Celso Amorim
de grande importância: a Política Nacional de Defesa, a nova
Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional.
Em todos eles, transparece a relação íntima que a Defesa mantém
com a democracia brasileira. Os documentos deixam patentes as
conexões entre Defesa e política externa, esteios da soberania.
Esclarecem os Objetivos Nacionais de Defesa e os meios
para sua consecução, além de facilitarem o acompanhamento e a
reflexão da sociedade sobre as capacidades e os desafios da defesa
nacional. A Política de Defesa, a Estratégia de Defesa e o Livro Branco
são um convite à participação da população no debate público de
assuntos fundamentais para a proteção de seus interesses. Pensar
nossa política de Defesa exige refletir sobre o panorama global de
segurança em que se insere o Brasil.
Gostaria, assim, de iniciar essa exposição com algumas
considerações sobre a dinâmica recente nesse panorama e discutir
algumas de suas premissas.
***
A segurança internacional – ou insegurança internacional –
tem hoje o Oriente Médio como epicentro. Um de seus elementos-
-chave, o conflito árabe-israelense, segue sem solução no horizonte
visível. Está mais distante de algum tipo de acordo do que em
outros momentos do passado recente.
Se compararmos a situação atual com a que vigorava, por
exemplo, quando os Estados Unidos convocaram a Conferência
de Annapolis, há cerca de cinco anos, veremos que a perspectiva
de uma solução negociada que permita a existência plenamente
reconhecida de um Estado palestino coeso e economicamente
viável, vivendo lado a lado com o Estado de Israel, é hoje muito
menos promissora.
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
Esse conflito tem assumido novas e mais graves dimensões ao
longo dos últimos anos. Pior: a questão palestina perdeu visibilidade
e sentido de urgência no plano internacional. Na realidade, essa
questão estrutural passou a coexistir com uma verdadeira guerra
civil no mundo árabe, uma guerra civil multifacetada que opõe
sunitas a xiitas, fundamentalistas a seculares.
Essa guerra assume, por vezes, contornos sociais, ao opor
burguesias urbanas à população rural ou às massas empobrecidas
das periferias. Entrelaçam-se com ela conflitos sectários diversos,
que criam alianças improváveis entre grupos religiosos, muitas
vezes sob a forma do famoso adágio segundo o qual “o inimigo
do meu inimigo é meu amigo”. Assim, grupos cristãos juntam-se
a xiitas (ou alauítas) no Líbano e na Síria ou com forças seculares
(progressistas ou conservadoras) no Egito.
Obviamente essa guerra civil – usando essa minha expressão
um tanto exagerada – não está imune às influências da geopolítica
regional e global. Sauditas, turcos e cataris apoiam a revolta
síria, enquanto o Irã e o Hezbollah procuram dar sustentação ao
cambaleante regime do partido Baath.
A Rússia não quer perder um importante aliado no
Mediterrâneo, ao mesmo tempo em que vê com preocupação o
espraiamento das influências wahabitas e salafistas, provenientes
do Golfo Pérsico, em direção ao Cáucaso. Para além do princípio
da não intervenção, Rússia e China pressentem os riscos de
movimentos de fundamentos religiosos ou étnico-culturais em
suas periferias.
Inversamente, os países ocidentais teriam todo o interesse em
romper o eixo que liga Teerã ao sul do Líbano por Bagdá e Damasco,
ansiando por ganhos estratégicos decorrentes da debilitação da
República Islâmica do Irã. Mas o dilema que enfrentam não é
simples: querem contribuir para a desejada mudança de regime na
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Celso Amorim
Síria sem serem colocados na posição de aliados involuntários de
movimentos terroristas como os que levaram à “guerra contra o
terror”.
São frequentes os artigos na imprensa internacional que
apontam – sem que sejam desmentidos – a grande preocupação
dos Estados Unidos, cuja principal agência de inteligência (a
CIA) estaria empenhada em evitar que armas destinadas à
oposição cheguem a grupos fundamentalistas e, principalmente,
a organizações terroristas – tarefa admitidamente nada fácil em
vista das conexões obscuras entre os diferentes setores da oposição
síria.
Todo esse imbricamento de tensões faz com que qualquer
raciocínio simplista, que busque dividir as facções em conflito entre
“boas” e “más”, “amigas” e “inimigas”, tenham sua ingenuidade
exposta à luz do dia.
Da mesma forma, os comentários que tendem a culpar um
lado ou outro pela paralisia do Conselho de Segurança das Nações
Unidas nessa questão soam extraordinariamente desfocados
ou – pior ainda – politicamente motivados. Sim, o Conselho de
Segurança tem falhado; sim, a ONU tem deixado de cumprir seu
papel; mas a intransigência dos que se têm valido do veto não é a
única causa dessa falência.
A arrogância daqueles que decidiram, a priori, de que lado está
a razão (ainda que mais tarde, como no caso do Iraque, possam
vir a arrepender-se de sua precipitação) é igualmente responsável
pelo fracasso anunciado da diplomacia. Dessa situação, cujos
desdobramentos ainda estão por vir, tira-se desde logo uma
conclusão: em política internacional, não há “mocinhos” e
“bandidos”.
Há interesses em conflito, às vezes latentes, às vezes abertos,
como agora. Por isso mesmo, a busca da paz pelo diálogo é
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
frequentemente mais importante do que a vitória do lado que,
momentaneamente, possa parecer o mais justo – até porque,
em um conflito de raízes culturais e religiosas tão profundas, os
perdedores irão necessariamente renascer, eventualmente com
novas roupagens e com base em novas alianças, muitas vezes de
forma até mais perigosa.
É o caso hoje no Iraque. A dificuldade que a chamada
comunidade internacional tem em agir no caso da Síria; seu apoio
puramente retórico à iniciativa do ex-Secretário-Geral da ONU,
Kofi Annan; a relutância em abrir um diálogo amplo que envolvesse
todos os atores com capacidade de influir sobre as partes do
conflito, tudo isso demonstra, a meu ver, que o objetivo de uma
solução pacífica cedeu lugar às várias agendas nacionais.
Por outro lado, a experiência da ação na Líbia, em que o
mandato, aparentemente inocente, de uma criação de zona
de exclusão aérea com o fito de proteger a população civil, foi
obviamente extrapolado e, na prática, interpretado como uma
suposta permissão para mudança de regime, minou qualquer
possibilidade de consenso internacional (isto é, entre os cinco
membros permanentes do Conselho de Segurança) em torno de
eventual ação humanitária ao amparo do Capítulo VII da Carta da
ONU.
Mais que tudo, a tragédia da guerra civil síria, de que todas as
potências procuram tirar (ou manter) algum tipo de proveito põe
a nu a fragilidade das teses que previam um mundo sem conflitos
(ou com conflitos facilmente manejáveis) como consequência do
fim da Guerra Fria.
***
Antes de discutir essas teses, é preciso fazer um recuo
histórico e apreciar com clareza os riscos levantados pela crise síria.
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Celso Amorim
O desaparecimento da União Soviética modificou a distribuição
internacional de poder em favor dos EUA, configurando, no terreno
militar, uma situação de unipolaridade.
Não cabe aqui examinar essa questão sistêmica em suas
múltiplas dimensões, mas salientar um aspecto de interesse para
nossa discussão: a retirada do principal contrapeso que, nas quase
cinco décadas anteriores, constrangera o recurso a intervenções
militares. É verdade que esse constrangimento não impediu
guerras não declaradas para “combater a expansão do comunismo
internacional”, como a do Vietnã, ou, do outro lado, o recurso
igualmente brutal à força para reprimir veleidades autonomistas
ou dissidências libertárias, como na invasão da Tchecoslováquia.
O virtual condomínio das duas superpotências limitava, de
alguma forma, essas ações intervencionistas às respectivas áreas
de influência. Elas eram condenadas e, ao mesmo tempo, de fato,
toleradas. Com exceção da Guerra da Coreia, ainda nos albores da
Guerra Fria, não havia sequer a preocupação de cobri-las com um
manto de legalidade.
Nos anos 1990, época do autodenominado “multilateralismo
assertivo”, essas intervenções banalizaram-se e ganharam uma
aura de “quase legitimidade”. Na esteira da primeira Guerra do
Golfo, apoiada, com graus diversos de entusiasmo, pelo conjunto
das nações, sucederam-se intervenções, inicialmente aéreas –
como a Operação Raposa do Deserto, em 1998, sem autorização
expressa do Conselho de Segurança.
Em 2003, também sem autorização do Conselho, a interven-
ção se fez seguir de ocupação. Contrariando todas as avaliações dos
que viam efeitos positivos no intervencionismo, a ação no Iraque
produziu uma enorme instabilidade política, que não é estranha a
alguns desdobramentos sombrios da chamada “Primavera Árabe”.
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
Um elemento complicador nessa equação estratégica é
a questão da proliferação de armas de destruição em massa.
Tradicionalmente negociada por meio de tratados, o problema da
proliferação passou por transformações importantes nos últimos
vinte anos. Observa-se, nesse campo, o deslocamento da diplomacia
em favor de instrumentos coercitivos, militares e de inteligência
– a chamada contraproliferação. Na primeira Guerra do Golfo,
em 1991, a força multinacional formada sob a Resolução 678 do
Conselho de Segurança, que autorizara o uso da força para obter
a retirada das tropas iraquianas do Kuwait (e apenas para isso),
realizou intensas operações militares contra alvos relacionados a
programas nucleares, químicos e missilísticos do Iraque.
Muitos especialistas consideram, provavelmente com razão,
que se tratou aí da mais ampla e duradoura ação militar contra
a proliferação jamais conduzida. Pela primeira vez, por exemplo,
atacou-se militarmente um reator nuclear em funcionamento.
A ação buscou, de certa forma, complementar a iniciativa de Israel
em 1981, pela qual, na chamada Operação Ópera, oito caças F-16
cruzaram a Jordânia e a Arábia Saudita para bombardear o reator
iraquiano de Osirak.
De maneira mais sutil, essa estratégia de contraproliferação
tem-se manifestado por meio de ataques cibernéticos e de
assassinatos (nunca negados) de cientistas nucleares. É preciso ter
esses antecedentes em mente no momento em que se analisa como,
no Oriente Médio, entrecruzam-se tantas questões sensíveis, entre
elas o dossiê relativo ao programa nuclear iraniano. Nesse caso, a
pretexto do combate à alegada proliferação, apela-se para a lógica
punitiva das sanções, ao tempo em que são brandidas ameaças
ocasionais de uso da força. Em vez de contribuir para uma solução,
a retórica intimidatória do unilateralismo, além de ter efeito sobre
o preço do petróleo, agrava o quadro de militarização das soluções
dos impasses regionais.
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