“SÍNTESE”
Município de Botucatu, São Paulo Brasil. 1976.
Outrora um Jornalista local da pequena cidade de Erval Velho no interior de
Santa Catarina, Sérgio agora atua ao longo do país, em sua maioria, cidades
relacionadas a casos sobrenaturais. A esse ponto, Sérgio trabalha para a “Ordo
Realitas” uma organização que foca em identificar, estudar e combater oque foi
categorizado como “Outro Lado” uma espécie de manifestação paranormal que
transforma até o menor dos medos em algo absurdo.
Ocultista, boa pinta, loiro, olhos claros, solteiro e um ótimo senso de humor..
pelo menos era assim que Sérgio era reconhecido no trabalho de jornalista,
antes de adentrar a fundo a Ordo Realitas. Hoje em dia, se tornou alguém
acabado, fumante e com dores pelo corpo. Ocultistas podem ser não tão bem
vindos nesse período do tempo, mas, jornalistas também não, então quem se
importa?
A ditadura militar estava caminhando cada vez mais e isso era um impasse,
pois ajudava e atrapalhava em algumas missões da ordem, por quase não ter
civis na rua, mas também por acabar afinando demais a membrana em sessões
de tortura, assassinatos ou ocultação de corpos.
A esse ponto, Sérgio já trabalha pra ordo a 3 anos, conhece o paranormal
diretamente a 2 e aprendeu a usar o paranormal com êxito a 1. Usa o outro lado
como um gancho para se aprimorar e apoiar duas pesquisas e missões de
campo, mesmo que, poucas.
Retornando ao foco, Botucatu.
Nessa pequena cidade de São Paulo, Sérgio estava pesquisando sobre um
caso curioso de desmembramento, algumas pessoas denunciaram que corpos
de Jovens haviam sido encontrados desmembrados próximos a nascente de
um riacho, mesmo com as teorias da conspiração que diziam ser atos do
exército militar, a Ordo sabia que esse tipo de caso seria relacionado ao outro
lado, o exército nunca deixaria corpos tão expostos assim.
Atravessando a mata sozinho, Sérgio chegará ao destino, a nascente. A
princípio não parecia nada de estranho, a correnteza estava forte como o
esperado, a mata estava silenciosa, os peixes estavam pulando livremente
“SÍNTESE” 1
sobre a água como um dia maravilhoso, mas um fator chamou a atenção de
Sérgio: O Tempo parecia parado.
Os peixes pulavam, porém repetidamente, a correnteza seguia sempre o
mesmo padrão de ondas, espuma e quedas. As folhas se mexiam somente
para um lado, mas não possuía vento algum na região. Sergio se aproximou, se
posicionando sobre algumas rochas fixas ao solo próximo a nascente e,
derrepente, como uma memória de algo ou alguém, Sérgio viu as partes de
corpos desmembrados caindo sobre a correnteza, mas não viu nada os
jogando ou cortando. Sergio se sentia quase uma presença fantasma, dois
jovens apareceram em sua frente como hologramas, os jovens gritavam de
medo, pediam socorro, corriam até o rádio que continham e suas bolsas
próximas as rochas, denunciavam oque haviam visto e.. se repetia..?
Sergio sentia uma dor de cabeça estranha enquanto via os jovens falarem ao
contrário, andarem para trás e repetirem tudo oque havia acontecido, mais e
mais vezes. Cada vez que Sérgio repetia a visão, a dor de cabeça aumentava
até chegar um ponto em que Sérgio desmaiava. Após os desmaios, ele sempre
acordava no início da trilha para a nascente, sempre no dia seguinte. Ele
voltava pra casa, comprava remédios, treinava, se melhorava e voltava para
tentar entender de novo, enquanto as denúncias vão aumentando, mas sempre
vindo da MESMA pessoa, da MESMA fonte, do MESMO local, a nascente.
Sergio voltava para lá pelo menos 2x por semana, perdendo meses tentando
entender oque acontecia e, aos poucos, ia juntando os fatores.
Usava rituais de morte para tentar se apoiar ao tempo, usava rituais de sangue
para aguentar mais tempo e, usava rituais de conhecimento para ter melhor
visão sobre.
Após alguns semanas, Sérgio conseguiu perceber que as partes do corpo
desmembradas eram dos dois mesmos jovens que denunciavam o feito, como
uma espécie de paradoxo. Envés de analisar e estudar, Sérgio começou a
interagir com a cena, pescava os peixes felizes, quebrava o rádio, gritava, mas
nada parecia mudar diretamente. Sergio pensou em ação no mínimo.. estranha.
Talvez tomado pela raiva de já estar a muito tempo estudando esse caso,
Sérgio usou os benefícios de morte e conhecimento para, de algum modo,
interagir diretamente com a cena e.. parecia que dessa vez estava dando certo,
Sérgio conseguiu tocar nos dois jovens, enquanto a dor de cabeça aumentava
de uma forma que ele não estava acostumado, ele sentia seus músculos
tensionando, seu corpo tremendo, sua raiva aumentando.. sua fome
aumentando. Sergio desmembrou os jovens, arrancou-lhe as cabeças,
“SÍNTESE” 2
dissecou o torço e jogou o restante dos membros ao lago. Durante todo esse
tempo, Sérgio estava com o cérebro desligado, como se n estivesse sobre o
próprio controle das ações, quando acordou e viu a cena, só pensou em gritar,
mas respirou fundo e tentou entender, por mais sobrenatural que fosse, ele
sabia que não tinha sido ELE que fez aquilo, pelo menos não diretamente.
Sergio olhou para suas mãos e.. elas estavam cobertas por uma matéria
esquisita, negra. Oque parecia ser uma criatura que se movia pelo corpo dele,
ELA havia feito aquilo, usando o corpo dele como ponte.
Quando acordou completamente, Sérgio estava mais uma vez sobre o início da
trilha, enraivecido. Porém, notou algo estranho, a diferença no clima e no
ambiente, ao olhar seu relógio que percebeu algo mais estranho ainda. Sergio
havia, de algum modo, voltado dias atrás no passado, pra ser exato, 5 dias
ANTES da primeira denuncia notificada. Sergio subiu novamente até a
nascente, mas ela não estava se repetindo. Sobre alguns arbustos, havia um
buraco suspeitosamente fundo, Sérgio engoliu a coragem e foi descendo
sobre, entrando em uma caverna. A caverna era longa e estreita, mas Sérgio foi
seguindo, usando o paranormal como apoio. Quanto mais ele descia, mais ele
notava que as rochas, estalagmite/tites e insetos do local continham um padrão
de espiral sobre as bases.
Após horas de descida, Sérgio chegou ao fundo.
Uma manifestação pura do paranormal sobre uma formação esférica quase
perfeita no coração da caverna, em sua volta, aquela gosma preta
preenchendo a área, com desenhos e escritas muito antigas sobre as paredes,
que escreviam sobre um contato antigo entre os seres vivos e os seres “do
outro mundo” (outro lado).
Um corpo praticamente decomposto estava em suspensão sobre aquela
gosma agarrada pelo corpo dele, que estava com a boca aberta absorvendo os
nutrientes e.. o tempo da região.
Sergio quebrou o ciclo maldito, arrancando o corpo decomposto da gosma,
que virava poeira ao ser arrancado do ciclo. A gosma se retraia pela sala que
começou a tremer e se rachar. Sergio estendeu sua mão para a gosma,
sabendo que, ou os dois morreriam juntos ali, ou teriam que se apoiar, mesmo
não se gostando. Uma relação simbiótica.
O SIMBIONTE se junta ao corpo de Sérgio e, escapam da queda da caverna, ao
sair de lá, Sérgio repete mais uma vez a cena do desmembramento, mas desta
“SÍNTESE” 3
vez, ele quebra o ciclo, após matar os dois jovens, ele e o simbionte vão
embora, ao envés de desmaiar e repetir o ciclo.
Esse foi o “Contato de Primeiro Grau” de Sérgio, diretamente com o
paranormal.
Hoje em dia, os dois atuam “juntos” com o simbionte sendo uma voz na cabeça
de Sérgio e um apoio físico e, Sérgio sendo a ponte para o simbionte se
alimentar (Consumir manancial é pra isso, narrativamente).
“SÍNTESE” 4