Celso Amorim
de grande importância: a Política Nacional de Defesa, a nova
Estratégia Nacional de Defesa e o Livro Branco de Defesa Nacional.
Em todos eles, transparece a relação íntima que a Defesa mantém
com a democracia brasileira. Os documentos deixam patentes as
conexões entre Defesa e política externa, esteios da soberania.
Esclarecem os Objetivos Nacionais de Defesa e os meios
para sua consecução, além de facilitarem o acompanhamento e a
reflexão da sociedade sobre as capacidades e os desafios da defesa
nacional. A Política de Defesa, a Estratégia de Defesa e o Livro Branco
são um convite à participação da população no debate público de
assuntos fundamentais para a proteção de seus interesses. Pensar
nossa política de Defesa exige refletir sobre o panorama global de
segurança em que se insere o Brasil.
Gostaria, assim, de iniciar essa exposição com algumas
considerações sobre a dinâmica recente nesse panorama e discutir
algumas de suas premissas.
***
A segurança internacional – ou insegurança internacional –
tem hoje o Oriente Médio como epicentro. Um de seus elementos-
-chave, o conflito árabe-israelense, segue sem solução no horizonte
visível. Está mais distante de algum tipo de acordo do que em
outros momentos do passado recente.
Se compararmos a situação atual com a que vigorava, por
exemplo, quando os Estados Unidos convocaram a Conferência
de Annapolis, há cerca de cinco anos, veremos que a perspectiva
de uma solução negociada que permita a existência plenamente
reconhecida de um Estado palestino coeso e economicamente
viável, vivendo lado a lado com o Estado de Israel, é hoje muito
menos promissora.
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
Esse conflito tem assumido novas e mais graves dimensões ao
longo dos últimos anos. Pior: a questão palestina perdeu visibilidade
e sentido de urgência no plano internacional. Na realidade, essa
questão estrutural passou a coexistir com uma verdadeira guerra
civil no mundo árabe, uma guerra civil multifacetada que opõe
sunitas a xiitas, fundamentalistas a seculares.
Essa guerra assume, por vezes, contornos sociais, ao opor
burguesias urbanas à população rural ou às massas empobrecidas
das periferias. Entrelaçam-se com ela conflitos sectários diversos,
que criam alianças improváveis entre grupos religiosos, muitas
vezes sob a forma do famoso adágio segundo o qual “o inimigo
do meu inimigo é meu amigo”. Assim, grupos cristãos juntam-se
a xiitas (ou alauítas) no Líbano e na Síria ou com forças seculares
(progressistas ou conservadoras) no Egito.
Obviamente essa guerra civil – usando essa minha expressão
um tanto exagerada – não está imune às influências da geopolítica
regional e global. Sauditas, turcos e cataris apoiam a revolta
síria, enquanto o Irã e o Hezbollah procuram dar sustentação ao
cambaleante regime do partido Baath.
A Rússia não quer perder um importante aliado no
Mediterrâneo, ao mesmo tempo em que vê com preocupação o
espraiamento das influências wahabitas e salafistas, provenientes
do Golfo Pérsico, em direção ao Cáucaso. Para além do princípio
da não intervenção, Rússia e China pressentem os riscos de
movimentos de fundamentos religiosos ou étnico-culturais em
suas periferias.
Inversamente, os países ocidentais teriam todo o interesse em
romper o eixo que liga Teerã ao sul do Líbano por Bagdá e Damasco,
ansiando por ganhos estratégicos decorrentes da debilitação da
República Islâmica do Irã. Mas o dilema que enfrentam não é
simples: querem contribuir para a desejada mudança de regime na
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Celso Amorim
Síria sem serem colocados na posição de aliados involuntários de
movimentos terroristas como os que levaram à “guerra contra o
terror”.
São frequentes os artigos na imprensa internacional que
apontam – sem que sejam desmentidos – a grande preocupação
dos Estados Unidos, cuja principal agência de inteligência (a
CIA) estaria empenhada em evitar que armas destinadas à
oposição cheguem a grupos fundamentalistas e, principalmente,
a organizações terroristas – tarefa admitidamente nada fácil em
vista das conexões obscuras entre os diferentes setores da oposição
síria.
Todo esse imbricamento de tensões faz com que qualquer
raciocínio simplista, que busque dividir as facções em conflito entre
“boas” e “más”, “amigas” e “inimigas”, tenham sua ingenuidade
exposta à luz do dia.
Da mesma forma, os comentários que tendem a culpar um
lado ou outro pela paralisia do Conselho de Segurança das Nações
Unidas nessa questão soam extraordinariamente desfocados
ou – pior ainda – politicamente motivados. Sim, o Conselho de
Segurança tem falhado; sim, a ONU tem deixado de cumprir seu
papel; mas a intransigência dos que se têm valido do veto não é a
única causa dessa falência.
A arrogância daqueles que decidiram, a priori, de que lado está
a razão (ainda que mais tarde, como no caso do Iraque, possam
vir a arrepender-se de sua precipitação) é igualmente responsável
pelo fracasso anunciado da diplomacia. Dessa situação, cujos
desdobramentos ainda estão por vir, tira-se desde logo uma
conclusão: em política internacional, não há “mocinhos” e
“bandidos”.
Há interesses em conflito, às vezes latentes, às vezes abertos,
como agora. Por isso mesmo, a busca da paz pelo diálogo é
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
frequentemente mais importante do que a vitória do lado que,
momentaneamente, possa parecer o mais justo – até porque,
em um conflito de raízes culturais e religiosas tão profundas, os
perdedores irão necessariamente renascer, eventualmente com
novas roupagens e com base em novas alianças, muitas vezes de
forma até mais perigosa.
É o caso hoje no Iraque. A dificuldade que a chamada
comunidade internacional tem em agir no caso da Síria; seu apoio
puramente retórico à iniciativa do ex-Secretário-Geral da ONU,
Kofi Annan; a relutância em abrir um diálogo amplo que envolvesse
todos os atores com capacidade de influir sobre as partes do
conflito, tudo isso demonstra, a meu ver, que o objetivo de uma
solução pacífica cedeu lugar às várias agendas nacionais.
Por outro lado, a experiência da ação na Líbia, em que o
mandato, aparentemente inocente, de uma criação de zona
de exclusão aérea com o fito de proteger a população civil, foi
obviamente extrapolado e, na prática, interpretado como uma
suposta permissão para mudança de regime, minou qualquer
possibilidade de consenso internacional (isto é, entre os cinco
membros permanentes do Conselho de Segurança) em torno de
eventual ação humanitária ao amparo do Capítulo VII da Carta da
ONU.
Mais que tudo, a tragédia da guerra civil síria, de que todas as
potências procuram tirar (ou manter) algum tipo de proveito põe
a nu a fragilidade das teses que previam um mundo sem conflitos
(ou com conflitos facilmente manejáveis) como consequência do
fim da Guerra Fria.
***
Antes de discutir essas teses, é preciso fazer um recuo
histórico e apreciar com clareza os riscos levantados pela crise síria.
69
Celso Amorim
O desaparecimento da União Soviética modificou a distribuição
internacional de poder em favor dos EUA, configurando, no terreno
militar, uma situação de unipolaridade.
Não cabe aqui examinar essa questão sistêmica em suas
múltiplas dimensões, mas salientar um aspecto de interesse para
nossa discussão: a retirada do principal contrapeso que, nas quase
cinco décadas anteriores, constrangera o recurso a intervenções
militares. É verdade que esse constrangimento não impediu
guerras não declaradas para “combater a expansão do comunismo
internacional”, como a do Vietnã, ou, do outro lado, o recurso
igualmente brutal à força para reprimir veleidades autonomistas
ou dissidências libertárias, como na invasão da Tchecoslováquia.
O virtual condomínio das duas superpotências limitava, de
alguma forma, essas ações intervencionistas às respectivas áreas
de influência. Elas eram condenadas e, ao mesmo tempo, de fato,
toleradas. Com exceção da Guerra da Coreia, ainda nos albores da
Guerra Fria, não havia sequer a preocupação de cobri-las com um
manto de legalidade.
Nos anos 1990, época do autodenominado “multilateralismo
assertivo”, essas intervenções banalizaram-se e ganharam uma
aura de “quase legitimidade”. Na esteira da primeira Guerra do
Golfo, apoiada, com graus diversos de entusiasmo, pelo conjunto
das nações, sucederam-se intervenções, inicialmente aéreas –
como a Operação Raposa do Deserto, em 1998, sem autorização
expressa do Conselho de Segurança.
Em 2003, também sem autorização do Conselho, a interven-
ção se fez seguir de ocupação. Contrariando todas as avaliações dos
que viam efeitos positivos no intervencionismo, a ação no Iraque
produziu uma enorme instabilidade política, que não é estranha a
alguns desdobramentos sombrios da chamada “Primavera Árabe”.
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
Um elemento complicador nessa equação estratégica é
a questão da proliferação de armas de destruição em massa.
Tradicionalmente negociada por meio de tratados, o problema da
proliferação passou por transformações importantes nos últimos
vinte anos. Observa-se, nesse campo, o deslocamento da diplomacia
em favor de instrumentos coercitivos, militares e de inteligência
– a chamada contraproliferação. Na primeira Guerra do Golfo,
em 1991, a força multinacional formada sob a Resolução 678 do
Conselho de Segurança, que autorizara o uso da força para obter
a retirada das tropas iraquianas do Kuwait (e apenas para isso),
realizou intensas operações militares contra alvos relacionados a
programas nucleares, químicos e missilísticos do Iraque.
Muitos especialistas consideram, provavelmente com razão,
que se tratou aí da mais ampla e duradoura ação militar contra
a proliferação jamais conduzida. Pela primeira vez, por exemplo,
atacou-se militarmente um reator nuclear em funcionamento.
A ação buscou, de certa forma, complementar a iniciativa de Israel
em 1981, pela qual, na chamada Operação Ópera, oito caças F-16
cruzaram a Jordânia e a Arábia Saudita para bombardear o reator
iraquiano de Osirak.
De maneira mais sutil, essa estratégia de contraproliferação
tem-se manifestado por meio de ataques cibernéticos e de
assassinatos (nunca negados) de cientistas nucleares. É preciso ter
esses antecedentes em mente no momento em que se analisa como,
no Oriente Médio, entrecruzam-se tantas questões sensíveis, entre
elas o dossiê relativo ao programa nuclear iraniano. Nesse caso, a
pretexto do combate à alegada proliferação, apela-se para a lógica
punitiva das sanções, ao tempo em que são brandidas ameaças
ocasionais de uso da força. Em vez de contribuir para uma solução,
a retórica intimidatória do unilateralismo, além de ter efeito sobre
o preço do petróleo, agrava o quadro de militarização das soluções
dos impasses regionais.
71
Celso Amorim
Minha experiência nos quase vinte anos em que me
tocou atuar, seja como chanceler, seja como embaixador em
foros multilaterais, convenceu-me de que não há alternativa ao
instrumento do diálogo – da diplomacia – para gerar confiança e
encontrar uma solução aceitável para todas as partes interessadas.
Foi o que Brasil e Turquia tentaram fazer no caso do
programa nuclear iraniano, ao longo de seis meses de penosas
negociações que resultaram na Declaração de Teerã de 17 de maio
de 2010. Nessa declaração, todos os pontos essenciais da proposta
originalmente feita pelos Estados Unidos – e depois encampada
pelo Grupo P-5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho
mais a Alemanha) e pela própria Agência Internacional de Energia
Atômica – foram atendidos. Não obstante, questões de política,
sobretudo interna, levaram à rejeição do Acordo. Essa atitude
inusitada dos proponentes originais do acordo fez o ex-diretor
da Agência Atômica, Mohamed El Baradei, que havia participado
ativamente da elaboração da proposta, comentar: “É como não
aceitar o sim como resposta”.
Menciono esse episódio en passant não com o intuito de reabrir
um velho dossiê – sobre o qual muito se falou e se segue falando –,
mas porque ele não é estranho ao emaranhado de tensões que se
desdobram na crise síria.
***
Dois conjuntos de riscos se colocam nesta altura, um no nível
do sistema de segurança coletiva e outro no nível da estabilidade
regional. A ideia de uma intervenção militar na Síria levanta, de
saída, a questão da autoridade do Conselho de Segurança – ou
seja, do próprio Direito Internacional. Ações unilaterais tomadas à
revelia do Conselho constituem uma gravíssima violação da Carta
das Nações Unidas.
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
Cito aqui um exemplo de minha experiência como embaixador
na ONU, o caso do Kosovo. Na época, o Brasil ocupava assento
temporário no Conselho de Segurança no biênio 1998-1999.
Naquela ocasião, afirmei que o Brasil consideraria “lamentável
se deslizássemos para um sistema internacional de dois níveis
– um em que o Conselho de Segurança continuaria a exercer
responsabilidade primordial pela manutenção da paz e segurança
internacional na maior parte do mundo, ao passo que teria
responsabilidade apenas secundária em regiões cobertas por
alianças especiais de defesa”.
Quatro anos mais tarde, a assim chamada coalition of the
willing, formada a propósito da invasão do Iraque, em 2003,
cometeria o mesmo tipo de grave violação da ordem multilateral.
Também observamos, mais recentemente, que o sistema de
segurança coletiva pode ser violado por ações que, originalmente
autorizadas pelo Conselho, acabam excedendo seu mandato
multilateral e passam a perseguir objetivos particulares.
Já me referi ao abuso do mandato do Conselho de Segurança
na busca de variados objetivos, tais como o chamado regime change.
Em entrevista recente ao jornal Le Monde, Kofi Annan apontou as
consequências deletérias desse tipo de ação: “A maneira pela qual
a ‘responsabilidade de proteger’ foi utilizada na Líbia criou um
problema para esse conceito. Os russos e os chineses consideram
terem sido enganados: eles adotaram uma resolução na ONU que
foi transformada em um processo de mudança de regime. Algo
que, do ponto de vista desses países, não era a intenção inicial”.
É comum ler-se, em artigos de especialistas (nem todos
talvez dignos do título), chamados ao uso de sanções e mesmo
à intervenção militar contra o regime de Damasco. Muitas
vozes que fazem ou ecoam esses apelos partem de pessoas bem-
-intencionadas, genuinamente chocadas com a violência da
73
Celso Amorim
repressão ao que, inicialmente ao menos, parecia um movimento
espontâneo em busca de democracia, na esteira dos que já haviam
sacudido governos autoritários na Tunísia, no Egito e em tantas
outras partes do mundo árabe. É de se notar que as mesmas
vozes não se fizeram notar nos casos do Bahrein e Iêmen, onde os
interesses geopolíticos são de outra ordem.
Não há dúvida de que é auspiciosa a aspiração popular pela
liberdade nos países do Oriente Médio. A sacudida e a eventual
derrubada de regimes autoritários, até então apoiados, se não
festejados, por boa parte da chamada comunidade internacional,
foram evoluções que o mundo contemplou com simpatia e com
grande expectativa.
Trata-se de movimento que nós, brasileiros, valorizamos
muito, pela nossa própria história recente. Mas, para que a
“Primavera Árabe” não só floresça, como também frutifique
segundo suas dinâmicas internas, é imperativo que os processos
ocorram de forma evolutiva e, na medida do possível, sejam
gerenciados em benefício da estabilidade internacional.
Como disse, hoje parece óbvio que, independentemente de
suas motivações iniciais, a “Primavera Árabe” serviu também
de trampolim para rivalidades regionais e globais de toda ordem.
E isso é especialmente visível no caso da Síria.
Não estou sugerindo que nada deva ser feito. É evidente que
a inação pura e simples tem também um alto preço. Seria preciso
afastar falsas dicotomias e – sem perder de vista o princípio da
autodeterminação e a evolução política interna – engajar todos os
atores com potencial influência na dinâmica síria em um verdadeiro
diálogo, por mais difícil que isso seja, no qual todos entendessem
claramente o quanto têm a perder com uma conflagração que, cada
vez mais, ameaça generalizar-se.
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Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
A mudança de regime na Síria, levada a cabo pelos próprios
sírios, pode até ser desejável. Mas é imperativo ter em mente os
riscos de anomia e radicalização que a queda de Assad pela força e
uma intervenção aberta naquele país provavelmente acarretarão
para a estabilidade regional.
Até que ponto a ruptura do eixo que liga Teerã, Damasco e o
Hezbollah, com conexões no governo de maioria xiita do Iraque,
aparentemente desejada por alguns, criaria um vácuo de poder que
incentivaria reações mais violentas?
Por outro lado, a ação militar contra o regime Assad ocorreria
em um quadro em que inexiste uma liderança simultaneamente
consensual e isenta de filiações fundamentalistas. Abriria o
caminho para lutas intestinas, com riscos de perseguição a grupos
religiosos no seio da complexa teia de confissões que caracteriza
a Síria; e isso poderia levar à fragmentação da Síria em vários
mini-Estados.
O ocorrido no Iraque, nesse particular, deve inspirar no
mínimo uma atitude de cautela. Há, ainda, a questão dos alegados
arsenais de armamentos químicos do país, que, caso realmente
existam, devem ser motivo de enorme apreensão. A volatilidade
já se tem feito sentir no Líbano (e não apenas pelo movimento
maciço de refugiados), enquanto a deterioração das relações da
Síria com a Turquia, ela mesma membro de uma aliança militar, é
causa de inquietação.
Até mesmo pensadores conservadores ou do establishment
nos Estados Unidos começam a ficar inquietos diante de tantas
incógnitas. Por outro lado, qualquer que seja o julgamento que
se faça sobre o regime sírio do ponto de vista do tratamento
dispensado a seu próprio povo, o fato é que, em mais de uma
ocasião, o governo Assad deu, em suas relações exteriores, mostras
de moderação, seja dispondo-se a resolver a questão das Colinas
75
Celso Amorim
de Golã por meio da negociação, seja contendo tendências mais
radicais do movimento Hamas, na sequência dos ataques de Israel
a Gaza, em 2009.
Tive a oportunidade, como Ministro das Relações Exteriores,
de testemunhar pessoalmente exemplos desse comportamento, o
que, obviamente, não redime o regime sírio de seus pecados contra
sua população.
O Brasil, que tem hoje observadores militares na Síria e lidera
a Força Tarefa Naval no Líbano, não pode deixar de acompanhar
de perto todos esses desdobramentos. Mais importante do que
isso: o Brasil deve construir sua própria análise sobre os fatos, uma
análise que não esteja contaminada por interesses geopolíticos ou
geoeconômicos de terceiros.
***
A compreensão de que os lances da crise na Síria repercutem
no tabuleiro mais amplo da redistribuição do poder enseja alguma
reflexão sobre o mundo em que vivemos. Em seu célebre artigo
intitulado “O Fim da História?”, de 1989, Francis Fukuyama
argumentava que, nessa suposta etapa superior da evolução
histórica, consagrada pela derrocada da ideologia comunista, os
assuntos políticos e estratégicos cederiam passo à predominância
da esfera econômica na vida internacional.
O fim das alternativas viáveis ao capitalismo significaria,
para Fukuyama, “a diminuição da possibilidade de conflitos de
larga escala entre os Estados”. Os limites desse tipo de avaliação
são conhecidos. Hoje, Fukuyama pode ter saído de moda, mas
algumas de suas ideias continuam a impregnar visões de analistas e
tomadores de decisão. Por isso, é interessante ver o que permanece
e o que foi superado da tese do fim da história em debates recentes.
76
Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
O canadense Michael Ignatieff, em artigo sob o sugestivo título
“Como a Síria dividiu o mundo”, trata da mudança das expectativas
do Ocidente. De acordo com ele, “nossa ideia de que a História
tinha um roteiro para a liberdade levou o Ocidente a interpretar
equivocadamente as intenções estratégicas da Rússia e da China.
Colocamos de lado os sinais de que eles se recusavam a abraçar
nossa visão de mundo (...) A Síria marca o fim dessas ilusões (...).
Eles ainda não são nossos inimigos, (...). Mas são adversários, com
interesses opostos aos nossos”.
Uma variação dessa leitura envolve os BRICS. Zaki Laïdi,
professor da Sciences Po, lança a indagação sobre se os BRICS
seriam “contra” o Ocidente. Segundo ele, “quer gostemos ou não,
os BRICS são hoje parte da paisagem geopolítica global. Resta
ver se eles serão capazes de (...) avançar uma narrativa global
alternativa àquela do Ocidente, cujo conteúdo básico é a afirmação
de que o mundo é multipolar e que a soberania estatal é uma de
suas características essenciais”.
Não desejo discutir o mérito dessas afirmações. Gostaria
apenas de assinalar o que elas revelam de superação da ilusão
do “fim da história” – mas também de permanência da lógica do
conflito entre os Estados. Está claro que o término das disputas
ideológicas não resultou no encerramento dos confrontos de
interesse.
Estamos longe da utopia e seguimos perigosamente próximos
ao conflito. É esse o quadro conceitual que, apesar da perplexidade
que possa provocar nesse ou naquele comentador, emoldura o
panorama contemporâneo da segurança global.
É certo que o conflito entre os Estados felizmente não tem
sido generalizado, como na imagem hobbesiana da “guerra de todos
contra todos”. Há mesmo áreas em que o conflito tem podido ser
canalizado por instituições internacionais. É o caso do comércio
77
Celso Amorim
internacional, hoje disciplinado por regras, inclusive sobre a
maneira de solucionar controvérsias – embora qualquer um que
conheça o funcionamento do green room da Organização Mundial
do Comércio seja testemunha do afloramento de instintos, os mais
agressivos!
Outras áreas, porém, como a geoestratégica e a geoeconômica,
não atingiram nível comparável de normatização. Disputas por
recursos naturais ou por energia, por exemplo, seguem desprovidas
de referências institucionais seguras para um equacionamento
pacífico.
Somos obrigados a concluir que, mesmo mantendo a paz
como um ideal a ser perseguido com afinco, na diplomacia como
na Defesa, não podemos excluir as hipóteses de conflito. Essa
reflexão sobre a resiliência do conflito como fator nas relações
internacionais não deriva de uma visão belicista. Ela decorre de
uma análise realista e não é irrelevante quando se considera a
inserção estratégica internacional de um país como o Brasil, que
almeja a paz e dela se beneficia.
Nossas políticas não podem depender de teses ilusórias que
as induzam a abdicar de suas responsabilidades ou a delegá-las a
terceiros.
***
Em sua inserção estratégica no mundo, o Brasil conjuga duas
linhas de defesa de seus interesses. A primeira linha de defesa é
sempre a diplomacia. Seus princípios são, entre outros, a solução
pacífica de controvérsias, a defesa da paz, a cooperação entre os
povos e o respeito ao direito internacional.
Evitar o emprego da violência entre os Estados é uma de
suas preocupações centrais. A diplomacia brasileira condena o
uso da força, salvo em legítima defesa ou quando devidamente
78
Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
autorizado pelo Conselho de Segurança, nos mais estritos termos
da carta da ONU. Em questões em que o emprego da violência está
em jogo, interpretações latas e flexíveis não podem ser admitidas.
O emprego unilateral da força encontra-se nas antípodas dessa
posição. O mesmo se passa com a extrapolação de mandatos
sancionados multilateralmente.
Igualmente perigosa é a concepção, por parte de alguns, de
que o Conselho de Segurança deva atuar como instrumento de
legitimação a posteriori do emprego unilateral da força. O Brasil
defende um sistema de segurança coletiva que cumpra eficazmente
o propósito inscrito na Carta: “Preservar as gerações vindouras
do flagelo da guerra, responsável por sofrimentos indizíveis à
humanidade”.
A história das relações exteriores do Brasil atesta seu empenho
com essa visão. O compromisso com o direito internacional
acompanha desde cedo nossa diplomacia, que oferece exemplo
singular de país de proporções continentais que equacionou todas
as suas questões fronteiriças por meio da negociação.
Afastamo-nos de todas as estruturas hegemônicas, contrárias
à criação de ordenamentos seguros e equilibrados tanto no
nível global quanto no nível regional. É isso que tem inspirado
nossa visão no Mercosul e na Unasul, além das Nações Unidas.
Demonstramos que o julgamento político consciencioso é uma
alternativa às fórmulas impositivas e coercitivas.
Essa postura clara permitiu, no passado, solucionar disputas.
No presente, contribui para evitá-las. Mais que isso: tem conferido
ao Brasil o papel de atuar no sentido de facilitar o diálogo e
minimizar conflitos entre terceiros. A própria formação de nossa
sociedade nos ensina a lidar com a complexidade e a traduzi-la em
posições equilibradas, o que propicia soluções negociadas.
79
Celso Amorim
No momento em que a falência do Conselho de Segurança em
lidar adequadamente com a crise síria parece condensar os limites de
sua anacrônica estrutura – que clama por reforma – fica mais evidente
o tipo de contribuição que países como o Brasil, mas também Índia e
África do Sul, podem dar ao sistema de segurança coletiva.
Falta ao Conselho capacidade de mediação entre a arrogância
dos que reivindicam estar do “lado certo da História” e a
intransigência dos que, a pretexto da defesa à outrance da soberania,
não reconhecem que certos temas, como os Direitos Humanos,
têm e terão, cada vez mais, apelo universal.
Os países do IBAS, embora ciosos de sua soberania, conhecem
a enorme importância de processos de evolução democrática e não
são indiferentes às causas da humanidade. Sua experiência nesse
campo não é pequena, seja frente ao colonialismo, na Índia, ao
autoritarismo, no Brasil, ou ao apartheid, na África do Sul.
É preciso observar, contra simplificações que pretendem
enquadrar a posição do Brasil em falsas oposições – como aquela
que contrapõe os BRICS ao Ocidente –, o cuidado que sempre
tivemos em manter a identidade do IBAS como foro de cooperação
entre três grandes democracias em desenvolvimento, com suas
características multiétnicas e multiculturais.
***
A outra importante linha de proteção do interesse brasileiro
é a defesa nacional. A integridade territorial, a preservação
das instituições e a segurança da população compõem os mais
elementares objetivos nacionais de defesa.
A inexistência de ameaças imediatas não justifica a
imprudência na consideração das incertezas e adversidades a que
estão sujeitos o sexto maior Produto Interno Bruto, o quinto maior
território e a quinta maior população do planeta.
80
Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
É preciso reconhecer que o abundante estoque de
biodiversidade, recursos naturais, fontes de energia e água e de
produção de alimentos detido pelo Brasil constitui um patrimônio
de enorme valor estratégico, que devemos proteger e defender.
A defesa, como a política externa, não é delegável. A defesa
orienta-se também pela contribuição do Brasil à paz mundial.
Não será possível a um país de grandes proporções, como o nosso,
beneficiar-se da paz sem arcar com uma parte dos custos desse
“bem público”.
Será crescentemente arriscado ver com indiferença disputas
de alcance sistêmico, ainda que geograficamente afastadas. Penso,
aqui, na advertência feita por Maquiavel, que dizia em seus
discursos:
Os outros poderosos, que estão distantes e não têm relações
com eles, cuidarão da coisa como de algo longínquo, que não
lhes diz respeito. Erro em que laboram até que o incêndio se
aproxime deles; e, quando este chega, não há remédio senão
apagá-lo com suas próprias forças, que já não bastam, visto
que aquele se tornou poderosíssimo.
Para alcançar esses objetivos, a política de Defesa conjuga
estratégias de dissuasão e de cooperação. A dissuasão tem o
propósito de minimizar o risco de ações hostis por parte de
eventuais adversários. Diz-se, com razão, que o Brasil não tem
inimigos. Mas não podemos excluir que uma possível corrida por
recursos ou rivalidades inicialmente surgidas em função de outras
situações, aparentemente longínquas, venha impingir sobre
nossos interesses.
Impor custos proibitivamente altos àqueles que procurem
agredir os interesses e os ativos do país, por qualquer razão que
seja, é o objetivo da dissuasão. E a capacidade dissuasória crível
decorre da manutenção de Forças Armadas bem aprestadas,
equipadas e integradas. A Estratégia Nacional de Defesa, cuja nova
81
Celso Amorim
versão a Presidenta Dilma Rousseff enviou, por meu intermédio,
ao Presidente Sarney na semana passada, indica os três eixos
pelos quais essa capacidade será aprimorada: a reorganização e
reorientação das Forças Armadas, o apoio à indústria de material de
defesa e a política de composição dos efetivos das Forças Armadas.
A implementação desses preceitos tem ocorrido por iniciativas
como o Plano de Articulação e Equipamento de Defesa, o PAED,
que direcionará os investimentos para o aparelhamento das Forças.
Vários projetos já estão saindo do papel, como a base e estaleiro de
submarinos nucleares em Itaguaí, no Rio de Janeiro; o Blindado
Guarani, veículo de transporte de tropas construído aqui perto
de Belo Horizonte, em Sete Lagoas; e a modernização dos caças de
alta performance F-5M, que deverá ser completada em setembro
na unidade de Gavião Peixoto da EMBRAER, em São Paulo, e
manterá a operacionalidade dos esquadrões de caça, enquanto se
decide sobre a nova aeronave de combate da Força Aérea.
Outra iniciativa é a recém-aprovada Lei 12.598, que concede
vantagens tributárias e condições especiais à indústria de material
de defesa brasileira e possibilitará a autonomia operacional das
Forças. Essa é uma medida de grande importância, uma vez que
a viabilidade de empreendimentos ligados à base industrial de
defesa depende de uma política consistente e previsível por parte
do Estado. A indústria de defesa ilustra o elo indissociável entre
política de defesa e política de desenvolvimento nacional.
***
Ao lado da dissuasão, não podemos esquecer a cooperação.
A cooperação tem o propósito de maximizar, pela ação coletiva,
os ganhos que países parceiros não obteriam isoladamente.
Há uma vasta margem para esses ganhos na área de defesa. O
espaço prioritário da estratégia cooperativa é o entorno do Brasil,
82
Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
composto pela América do Sul, pelo Atlântico Sul e pela orla
atlântica da África.
A América do Sul é nossa vizinhança imediata e foco de
nossas principais iniciativas de cooperação militar e industrial.
A prevalência da cooperação explica-se pelo fato de que a guerra
é, cada vez mais, uma alternativa impensável para a solução
de controvérsias que possam vir a ter entre si os Estados
sul-americanos.
Esse quadro, próximo ao que o cientista político Karl Deutsch
designou uma “comunidade de segurança”, tem no Conselho de
Defesa Sul-Americano da Unasul seu reflexo institucional. O CDS
promove a transparência, a construção de confiança e a criação de
um ambiente no qual estejam ausentes hipóteses de conflito entre
seus membros.
Uma iniciativa que concretiza esses objetivos é o Registro
Sul-Americano de Gastos de Defesa, instrumento de medição que
harmoniza os dados dos países da Unasul nesse campo. Outra é a
notificação de manobras e deslocamentos militares nas áreas de
fronteira, observada pelo Brasil nas Operações Ágata, que vêm
sendo realizadas em território brasileiro desde 2011 para combater
a ilegalidade ao longo de toda a faixa de fronteira terrestre.
Outro plano da estratégia cooperativa é o Atlântico Sul.
A Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, conhecida como
Zopacas, que reúne os países ribeirinhos em torno do princípio dos
usos pacíficos dos oceanos. Os países do Atlântico Sul comungam
no interesse de vê-lo livre de armas nucleares e de rivalidades
militares.
O Brasil tem intensificado sua cooperação bilateral com
países africanos, especialmente da porção ocidental do continente,
buscando explorar o potencial de ganhos conjuntos com seus
vizinhos atlânticos. As atividades envolvem tanto projetos ligados
83
Celso Amorim
ao desenvolvimento, como o levantamento de plataformas
continentais, quanto atividades de repressão da criminalidade
e da pirataria em áreas relativamente próximas de nossas águas
jurisdicionais.
No caso da Namíbia, nossa cooperação foi fundamental
para a estruturação de sua Marinha. O Brasil assiste, pois, com
inquietação à crescente instabilidade na África Ocidental.
A derrubada do governo no Mali, seguida de intento de
secessão, fatos que parecem associados às reverberações do conflito
na Líbia, é certamente um desenvolvimento preocupante.
Outros espaços de articulação da cooperação em defesa são
a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e o Fórum de
Diálogo Índia-Brasil-África do Sul.
Além do seu entorno estratégico, o Brasil mantém profícuas
relações cooperativas com o mundo desenvolvido, sob o signo da
transferência de tecnologia, e com os países emergentes, com os
quais explora possibilidades inovadoras em um conjunto de áreas.
No âmbito das Nações Unidas, enviamos observadores para uma
série de países, e contribuímos com expressivos contingentes
para as missões de paz no Haiti e no Líbano, onde comandamos
respectivamente as forças terrestre e naval de manutenção da paz.
***
Estou convencido de que a maior presença do Brasil no mundo
se traduzirá em formas de convívio mais abertas, equilibradas
e cooperativas. Em uma palavra, contribuirá para relações
internacionais mais pacíficas. Tem sido esse o sentido geral da ação
exterior do Brasil. Mas “não levar em conta a tempestade durante
a bonança” – para citar ainda uma vez Maquiavel –, é erro comum.
84
Discursos
O panorama global de segurança e as linhas de defesa dos interesses brasileiros
O Brasil tem hoje consciência de que a contrapartida necessária
de uma política externa independente é uma política de defesa
robusta, em que dissuasão e cooperação se reforçam mutuamente.
Muito obrigado.
85
Por uma identidade
sul-americana em defesa
Aula magna ministrada no Curso Avançado de Defesa Sul-
-Americano. Rio de Janeiro, 29 de agosto de 2012
Inicialmente saúdo os representantes civis e militares dos
ministérios da Defesa da Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia,
Equador, Paraguai, Suriname, Uruguai e Venezuela, aqui presentes
como convidados do Governo brasileiro para participar do Curso
Avançado de Defesa Sul-Americano de 2012. Ao incluí-lo em seu
plano de ação para este ano, o Conselho de Defesa Sul-Americano
dá mais um passo significativo – ao lado de iniciativas como a
criação do Centro de Estudos Estratégicos de Defesa, na Argentina
– rumo à construção de uma identidade sul-americana em matéria
de defesa.
Nas próximas dez semanas, os alunos do curso terão, de forma
concentrada, uma visão dos contornos dessa identidade, pelo
estudo da realidade de defesa sul-americana, pelo contato com
autoridades de nossa região e pela visita a algumas das principais
organizações brasileiras na área de Defesa.
Falar em identidade regional em matéria de defesa é falar na
grande maturidade de nossos países ao colocarem suas relações
nesta área sabidamente sensível sob o signo da paz e da cooperação.
87
Celso Amorim
O surgimento da América do Sul como realidade política é
fenômeno recente. Quando, no ano de 2000, ocorreu em Brasília
a primeira Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul, um
período surpreendentemente longo de afastamento começou
a ser superado. Essa desconexão tinha suas raízes no passado
colonial de nossas sociedades, em que os territórios ligados a uma
ou outra metrópole mantinham entre si rivalidades exógenas,
depois projetadas sobre a vida independente de nossas nações.
A fragmentação afligiu muitos dos pensadores de nossa região.
No Brasil, coube ao prócer de nossa diplomacia, o Barão do Rio
Branco – cujo busto, devo notar, é cultuado junto aos dos patronos
das Forças Armadas no pátio central aqui desta Escola Superior de
Guerra – ter a consciência clara de que os ódios entre espanhóis e
portugueses eram, nas palavras dele, uma “velha sobrevivência”,
estranha à América do Sul. Nas palavras do Barão do Rio Branco,
“as fronteiras não são obra de separação e divergência, devem ser
garantia de segurança e paz”. O Brasil desejava, dizia ele, ver as nações
vizinhas, e volto a citar textualmente, “cada vez mais prósperas e
fortes”, baseadas em uma “inflexível diretriz de concórdia eficaz e
leal amizade entre todas as nações sul-americanas”.
Muitos exemplos desse tipo de raciocínio lúcido podem ser
encontrados nos países de nossa região, atestando que nossos
estadistas frequentemente pensaram à frente das circunstâncias
históricas. Muitas décadas teriam que passar para que a integração
sul-americana começasse a se tornar realidade.
A democratização foi um fator central para a transformação
das atitudes políticas frente à interdependência de nossos
destinos. Ainda seria necessário, porém, o reconhecimento de
que as estratégias nacionais de desenvolvimento de cada um dos
nossos países não podem dispensar a integração com os parceiros
regionais.
88
Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
Condições internacionais menos rígidas e restritivas, como o
fim da Guerra Fria, viriam contribuir para que os países da América
do Sul tivessem margem de liberdade para conduzir um projeto
integrador pautado por seus próprios interesses econômicos,
sociais e culturais.
Na primeira década do século XXI, esses fatores convergiram
gradativamente sobre a realidade sul-americana. O Mercosul e
a Comunidade Andina lograram, em 2004/2005, estabelecer o
que constituiu, na prática, uma área de livre comércio em toda a
América do Sul.
Recordo que as tentativas nesse sentido, de uma década antes,
não prosperaram devido à escassa confiança recíproca e, sobretudo,
ao poder de atração de esquemas de liberalização comercial
envolvendo os países desenvolvidos do continente americano.
É verdade que os primeiros intentos integradores eram bem mais
antigos e remontam à criação da ALALC em 1960, transformada
em ALADI em 1980.
A despeito do mérito desses esforços, de que surgiu o arcabouço
jurídico que até hoje serve de guarda-chuva a iniciativas mais
recentes, por meio dos acordos de complementação econômica (os
ACES), a verdade é que a ALALC e a ALADI lidaram com realidades
excessivamente heterogêneas. Assim, a integração econômica
e política da América Latina (e hoje deveríamos acrescentar do
Caribe), embora siga sendo um princípio norteador de política –
no caso do Brasil, em nível constitucional – não tem a viabilidade
imediata do esforço no mesmo sentido, porém focalizado, da
integração na América do Sul.
Com a iniciativa de infraestrutura lançada na Cúpula de
Brasília, em 2000, já começávamos a interligar fisicamente
nossa região. Politicamente, a América do Sul ganhava também
personalidade internacional e aproximava-se, sem intermediários,
89
Celso Amorim
de seus vizinhos da América Latina e Caribe, da África e do mundo
árabe.
Esse ímpeto, corroborado por sinais de uma redistribuição do
poder mundial em direção à multipolaridade, motivou os países
sul-americanos a criar um quadro institucional para debater e
perseguir seus interesses comuns. A criação da Unasul, em 2008,
sintetizou o avanço dos anos anteriores nas várias frentes de
integração e projetou as aspirações de progresso em outras tantas.
Sua agenda atual é multifacetada. Inclui temas como a
defesa da democracia, o comércio, o desenvolvimento social, a já
mencionada infraestrutura, a ciência e a tecnologia e o problema
mundial das drogas. Ao dialogarem sobre seus desafios comuns e
planejarem coletivamente sua prosperidade, os países da Unasul
fizeram da América do Sul uma realidade política que dá vida ao
que até então era um mero conceito geográfico.
Em uma região que deixou de ser objeto da história para
tornar-se sujeito ativo de seu devir, a integração não poderia
deixar de estender-se à área da defesa. Tradicionalmente, este
foi um campo cercado por sensibilidades. De um lado, diferendos
territoriais dificultavam (e por vezes ainda dificultam) a exploração
do potencial cooperativo. De outro, quando se tratava da
segurança nacional, a ideia das fronteiras como “obra de separação
e divergência” aplicava-se também aos limites que dividem o
Estado da sociedade no interior dos nossos países. A opacidade e a
desconfiança eram a regra de parte a parte.
A democratização transformou a relação entre cidadãos e
governantes pelo fortalecimento do princípio da transparência
no interior de nossas comunidades políticas. Embora os processos
políticos continuem a evoluir – e nem sempre de forma linear –, a
América do Sul é hoje um continente politicamente mais maduro,
no qual defesa e democracia se reforçam mutuamente.
90
Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
Convido todos, a propósito, a examinarem o Livro Branco
de Defesa Nacional que o Governo da Presidenta Dilma Rousseff
acaba de apresentar ao Congresso Nacional. Iniciativas como essa,
já corriqueiras em nossa região, suscitam o acompanhamento
atento e crítico dos assuntos de Defesa pela sociedade civil,
fator imprescindível para políticas de defesa em sintonia com os
interesses nacionais.
Essa representatividade é exemplificada, no caso brasileiro,
pelo sólido vínculo entre a política de defesa e a política de
desenvolvimento que orienta a nossa Estratégia Nacional de
Defesa.
Ao mesmo tempo, estou convencido de que a integração sul-
-americana é o caminho a ser trilhado para que a relação entre
nossos países na área de defesa leve, cada vez mais, a marca da
convergência estratégica. Uma América do Sul que procura
superar desafios comuns e projetar-se coletivamente na política
internacional deve refletir maduramente sobre sua identidade em
matéria de defesa.
A condição básica dos Estados no tocante à sua segurança
é o exercício do direito soberano à sua própria defesa. Desde a
fundação das Nações Unidas, no pós-Segunda Guerra Mundial,
o emprego da violência pelos Estados em suas relações externas
ficou, ao menos em teoria, sujeito ao sistema de segurança coletiva
centrado no Conselho de Segurança.
Exceção feita à autodefesa, essa sempre indeclinável,
individual ou coletiva, prevista na Carta de São Francisco em
termos bastante estritos, o uso da força depende da autorização
daquele órgão, que detém a responsabilidade primária pela paz e a
segurança internacionais.
Com todas as suas imperfeições institucionais, que estão
a requerer inadiável esforço de reforma, o arcabouço jurídico da
91
Celso Amorim
ONU fornece, ainda, o melhor quadro normativo para regular as
questões de paz e de guerra. É pelas Nações Unidas que poderemos
“multilateralizar a multipolaridade”, tornando esta nova ordem
mundial sinônimo de estabilidade e prosperidade para todos os
povos.
“Multilateralizar a multipolaridade”: não se trata, aqui, de
mero jogo de palavras. A multipolaridade, expressão de uma
distribuição de poder menos concentrada, embora benéfica, não
pode, por si mesma, garantir a paz e, muito menos, a justiça.
Sem o arcabouço normativo do multilateralismo, a
multipolaridade ensejará no máximo um equilíbrio de poderes,
a exemplo do sistema que vigorou na Europa, com algumas
interrupções, entre a Paz de Westfália e a Primeira Guerra Mundial,
isto é, entre meados do século XVII e os albores do século XX.
E, como todos sabem, esses quase três séculos de história
foram pontilhados por conflitos e tentativas de dominação, que,
por vezes, levaram à supressão de povos e nações. O final do largo
período das guerras mundiais do século XX assistiu à criação
de um sistema de normas, ao qual faltou, entretanto, uma base de
sustentação na realidade de poder.
À bipolaridade da Guerra Fria seguiu-se uma fase do que
poderíamos chamar de “unipolaridade consentida”, na qual o
multilateralismo frequentemente serviu de manto a atitudes
hegemônicas.
Temos, hoje, pela primeira vez na história moderna,
uma combinação entre a existência de normas internacionais,
portanto multilateralismo, e uma realidade que se aproxima da
multipolaridade: uma espécie de “equilíbrio de poder normatizado”,
no qual, além das regras que visam proteger a independência e
a soberania, estão presentes, ainda que de forma embrionária,
92
Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
normas que dizem respeito à justiça, aos direitos humanos e à
preservação da natureza.
É esse multilateralismo assentado em realidades de poder
ou, se quisermos, é essa multipolaridade normatizada que poderá
garantir, na medida em que isso seja de todo possível, um futuro
de paz e de justiça.
Os países sul-americanos desejam dar sua contribuição a essa
causa. Mas no mundo em que vivemos – um mundo de estados-
-nação, marcado ainda por fortes assimetrias de poder – sermos
pacíficos não pode significar que sejamos indefesos.
Embora vivamos em uma região afastada dos principais
focos de tensão global, não podemos ser imprudentes quanto à
possibilidade de nos tornarmos vulneráveis a riscos ou ameaças
provenientes de cenários em princípio alheios ao nosso ambiente.
Não podemos, por exemplo, descartar hipóteses de conflito entre
terceiros países que afetem adversamente nossos interesses ou
mesmo que atinjam nosso patrimônio.
É preciso reconhecer que o arcabouço multilateral da ONU,
que regula o uso da força entre os Estados e que desejamos
prestigiar, tem sido repetidamente minado por ações armadas
unilaterais ou pela extrapolação dos objetivos de mandatos
conferidos pelo Conselho de Segurança – o que inevitavelmente
afeta a credibilidade do sistema.
A dissuasão liga-se à avaliação soberana dos riscos e ameaças a
que está submetido um país ou, nesse caso, uma região. Pressupõe
a capacidade de imposição de custos proibitivamente altos para
eventuais forças adversas, de modo a desincentivar ações hostis,
provenham de onde provierem.
Está superada a etapa histórica em que se tentou persuadir
nossos países de que sua segurança estava garantida por potências
de fora, cabendo às nossas Forças Armadas especializarem-se,
93
Celso Amorim
total ou principalmente, em tarefas como o combate ao crime
organizado ou ao tráfico de drogas.
Os países sul-americanos têm o direito e o dever de proverem
sua própria defesa através de adequada capacidade dissuasória.
Mas não é óbvio que possam fazê-lo de forma isolada. A estratégia
global dissuasória conjuga-se com uma estratégia regional
cooperativa. A construção da América do Sul não estará completa
enquanto as fronteiras que apartam nossos países não forem, e
volto a usar as palavras de Rio Branco, “verdadeiras garantias de
segurança e paz” entre nações “cada vez mais prósperas e fortes”.
O chamado do Barão do Rio Branco por uma “inflexível
diretriz de concórdia eficaz e leal amizade entre todas as nações
sul-americanas” é atualíssimo e aplica-se muito especialmente à
área da defesa.
Se é verdade que o conflito segue sendo um fator de incidência
nas relações internacionais, não é menos verdadeiro que, em
certas regiões, sua manifestação é largamente mitigada – se não
eliminada de todo, mas quem sabe eliminada – graças, em parte,
ao desenvolvimento de instituições voltadas à paz e à cooperação.
A transformação da realidade política europeia nas últimas sete
décadas é um exemplo eloquente.
Temos na América do Sul alguns casos de “mudança pacífica”.
Gosto sempre de citar, a esse respeito, a superação das suspeitas e
rivalidades entre Brasil e Argentina. Nossos dois países souberam
desmontar uma estrutura de interação fundada na política de
poder e edificar uma parceria que é exemplo mundial de construção
de confiança. A Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e
Controle de Materiais Nucleares, ABACC, é representativa da força
do projeto integrador, capaz de gerar uma visão compartilhada de
paz e entendimento em uma das áreas mais sensíveis da segurança,
a área nuclear. Ao mesmo tempo, a ABACC fortalece nossa posição
94
Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
– tanto do Brasil, quanto da Argentina – nas discussões sobre
desarmamento e não proliferação em nível global.
Avanços como esse foram decisivos para que nossos países
abrissem, aqui na região, novo ciclo de inserção competitiva e de
desenvolvimento industrial. Pela cooperação, os países atingem
ganhos que não obteriam agindo separadamente.
No plano bilateral, operações de prevenção e repressão de
criminalidade fronteiriça, como as Operações Ágata, no Brasil,
ensejam, também, oportunidades de cooperação e criação de
confiança com nossos vizinhos. Seguindo as normas estabelecidas,
o Brasil notifica seus vizinhos da movimentação de Forças por
ocasião desse tipo de operação. Em muitos casos, temos tido
observadores desses países dentro das nossas Forças e, até mesmo
em alguns casos, operações simultâneas com nossos vizinhos
funcionando como espelho, o que garante a maior eficácia da
atividade.
Devemos continuar, no plano bilateral ou plurilateral, o
desenvolvimento de exercícios conjuntos, mais uma forma de
ampliar o conhecimento mútuo entre nossas Forças Armadas e
aperfeiçoar suas habilidades em ações conjuntas. Quero saudar,
nesse contexto, a grande iniciativa entre Argentina e Chile de
fundarem a Brigada Cruz Del Sur. O Brasil está estudando uma
maneira de participar, pelo menos em um primeiro momento,
como observador nesse esforço.
No plano multilateral regional, a Unasul passou a contar com
uma instância de consulta, cooperação e coordenação em matéria
de defesa: o Conselho de Defesa Sul-Americano, criado na reunião
extraordinária de Costa do Sauípe em dezembro de 2008.
A instituição do Conselho ocorreu menos de sete meses
após a assinatura do Tratado Constitutivo da Unasul, em maio do
mesmo ano. Em seu período ainda curto de existência, o Conselho
95
Celso Amorim
já exibiu notável capacidade de equacionar questões surgidas
entre seus membros, dando contribuição efetiva à manutenção da
estabilidade regional e à causa da paz.
O atual plano de ação do Conselho de Defesa Sul-Americano
atesta a variedade de áreas em que a cooperação sul-americana
tem realizado ou realizará o potencial de ganhos conjuntos.
A coordenação de ações na missão de paz no Haiti é um exemplo
de contribuição competente e de forte conteúdo humano para
a reconstrução do país irmão. Outra área indicada no plano de
ação do CDS aberta a enormes benefícios pela cooperação é a de
indústria e tecnologia de defesa.
Uma das diretrizes da Estratégia Nacional de Defesa brasileira é
justamente o estímulo à integração sul-americana, e especialmente
o fomento à integração das bases industriais de defesa. Projetos
como o do avião cargueiro-reabastecedor KC-390, em que o Brasil
tem contado já com a parceria da Argentina, e ao qual poderão
juntar-se outros países, começam a dar concretude aos planos de
desenvolvimento industrial coletivo sul-americano.
Onde ainda não podemos desenvolver conjuntamente,
procuramos comprar produtos de defesa de nossos vizinhos.
É o caso de lancha fluvial blindada que estamos adquirindo da
Colômbia. Notem-se, também, os avanços na implementação dos
procedimentos de aplicação das medidas de fomento da confiança
e segurança, documento adotado pelo CDS.
Esse repertório de medidas aprofundará a identificação
estratégica entre as nações sul-americanas. São pilares do
documento a proscrição do uso da força e da ameaça do uso da
força, assim como o compromisso regional com o status da América
do Sul como zona livre de armas nucleares.
Todas essas frentes de cooperação ampliarão as capacidades
individuais e coletivas dos países sul-americanos. Uma América do
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