0% acharam este documento útil (0 voto)
10 visualizações54 páginas

Mandado de Segurança por Terceiro Prejudicado

Súmula STJ
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
10 visualizações54 páginas

Mandado de Segurança por Terceiro Prejudicado

Súmula STJ
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Súmula n.

202
SÚMULA N. 202

A impetração de segurança por terceiro, contra ato judicial, não se


condiciona à interposição de recurso.

Referências:
CF/1988, art. 5º, XXXV.
CPC, art. 499, caput, § 1º.
Lei n. 1.533/1951, art. 5º.

Precedentes:
REsp 2.224-SC (2ª T, 09.12.1992 – DJ 08.02.1993)
RMS 243-RJ (3ª T, 21.08.1990 – DJ 09.10.1990)
RMS 1.114-SP (4ª T, 08.10.1991 – DJ 04.11.1991)
RMS 2.404-SP (5ª T, 26.04.1995 – DJ 19.06.1995)
RMS 4.069-ES (2ª T, 26.10.1994 – DJ 21.11.1994)
RMS 4.315-PE (4ª T, 29.06.1994 – DJ 05.09.1994)
RMS 4.822-RJ (1ª T, 05.12.1994 – DJ 19.12.1994)
RMS 4.982-SP (3ª T, 14.03.1995 – DJ 22.05.1995)
RMS 5.381-SP (3ª T, 25.11.1996 – DJ 03.02.1997)
RMS 6.054-GO (6ª T, 08.10.1996 – DJ 16.12.1996)
RMS 6.317-SP (3ª T, 22.04.1996 – DJ 03.06.1996)
RMS 7.087-MA (4ª T, 24.03.1997 – DJ 09.06.1997)

Corte Especial, em 17.12.1997


DJ 02.02.1998, p. 181
RECURSO ESPECIAL N. 2.224-SC (90.0001541-3)

Relator: Ministro José de Jesus Filho


Recorrente: Edson Correa
Recorrido: Mauro Wolff
Advogados: Taltibio Del’Valle Y Araújo e outros, Hamilton Plínio Alves

EMENTA

Recurso de terceiro prejudicado. Não sendo parte no feito, pode


o terceiro prejudicado fazer uso do mandado de segurança para
impedir lesão a direito seu, líquido e certo, provocada por decisão
judicial, mesmo quando seja esta passível de recurso. (RTJ 88/890).
E se a pretensão deduzida no writ decorre de lei em vigor, há direito
líquido e certo a proteger. Recurso especial não conhecido.

ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos, em que são partes as acima indicadas, decide
a Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, não
conhecer do recurso, na forma do relatório e notas taquigráficas constantes dos
autos, que ficam fazendo parte integrante do presente julgado. Participaram do
julgamento os Srs. Ministros Peçanha Martins, Américo Luz e Pádua Ribeiro.
Impedido, o Sr. Ministro Hélio Mosimann.
Custas, como de lei.
Brasília (DF), 09 de dezembro de 1992 (data do julgamento).
Ministro Antônio de Pádua Ribeiro, Presidente
Ministro José de Jesus Filho, Relator

DJ 08.02.1993

RELATÓRIO

O Sr. Ministro José de Jesus Filho: - Adoto, como relatório, a parte


expositiva do parecer da douta Subprocuradoria-Geral da República, verbis:
SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

O Coronel Edson Corrêa, da Polícia Militar de Santa Catarina, pretendendo


evitar sua transferência para a reserva remunerada por ato do Governo do Estado,
com base na Lei Estadual n. 6.977, de 14.05.1987, que reduziu de dez para seis
anos o tempo de sua permanência na ativa por contar mais de trinta anos de
efetivo serviço, ajuizou procedimento cautelar inominado, preparatório de ação
ordinária de anulação de ato jurídico.
Pediu liminar e arguiu, preliminarmente, a inconstitucionalidade da referida lei.
Deferida a liminar, sustou-se a publicação do ato de aposentadoria.
O Tenente-Coronel Mauro Wolff, sentindo-se prejudicado, impetrou mandado
de segurança, para ter garantido o direito líquido e certo de concorrer à vaga que
deveria ser aberta com a transferência do Coronel Edson Corrêa para a reserva,
pedindo a cassação da liminar concedida.
O Coronel apresentou-se voluntariamente como litisconsorte necessário nos
autos desta ação.
Manifestou-se o Ministério Público pela concessão da ordem.
Concedida a segurança, à unanimidade, pela 3ª Câmara Cível do E. Tribunal de
Justiça, foi, conseqüentemente, cassada a liminar deferida na ação cautelar.
Opostos Embargos Declaratórios pelo litisconsorte, foram estes rejeitados.
Inconformado, interpôs Recurso Extraordinário, com fundamento no art. 119,
alíneas a e d. Com a promulgação da Constituição Federal/1988, o recurso foi
convolado em Especial, em obediência ao disposto no art. 105, III, alíneas a e c.
Alega o litisconsorte-recorrente, ter a v. decisão afrontado o art. 1º da Lei n.
1.533/1951, porque reconheceu a existência de direito líquido e certo e, ainda,
que faltava legitimidade ao impetrante, para propor a ação. (fls. 713-715)

O parecer foi no sentido do não conhecimento ou do improvimento do


recurso.
É este o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro José de Jesus Filho (Relator): - A inconformidade do


recorrente tem por pressupostos a ilegitimidade ad causam do recorrido, em
conseqüência a ausência de direito líquido e certo a proteger, assim como a
falta de apreciação pelo Tribunal da argüição de inconstitucionalidade da Lei
Estadual de n. 6.977/1987. Os dois primeiros fundamentos foram considerados
pelo v. aresto recorrido deste modo:

368
SÚMULAS - PRECEDENTES

O Colendo Supremo Tribunal Federal em aresto da lavra do Ministro Cunha


Peixoto, espancou qualquer dúvida ao decidir: “Não sendo parte no feito, pode
o terceiro prejudicado fazer uso do mandado de segurança para impedir lesão a
direito seu, líquido e certo, provocada por decisão judicial, mesmo quando seja
esta passível de recurso.” (RTJ 88/890).
Da cautelar o impetrante não participou, era, portanto, terceiro, e nesta
qualidade e de prejudicada pela liminar, é que tempestivamente requereu o
mandado, podendo, à evidência, fazê-lo ainda que não haja atacado a liminar
com o recurso próprio: o agravo de instrumento.
A segunda questão, é a alegada ausência de direito líquido e certo.
O ato governamental que transferiu o Cel. Edson Corrêa para a reserva está
baseada nas Leis Estaduais n. 6.218 de 10.02.1983, alterada pela Lei Estadual n.
6.977 de 14.05.1987, em pleno vigor, logo, se a pretensão do impetrante está
escorada em lei de vigência inconteste, não há que falar em ausência de direito
líquido e certo. (fls. 372-373).

No que tange a inconstitucionalidade suscitada, tal aspecto foi repelido


com propriedade nesta passagem no acórdão hostilizado:

Da inconstitucionalidade não se há de cogitar aqui, eis que esta, conforme se


discorreu, é objeto da ação ordinária em curso.
Tratá-la aqui, seria suprimir uma instância, o que nos é vedado, e além disto, o
objeto do mandado é, tão-somente, tentar cassar a liminar.
Respondidas todas as objeções, resta, na plenitude da sua vigência, a Lei
Estadual n. 6.977 de 14.05.1987 que tangeu para a reserva da Polícia Militar, o
litisconsorte.
Enquanto não se decretar sua inconstitucionalidade ela permanece vigorante
e produzindo efeitos: legem habemus ... (fls. 374-375).

Com o decisum concordou a douta Subprocuradoria-Geral da República,


verbis:

Sobre a alegada ilegitimidade do Tenente-Coronel, terceiro prejudicado para


propor Mandado de Segurança, o Colendo Supremo Tribunal Federal em aresto
da lavra do Ministro Cunha Peixoto, elidiu qualquer dúvida ao decidir:

Não sendo parte do feito, pode o terceiro prejudicado fazer uso do


Mandado de Segurança para impedir lesão a direito seu, líquido e certo,
provocada por decisão Judicial, mesmo quando seja esta passível de
recurso. (RTJ 88/890).

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 369


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

O entendimento de há muito conferido à matéria é o de ser admissível o


Mandado de Segurança contra ato judicial, toda vez que a autoridade agir em
desconformidade com a lei ou com abuso de poder ou houver justo receio de
sofrer violação de seus direitos por parte de autoridade, seja de que categoria for
e sejam quais forem as funções que exerçam (art. 1º, Lei n. 1.533/1951).

A própria Constituição Federal de 1988, no seu artigo 5º, inciso XXXV,


estabelece:

A lei não excluirá da apreciação do poder judiciário, lesão ou ameaça a


direito.

A alegada afronta ao art. 1º da Lei n. 1.533/1951, que reconheceu a existência


de direito líquido e certo do Impetrante, foi bem apreciada pelo E. Tribunal de
Justiça (3ª Câmara Civil) de Santa Catarina que, na esteira do Supremo Tribunal
Federal, assim se pronunciou:

Mandado de segurança. Ação cautelar inominada. Liminar. Terceiro.


Prejuízo. Direito líquido e certo. Inconstitucionalidade.

Não sendo parte do feito, pode o terceiro prejudicado fazer uso do


mandado de segurança para impedir lesão a direito seu, líquido e certo,
provocada por decisão judicial, mesmo quando seja esta passível de
recurso. (RTJ 88/890). Se a pretensão deduzida no writ decorre de lei em vigor,
há direito líquido e certo a proteger. (grifos nossos).

O ato governamental que transferiu o Coronel Edson Corrêa para a reserva


foi baseado na Lei Estadual n. 6.218/1983, alterada pela n. 6.977/1987, em pleno
vigor. Logo, se a pretensão do Impetrante está escorada em lei de vigência
inconteste, não há que se falar em ausência de direito líquido e certo.

Está em discussão a legitimidade e a constitucionalidade da transferência


para a reserva, na ação ordinária própria para desconstituir o ato administrativo.
Enquanto se não o fizer, o ato é válido e eficaz, produzindo a vaga a que concorre
o Impetrante.

Seu interesse, portanto, na impetração existe, por isso que defende o seu
direito líquido e certo de concorrer à vaga ocorrida com a aplicação da legislação
pertinente e em vigor.

Ademais, esta Corte tem reiteradamente decidido em hipóteses assim


ementadas:

Mandado de segurança contra ato judicial.

370
SÚMULAS - PRECEDENTES

O princípio de que o mandado de segurança não pode ser utilizado


como sucedâneo recursal aplica-se entre partes, mas não incide em se
cuidando de segurança impetrada por terceiro, prejudicado em seu
patrimônio pelo ato judicial.
Ação possessória, com liminar deferida, tendo por objeto a utilização
de linha telefônica cuja titularidade todavia induvidosamente toca à
impetrante, alheia à demanda, e que não pode ser privada do direito a livre
disposição do bem.
Recurso ordinário provido. (ROMS n. 1.114-SP, 4ª Turma, Rel. Min. Athos
Carneiro, publ. DJ, Seção I, 04.11.1991, p. 15.686).

Mandado de segurança. Ato judicial. Terceiro prejudicado. Cabe


mandado de segurança de terceiro atingido por ato judicial, ainda que não
haja interposto o recurso cabível ... (ROMS n. 317-MG, 3ª Turma, Rel. Min.
Nilson Naves, publ. DJ, Seção I, 29.10.1990, p. 12.143).

Mandado de segurança. Ato judicial. Impetração de terceiro prejudicado.


O terceiro atingido pelo ato judicial pode impugná-lo por mandado de
segurança, mesmo sem que haja interposto o recurso cabível.
Não cabe ao juízo do inventário controlar os atos de disponibilidade dos
bens sociais, enquanto perdurar a apuração de haveres dos herdeiros do
sócio premorto.
Recurso conhecido e provido. (ROMS n. 150-DF, 3ª Turma, Rel. Min.
Gueiros Leite, publ. DJ, Seção I, 07.05.1990, p. 3.828).

Negar a segurança aí sim, seria negar a vigência da lei estadual que levou para
a reserva o litisconsorte ora recorrente (fls. 375).
Enquanto não se decretar sua inconstitucionalidade, a lei permanece vigorante
e produzindo efeito: legem habemus. (fls. 715-718)

Sem dúvida, o Colendo Tribunal de Justiça de Santa Catarina deu a


melhor solução para o desfecho da controvérsia, não havendo por conseguinte
negativa de vigência dos dispositivos citados, e nem dissídio jurisprudencial,
posto que nos julgados trazidos a confronto não se demonstrou que os padrões
foram oriundos de casos nas mesmas circunstâncias específicas.
Pelo exposto, não conheço do recurso.
É o meu voto.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 371


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 243-RJ (90.00005450)

Relator: Ministro Gueiros Leite


Recorrente: Hermano Cabernite
Recorrido: Adalberto Renaux
Impetrado: Juízo de Direito da 33ª Vara Cível do Rio de Janeiro
Tribunal de Origem: Tribunal de Alçada Cível do Rio de Janeiro
Advogados: Hermano Cabernite (em causa própria) e Pedro Velloso
Wanderley e outro

EMENTA

Terceiro. Mandado de Segurança em execução de sentença.


Não investe contra a coisa julgada o Mandado de Segurança
impetrado por quem não foi parte no processo, e está sendo executado e
que poderá, por essa via, opor limites à eficácia da sentença exeqüenda.

ACÓRDÃO

Vistos e relatados os autos em que são partes as acima indicadas.


Decide a 3ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade,
conhecer e dar provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro-
Relator, na forma do relatório e notas taquigráficas constantes dos autos, que
ficam fazendo parte integrante do presente julgado.
Custas, como de lei.
Brasília (DF), 21 de agosto de 1990 (data do julgamento).
Ministro Gueiros Leite, Presidente e Relator

DJ 09.10.1990

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Gueiros Leite: Trata-se de recurso ordinário interposto por


Hermano Cabernite, de acórdão do Tribunal de Alçada Cível, do Rio de Janeiro,

372
SÚMULAS - PRECEDENTES

nos autos do mandado de segurança que impetrou contra o Juiz da 33ª Vara
Cível da Capital. O writ visa a impedir que se execute sentença proferida em
ação possessória entre partes Adalberto Renaux versus Arnaldo Renaux e que tem
como objeto imóvel residencial de que é locatário o impetrante. Este sustenta
deter a posse direta do imóvel e que por isso será atingido pela execução da
sentença proferida em processo ao qual não foi chamado.
Eis o voto, corpo do acórdão recorrido:

Rescindido o comodato, através de sentença prolatada em interdito


possessório de reintegração, movido pelo litisconsorte contra o comodatário-
locador, trânsita em julgado, insurge-se o impetrante contra a execução do
decisum, ao fundamento de que não havendo integrado a lide possessória, não
esta sujeito aos efeitos do julgado. Vê-se, pois, que a vexata quaestio consiste
em saber-se se a rescisão do contrato de comodato, decretada por sentença
passada em julgado, tem, ou não, reflexos no contrato de locação ajustado entre
o comodatário e o impetrante. A resposta positiva é inafastável. Registra-se,
inicialmente, que a impetração investe contra sentença transitada em julgado,
proferida em ação de reintegração de posse, na qual o impetrante não foi parte,
partindo da premissa, verdadeira, aliás, de que a coisa julgada opera res inter alios,
vale dizer, entre as partes do processo em que se formou.
Mas a hipótese não é de coisa julgada, qualidade de que se reveste a sentença
após o exaurimento dos recursos a que está sujeita. A questão diz respeito à
eficácia da sentença, como ato de vontade do Estado, à qual se submetem as
partes, e também os terceiros que, de qualquer modo, tenham negócios jurídicos
conexos à relação definida pelo julgado (Omissis).
O diploma processual, em seus arts. 467 e 472, conceituou a coisa julgada e
fixou seus limites subjetivos, sem tocar na eficácia do ato jurisdicional em relação
a terceiros.
O impetrante é terceiro em relação ao autor exitoso da ação possessória,
mas terceiro que mantém com o réu da aludida ação uma relação jurídica
subordinada àquela que foi desconstituída pela sentença. A locação, ajustada
com o comodatário, cessa quando o comodato resulta rescindido pelo decreto
jurisdicional, passando o locatário, de titular da posse direta, a mero detentor
da res, sujeito, portanto, à constrição decorrente de execução da sentença que
despojou o comodatário-locador da posse da coisa emprestada, ou seja, do
imóvel alugado por este ao impetrante, dado que a sentença, que reintegrou o
litisconsorte na posse da coisa, é eficaz contra qualquer que detenha tal posse,
sem título. (Fls. 134-135)

Daí o presente recurso ordinário (fls. 142v.), em que o recorrente persiste


nos argumentos da impetração. Os autos subiram e aqui no Tribunal a ilustrada

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 373


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Subprocuradoria Geral da República opinou pelo não provimento, pois o


recorrente, que recebera em locação imóvel dado em comodato, não poderá
escapar da execução da sentença, de modo a não desocupá-lo, tanto mais porque
o seu caso não se enquadra no art. 47, parágrafo único, do Código de Processo
Civil (fls. 149 a 150).
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Gueiros Leite (Relator): O voto condutor do acórdão


recorrido registra que a extinção do comodato, decretada por sentença transitada
em julgado, tem reflexos no contrato de locação ajustado entre o comodatário
e o impetrante, que investe no writ contra sentença proferida em ação de
reintegração de posse, na qual não foi parte. E que esses reflexos dizem respeito
com a eficácia da sentença à qual se submetem as partes e também os terceiros
que, de qualquer modo, tenham negócios jurídicos conexos à relação definida
pelo julgado. Assim, embora seja verdadeira a premissa de que a coisa julgada
somente opera entre as partes do processo em que se formou, contudo, na lição
de LIEBMAN, todos, sem distinção, encontram-se potencialmente em pé de
igualdade na sujeição aos efeitos da sentença, que se produzirão, efetivamente,
para os que, por sua posição jurídica, tenham qualquer conexão com o objeto
do processo. A natureza dessa sujeição é a mesma para todos, partes e terceiros,
determinando-se a medida dessa sujeição pela relação de cada um com o objeto
da decisão.
Na hipótese dos autos, o impetrante, ora recorrente, é terceiro em relação
ao autor na ação possessória, mas mantém com o réu na aludida ação uma
relação conexa àquela que foi desconstituída pela sentença. A locação ajustada
com o comodatário e réu teria cessado para o acórdão, quando o comodato
resultou rescindido pela sentença, passando o locatário, de titular da posse
direta, a mero detentor da res, sujeito, portanto, à constrição decorrente da
execução da sentença que despojou o comodatário-locador da posse da coisa
emprestada, ou seja, do imóvel alugado ao impetrante, dado que a sentença, que
reintegrou o comodante, é eficaz contra qualquer um que detenha tal posse, sem
título (fls. 135).
Não aplico ao caso, porém, o postulado jurídico do acórdão, de que a eficácia
natural da sentença vale para todos, porque tal importaria na desconstituição do

374
SÚMULAS - PRECEDENTES

contrato de locação formado entre o comodatário e o impetrante e que não


poderia ser objeto do pedido na ação possessória. Esse contrato, ademais de
constituir o título justificador da posse do impetrante no imóvel, é res inter
alios quanto ao comodante e autor na ação. A execução da sentença esbarrará,
pois, na posse que deriva de relação obrigacional estranha ao comodato, sendo
o desfazimento deste o real objetivo da possessória. A locação somente poderá
ser rescindida nos termos da legislação específica e não como conseqüência da
sentença na possessória, a exemplo, entre outros, do que ocorre com a extinção
do usufruto. Dispõe o art. 7º, da Lei n. 6.649/1979, que o contrato de locação
ajustado pelo usufrutuário ou fiduciário termina com a extinção do usufruto ou
fideicomisso, cabendo ao nu-proprietário ou àquele em cujas mãos se consolidou
o domínio o direito de rescindir a locação (art. 51, II).
Sustenta o impetrante no writ ser detentor da posse direta do imóvel por
força do contrato de locação, pactuado há mais de seis anos, não podendo ser
atingido pela sentença proferida em medida judicial “da qual sequer foi parte”,
dela tomando conhecimento apenas na fase executória. Daí porque pede, e com
razão, a concessão da segurança para garantir a não-execução da sentença (fls. 6),
que, por sinal, determinou a reintegração do autor apenas contra o comodatário-
réu (fls. 19).
Ante o exposto, conheço e dou provimento ao recurso.
É como voto.

VOTO-VISTA

O Sr. Ministro Nilson Naves: Em caso de comodato por prazo


indeterminado, foi a ação de reintegração de posse do imóvel, ajuizada pelo
comodante e não contestada pelo comodatário, declarada procedente por
sentença, com trânsito em julgado. Expedido o mandado de reintegração, veio
o presente writ, impetrado pelo locatário do imóvel, que o tomara em locação
do comodatário. Indeferido, na origem, o pedido de segurança, o Sr. Ministro
Gueiros Leite, nesta Turma, provê o recurso ordinário, conclusivamente:

Sustenta o impetrante no writ ser detentor da posse direta do imóvel por


força do contrato de locação, pactuado há mais de seis anos, não podendo ser
atingido pela sentença proferida em medida judicial “da qual sequer foi parte”,
dela tomando conhecimento apenas na fase executória. Daí porque pede, e com
razão, a concessão da segurança para garantir a não-execução da sentença (fls. 6),

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 375


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

que, por sinal, determinou a reintegração do autor apenas contra o comodatário-


réu (fls. 19).
Ante o exposto, conheço e dou provimento ao recurso.

Estou de acordo com [Link]ª, provendo o recurso, por igual. Quero crer,
em relação ao impetrante, de duvidosa eficácia a sentença que reintegrou o
comodante na posse imediata do imóvel em questão. Penso assim, primeiro,
porque o locatário não participou da reintegratória, envolvendo comodante
e comodatário (pai e filho, no caso específico), segundo, porque, ainda que se
tenha por rompida a relação ex locato, em virtude do desfazimento do comodato,
tal há de ser declarado em ação própria, a ação de despejo, à semelhança do art.
7º c.c. o art. 51-II, da Lei n. 6.649, de 16.05.1979. Em suma, verifico não ter
bom propósito a reintegração, pura e simplesmente, em existindo locação desde
o ano de 1983.
Faço companhia a [Link]ª, provendo o recurso ordinário.

VOTO

O Sr. Ministro Eduardo Ribeiro: Sr. Presidente, manifesto que não há


como negar que a sentença prolatada na possessória faz coisa julgada e que o
locatário não pode desconhecer o fato de que, entre comodante e comodatárío,
existe uma sentença transitada em julgada. Coisa, entretanto, inteiramente
diversa é a eficácia dessa sentença em relação a ele. E o que se pretende, segundo
depreendi, é executar, contra c, sentença prolatada em processo em que a e b
foram partes.
Acompanho o voto do Sr. Ministro-Relator.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 1.114-SP (91.0012757-4)

Relator: Ministro Athos Carneiro


Recorrente: Vivian Feres José
Recorrido: João de Carvalho Júnior

376
SÚMULAS - PRECEDENTES

Impetrado: Juízo de Direito da 27ª Vara Cível de São Paulo


Tribunal de Origem: Segundo Tribunal de Alçada Civil do Estado de São
Paulo
Advogados: Frank Pinheiro Lima
João de Carvalho Júnior

EMENTA

Mandado de Segurança contra ato judicial.


O princípio de que o mandado de segurança não pode ser
utilizado como sucedâneo recursal aplica-se entre partes, mas não incide
em se cuidando de segurança impetrada por terceiro, prejudicado em
seu patrimônio pelo ato judicial.
Ação possessória, com liminar deferida, tendo por objeto a
utilização de linha telefônica, cuja titularidade todavia induvidosamente
toca à impetrante, alheia à demanda, e que não pode ser privada do
direito à livre disposição do bem.
Recurso ordinário provido.

ACÓRDÃO

Vistos e relatados os autos em que são partes as acima indicadas.


Decide a 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, dar
provimento ao recurso, na forma do relatório e notas taquigráficas precedentes
que integram o presente julgado. Participaram do julgamento, além do
signatário, os Srs. Ministros Fontes de Alencar, Sálvio de Figueiredo, Barros
Monteiro e Bueno de Souza.
Custas, como de lei.
Brasília (DF), 08 de outubro de 1991 (data do julgamento).
Ministro Athos Carneiro, Presidente e Relator

DJ 04.11.1991

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 377


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Athos Carneiro: Em seu parecer, o ilustre Dr. Vicente de


Paulo Saraiva com excelência sintetizou a espécie, verbis:

Carmem Verena Feres José celebrou contrato de locação de imóvel de sua


propriedade ao advogado João de Carvalho Júnior (fls. 13-14vº), pelo prazo de
12 (doze) meses, de 1º.09.1985 a 30.08.1986, sendo incluído na locação também
o uso da linha telefônica 34-2974 (de uso comercial), instalado no dito imóvel,
daquela dizendo ter a “propriedade” e assegurando sua permanência “durante a
vigência deste contrato” (cláus. 15).
Neste, entretanto, não consta qualquer referência a Vivian Feres José, nem
assinatura sua sequer, ao pé da avença.
Argüindo, então, sua titularidade sobre a aludida linha telefônica, impetrou
Vivian o presente MS contra liminar do MM. Juiz da 27ª V. Cível-SP (Capital), o
qual, inaudita altera parte (fls. 16-vº), ao 30.05.1990 determinara a religação da
linha telefônica no imóvel primitivo, acolhendo pedido formulado na ação de
reintegração na posse, proposta por João de Carvalho contra Carmem Verena,
calcando-se o autor na cláusula 15 do aludido contrato (fls. 08-12).
Sustenta a impetrante Vivian que, sendo ela a verdadeira titular de referida
linha telefônica, desde 1º.02.1985 (fls. 18) - antes, portanto, da data inicial do
contrato locatício em tela -, transferira seus direitos sobre a mesma em favor de
Ary Soares aos 03.04.1990, havendo solicitado à Telesp a transferência daquela
para novo endereço - o que se efetivara já aos 23.03.1990 (fls. 18-19).
O objeto da segurança era, assim, a revogação da liminar concedida na
possessória - havendo a Eg. 3ª Câm. 2º TAcisp, em v.u., denegado a ordem (fls. 52-
53 e 58-61).
Os inequívocos do V. acórdão (o qual definira a impetrante como “locadora”
do imóvel e argüira a inexistência de recurso seu no interdito possessório),
levantados que foram nos Embargos Declaratórios de fls. 65-68, vieram a ser
emendados no V. Decisum de fls. 72-74, o qual, todavia, ratificou a denegação da
ordem, in verbis:

E o fato de a impetrante não ser parte na lide reintegratória, nem


locadora do imóvel, não propicia, pelo que consta dos autos, seja alterada
a conclusão do v. acórdão porque, quando entabulado o contrato de
locação por Carmem, alugou ela, também, a linha telefônica n. 34-2974,
de destinação comercial, conforme constou, expressamente, de cláusula
contratual.
Evidentemente tal fato não podia ser do desconhecimento da
impetrante Vivian, pois deixou a linha telefônica no imóvel locado por
Carmem desde o início da locação, 1º de setembro de 1985 até 3 de abril de
1990, como informou a Telesp, as fls. 18 dos autos.

378
SÚMULAS - PRECEDENTES

Assim, permaneceu o telefone integrando o contrato de locação, e


efetivamente mantido no imóvel locado durante quase cinco anos, até
que Vivian resolveu vendê-lo a terceiro, propiciando a decantada ação de
reintegração.

Daí, o r. recurso ordinário de fls. 76-80 (fls. 92 a 94).

Nas razões de recurso, sustenta a recorrente, fundamentalmente:

Mas, evidentemente, não sendo parte na relação locatícia, não tendo locado
o telefone, a decisão não enfrentou os fundamentos da inicial, seja em relação
ao direito legítimo de propriedade da recorrente, seja da precariedade do uso
do telefone, limitado a um ano (cláusula 15a.), concluindo por afirmar que
de qualquer modo, não podia, nos embargos declaratórios, recebê-los como
“extensão infringencial”, reconhecendo julgamento com vício, também aqui na
derradeira decisão, de extra et citra petita. (fls. 78)

E, adiante, alega ser indiscutível, e todos o reconhecem, a propriedade


da impetrante sobre a linha telefônica, não podendo assim Verena, com mera
posse precária do aparelho, dispor da coisa sem autorização da postulante: “A
indisponibilidade da linha telefônica decretada pelo Juízo da 27ª Vara Cível
da Capital, na reintegratória de João de Carvalho Jr. contra Carmem Verena
F. José, ofendeu direito líquido e certo da recorrente, conforme dispositivo
Constitucional e do Código Civil supratranscrito.
Inconformada com as decisões leva a esse Colendo Tribunal o recurso e
suas razões para obter a concessão da ordem pleiteada no pedido de writ, ou seja,
o cancelamento ou cassação da liminar proferida na reintegratória mencionada
para que a recorrente possa dispor de seu bem como lhe aprouver”. (fls. 80).
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Athos Carneiro (Relator): Dou provimento ao recurso,


por haver a decisão judicial impugnada, proferida em lide possessória em que
a impetrante não é parte, ofendido o direito de propriedade desta (ou posse
plena, ou de uso, conforme se entender doutrinariamente sobre o tema em
matéria de linhas telefônicas), ao conceder liminar que retirou à recorrente a
disponibilidade sobre bem incorporado ao seu patrimônio, e, diga-se, bem de
real valor econômico.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 379


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Com inteira propriedade manifestou-se o douto signatário do parecer do


Ministério Público Federal:

Acentue-se, desde logo, que o mero fato de a impetrante saber da utilização da


linha telefônica pelo locatário, por si só não desfigurava o caráter de liberalidade
mantida por aquela. Ela mesma, aliás, privada que se achava do bem de que tinha
titularidade, podia até socorrer-se do interdito possessório apropriado, sem ter
que respeitar, sequer, o prazo previsto na dita cláusula 15.
Houvera o MM. Juiz lido com a devida atenção o inteiro teor da mesma
cláusula, teria verificado rezar ela que a utilização da linha telefônica pelo locatário
se limitava à “vigência do contrato” - a saber: até 30.08.1986 -, após cujo término
“poderá (a locadora) retirá-la, vendê-la ou fazer o uso que melhor lhe convenha”.
Pouco importava a prorrogação da locação ex vi legis, porquanto “locação” e
“contrato” não se confundem, à evidência.
E assim S. Exª sequer poderia ter concedido a liminar, máxime sem ouvir a
outra parte, devendo, por elementar prudência, ter designado audiência de
justificação, previamente citada a ré Carmem (CPC, art. 928).
Nessa oportunidade, propiciar-se-ia integração na lide da impetrante Vivian,
litisconsorte necessária que era (id., art. 47), além de, inclusive, haver de ser
necessariamente denunciada à lide (id., art. 70, II).
Portanto, tal não havendo acontecido, tendo o interdito corrido sem seu
conhecimento, não se lhe podia acoimar (como fez o V. Acórdão) de não haver
interposto o recurso cabível à concessão da liminar legitimando o mandamus.
Isso porque seu direito à disponibilidade do bem de que era titular fora atingido,
reflexamente pelo menos, em virtude do ato judicial. Não se pode descartar,
evidentemente, a Ary, esbulhado que fora em sua posse, acionar a impetrante
pela transferência - que teria sido incabível - da dita linha telefônica. (fls. 94-95)

Pelo exposto, dou provimento ao recurso, para conceder a segurança tal


como impetrada foi.
É o voto.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 2.404-SP (92.32237-9)

Relator: Ministro Assis Toledo


Recorrente: Paulo Moretti
Recorrido: Heitor Oswaldo Dupont

380
SÚMULAS - PRECEDENTES

Impetrado: Juízo de Direito da 3ª Vara Cível de São Paulo-SP


Tribunal de Origem: Segundo Tribunal de Alçada Civil do Estado de São
Paulo
Advogado: Alexandre da Silva Santos

EMENTA

Mandado de segurança. Ato judicial. Terceiro prejudicado.


Possibilidade de utilização do writ.
Hipótese, contudo, em que o direito do impetrante não se mostra
líquido e certo.
Pedido denegado. Recurso improvido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Quinta


Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas
taquigráficas a seguir, por unanimidade, negar provimento ao recurso. Votaram
com o Relator os Ministros Edson Vidigal, Jesus Costa Lima, José Dantas e Cid
Flaquer Scartezzini.
Brasília (DF), 26 de abril de 1995 (data do julgamento).
Ministro Jesus Costa Lima, Presidente
Ministro Assis Toledo, Relator

DJ 19.06.1995

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Assis Toledo: Intitulando-se sublocatário de imóvel com


sentença de despejo transitada em julgado, Paulo Moretti impetrou mandado de
segurança objetivando a sustação da execução da sentença.
Indeferido o writ, vem o recurso.
A douta Subprocuradoria-Geral da República é pelo improvimento.
É o relatório.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 381


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

VOTO

O Sr. Ministro Assis Toledo (Relator): O terceiro, que não foi parte
na ação, quando prejudicado pelo ato judicial, pode, em tese, utilizar-se do
mandado de segurança, se o seu direito apresentar-se cristalino, devidamente
apoiado em prova preconstituída.
No caso dos autos, porém, a documentação exibida deixa dúvidas a respeito
da verdadeira situação do impetrante (sublocatário ou intruso?), matéria
dependente de prova que não comporta deslinde na via sumaríssima do writ.
Nego provimento.
É o voto.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 4.069-ES (94.0002000-7)

Relator: Ministro Antônio de Pádua Ribeiro


Recorrentes: Germano Rodrigues de Quevedo e outro
Advogados: Jorge Leal de Oliveira e outros
Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo
Impetrado: Juízo de Direito da 1ª Vara Cível de Vitória-ES
Recorridos: Antônio Francisco da Costa e outro
Advogados: Humberto Élio Figueiredo dos Santos e outro

EMENTA

Mandado de segurança. Ato judicial. Impetração pelo terceiro


prejudicado.
I - O terceiro atingido pelo ato judicial pode impugná-lo por
meio de mandado de segurança, ainda que não haja interposto o
recurso cabível. No caso, os impetrantes, na qualidade de litisconsortes
passivos necessários, deveriam ter sido citados para ação cautelar
inominada anteriormente proposta, em que foi praticado o ato atacado
nesta impetração, e não foram. Conseqüências.
II - Recurso ordinário conhecido e provido.

382
SÚMULAS - PRECEDENTES

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, em que são partes as acima


indicadas.
Decide a Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade
dos votos e das notas taquigráficas anexas, por unanimidade, conhecer do
recurso e dar-lhe provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator.
Participaram do julgamento os Srs. Ministros José de Jesus, Hélio
Mosimann, Peçanha Martins e Américo Luz.
Brasília (DF), 26 de outubro de 1994 (data do julgamento).
Ministro Hélio Mosimann, Presidente
Ministro Antônio de Pádua Ribeiro, Relator

DJ 21.11.1994

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Antônio de Pádua Ribeiro: Trata-se de recurso ordinário


em mandado de segurança interposto por Germano Rodrigues de Quevedo e outro
contra o v. acórdão da Primeira Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado
do Espírito Santo, assim ementado (fls. 143):

Mandado de segurança. Ato judicial. Inexistência de recurso próprio. Medida


liminar sustada. Segurança denegada.
O Mandado de Segurança não se presta a servir de sucedâneo recursal.
Inexistindo impugnação por recurso próprio, a segurança não pode ser concedida
sob pena de suprimir uma instância. Segurança denegada à unanimidade. Liminar
sustada.

Sustentam os vencidos que o acórdão em comento violou o art. 47 do


Código de Processo Civil, porquanto, segundo entendem, como litisconsortes
passivos necessários, deveriam ter sido citados para a ação cautelar inominada
anteriormente proposta, e, se não o foram, a sentença, a eles, não poderia atingir.
Subindo os autos a esta Corte, a douta Subprocuradoria-Geral da
República, opinou pelo conhecimento e provimento do recurso (fls. 213-215).
É o relatório.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 383


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

VOTO

O Sr. Ministro Antônio de Pádua Ribeiro (Relator): O parecer da douta


Subprocuradoria-Geral da República, da lavra da ilustre Drª Helenita Amélia
G. Caiado de Acioli, bem situou a controvérsia (fls. 214-215):

4. Trata-se de Mandado de Segurança impetrada por terceiros prejudicados


contra o M.M. Juiz de Direito da 1ª Vara Cível que deferiu liminar em Medida
Cautelar inominada, anulando as eleições no sindicato dos comerciários, sem a
citação dos recorrentes, que se consideram atingidos pelo ato.
5. In casu, inteiramente procedentes as razões do inconformismo.
6. A toda evidência, os recorrentes, na qualidade de litisconsortes passivos
necessários, deveriam ter sido citados para integrar a lide, sob pena de nulidade
do processo, a teor do parágrafo único, do art. 47, do CPC.
7. Assim, na ausência de indispensável citação, perfeitamente cabível a
impugnação do ato através do mandado de segurança para desconstituir o
julgado independentemente da interposição do recurso cabível.
8. Nesse sentido tem decidido o Eg. Superior Tribunal de Justiça, em casos do
mesmo jaez:

Mandado de Segurança. Ato Judicial. Impetração de terceiro prejudicado.


O terceiro atingido pelo ato judicial pode impugná-lo por mandado de
segurança, mesmo sem que haja interposto o recurso cabível.
Não cabe ao juízo do inventário controlar os atos de disponibilidade dos
bens sociais, enquanto perdurar a apuração de haveres dos herdeiros do
sócio premorto.
Recurso conhecido e provido. (ROMS n. 150-DF, Rel. Min. Gueiros Leite,
RSTJ 45/487).

Mandado de Segurança. Ato judicia1. Terceiro prejudicado. Cabe


mandado de segurança de terceiro atingido por ato judicial. Ainda que não
haja interposto o recurso cabível. Hipótese excepcional. Onde o imperativo
da citação de litisconsorte necessário não foi atendido, daí a concessão da
segurança, pela turma para anular sentença proferida em ação anulatória.
Recurso ordinário provido em parte. (ROMS n. 317-MG, Rel. Min. Nilson
Naves, RSTJ 45/487).

O parecer, diante do exposto, é pelo conhecimento e provimento do recurso.

384
SÚMULAS - PRECEDENTES

No mesmo sentido dos precedentes colacionados no transcrito parecer,


votei como Relator, no Mandado de Segurança n. 100.965-SP, decidido pela
Segunda Seção do extinto Tribunal Federal de Recursos, na assentada de
24.04.1984, na consonância da seguinte ementa (RTFR 114/330):

Mandado de segurança. Ato judicial. Impetração por terceiro atingido pelo ato
atacado.
Propriedade industrial. Medida cautelar concedida em ação anulatória de
patente. Descabimento, no caso.
I - O terceiro atingido por ato judicial não precisa dele recorrer para fins de
atacá-lo, através de mandado de segurança, segundo a jurisprudência desta Corte
e do Excelso Pretório.
II - A concessão liminar de cautelar em ação anulatória de patente, consistente
em sustar os efeitos desta, implicou, no caso, em ofensa a direito subjetivo de
terceiro, titular do direito de explorar a patente. Com efeito, o requisito aparência
do bom direito (fumus boni juris), em tal hipótese, exsurge em favor daquele que
tem o registro da marca e não, como afirmado no ato atacado, em prol do autor
da ação anulatória.
III - Mandado de segurança conhecido e concedido.

Isto posto, conheço do recurso e dou-lhe provimento, a fim de anular o ato


impugnado nesta impetração, no feito em que foi praticado, bem como os que
lhe são supervenientes, procedendo-se à citação dos impetrantes, na qualidade
de litisconsortes necessários.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 4.315-PE (94.11681-0)

Relator: Ministro Barros Monteiro


Recorrente(s): E. Lucena S.A. Indústrias Metalúrgicas
Recorrido(s): Euclides Lucena Filho e outros
Impetrado: Juízo de Direito da 1ª Vara de Órfãos, Interditos e Ausentes de
Recife-PE
Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco
Advogados: Roberto Borba Gomes de Melo e Juarez Neri Ferreira e outros

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 385


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

EMENTA

Mandado de Segurança contra ato judicial impetrado por terceiro


prejudicado.
O princípio de que o mandado de segurança não pode ser
utilizado como sucedâneo recursal aplica-se entre as partes, não
incidindo quando se tratar de segurança impetrada por terceiro com o
objetivo de impedir lesão a direito seu provocada por decisão judicial.
Precedentes do STF e STJ.
Recurso ordinário provido parcialmente.

ACÓRDÃO

Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas:


Decide a Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade,
dar parcial provimento ao recurso, na forma do relatório e notas taquigráficas
precedentes que integram o presente julgado. Votaram com o Relator os Srs.
Ministros Ruy Rosado de Aguiar, Antonio Torreão Braz, Fontes de Alencar e
Sálvio de Figueiredo.
Brasília (DF), 29 de junho de 1994 (data do julgamento, cont. da sessão
inic. em 28.06.1994).
Ministro Fontes de Alencar, Presidente
Ministro Barros Monteiro, Relator

DJ 05.09.1994

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Barros Monteiro: Cuida-se de mandado de segurança


impetrado por “E. Lucena S/A Indústrias Metalúrgicas” contra ato do Juiz
de Direito da 1ª Vara de Órfãos, Interditos e Ausentes de Recife, que deferiu
a realização de perícia nos assentos contábeis da impetrante, em autos de
inventário. Segundo a impetração, tratando-se no caso de sociedade anônima,
dispensável e improdutiva é a apuração de haveres, desde que são objeto do
inventário as ações da empresa.

386
SÚMULAS - PRECEDENTES

A Seção Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Pernambuco, por


maioria, acolheu a preliminar suscitada pela Procuradoria-Geral da Justiça
do Estado, de não conhecimento da segurança, em virtude de não ter a
impetrante interposto o recurso cabível, o de agravo de instrumento. Eis os seus
fundamentos:

O entendimento predominante nos tribunais brasileiros é no sentido de que


o mandado de segurança não é sucedâneo do recurso próprio contra decisão
judicial, sendo cabível somente em casos especiais e com observação de
princípios e normas já definidas na jurisprudência pátria, sendo uma delas a
interposição do recurso próprio e recebido ou que não tenha efeito suspensivo.
(fls. 134).

Sob a alegação de que não é parte nos autos de inventário e que, assim, não
lhe cabia agravar da decisão, a impetrante opôs embargos declaratórios, os quais,
todavia, não foram conhecidos pela mesma turma julgadora.
Inconformada, a impetrante manifestou o presente recurso ordinário,
aduzindo que a decisão recorrida, ao acolher a preliminar de não conhecimento
dos embargos declaratórios, divergiu da orientação traçada pelo Supremo
Tribunal Federal, que o admite para corrigir erro manifesto. Insistiu na assertiva
de que, não sendo parte no processo, não lhe era permitido recorrer.
A Subprocuradoria-Geral da República opinou pelo não conhecimento do
recurso.
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Barros Monteiro (Relator): A jurisprudência dominante


tanto da Suprema Corte como deste Tribunal é no sentido de que “não sendo
parte no feito, pode o terceiro prejudicado fazer uso do mandado de segurança
para impedir lesão a direito seu, líquido e certo, provocada por decisão judicial,
mesmo quando seja esta passível de recurso” (RTJ 88/890). Confiram-se nesse
sentido os seguintes julgados: RTJ 87/96 e 119/726; RMS n. 150-DF, relator
Ministro Gueiros Leite; RMS n. 1.983-4-SP, relator Ministro Waldemar
Zveiter; RMS n. 317-MG, relator Ministro Nilson Naves; REsp n. 2.224-0-SC,
relator Ministro José de Jesus Filho.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 387


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

No Recurso em Mandado de Segurança n. 1.114-SP, de que foi relator o


eminente Ministro Athos Carneiro, esta Quarta Turma deixara assentado:

O princípio de que o mandado de segurança não pode ser utilizado como


sucedâneo recursal aplica-se entre partes, mas não incide em se cuidando de
segurança impetrada por terceiro, prejudicado em seu patrimônio pelo ato
judicial.

Hipótese similar foi apreciada quando do julgamento do RMS n. 99-SP,


por mim relatado, onde a respeito tive ocasião de anotar:

Aliás, a condição de terceiros acentua a nota peculiar que qualifica a espécie,


à vista de que, não tomando conhecimento da decisão impugnada, não teriam
as impetrantes como, a tempo, interpor o recurso de agravo de instrumento, por
sinal, desprovido de efeito suspensivo. A propósito, vale lembrar julgado oriundo
da Suprema Corte, cuja ementa aduziu in verbis:

O rigor da Súmula n. 267, segundo a qual “não cabe mandado


de segurança contra ato judicial passível de recurso ou correição”, tem
sido abrandado pela jurisprudência, vindo a ser admitido em casos
excepcionais, configurando-se a hipótese como um deles, até porque além
da irreparabilidade do dano, e necessidade de imediata providência, o
impetrante não integrara a relação processual na ação em conseqüência
da qual adveio o ato impugnado (RE n. 100.401-RJ, relator Ministro Aldir
Passarinho, in RTJ 119/726).

Assim, dada a sua condição de terceira, era permitido à ora recorrente


lançar mão do mandado de segurança desde logo, como o fez.
Ante o exposto, dou provimento parcial ao recurso, a fim de que, afastada a
extinção do processo, o Eg. Tribunal a quo examine o mérito da impetração.
É o meu voto.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 4.822-RJ (94.0028900-6)

Relator: Ministro Demócrito Reinaldo


Recorrente: Município do Rio de Janeiro

388
SÚMULAS - PRECEDENTES

Recorrido: Celso Vita Chaves


Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
Impetrado: Juízo de Direito da 12ª Vara de Órfãos e Sucessores do Rio de
Janeiro-RJ
Advogados: Kátia Patrícia Gonçalves Silva
José Carlos Ribeiro da Silva

EMENTA

Mandado de Segurança contra decisão judicial. Inexistência de


recurso adequado contra a decisão impugnada. Dispensabilidade por
cuidar-se de mandamus impetrado por terceiro.
Em se tratando de segurança contra decisão judicial, o impetrante
deve, no prazo legal, manifestar o recurso adequado, para evitar a
preclusão da matéria.
In casu, em se tratando de impetração manejada por terceiro
estranho ao processo, qualquer decisão proferida neste, em relação ao
impetrante, é inutiliter datur, não se configurando a preclusão.
Não sendo, o impetrante, parte no processo de inventário (em
que se proferiu à decisão impugnada) e não tendo sido citado e nem
intimado na pessoa de seu representante legal, impraticável exigir-se
viesse a manifestar recurso processual, atempadamente.
Recurso provido para afastar a extinção do processo, com a
remessa dos autos ao Tribunal de origem para o julgamento do mérito.
Decisão unânime.

ACÓRDÃO

Vistos e relatados os autos em que são partes as acima indicadas, decide


a primeira Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, dar
provimento ao recurso, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator, na forma
do relatório e notas taquigráficas constantes dos autos, que ficam fazendo parte
integrante do presente julgado. Participaram do julgamento os Srs. Ministros
Humberto Gomes de Barros, Milton Luiz Pereira, Cesar Asfor Rocha e Garcia
Vieira. Custas, como de lei.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 389


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Brasília (DF), 05 de dezembro de 1994 (data do julgamento).


Ministro Demócrito Reinaldo, Presidente e Relator

DJ 19.12.1994

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Demócrito Reinaldo: O Município do Rio de Janeiro


impetrou mandado de segurança contra ato do Juiz de Órfãos e Sucessões, que
determinou, por via de mandado, a transferência de uma automóvel pertencente
ao espólio de Jacira de Almeida Vilar, que era permissionária do serviço de
transportes de passageiros em veículos de aluguel e táxi. O veículo se encontrava
arrolado no inventário, como bem do espólio, e a sua transferência dependeria
da autorização do município para que fosse usado como veículo de transporte.
O Tribunal de Justiça julgou extinto o processo, sob fundamento de que,
em se tratando de segurança contra decisão judicial, o impetrante teria de, antes,
usar do recurso adequado.
Irresignado, o município vencido manifestou o presente recurso ordinário
que, contra-arrazoado, subiu a esta instância.
O Ministério Público Federal opinou pelo provimento do recurso.
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Demócrito Reinaldo (Relator): Senhores Ministros:


Trata-se de mandado de segurança impetrado pelo Município do Rio Janeiro
contra ato do Juiz de Órfãos e Sucessões, que determinou a transferência
de um automóvel pertencente ao espólio de Jacira de Almeida Vilar, que era
permissionária do serviço de transportes de passageiros em veículos de aluguel
e táxi. A inventariante arrolou o veículo no inventário e requereu a respectiva
venda judicial, que foi autorizada, mediante alvará expedido pelo juiz indigitado
como autoridade coatora. E, como o Secretário de Transportes Urbanos não
efetivou a transferência, o juiz substituiu a autorização, antes concedida, por um
mandado, a ser cumprido imediatamente, sob pena de desobediência.

390
SÚMULAS - PRECEDENTES

O Tribunal de Justiça declarou extinto o processo, sob alegação de


incabimento do writ, porquanto, “desde quando ciente do alvará de autorização,
ao qual desatendeu, deveria ter, o impetrante, interposto o recurso cabível contra
a decisão do juiz”.
Recorre o Município do Rio de Janeiro, sob fundamento de que era parte
estranha ao processo.
Estou em que, no caso, tem razão o recorrente. Não me parece razoável,
no caso, a exigência do prévio recurso, para abrir ensanchas ao uso da segurança.
É certo que já se pacificou, nesta Corte, que, em se tratando de segurança
contra decisão judicial, o impetrante deve, antes, manifestar o recurso adequado,
para evitar a preclusão da matéria (Súmula n. 268 do STF). Todavia, não é
menos certo, que a jurisprudência condiciona a impetração à prévia manifestação
do recurso prévio, no viso de impedir a formação da coisa julgada - formal ou
material. Mas, no caso, trata-se de impetração manejada por terceiro, estranho
ao processo de inventário e, qualquer decisão proferida neste (inventário), em
relação ao impetrante - é inutiliter datur, é dispicienda de efeito, inexistindo
preclusão.
A jurisprudência predominante nesta e na Corte Suprema, tende a
esse sentido, “desde que, a sentença faz coisa julgada entre as partes entre as
quais é dada, não beneficiando nem prejudicando terceiros”. São inúmeros
os julgados enumerados por THEOTÔNIO NEGRÃO, em seu código de
Processo Civil: “A Súmula n. 267 não se aplica ao terceiro prejudicado que
não integrou a lide” (STF-Pleno: RTJ, 87/96; 88/890; 119/726; RSTJ, vol.
15/170; STJ, RT 683/174; STJ, 3ª Turma, RMS n. 317-MG). Vale transcrever,
por manifestamente judiciosos, trechos dos argumentos do Dr. Subprocurador
Geral da Justiça:

Por outro lado, não sendo o Município do Rio de Janeiro parte no processo
de inventário, cujos limites dificilmente comportariam a sua intervenção, não
tendo sido citado, nem, tampouco, regularmente intimado de seus atos, na
pessoa de seu representante processual, difícil seria esperar que o mesmo viesse,
atempadamente, manifestar recurso processual, mormente quando atropelado
pela ameaça de prisão de suas autoridades. Aliás, nem mesmo cabível seria
eventual recurso processual, no caso, uma vez que o Município não parece
reclamar propriamente de nenhum ato do inventário, mas, sim, da ordem dada
pelo magistrado impetrado, obrigando a Administração a admitir transações
comerciais com envolvimento de licenças que expede (folha 105).

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 391


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Não era, pois, jurídico, exigir-se a prévia interposição do recurso, ao caso,


desde que o representante legal do Município, que atua em juízo, em face da lei,
não teve ciência do ato judicial impugnado.
Dou provimento ao recurso, para que, afastada a extinção do processo, o
tribunal de origem julgue o mérito da causa, como entender de direito.
É como voto.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 4.982-SP (94.331681)

Relator: Ministro Nilson Naves


Recorrente: Antonio Carlos da Silveira
Recorrida: Cooperativa Agropecuária de Pedrinhas Paulista Ltda
Tribunal de Origem: Primeiro Tribunal de Alçada Civil do Estado de São
Paulo
Impetrado: Juízo de Direito de Paraguaçu Paulista-SP
Advogados: Pedro Elias Arcenio e outro e Luiz Gonzaga Lopes de
Campos e outros

EMENTA

Mandado de segurança contra ato judicial, impetrado por terceiro


prejudicado. É admissível o pedido, ainda que não tenha o terceiro
interposto o recurso cabível. Precedentes do STJ. Recurso ordinário
constitucional provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da 3ª


Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e das notas
taquigráficas a seguir, por unanimidade, conhecer do recurso ordinário e lhe
dar provimento, nos termos do voto do Sr. Ministro Relator. Participaram do
julgamento os Srs. Ministros Eduardo Ribeiro, Waldemar Zveiter, Cláudio
Santos e Costa Leite.

392
SÚMULAS - PRECEDENTES

Brasília (DF), 14 de março de 1995 (data do julgamento).


Ministro Waldemar Zveiter, Presidente
Ministro Nilson Naves, Relator

DJ 22.05.1995

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Nilson Naves: Em nome do Ministério Público do Estado


de São Paulo, oficiou nestes autos o Procurador Jurandir Norberto Marçura,
com este parecer, de fls. 98-100:

1. Cuida-se de mandado de segurança impetrado por Antonio Carlos da Silveira


contra ato do MM. Juiz de Direito da Comarca de Paraguaçu Paulista, reproduzido
a fls. 56, proferido nos autos do processo de execução por quantia certa que a
Cooperativa Agropecuária de Pedrinhas Ltda. moveu em face de Teruo Omura,
pelo qual houve por bem a digna Autoridade impetrada deferir requerimento
formulado pela exeqüente, constante de fls. 23-24, reconhecendo em favor da
aludida Cooperativa a preferência na arrematação da linha telefônica, em virtude
de precedente penhora, implicando tal ato o desfazimento da arrematação
levada a efeito pelo Impetrante em outra execução movida perante o Juízo de
Direito da vizinha Comarca de Assis contra o mesmo executado Teruo Omura.
Sustenta o impetrante a ilegalidade do indigitado ato judicial, tendo em vista
que o desfazimento da arrematação ocorreu por simples despacho, em outro
processo, sem que sequer fosse ouvido o arrematante. Pleiteia o deferimento do
mandamus para o fim de anular o despacho guerreado.
O pedido de liminar foi indeferido pelo r. despacho de fls. 84.
A digna Autoridade impetrada prestou as necessárias informações às fls. 82-83,
manifestando-se o litisconsorte às fls. 87-89.
2. Assiste razão ao impetrante, data venia.
Ab initio, verifico que o impetrante não integrou o processo em que proferido
o despacho hostilizado, de sorte que não lhe é oponível a coisa julgada (CPC, art.
472).
De resto, o ato judicial impugnado consubstanciou flagrante violação das
normas legais, mormente porque não era lícito à digna Autoridade impetrada
ordenar o desfazimento de arrematação levada a efeito em outro processo,
reconhecendo pretenso direito de preferência do exeqüente/arrematante,
em virtude de precedente penhora, tendo em vista que “Sendo o mesmo
bem penhorado em juízos diferentes, deve prevalecer a primeira arrematação

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 393


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

efetivada, mesmo que decorrente de ato constritivo que não o primeiro. O produto
da arrematação é que há de ser distribuído com observância da anterioridade das
penhoras, respeitadas as preferências fundadas no direito material” (RTFR 159/37,
apud Theotônio Negrão, nota 2 ao art. 711 do CPC, em “Código de Processo Civil e
legislação processual em vigor”, Ed. Malheiros, 24ª edição).
De ver-se, outrossim, que “Depois de consumada a arrematação, com auto
assinado e carta expedida e registrada, é inadmissível sua anulação por simples
despacho do juiz. Em tal hipótese, só se admite o desfazimento do ato, nos casos
do art. 694 do CPC, por provocação dos interessados e mediante ação própria” (RT
641/175).
A última arrematação não prevalece sobre a primeira, mesmo na hipótese
de precedente penhora, estabelecendo-se, neste caso, o concurso de credores
consoante a ordem das respectivas prelações (CPC, art. 711 c.c. art. 712). Dessarte,
cabia à credora Cooperativa Agropecuária de Pedrinhas Paulista Ltda exercitar o
seu direito decorrente da anterioridade da penhora nos autos da ação em trâmite
perante o Juízo de Direito da Comarca de Assis, no que pertine ao produto da
primeira arrematação, requerendo, para tal fim, a reunião dos processos (cf. RT
493/177).
3. Ante o exposto, opino pela concessão do writ.

Mas o impetrante foi julgado carecedor da segurança, porque

A decisão judicial impugnada foi publicada na imprensa oficial em 30.06.1993.


Dela não agravou o impetrante como terceiro prejudicado, na forma do art.
499, caput do Código de Processo Civil.
Inadmissível é o mandado de segurança como substitutivo do recurso próprio,
pois por ele não se reforma a decisão impugnada, ...

Daí o recurso ordinário, com parecer, neste Tribunal, do Dr. Roberto


Casali, Subprocurador-Geral da República, pelo desprovimento (lê).
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Nilson Naves (Relator): Alega e pede o recorrente:

Vê-se, portanto, que o v. acórdão labora com o impossível, ao exigir que o


Recorrente tivesse apresentado recurso de um despacho do qual não tinha
conhecimento!

394
SÚMULAS - PRECEDENTES

Como já dito mais acima, é até dispensável a constatação dessa evidente


impossibilidade de recorrer. Isto porque, acima dessa constatação, está o
princípio atualmente consagrado, na jurisprudência, de o terceiro·prejudicado
não precisa ofertar recurso, na instância ordinária, para poder impetrar a
segurança.

Desse E. Superior Tribunal de Justiça promana esse firme entendimento, como


se vê em, pelo menos, dois precedentes, que não deixam dúvidas quanto ao tema
aqui enfocado:

O terceiro prejudicado pelo ato judicial pode impugná-lo por mandado


de segurança, mesmo sem que haja interposto o recurso cabível (RMS
n. 150-DF, in DJU de 07.05.1990, p. 3.828, integralmente reproduzido in
-“Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça e Tribunais Regionais
Federais,” Lex, vol. 12, p. 38 e seguintes).

Cabe mandado de segurança de terceiro atingido por ato judicial ainda


que não haja interposto o recurso cabível (RMS n. 317-MG, in DJU de
29.10.1990, p. 12.143).

Mais não será preciso dizer para afastar a carência decretada pelo v. acórdão
recorrido!

Não só era impossível que o Recorrente pudesse ter recorrido da decisão


impugnada, como é perfeitamente admissível que, terceiro prejudicado, impetre
ele o writ sem ter recorrido do ato judicial guerreado.

Vale ressaltar, finalmente, quão absurda foi a decisão impugnada. Basta a


leitura da petição inicial deste mandado de segurança e das peças que a acostam
para se verificar que a decisão feriu grosseiramente direito líquido e certo do
recorrente, contrariando regras elementares que custa crer tenham sido violadas,
tal o seu despropósito.

(...)

Diante do exposto, vem requerer a V. Exª seja recebido e processado o presente


recurso ordinário, pleiteando seja conhecido e provido pelo E. Tribunal ad quem
para que, cassados o v. acórdão e a carência decretada, seja determinado que se
dê julgamento ao writ pelo seu mérito.

Em face da orientação jurisprudencial desta Turma, e diante dos termos do


pedido, dou provimento ao recurso ordinário para afastar o decreto de carência,
prosseguindo-se no Tribunal a quo, como for de direito.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 395


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 5.381-SP (95.0003881-1)

Relator: Ministro Waldemar Zveiter


Recorrente: Nossa Caixa - Nosso Banco S/A
Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Impetrado: Juízo de Direito da Quarta Vara Cível de Santos-SP
Recorrido: José Pousa Borja
Advogados: Fernando Neves da Silva e outros

EMENTA

Processual Civil. Segurança impetrada por terceiro prejudicado.


Concessão de liminar. Suspensividade em agravo de instrumento.
I - Cabível a impetração de segurança por terceiro prejudicado e
caracterizado o dano irreparável a suspensão do ato coator se impõe,
mormente quando é pedida para emprestar efeito suspensivo a Agravo
de Instrumento interposto por quem alheio à lide.
II - O estabelecimento bancário na qualidade de depositário
judicial não tem direito liquido e certo de insurgir-se contra a ordem
judicial de efetuar o lançamento das diferenças correspondentes
à correção monetária, na forma dos provimentos administrativos
expendidos pelo Tribunal de Justiça.
III - Recurso conhecido e improvido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os senhores Ministros


da Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos
e das notas taquigráficas, a seguir, prosseguindo no julgamento, após o voto-
vista do Sr. Ministro Eduardo Ribeiro, por unanimidade, conhecer do recurso
ordinário, mas lhe negar provimento.
Participaram do julgamento os Srs. Ministros Costa Leite, Nilson Naves e
Eduardo Ribeiro.
Não participou do julgamento o Sr. Ministro Menezes Direito (§ 2°, art.
162, RISTJ).

396
SÚMULAS - PRECEDENTES

Brasília (DF), 25 de novembro de 1996 (data do julgamento).


Ministro Waldemar Zveiter, Presidente e Relator

DJ 03.02.1997

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Waldemar Zveiter: Trata-se de Mandado de Segurança


para agregar efeito suspensivo a Agravo de Instrumento.
Insurge-se contra ato judicial que, nos autos de inventário com herdeira
única, menor de idade, determinara, em depósitos sob custódia do juízo, correção
monetária pelo IPC.
O acórdão de fls. 140 manteve tal entendimento, aduzindo que a recorrente,
ao não aplicar tal indexador, perpetrou usurpação do dinheiro da herdeira, visto
que a diferença, a menor, é enorme.
Na irresignação (fls. 161-164), argumenta a recorrente:
segundo o art. 139 do CPC, o depositário é auxiliar da justiça. Assim, está
ligado à administração da justiça do Estado, mas a responsabilidade deste é
objetiva e a do depositário, não;
quem tem a disponibilidade dos depósitos judiciais é o juiz do feito, mas
essa está vinculada a um processo e não tem o julgador livre uso e gozo do valor;
o fumus boni juris destaca-se de forma cristalina, posto que a ilegalidade é
patente;
a recorrente, auxiliar da Justiça, está sendo obrigada a completar um
depósito judicial com juros e correção monetária;
o periculum in mora está presente e demonstrado nos autos;
se Agravo de Instrumento for eventualmente julgado procedente, a
agravante corre o risco de não ter meios de cobrar o que pagou;
os dois requisitos previstos no inciso II, do art. 7º da Lei do Writ são
essenciais para deferir a segurança;
por configurar ofensa ao art. 126 do CPC e dar ao aresto um entendimento
pessoal, sem respaldo jurídico ao caso, não pode o juiz substituir-se ao legislador
para formular a regra jurídica aplicável.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 397


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

O Ministério Público Estadual opina no sentido de que a correção


monetária, na espécie de que se cuida, deve ser discutida em ação própria,
obedecido o devido processo (fls. 172).
A Subprocuradoria-Geral da República pronuncia-se pelo improvimento
do recurso, ao fundamento de que o ato impetrado não ameaça a impetrante de
dano processual e o agravo dispensa o pretendido efeito suspensivo.
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Waldemar Zveiter (Relator): A hipótese vem deduzida,


assim (fls. 139-140):

A segurança é cabível porque a entidade impetrante, atingida por decisão


judicial, não é parte do processo (RT 517/227). Comporta conhecimento pelo
mérito, com prejuízo do agravo de instrumento.
A decisão judicial impetrada não dependia de remessa para os meios
ordinários: porquanto universal o juízo do inventário, deve o juiz decidir todas as
questões que incidirem, tanto as direito como também as de fato comprovadas
por documentos. Era o caso. E a regra está explicitada no art. 984 do CPC.
A diferença de correção monetária resultante da aplicação direta do IPC, é,
como visto, enorme. O que a Caixa afinal pretende com as suas promoções, é, na
verdade, perpetuar usurpação do dinheiro da herdeira, da mesma forma como
o sistema financeiro usurpa fluentemente o dinheiro dos poupadores, pelo
menos até que estes recorram à justiça. como se tem confirmado inúmeras vezes
no ambiente jurisdicional, o depositário que restitui depósitos devidamente
corrigidos (isto é, pelos índices reais do aviltamento da moeda e não pela
indexação falsa dos BTN), não está a fazer mais do que devolver ao depositante
o mesmo valor depositado. Dano não há, pois, a considerar; de dano moral, nem
há cogitar, data venia. Sobre a aplicação do IPC no período referido, em vez do
índice BTN, nossa jurisprudência é abundantíssima e a orientação dos tribunais é
pacífica. Irrelevante, então, repisar a legislação invocada de 1989/1990.
Diga-se enfim que a decisão impetrada não carecia de mais fundamentação do
que a lançada no requerimento, como tal acolhida.

Impetra-se Segurança para afastar ato judicial que, nos autos de inventário,
determinou ao Banco, depositário judicial, ora recorrente, a correção monetária
por determinado índice, em valores sob custódia.

398
SÚMULAS - PRECEDENTES

Não sendo parte na lide, entendeu que, como terceiro prejudicado, segundo
a jurisprudência do STF e STJ, está legitimado à propositura do remédio
constitucional, como se vê neste trecho da inicial (fls. 3-4):

De conformidade com o v. Acórdão incluso, do TRF - 3ª Região, o Pleno do


Supremo Tribunal Federal vem entendendo que a Súmula n. 267, que não admite
segurança contra ato judicial passível de recurso ou correição, não se aplica ao
terceiro prejudicado, que não integrou a lide (RTJ 87/96, 88/890 e RT 517/227). Eis
a ementa na íntegra:
Constitucional. Mandado de Segurança. Preliminares. Terceiro
prejudicado. Cabimento. Prejuízo.
I - A Súmula STF n. 267, que não admite segurança contra ato judicial
passível de recurso ou correição, não se aplica ao terceiro prejudicado.
Precedentes do STF e do STJ.
II - A não ser em casos peregrinos, não deve Juiz deferir pedido que
implique esvaziamento da lide, ou seja, não deve o magistrado conceder
liminar que seja satisfativa do pedido. Precedente desta Segunda Seção.
III - Deve ser concedida a segurança, quando da execução do ato judicial
impugnado, puder resultar prejuízo de difícil reparação à parte.
IV - Segurança conhecida e concedida. Preliminares rejeitadas.

No caso dos autos a situação é idêntica, pois, a decisão ora impugnada resolveu
questão incidente, com evidente gravame para a impetrante que não integrou a
lide. Perfeitamente cabível, na espécie o Mandado de Segurança, ora interposto.

Embora nesta corte houvesse, no passado, controvérsia sobre o ponto, hoje,


todavia, a matéria é pacífica no sentido de que terceiro, alheio à lide, sentindo-se
atingido por esta, pode defender seu direito por meio de mandamus.
É ler o RMS n. 4.981-7-SP, onde se ementou:

Pode o terceiro ajuizar mandado de segurança contra ato de juiz proferido em


ação na qual não é parte.

É assim para que o interesse econômico lesado não fique sem tutela
jurisdicional.
Justificando sua obrigatoriedade na implantação dos índices oficiais sobre
todos os depósitos de sua guarda, diz, a impetrante (fls. 05):

A impetrante é depositária judicial por ser uma instituição financeira, caso


contrário não teria respaldo legal e ofenderia, dentre outros, o art. 9° e seguintes

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 399


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

da Lei n. 4.595/1964, sujeita às penalidades do Banco Central do Brasil, que


pode determinar até seu fechamento, cassando a licença, bem como praticaria
agiotagem se recebesse importâncias para aplicação no mercado financeiro sem
ser um banco.

Secundando esse entendimento, diz o Ministério Público Estadual (fls.


130):

Pela concessão da segurança a fim de que seja cassado o r. ato judicial


impetrado.
A questão da incidência ou não da correção monetária plena nos depósitos
de contas do de cujus deve ser objeto de ação própria entre o Espólio e o banco
impetrante, obedecidos os princípios do devido processo legal e do contraditório,
não podendo ser objeto de decisão incidental nos autos do inventário no qual o
Impetrante sequer é parte. Nesse sentido, cf. Mandado de Segurança n. 175.270.1-
8, 2ª Câmara Civil do Eg. TJSP, v.u, julg. 08.09.1992, Rel. Des. Araújo Cintra (fls.
60/68-69).
Justifica-se o exame de mérito da questão, ante a possibilidade de não ser
conhecido pelo Eg. Tribunal o agravo de instrumento interposto pelo banco
impetrante, o que viabilizaria o levantamento das importâncias pelo Espólio,
acarretando dano irreparável àquele.

Inobstante tais considerações a Colenda 4ª Turma, sobre o tema, já tem


decidido como se espelhou na ementa escrita pelo Sr. Min. Relator Ruy Rosado
no RMS n. 4.953-1-SP:

Depósito judicial. Correção Monetária.


O estabelecimento de crédito que aceita a condição de depositário judicial
não tem direito liquido e certo de insurgir-se contra a ordem judicial de efetuar
o lançamento das diferenças correspondentes à correção monetária dos valores
recolhidos, na forma dos provimentos administrativos expedidos pelo Tribunal de
Justiça. Voto Vencido.

Bem assim, no REsp n. 60.665-9-SP, cujo trecho do voto condutor do Sr.


Min. Ruy Rosado transcrevo, para melhor compreensão:

1. A respeito do dever de o depositário judicial atender à determinação do


juízo para a devolução corrigida dos valores que lhe são confiados, já assim votei
nesta eg. 4ª Turma:

1. O mandado de segurança interposto contra ato judicial, para dar


efeito suspensivo ao recurso de agravo, deve ter os requisitos da medida
cautelar, de cuja natureza se aproxima, entre eles o de fumus boni juris.

400
SÚMULAS - PRECEDENTES

Tal não acontece no caso dos autos.


A ordem emanada do juízo para que o depositário consignasse a
remuneração da correção monetária dos valores recolhidos está de
acordo com os provimentos do Conselho Superior da Magistratura do
Estudo e da sua Corregedoria-Geral (Provimento n. 257, do CSM, e Ordem
de Serviço n. 1/92, da Corregedoria Geral da Justiça do Estado de São
Paulo), que dispõem sobre a correção monetária dos depósitos judiciais. O
estabelecimento bancário que aceitou a condição de depositário, passando
a atuar como auxiliar do juízo, assumiu o dever processual de cumprir tais
determinações. Não há, portanto, ilegalidade na exigência judicial ora
impugnada, que é simplesmente a de “fazer o depósito das diferenças da
correção monetária” (fl. 27).

Não incide, na hipótese, a regra do artigo 125, I, quanto ao resguardo da


igualdade de tratamento devido as partes, porque o depositário não é parte
no processo principal, é um auxiliar do juízo que, tendo aceito a sua condição
e se beneficiado da disposição do numerário, durante o tempo que lhe foi
confiado (tanto que tais depósitos são disputados no mercado), deve atender
as determinações judiciais. Mais pertinentes ao caso, para não sair do âmbito do
artigo 125, são as regras dos incisos II e III, que impõem ao juiz o dever de velar
pela rápida solução do litígio, que se eternizaria apenas enquanto se discutisse
o interesse do depositário, e de impedir que a recalcitrância do auxiliar do juízo
ofenda à própria eficácia da prestação jurisdicional, desmoralizando o juízo
perante os cidadãos que foram constrangidos pela lei ao depósito judicial.
2. Quanto ao uso do IPC para a atualização de créditos, nos períodos de janeiro
de 1989 e durante o ano de 1990, a jurisprudência deste Tribunal é pacífica:

Plano Verão. Cálculo de liquidação. IPC.


A adoção do IPC de janeiro de 1989 como fator corretivo da moeda não
ofende o art. 15 da Lei n. 7.730/1989.
Dissídio jurisprudencial não comprovado.
Recurso especial de que se não conheceu.
Unânime. (REsp n. 38.234-RJ, 4ª Turma, rel. em. Min. Fontes de Alencar,
DJU 17.10.1994)

Conta de liquidação. Lei n. 7.730/1989. IPC.


A decisão que determina a adoção do IPC de janeiro de 1989 como fator
corretário da moeda não viola o art. 15 da Lei n. 7.730/1989.
Divergência de Julgados não comprovado.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 401


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Recurso especial não conhecido.


Unânime. (REsp 21.892-SP, 4ª Turma, rel. em. Min. Fontes de Alencar, DJU
31.10.1994)

Correção monetária. Plano Verão (janeiro de 1989).


Não causa ofensa a lei o acórdão que autoriza a utilização do IPC para a
atualização das dívidas, no mês de janeiro de 1989.
Recurso não conhecido. (REsp n. 37.969-0-SP, 4ª Turma, de minha
relatoria, DJU 14.08.1995)

Processual Civil. Liquidação de sentença. Correção monetária. IPC.


A inclusão dos índices de variação do IPC nos meses de março de 1990
a fevereiro de 1991 não ofende a Lei n. 8.177/1991 e harmoniza-se com a
pacífica orientação consagrada por esta Corte.
Recurso não conhecido. (REsp n. 35.064-SP, 3ª Turma, rel. em. Min.
Cláudio Santos, DJU 29.05.1995)

Correção monetária. Liquidação de sentença. IPC março de 1990 a


fevereiro de 1991. Aplicação.
Consoante orientação assentada da Corte Especial aplica-se o índice do
IPC e não o do BTN, no período de março de 1990 a fevereiro de 1991. (REsp
n. 39.784-0-SP, 3ª Turma, rel. em. Min. Cláudio Santos, DJU 15.05.1995)

Inflação de março, abril e maio de 1990, fevereiro de 1991.


As razões determinantes nos cálculos da inflação de janeiro de 1989, de
70,28%, índice do IPC, justificam a aplicação da inflação ocorrida a partir de
março (84,32%), abril (44,80%) e maio de 1990 e fevereiro de 1991.
Embargos acolhidos. (EREsp n. 46.019-SP, Corte Especial, rel. em. Min.
Garcia Vieira, DJU 19.06.1995)

Diz o recorrente que, após a vigência do Plano Collor, não dispunha mais
da disponibilidade de tais recursos. Porém, conforme afirmado no v. acórdão
recorrido, as leis mencionadas no recurso não fazem referência aos depósitos
judiciais.
Isto posto, não conheço do recurso.
É o voto.

Forte em tais lineamentos, conheço do recurso mas nego-lhe provimento.

402
SÚMULAS - PRECEDENTES

VOTO-VISTA

O Sr. Ministro Eduardo Ribeiro: Constitui entendimento assente neste


Tribunal o de que o depositário há de devolver o que recebeu, com a atualização
decorrente da correção monetária, pena de estar restituindo menos do que foi
confiado à sua guarda. Para isso não é necessária a propositura de ação específica.
O Juiz há de determinar seja entregue a integralidade do que foi depositado e
isso supõe a correção.
Note-se que essa ordem judicial não tem conteúdo jurisdicional, mas
administrativo. Desse modo, lícito seja impugnada por mandado de segurança,
como o tem sido em outros casos, procedendo-se a ampla a discussão dos temas
pertinentes.
Alega-se, no recurso, que não cabe ao juiz fixar os índices de aplicações
financeiras. Não é disso que se trata, entretanto. Cuida-se simplesmente de
garantir a devolução da importância depositada, observado o mesmo valor
real. E note-se que, no recurso, não se procurou demonstrar que os índices não
refletissem a desvalorização da moeda.
Acompanho o Relator.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 6.054-GO


(95.0038110-9)

Relator: Ministro Vicente Leal


Recorrente: Tonari Rodrigues Alves
Recorrido: Jose Luis Batista
Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça do Estado de Goiás
Impetrado: Primeiro Juiz de Direito da 3ª Vara Cível de Goiânia
Advogada: Aldenora Wanderley Rodrigues

EMENTA

Processual Civil. Civil. Locação. Decreto de despejo. Mandado


de Segurança. Ato judicial. Não interposição do recurso cabível.
Sentença transitada em julgado. Súmula n. 268, c. STF.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 403


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

- A jurisprudência pretoriana, amenizando os rigores do


comando expresso na Súmula n. 267 do Supremo Tribunal Federal,
tem admitido a impetração de segurança contra decisão judicial,
passível de recurso sem efeito suspensivo, desde que interposto este a
tempo e modo, ou ainda quando esta apresente natureza teratológica,
flagrantemente afrontosa ao direito.
- O decreto de despejo questionado não foi impugnado pelo
recurso regularmente previsto na lei processual, conferido a terceiro
prejudicado pelos efeitos da sentença, não consubstanciando, ademais,
ato teratológico, susceptível de causar dano irreparável ou de difícil
reparação ao impetrante.
- Ademais, em sede de ação de despejo, com sentença transitada
em julgado, apresenta-se inviável o emprego do mandado de segurança,
com vistas a obter a suspensão da execução do decisum, de acordo com
o disposto na Súmula n. 268, do C. STF.
- Recurso ordinário desprovido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Sexta


Turma do Superior Tribunal de Justiça, por unanimidade, negar provimento
ao recurso, na conformidade dos votos e notas taquigráficas a seguir. Votaram
os Srs. Ministros Fernando Gonçalves, Anselmo Santiago e Luiz Vicente
Cernicchiaro. Ausente, por motivo de licença, o Sr. Ministro William Patterson.
Brasília (DF), 08 de outubro de 1996 (data do julgamento).
Ministro Anselmo Santiago, Presidente
Ministro Vicente Leal, Relator

DJ 16.12.1996

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Vicente Leal: Trata-se de mandado de segurança impetrado


por ex-esposa de locatário de imóvel residencial, na qualidade de terceira
prejudicada, contra ato do MM. Juiz de Direito da 3ª Vara Cível da Comarca

404
SÚMULAS - PRECEDENTES

de Goiânia, consubstanciado na decretação da desocupação do imóvel por


ela ocupado, em sede de execução de sentença proferida nos autos de ação de
despejo proposta contra seu ex-esposo, o que teria resultado em ofensa a decisão
judicial anterior que constituíra o imóvel em questão em alimentos provisionais
de pensão alimentícia.
O eminente Desembargador relator do mandamus indeferiu liminarmente
a inicial, declarando o não cabimento da impetração do remédio constitucional
capaz de conferir efeito suspensivo ao ato judicial, de vez que a impetrante
dispunha de recurso próprio, previsto em lei, do qual a impetrante, como terceira
prejudicada não se utilizou.(fls. 133-136).
A egrégia 2ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás,
por unanimidade, negou provimento ao agravo regimental interposto e rejeitou
os embargos de declaração, sufragando o entendimento lançado na decisão
indeferitória da exordial (fls. 152-154 e 192-197).
lrresignado, a impetrante interpõe o presente recurso ordinário, repetindo
os argumentos deduzidos na inicial e pugnando, em síntese, pela suspensão da
execução da sentença, até que o locatário providenciasse outro imóvel de igual
acomodação para alojar sua família (fls. 201-209).
A douta Subprocuradoria-Geral da República, em parecer de fls. 109-111,
opina pelo improvimento do recurso.
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Vicente Leal (Relator): Ressalte-se, por primeiro, que a


jurisprudência dos nossos Tribunais, num processo evolutivo, tem amenizado
o rigor do comando expresso na Súmula n. 267, do Supremo Tribunal Federal,
admitindo o uso do mandado de segurança contra decisão judicial. Todavia,
exige-se a presença de certos pressupostos, tais como: (a) tenha sido a decisão
atacada pelo recurso próprio, desprovido de efeito suspensivo, ajuizado a tempo
e modo; ou (b) seja a decisão de natureza teratológica, flagrantemente afrontosa
ao direito; e (c) seja a decisão susceptível de causar dano irreparável ou de difícil
reparação.
No caso, como salientado no relatório, a decisão - decreto de despejo de
imóvel residencial - não foi atacada pelo recurso próprio e, além do mais, revela-
se em sintonia com o direito pertinente à matéria.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 405


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Com efeito, insurge·se a ora recorrente contra acórdão que confirmou a


decisão que indeferiu liminarmente a exordial do mandamus por ela impetrado
contra ato judicial que decretou a desocupação do imóvel por ela ocupado, em
virtude de sentença proferida em ação de despejo movida contra seu ex-esposo.
Alega o direito de permanecer no imóvel de propriedade do locador,
até que seu ex-marido, locatário deste, providenciasse novas acomodações
de padrões semelhantes, de vez que o aluguel do referido imóvel constitui
alimentos provisionais de pensão alimentícia, prestando-se, portanto, a ação
mandamental para impedir o desalojamento.
Ocorre, todavia, que a impetrante, na qualidade de terceira juridicamente
interessada, não se valeu do recurso de apelação regularmente previsto na
legislação processual, para impugnar a determinação judicial de retomada.
Ora, segundo o disposto no artigo 472 do Código de Processo Civil, os
efeitos da coisa julgada somente alcançam as partes envolvidas na demanda, não
atingindo terceiros prejudicados que não integraram a relação processual como
parte.
Assim sendo, é certo que o terceiro está legitimado a recorrer, por meio
de apelação, do ato decisório que haja lhe causado prejuízo, nos exatos termos
do comando do artigo 499 do CPC, com observância dos prazos estabelecidos
para as partes, contando-se da data em que teve ciência da sentença, in casu, do
decreto de despejo.
Ademais, em sede de ação de despejo, havendo sentença transitada em
julgado, apresenta-se inviável o emprego do mandado de segurança por terceira
pessoa, com vistas a obter a suspensão da execução do decisum, o que afrontaria
a jurisprudência consolidada no Verbete n. 268 do Pretória Excelso, que dispõe:

Não cabe mandado de segurança contra decisão judicial com trânsito em julgado.

Ressalte-se, por fim, que diante da situação apresentada, causaria repúdio a


constatação de que o locador, completamente alheio ás questões familiares que
envolvem o locatário e sua ex-esposa, ocupante do imóvel, viesse a sofrer, em seu
patrimônio, as conseqüências dessa relação conflituosa.
Entendimento contrário configuraria violação ao disposto no artigo 524
do Código Civil Brasileiro, norma assecuratória do direito de propriedade.
Assim, tratando-se de mandado de segurança impetrado contra ato judicial,
e não tendo sido a decisão impugnada pelo recurso cabível, seja, não objetivando

406
SÚMULAS - PRECEDENTES

o presente writ conferir efeito suspensivo a recurso dele desprovido, além de


não se tratar de ato capaz de ferir direito líquido e certo do impetrante, não se
revestindo também de caráter teratológico, nem sendo susceptível de causar
dano irreparável ou de difícil reparação, tenho, destarte, como inadmissível o
emprego do mandamus na presente hipótese.
Isto posto, nego provimento ao recurso.
É o voto.

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 6.317-SP (95.0053189-5)

Relator: Ministro Eduardo Ribeiro


Recorrente: Telecomunicações de São Paulo S/A Telesp
Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
Impetrado: Juízo de Direito da 8ª Vara Cível de São Paulo-SP
Recorrida: Confecções Assan Ltda - massa falida
Advogados: Adriana Maria Barreiro Telles e outros
Alfredo Luiz Kugelmas

EMENTA

Mandado de segurança. Ato judicial. Terceiro.


O terceiro, atingido em seu direito por determinação judicial,
poderá impetrar segurança, reunidos os demais requisitos legais, sem
que haja de, previamente, interpor recurso.
Desnecessidade, também, de que haja risco de dano irreparável
ou que seja teratológica a decisão.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Srs. Ministros da


Terceira Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 407


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, conhecer do recurso ordinário


e lhe dar provimento.
Participaram do julgamento os Srs. Ministros Waldemar Zveiter, Costa
Leite e Nilson Naves.
Brasília (DF), 22 de abril de 1996 (data de julgamento).
Ministro Waldemar Zveiter, Presidente
Ministro Eduardo Ribeiro, Relator

DJ 03.06.1996

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Eduardo Ribeiro: Telesp - Telecomunicações de São Paulo


requereu segurança, impugnando ato do MM Juiz da Oitava Vara Cível do
Tribunal de Justiça de São Paulo que, na revocatória ajuizada pela massa falida
de Confecções Assan Ltda, determinou fosse colocada, à disposição do Juízo,
em 10 dias, uma linha telefônica de número definido, sob penas da lei, apesar
de cancelada a assinatura por falta de pagamento e transferida a linha a outro
cliente.
Nas informações, esclareceu-se que “a r. decisão atacada pela impetrante
simplesmente ordenou o cumprimento do julgado, resguardando os interesses
da massa falida e da universalidade de credores”.
Foi denegada a segurança, proferindo-se acórdão assim ementado:

Mandado de Segurança. Ato judicial impugnado coberto pelo manto da


preclusão. Via eleita inadequada. Súmula n. 267 do Supremo Tribunal Federal.
Hipótese que não retrata a ocorrência daqueles atos intitulados “teratológicos.
Processo extinto sem julgamento do mérito.”

Inconformada, a impetrante apresentou recurso ordinário.


Perante esta Corte, o Ministério Público emitiu parecer no sentido de que
o “writ não é sucedâneo do recurso cabível. Necessário teria sido prévio agravo
de instrumento, cujo efeito suspensivo é que se poderia colimar mediante o
mandamus - tornando destarte preclusa a discussão da matéria”.

408
SÚMULAS - PRECEDENTES

É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Eduardo Ribeiro (Relator): Trata-se de pedido de


segurança formulado por terceiro, atingido por determinação judicial. Em
tal caso, a jurisprudência deste Tribunal firmou-se no sentido de que não se
impõe a prévia interposição de recurso. Assim, entre outros, os julgamentos
proferidos nos seguintes recursos em mandado de segurança: n. 150 (rel.
Gueiros Leite, DJ 07.05.1990), n. 1.114 (rel. Athos Carneiro, DJ 04.11.1991) n.
1.983 (rel. Waldemar Zweiter, DJ 13.12.1993), n. 4.315 (rel. Barros Monteiro,
DJ 05.09.1994) e n. 4.982 (rel. Nilson Naves, DJ 22.05.1995). O acórdão
da Terceira Turma, relativo ao RMS n. 333, citado no parecer do Ministério
Público estadual, tem dois fundamentos, embora a ementa apenas a um faça
referência. Proferi, naquele julgamento, o seguinte voto:

Sr. Presidente, peço vênia ao douto Relator para dissentir quanto a um dos
fundamentos. Entendo não exigível, para admissibilidade do mandado de
segurança contra ato judicial, a interposição do recurso, quando por terceiro.
Certo que o terceiro interessado tem legitimidade para recorrer, mas exigir que o
faça não me parece razoável, já que não é intimado dos atos processuais.

Entretanto, esclarece o eminente Relator a existência de outro fundamento,


pertinente ao próprio mérito do pedido, e também objeto do acórdão. É o que
basta para mantê-lo. Com essas observações, acompanho S. Exª.

Justifica-se plenamente esse entendimento. A decisão fica preclusa em


relação a quem é parte no processo, não quanto ao estranho.
E se dispensável a interposição do recurso, logicamente também o será
a exigência de que a decisão possa causar dano irreparável ou se exponha à
classificação de teratológica.
No caso em exame, mais ainda de adotar-se tal doutrina. Trata-
se de determinação dirigida especificamente a terceiro e de conteúdo não
jurisdicional.
Conheço do recurso e dou-lhe provimento para que, superada a preliminar
que levou à extinção do processo, prossiga a colenda Câmara no exame da
causa.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 409


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RECURSO EM MANDADO DE SEGURANÇA N. 7.087-MA


(96.0026495-3)

Relator: Ministro Cesar Asfor Rocha


Recorrente: Cerâmica Pinguim Ltda
Recorrida: Cerâmica Santa Fé Ltda
Tribunal de Origem: Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão
Impetrado: Juízo de Direito da 1ª Vara de Caxias-MA
Advogados: Vinícius C. de Berredo Martins
Raimundo Ferreira Marques e outro

EMENTA

Constitucional e Processual Civil. Mandado de segurança. Coisa


julgada. Terceiro não integrante da anterior lide. Despojamento da
posse de titular por justo título.
O terceiro que não integrou anterior processo pode investir, pela
via do mandado de segurança, contra a decisão decorrente de sentença
transitada em julgado, para impedir violação a seu direito líquido e
certo.
Afeta o princípio da ampla defesa o despojamento da posse de
bens adquiridos por justo título, nas circunstâncias da espécie, porque
“ninguém será privado de seus bens sem o devido processo legal”.
Recurso conhecido e provido.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Srs. Ministros da


Quarta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos e
das notas taquigráficas a seguir, por unanimidade, dar provimento ao recurso.
Votaram com o Relator os Srs. Ministros Ruy Rosado de Aguiar, Fontes
de Alencar e Sálvio de Figueiredo Teixeira. Ausente, justificadamente, o Sr.
Ministro Barros Monteiro.
Brasília (DF), 24 de março de 1997 (data do julgamento).

410
SÚMULAS - PRECEDENTES

Ministro Sálvio de Figueiredo Teixeira, Presidente


Ministro Cesar Asfor Rocha, Relator

DJ 09.06.1997

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Cesar Asfor Rocha: A recorrente impetrou mandado de


segurança contra ato do MM Juiz de Direito da 1ª Vara de Caxias alegando
que adquirira, por escritura pública de venda e compra, de Reinaldo Paixão
Bezerra e sua mulher, o imóvel que descreve, encontrando-se registrado em seu
nome desde 2 de março de 1993, tendo, antes de firmar indicado instrumento,
acautelado-se com as certidões que davam o imóvel como livre e desembaraçado
de quaisquer ônus ou gravames.
Os então vendedores, por seu turno, haviam adquirido referido imóvel
do Banco da Amazônia S/A (Basa), também por escritura pública de venda e
compra, esta datada de 22 de outubro de 1992, que por sua vez o adquirira de
Cerâmica Santa Fé Ltda., mediante Carta de Adjudicação extraída dos autos da
ação de execução movida por aquele contra esta.
Inobstante isso, argumenta a recorrente que foi surpreendida com a visita de
um Oficial de Justiça dando cumprimento a uma ordem emanada da autoridade
aqui impetrada naquele já referido e noutros bens, determinando a reintegração
de posse da Cerâmica Santa Fé Ltda., decisão essa que foi proferida na execução
provisória movida por esta contra o Basa, uma vez que o eg. Tribunal de Justiça
do Estado Maranhão havia julgado procedentes os embargos à arrematação
propostos pela dita Cerâmica contra a mencionada instituição financeira.
Dessa decisão de procedência dos embargos, fora interposto recurso
especial, cuja inadmissão ensejou o ingresso de agravo de instrumento pelo Basa.
À época da impetração do mandado de segurança agora apreciado em grau
de recurso ordinário, referido agravo de instrumento pendia de julgamento.
De logo observo, em parênteses, que esse agravo, no curso deste mandado
de segurança, foi provido por decisão do eminente Ministro Torreão Braz, que
então o relatava, o que possibilitou a apreciação do recurso especial que, sob
a minha relatoria e para o que ora interessa, foi provido por esta eg. Quarta
Turma, do que resultou desconstituída aquela referida arrematação, por ter sido

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 411


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

consumada por preço vil, tendo sido ordenada a realização de nova avaliação e
posterior praceamento.
A segurança foi denegada por maioria pelo eg. Tribunal a quo sob o
fundamento básico de que a anulação da arrematação importou na desvalia das
vendas posteriormente efetuadas.
Daí o recurso ordinário em exame.
Alega a recorrente que ainda é proprietária de referido imóvel pois que o
mesmo está inscrito no registro público imobiliário em seu nome desde o dia 2
de março de 1993.
Demais disso, a ordem de reintegração foi proferida em uma execução
provisória decorrente de uma demanda de embargos à arrematação travada
entre a Cerâmica Santa Fé e o Basa, da qual nunca participara.
Assim, além de a decisão que anulou a arrematação não ter declarado a
nulidade das vendas posteriormente ocorridas, a recorrente não participou da
pendenga dos embargos, razão pela qual não poderia ela se ver privada de seus
bens sem o devido processo legal, pois que lhe é assegurada ampla defesa.
Devidamente respondido, a douta Subprocuradoria-Geral da República
opinou pelo seu provimento.
Recebi o processo em 14 de fevereiro do corrente ano e remeti-o para
pauta no dia 05 do mês seguinte.
É o relatório.

VOTO

O Sr. Ministro Cesar Asfor Rocha (Relator): 1. Cuida-se de recurso em


mandado de segurança objetivando desconstituir a singela decisão cuja cópia
descansa às fls. 36, proferida nos autos da execução provisória promovida pela
Cerâmica Santa Fé Ltda. contra o Banco da Amazônia S/A, na parte assim
disposta:

1. Expeça-se mandado de reintegração de posse ao Exequente sobre todos os


bens objetos da Carta de Arrematação de fls., dos autos do Processo de Execução
Forçada que lhe propôs o Banco da Amazônia S/A., (Processo n. 2.333/1991 e n.
3.891/1991 - Cartório 2º Oficio), arrolando-se todos os bens reintegrados (fls. 36).

412
SÚMULAS - PRECEDENTES

De início cumpre examinar se seria idônea a via eleita do writ para alcançar
o objetivo colimado.
A hipótese é de mandamus impetrado por terceiro estranho à lide de onde
decorreu o ato vergastado que alegadamente lhe fere direito líquido e certo.
A questão, neste aspecto, está pacificada nesta Corte, consoante dão conta
os precedentes a seguir elencados.
Esta eg. Quarta Turma tem remansosamente admitido a utilização do
remédio heróico em casos que tais, consoante o decidido, dentre muitos outros,
no RMS n. 4.315-0 (DJU de 05.09.1994), relatado pelo eminente Ministro
Barros Monteiro, assim sumariado:

Mandado de segurança contra ato judicial impetrado por terceiro prejudicado.


O princípio de que o mandado de segurança não pode ser utilizado como
sucedâneo recursal aplica-se entre as partes, não incidindo quando se tratar
de segurança impetrada por terceiro com o objetivo de impedir lesão a direito
seu provocada por decisão judicial. Precedentes do STF e STJ. Recurso ordinário
provido parcialmente.

No mesmo sentido o julgado pela colenda Terceira Turma, liderada pelo


eminente Ministro Gueiros Leite, no RMS n. 243-RJ, cuja ementa está assim
estampada:

Terceiro. Mandado de Segurança em execução de sentença.


Não investe contra a coisa julgada o Mandado de Segurança impetrado por
quem não foi parte no processo, e está sendo executado e que poderá, por essa
via, opor limites à eficácia da sentença exeqüenda. (in RSTJ 15/170).

Destarte, factível é a utilização do mandado de segurança para desconstituir


o ato hostilizado.
2. Passo a examinar agora se a recorrente tem direito líquido e certo a ser
reparado pelo meio escolhido.
A recorrente adquiriu de Reinaldo Paixão Bezerra e sua mulher, por
escritura pública de venda e compra. O imóvel que estes adquiriram do Banco
da Amazônia S/A, sociedade de economia mista federal, que por sua vez o
adquirira, mais de um ano antes, em arrematação procedida nos autos da ação de
execução que promovia contra a Cerâmica Santa Fé Ltda.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 413


SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Ora, quem compra de uma idônea instituição financeira pública (em


sentido lato) um imóvel por esta adquirido com o placê de um Órgão do
Poder Judiciário, quando mais tendo anteriormente se precatado com
certidões negativas de ônus ou gravames, evidentemente que o fez movido por
incontestável boa-fé.
Ainda que a presença desse elemento, quando da aquisição do imóvel,
não seja de decisiva relevância para o deslinde da controvérsia - ou possa até
não ter nenhuma importância - não vejo impertinência em destacá-lo como
demonstração do espírito de que estava imbuída a recorrente quando celebrou a
mencionada compra.
Pontificam os incisos LIV e LV, do art. 5°, da Constituição Federal,
respectivamente:

LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido


processo legal;
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em
geral são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a
ela inerentes.

Ora, no caso, a recorrente detém ainda hoje o domínio do imóvel cogitado,


adquirido mediante justo título, e sobre cujo registro não houve até agora
nenhuma investida por parte de quem quer que seja, nem mesmo pela Cerâmica
Santa Fé Ltda.
A sua titularidade sobre a propriedade continua incólume, até porque a
decisão judicial que decretou o desfazimento da arrematação não fez nenhuma
referência quanto aos efeitos disso decorrentes, vale dizer, se teria ou não o
condão de nulificar todas as vendas posteriormente efetuadas.
Não estou a cogitar aqui e agora sobre se a desconstituição da arrematação
importou ou não, automaticamente, só e só por ela, na nulificação nas alienações
subseqüentes.
Essa não é a questão posta, por isso mesmo que debruçar sobre ela, neste
processo, importaria em desvio de seu enfoque.
O que se deve decidir é se o MM Juiz de Caxias, nos autos de uma
execução provisória de que não participava a recorrente, poderia singelamente
espancar da posse quem nela estava investido pela titularidade do direito de
propriedade do bem, adquirido por justo título, nas condições acima relatadas.

414
SÚMULAS - PRECEDENTES

Tenho para mim que não.


E não poderia exatamente porque “ninguém será privado de seus bens
sem o devido processo legal”, como também porque “aos acusados em geral
são assegurados o contraditório e ampla defesa, com os meios e recursos a ela
inerentes”.
Destarte, não poderia a recorrente ser assim tão abruptamente enxotada
do imóvel de que detinha propriedade e posse, e onde exercitava a sua atividade
empresarial.
Ademais, da simples confrontação da “Carta de Arrematação” (fls. 17-26)
com a “Relação dos Bens” (fls. 38-40), em cuja posse a Cerâmica Santa Fé Ltda.
foi imitida, verifica-se, com muita facilidade, que a recorrente foi despojada de
muito mais do que fora arrematado pelo Basa, o que evidencia ainda mais a
ilegalidade da medida ora atacada.
3. Poder-se-ia redargüir que a medida processual exata para neutralizar a
medida reintegratória cogitada seria a dos embargos de terceiro.
Pode até ser. Nem por isso, contudo, estaria afastada a possibilidade da
utilização do mandado de segurança, como instrumento mais eficaz e mais
célere para a defesa imediata de seus direitos tão arbitrariamente postergados.
Aliás, nessa mesma linha já decidiu a eg. Terceira Turma sob a condução do
eminente Ministro Cláudio Santos quando do julgamento do RMS n. 4.847-0-
MG, conforme informa a seguinte ementa, naquilo que há de útil para a espécie:

O possuidor do bem, cuja situação de fato não padece de qualquer dúvida,


tem direito líquido e certo amparável pela via do mandado de segurança,
independente do direito à ação de embargos de terceiro não exercitado.

4. Diante do exposto, e por tudo o mais que foi colocado pela douta
Subprocuradoria-Geral da República no seu judicioso Parecer de fls. 132-143,
conheço do recurso e dou-lhe provimento para o fim de cassar o ato judicial
atacado na parte que reintegrou a Cerâmica Santa Fé Ltda na posse do imóvel
e dos demais bens postos na “Relação ...” de fls. 38-40, e, por decorrência,
reintegrar a recorrente na posse desses mesmos bens.

RSSTJ, a. 4, (14): 363-415, outubro 2010 415

Você também pode gostar