O Homem que Vendia Amanhãs
Na Rua dos Antiquários, entre lojas de moedas raras e relógios antigos, havia uma pequena porta de
madeira sem placa. Pouca gente reparava nela. Quem entrava encontrava prateleiras cobertas de
caixas, frascos e livros empoeirados. O dono era um senhor magro, de olhos claros demais para sua
idade. Todos o chamavam apenas de Elias.
A fama dizia que ele não vendia objetos comuns. Vendia “amanhãs”.
Certo dia, Júlia, uma jovem cansada da rotina de escritório, entrou na loja por curiosidade. Elias
sorriu como se já a esperasse.
— Procura algo específico?
— Nem sei o que vendem aqui — respondeu ela.
Ele apontou para uma vitrine onde descansavam pequenos frascos de vidro. Cada um brilhava em
tom diferente: azul, dourado, esverdeado.
— Aqui guardo amanhã. Cada frasco contém um futuro.
Júlia riu.
— E como funciona?
Elias pegou um frasco dourado.
— Este, por exemplo, lhe daria o amanhã que deseja: sucesso, reconhecimento, aplausos. Basta
abrir ao amanhecer e inalá-lo. Mas cada frasco tem preço.
— Dinheiro?
Ele sorriu, enigmático.
— Algo mais valioso.
Apesar da estranheza, Júlia sentiu-se tentada. Estava exausta da vida sem brilho.
— E qual seria o preço?
Elias a fitou com olhos translúcidos.
— Uma lembrança que você ama.
Júlia hesitou. Pensou na avó falecida, nas tardes de infância. Mas o desejo de mudar venceu.
— Quero tentar.
Assinou um papel sem ler direito. Pagou com a lembrança do aniversário de dez anos, quando a avó
lhe dera o primeiro livro. Sentiu a memória desaparecer como fumaça.
Na manhã seguinte, abriu o frasco. Uma névoa dourada envolveu seu quarto. E, ao longo do dia,
tudo mudou: o chefe a elogiou, colegas a aplaudiram, e até recebeu convite para palestrar. Era como
se o universo tivesse aberto portas invisíveis.
Maravilhada, voltou à loja.
— Quero outro amanhã.
Elias apenas ergueu as sobrancelhas.
— Cuidado. Cada memória perdida é um pedaço de quem você é.
Mas Júlia insistiu. Abriu mais frascos, entregando lembranças em troca. Primeiro foi o rosto da
melhor amiga, depois o cheiro da praia da infância, depois a voz da mãe cantando. A cada negócio,
sua vida se tornava mais brilhante — viagens, prêmios, romances efêmeros.
Até que, numa manhã, acordou no quarto luxuoso de um hotel em Paris e não reconheceu a própria
face no espelho. Nem lembrava seu nome completo.
Apavorada, correu de volta à loja.
— Preciso recuperar o que perdi!
Elias suspirou.
— Eu avisei. O amanhã não é presente. É empréstimo.
— Então… posso devolver?
— Pode escolher um último frasco. O amanhã definitivo. Mas para isso, deve entregar tudo que
ainda resta.
Júlia tremeu.
— E se eu recusar?
— Então continuará vivendo dias que não reconhece, até não sobrar nada de você.
Havia apenas uma escolha. Aceitou.
Elias entregou-lhe um frasco transparente, sem cor.
— Abra ao amanhecer.
Na manhã seguinte, Júlia abriu o frasco. Uma névoa fria a envolveu. Quando abriu os olhos, estava
novamente no pequeno quarto do bairro simples onde crescera. O relógio marcava seis da manhã de
um dia ensolarado. Ao lado da cama, havia livros escolares e uma mochila infantil.
Ela correu ao espelho. Não era mais adulta. Tinha dez anos.
Desceu correndo e encontrou a avó viva, preparando café. A emoção foi tão intensa que caiu em
lágrimas. A avó, sem entender, a abraçou.
— O que foi, menina? Teve um sonho ruim?
Júlia não sabia responder. Perdera a memória de muitas coisas, mas agora ganhara algo maior: a
chance de recomeçar.
Na Rua dos Antiquários, a loja de Elias desaparecera. Quem passava só via um muro de tijolos.
Mas, dizem, em noites de lua cheia, é possível ouvir uma voz atrás da parede sussurrando:
— Amanhã está à venda. Qual é o seu preço?