Celso Amorim
manifestações dos embaixadores da reserva quando eu era minis-
tro das Relações Exteriores, simplesmente não dormia mais.
ISTOÉ: A grande preocupação deles é com a Comissão da Verdade,
pois muitos desses oficiais participaram da repressão. Há motivos
para temer um revanchismo?
Celso Amorim: O que vou dizer agora é uma avaliação minha,
pessoal. Acho que a Comissão da Verdade é o último capítulo da
transição democrática, um epílogo. Há muito tempo estão sendo
escritas outras coisas novas da fase democrática, mas ficou essa
questão. É uma necessidade da sociedade em reconciliar-se consigo
própria conhecendo a verdade. Como dizia o arcebispo sul-africano
Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz: “A verdade cura. Às vezes ela
arde, mas cura”.
ISTOÉ: Então, não há razão para os militares temerem o trabalho
da comissão?
Celso Amorim: Olha, quem não quiser conhecer a verdade
ou permitir que a verdade seja divulgada e documentada pode
até temer. Posso dizer que o governo não vai tomar nenhuma
iniciativa revanchista. Certamente, não teria nenhum cabimento e
a lei não permite que se faça isso. É algo que foi pactuado. Sei que
o (deputado) Jair Bolsonaro não votou, mas os demais deputados
aprovaram a comissão. Aliás, foi uma das poucas leis aprovadas
pelo Congresso com tanto consenso. Não vejo nenhuma razão para
temer uma judicialização. A própria lei que estabelece a comissão
reitera a Lei da Anistia.
ISTOÉ: Há preocupação também em relação a documentos
que ainda existiriam em poder das Forças Armadas, como os da
Guerrilha do Araguaia. Esses documentos existem?
Celso Amorim: Não me consta que existam. Depois que eu
cheguei, pedi informações e me disseram que os documentos
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Artigos e entrevistas
“A Comissão da Verdade é o epílogo da transição democrática”
foram destruídos. Por outro lado, temos uma comissão importante
que cuida do Araguaia, que tem ido lá e já identificou dois corpos.
E há grandes chances de identificarmos um terceiro. Esse trabalho
é contínuo e vem alcançando sucesso.
ISTOÉ: Quando o manifesto contra a Comissão da Verdade foi
divulgado, o governo reagiu ameaçando retaliar. Haverá ou não
punição?
Celso Amorim: Não vou me prender a palavras. Deixei esse
assunto a cargo dos comandantes e eles têm levado a mensagem
de maneira adequada a quem interessa, fazendo esses militares
da reserva enxergar certas coisas. O mais importante é fazer com
que eles vejam o inconveniente de certas posições, a que isso
leva e relembrar certos deveres. Podem chamar de advertência
regimental, mas não vou entrar nessa discussão.
ISTOÉ: Só para esclarecer melhor, haverá algum processo
administrativo?
Celso Amorim: Não. Seria complicado, então encontramos um
método mais prático e eficaz.
ISTOÉ: O senhor acha que essa insatisfação dentro da caserna é
também alimentada pelas frequentes demandas salariais?
Celso Amorim: São duas coisas diferentes. A questão dos
vencimentos dos militares é importantíssima. O profissionalismo
dos militares deve ser respeitado. Eles são, em sua esmagadora
maioria, bons profissionais, conscientes de qual é o seu papel.
Não vou dizer quando ou de quanto será o reajuste, mas estamos
trabalhando nisso. Não só no salário, mas na melhoria das
condições de trabalho, equipamentos adequados e uma vida digna.
ISTOÉ: Um reajuste a curto ou médio prazo é compatível com o
orçamento contingenciado?
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Celso Amorim
Celso Amorim: Quando se fala em orçamento, sabemos,
obviamente, que não é satisfatório. Se compararmos, por
exemplo, o orçamento da Defesa com nossas necessidades, com
as necessidades de um país dos BRICS, que é a sexta economia
do mundo, não é compatível. Temos que levar em conta muitos
aspectos, como a dimensão do País, a vastidão do litoral e das
fronteiras terrestres, os recursos naturais. Mas, se compararmos o
orçamento deste ano com o do ano passado, está razoável.
ISTOÉ: Então os projetos de investimento e modernização das
Forças serão mantidos?
Celso Amorim: Sim. A compra dos helicópteros não foi afetada,
nem o projeto do submarino nuclear ou o programa dos blindados.
ISTOÉ: Mas e o F-X2? A compra dos caças virou uma novela que já
dura mais de uma década...
Celso Amorim: Posso dizer que já estamos nos últimos capítulos.
Tenho uma expectativa de que a compra dos aviões possa ser
resolvida ainda neste semestre.
ISTOÉ: E a troca de informações com a Índia sobre a compra que
eles fizeram de 126 caças Rafale? Muita gente interpretou como
mais um aval brasileiro ao avião francês.
Celso Amorim: Não tem sentido. Minha visita à Índia para
firmarmos essa cooperação já estava marcada muito antes de eles
definirem a compra. Coincidiu de optarem pelo Rafale na semana
em que fui lá.
ISTOÉ: Os outros dois concorrentes não podem reclamar de um
tratamento privilegiado?
Celso Amorim: Não há essa possibilidade. Eu já recebi aqui
delegações da Suécia em que estava presente o Presidente da Saab.
Está prevista uma visita do Secretário de Defesa dos EUA, mas
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Artigos e entrevistas
“A Comissão da Verdade é o epílogo da transição democrática”
não sei se ele vai tocar no assunto. Nada disso influencia no meu
julgamento.
ISTOÉ: Nem a decisão dos EUA de cancelarem a compra dos Super
Tucanos?
Celso Amorim: Foi algo decepcionante, sem dúvida, e me parece
improvável que possam reverter o resultado. Mas não há relação,
até porque estamos falando de uma compra de R$ 300 milhões e de
outra de R$ 5 bilhões.
ISTOÉ: A cooperação entre o Itamaraty e o Ministério da Defesa
nem sempre funcionou satisfatoriamente. Sua vinda para cá tende
a melhorar esse diálogo?
Celso Amorim: Sinceramente, nunca houve uma divergência
muito grande. Pode ter havido algum detalhe em algum momento,
mas participamos de muitas coisas juntos. Claro que minha
vivência no Itamaraty talvez ajude.
ISTOÉ: De que maneira?
Celso Amorim: A grande estratégia de Defesa do Brasil tem que
incluir as Relações Exteriores. Creio que pode haver uma mudança
de intensidade nesse sentido, especialmente na cooperação com a
América do Sul. Este é um dos grandes eixos de trabalho para os
próximos anos. Se para o mundo nossa política é mais de dissuasão,
para a região é de cooperação.
ISTOÉ: Falando nisso, ressurgiu agora o debate sobre a soberania
das Malvinas. Como o Brasil está lidando com isso?
Celso Amorim: A demanda da Argentina é histórica, e o Brasil
apoia, assim como todos os demais países da região. Mas nós
procuramos levar isso com transparência e bom-senso. Afinal,
nós também temos uma cooperação importante com o Reino
Unido.
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Celso Amorim
ISTOÉ: Sobre a segurança de grandes eventos, o Brasil está
preparado para receber a Copa e a Olimpíada?
Celso Amorim: Acho que sim. Nossas Forças Armadas têm
demonstrado em várias ocasiões sua aptidão para isso. Haverá
uma grande cooperação com o Ministério da Justiça. Eu já tive
vários briefings, inclusive sobre a Rio + 20, que me deixaram muito
tranquilo. Com relação à Copa e à Olimpíada, as coisas estão
caminhando normalmente.
ISTOÉ: Houve casos recentes de ações terroristas na Noruega e na
França. O senhor vê algum risco de um ataque no Brasil?
Celso Amorim: Não posso garantir que não haja riscos, mas estou
muito confiante em que estaremos preparados. Vamos monitorar
tudo, com o apoio dos sistemas de inteligência de vários órgãos.
ISTOÉ: Neste sábado 31, completam-se 48 anos do golpe de 1964.
O senhor teme que ocorram comemorações?
Celso Amorim: Estou muito confiante em que coisas desse tipo,
sobretudo entre os militares da ativa, não ocorrerão. Mas entre
os da reserva não sei. O que posso dizer é que, como Ministro da
Defesa, tenho humildade para afirmar que estou aprendendo a
cada dia. Mas tem que ficar claro que os militares devem seguir
a orientação do poder civil eleito.
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“Cuanto más Chile se sienta
sudamericano, más nos ayuda
en la integración”
Entrevista a Juan Pablo Toro V., do jornal El
Mercurio, em 31 de março de 2012
El Mercurio: ¿Cuál es la diferencia entre ser canciller y ministro
de Defensa?
Celso Amorim: Como ministro de Defensa tengo que ser
diplomático, como canciller podía ser guerrero (ríe).
El Mercurio: Hace poco Brasil desplazó al Reino Unido al
convertirse en la sexta potencia económica del mundo. Sin
embargo, no parece que su país esté desarrollando un poderío
militar acorde a ese estatus, similar a las inmensas inversiones en
Defensa que están haciendo China e India. ¿Cree que Brasil puede
basar su condición de potencia en el soft power y las finanzas?
Celso Amorim: Afortunadamente, nuestro entorno es más
amigable, eso hace que las cuestiones que atañen a la Defensa sean
un poco menos urgentes. Pero sí va a ser necesario que Brasil tenga
una capacidad de defensa compatible con su estatus en el mundo.
Uno no puede actuar en un mundo complejo y no tener algo que
sostenga esa capacidad de acción.
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Celso Amorim
Las comparaciones siempre son difíciles, pero entre los BRICS, el
que gasta menos (en Defensa) es India y gasta 2,5% del PIB. Brasil
gasta 1,5 o 1,6%, entonces progresivamente vamos a tener que
subir eso, de manera compatible con otros objetivos, como dar la
guerra contra el hambre y las enfermedades. De una manera muy
sencilla, digo que cuando pienso en la situación de Defensa de
Brasil, en Sudamérica es cooperación y para afuera es disuasión.
Tener una política de disuadir cualquier intento de avance sobre
nuestros recursos es muy importante, pero queremos que eso sea
hecho en un marco de máxima cooperación sudamericana, porque
queremos dejar muy claro que no nos estamos armando por uno u
otro país de Sudamérica. Hoy no se puede querer ser un BRICS en
la parte económica-comercial, y ser un pequeño país en el terreno
de la Defensa. Eso no es posible.
El Mercurio: ¿Para qué quiere Brasil un puesto en el Consejo de
Seguridad de la ONU, si por ejemplo se opone a intervenciones
militares como la de Libia, que finalmente desembocó en el fin del
régimen dictatorial de Gaddafi?
Celso Amorim: Un país que es la sexta economía del mundo y
que, además, tiene intereses diversificados, como Brasil, tiene que
estar presente para influir en las decisiones que afectan la paz y
la seguridad mundial. Lo que pasa en África, que está muy cerca
para nosotros, o en Medio Oriente, con el precio del petróleo, va
influir en una economía que tiene una posición muy importante
en el mundo.
En Brasil creemos que podemos contribuir a la paz mundial, es una
tradición nuestra. Tenemos 10 vecinos inmediatos y no tenemos
un conflicto hace más de 140 años.
Pero más allá de ser un deseo o una pretensión de Brasil, creo que es
bueno para el mundo que haya una mayor diversidad de opiniones
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Artigos e entrevistas
“Cuanto más Chile se sienta sudamericano, más nos ayuda en la integración”
en el Consejo de Seguridad. Países como Brasil, India, Sud-África u
otro europeo pueden contribuir para que haya un mayor equilibrio
de visiones. Nosotros no podemos renunciar a tener influencia, no
podemos ser un gigante económico y un enano político.
El Mercurio: Usted ha dicho que Sudamérica avanza hacia la
conformación de una comunidad de seguridad. ¿Cree posible
la existencia de una fuerza de paz regional de la Unasur, tal como la
tiene la Unión Africana?
Celso Amorim: No veo por qué no. Tenemos que seguir enfatizando
la cooperación y ya estamos de alguna manera juntos en Haití. No
es una única fuerza de paz, pero un 80 o 70% de las fuerzas ahí
son de países sudamericanos. Además, está la presencia política
de Chile con el representante del secretario general (Mariano
Fernández) y nosotros con el comando militar. Creo que es muy
viable y es bueno que pase, pero vamos evolucionando.
El Mercurio: ¿Qué importancia le atribuye al desarrollo de
la industria de Defensa regional en materia de integración? Me
refiero en particular a la construcción del avión de transporte KC-
390 donde participarían varios países.
Celso Amorim: Es un campo muy importante para trabajar juntos
y el KC-390 es un excelente ejemplo, pero no es el único. También
están las lanchas colombianas (patrulleras blindadas fluviales
que comprará Brasil) Todo va e ser proporcional a la capacidad
productiva de cada uno.
El Mercurio: Sobre Haití, ¿cuándo estima que este país podrá
asumir su propia seguridad?
Celso Amorim: La fecha no la sé, pero hay evolución. Es un país
con una política compleja. Ya tuvimos dos elecciones democráticas
seguidas, que tal vez no fueron perfectas, pero tampoco en los
países desarrollados las elecciones son perfectas.
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Celso Amorim
Tenemos una presencia ahí que tiene que disminuir, porque
esa es una señal no sólo para los haitianos, sino también para,
la comunidad internacional. Porque es muy cómodo para la
comunidad internacional no hacer todo lo que tiene que hacer en
términos de cooperación para el desarrollo y reconstrucción porque
los sudamericanos están ahí y van a mantener el país. Entonces,
hay que dar la señal de que vamos a disminuir progresivamente,
pero de manera responsable, nuestra presencia en Haití.
No sería honesto ni para nosotros mismos, después del esfuerzo
que hicimos, en el caso de Brasil que perdimos 18 militares más
tres civiles, abandonar todo y dejarlo todo. Pero progresivamente
los haitianos tienen que asumir su fuerza policial y las fuerzas que
puedan tener. Nuestra visión no es muy distinta a la de otros países
sudamericanos, incluso a la de Chile.
El Mercurio: ¿Qué le parece la idea del Presidente Michel
Martelly de crear un nuevo Ejército? Puesto que la Minustah se
enfocaba: en un plan de reforma policial.
Celso Amorim: Martelly tiene que saber cuáles son sus
prioridades, es el Presidente escogido por el pueblo haitiano. Si
esa es la mejor cosa no lo sé, pero es una decisión soberana. Lo
importante es que lo haga de una manera que no se recreen los
problemas que había con el antiguo Ejército haitiano.
El Mercurio: ¿Para este año, tiene su país planeado retirar más
tropas?
Celso Amorim: Antes del terremoto había 1.200 (soldados),
después del terremoto subimos a 2.200. Ahora bajamos 250 y creo
que cuando haya una renovación del mandato de la misión vamos
a ver cómo quedaremos exactamente.
El Mercurio: Brasil firmó un acuerdo con Gran Bretaña en materia
de Defensa. Por otra parte, Argentina ha acusado a Londres de
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Artigos e entrevistas
“Cuanto más Chile se sienta sudamericano, más nos ayuda en la integración”
“militarizar” el Atlántico Sur en medio de su ofensiva diplomática
por las Malvinas. ¿Qué opina al respecto y como lo compatibilizan?
Celso Amorim: Es un acuerdo marco como el que tenemos con
muchos países. En relación a Malvinas es público que apoyamos la
reivindicación de Argentina, queremos que esto sea resuelto por
la negociación y en el marco de Naciones Unidas. Eso no nos impide
tener una cooperación con el Reino Unido, siempre y cuando no
sea algo que pueda causar un problema también para Argentina.
Argentina es un país con el cual tenemos una alianza estratégica y
que es de gran importancia para Brasil, como para Chile también,
me imagino. Y fue el inicio de esta alianza estratégica entre Brasil
y Argentina, justamente, lo que está en los inicios de los esfuerzos
modernos de integración sudamericana, como el Mercosur y luego
la Unasur.
El Mercurio: ¿Tras el incendio de su base antártica, cuáles son
sus planes para mantener presencia en ese continente?
Celso Amorim: Quiero aprovechar que toca el terna para
agradecer al Gobierno y el pueblo chileno por el apoyo que nos
dieron, que fue formidable. Eso nos permitió sacar a la gente de
ahí y después recuperar los cuerpos. También está la oferta de
alojamiento para que haya alguna gente de la Marina de Brasil
que pueda pasar el invierno y marcar nuestra presencia. Vamos a
continuar trabajando ahí, el programa antártico brasileño es una
decisión de Estado que cuenta con todo el apoyo de la sociedad y
del Congreso.
El Mercurio: ¿Dentro de la visión de seguridad que tiene Brasil,
cuál es el rol que ve para Chile en ese contexto?
Celso Amorim: Para nosotros todo lo que pueda pasar con la
posición de Brasil en el mundo, con el Consejo de Seguridad y otras
instancias, parte de la base de la profundización de la integración
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