Universidade Licungo
Faculdade de Ciências Agrárias
Licenciatura em Agroprocessamento com Habilitações em Agro-negócios
4° Ano
Júlio Mujaide
Osvaldo Uapito
René Chico
PRODUÇÃO DE MANTEIGA DE GERGELIM
Quelimane
2025
Júlio Mujaide
Osvaldo Uapito
René Chico
PRODUÇÃO DE MANTEIGA DE GERGELIM
Trabalho de carácter avaliativo a ser
apresentado no Curso de Licenciatura em
Agroprocessamento com Habilitação em
Agro-negócio no Departamento de Ciências
Alimentares, na Cadeira de Difusão de
inovações no meio rural, lecionada pelo:
Docente: Dr. Quintino Joaquim Lobo
Quelimane
2025
Índice Páginas
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 4
1.1 Objetivos ............................................................................................................................... 5
1.1.1 Geral .................................................................................................................................. 5
1.1.2 Específicos ......................................................................................................................... 5
2 METODOLOGIAS ................................................................................................................. 5
3 REVISÃO DA LITERATURA ............................................................................................... 6
3.1 Conceito de Inovação ........................................................................................................... 6
3.2 Tipos de Inovação ................................................................................................................. 6
3.3 Inovação como Processo Decisório ...................................................................................... 7
3.4 Etapas do Processo de Inovação ........................................................................................... 8
3.5 Fatores que Influenciam a Tomada de Decisão .................................................................... 9
3.6 Ferramentas de Apoio à Decisão ........................................................................................ 10
4 PROCESSAMENTO DE GERGELIM PARA MANTEIGA ............................................... 10
4.1 Características do Gergelim................................................................................................ 10
4.2 Etapas de processamento .................................................................................................... 11
5 DIFUSÃO DA INOVAÇÃO NO MEIO RURAL ................................................................ 12
5.1 Estratégias de Difusão ........................................................................................................ 13
5.2 Barreiras e Soluções ........................................................................................................... 13
5.3 Casos de Sucesso ................................................................................................................ 14
6 IMPACTOS DA INOVAÇÃO .............................................................................................. 15
6.1 Impactos Econômicos ......................................................................................................... 15
6.2 Impactos Sociais ................................................................................................................. 15
6.3 Impactos Ambientais .......................................................................................................... 16
7 CONCLUSÃO ....................................................................................................................... 17
8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................. 18
1 INTRODUÇÃO
O gergelim (Sesamum indicum L.) é uma cultura agrícola estratégica em Moçambique,
com destaque para a província da Zambézia, onde as condições climáticas favorecem sua
produção expressiva (FAO, 2020). Apesar de seu elevado valor nutricional, com teores
significativos de proteínas, lipídios e minerais essenciais, grande parte do gergelim ainda é
exportada in natura, sem processamento, o que limita a geração de renda local e contribui para
perdas pós-colheita que podem atingir até 30% (Buainain et al., 2007).
Nesse contexto, a produção de manteiga de gergelim surge como uma inovação
incremental de grande relevância, capaz de agregar valor às sementes, prolongar sua vida útil e
facilitar a inserção do produto em mercados urbanos e rurais (Reis, 2013). Além de reduzir
desperdícios, essa iniciativa fortalece cadeias produtivas locais, cria oportunidades de emprego
para jovens e mulheres e contribui para a diversificação da agroindústria moçambicana,
aumentando a competitividade do país no setor agroalimentar.
O potencial de mercado para a manteiga de gergelim é promissor. O crescimento global
do tahine deve atingir USD 524 milhões até 2030, com aumento da demanda na África por
produtos orgânicos e rastreáveis (Mordor Intelligence, 2025). Em Moçambique, o recente
aumento nos preços do gergelim e os investimentos em tecnologias de classificação de sementes
oferecem oportunidades concretas para agregar valor localmente e competir com países
produtores como Etiópia e Sudão (Lang Trades, 2025). Dessa forma, a transformação do
gergelim em manteiga se apresenta como uma estratégia inovadora, sustentável e
economicamente viável para fortalecer o desenvolvimento rural no país.
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1.1 Objetivos
1.1.1 Geral
Produção de manteiga de gergelim.
1.1.2 Específicos
Descrever o processamento do gergelim em manteiga;
Identificar os tipos de inovação no processo;
Avaliar fatores que influenciam sua adoção;
Destacar benefícios econômicos, sociais e ambientais;
Sugerir recomendações para sua difusão.
2 METODOLOGIAS
Segundo Lakatos (1985) metodologia é o conjunto de procedimentos sistemáticos e
racionais que permitem alcançar os objetivos da pesquisa. Portanto, como forma de auxílio para
a realização do presente trabalho, recorreu-se a informações relevantes em livros, obras e
artigos eletrónicos, a fim de se obter bases concretas para sustentar o trabalho em questão.
5
3 REVISÃO DA LITERATURA
3.1 Conceito de Inovação
A inovação é um conceito multifacetado que transcende a mera invenção, abrangendo a
aplicação prática de ideias novas ou aprimoradas que geram valor em dimensões econômicas,
sociais, ambientais ou estratégicas (Tidd & Bessant, 2020). Segundo Schumpeter (1942),
pioneiro na teoria econômica da inovação, ela representa um processo de "destruição criativa",
onde novas combinações de recursos substituem práticas obsoletas, impulsionando o progresso.
No contexto agroindustrial, a inovação não se limita a tecnologias avançadas, mas inclui
adaptações simples que otimizam recursos locais, como o processamento de matérias-primas
para produtos de maior valor agregado.
Em Moçambique, onde a agricultura familiar predomina e enfrenta desafios como baixa
produtividade e volatilidade de preços, a inovação assume um papel transformador. A produção
de manteiga de gergelim exemplifica isso, ao converter uma commodity exportada in natura
em um produto processado com maior margem de lucro e apelo ao consumidor (Reis, 2013).
Esse processo alia criatividade técnica – como torrefação e moagem – a viabilidade econômica,
reduzindo perdas pós-colheita e atendendo à demanda por alimentos funcionais. Estudos da
FAO (2020) destacam que inovações como essa podem aumentar a renda rural em até 30%,
fomentando inclusão e sustentabilidade.
Além disso, a inovação no meio rural deve considerar o contexto sociocultural, onde a
adoção depende de fatores como acessibilidade e compatibilidade com práticas tradicionais
(Rogers, 2003). Assim, ela não é um evento isolado, mas um processo dinâmico que requer
integração entre atores da cadeia produtiva, desde agricultores até mercados finais, para
maximizar impactos.
3.2 Tipos de Inovação
As inovações podem ser classificadas segundo o grau de novidade e o impacto que
geram sobre produtos, processos ou modelos de negócio. Conforme Tidd e Bessant (2020), a
inovação incremental caracteriza-se por melhorias graduais em produtos ou processos
existentes, oferecendo baixo risco, alta viabilidade de implementação e rápida aceitação pelos
usuários. Em contraste, a inovação radical envolve mudanças disruptivas, que rompem padrões
estabelecidos, exigem maior investimento e enfrentam níveis mais elevados de incerteza, sendo
mais difíceis de implementar, sobretudo em contextos com recursos limitados.
No contexto do agroprocessamento em comunidades rurais de Moçambique, a produção
de manteiga de gergelim configura-se como uma inovação incremental, pois adapta técnicas já
6
consolidadas, como torrefação e moagem, para transformar um produto tradicional o gergelim
in natura em um alimento de maior valor agregado. Essa abordagem permite agregar benefícios
econômicos, sociais e nutricionais sem demandar mudanças drásticas na cadeia produtiva local,
o que a torna acessível, prática e sustentável.
Além disso, a produção de manteiga de gergelim pode englobar diferentes tipos de
inovação, que atuam de maneira complementar:
Produto: desenvolvimento de manteiga de gergelim em diferentes versões, como
natural, adoçada com mel ou temperada com especiarias, permitindo diversificação do
portfólio e atendendo às preferências do consumidor. Essa abordagem cria diferenciação
no mercado, aumentando a competitividade e agregando valor ao produto final.
Processo: aplicação de técnicas de higienização, torrefação controlada, moagem
eficiente e embalagens adequadas, que elevam a eficiência produtiva, reduzem perdas e
garantem qualidade consistente, prolongando a vida útil do alimento.
Organizacional: fortalecimento da gestão de cooperativas e associações rurais, que
possibilitam o processamento conjunto, melhoram a coordenação logística, otimizam
recursos compartilhados e ampliam a capacidade de comercialização, promovendo
integração produtiva e social.
Modelo de negócio: implementação de cadeias curtas de comercialização, conectando
diretamente produtores e consumidores, especialmente em centros urbanos próximos,
reduzindo intermediários e custos, garantindo maior margem de lucro e fortalecendo a
economia local.
A ênfase em inovações incrementais revela-se particularmente adequada ao meio rural,
pois minimiza riscos financeiros, requer investimentos acessíveis e se adapta melhor às
condições locais de produção, infraestrutura limitada e hábitos culturais. Ao mesmo tempo,
permite gerar impacto econômico significativo, fortalecer capacidades comunitárias e
promover práticas sustentáveis de agroprocessamento.
Essa abordagem demonstra que, mesmo com recursos restritos, é possível transformar
uma cultura tradicional em um produto moderno, valorizado e competitivo, alinhando inovação
tecnológica, social e econômica de forma integrada.
3.3 Inovação como Processo Decisório
A inovação deve ser compreendida como um processo contínuo e estruturado, que
envolve decisões estratégicas em diferentes etapas, e não como um evento isolado (Tidd &
Bessant, 2020). Essas etapas incluem a identificação de problemas, a geração de ideias, a
7
seleção das soluções mais adequadas, a implementação e, por fim, a avaliação dos resultados.
Cada fase demanda escolhas conscientes, baseadas em objetivos claros, disponibilidade de
recursos e análise de riscos.
No caso da manteiga de gergelim, o processo decisório tem início com a identificação
de um problema central: a exportação do gergelim in natura, que limita a agregação de valor e
reduz a renda das comunidades produtoras (FAO, 2020). A partir desse diagnóstico, surge a
alternativa de transformar as sementes em manteiga, uma decisão que envolve selecionar
técnicas acessíveis, como a torrefação manual e a moagem elétrica, além de considerar a
viabilidade econômica e comercial do produto. Entre os fatores de mercado, destaca-se a
crescente demanda por alimentos saudáveis, prontos para consumo e de origem local (Reis,
2013).
3.4 Etapas do Processo de Inovação
Segundo Tidd e Bessant (2020), a inovação não é um evento isolado, mas um processo
estruturado que transforma ideias em soluções concretas e de valor, passando por etapas
interligadas que exigem análise, planejamento e tomada de decisão estratégica. No contexto da
produção de manteiga de gergelim, essas etapas podem ser detalhadas da seguinte forma:
Identificação de problemas ou oportunidades: a primeira etapa envolve reconhecer
a perda de valor associada à exportação de gergelim in natura, que limita a renda dos
agricultores familiares. Paralelamente, observa-se uma oportunidade de mercado: a
crescente demanda por alimentos nutritivos, práticos e saudáveis, especialmente em
centros urbanos próximos às regiões rurais produtoras. Essa análise permite
compreender o contexto, identificar lacunas e definir onde a inovação pode gerar
impacto econômico, social e ambiental.
Geração de ideias: com base nas oportunidades identificadas, são propostas
alternativas de aproveitamento da matéria-prima, incluindo a produção de manteiga de
gergelim, farinhas enriquecidas, óleos ou outros derivados. A diversidade de ideias
amplia as possibilidades de seleção e incentiva soluções que combinem viabilidade
técnica e aceitação do mercado.
Seleção e desenvolvimento de soluções: entre as alternativas, a manteiga de gergelim
é escolhida devido à sua viabilidade técnica, ao valor agregado e à facilidade de
adaptação às condições rurais. Nessa fase, protótipos são testados em diferentes versões
natural, adoçada ou temperada permitindo ajustes em sabor, textura e apresentação, de
modo a atender às preferências dos consumidores e reduzir riscos de rejeição.
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Implementação: após a definição do produto, inicia-se a produção em pequena escala,
com lançamento em mercados locais, feiras comunitárias, lojas especializadas e
supermercados. Essa etapa envolve decisões sobre logística, controle de qualidade,
padronização do produto e estratégias de marketing, garantindo que o produto chegue
ao consumidor final em condições ideais.
Avaliação de resultados: o processo de inovação inclui monitoramento contínuo de
indicadores de desempenho, como volume de vendas, aceitação do consumidor,
eficiência produtiva e retorno financeiro. A avaliação permite identificar oportunidades
de melhoria, ajustar processos, ampliar a escala de produção e fortalecer a
sustentabilidade do empreendimento.
No agroprocessamento, essas etapas tornam-se eminentemente práticas, exigindo
decisões estratégicas sobre canais de distribuição, posicionamento do produto e diferenciação
no mercado, com foco na qualidade nutricional, valor agregado e potencial de geração de renda
para produtores e comunidades.
3.5 Fatores que Influenciam a Tomada de Decisão
A adoção e o sucesso de inovações dependem de diversos fatores que influenciam a
tomada de decisão em cada etapa do processo (Tidd & Bessant, 2020). Entre os mais relevantes
para a produção de manteiga de gergelim destacam-se:
Incerteza e risco: a aceitação da manteiga no mercado ainda é incerta, tornando
imprescindíveis testes piloto, degustações e ajustes com base no feedback dos
consumidores, a fim de reduzir falhas e garantir sucesso comercial.
Recursos limitados: comunidades rurais muitas vezes possuem orçamentos restritos, o
que favorece a adoção de tecnologias simples e acessíveis, como moinhos elétricos de
baixo custo ou torradores manuais, que permitem iniciar a produção com investimentos
moderados.
Apetite ao risco: agricultores familiares tendem a optar por inovações incrementais,
que oferecem menor exposição a perdas financeiras e maior previsibilidade, evitando
mudanças drásticas na produção tradicional.
Cultura organizacional: a existência de estruturas coletivas, como associações,
cooperativas ou grupos comunitários, facilita a difusão da inovação, promovendo
colaboração, compartilhamento de recursos e apoio mútuo.
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Capacidade de adaptação: a flexibilidade para ajustar processos, sabores ou
embalagens com base no feedback do consumidor é determinante para consolidar a
aceitação do produto, melhorar a experiência do usuário e fortalecer a competitividade
da inovação.
No caso específico do gergelim, esses fatores orientam escolhas estratégicas, como a
seleção de equipamentos de baixo custo, a diversificação do portfólio de produtos (natural,
temperado, adoçado) e o estabelecimento de parcerias locais, fortalecendo a cadeia produtiva e
reduzindo riscos de insucesso.
3.6 Ferramentas de Apoio à Decisão
Ferramentas estruturadas são fundamentais para apoiar o processo de inovação,
tornando as decisões mais consistentes, estratégicas e alinhadas aos objetivos de
desenvolvimento (Tidd & Bessant, 2020). No contexto da manteiga de gergelim, destacam-se:
Design Thinking: permite criar e testar protótipos diretamente com consumidores,
possibilitando ajustes em sabor, textura, embalagem e apresentação do produto,
garantindo que a solução final atenda às necessidades reais do mercado.
Canvas de Modelo de Negócios: auxilia no planejamento da proposta de valor,
definição de canais de distribuição, segmentação de clientes e análise da viabilidade
comercial, estruturando a operação de forma clara e estratégica.
Matriz SWOT: avalia pontos fortes e fracos da produção, identifica oportunidades e
antecipa ameaças, permitindo decisões mais fundamentadas sobre investimentos,
marketing e expansão do produto.
A utilização dessas ferramentas contribui para decisões estratégicas mais robustas,
como a escolha de embalagens recicláveis, a diversificação de sabores, a definição de canais de
comercialização e a construção de uma marca diferenciada. Além disso, fortalece a capacidade
dos produtores de integrar inovação tecnológica, prática e social, promovendo o
desenvolvimento sustentável e a competitividade no mercado agroalimentar.
4 PROCESSAMENTO DE GERGELIM PARA MANTEIGA
4.1 Características do Gergelim
O gergelim (Sesamum indicum L.) é uma oleaginosa de alto valor nutricional e
econômico, amplamente cultivada em regiões tropicais e subtropicais. Suas sementes
apresentam elevado teor de óleo (45–55%), rico em ácidos graxos insaturados, além de
proteínas (18–25%) e fibras alimentares. Contêm ainda minerais essenciais como cálcio, ferro,
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magnésio e zinco, bem como antioxidantes naturais, como a sesamina e o sesamol, que
contribuem para maior estabilidade do óleo e benefícios à saúde humana (FAO, 2019).
Do ponto de vista econômico, o gergelim destaca-se como uma cultura de fácil
adaptação a solos de média fertilidade e climas variados, sendo bastante cultivado em
Moçambique, especialmente na província da Zambézia. Por sua versatilidade, pode ser
utilizado tanto na alimentação humana, em pães, biscoitos e molhos, como na extração de óleo
e no processamento de derivados, a exemplo da manteiga de gergelim. Essa
multifuncionalidade torna o cultivo uma alternativa promissora para geração de renda e
diversificação da dieta alimentar em comunidades rurais.
4.2 Etapas de processamento
O processamento do gergelim para a produção de manteiga é uma prática que agrega
valor à matéria-prima, prolonga sua vida útil e garante que o produto final atenda às normas de
segurança alimentar. Ao transformar sementes simples em um produto de alto valor agregado,
o processo contribui para a redução de perdas pós-colheita, diversificação de produtos e
aumento da renda de agricultores familiares. As etapas detalhadas, adaptadas de Embrapa
(2011) e UEMS (2016), incluem:
Aquisição e Seleção de Sementes: as sementes de gergelim são adquiridas de
agricultores locais da província da Zambézia. Nessa fase, ocorre a inspeção minuciosa
para remover impurezas como pedras, palha, resíduos de solo e sementes danificadas.
Esta etapa garante a qualidade da matéria-prima e estabelece padrões mínimos de
segurança e higiene, essenciais para a produção de alimentos processados.
Limpeza e Lavagem: as sementes selecionadas são lavadas com água potável para
eliminar contaminantes superficiais, poeira e microorganismos. Posteriormente, são
secas ao ar em locais limpos e ventilados, de modo a reduzir a umidade e prevenir o
desenvolvimento de fungos ou deterioração, garantindo estabilidade e maior vida útil
do produto final.
Torrefação: as sementes limpas passam por tostagem em torradores artesanais ou
industriais a temperaturas entre 150–180 °C por aproximadamente 10–15 minutos. Esse
processo realça o aroma e o sabor característicos do gergelim, facilita a moagem e
contribui para a destruição de micro-organismos, aumentando a segurança alimentar.
Moagem: após a torrefação, as sementes são processadas em moinhos elétricos ou
manuais até formar uma pasta cremosa, conhecida como manteiga de gergelim. Nesta
fase, podem ser introduzidas variações do produto, como manteiga natural, adoçada
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com mel ou temperada com especiarias (alho, pimenta), adaptando-se ao gosto do
consumidor e criando diferenciação de mercado.
Embalagem: a manteiga pronta é envasada em frascos de vidro de diferentes tamanhos,
geralmente 25 g e 50 g, acompanhados de rótulos contendo informações nutricionais,
data de fabricação e prazo de validade (6–8 meses). A escolha de embalagens recicláveis
contribui para a sustentabilidade e agrega valor percebido pelo consumidor.
Armazenamento e Distribuição: os frascos são armazenados em locais secos,
ventilados e protegidos da luz solar direta. O transporte para feiras, supermercados e
mercearias é feito de forma a minimizar perdas e manter a qualidade do produto,
utilizando, sempre que possível, cadeias curtas de comercialização para aproximar
produtores e consumidores.
As etapas de processamento são adaptadas ao contexto rural, utilizando equipamentos
de baixo custo, como torradores manuais e seladoras simples, o que torna a inovação acessível
a pequenos agricultores e cooperativas. A introdução de sabores diferenciados e o uso de
embalagens recicláveis representam inovações incrementais que agregam valor econômico,
atendem à demanda por produtos saudáveis e sustentáveis e fortalecem a competitividade da
produção local (FAO, 2019).
Além disso, o processamento da manteiga de gergelim promove desenvolvimento social
e comunitário, ao gerar empregos, capacitar jovens e mulheres e estimular a organização em
cooperativas, criando oportunidades de renda e integração ao mercado urbano e rural. Por fim,
essa prática evidencia como inovações simples e funcionais podem transformar matérias-
primas tradicionais em produtos de alto valor agregado, alinhando ganhos econômicos, sociais
e ambientais.
5 DIFUSÃO DA INOVAÇÃO NO MEIO RURAL
A difusão de inovações é um processo fundamental para transformar ideias e práticas
inovadoras em mudanças concretas no contexto produtivo e social das comunidades rurais.
Segundo Rogers (2003), trata-se do mecanismo pelo qual uma nova ideia, tecnologia ou produto
é disseminado e gradualmente adotado por indivíduos ou grupos, tornando-se parte integrante
de sua rotina produtiva, econômica e social. No meio rural moçambicano, a difusão da manteiga
de gergelim apresenta desafios significativos, mas também oferece oportunidades estratégicas
para ampliar o impacto socioeconômico, estimular o empreendedorismo local e fortalecer a
segurança alimentar. A adoção de produtos inovadores não depende apenas da qualidade do
12
produto final, mas também de fatores culturais, econômicos, logísticos e da confiança
depositada pelas comunidades nos agentes de mudança.
5.1 Estratégias de Difusão
Para garantir uma difusão eficaz da manteiga de gergelim, é necessário articular diversas
estratégias complementares:
Capacitação: treinamentos práticos com agricultores e membros de cooperativas são
essenciais para transmitir habilidades técnicas de processamento, higiene,
armazenamento e embalagem. A atuação de extensionistas rurais, técnicos agrícolas ou
líderes comunitários fortalece o conhecimento local, aumenta a confiança dos
produtores e estimula o engajamento na adoção da inovação (CPT, 2015). Além disso,
a capacitação cria oportunidades para o desenvolvimento de habilidades
empreendedoras e gerenciais, essenciais para a sustentabilidade do negócio.
Demonstrações práticas: feiras agrícolas, workshops e degustações permitem que os
consumidores conheçam o produto, compreendam seu valor nutricional e se
familiarizem com os sabores, texturas e formas de consumo. Essa aproximação prática
reduz a resistência à novidade, gera aceitação inicial e contribui para a construção de
demanda local consistente.
Parcerias estratégicas: a colaboração com organizações não governamentais,
cooperativas e órgãos governamentais, como o Ministério da Agricultura (MINAGRI),
facilita o acesso a microcrédito, infraestrutura, assistência técnica e suporte logístico.
Essas parcerias fortalecem a cadeia produtiva, reduzem barreiras econômicas e
viabilizam o crescimento da produção de maneira sustentável.
Marketing local: ações de comunicação, incluindo redes sociais, rádios comunitárias,
cartazes e campanhas de sensibilização, podem destacar os benefícios nutricionais e a
qualidade do produto, reforçando sua imagem como alimento saudável e de valor
agregado (Reis, 2013). O marketing local também contribui para a criação de uma
identidade de marca, aumentando o reconhecimento do produto e incentivando a
fidelização do consumidor.
5.2 Barreiras e Soluções
Apesar das estratégias estruturadas, a difusão de inovações no meio rural enfrenta
obstáculos que precisam ser superados de forma planejada:
Falta de equipamentos adequados: a ausência de moinhos, seladoras, torradores e
outros instrumentos limita a escala de produção. Solução: facilitar acesso a microcrédito
13
ou programas de financiamento comunitário, permitindo que pequenos produtores
adquiram os equipamentos necessários (World Bank, 2008).
Barreiras culturais: hábitos alimentares tradicionais e resistência a produtos
desconhecidos podem dificultar a aceitação inicial. Solução: envolver líderes
comunitários, professores e promotores locais na divulgação da manteiga de gergelim
como alternativa saudável, alinhada à cultura alimentar e aos costumes locais.
Desafios logísticos: dificuldades de transporte e infraestrutura deficiente podem limitar
o acesso a mercados urbanos e rurais. Solução: adotar cadeias curtas de
comercialização, conectando produtores diretamente a consumidores, feiras e lojas
locais, reduzindo custos, perdas e riscos associados à distribuição (Reis, 2013).
5.3 Casos de Sucesso
Experiências internacionais demonstram que estratégias integradas de difusão podem
gerar impactos positivos significativos:
Quênia: cooperativas de processamento de hortaliças aumentaram a renda dos
agricultores em cerca de 20% ao reduzir perdas pós-colheita, evidenciando que a
agregação de valor a produtos locais gera impactos econômicos diretos e sustentáveis
([Link], 2022).
África do Sul: programas de difusão de agroprocessamento, utilizando feiras,
workshops e demonstrações comunitárias, ampliaram a adoção de tecnologias em 35%,
mostrando que a experimentação prática e a interação com o público-alvo são
fundamentais para consolidar mudanças comportamentais e produtivas (FAO, 2020).
Esses exemplos indicam que a adoção da manteiga de gergelim em Moçambique pode
ser acelerada por estratégias combinadas de capacitação, demonstrações práticas, parcerias
estratégicas e marketing local. A integração dessas abordagens não só fortalece a renda familiar,
mas também reduz perdas pós-colheita, diversifica a produção agroalimentar, gera empregos
locais especialmente para jovens e mulheres e promove o fortalecimento das cooperativas.
Portanto, a difusão da inovação deve ser planejada de maneira holística, considerando
aspectos técnicos, econômicos, sociais e culturais, criando um ciclo virtuoso de valorização da
produção rural, aumento da segurança alimentar e estímulo à economia local. A manutenção
desse ciclo depende de acompanhamento contínuo, feedback das comunidades e adaptação
constante das estratégias de difusão, garantindo que a inovação seja sustentável e efetivamente
incorporada ao cotidiano das comunidades rurais.
14
6 IMPACTOS DA INOVAÇÃO
A introdução da manteiga de gergelim como produto agroindustrial no meio rural
moçambicano apresenta impactos significativos em múltiplas dimensões econômicos, sociais e
ambientais que reforçam a importância da inovação para o desenvolvimento sustentável das
comunidades agrícolas.
6.1 Impactos Econômicos
Do ponto de vista econômico, a produção de manteiga de gergelim oferece uma
oportunidade concreta para aumentar a renda dos agricultores familiares, tradicionalmente
limitados à venda das sementes in natura a preços relativamente baixos, entre 20 e 30 MZN/kg
(SciELO, 2010). A transformação das sementes em manteiga comercializada a 100–180 MZN
por frasco representa um expressivo acréscimo de valor, permitindo que os produtores capturem
benefícios financeiros diretamente relacionados à agregação de valor no produto final.
Unidades de processamento com capacidade de produção de 150 frascos por mês podem
gerar um lucro líquido estimado em 6.500 MZN, com retorno sobre investimento (ROI) entre
35% e 40% em apenas seis meses (World Bank, 2008). Esse retorno rápido não só aumenta a
atratividade do empreendimento, como também viabiliza a reinversão em equipamentos,
insumos e capacitação. Além disso, a produção gera empregos diretos, estimados entre 10 e 15
por unidade, fomentando o desenvolvimento de habilidades técnicas e gerenciais dentro da
comunidade. A organização em cooperativas fortalece a governança local, estimula a circulação
de renda e cria oportunidades de negócios complementares, como a comercialização de
subprodutos, aumentando ainda mais o impacto econômico da inovação.
6.2 Impactos Sociais
No âmbito social, a manteiga de gergelim contribui de forma significativa para a
segurança alimentar. Rica em proteínas, cálcio, fibras e gorduras insaturadas, a manteiga
oferece nutrientes essenciais que ajudam a combater deficiências nutricionais em comunidades
rurais, onde o acesso a alimentos processados e balanceados é limitado (Embrapa, 2011).
Além disso, a iniciativa promove o empoderamento de grupos tradicionalmente
marginalizados na economia rural, como jovens e mulheres, que muitas vezes assumem papéis
de liderança na produção, comercialização e gestão das unidades processadoras. Essa inclusão
fortalece a coesão social e promove habilidades empreendedoras, estimulando o surgimento de
lideranças locais e fomentando uma cultura de inovação e autonomia.
A criação de oportunidades de emprego local também reduz a migração rural para
centros urbanos, permitindo que as famílias permaneçam em suas comunidades e contribuam
15
para o desenvolvimento sustentável. Paralelamente, a capacitação técnica oferecida aos
produtores eleva o conhecimento comunitário em técnicas de agroprocessamento, higiene,
gestão e marketing, ampliando as perspectivas de negócios futuros e fomentando uma
mentalidade voltada para o crescimento econômico sustentável.
6.3 Impactos Ambientais
Os benefícios ambientais da produção de manteiga de gergelim também são notáveis.
Ao processar as sementes localmente, as perdas pós-colheita podem ser reduzidas de cerca de
30% para 10–15%, diminuindo o desperdício de alimentos e a emissão de gases de efeito estufa,
especialmente metano, gerado pela decomposição de resíduos orgânicos (FAO, 2019).
Além disso, os resíduos de gergelim resultantes do processamento, como cascas e
farelos, podem ser reaproveitados na compostagem, fornecendo insumos orgânicos de alta
qualidade para fertilização do solo, o que promove práticas agrícolas mais sustentáveis e
saudáveis (Buainain et al., 2007). O uso de embalagens recicláveis complementa esses
benefícios, reduzindo a geração de resíduos plásticos e contribuindo para uma produção mais
consciente e alinhada às tendências globais de sustentabilidade e consumo responsável.
Dessa forma, a produção de manteiga de gergelim não se limita a gerar valor econômico,
mas integra impactos sociais e ambientais positivos, promovendo uma cadeia de valor
sustentável que beneficia diretamente produtores, consumidores e o meio ambiente. Essa
abordagem multidimensional evidencia como inovações incrementais no agroprocessamento
podem transformar a realidade rural, fortalecendo a economia local, melhorando a qualidade de
vida e promovendo práticas produtivas mais sustentáveis.
16
7 CONCLUSÃO
A produção de manteiga de gergelim na província da Zambézia representa uma
oportunidade concreta de transformar a realidade do meio rural moçambicano, ao combinar
inovação, valorização da produção local e geração de impacto socioeconômico. Ao longo deste
trabalho, ficou evidente que o simples ato de processar o gergelim in natura em manteiga vai
muito além de uma melhoria técnica: ele cria valor econômico, fortalece a organização
comunitária e contribui para a segurança alimentar das famílias envolvidas.
Do ponto de vista econômico, a inovação permite que agricultores familiares aumentem
sua renda, reduzam perdas pós-colheita e criem empregos locais, promovendo maior circulação
de recursos dentro das comunidades. Socialmente, a iniciativa fortalece o papel de jovens e
mulheres, incentivando a liderança, o empreendedorismo e o aprendizado coletivo, enquanto
ambientalmente contribui para a redução de desperdícios, o reaproveitamento de resíduos e o
uso de práticas mais sustentáveis.
O sucesso dessa inovação depende de planejamento, capacitação, uso de ferramentas
estratégicas e apoio institucional, que garantam escolhas conscientes em relação a processos,
sabores, embalagens e canais de comercialização. Apesar dos desafios relacionados a recursos
limitados, infraestrutura e barreiras culturais, este estudo demonstra que a produção de
manteiga de gergelim é uma alternativa viável, acessível e adaptável, capaz de fortalecer a
cadeia produtiva e criar um ciclo de desenvolvimento rural sustentável.
Em síntese, a manteiga de gergelim se apresenta não apenas como um produto alimentar,
mas como um exemplo de inovação aplicada que integra tecnologia, valorização local,
sustentabilidade e inclusão social, oferecendo um caminho concreto para o desenvolvimento
econômico e social das comunidades rurais em Moçambique.
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