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Dança do Coco: Transformações Culturais em Balbino

Pesquisa sobre a dança do coco do Ceará. Trata de resistência, tradição e ancestralidade dos povos litorênos

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Dança do Coco: Transformações Culturais em Balbino

Pesquisa sobre a dança do coco do Ceará. Trata de resistência, tradição e ancestralidade dos povos litorênos

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“A dança do Coco é a dança do pescador”: ressignificações culturais em contextos

de mudanças

Camila Mota Farias1


Francisco José Gomes Damasceno 2

Resumo

Este artigo discute as significações da dança do Coco na Comunidade de Balbino –


Cascavel/CE. Compreendida como uma manifestação das Culturas Populares de origem
afro-indígena, apresenta significados diferentes desde a sua consolidação na
comunidade, nos anos de 1940, até os dias atuais. Buscando-se compreender essas
transformações em relação às mudanças históricas da Comunidade, está sendo realizada
uma pesquisa documental em Jornais, no Arquivo da Associação de Moradores de
Balbino, e entrevistas, através da Metodologia da História Oral, com dançadores de
Coco e com sujeitos da Comunidade. A Comunidade passou por um processo de
especulação imobiliária no período de 1984-1997, em que ocorreram modificações, a
partir de teias de relações estabelecidas com diversas entidades. Essas movimentações
reposicionaram a dança do Coco, antes praticada como brincadeira passando a ser
experimentada como “dança de pescador”. Assim, a Comunidade de Balbino e os
sujeitos que a formam podem ser compreendidos a partir dos (re)posicionamentos e das
(re)significações atribuídas à dança pelos brincantes e moradores.
Palavras-chave: Dança do Coco. Cultura Popular. Brincadeira. Identificação.

"The dance of Coco the fisherman’s dance": signification cultural and contexts of
change
Abstract

This article discusses the meanings of dance in the Coconut Community Balbino -
Cascavel / EC. Understood as a manifestation of the Popular Cultures of african origin-
Indian, has different meanings since its consolidation in the community, in the 1940s
until the present day. Seeking to understand these changes in relation to historical
changes in the Community, is being conducted a documentary research in newspapers,
in the Archives of the Association of Residents of Balbino, and interviews through the
Methodology of Oral History, dancers with coconut and subjects Community. The
Community has gone through a process of speculation in the period 1984-1997, during
which changes from webs of relationships with NGOs, government and the Church.
These moves led to a repositioning of dance as practiced Coconut before passing game
to be experienced as "Fisherman's Dance". Thus, the Commonwealth of Balbino and the
subjects that form can be understood from the (re) positioning and (re) meaning
attributed to the revelers dance and residents
Keywords: Dance Coco. Popular Culture. Just kidding. Identification.

1
Graduanda de História da Universidade Estadual do Ceara (UECE), bolsista de Iniciação Científica
IC/UECE e integrante do Laboratório de Estudos e Pesquisas em História e Culturas - DÍCTIS.
2
Professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e do Mestrado Acadêmico
em História – MAHIS/UECE. Líder do Laboratório de Estudos e Pesquisas em História e Culturas -
DÍCTIS. Pesquisador do CNPq.
2

I – Os Cocos, os seus estudos e as histórias

O Coco, prática realizada pelas culturas populares de origem afro-indígena,


envolve dança, com passos de sapateado e batidas de palmas; música, com um ritmo de
batuque advindo de instrumentos de percussão; poesia, através das letras cantadas pelo
Mestre e pelos brincantes: a embolada de Coco. Dividindo-se em dois tipos de Cocos, o
Dançado e o apenas Cantado, o coco-de-embolada.

É consenso entre os estudiosos dos Cocos brasileiros a sua origem afro-


indígena, devido à presença de elementos indígenas como os movimentos em roda, no
Coco de roda, e a estrutura poética-musical, e de elementos das culturas negras como os
instrumentos de percussão utilizados (ganzá, caixão, zambê, etc), a umbigada, o ritmo e
o canto com estrofes seguidas de refrão fixo cantado pelos brincantes.3

A dança do Coco, como manifestação cultural, ocorre em diversas áreas do


Nordeste brasileiro, tendo sido estudados em Estados como Paraíba, Rio Grande do
Norte, Bahia, Ceará, entre outras. Em cada localidade em que se manifestam, os Cocos
são apropriados e praticados de formas específicas, devido às experiências dos
brincantes e as particularidades de cada local e época, portanto é mais adequado
chamarmos de Cocos, e não apenas de Coco.

No Ceará, sertão e mar, podemos encontrar a dança em Iguape, em Caetanos


de Cima, em Trairi, em Cariri, em Aracati, em Chorozinho, em Balbino. A escolha de
Balbino para o presente estudo está ligada a diversos fatores, por exemplo, a
comunidade ser a referência dos Cocos cearenses para outros brincantes 4, além de, nessa
comunidade, existirem certas especificidades na dança/brincadeira que não existem em
outras, como o Coco dançado em forma de sapateado5 e o fato dos dançantes utilizarem

3
Cf. AYALA, Maria Ignez; AYALA, Marcos (Orgs.). Cocos: alegria e devoção. Natal: EDUFRN, 2000.
4
Como sugere o cientista social Ninno Amorim, ao pesquisar sobre a dança do Coco no Iguape e em
Balbino, apontando a dança de coco de Balbino como uma referência para os brincantes de Iguape devido
as performances dos brincantes e do antigo mestre de coco da localidade. Cf. AMORIM, Ninno. Os
Cocos no Ceará: dança, música e poesia oral em Balbino e Iguape. Dissertação (Mestrado) apresentada
ao Departamento de Ciências Sociais. Fortaleza: UFC, 2008.
5
Oswald Barroso observa dois tipos de Coco: o Coco de sapateado no qual a dança ocorre ou em roda e os
brincantes vão de dois em dois ao centro se desafiar, e o Coco de roda, que ocorre na mesma forma da
ciranda, os parceiros são os que estão ao lado, portanto o brincante tem dois parceiros, diferente do coco
de sapateado que tem apenas um. Cf. BARROSO, Oswald. O coco de praia em Majorlândia. CARIRY,
Rosemberg; BARROSO, Oswald (Orgs.). In: Cultura insubmissa: estudos e reportagens. Fortaleza:
Secretaria de Cultura e Desporto, 1982. Entretanto o Coco realizado em Balbino, e nomeado pelos
brincantes de coco de sapateado, ocorre seguindo outra disposição: formam-se duas fileiras paralelas e os
3

como vestes as roupas dos pescadores para viverem e experimentarem a sua


apresentação.

Fazendo uma sondagem nos estudos sobre os Cocos brasileiros, percebemos


que podem ser divididos em dois grupos: os estudos de folcloristas e os estudos de
cientistas sociais.

Dentre os Estudos de folcloristas destaca-se o de Mário de Andrade e a


Missão de Pesquisas Folclóricas da Discoteca Municipal de São Paulo, estes
pesquisaram sobre os Cocos no Nordeste entre dezembro de 1928 a fevereiro de 1929,
reunindo uma vasta documentação, entretanto fazendo uma abordagem da manifestação
e da cultura popular como ingênua e ameaçada pela civilização. Mario de Andrade traz
diversas contribuições para entendermos esta prática, compreendendo que existe certa
confusão quanto à definição de Coco, tendo em vista que muitas outras manifestações
estão sendo chamadas de Coco sem sê-las. Percebe, também, que existe uma interação
impossível de se separar entre música, dança e poesia, mesmo assim, acredito que pela
sua formação, dedica boa parte dos estudos analisando as letras de Cocos. 6

No final da década de 1990, a partir de incentivos da Universidade Federal


da Paraíba, iniciou-se um projeto a fim de identificar e registrar os Cocos em diversas
localidades do Estado, pesquisa que resultou em um livro 7 organizado por Marcos
Ayala e Maria Ignez Ayala. Estes, ao pesquisarem os Cocos na Paraíba, perceberam as
suas multiplicidades da manifestação, como já apontava Mario de Andrade, e elencaram
aspectos sobre os seus praticantes:

Pode-se afirmar que a brincadeira do coco é dança de minorias discriminadas,


por diversas condições: pela etnia (negros, índios e seus descendentes), pela
situação econômica (pobreza, às vezes extrema), pela escolaridade (iletrados
ou semi-alfabetizados), pelas profissões que exercem na sociedade
(agricultores com pequenas propriedades ou sem terra, assentados rurais,
pescadores, pedreiros, domésticas, copeiras de escolas). A dança passa por
diferentes formas de interferência, qualquer que seja seu contexto, porque é
difícil qualquer autonomia cultural em região de forte controle político, como
o Nordeste, onde se aguçam as formas de dependência devido à pobreza
extrema da população.8

parceiros são os que estão em posições correspondentes nas fileiras, assim, todos dançam juntos,
simultaneamente.
6
ANDRADE, Mario de. Os Cocos. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002.
7
Ayala; Ayala, op. cit.
8
Ibid. p. 37-38.
4

Interessante perceber que estes elementos (a etnia, a situação econômica, a


escolaridade, as profissões e as interferências), assim como outros, citados por Ayala
também são encontrados no Ceará e, mais especificamente, na comunidade de Balbino.

Entretanto, estes escritos, assim como o do cientista social Ninno Amorim,


que aborda os Cocos na comunidade do Iguape e de Balbino, ambas localizadas no
Ceará, são análises voltadas para a antropologia, levantando questões relacionadas à
poesia, ao canto e a dança no presente, considerando-se o contexto em que vivem os
dançadores e cantadores, o significado que a brincadeira do coco tem para eles, mas não
buscam as origens desta manifestação e o seu percurso, as permanências e as
modificações, ou seja, o caminho até sua configuração no presente.

Outros escritos sobre os Cocos no Ceará são os de Rodrigues de Carvalho 9,


de Juvenal Galeno 10, Florival Seraine11 e Oswald Barroso12, apesar de trabalhos muito
bons, como já reconheceu Amorim, não se destinam especificamente aos Cocos, mas
sim a Cultura Popular e as suas manifestações.

Diferente de Ayala e dos outros estudiosos dos Cocos, Amorim opta por não
classificar a manifestação como pertencente às culturas populares, mas apenas como
uma manifestação cultural, tendo em vista que elenca, segundo Renato Ortiz 13, dois
tipos de análises da cultura popular, a dos “folcloristas” e a dos “românticos”, que
respectivamente entendem-na como natural, ingênua, ameaçada pela “modernização” e
autêntica, autônoma a uma cultura “letrada”. Ambas as leituras colocam a cultura
popular em oposição à cultura “letrada”, “erudita”, seja em uma relação de
independência ou de subordinação. Assim, o pesquisador não pensa que:

[...] o caminho para uma melhor compreensão da brincadeira do coco que


acontece na atualidade seja o de enquadrá-la na “gaveta” da cultura popular.
Este estudo persegue a noção de interação entre as várias pessoas envolvidas
no coco, desde o dançador que o constrói e toca o caixão de madeira,
passando pelos promotores de eventos culturais, até chegar ao público que
não apenas contempla o espetáculo, mas se lança na roda de coco e peleja no
aprendizado da dança e da repetição do coro.14

9
RODRIGUES DE CARVALHO, José. Cancioneiro do Norte. 3. ed. Rio de Janeiro: MEC/Instituto
Nacional do Livro, 1967.
10
GALENO, Juvenal. Lendas e Canções Populares. Fortaleza: Henriqueta Galeno, 1969. 2º volume.
11
SERAINE, Florival. Antologia do Folclore Cearense. 2. ed. Fortaleza: Edições UFC, 1983.
12
Barroso, Oswald, op. cit.
13
ORTIZ, Renato. Cultura Popular: românticos e folcloristas. São Paulo: Olho d'água, 1992.
14
Amorim, Ninno, op. cit., p. 41.
5

Concordando com Amorim, não podemos “engavetar” os Cocos nessas duas


perspectivas, tendo em vista que nenhuma delas possibilita a compreensão das
multiplicidades e dos reposicionamentos existentes nesta manifestação. Entretanto, não
podemos negar que esta pertence às práticas populares devido a diversos elementos
como: os instrumentos utilizados; a embolada; os improvisos nas danças e nas músicas;
os passos da dança; a forma de transmissão ser principalmente oral; os indivíduos que a
praticam serem pertencentes às camadas subalternas, etc.

Assim, pode-se pensar os Cocos como prática característica das culturas


populares, o que nos reporta à indagação sobre o que é cultura? A resposta será pensada
com base nos estudos desenvolvidos pela História Cultural15 e pela Antropologia, que
levam em consideração as representações, os significados, os símbolos, as
sensibilidades e experiências dos sujeitos sociais. O termo Cultura, do latim colere,
significa cultivar. A palavra já se referiu as realizações materiais dos povos, a algo inato
ao ser humano, natural... Mas, vamos entender a cultura, ou as culturas:

Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (o que eu chamaria


símbolos, ignorando as utilizações provinciais), a cultura não é um poder,
algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os
comportamentos, as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo
dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos
com densidade. 16

As Culturas, portanto, seriam as teias de significados tecidas e transmitidas


pelos homens a partir de suas interações com a natureza e a sociedade. Mas, então como
entender o que é cultura popular? Não sendo possível uma resposta precisa, definitiva,
recorremos ao entendimento proposto por Bosi ao explicitar as culturas populares como
“uma realidade cultural estruturada a partir de relações internas no coração da
sociedade”. 17 Nessa perspectiva, as manifestações culturais ganham sentidos e
realidades próprias em contextos específicos e não estão isoladas, mantendo diálogos e
entrecruzamento com as ditas culturas “letradas”, e num contexto mais atual, com as
culturas de “massas”.

15
“Pode-se dizer que a proposta da História Cultural seria, pois, decifrar a realidade do passado por meio
das suas representações, tentando chegar àquelas formas, discursivas e imagéticas, pelas quais os homens
expressam a si próprios e o mundo”. Cf. PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. 2.
ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2005. p. 42.
16
GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989. p. 24.
17
BOSI, Ecléia. Cultura de Massa e Cultura Popular. Leituras de operárias. [Link]. Rio de Janeiro:
Vozes, 2009.p. 77.
6

A partir desta perspectiva o Coco, enquanto manifestação das culturas


populares, se faz possível como objeto de estudos históricos. As danças, as brincadeiras
e as músicas populares possuem, ainda, uma lacuna na produção historiográfica, pois
grande parte dos estudos sobre o assunto não as compreende como promotoras de
saberes, de relações sociais e de experiências, e, portanto, de histórias. Propomos neste
estudo uma abordagem histórica, que está constantemente recorrendo às ciências
sociais, voltando-se para compreender a trajetória de uma manifestação cultural popular
em sua singularidade, a dança do Coco e os seus significados para a comunidade que a
vivencia.

II - “Balbino é terra de negro e de índio”


A Comunidade de Balbino pertence ao município de Cascavel e ao distrito
de Caponga, está localizada a aproximadamente 60 km da capital cearense.

Ao entrar na Comunidade de Balbino nos deparamos com uma extensa área


de mangue, onde acontecem alguns rituais como o tingimento da roupa do
pescador a partir da casca do cajueiro e do mangue vermelho. O mangue
segue até a praia. Deparamo-nos, também, com dois caminhos de terra
batida: à direita um caminho no qual não passa carros e seguindo-o encontra-
se a Lagoa Seca a partir da qual surgiu Balbino, pois, segundo os moradores,
ao seu redor, há mais de duzentos anos, localizavam-se as habitações dos
índios e dos negros que deram origem à Comunidade; à esquerda
encontramos um caminho mais firme, apesar de suas irregularidades, este nos
dá acesso à sede do Projeto Coco (um Projeto de artesanato), as Igrejas, a
praça, aos mercadinhos, ou seja, à parte mais habitada da comunidade.
Balbino possui aproximadamente duzentas casas que começam em sua
entrada e vão seguindo em direção ao mar, neste caminho encontramos o
silêncio, animais como garças e outros pássaros, além de vários coqueiros
que nos acompanham até a praia. Os homens caminham pelas ruas à-vontade,
apenas de bermudas, alguns param em um pequeno bar para cumprimentar os
compadres e beber uma dose de cana, outros encontram-se sentados em
pequenos bancos de madeiras em varandas, ou quintais, de suas casas e
parecem muito concentrados em um trabalho de remendar tarrafas para que
mais tarde essas possam ser jogadas ao mar. As mulheres não aparecem com
frequência pelas ruas, permanecem em suas casas com a família, ou em
trabalhos de renda e domésticos. Os jovens transitam com maior frequência,
em bicicletas e a pé trilham apressadamente caminhos. Quando chegamos à
praia avistamos uma ruma de jangadas espalhadas pela areia e entre elas
encontravam-se algumas barracas de pescadores, onde se pode comer um
bom peixe-frito ou tomar uma água de coco. O mar e sua imensidão, sem
muitos banhistas, apenas algumas crianças que brincam com as ondas e
dividem o cenário com jangadas que flutuam nas águas de Balbino. 18

18
Diário de Campo feito por esta pesquisadora em Balbino no dia 27 de outubro de 2010.
7

Balbino possui aproximadamente 964 moradores, fundada a partir de índios


e negros que fugiam da escravidão e da Guerra do Paraguai, cresceu a partir da Lagoa
Seca e da pescaria. Nomeada de Balbino, segundos os seus moradores, devido à
primeira família a habitar a localidade, a família de Antônio Balbino. Nas palavras de
dois líderes da Comunidade:

Bom, a história do Balbino ela surgiu praticamente os avós da gente que


foram os principiantes, as raízes, então juntou aquela pequena comunidade,
que era pouca mermo, você chegava lá e contava quantas pessoas moravam
no vilarejo, era bem pouquinho, tinha a Lagoa Seca, que era mais o pessoal
mais velho que morava lá ao redor da Lagoa Seca numa casinha assim
coberta com palha de coqueiro, mas num cajueiro, num era uma casa, era um
cajueiro que se fazia a casa e morava dentro, naquele tempo inda era assim e
a vivência era pescador, morava ao redor de uma Lagoa, então lá se criaram
os pescadores, os homens que começaram a vida de Balbino, no caso ele lá se
chamava é, Antônio Balbino, o mais velho, a raiz antiga né, chamava-se
Antônio Balbino (risos). 19
A Comunidade do Balbino veio daquela época, minha vó contava, dos índios.
Ali ela disse, que até justamente a família do meu esposo que era também um
dos índio, ela disse que esse pessoal era o pessoal que vinha do tempo da
Guerra do Paraguai que vinha fugindo pra não ir pras escravidão, pra num ir
pra guerra [...] Aí ela dizia assim, eu tinha oito anos de idade: Isso aqui
minha filha, o mar num era aqui, o mar era mais longe, aqui era umas mata
grandes que o pessoal vinha fugindo de outros lugares pra num ir pra
escravidão aí eles ficava escondido dentro das matas... aí tem a família
Balbino que Balbino é Balbino, por causa dessa família.20

Em 1980 o litoral cearense passou por um movimento de especulação


imobiliária, e em Balbino não foi diferente. Esta se iniciou na Comunidade em 1984 e
se intensificou em 1987, perdurando por 13 anos, levando a comunidade a organizar-se
social e politicamente, construindo uma luta por suas terras e pelo seu viver.

Foi criada na Comunidade, após anos de conflitos e de resistências, em 21


de setembro de 1988, a Área de Preservação Ambiental (APA) 21 e, em 1997, com a
visita do então governador do Estado Ceará, Tasso Jereissati, os moradores receberam o
título coletivo da posse de suas terras. Sobre este processo de luta contra a especulação

19
Pedro Francisco Faustino, vulgo “Seu” Pedro, 72 anos, em entrevista realizada por esta pesquisadora
no dia 18 de dezembro de 2010, na residência do brincante localizada no Bairro Jardim das Oliveiras, em
Fortaleza. p.1. “Seu” Pedro é “filho do Balbino”, entretanto mora em Fortaleza desde 10 anos de idade,
foi presidente da Associação de Moradores e hoje é o 2° Vice Diretor Executivo.
20
Francisca Ferreira Faustino, 66 anos, em entrevista realizada por esta pesquisadora no dia 27 de
outubro de 2010 na residência da depoente em Balbino. “Dona Francisca” foi a primeira presidente da
Associação de Moradores e trabalha como rendeira. p. 10.
21
Disponível em: <[Link] Acessos em 14 de novembro de 2010.
8

imobiliária e de conquista pela terra, o Jornal O Povo, em reportagem em que apresenta


uma cronologia desta luta, afirma:

Julho de 1987 – Moradores do local denunciam que homens armados,


identificados como policiais civis, teriam invadido e queimado quatro casas e
derrubado cercas com tratores, além de ameaçar de prisão os moradores. O
então proprietário da imobiliária IWA, Rui Caminha, é acusado de ser o
mandante da desocupação. Caminha teria alegado que as terras onde vivem
os nativos lhe pertencem.
1997 – A Associação dos Moradores de Balbino recebe do governador Tasso
Jereissati a titulação das terras, com o compromisso de que no ano 2000 serão
entregues definitivamente os títulos de posse a cada um dos residentes.22

A partir de então, mudanças sociais, culturais, econômicas e políticas


ocorreram, assim como novas relações passaram a ser tecidas, reorganizando a vida
social da localidade. Esses impactos serão discutidos no decorrer deste artigo,
percebendo as transformações da Comunidade através dos reposicionamentos da dança.

É importante acrescentar que a posse da terra, apesar de dar maior segurança


à população, não acabou com os problemas da especulação imobiliária e nem com as
suas consequências. Até os dias atuais, a Lagoa Seca encontra-se degradada, devido à
construção de quatro ilhas23 que provocaram a morte de peixes e outros animais na
Lagoa e nas redondezas.

III – Os Cocos de Balbino


[...] então, são lembranças, são despedidas assim
que a gente tamo saindo do coco e tá ficando
dentro da gente, a gente num esquece não.24

A dança sempre esteve presente na vida dos homens, criando significados e


formas de comunicações. Dançava-se/dança-se por alegria e luto, para treinar
guerreiros, para educar cidadãos, para homenagear algo ou alguém, para brincar, para
comemorar, para se firmar enquanto um povo. Como indica Maribel Portinari:

De todas as artes a dança é a única que dispensa materiais e ferramentas,


dependendo só do corpo. Por isso dizem-na a mais antiga, aquela que o ser
humano carrega dentro de si desde tempos imemoriais. Antes de polir a
pedra, construir abrigo, produzir utensílios, instrumentos e armas, o homem

22
Jornal O Povo. Fortaleza, dia 25 de maio de 1991. p. 4A.
23
Construídas para a realização de um empreendimento turístico visado pelo empreendedor Rui Caminha.
24
“Seu” Pedro em entrevista realizada no dia 18 de dezembro de 2010. p. 9.
9

batia os pés e as mãos ritmicamente para se aquecer e se comunicar. Assim,


das cavernas à era do computador, a dança fez e continua fazendo história.25

A dança é, pois, parte da vida social e as suas formas, ritos, significados,


gestos, expressividades, performances estão ligados às realidades históricas dos povos
que a praticam.

Mapeando a origem da dança do Coco de Balbino encontramos referência a


dois Mestres26, um pescador chamado de Luiz Coqueiro e um agricultor chamado Nel
Chagas. Luiz Coqueiro nasceu, aproximadamente em 1910, em um sítio chamado de
Macau no Rio Grande do Norte, onde possivelmente aprendeu a embolar o coco, a sua
família se mudou para o Ceará, estabelecendo-se em Cascavel, mas, ao casar com Dona
Carminha, o embolador foi morar em Balbino. Mestre Nel Chagas, agricultor, vindo de
Chorozinho27 onde possivelmente aprendeu a cantar e dançar, mudou-se para Pratiús, 6
km de Balbino. Ambos chegaram a Comunidade entre 1935-1940.

Quando perguntados sobre a origem dos Cocos, os primeiros brincantes de


Coco da comunidade, que ainda estão vivos, nos remetem a esses dois Mestres,
principalmente a Mestre Nel. “Seu” Zé Rosa, conhecido por sua performance de
cócoras, afirma que primeiro quem chegou com o Coco foi Luiz Coqueiro e depois
Mestre Nel tomou de “garra”, ou seja, levou adiante aquela prática devido ao seu
talento.

Chegou pelo um home que veio de fora, sabe, que era o finado Luís
Coqueiro, ele era da banda do canto-verde, canto do mangue, sei lá de onde
era aquela praga, foi ele que inventou essa arrumação de coco, daí foi que o
compadre Nel deu de garra, tem muita inteligência né ele, aí deu de garra e aí
fumo brincar mesmo.28

Apesar de certa confusão quanto à procedência de Mestre Luiz, a sua versão


é a apropriada por Amorim quanto à origem desta prática na Comunidade. Mas, para

25
PORTINARI, Maribel. História da dança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 11.
26
Os brincantes chamam de Mestre de Coco àquele que é o responsável por embolar o Coco e direcionar a
brincadeira. Existe um respeito e uma admiração dos brincantes de Coco de Balbino para com os Mestres
que já passaram pela localidade.
27
Município localizado a 40 km de Fortaleza que adentra a região de semi-árido. Dados disponível em:
< [Link] Acessos em 18 de janeiro de
2011.
28
José Gomes da Silva, vulgo “Seu” Zé Rosa, 75 anos, em entrevista realizada, por esta pesquisadora, no
dia 27 de outubro de 2010, em sua residência na Rua da Vitória em Balbino. p. 1. Zé Rosa é pescador e
um dos primeiros dançadores de coco da Comunidade.
10

Pedro Francisco Faustino e “Dona” Francisca, que chegou a dançar coco algumas vezes,
quem trouxe a prática para a localidade foi Mestre Nel.

Bom, quem chegou com o coco no Balbino na verdade foi o compadre Nel, a
gente num tinha uma atração assim, então, de repente nós tinha o compadre
Nel que puxava o coco [...] Ele tinha uma cabeça, assim, formidável, ele num
sabia lê, nunca aprendeu a lê, mas passava a noite todinha cantando o coco,
ele olhava pra senhora e ele fazia um repente de repente com qualquer
pessoa, num tinha esse negócio, a’bastava dizer o nome podia deixar que ele
dava conta do recado (risadas). 29
Esse coco era assim, seu Nel Chagas foi o fundador dos cocos. Ele não sabia
ler, mas ele fazia a tua história embolando o coco e dizendo, sabe... fulano é
casado...30

A origem desta prática na comunidade é uma questão em aberto, por não


possuirmos fontes que comprovem quem chegou primeiro e ensinou a dança para os
pescadores. Por enquanto ressalta-se que a presença desses dois homens na implantação
da dança em Balbino mostra os fluxos, as redes, criados pelas culturas populares. Um
vindo do Rio Grande do Norte, outro vindo de Chorozinho, com experiências diversas
se encontram em Balbino e trazem consigo os saberes dos Cocos: a música, a poesia e a
dança. Assim, fazem a arte em Balbino que possui as suas particularidades, mas esta
interligada a um todo das culturas populares. De Balbino, a dança foi para o Iguape e,
assim, vamos construindo um ritmo histórico de vibrações e de ondas de diferentes
intensidades, poetizando espaços, pois cada lugar oferece uma poesia própria à
manifestação.

Esta poesia se dá em dois momentos na Comunidade. O primeiro momento,


o momento de chegada da dança, observamos que as suas ocorrências são em noites de
descanso nas quais Manuel e Luiz cantavam emboladas acompanhados pela batida do
caixão improvisado e do ganzá, e sapateavam, ensinando a dança aos pescadores que o
acompanhavam.

Ah, a gente dançava quando ele fazia o repente, Ô Julia, Ô Julia, Ô Julia.
Não, só a’bastava a gente se encontrar, nos fins de semana a gente tava lá no
bar tomano cachaça e sapateano a noite todinha. A boca da noite, a 6:00
horas da noite tava todo mundo lá, dizia assim, umbora sapatear um
coquinho, chama ali o Cumpade Nel, que ele morava assim pertin, chamava
ali o Cumpade Nel, trazia o ganzá e o caixão, aí pronto, tava ali, o Zé do
Pedro chegava botava a lata debaixo e bora s’bora a noite todinha, era a
diversão, uma coisa assim que a gente ficava, gostava muito de fazer aquilo,

29
“Seu” Pedro em entrevista realizada no dia 18 de dezembro de 2010. p. 5.
30
“Dona” Francisca em entrevista realizada no dia 27 de outubro de 2010. p. 11.
11

quase toda sexta-feira a gente fazia, quando num era na sexta, era no
sábado.31

[...] eles cantavam e batia antigamente era num caixão, um caixãozin réi de
pau, sabe e a gente sapateava, passava era noite [...] era mais de domingo,
assim, sábado pra domingo, porque era um dia de brincar né, muitas vezes
num tinha outra brincadeira, aí se entretia nos coco. 32

Observa-se que neste período a dança é marcada pela improvisação tanto


nos passos, nas músicas, mas também na sua organização, não ocorria em dias certos, os
instrumentos eram artesanais. Percebe-se, também, a predominância dos homens como
sujeitos da brincadeira, as mulheres, raras exceções, permanecem como observadoras. A
dança, neste primeiro momento, era vista como o lúdico, a diversão, o brincar daqueles
homens, tendo em vista que existia um vazio na comunidade que foi preenchido com a
chegada do dançar e do brincar. Em Benjamin pode-se encontrar a brincadeira como
uma experiência humana primordial da vida social, pois “é a brincadeira, e nada mais,
que está na origem de todos os hábitos. Comer, dormir, vestir-se, lavar-se, devem ser
inculcados no pequeno ser através de brincadeiras, acompanhados pelo ritmo de versos
e canções”.33 Entendimento similar é desenvolvido por Ujiie, para quem “o brincar é
uma atividade essencial ao ser humano. O homem sempre brincou sem distinção de
regras, entre adultos, crianças e animais no decorrer da história da humanidade. Dessa
maneira, a ludicidade adquiriu um espaço de excelência na formação humana”. 34

O brincar se constitui culturalmente e socialmente, a partir de ações lúdicas


e criativas que envolvem as subjetividades e as sensibilidades dos brincantes, junto à
objetividade da brincadeira do Coco de sapateado (formação de duas fileiras, estrutura
da música com o refrão fixo repetido pelos brincantes e as estrofes compostas pela
embolada, etc). No caso do Coco, a brincadeira envolve movimentos e musicalidades
que, como afirma “Seu” Pedro, estão “saindo do coco e tá ficando dentro da gente”, ou
seja, são construtoras de memórias e de experiências.

Com a luta pela terra, que se estendeu por mais de uma década, a
comunidade vivenciou um processo de organização política e de reposicionamento

31
“Seu” Pedro em entrevista realizada no dia 18 de dezembro de 2010. p. 6.
32
“Seu” Zé Rosa em entrevista realizada no dia 27 de outubro de 2010. p. 2.
33
BEIJAMIN, Walter. Obras Escolhidas. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 253.
34
UJIIE, Najela T. O brincar, o brinquedo e a brincadeira: usos e significações. Analecta. Guarapuava,
Paraná, v.9, nº 1, p. 51-59 jan./jun. 2008. p. 52. Disponível em:
<[Link] /v9n1/[Link]>. Acessos em 12 de abril de 2010.
12

frente a seus moradores e a outros – governo, entidades governamentais, ONGs,


políticos, igreja, projetos de universidades. Em que medida este processo repercutiu nas
práticas da comunidade e na dança do Coco?

Existe uma indicação nas narrativas obtidas que foi no bojo deste
acontecimento que a dança passou a ser apresentada em outros espaços e vivenciada
35
como “coisa de Balbino” , sendo realizada por um “grupo da dança”. Assim, temos
uma segunda fase da manifestação antes vivenciada como o prazer, o lúdico, e agora
realizada como expressão da Comunidade e dos pescadores, como uma estratégia de
identificação. Entendendo estratégia como um conceito que representa a atitude dos
sujeitos de construírem “um lugar capaz de circunscrito como um próprio”. 36

Esta nova disposição iniciada em 1997 permanece até os dias atuais,


processo marcado pelas primeiras apresentações de Coco realizadas fora da
Comunidade. Ao relembrar essa experiência, “Seu” Pedro afirma:

[...] a partir do 97, quando a gente ganhou a posse da terra, foi, no Dragão do
Mar, aí daí pra lá a gente, aí a gente ficou várias vezes, quase todo mês a
gente ia fazer uma apresentação no Dragão do Mar, é, é... então a gente
sobreviveu à custa desses coco [...] Era uma roupa normal, era. Quando a
gente era convidado assim, quando o Tasso chamou a gente pra ir fazer
apresentação, então teve uma pessoa que observava né, ela disse assim: não,
só fica bonito se vocês forem todo mundo, todo mundo, de roupa de
pescador. É uma pessoa da comunidade que também já é falecida hoje, mas
ela observou muito isso e disse: olha essa apresentação de vocês, a dança do
coco é a dança do pescador, então só fica bonita se vocês tiverem todo
mundo fardado de roupa de tinta, de chapéu e de tudo. Então a gente foi lá
aprontou tudim, ela disse: num disse que ficava mais bonito!37

Através das memórias do brincante, percebe-se a incorporação de novos


elementos a dança e uma maior organização. Instrumentos mais sofisticados foram
introduzidos a dança, como o atabaque, o ganzá e o pandeiro; a roupa do pescador foi
ressignificada e introduzida a dança, antes era apensa uma roupa de trabalho, hoje é a
vestimenta dos brincantes; a construção de um grupo que mantinha os primeiros
dançadores de Coco; a realização da dança com menor frequência, apenas nas festas
(festa de posse da terra, a regata e a festa da padroeira) realizadas na Comunidade e nos
locais que realizaram convites ao grupo; a transformação da dança em uma estratégia de

35
Resposta de seu “Seu” Zé Rosa, ao seu perguntado sobre as apresentações realizadas no Dragão do Mar
e em outros espaços. Em entrevista realizada dia 27 de outubro de 2010. p. 3.
36
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1982, p. 46.
37
“Seu” Pedro, em entrevista realizada no dia 18 de dezembro de 2010. p. 7.
13

identificar-se como pertencente à Balbino e à vida de pescador; a experiência de


vivenciar a dança como profissão, afinal como nos contou o depoente “a gente,
sobreviveu à custa desses coco”.

Duas questões emergiram na pesquisa de campo realizada até o momento: o


vazio deixado pelo embolador “Seu” Nel, falecido em 2010, e a questão da articulação
do grupo, uma vez que, segundo os mais velhos, os jovens só dançam com o “cachê”.
38
Podemos notar essas duas problemáticas nas seguintes falas:

A gente tá criano um grupo de jovem, assim, a gente já butô até um deles pra
puxar o coco, a gente fomo fazer a apresentação do Aracati com eles, num foi
assim ótimo, mas foi boa né (risos). Eles foram puxar e nós fumo dançar,
sapatear, pra levar aqueles outros pra aprender. Porque praticamente o coco é
como qualquer música tem que ser, tem que ser um bom cantor pra que a
música sair bem cantada, não? E eles, eles novo, num terem costume, é, a
forma de puxar o coco é completamente diferente, o Compadre Nel era
assim, quando a gente tava dançano e ele dizia: o que vamo cantar agora?
Vamo cantar “Quebra a barra e nasce o sol”. Quebra a barra e nasce o sol/
dexa o dia amanhecê/ ô dia, ô dia, mas o dia eu quero vê. 39

Ainda hoje a garotada, elas poderia ter esse coco, ficar uma história a vida
inteira né, mas a garotada de hoje já se acostumou devido a, como eu acabei
de dizer do cachê, aí só vai se tiver um cachezin, se tiver todo mundo vai, só
que a gente conversa com eles, a gente explica pra eles que é uma história de
Balbino, mas cê viu que a garotada de hoje é difícil querer alguma coisa que
se valorize, é muito difícil, essa juventude eles querem mais é, é o forró, é
outras coisas diferente. 40

O “cachê” passou a ser um elemento importante nas experiências de


apresentação decorridas de convites41. As falas mostram-nos que para os mais velhos
existe um desinteresse dos jovens com as práticas da Comunidade. Interessante
fazermos comparações, Ignez Ayala, também percebe que ocorre na Paraíba um
desinteresse dos jovens pela dança:

Através dos relatos dos entrevistados e dos pesquisadores foi possível


detectar a que ponto a dança é discriminada e porque muitos jovens, embora
saibam, não querem dançar o coco. Dançadores e cantadores revelam-se
magoados por presenciarem a perda de interesse pela dança, tanto pelos mais

38
Expressão utilizada pelas pessoas da comunidade para referirem-se ao pagamento em dinheiro recebido
pelos brincantes após apresentações de Coco realizadas em espaços fora da comunidade.
39
“Seu Pedro” em entrevista realizada dia 18 de dezembro de 2010. p. 5.
40
Miguel Ferreira Faustino, vulgo “Seu Miguel”, 49 anos, em entrevista realizada por esta pesquisadora
no dia 27 de outubro na barraca de praia do depoente, em Balbino – CE. p. 2. “Seu” Miguel é ex-
dançador de Coco, pescador, dono de uma barraca de praia em Balbino e atual presidente da Associação
de Moradores.
41
O convite na dança pode ser entendido em dois momento “a) o momento em que o grupo de brincantes
é solicitado para se apresentar em público e b) o “convite” que é realizado dentro da roda, durante a
apresentação, seja em público ou em ensaios”. Amorim, op. cit., p. 13.
14

velhos, quanto pelos jovens. A dança muitas vezes é depreciada por quem
não integra o conjunto de dançadores e cantadores, como atividade de “preto
velho, sem vergonha, pobre e cachaceiro”. Com medo da discriminação,
várias pessoas que apreciam a dança e o canto afastam-se dos cocos. 42

O mesmo fato ocorre em Balbino, como percebemos nas falas dos


brincantes “Seu” Miguel e “Seu” Pedro. Os jovens não manifestam muito interesse pela
dança, porém os motivos disso parecem outros, não é por medo de serem discriminados,
mas por possuírem outros interesses que estão ligados ao dinheiro (o “cachê”), à
tecnologia, a outras formas de dança, como o forró, a outros empregos distintos da
pesca e da dança. Além desses fatores, há que se considerar que existe uma cobrança e
exigência dos brincantes mais velhos, pelo vazio deixado por Mestre Nel, com relação
aos jovens, por isso muitos acabam se retraindo e preferindo não se arriscar no
sapateado ao som do ganzá.

A maioria destes fatores está ligada as novas relações estabelecidas a partir


da luta de posse pela terra e da conquista da terra, ou seja, as comunicações, aos
diálogos entre o rural e o urbano, entre o tradicional e o moderno e entre as culturas
populares e de “massas”. Neste diálogo, a brincadeira torna-se profissão e estratégia de
identificação. Para Canclini a reorganização industrial não homogeneíza e nem
massifica as tradições populares, mas

[...] transformam as condições de obtenção e renovação do saber e da


sensibilidade. Propõem outros tipos de vínculos da cultura com o território,
do local com o internacional, outros códigos de identificação das
experiências, de decifração de seus significados e modos de compartilhá-los.
Reorganizam as relações de dramatização e credibilidade com real. Tudo isso
se enlaça, como sabemos, com uma remodelação da cultura em termos de
investimento comercial, ainda que as transformações simbólicas citadas não
se deixem explicar apenas pelo peso que o econômico adquire. 43

Esses novos problemas referem-se à perspectiva histórica da dança na


comunidade: é sinal de uma desarticulação do grupo e da dança, ou é um momento para
uma nova resignificação e posicionamento da dança do Coco na Comunidade? Estas
são questões advindas das multiplicidades dos Cocos que apresentam continuidades e
descontinuidades nas suas manifestações, que “reatualizam” uma tradição, a partir da
teatralização e da resignificação. Os cocos se atualizam mudando e se diversificando,
tornando-se sempre um elemento do passado e do presente.

42
Ayala; Ayala, op. cit., p. 36
43
CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São
Paulo, 2006. p. 263.
15

Bibliografia

AMORIM, Ninno. Os Cocos no Ceará: dança, música e poesia oral em Balbino e


Iguape. Dissertação (Mestrado) apresentada ao Departamento de Ciências Sociais.
Fortaleza: UFC, 2008.
ANDRADE, Mario de. Os Cocos. Belo Horizonte: Itatiaia, 2002.
AYALA, Maria Ignez; AYALA, Marcos (Orgs.). Cocos: alegria e devoção. Natal:
EDUFRN, 2000.
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Secretaria de Cultura e Desporto, 1982.
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BOSI, Ecléia. Cultura de Massa e Cultura Popular. Leituras de operárias. [Link]. Rio
de Janeiro: Vozes, 2009..
CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas. 4. ed. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2006.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes,
1982.
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2º volume.
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ORTIZ, Renato. Cultura Popular: românticos e folcloristas. São Paulo: Olho d'água,
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PESAVENTO, Sandra Jatahy. História & história cultural. 2. ed. Belo Horizonte:
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RODRIGUES DE CARVALHO, José. Cancioneiro do Norte. 3. ed. Rio de Janeiro:
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SERAINE, Florival. Antologia do Folclore Cearense. 2. ed. Fortaleza: Edições UFC,
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UJIIE, Najela T. O brincar, o brinquedo e a brincadeira: usos e significações. Analecta.
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<[Link] Acessos em 12 de
abril de 2010.

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