Papo Esportivo | Racismo no esporte: a importância de se lembrar o 14 de
maio
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[Link].2020 às 15h56
Pelé, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e vários outros atletas negros alcançaram fama
mundial mas que preferiram se calar diante do preconceito - Divulgação
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O day after da abolição da escravatura diz muita coisa sobre como enxergamos as
questões raciais
Antes que você pensem que o colunista aqui ficou maluco quero deixar bem claro
que isso não é uma confusão de datas. Estou mesmo falando do dia 14 de maio.
Esse é o objetivo do nosso papo de hoje. Mas antes, gostaria de situar os amigos
sobre algumas coisas.
O que motiva essa coluna é um episódio da excelente série The Last Dance,
produzida pela Netflix e que conta a história do lendário time do Chicago Bulls dos
anos 1980 e 1990, das seis conquistas na NBA (a liga profissional de basquete dos
Estados Unidos) e de como Michael Jordan se transformou no ídolo que é hoje,
passando desde a sua chegada à franquia, pela entrega dentro de quadra e
também por alguns assuntos polêmicos pouco conhecidos das gerações mais
novas.
Um desses assuntos trata da decepção que os afro-americanos tiveram com MJ
quando este se negou a apoiar o democrata Harvey Bernard Gantt na disputa por
uma naga no senado contra o Jesse Helms, notório político conservador e
abertamente racista. Até mesmo a mãe de Michael Jordan pediu que ele apoiasse
Gannt, mas ele recusou dizendo que “não poderia apoiar alguém que ele não
conhece”. Ao mesmo tempo, o próprio Michael Jordan teria dito que não apoiaria
Gannt porque “os republicanos também compram tênis”, referindo-se ao famoso Air
Jordan feito pela Nike e que se transformou em febre nos Estados Unidos durante
os anos 1990.
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Impossível não fazer um paralelo com Pelé, Ronaldinho Gaúcho, Neymar e vários
outros atletas negros que alcançaram fama mundial mas que preferiram se calar
diante do preconceito que presenciaram e ainda presenciam. Uma das razões
(como bem analisa o advogado e influenciador digital Carter Batista no seu
Instagram) pode ser o fato de cada um deles ter alcançado fama mundial e “terem
deixado de ter cor”. E isso pode ter feito com que eles não tenham se colocado no
lugar de seus irmãos. Faltou empatia.
É preciso deixar claro que o racismo ainda existiria mesmo que cada uma dessas
lendas do esporte se manifestasse abertamente contra esse câncer. Por outro lado,
o posicionamento de cada um deles seria uma ajuda inestimável na luta contra a
discriminação em todos os níveis.
O que isso tem a ver com o dia 14 de maio?
Muita coisa. O day after da abolição da escravatura diz muita coisa sobre como
enxergamos as questões raciais aqui em nosso país e no mundo todo. Falando
especificamente do esporte, é possível afirmar (sem medo de errar) que os atletas
negros são “tolerados” quando fazem aquilo que sabem fazer, acenam para os
torcedores e se comportam como “caras legais que não reclamam de nada”.
A partir do momento em que temos uma Serena Williams se levantando contra o
preconceito racial e de gênero e usando a sua imagem de maior tenista de todos os
tempos para isso, vemos torcedores e mídia (pelo menos na sua grande maioria)
falando em “mimimi”, “vitimismo” e outras alcunhas impublicáveis e igualmente
deploráveis. “Limite-se a falar de esportes e a fazer seu trabalho” é uma das frases
mais ditas nesses casos. É como se o capitão do mato ainda vivesse em cada um
de nós e quiséssemos impor a nossa autoridade através da violência de tempos não
tão longínquos assim.
No dia 3 de junho de 2018, eu conversei sobre esse (e vários outros assuntos) com
o diretor do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, Marcelo Carvalho. Na
ocasião, perguntei sobre a famigerada acusação de “mimimi” que as denúncias de
racismo recebiam nas redes sociais. Ele respondeu:
“É muito difícil. A gente trabalha no Observatório e vê comentários dizendo 'pô, lá
vem vocês de novo falar de coisas que não existem mais', ou 'lá vem vocês de novo
com esse 'mimimi', com esse vitimismo'. Num país que mata na sua grande maioria
jovens negros, que tem uma desigualdade social muito grande e que a grande
maioria das pessoas que estão na parte de baixo da pirâmide são negras, você não
pode dizer que é vitimismo. Desde a época da escravidão, o dia 14 de maio
permanece. Por que o dia 14 de maio? Porque no dia 13 de maio de 1888 foi
assinada a Abolição da Escravatura, mas nada foi feito para que os negros libertos
pudessem se inserir na sociedade. Eles não podiam ter terra, não podiam estudar e
acabaram ficando à margem da sociedade. E logo depois disso você teve o
processo de 'branqueamento' da população negra brasileira. Os portos foram
abertos para os imigrantes alemães e italianos para que a população brasileira
'branqueasse' e todas essas pessoas tiveram mais acesso às coisas básicas do que
a população negra. Esse problema vem desde o dia 14 de maio de 1888. A gente
teve mudanças sim. As cotas inseriram muitos negros nas universidades e no
serviço público. Mas o problema racial do Brasil continua. A gente teve 350 anos de
escravidão e temos 130 anos pós-escravidão e tudo aquilo que foi utilizado para
inferiorizar o negro e que a sociedade aceitasse que ele fosse tratado como animal
continua na cabeça das pessoas".
A grande maioria das pessoas ainda acredita que o negro é um ser
inferior.
Marcelo Carvalho complementa:
"E aí temos diversos problemas da sociedade na questão racial. A gente continua
discutindo o racismo, faz evento, faz debate e ele persiste. Temos a lei para punir o
racismo e ninguém é punido quando sabemos que existem diversos casos de
racismo que acontecem diariamente no Brasil. Enquanto os problemas não forem
encarados como devem ser encarados tudo vai continuar assim. O Brasil deve se
assumir um país racista e a partir daí trabalhar pela inserção do negro na sociedade
e pela igualdade de condições. E quando a gente fala de igualdade não é aquele
lema da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), 'Somos todos iguais'. O negro
não é igual, o italiano não é igual, todo povo tem as suas peculiaridades. E a
questão do negro é muito mais séria por que tudo que envolve o negro tem uma
carga muito grande de preconceito. A gente vê na religião, nos costumes, tudo o
que foi trazido da África foi embranquecido. E as pessoas ainda acreditam nessa
inferioridade das pessoas negras”.
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O problema da desigualdade e do racismo persiste desde o dia 14 de maio. No
esporte, toleramos os negros que competem, conquistam medalhas, levantam
taças, quebram recordes e acenam para nós nas arquibancadas. Mas não
percebemos o quão intolerantes somos quando tratamos uma denúncia de racismo
ou de machismo como “mimimi”. Diante da absurda desigualdade disfarçada de
meritocracia que vivemos, ainda temos mais disposição de atacar do que ouvir o
que essas pessoas têm a dizer e aprender um pouco com elas. O nome disso é
empatia. É justamente aquilo que Michael Jordan, Pelé, Neymar, Ronaldinho
Gaúcho e vários outros não tiveram em tempos passados. Mesmo com todas as
oportunidades do mundo.
É verdade que ninguém pode obrigar ninguém a defender uma causa por mais justa
que ela seja. E também é verdade que devemos fazer a nossa parte em cada
momento das nossas vidas. Mas, porém, contudo, todavia, entretanto, imaginem
quantas pessoas Michael Jordan e Pelé poderiam ter influenciado se tivessem se
posicionado. Imaginem quantas pessoas teriam se conscientizado do mal que o
racismo, o machismo e a homofobia trazem se estas lendas do esporte tivessem
usado seus rostos e seus legados para combater essas e outras injustiças do nosso
mundo.
Mais do que o dia 13 de maio, o dia 14 de maio de 1888 deve ser lembrado como o
início de um outro processo: o de branqueamento e silenciamento dos negros que
reclamavam justiça e melhores condições de vida desde então. Essa reflexão é
absurdamente necessária.
Editado por: Mariana Pitasse