Risco de Crédito e Estrutura de Capital
Risco de Crédito e Estrutura de Capital
Resumo
A partir de uma amostra 241 empresas da Indústria Manufatureira brasileira, concluímos que
parâmetros que definem a estrutura de capital das empresas são bons sinalizadores para discriminar as
empresas quanto ao seu risco de crédito em um ambiente de informação assimétrica. Para chegar a tal
resultado, usamos uma equação regressão do tipo Logit, cujas variáveis explicativas são oriundas da
análise fatorial e da regressão discriminante através do método stepwise backward. Outro ponto
importante é a incorporação de um modelo de decisão de crédito com o uso de programação Linear
Inteira como o desenvolvido por Gehrlein & Wagner (1997).
Abstract
From a sample of 241 firms in the Brazilian manufacturing sector, we conclude that
parameters that define firms’ capital structure are good signals of the risk of default on bank loans. In
order to derive this result, we use a Logit regression, in which the explanatory variables come from
factor analysis and stepwise regression. We also combine this methodology with a model of credit
granting that incorporates integer linear programming as developed by Gehrlein & Wagner (1997).
1. Introdução
Toda decisão de alocação de recursos tem um componente relativo ao risco, seja ele do
acionista, relacionado ao retorno do investimento, seja do banco, relacionado ao retorno dos
recursos emprestados. A alocação eficiente por parte da empresa é que vai garantir os
retornos. No entanto, o custo do capital, seja próprio (acionista) ou de terceiro (financeiro),
que dá lastro aos investimentos, é um importante componente dos custos e, assim, dos
resultados alcançados.
A estrutura de capital constitui-se, então, num importante sinalizador da situação econômico-
financeira da empresa, dado que se compõe de capital próprio e de terceiros, com custos
diferenciados e que dão o lastro para a atividade operacional da empresa geradora do
resultado. Assim, deve-se verificar qual a estrutura ótima de capital para a firma e de que
forma essa estrutura afeta o seu desempenho ao longo do tempo, uma vez que o sistema
financeiro, principalmente o setor bancário, é um dos grandes fomentadores de recursos para
o setor empresarial. Dado o caráter de empréstimo, estes recursos/créditos devem retornar
sob pena de falência e/ou crise do setor. Portanto, torna-se necessária a avaliação do risco de
crédito do tomador.
No Brasil, há uma demanda reprimida por crédito (um hiato de crédito) que, somada às
expectativas, pode gerar um crescimento da oferta deste serviço, gerando aumento
substancial do endividamento. Para o atendimento destas necessidades de recursos dos
diversos agentes econômicos, o mercado financeiro através dos diversos intermediários,
bancos principalmente, e mercados de capitais, fomentam a economia compatibilizando os
recursos para cada necessidade, no que se chama de mercado completo, ou seja, aquele em
que existe um ativo específico para cada estado da natureza, estando o crédito bancário como
o principal instrumento para saciar esta necessidade de recursos.
Um problema preponderante que freia a expansão do crédito refere-se ao ambiente de
informação assimétrica no qual convive o setor bancário. Os clientes detêm informações
sobre seu tipo, bom (boa situação financeira) ou ruim (má situação financeira), que consiste
em uma informação privada e privilegiada. Os bancos apenas sabem que tais tipos existem e
buscam uma sinalização por partes dos agentes (clientes) para decidir sobre o crédito, mas a
falta de transparência nas informações contábeis, econômicas e financeiras disponibilizadas
pela empresa, principalmente aquelas de capital fechado, eleva o risco de crédito do setor.
A problemática pode ser resumida nas questões abaixo:
1. Como obter a melhor sinalização para o tipo do cliente-empresa dado sua estrutura de
capital em um ambiente de informação assimétrica?
2. Qual melhor modelo para mitigar e classificar o risco de crédito com base nas
técnicas estatísticas?
3. Qual técnica a ser usada para auxiliar a tomada de decisão na liberação de crédito para
determinado cliente, dado o seu nível de risco?
Uma solução então seria incorporar modelos de risco que captassem melhor a sinalização do
tipo do cliente (Bom e Ruim) por indicadores de conhecimento geral do mercado,
transparentes e quantificáveis.
Infere-se aqui que a introdução de um modelo de classificação do risco de crédito e outro
para decisão de crédito no processo de análise poderão diminuir substancialmente a parte dos
juros que se relaciona com o risco de crédito, amenizando os problemas causados pela
informação assimétrica. No entanto, quais sinalizadores devem ser utilizados, uma vez que o
agente tem um incentivo para emitir informação distorcida em benefício próprio dada a
assimetria de informação.
A resposta vem então da importância da Estrutura de Capital para o equilíbrio financeiro da
empresa. Portanto, a hipótese consiste em buscar a melhor sinalização dentro da estrutura de
capital que revele a real situação econômico-financeira do tomador, cuja sinalização ou o
conjunto de sinais (variáveis) deverá explicar o nível de risco dentro de um modelo
apropriado.
Os estudos sobre análise e predição de falência iniciaram-se em 1968 com Edwards Altman
na publicação do artigo “Financial ratios, discriminant analysis and the prediction of
corporate bankruptcy”. A partir daí, uma série de estudos e modelos foram propostos e
utilizados no mercado. No Brasil, os principais modelos, que usam critérios estatísticos como
análise discriminante, entre outros, são os modelos de Altman & Baidya (1979), Matias
(1978), Elizabetsky (1976), Silva (1997) e recentemente o de Scarpel & Milioni (2001).
Neste último, os autores inovam incorporando a programação linear inteira para propor um
modelo de decisão de crédito.
Apesar do uso de instrumentos estatísticos para escolha e redução de indicadores nos
modelos acima citados, não observamos citações sobre o ambiente de informação assimétrica
que é comum nestes agentes (empresas), como também a falta de se inserir os custos dos
diferentes tipos de erros nas previsões (tipo II – empresas más classificadas como boas e
tipo I – empresas boas classificadas como más), conforme observados por Scarpel &
Milioni (2001). Neste trabalho, incorporamos no modelo soluções para estes problemas
observados.
2. Referencial teórico
Com informação assimétrica, as firmas e governos com projetos de baixo risco deixarão o
mercado, pois terão de enfrentar os custos mais elevados de crédito, já que o credor não tem
condições de distingui-los das suas contrapartes mais arriscadas. Somente os tomadores de
maior risco permanecerão. Os tomadores de empréstimos que têm possibilidade de escolher
projetos passarão às alternativas mais arriscadas a fim de aumentar a chance de serem
capazes de arcar com o serviço da dívida mais elevado. Se o credor detém esta informação
(mas não sabe a que categoria pertence cada tomador de crédito ou projeto específico), um
aumento no custo de oportunidade dos fundos pode, então, causar um colapso repentino dos
empréstimos ao mercado.
Assume-se aqui, conforme a seleção adversa, que o principal não pode observar o tipo do
agente: alto ou baixo risco, apenas sabe que há os dois tipos de clientes com uma
determinada probabilidade para cada um.
Uma das opções para resolver esta assimetria informacional (o agente sabe seu tipo-projeto
mas o banco não), é o banco reconhecer que o tomador com maior risco irá preferir não usar
seu capital próprio, e sim de terceiros, até porque, maiores riscos estão associados a maiores
retornos, o que deve ser suficiente para honrar taxas de juros maiores conforme o risco.
Assim, o capital serve como um sinal para o cliente com qualidade. A idéia é para o banco
designar caminhos para que a tomada de empréstimos seja incentive compatible ou na
linguagem da Teoria dos Jogos, um contrato second-best. Em outras palavras, nenhum
tomador deverá ter incentivos para desviar do contrato que o banco entende ser o melhor
para ele. Com incentive compatibility deverá ser obtido um equilíbrio de nash. O problema é
definir contratos com estas características.
Uma segunda opção, adotada neste artigo, consiste em captar o tipo do agente. O modelo de
análise de risco busca a utilização da sinalização “θ” (que pode ser função de vários
indicadores) captada na empresa para avaliar e quantificar o risco deste determinado cliente-
empresa e oferecer-lhe um contrato que lhe seja compatível, ou seja, que o agente tenha
revelado seu tipo θ através da situação econômico-financeira representada pelos
demonstrativos contábeis (estrutura de capital principalmente) e em outras informações
relevantes sem incorrer num alto custo para o mercado. A sinalização captada pelo modelo e
a conseqüente classificação de risco fará com que o banco tenha melhores informações sobre
o cliente, podendo, inclusive, exigir juros compatíveis (menores) pela diminuição da
informação assimétrica e a conseqüente diminuição da probabilidade de inadimplência.
Desta forma, será possível definir um contrato first-best, ou seja, fazer uma discriminação de
preços de primeiro grau.
Após quantificado pelo modelo o risco inerente a cada tomador e grupo de tomadores, resta à
Política de Crédito a decisão da concessão ou não a cada grupo por grau (classificação) de
risco. Esta decisão é definida pelo ponto de corte.
O ponto de corte é o ponto de decisão que separa aqueles que irão ou não receber crédito. O
Ponto de Corte (Vc) será o ponto na escala de scores no qual todos os proponentes serão
aprovados se estiverem igual ou acima dele e serão reprovados aqueles que estiverem abaixo
de Vc.
P(i) = Função Discriminante, Probit ou Logit (score do cliente i).
Então:
P(i) ≥ Vc Aprovado
P(i) < Vc Reprovado
3. Metodologia
4º Passo: Regressões para Análise Discriminante com a utilização do método Stepwise Backward sobre os
fatores e variáveis provenientes da Análise Fatorial.
Objetivo: Identificar variáveis e fatores (da Análise Fatorial) mais explicativos para escolha das variáveis
independentes.
Segundo Gitman (1997), por conveniência, os índices financeiros podem ser subdivididos em
quatro grupos: índices de liquidez, de atividade, de endividamento e de lucratividade.
Focando na hipótese do artigo de que a estrutura de capital poderá fornecer bons indicadores
da saúde financeira da empresa e assim, diminuir os problemas de seleção adversa, buscamos
mais indicadores de Estrutura de Capital e, consequentemente, de endividamento para
tentarmos captar a melhor sinalização do agente empresarial quanto ao seu risco de crédito.
No entanto, com o objetivo de usarmos em nosso modelo toda informação disponível
relevante da empresa e assim, evitarmos erros de especificação, buscamos também selecionar
os indicadores mais representativos de cada um dos grupos acima citados.
A escolha dos indicadores levou em consideração prioritariamente o ambiente de informação
assimétrica, escolhendo os indicadores que, teoricamente, são menos susceptíveis a
manipulação e que menos sofrem a administração tributária, ou seja, que são menos
influenciados por contas (do ativo, passivo e demonstração de resultados) que usualmente
são “trabalhadas” para pagamento de menos impostos e outros objetivos. Neste caso,
podemos classificar em ordem de menor influência: Estrutura, Liquidez e Lucratividade. A
Estrutura de Capital e Liquidez têm como fonte principal o Balanço Patrimonial e, como se
trata de dados de estoque, a comprovação dos valores absolutos são mais fáceis de serem
verificados. Já os índices de lucratividade com base do Demonstrativo de Resultado, que tem
dados de fluxo, são operacionalmente mais suscetíveis a manipulações.
Na tabela a seguir temos os indicadores inicialmente escolhidos e colhidos em nossa
amostra. Tais indicadores referem-se ao ano de 2004. Na respectiva tabela temos os
indicadores LB, AP, ALP, AFC, PFC, CTF, DivTliq, CT/PL, LG, LC, ML, GiroAT,
RentAT, RentPL, AlaFin, FxBT, Comp e CT.
Indicador Significado
LB Lucro Bruto
AP Participação do Imobilizado no Ativo
ELP Participação do Exigível a LP no Passivo Total
AFC Ativo Financeiro Circulante/AT
PFC Passivo Financeiro Circulante/AT
CTF Capital Total Financeiro Circulante/AT
DivTTLiq Dívida Total Líquida sobre o PT
CT/PL Capital de Terceiros sobre o PL
LG Liquidez geral
LC Liquidez Corrente
ML Margem Líquida
GiroAt Giro do Ativo
RentAt Rentabilidade do Ativo
RentPL Rentabilidade do PL
AlaFin Alavancagem Financeira
Flx Bruto Participação do Fluxo Bruto no Ativo Total
Comp Composição da Dívida de Terceiros sobre o PT
CT Capital de Terceiros sobre o Ativo Total
Assim como a análise de componentes principais, a análise fatorial é uma técnica de análise
multivariada. Segundo Haddad (1989), a análise fatorial é um instrumento mais poderoso e
genérico que a de componentes principais, por que permite não só a rotação dos eixos
(fatores) que sintetizam as informações contidas na matriz de dados, cuja finalidade é
facilitar a interpretação analítica dos mesmos, como também o estabelecimento de eixos não-
ortogonais que representam o mútuo relacionamento entre fatores que são interdependentes,
mais de acordo com as associações observadas na realidade.
Em suma, a utilização da análise fatorial de componentes principais é realizada com o
propósito de localizar de forma objetiva categorias independentes de variáveis (“índices”),
de forma a evitar a redundância informativa e os problemas que a existência de
multicolinearidade pode provocar no resultado da análise.
A rotação dos fatores é feita com a finalidade de melhor definir as relações entre as variáveis
e os fatores. A rotação pode ser ortogonal ou oblíqua, ou seja, os eixos (fatores) podem ser
rodados de maneira a preservar a independência entre os fatores ou não. Na rotação
ortogonal, os métodos comumente usados são o quartimax e o varimax. Neste trabalho
usamos o varimax, pois permite definir mais claramente quais variáveis estão associadas com
um dado fator e quais não estão.
A partir da Tabela 1, podemos selecionar os indicadores para uma análise combinada
(liquidez, rentabilidade e estrutura- endividamento) dada a relevância de cada um desses
índices na explicação da situação financeira das empresas. Um ponto relevante, como já
citado, é o problema de multicolinearidade dos indicadores quando inseridos numa regressão
múltipla. Este fato foi o principal motivador para utilizarmos a Análise fatorial dos
Componentes Principais.
Neste trabalho faremos uso do modelo Logit devido a característica binária da variável
dependente, como também pelo fato da análise discriminante ser meramente uma técnica de
classificação, enquanto o modelo Logit analisa uma relação causal. Como não estamos
interessados apenas numa classificação dicotômica das empresas, mas também na estimação
dos coeficientes das variáveis independentes e, consequentemente, na determinação da
probabilidade de ocorrência de insolvência, o modelo Logit é o mais apropriado ao nosso
estudo. A performance será avaliada pelo nível de acerto na classificação da empresas.
Seja Χ i , o vetor 1 x K de variáveis explicativas (neste caso, fatores) da empresa i e β , o
vetor K x 1 de parâmetros. O vetor β reflete o impacto da variação das variáveis explicativas
na probabilidade de adimplência. A idéia então é utilizar uma função que transforme Χβ
num número entre 0 e 1, e isto é possível, utilizando-se de uma função de distribuição
acumulada F para a probabilidade de ser adimplente ( Yi = 1 )
Λ( X β ) 1 + exp X β
= = exp X β (4)
1 − Λ( X β ) 1 + exp(−( X β ))
é simplesmente a razão de probabilidade em favor de ser adimplente. Esta relação é chamada
de odds de um evento e é definida como o quociente entre a probabilidade que o evento
ocorra e seu complementar.
Observa-se então que βk dá a variação percentual na chance de ser adimplente. Dado o fator
multiplicativo devido aos coeficientes estarem em expoente, um coeficiente menor que 1
diminui a chance de ser adimplente e maior que 1 aumenta a chance.
Para verificar os efeitos marginais dos parâmetros na probabilidade, devemos notar que a
derivada da probabilidade de adimplência em relação i-ésimo componente do vetor de
variáveis explicativas Χ i depende do nível de todas as variáveis que compõe o vetor Χ .
∂P (Yi = 1/ X i )
= ρ (1 − ρ ) βi (5)
∂X i
exp( X i β )
Onde ρ=
1 + exp( X i β )
Neste artigo utiliza-se o critério da chance proporcional para calcular o termo ρ que entra
no cálculo do efeito marginal. Para diferenciar da equação 5, definiremos a chance
proporcional por η. O cálculo de η é obtido a partir da seguinte equação:
η = ϑ 2 + (1 − ϑ ) 2 (6)
Sendo:
η = chance proporcional
ϑ = proporção de elementos do grupo y=1
(1 − ϑ ) = proporção de elementos do grupo y=0
restrições :
P (i ) − M .li ≤ Vc − ε , ∀i ∈ d (8)
P (i ) + M .li ≥ Vc + ε , ∀i ∈ p (9)
Seja d o conjunto de clientes que não pagou o empréstimo e p o conjunto de clientes que
pagou o empréstimo; seja Cin o custo associado à classificação de um cliente que não
pagaria o empréstimo como um cliente que pagaria e, analogamente, Cop o custo associado à
classificação de um cliente que pagaria o empréstimo como um cliente que não pagaria.
O empréstimo será fornecido quando P(i) > Vc e negado quando P(i) ≤ Vc. Como P(i) é uma
probabilidade, Vc estará forçosamente contido no intervalo [0,1], como afirma Scarpel &
Milioni (2002).
Na Função Objetivo:
(a) Cin∑ li é a parcela do custo de inadimplência, assim, só teremos custo de
i∈d
inadimplência quando classificarmos erroneamente (li=1) uma empresa pertencente ao grupo
de inadimplentes ( i ∈ d ), ou seja, caso seja concedido crédito a uma empresas classificada
como má.
(b) Cop ∑ li é a parcela do custo de oportunidade, assim, só teremos custo de
i∈ p
oportunidade quando classificarmos erroneamente (li=1) uma empresa pertencente ao grupo
de adimplentes ( i ∈ p ), ou seja, caso seja negado crédito a um cliente bom.
(a) + (b) então á soma dos custos incidentes originados por classificação errada. O
objetivo é minimizar este custo. Os componentes e cálculos dos custos Cin e Cop estão na
seção a seguir.
As restrições 8 e 9 são definidas a partir da regra de decisão:
Aprovada: P (i ) > Vc
Reprovada: P(i ) ≤ Vc
O objetivo então é encontrar o ponto (valor) de corte (Vc) que minimize os custo associados
com os erros de classificação na função objetivo. O resultado desta minimização consiste na
solução ótima.
A introdução de M (número positivo e grande) e ε (positivo e pequeno em relação a M)
como variáveis complementares no algoritmo da programação linear inteira tem como
objetivo assegurar a solução ótima através de um algoritmo que diminua o tempo (carga)
computacional, assegurando a validade de cada restrição.
Para definição do Ponto de Corte, Vc, é necessário que o custo do dinheiro seja incorporado
nesta decisão. Em outras palavras, a taxa de juros deve ser inserida na análise para que se
possa medir qual o custo de se incorrer nos erros Tipo I e Tipo II. O erro Tipo II é a
possibilidade de classificarmos como “boa” uma empresa “má”. Já o erro Tipo I é a
possibilidade de classificarmos como “má” uma empresa “boa”. Isto se refere aos diferentes
custos de alocar um elemento do grupo 2 no grupo 1, ou seja, o erro do tipo I e tipo II.
Os erros acima citados incorrem em custo adicionais ao serem realizados. Estes custos
podem ser definidos como o custo de oportunidade e o custo de inadimplência.
A partir daí varia-se a taxa de juros, deixando inalterados os outros parâmetros do cálculo,
para efeitos de comparação.
Outro cálculo adicional importante é o ponto de equilíbrio da operação ou da carteira, ou
seja, o nível de inadimplência aceitável e limítrofe definido por K. Este valor representa o
nível de inadimplência máximo para que não haja retorno negativo dos empréstimos. No
ponto máximo K, o retorno é zero.
A fórmula parte do montante de clientes bons que devem ser inseridos na carteira para fazer
compensar um cliente mal. Ou seja, caso o banco coloque em sua carteira de empréstimo um
cliente ruim e este fique inadimplente, quantos clientes bons (que paguem seus empréstimos)
serão necessários para que, com a receita gerada, possa compensar a perda gerada pelo
cliente ruim. A esta quantidade chamaremos de φ.
CustodeInadimplência Cin
ϕ= = (13)
CustodeOportunidade Cop
Tabela 2 – Relação da Taxa de Juros com o nível de inadimplência aceitável Κ e com o equilíbrio
financeiro entre o ganho por cliente “bom” e a perda por uma empresa “má” definido por φ.
recursos tenha cautela na escolha dos clientes, buscando minimizar o erro Tipo II. No nosso
problema, isto acontece quando a taxa é menor que 9,28%
2º Cenário: Cin < Cop. Neste cenário, a alta taxa de juros faz com que o custo de
inadimplência seja menor que o custo de oportunidade, fazendo com que o emprestador de
recursos tenha como ponto de equilíbrio um valor elevado, com uma taxa de inadimplência
aceitável acima de 50%. Deste modo, busca-se minimizar o erro Tipo I. No nosso problema,
isto acontece quando a taxa é maior que 9,28%.
3º Cenário: Cin = Cop. Neste cenário, a alta taxa de juros de 9,28% faz com que o custo de
inadimplência seja igual ao custo de oportunidade. Sendo que a relação de 1 para 1 de cliente
bom para cada cliente ruim faz a taxa de inadimplência aceitável se fixar em 50%.
4. Resultado do Modelo
O modelo Logit foi utilizado através do programa Eviews 5. Para minimizar os problemas de
heterocedasticidade, comum em dados de corte, utilizamos a matriz diagonal contendo os
quadrados dos erros chamada de estimador de white.
Devidos aos problemas de colinearidade das variáveis econômico-financeiras e com o
objetivo de sintetizar as informações contidas na matriz de dados, incorporando ao modelo
um reduzido número de variáveis representativas e independentes, procedemos a análise
fatorial dos componentes principais.
3º PASSO:
4º PASSO:
O indicador AFC revela a participação do capital financeiro no seu ativo, ou seja, revela os
valores disponíveis na empresa para uso imediato, tal como caixa e bancos, aplicações
financeiras, títulos e valores imobiliários, entre outros de curto prazo. Quanto maiores estes
valores mais a empresa possui margem de segurança contra as adversidades do mercado.
Assim, é de se esperar que o coeficiente deste indicador tenha sinal positivo, pois quanto
maior AFC maior a probabilidade da empresa ser adimplente, de pagar seus compromissos
financeiros.
O Fator F1 equivale a Estrutura de Longo Prazo, as dívidas que deverão ser liquidadas no
longo prazo. Neste caso, quanto maior for F1, mais a empresa se aproxima da falta de
liquidez, da insolvência financeira. Espera-se então que o coeficiente de F1 tenha sinal
negativo. Do mesmo modo, o F3, como Estrutura de Curto Prazo, deverá ter o seu
coeficiente com sinal negativo, pois quanto maior a dívida de curto prazo, mais a empresa
terá a probabilidade de ser insolvente. Como as dívidas de curto são exigidas num prazo
menor maior será a pressão sob a empresa para que produza recursos líquidos para fazer face
a estes compromissos imediatos. Assim, espera-se que o coeficiente de F3 seja, em valor
absoluto, maior que o F1.
O Fator 2 traduz a rentabilidade da empresa, assim, quanto maior os recursos gerados a partir
da atividade da empresa, de sua operacionalidade, maiores as chances da empresa ter
liquidez e consequentemente, manter-se solvente com seus compromissos. Deste modo, é de
se esperar que F2 tenha seu coeficiente com sinal positivo, significando que quanto maior F2
maior será a probabilidade da empresa ser solvente.
Para efeito da análise da performance dos modelos, utilizamos o ponto de corte de cada
cenário resultante da Programação Linear Inteira. Por performance entenda-se a capacidade
do modelo em discriminar empresas adimplentes e/ou inadimplentes fora da amostra.
Quando o percentual de acerto leva em consideração ambos os grupos, defini-se como
performance geral.
Pode-se interpretar os resultados do modelo Logit a partir do quociente odds (equação 5).
A interpretação dos coeficientes difere da análise discriminante. Como já citamos
anteriormente, odds de um evento é definido como o quociente entre a probabilidade que o
evento ocorra e seu complementar, onde “e” elevado a potência βk é o fator no qual o odds
muda quando a i-ésima variável independente aumenta em uma unidade. Os efeitos de
cada variável do odds são observados tomando-se o antilog do coeficiente. Devido a
exponencialidade dos coeficientes, quando o coeficiente é 1 leva a invariabilidade do odds,
maior que 1 aumenta o odds e inferior a 1 diminui o odds. Se βk é negativo (positivo),
o fator vai ser inferior (superior) a 1, o que significa que o odds decresceu (cresceu).
Assim, o antilog do coeficiente negativo de F1 (–0,638), 0,5283, multiplica a chance em
favor de adimplência em 0,5283 ou diminui a chance pelo fator 0,5283. Também podemos
dizer que a chance diminui em 47%, resultado da fórmula [(e-0,638–1)x100]. Assim, as dívidas
de curto prazo (F3) diminuem em torno de 52% a probabilidade em favor de adimplência
quando F3 aumenta em 1 unidade. Como era esperado, um aumento de 1 unidade em F3,
dívidas de curto prazo, terá um impacto maior que as dívidas de longo prazo representadas
por F1.
As variáveis F2 (Rentabilidade) e AFC têm impactos positivos na chance em favor da
adimplência.
Pi
= eb0 +b1xi1+..+bm xi 2 = e−0,57+9,22 AFC −0,638 F 1+0,486 F 2−0,738 F 3 (15)
1 − Pi
Modelo Logit
Neste momento faremos uso do Modelo de Decisão de Programação Linear Inteira para
definir o Ponto de Corte Vc ideal para cada cenário. Utilizaremos os resultados do modelo
Logit como base. Entenda-se por ideal o Vc ótimo encontrado na solução do sistema de
minimização da função objetivo a qual é a soma dos custos de oportunidade e
inadimplência. No quadro a seguir mostra-se o percentual de acerto na classificação correta
das empresas. Assim, divide-se em Solvente, Insolvente e Geral. Em cada um deles, temos o
percentual de classificação correta, por exemplo, para % de acerto geral entenda-se o
percentual de empresas que foram corretamente classificadas entre solventes e insolventes.
Conforme já definido anteriormente, temos aqui três cenários cujos resultados encontram-se
no Quadro 2.
1º Cenário: Cin > Cop. Neste cenário, encontramos para o valor ótimo de equilíbrio no
modelo de programação linear inteira, um ponto de corte Vc = 0,79. Este ponto de decisão
produziu uma performance geral no nosso modelo de 45%. No entanto, neste cenário o
importante é minimizar o Erro Tipo II. Neste caso, o modelo teve a performance excelente de
91% de acerto para classificar os clientes insolventes.
Encontramos aqui um Vc alto de 0,79, significando que o crédito só será aprovado para
empresa cuja probabilidade de ser solvente seja superior a 79%. O valor obtido é coerente e
consistente, uma vez que instituições financeiras que praticam baixas taxas de juros não
podem arriscar-se fazendo empréstimos a clientes com alto risco.
2º Cenário: Cin < Cop. Neste cenário, a alta taxa de juros faz com que o custo de
inadimplência seja menor que o custo de oportunidade. Aqui, o modelo de programação
linear inteira encontrou, em sua solução ótima, um Vc=0,334 com uma performance geral de
86%. No caso, deve-se minimizar o Erro Tipo I, obtendo performance de 93% na
classificação de clientes bons.
3º Cenário: Cin = Cop. Neste cenário, a alta taxa de juros de 9,28% faz com que o custo de
inadimplência seja igual ao custo de oportunidade. Sendo que a relação de 1 para 1 de cliente
bom para cada cliente ruim faz a taxa de inadimplência aceitável se fixar em 50%. Como era
de se esperar, o ponto ótimo de corte, Vc ficou igual a 0,36, próximo de 0,50.
5. Conclusão
Um dos principais objetivos do artigo foi verificar se a Estrutura de Capital das empresas
poderia servir como sinalizador para um modelo de risco de crédito da situação econômico-
financeira da empresa. Isto foi alcançado através das variáveis explicativas significativas
estatisticamente utilizadas no modelo. Os fatores F1 e F3, Dívida de Longo Prazo e de Curto
Prazo respectivamente mostraram que a estrutura de capital é um bom indicador da real
situação da empresa.
Outro indicador relevante do lado da aplicação de capital, Ativo, foi o AFC, Ativo
Financeiro Circulante, o qual se mostrou igualmente importante na determinação da
insolvência empresarial.
Este estudo então mostrou que é possível, mesmo sob um ambiente de Informação
Assimétrica, captar sinalizações das empresas para identificar com antecedência aquelas
empresas mais propensas a se tornarem inadimplentes e aceitar ou negar crédito a luz destas
probabilidades de insolvência. O critério de escolha deste ponto de corte se dá através de um
modelo de decisão que incorpora os custos de oportunidade, inadimplência e a taxa de juros
no contexto da política de crédito através do uso da Programação Linear Inteira.
Usamos o modelo Logit porque a análise discriminante requer a suposição de normalidade
multivariada das variáveis independentes e matrizes de variância-covariância iguais nos dois
grupos para que a regra de previsão seja ótima. Além disso, devido aos problemas
econométricos já citados, a análise discriminante é meramente uma técnica de classificação,
enquanto o modelo Logit analisa uma relação causal. Como não estamos interessados apenas
numa classificação dicotômica das empresas, mas também na estimação dos coeficientes das
variáveis independentes e, consequentemente, na determinação da probabilidade de
ocorrência de insolvência, o modelo Logit é o mais apropriado ao nosso estudo.
A utilização da análise fatorial contribuiu para que pudéssemos usar toda informação
disponível da empresa, mesmo aqueles indicadores com problemas de colinearidade.
Diversos métodos estatísticos univariados e multivariados, assim como critérios qualitativos
são usados na discriminação e classificação do risco. No entanto, o uso da Análise Fatorial
qualificou ainda mais as variáveis independentes usadas, colocando-as em grupos de
explicação que captam melhor os efeitos dos diversos indicadores econômico-financeiros.
Neste ponto, ao delimitar as variáveis nos grupos de estrutura de capitais (dívidas de curto e
longo prazos), fortalecemos um dos objetivos do trabalho que era averiguar o poder de
explicação das variáveis ligadas à decisão da empresa em relação às suas fontes de
financiamento e seu risco de crédito.
Uma das limitações deste trabalho é a não incorporação de algumas variáveis que,
teoricamente, iriam contribuir na explicação do modelo, como variáveis de comportamento
(caráter, cadastro, reciprocidade com o banco, etc.), variáveis de administração (decisões de
projetos de curto e longo prazo da empresa, capacidade técnica da administração) e variáveis
mercadológicas (produto x custo de insumos). No entanto, para o pesquisador externo, que é
nosso caso, estas informações não estão disponíveis, mas poderiam contribuir conjuntamente
com as variáveis aqui relacionadas. Outro ponto importante do modelo é a necessidade de
revisão periódica. De fato, o modelo deve ser periodicamente alimentado com dados novos, à
medida que se tornam disponíveis, pois os parâmetros aqui encontrados podem mudar com o
curso do tempo devido aos novos “modus operandi” das empresas, novas tecnologias e ação
da capacidade humana.
Referências Bibliográficas
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