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O Relógio do Farol e Seus Mistérios

outra história

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Caroline Felix
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🌊 O Relógio do Farol

O farol de Pedra Alta ficava no extremo de uma falésia, solitário, castigado pelo vento e pelo sal.
Tinha mais de cem anos e ainda funcionava, embora o tráfego marítimo na região tivesse diminuído
muito. O último faroleiro era Augusto, um homem de sessenta anos, calado e meticuloso, que
morava sozinho com seu cachorro, Nero.
Diziam que o farol guardava segredos. Alguns pescadores contavam que, em noites de tempestade,
o facho de luz girava ao contrário. Outros juravam ouvir sinos vindos do alto da torre, mesmo
quando nada tocava lá dentro. Augusto raramente comentava. Para ele, o farol era apenas trabalho.
Mas havia uma coisa que nem ele conseguia explicar: o relógio antigo instalado no salão principal.
Um artefato enorme, com ponteiros de bronze e engrenagens expostas, que funcionava desde antes
do nascimento dele. O estranho era que o relógio não marcava horas comuns. Os ponteiros giravam
de maneira irregular, às vezes lentos como caramujos, às vezes velozes como ventos. Ainda assim,
sempre que Augusto o consultava, algo acontecia.
Certa vez, olhou para o mostrador e viu o ponteiro menor apontar para uma marca vermelha.
Naquele exato momento, o rádio chiou e anunciou a aproximação de uma tempestade — horas antes
das nuvens surgirem. Outra vez, o ponteiro maior travou num número, e minutos depois um navio
ligou pedindo socorro naquela mesma coordenada.
Augusto começou a desconfiar de que o relógio não media o tempo, mas sim o destino.
Numa noite de inverno, enquanto o vento uivava e Nero latia para a escuridão, Augusto notou algo
inédito: os dois ponteiros alinhados sobre um símbolo dourado, que ele nunca havia visto antes.
Sentiu um arrepio. Subiu até o topo do farol e, olhando pelo telescópio, viu uma embarcação antiga,
iluminada por lamparinas a óleo, navegando contra as ondas.
— Isso não é possível… — murmurou.
A embarcação parecia saída de outro século. As velas estavam esfarrapadas, e a bandeira tremulava
com um brasão que Augusto reconheceu dos livros de história: era o “Águia Real”, nau que
desaparecera em 1823 sem deixar vestígios.
O coração dele disparou. O relógio estava anunciando não uma tragédia, mas uma aparição.
Decidiu acender o facho do farol ao máximo, guiando o navio fantasma. Durante horas, observou a
embarcação resistindo às ondas até que, de repente, desapareceu diante de seus olhos, como se
nunca tivesse estado ali.
No dia seguinte, desceu à praia para investigar. Entre as algas e conchas, encontrou um baú corroído
pelo tempo. Dentro, havia mapas náuticos, moedas antigas e um diário em couro. As páginas
narravam a última viagem do capitão do “Águia Real”. A última frase, borrada de água salgada,
dizia:
"Se alguém ler estas palavras, saiba que seguimos a luz de um farol que não existia em nosso
tempo."
Augusto sentiu as mãos tremerem. Será que o relógio permitira um cruzamento entre épocas?
Nas semanas seguintes, passou a registrar cada movimento dos ponteiros. Descobriu padrões:
quando o menor fazia um ciclo completo, algo do passado emergia. Quando o maior dava duas
voltas rápidas, pressagiava um desastre futuro. Era como se o farol fosse uma fronteira entre
tempos.
Uma noite, o relógio soou doze badaladas secas. Nunca tinha feito isso. Augusto correu até a janela:
no mar, não havia tempestade nem navio. Mas, quando olhou para o reflexo no vidro, não viu seu
próprio rosto. Viu o de um jovem, de farda azul-marinho, que parecia ser… ele mesmo, quarenta
anos atrás.
O reflexo abriu a boca e disse sem som:
— Escolha.
Augusto caiu para trás, ofegante. O relógio marcava novamente o símbolo dourado.
Nos dias seguintes, não conseguiu dormir. O que significava aquela escolha? Salvar o passado?
Mudar o futuro? Ou abandonar tudo?
A resposta veio em uma carta inesperada. Uma empresa de turismo queria desativar o farol para
transformá-lo em atração hoteleira. Se aceitasse assinar os papéis, receberia uma grande
indenização. Seria o fim da vida solitária.
Mas, quando olhou para o relógio, viu os ponteiros girarem desesperados, como se protestassem. O
farol não era apenas uma construção — era guardião do fluxo do tempo.
Na madrugada em que deveria assinar os documentos, Augusto tomou sua decisão. Subiu ao salão
principal, encarou o relógio e disse:
— Escolho ficar.
No mesmo instante, os ponteiros se alinharam uma última vez. O salão foi tomado por luz dourada,
Nero latiu furiosamente, e Augusto sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
Quando abriu os olhos, estava no convés de uma nau, cercado por marinheiros do século XIX.
Vestia farda, e todos o chamavam de capitão. Ao longe, via um farol brilhando na falésia — mas
não o de Pedra Alta moderno. Era um farol mais rústico, do século passado.
Augusto compreendeu: tornara-se parte do destino que o relógio guardava.
E dizem os pescadores que, em noites de tempestade, ainda é possível ver uma embarcação antiga
navegando perto da falésia, guiada por um farol cuja luz gira ao contrário.

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