanto, nome da maximização dos resultados, as empresas
as possibilidades do sujeito não devem mais estar úni- escolhem as pessoas mais aptas em detrimento das
ca e exclusivamente ligadas ao diagnóstico do QI. demais, as quais, no fim das contas, são as que mais
Por habilidades adaptativas, entendemos o modo precisam de tal estímulo.
pelo qual o indivíduo enfrenta as exigências comuns
da vida e o grau em que satisfaz os critérios de indepen-
dência pessoal esperados para seu grupo etário (APA,
Métodos
2002). Tais habilidades consistem em aspectos essen- Participaram deste estudo 36 sujeitos, de ambos os se-
ciais para a manutenção da saúde, qualidade de vida e xos, com deficiência intelectual decorrente de Síndro-
organização dos processos psíquicos, contribuindo so- me de Down. A amostra foi dividida em dois grupos.
bremaneira para a inclusão social. Assim, não obstante O grupo de pessoas com SD incluídas no mercado
a observação do desempenho intelectual, o diagnóstico de trabalho (GI) é composto de nove sujeitos, selecio-
considera as habilidades de comunicação, autocuidado, nados mediante o critério de inclusão profissional
vida doméstica, habilidades sociais, uso de recursos co- com permanência igual ou superior a um ano. Entre
munitários, autossuficiência, habilidades acadêmicas, os participantes dos programas profissionalizantes
trabalho e lazer (Luckasson e col., 1992). da APAE de São Paulo, somente nove pessoas corres-
O conceito de adaptação tem sido amplamente pondiam a esse critério.
discutido entre os pesquisadores. Segundo Masten e O segundo grupo (GII) foi escolhido aleatoriamente
Coatsworth (1995), a adaptação decorre da interdepen- entre a população de jovens e adultos da APAE de São
dência entre os processos internos e os externos, isto é, Paulo, sendo composto de 27 sujeitos não incluídos no

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mercado de trabalho. O número de sujeitos desse grupo góricos. Diferenças entre médias de dados contínuos
foi definido a partir do primeiro grupo, visando formar paramétricos foram testadas utilizando-se o teste T
uma amostra satisfatória. de Student (t) para amostras independentes e, quando
Todos os participantes da amostra cumpriram os não paramétricos, utilizou-se o teste de Mann-Whit-
seguintes critérios de inclusão: ney (U).
• idade entre 20 e 29 anos; Não houve dados faltantes.
A probabilidade (p) menor que 0,05 foi considerada
• deficiência intelectual de grau leve ou moderado
para indicar significância estatística, exceto quando
(APA, 2002);
um potencial problema de comparações múltiplas foi
• ter sido avaliado no Ambulatório da APAE de São identificado. Nesse caso, utilizamos a correção de Bon-
Paulo; ferroni. Todos os testes foram bicaudais. Calculamos
• ter frequentado os mesmos tipos de programas na intervalo com 95% de confiança (IC) para detecar as
APAE de São Paulo, incluindo estimulação precoce, diferenças entre médias. Todas as estatísticas foram
educação e capacitação profissional; obtidas por meio do pacote estatístico SPSS (Statistical
• não apresentar evidências de prejuízos sensoriais de Package for the Social Sciences) 11.5.1 para Windows.
audição e/ou visão;
• não evidenciar prejuízos motores que impedissem a Resultados
aquisição de independência.
A análise estatística descritiva foi iniciada pela ava-
A avaliação das habilidades adaptativas foi realiza- liação comparativa entre as habilidades adaptativas
da por meio de questionário individual com pai e mãe dos indivíduos com SD incluídos no mercado e aquelas­
ou responsáveis, acompanhados do pesquisado. A apli- dos não incluídos. Os escores totais na Escala de Vi-
cação do questionário deu-se no próprio local em que neland estão representados na Figura 1. Em termos
esses sujeitos eram atendidos, em uma sala reservada. ge­rais, os sujeitos incluídos no mercado de trabalho
No momento da verificação da aderência à pesquisa, (GI) apresentam maiores índices na aquisição das
por meio da assinatura do Termo de Consentimento habilidades adaptativas do que aqueles não incluí-
Livre e Esclarecido, tanto os jovens quanto seus respon- dos no mercado de trabalho (GII): (IC95%= 27,7 a 70,3,
sáveis foram informados da utilização do questionário. “t”(34 g.l)= 4,7, p < 0,001).
Todos os envolvidos consentiram; além disso, o Termo
foi aprovado tanto pela UNIFESP quanto pela APAE de Figura 1 - Análise descritiva dos escores gerais na Escala
São Paulo. O instrumento utilizado foi a Escala de Ma- de Vineland, distribuídos de acordo com a inserção no
turidade Social de Vineland, desenvolvida por Edgar A. mercado de trabalho
Doll (1935). Esse instrumento não restringe a presença
dos responsáveis. Todavia, a resposta considerada para
nossas finalidades foi a do pesquisado.
Essa escala tem como fundamento o conceito de
comportamento adaptativo utilizado pela American
Association on Mental Retardation – AAMR (1992). O
comportamento adaptativo na Escala de Maturidade
Social de Vineland subdivide-se em quatro áreas e
subdomínios, com os respectivos questionários: co-
municação; habilidades de vida diária; socialização;
habilidades motoras finas e grossas. A escala apresenta
também 36 questões sobre alterações comportamen-
tais, como roer unhas, ansiedade, introversão, impul-
sividade, birras, irritabilidade e teimosia.
No que se refere à análise estatística, o teste exato
de Fisher foi usado para comparações de dados cate-

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A Tabela 1 revela detalhadamente as distinções e socialização do que os sujeitos não inseridos. Nas
entre os dois grupos. Os sujeitos inseridos no merca- habilidades motoras, não foi detectada diferença com
do de trabalho apresentam significativamente mais significância estatística entre os dois grupos.
habilidades adaptativas de vida diária, comunicação

Tabela 1 - Comparação entre os escores médios e respectivos desvios-padrão, intervalos de confiança e estatís-
ticas “t” e p, obtidos por meio da Escala de Vineland, segundo grupo de inserção no mercado de trabalho

Grupos de sujeitos
IC95%
Testes GI GII “t”(34) p
(diferença)
Media DP Média DP
Comunicação 117,4 15,7 104,0 15,6 1,3 a 25,7 2,2 0,031*
Habilidades de vida diária 158,3 5,1 138,6 11,1 11,9 a 27,6 5,1 <0,001*

Socialização 123,3 4,6 109,0 5,8 10,0 a 18,6 6,7 <0,001*

Habilidades motoras 70,2 0,7 68,7 2,6 -0,3 a 3,3 1,7 0,104

No que concerne à comparação específica de ha- dois grupos de sujeitos, não havendo diferenças com
bilidades, a análise descritiva dos desempenhos na significância estatística.
habilidade adaptativa da comunicação dos sujeitos Em relação às alterações comportamentais, os
revelou que, dentre as 67 questões pertinentes a esse sujeitos com SD inseridos no mercado de trabalho (GI)
item, a de número 64 – “Tem metas realísticas em longo apresentaram significativamente menos alterações,
prazo e descreve os planos para alcançá-las?” – pôde de acordo com o escore do item comportamento da
diferenciar os dois grupos de sujeitos, mostrando que Escala de Maturidade Social de Vineland (Figura 2),
o grupo com SD incluído no mercado de trabalho evi- em comparação com o grupo não inserido no mercado
denciou significância maior nesse item. de trabalho (GII). Comportamento: IC95% = -5,1 a -0,9,
No quesito habilidades de vida diária, a análise “t”(34)= -3,0, p = 0,006*.
descritiva dos desempenhos dos sujeitos revelou que,
dentre as 87 questões pertinentes a esse item, as de Figura 2 - Análise descritiva dos escores no item com-
número 76 – “Procura ganhar dinheiro regularmente portamento parte 1 da Escala de Vineland, distribuídos
para gastar?” –, 81 – “Distribui o dinheiro para gastar de acordo com a inserção no mercado de trabalho
durante a semana?” – e 92 – “Tem conta no banco e a
usa com responsabilidade?” – puderam diferenciar
os dois grupos de sujeitos, havendo maior aquisição,
nesses itens, pelo grupo com SD inserido no mercado
de trabalho.
No item socialização, os dados descritivos de cada
subitem revelaram que, dentre todas as 66 questões
pertinentes a essa área, as que diferenciaram os dois
grupos foram as de número 61 – “Frequenta cursos ex-
tracurriculares e eventos na escola, sem a companhia
do adulto?” –, 65 – “Marca encontro com duas ou três
pessoas?” – e 66 – “Marca encontro com uma pessoa?”.
Novamente, o grupo com SD incluído apresentou resul-
tado superior nessas questões.
No quesito habilidades motoras, dentre as 36
questões pertinentes, nenhuma pôde diferenciar os

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Discussão a autonomia das crianças com deficiência (Gomes-
Machado, 2005).
As pessoas com SD têm seu desenvolvimento afetado Diversos fatores devem ser considerados ao se
pela alteração genética do cromossomo 21, provocando tratar da inclusão de pessoas com SD no mercado
mudanças nas funções celulares desde a vida intrau- de trabalho. Entre eles, os processos segregativos
terina. Essas mudanças implicam características que historicamente constituídos, a preparação da empre-
acompanharão o indivíduo em todo o seu processo evo- sa, a dinâmica familiar e a capacitação profissional
lutivo. Contudo, há diferenças importantes de pessoa (Luckasson e col., 1992; Schalock, 1995; Scheid, 2005;
para pessoa (Fidler, 2005). Pesquisas sobre o desenvol- Steiner, 2006; Burge e col., 2007; Souza e Carneiro,
vimento das pessoas com SD revelam que o conjunto 2007). Passemos agora à abordagem das competências
fenotípico dessa síndrome – isto é, sua funcionalidade solicitadas pelo mundo profissional contemporâneo às
– não está geneticamente determinado. Evidencia-se, pessoas com SD.
assim, a possibilidade de obter significativa melhora Pessoas com SD enfrentam muitas adversidades ao
no funcionamento global da pessoa com SD mediante longo da vida, incluindo questões relacionadas à saúde,
intervenções psicomotoras, pedagógicas e culturais à aprendizagem escolar, a preconceitos e à inclusão
(Moreira e col., 2000; Silva e Kleinhans, 2006). profissional. De acordo com Glat (1989), um dos maio-
Segundo Steiner (2006), é importante considerar o res obstáculos enfrentados no processo de inclusão
papel da família no desenvolvimento psicossocial, pois social refere-se à negação da identidade adulta das
será a partir desses primeiros laços que se constituirá pessoas com SD, por parte tanto da família quanto dos
a base das relações intrapessoal e interpessoal. São profissionais que atendem essas pessoas. Do mesmo
as atitudes da família em relação à criança que for- modo, faz-se necessária a ampliação de políticas públi-
necerão a esta referências comportamentais. Se, por cas voltadas à inclusão efetiva (Ribeiro, 2006).
um lado, a família pode constituir o primeiro núcleo Em Portugal, há programas voltados à transição
de motivação socializante do indivíduo com SD, por para a vida ativa (TVA), cujo propósito é intervir no
outro também pode inibi-lo e reproduzir sua condição processo educativo de adolescentes com necessidades
deficiente. Nesse sentido, Carvalho (2009, p. 46) des- educacionais especiais, com idade entre 16 e 18 anos,
taca a importância da ruptura com o mito familiar que inclusos nas escolas regulares. De acordo com Fernán-
insiste em ver o deficiente como eterno dependente, dez-Batanero e Oliveira (2007), o TVA inclui orientação
necessitado de cuidados especiais e impossibilitado de vocacional/profissional; preparação pré-profissional;
realizar um trabalho que lhe dê prazer. Observou-se em formação profissional, com estágios em contexto real
demais estudos que pais de crianças com SD tendem de trabalho; colocação e integração na vida ativa e
a estabelecer padrões interativos pouco estimulantes, acompanhamento pós-colocação no trabalho. No caso
procurando compensar a defasagem da criança por das pessoas com trissomia 21 (SD), os autores identifi-
meio de posturas superprotetoras, que vão muito além cam a necessidade de melhor adequação do programa,
das reais necessidades de seus filhos (Pereira-Silva e sobretudo no que concerne à integração profissional e
Dessen, 2005). Por outro lado, investigação realizada ao acompanhamento pós-colocação.
com crianças com SD em idade escolar mostrou que Os trabalhos de Su e colaboradores (2008) também
elevadas competências para resolver problemas coti- realçam a importância das habilidades adaptativas
dianos estavam associadas a um ambiente familiar e para conquistar bons resultados na inclusão profis-
escolar acolhedor e estimulador das funções cognitivas sional de pessoas com DI. A avaliação das habilidades
(Niccols e col., 2003). adaptativas ao longo do percurso educacional permite
Prioste (2001) observou nos familiares dificulda- a criação de metodologias que possam minimizar e/ou
de em estabelecer uma visão de futuro positiva para compensar as dificuldades apresentadas por essas
seus filhos com DI, que inclua profissionalização e pessoas em seu funcionamento laboral. Essa já é uma
trabalho independente. Além disso, foram detectadas prática institucionalizada. Nossa pesquisa aponta a
dificuldades para estimular, desde a infância, a inde- necessidade de que, para além do que é mensurável
pendência nas atividades de rotina, o que favoreceria por meio de avaliações, possamos intervir nos diversos

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ambientes em que a pessoa está inserida, visando à dade de socialização. Neste, a diferenciação ocorreu
criação de estímulos para a promoção da independên- nas questões: frequentar cursos extracurriculares e
cia da pessoa com SD. eventos na escola sem a companhia de outra pessoa;
As habilidades que apresentaram significância marcar encontro com uma ou mais pessoas. Esses itens
estatística no presente estudo no grupo incluído no revelam a importância da autonomia e da interação so-
mercado de trabalho foram, respectivamente, habilida- cial da pessoa com SD. A aquisição dessa independên-
des de vida diária, de socialização e de comunicação. cia requer um longo percurso, iniciado na mais tenra
No que se refere às capacidades motoras, não foram idade, ainda no seio familiar (Gomes-Machado, 2005).
identificadas diferenças significantes entre os grupos Para tal, é importante a intervenção junto às famílias
de SD incluídos no mercado de trabalho e os não incluí- das crianças com SD, visando oferecer-lhes subsídios
dos. O desempenho motor com resultados semelhantes que favoreçam melhores padrões de interação com
em ambos os grupos indica que as competências desen- seus filhos (Niccols e col., 2003; Pereira-Silva e Dessen,
volvidas na vida cotidiana, bem como a sociabilidade e 2005). A criança que adquire confiança nas interações
a comunicação, são mais importantes para a inclusão intrafamiliares pode transferir essa aquisição para
profissional do que os aspectos motores gerais, reite- outros segmentos da vida. À medida que as pessoas
rando a importância das vivências sociais. com SD circulam pelas ruas, pela cidade, escolhem suas
Nesse sentido, os estudos de Fernández-Batanero amizades e podem encontrar os amigos, adquirem o
e Oliveira (2007) também apontam a relevância das sentimento de satisfação e de pertença social.
habilidades sociocognitivas, sobretudo no que diz res- O terceiro quesito que apresentou significância
peito às regras e à autonomia na inclusão profissional estatística refere-se à habilidade de comunicação.
de pessoas com SD. As pessoas com SD incluídas no mercado de trabalho
No que se refere às diferenciações específicas en- revelaram maior capacidade de se comunicar e inte-
tre os tipos de habilidades adaptativas, esta pesquisa ragir socialmente em contextos diversos. O que mais
identificou primeiramente repertório com significân- diferenciou os dois grupos no item comunicação foi
cia estatística nas habilidades de vida diária, isto é, a elaboração de metas realísticas em longo prazo e a
exatamente nas questões pertinentes ao cotidiano. capacidade de descrever os planos para alcançá-las.
Na Escala de Vineland, esse item engloba desde capa- Acreditamos que há relação entre a elaboração
cidade de tomar banho sozinho até arrumar a mesa, de metas realísticas e a motivação para o trabalho.
cuidar da própria saúde e assumir responsabilidades Portanto, o desejo de ser incluído profissionalmente
no trabalho. Notamos que o grupo incluído profis- pode favorecer, nas pessoas com SD, o deslocamento
sionalmente, diferentemente do não incluído, possui do mundo imaginário para a realização de ações per-
capacidade para lidar com valores monetários, conta tinentes ao mundo real.
bancária, bem como controle de gastos. No que se refere ao comportamento adaptativo,
Entendemos que habilidades para reconhecer observamos mais alterações comportamentais nos
dinheiro e gerenciar despesas fazem parte do mundo indivíduos não incluídos no mercado de trabalho do
adulto e deveriam ser ensinadas às pessoas com SD que nos incluídos (Figura 2). O grupo que não trabalha
desde cedo, ou seja, na época em que se ensinam às de- apresentou maior ocorrência de birras, teimosias,
mais pessoas, tal qual refere Glat (1989) ao ressaltar a irritabilidades, bem como de comportamentos que
importância da aquisição de habilidades que estejam o denotam características de ansiedade e impulsivida-
mais próximo possível da faixa etária na qual a pessoa de. Acreditamos factível atribuir tais ocorrências ao
com DI se encontra. Nesse contexto, a família tem papel estado ocioso em que essas pessoas permanecem a
fundamental, na medida em que estabelece uma pers- maior parte do tempo, e não a uma disposição natural
pectiva positiva de futuro (Prioste, 2001; Steiner, 2006) e irreversível, imanente a um estado biológico.
na qual a criança com SD se tornará um adulto que, no Ainda que ocorra nas empresas a flexibilização
cotidiano, poderá ter ações mais independentes. de algumas normas de conduta visando à adaptação
O segundo quesito estatisticamente significante da pessoa deficiente, é inegável que os protocolos
em nossos achados foi o item que se refere à habili- comportamentais são requisitos básicos a todos os

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funcionários. Acreditamos que comportamentos ade- laboradores (2000), que defendem o desenvolvimento
quados e responsáveis contribuíram para a inclusão de habilidades adaptativas como fator preditivo do
profissional dos sujeitos no mercado de trabalho, sendo sucesso profissional em indivíduos com DI. Em se-
tais condutas firmadas à medida que essas pessoas guida, passamos a questionar tais evidências, o que
permanecem em seus empregos. Raiça e colaboradores nos conduziu a um exame dos condicionantes histó-
(2006) ressaltam que o ambiente profissional desempe- rico-culturais que interferem no desenvolvimento das
nha papel importante no ajustamento comportamental habilidades adaptativas.
e social das pessoas com deficiência intelectual, tal
como ocorre com qualquer outro indivíduo. Essa con-
cepção de ambiente profissional se aproxima da noção
Considerações Finais
do trabalho, para a pessoa deficiente, como forma de O curso da pesquisa nos sugeriu que interações fami-
diminuição do isolamento social, o que contribui, além liares estimulantes, bem como visão positiva de futuro
disso, para a melhoria de seu autoconceito e da própria profissional, são essenciais para o desenvolvimento de
vida (Almeida e col., 2009, p. 90). habilidades sociocognitivas. O processo educacional
As diferenças estatisticamente relevantes no reper- dos sujeitos com SD deve enfocar as competências
tório de habilidades das pessoas com SD pesquisadas de vida diária, socialização e comunicação, visando à
podem estar relacionadas a diversos fatores. Estudos inclusão profissional, posto que o trabalho funciona
evidenciam que as estimulações ambientais em pesso- como fator protetor perante as adversidades enfren-
as com SD repercutem em respostas diferentes aos estí- tadas por esses indivíduos.
mulos recebidos. O contato com a diversidade promove Assim, devemos continuar enfatizando o cum-
o enriquecimento de seu repertório comportamental e primento de políticas públicas que contemplem
sociocognitivo (Moreira e col., 2000; Fidler, 2005; Silva pessoas com deficiência intelectual, tendo uma visão
e Kleinhans, 2006). educacional mais ampla, que fomente a capacitação
Gostaríamos de ressaltar que ambos os grupos pes- profissional, com perspectivas de inclusão no mundo
quisados participaram, na APAE de São Paulo, de pro- do trabalho.
gramas voltados à estimulação precoce, educacional e de Para finalizar, cabe destacar a importância de
capacitação para o trabalho. Embora ainda não se tenha desenvolver ações com as famílias, no sentido de evi-
realizado estudo específico sobre os fatores promotores denciar as capacidades que a pessoa com SD possui,
da inclusão profissional, supomos que os sujeitos inclu- mas que necessitam de estímulo desde a mais tenra
ídos no mercado de trabalho apresentavam característi- idade. Do mesmo modo, devemos legitimar o trabalho
cas de personalidade e apoio familiar que favoreceram o como fator de desenvolvimento de habilidades adap-
desenvolvimento das habilidades adaptativas. tativas, o que implica desenvolver, junto às empresas,
Estudos revelam que algumas pessoas sujeitas a ações afirmativas que incluam, também, pessoas com
riscos pessoais e/ou sociais podem desenvolver resi- SD que apresentam menor índice de adaptabilidade.
liência como forma de superação das adversidades Nossa pesquisa revelou que pessoas com maior índi-
(Bandeira e col., 1996; Masten, 2001; Paludo e Koller, ce de habilidades adaptativas foram favorecidas na
2005). O aumento de pesquisas nessa esfera poderá inclusão no mercado de trabalho. Consideramos que
esclarecer os fatores protetores em relação aos riscos isso reflete a lógica atual do mercado capitalista, que
advindos das condições genéticas e ambientais rela- busca maximizar seus resultados, valendo-se, para
cionadas à Síndrome de Down. tanto, de processos segregativos. Por outro lado, pes-
Nossa pesquisa enfocou, inicialmente, a relação soas com menor índice de habilidades, por questões
entre inclusão profissional e habilidades adaptativas. familiares e sociais que procuramos demonstrar,
Os resultados gerados pela Escala de Maturidade tendem a se acomodar sob o amparo das instituições
Social de Vineland apontaram maior índice de aqui- e da família. Resta o desafio, portanto, de desacomodar
sição dessas habilidades nos indivíduos incluídos no essa situação, tanto no interior da família como no das
mercado de trabalho, conforme descrito na Tabela 1. empresas, criando condições de convívio e de maior
Esses achados corroboram os estudos de Bolton e co- desenvolvimento para esse grupo de pessoas.

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Recebido em:17/12/2008
Reapresentado em:14/07/2009
Aprovado em: 28/07/2009

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