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Brasil e Moçambique: Parceria Estratégica

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Discursos

Brasil e Moçambique, parceiros na defesa

A Carta da ONU estabelece a proibição do uso da força, com


duas exceções ligadas a circunstâncias muito estritas. A primeira
circunstância refere-se às situações de legítima defesa, em que
o Estado pode tomar medidas para se defender, com respeito
ao princípio da proporcionalidade, de uma agressão, até que o
Conselho de Segurança possa decidir sobre o caso. A segunda
circunstância diz respeito aos casos em que o Conselho delibere
autorizar aos Estados-membros da ONU agir em defesa da paz e da
segurança internacionais.
Essas normas multilaterais sobre a limitação do uso da força
são o fundamento da ordem internacional, e sua preservação deve
ser um objetivo estratégico de nossos países. No entanto, a eficácia
das ações do Conselho de Segurança tem sido reduzida por pelo
menos dois fatores. Por um lado, a composição anacrônica do
órgão, que ainda reflete as realidades do mundo em que a ONU
foi criada, em 1945 (especialmente em sua categoria de membros
permanentes); por outro, a preocupante tendência de certos países
de recorrer à força militar unilateralmente, isto é, sem a autorização
do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Um exemplo foi a invasão unilateral do Iraque em 2003.
Outro exemplo, mais sutil, foi a extrapolação do mandato de uso
da força contido em uma resolução do Conselho para a ação na
Líbia em 2011. Ao passo que o objetivo original da resolução era
o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea para a proteção
de civis líbios, a coalizão liderada pela OTAN que se encarregou
da intervenção logo demonstrou que seu verdadeiro intuito era
derrubar o regime político de Trípoli. Qualquer julgamento que
se faça daquele regime, tratou-se do encobrimento de uma ação
unilateral sob o manto de uma decisão multilateral.
E, ligando esses fatos com o que disse no início, é evidente
o significado desses dois países para a ordem geoeconômica

269
Celso Amorim

mundial, em especial para a garantia do suprimento de petróleo.


A possibilidade de que os conflitos internacionais continuem a
não ser adequadamente canalizados pelas normas multilaterais da
ONU, como ocorreu no caso do Iraque e da Líbia, é um grave fator
de incerteza no plano internacional.
Não podemos desconsiderar o risco de que futuras disputas
por recursos naturais não sejam amparados pelas referências
institucionais e normativas e que possam ser equacionadas
pacificamente, com base na negociação e no Direito Internacional.
Não se trata de defender uma visão belicista, que meu país
certamente rejeita, mas simplesmente de ser realista a respeito da
persistência da possibilidade de conflitos no mundo pós-Guerra
Fria.
Outro risco que enfrentamos é a tendência de expansão de
alianças militares nascidas na Guerra Fria. A situação na Ucrânia é o
mais vivo exemplo contemporâneo dessa possibilidade, sem entrar
no mérito de quem tem razão no caso. Observo entre parênteses
que a instabilidade naquele país não deixa de refletir, também, as
dificuldades geradas pela estratégia de expansão da Organização
do Tratado do Atlântico Norte.
Uma das vozes a expressar reservas quanto à ideia de
incorporação da Ucrânia à OTAN foi a do ex-Secretário de Estado
norte-americano Henry Kissinger, em artigo recente. Outra
manifestação sobre o tema foi a de Stephen Walt, professor na
Harvard Kennedy School. Para ele, a atuação dos Estados Unidos e
da Europa na Ucrânia – e eu cito
não parece ter considerado a possibilidade de que a Rússia
veria essa ação como uma ameaça aos seus interesses vitais
e responderia de modo forte e implacável. Essa é a mais
recente em (...) uma longa lista que inclui a invasão do
Iraque em 2003 (...) e as intervenções na Somália, na Líbia
e em vários outros países.

270
Discursos
Brasil e Moçambique, parceiros na defesa

Esse quadro global que procurei descrever é agravado por


um novo vetor de violação da soberania: a intrusão eletrônica. As
revelações de interceptação eletrônica em larga escala no Brasil
e em outros países, inclusive em aliados dos Estados Unidos na
OTAN, causou indignação mundial. Sabemos que o emprego
dessas tecnologias de intrusão está a serviço de vários objetivos, e
não necessariamente apenas do combate ao terrorismo, conforme
se alegou.
No caso do Brasil, há um vínculo direto entre a espionagem e o
interesse estrangeiro pela exploração de recursos naturais. Mais de
um analista tem chamado atenção para como as novas tecnologias
de intrusão, como a interceptação, as armas cibernéticas e mesmo
os veículos aéreos não tripulados impactam a noção tradicional de
soberania.
Os ataques e as violações – silenciosos, por vezes – no
interior das estruturas de governo dos Estados passam a ser uma
possibilidade concreta e permanente. Acrescente-se a isso o fato de
que as novas tecnologias de intrusão reduzem o custo humano do
emprego da violência por parte dos Estados agressores, o que não
deixa de ser um estímulo a esta violência, com total impunidade.
A ausência de um marco normativo multilateral que regule a
conduta dos Estados nessa área eleva a imprevisibilidade gerada
na política mundial pelas tendências unilaterais que notei.
Tenho dito que o primeiro passo é um compromisso jurídico
dos Estados possuidores de armas cibernéticas com o “não primeiro
uso”. Sem isso, corre-se o risco de uma nova corrida armamentista
– nesse novo campo da tecnologia militar que é a cibernética.
O aumento das tensões ligadas às crises energética, alimentar
e ambiental torna especialmente preocupante a situação de
enfraquecimento crônico das regras multilaterais que regulam o
uso da força entre os Estados. Os novos métodos de violação da

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Celso Amorim

soberania, por sua vez, expandem os instrumentos de força à


disposição dos Estados poderosos e agregam um componente
adicional de instabilidade às relações internacionais. Sob vários
aspectos, ademais, dependendo da forma como for empregada, a
arma cibernética é uma verdadeira arma de destruição em massa,
com efeitos humanos e materiais semelhantes àquelas.
Esse quadro de incertezas e crescente insegurança é motivo
de sérias preocupações para as nações em desenvolvimento como
Moçambique e Brasil, para as quais a paz é a condição primeira da
prosperidade. Nas últimas décadas, populações de diferentes países
e regiões têm expressado suas aspirações de autonomia política, de
progresso socioeconômico e de um mundo mais justo e igualitário.
Há hoje uma compreensão cada vez mais ampla de que essas
aspirações só podem ser alcançadas por meio da redistribuição
do poder global, que após o fim da Guerra Fria ficou concentrado
ao redor de um único polo. Por isso, ao longo dos últimos dez
ou quinze anos, temos assistido a esforços de reforma da ordem
global, de modo a torna-la mais representativa das realidades do
século XXI.
Esse movimento político foi reforçado pelos altos níveis de
crescimento alcançados por algumas economias do mundo em
desenvolvimento. A ascensão do Sul na política global aponta
na direção de um mundo multipolar, isto é, caracterizado pela
existência de vários centros de poder, não só na América do Norte
ou na Europa, mas também na América do Sul, na África e na Ásia.
A boa distribuição do poder entre os Estados é o fator mais
conducente ao respeito de todos eles aos princípios e normas que
lastreiam a estabilidade e a segurança internacionais. A integração
entre Estados pequenos, médios ou mesmo grandes, de nível de
desenvolvimento similar, é outro fator que contribuirá a uma
verdadeira multipolaridade. Organizações como a União Africana

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Discursos
Brasil e Moçambique, parceiros na defesa

e a Unasul são exemplos dessas integrações. A SADC e o Mercosul


espelham a mesma tendência.
A multipolaridade diz respeito a uma configuração concreta,
que apenas começa a despontar, da realidade internacional.
O multilateralismo diz respeito a um ideal, uma forma desejada de
ordenamento das relações entre os Estados, baseado em normas
construídas pela negociação igualitária e respeitadas por todos os
países.
E um mundo multipolar oferece as melhores condições para
o funcionamento da ordem multilateral inscrita na Carta da ONU.
A multipolaridade reforça o multilateralismo, porque distribui
melhor o poder.
Por isso o Brasil – assim como muitos outros países – tem
se empenhado para estimular os elementos incipientes da
multipolaridade. A aproximação entre os países e regiões em
desenvolvimento é um dos principais objetivos desse movimento.
O marco da convergência entre a África e a América do Sul
é o ano de 2006, quando ocorreu, na Nigéria, a primeira cimeira
presidencial birregional. Naquela ocasião, o Presidente Lula evocou
a visão de uma “nova geografia política e econômica mundial”. Sua
visão era a de que – e eu cito suas palavras – “podemos aprender
muito uns com os outros. Sempre tivemos os olhos voltados para
o Norte. E, muitas vezes, não percebemos que as respostas para
os nossos problemas poderiam ser encontradas no diálogo com
nossos pares (...) O que nos trouxe a Abuja foi o desejo de unir
africanos e sul-americanos para fazer ouvir nossa voz”.
Desde então, as cimeiras têm ocorrido regularmente,
refletindo o estreitamento de laços culturais, políticos e econômicos
entre nossos dois continentes. Além disso, foi motivo de grande
honra que o Brasil, na pessoa da Presidenta Dilma, tenha sido um

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Celso Amorim

dos países convidados para a comemoração do Jubileu de Ouro da


União Africana, em maio do ano passado.
Naquela ocasião, a Presidenta Dilma afirmou:
O Brasil vê o continente africano como irmão e vizinho
próximo. Temos semelhanças e afinidades profundas. Mais
da metade dos quase 200 milhões de brasileiros se reconhece
com afrodescendentes. E esta descendência é um dos veios
mais ricos que conforma a nação brasileira. Temos muito
orgulho das nossas raízes africanas. Sim, o povo africano
está no cerne da construção da nossa nação e explica muito
o que somos e tudo aquilo que nós temos certeza que nos
tornaremos.

Para além do nível mais geral da aproximação entre a América


do Sul e a África, as relações entre o Brasil e Moçambique remontam
ao início da vida independente deste país. Superada a postura
ambígua que os primeiros governos militares do Brasil tiveram
para com a luta pela independência das ex-colônias portuguesas,
o Brasil apoiou a emancipação moçambicana e acompanhou com
atenção os trágicos acontecimentos da guerra civil.
Posso dar um testemunho até pessoal desse acercamento,
porque participei dele como diplomata em mais de uma ocasião.
Já em 1978, quando eu cuidava da divisão de difusão cultural do
Ministério das Relações Exteriores, ajudei a realizar um festival
de cinema brasileiro em Maputo, iniciativa de nosso primeiro
Embaixador aqui – um grande entusiasta da relação Brasil-
-Moçambique –, o Embaixador Ítalo Zappa. Em 1989, eu estava
chefiando o Departamento Cultural do Ministério e tomei a
iniciativa de destinar os parcos recursos que tínhamos para a
criação do Centro Cultural do Brasil em Maputo.
Entre 1993 e 1994, quando eu já era Ministro das Relações
Exteriores (no Governo do Presidente Itamar Franco), o Brasil
contribuiu com capacetes azuis para a Onumoz, a missão da

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Discursos
Brasil e Moçambique, parceiros na defesa

ONU. Na época, tive o prazer de estar aqui para despedir as tropas


da Onumoz. Nesse mesmo período, Moçambique foi um dos
primeiríssimos países a apoiar a candidatura do Brasil a um assento
permanente no Conselho de Segurança, apoio que tem sido dado
até hoje por países da CPLP. Somos ainda hoje muito gratos por
essa grande manifestação de confiança.
Poucos anos depois, em 1996, impulsionados por figuras
como José Aparecido e Joaquim Chissano, os países lusófonos
decidiram criar sua Comunidade, a CPLP, que vem contribuindo
para aumentar o conhecimento mútuo entre nossas sociedades
e para projetar nossa língua. Nossas relações tiveram um novo
ímpeto – creio eu – com a posse do Presidente Lula, em 2003.
Como Chanceler do Governo Lula, meu primeiro destino na África
foi Moçambique.
Não vou recapitular aqui tudo o que realizamos, mas quero
recordar a instalação da fábrica de medicamentos antirretrovirais
da Fundação Oswaldo Cruz aqui em Moçambique, um símbolo
eloquente do que a cooperação entre nossos dois países pode
alcançar em todos os campos.
Como estamos em um instituto de estudos de defesa,
permito-me mencionar uma passagem de Maquiavel, no livro
Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Naquela obra, o
grande pensador de Florença adverte: um príncipe deve ter suas
forças sempre preparadas, ainda que elas sejam inferiores às do
adversário, pois apenas assim ele se faz respeitar. Nas palavras de
Maquiavel, “um príncipe nunca deve perder sua dignidade”.
Esse raciocínio, que Maquiavel aplicava para os governantes
das cidades-estado da Itália do século XVI, continua válido para os
Estados do século XXI. Para os países em desenvolvimento, a paz é
a condição primeira da prosperidade. Não podemos esquecer-nos
de que a condição primeira da paz é a respeitabilidade.

275
Celso Amorim

Ao contrário do que proclamam aquelas teorias sobre o declínio


do conflito ou a obsolescência da guerra nas relações internacionais,
o que uma rápida avaliação do panorama internacional indica é a
necessidade de que os países em desenvolvimento estejam prontos
para defender seu patrimônio.
Isso é especialmente verdadeiro para países como o
Moçambique e Brasil, detentores de vastas riquezas naturais. Não
podemos descartar a hipótese de que as disputas ligadas a energia,
a alimentos e ao ambiente, originados em outros quadrantes nos
possam de alguma forma afetar.
Temos que estar prontos para proteger nossa soberania em
um mundo no qual o conflito, as ações armadas unilaterais e (mais
recentemente) as novas modalidades de intrusão são fatores
ponderáveis. Por um lado, isso significa ser capaz de dissuadir
ameaças ou agressões pela posse de meios adequados de defesa.
Por outro lado, a proteção da soberania exige a cooperação com os
parceiros, principalmente os de porte igual ou comparável, em prol
de um mundo mais seguro, tanto no tocante às velhas ameaças
quanto às novas. Não queremos substituir velhas dominações por
novas hegemonias.
Temos problemas similares, para os quais podemos buscar
soluções comuns. É o caso, por exemplo, da pirataria, fato que tem
ocorrido tanto na orla índica quanto na atlântica, mais precisamente
no Golfo da Guiné. Para o Brasil, a América do Sul, o Atlântico Sul e
a África são áreas prioritárias da cooperação em defesa. Na África,
mais especificamente, nossos vínculos mais próximos são com os
países da orla atlântica e com Moçambique, mas chegam também à
Tanzânia, onde estamos envolvidos na busca de petróleo.
A Moçambique, vínculos linguísticos, étnicos e culturais
nos unem firmemente. Com os países costeiros do Atlântico Sul,
compartimos a responsabilidade de zelar para que esse oceano

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Discursos
Brasil e Moçambique, parceiros na defesa

permaneça livre de armas nucleares, da presença militar estrangeira


e de rivalidades estranhas a ele.
É este o sentido da Zopacas, a Zona de Paz e Cooperação do
Atlântico Sul, estabelecida pela Assembleia Geral da ONU em 1986
e que teve sua mais recente reunião de ministros das Relações
Exteriores e da Defesa em Montevidéu em janeiro de 2013.
Estou seguro de que os ideais pacíficos e cooperativos que
inspiram os países costeiros do Atlântico Sul são compartilhados
por Moçambique. Penso até que, do ponto de vista estratégico –
que excede o meramente geográfico –, Moçambique pode ser visto
como um país de interesse direto no Atlântico Sul.
O Brasil recebeu com muito interesse o convite para
contribuir com a Estratégia Marítima da União Africana. Muitos
outros interesses ligam Brasil e Moçambique na área de defesa.
Nosso diálogo sobre temas de Exército, Marinha e Aeronáutica
é essencial para identificarmos desafios e possibilidades. E é isso
que exploramos com minha reunião hoje com o Ministro Filipe
Mondlane.
A cooperação entre nossas duas nações, inclusive na área de
defesa, é parte integrante dos esforços para o redesenho da geografia
política e econômica do mundo. Um mundo mais multipolar e
mais multilateral significará não apenas um mundo mais seguro,
mas também um mundo em que nossos países poderão realizar
plenamente seu potencial de desenvolvimento. Alcançá-lo exigirá
independência e firmeza de propósitos.
Concluo esta visita a Maputo seguro de que o Brasil tem em
Moçambique um parceiro para essa empreitada.

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