San Tiago Dantas
Palavras por ocasião do lançamento do livro Poder Nacional, Cultura
Política e Paz Mundial. Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 2014
Queria hoje dizer um pouco de como a minha geração viu San
Tiago Dantas. Antes disso, vou permitir-me uma pequena palavra
pessoal, porque os meus caminhos e os caminhos do Ministro
Marcílio Marques Moreira têm se cruzado muitas vezes, sempre
com a grande vantagem minha. Espero que hoje também seja
assim.
O Ministro Marcílio referiu-se, em sua fala, a um evento em
homenagem a San Tiago Dantas em 1984. Esse era um período
em que eu vivia uma espécie de exílio dourado na Holanda, depois
dos meus conturbados tempos de presidente da Embrafilme. Eu
estava de férias no Rio e telefonei para a casa do Marcílio. Atendeu
a Maria Luísa, sua mulher, que me disse: “O Marcílio está viajando
muito, é difícil, mas amanhã ele vai fazer uma palestra sobre
Santiago Dantas”.
Eu achava que era uma palestra para o ambiente acadêmico,
que as pessoas iriam em trajes esportivos. Lembro-me de que
fui com meu sogro e meu filho, e o máximo que nós pusemos foi
um blazer. E lá fomos nós ao instituto dirigido pelo Hélio Jaguaribe,
se não me engano no Jardim Botânico. Acontece que era uma
sessão solene, dos vinte anos da morte de San Tiago Dantas.
323
Celso Amorim
E eu reparei que não havia nenhum representante do
Itamaraty, a não ser um embaixador aposentado, Antônio Castello
Branco. Naquela circunstância, eu disse: “Estou aqui como
representante um pouco informal do Itamaraty, que devia estar
participando desta homenagem a uma pessoa que marcou de
maneira tão profunda a nossa diplomacia”. Recordo-me de que,
entre os oradores presentes, estava o Renato Archer, que foi oficial
de Marinha. Eu o conheci naquela noite, e depois passei anos
importantes da minha vida trabalhando com ele no Ministério da
Ciência e Tecnologia.
Em muitos outros momentos meus caminhos e os do
Ministro Marcílio cruzaram-se e a nossa amizade fortaleceu-
-se, independentemente até dos caminhos políticos que cada um
possa ter tomado. Acho que isso em si já é uma homenagem ao San
Tiago, porque, além do que já foi dito sobre sua ética e sua visão do
mundo, eu destacaria a sua grande capacidade de ver as vantagens
do pluralismo e do vivo entrechoque de ideias diferentes.
E aqui eu passo, então, a falar como uma pessoa da minha
geração. Há cerca de cinco anos, a Organização dos Estados
Americanos discutiu a supressão da resolução do Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca que suspendia Cuba –
ou o Governo de Cuba –, como parte da OEA, em 1962. Eu era
Chanceler do Governo Lula, e, ao preparar-me para a reunião, reli
os discursos feitos pelo San Tiago Dantas quase cinquenta anos
antes.
A primeira vez em que San Tiago Dantas chegou a mim com
muita força – eu era um jovem de talvez menos de vinte anos –
foi com suas palavras naquela reunião de consulta do Tratado
Interamericano de Assistência Recíproca, em que Cuba foi
suspensa. San Tiago Dantas agiu como grande independência.
324
Discursos
San Tiago Dantas
De certa maneira, San Tiago Dantas transformou em prática
o que já vinha sendo feito no governo Jânio Quadros. Mas,
naquele início do Parlamentarismo no Brasil, ele foi um símbolo
real da Política Externa Independente. De um lado, deu densidade
conceitual ao que vinha sendo feito antes. De outro, transformou
a atitude de independência do Brasil em face das questões
internacionais em uma realidade prática muito verdadeira, em
uma época que isso não era simples.
Não porque simpatizasse com o governo de Cuba, e as palavras
proferidas pelo Ministro Marcílio deixam claro sua firme posição
pela democracia liberal. Mas creio que essa democracia liberal foi
se transformando ao longo do tempo, para ele, em uma democracia
de forte componente social, com a eliminação das desigualdades e
a eliminação da violência. Então, o primeiro grande impacto que
San Tiago trouxe para mim, como um jovem de 19 anos, que, na
época, não pensava em ser diplomata – fazia cinema e trabalhava
em outras áreas –, foi com seu discurso na reunião de Punta Del
Este.
Logo em seguida, quando Tancredo Neves deixou o cargo
de Primeiro Ministro, colocou-se a questão da sua sucessão.
E acompanhei, como jovem interessado em política (embora sem
nenhum envolvimento direto com ela), a discussão em torno de
quem seria o novo Primeiro-Ministro. Lembro-me das esperanças
colocadas em San Tiago Dantas. E tenho para mim – sem fazer
nenhuma opção, nem estar manifestando agora nenhuma opção
sobre qual é o melhor sistema de governo, porque essa é uma
questão muito complexa – que o futuro do Parlamentarismo no
Brasil, e talvez o futuro do Brasil, tivesse sido diferente se San
Tiago Dantas fosse então escolhido como Primeiro-Ministro.
Isso era o que muitos desejavam, inclusive os jovens. Mas
não foi o que ocorreu. O choque de interesses foi de tal ordem (e
325
Celso Amorim
direita e esquerda uniram-se, curiosamente), que não permitiu
que San Tiago viesse a ser o Primeiro-Ministro. Já nos dias mais
conturbados no final do governo de João Goulart, San Tiago
tentou abrir o diálogo com a iniciativa da Frente Única, um
grande movimento que envolvesse todos aqueles interessados na
reforma política de uma maneira democrática. Para uma pessoa
que naquela época ainda estava se formando, esses fatos tiveram
grande influência.
Como diplomata, San Tiago ficou como um ícone verdadeiro.
Raras vezes é possível, na história, verificar uma pessoa que tenha
ficado tão pouco tempo em um cargo e tenha marcado de maneira
tão forte uma carreira, uma profissão, um setor da vida nacional.
San Tiago Dantas dá hoje – guardo a honra de ter tomado essa
iniciativa – nome a uma das principais salas do Itamaraty. E por
que um homem que durante tão pouco tempo esteve à frente do
Ministério marcou tanto? A visão dele realmente chega até os dias
de hoje. É uma visão muito contemporânea, e com uma capacidade
de tradução original.
O Embaixador Marcílio lembrava aqui a proposta de San
Tiago de uma “convivência competitiva” entre as potências
capitalista e comunista, que era uma forma dinâmica de reler o
tema da “coexistência pacífica”, muito em voga na época. E por
que uma convivência competitiva? Porque ele via méritos nesse
entrechoque, embora sempre firme defensor da democracia.
A preocupação social que existiu (ou pelo menos parecia existir)
nos regimes socialistas poderia ser incorporada sem o sacrifício da
democracia. Isso está muito patente em vários dos seus discursos
sobre política internacional na época.
Essa vocação pacifista até hoje nos inspira. Certamente ela
não era neutralista, mas tampouco era estática. Tenho dito, como
Ministro da Defesa, que o Brasil não é apenas um país pacífico,
326
Discursos
San Tiago Dantas
o Brasil é um país provedor de paz. É um país que tem a vocação
de ser provedor de paz, devido a uma série de fatores culturais, à
sua história, e também ao seu interesse. San Tiago Dantas tinha
a capacidade de juntar o interesse nacional, que ele defendia de
maneira muito forte (quando defendia, por exemplo, que o Brasil
tinha que ter relações com a União Soviética, ele dizia que os nossos
exportadores e nossos industriais tinham que vender produtos à
União Soviética), à defesa da paz no mundo.
É mais ou menos esse tipo de visão que inspirou alguns
aspectos da política externa brasileira em meu período de
Chanceler, pelo menos, e creio que até hoje. Uma visão em que
não apenas o interesse nacional – é claro que o interesse nacional
é absolutamente fundamental, seria ingênuo pensar que o país
não tem que considerar o seu interesse –, mas também um certo
sentido de solidariedade pauta nossas atitudes. Solidariedade era
um termo usado por San Tiago Dantas – esse dom de si que ele
descobriu ou leu na figura do Dom Quixote e que, de certa maneira,
deve ser uma motivação em nossas vidas.
Por isso, falando um pouco da política externa e da política
de defesa, a nossa política aqui na América do Sul é de cooperação.
Algumas vezes usei o termo generosidade, e esse termo pode até
ter sido objeto de muita crítica, porque, como se diz, os países
têm interesses, não tem amigos. Mas não há contradição aí.
A prosperidade e o bem-estar dos nossos vizinhos são fatores que
contribuem para a nossa segurança. Nisso, interesse nacional e
generosidade, ou solidariedade, se vocês preferirem, coincidem.
Raras vezes tive a oportunidade de, no mesmo dia, participar
de duas cerimônias tão significativas como hoje. Pela manhã, esti-
ve em Itaguaí, na inauguração do hall principal do estaleiro onde
serão construídos não só nossos submarinos convencionais, mas
também nosso submarino nuclear. E agora reunimo-nos aqui para
327
Celso Amorim
o lançamento deste livro com conferências de San Tiago Dantas na
Escola Superior de Guerra.
A ideia do poder nacional foi desenvolvida e discutida por
San Tiago Dantas em suas palestras. E hoje tivemos essa clara
demonstração de que o Brasil está decidido a ter força suficiente
para dissuadir qualquer ação prejudicial a sua integridade, a seus
interesses e à paz.
Eu queria terminar essas palavras dizendo que é uma grande
alegria podermos comemorar hoje a memória do San Tiago.
E comemorarmos também a transformação pela qual o Brasil está
passando, o que permite que essa cerimônia – afinal de contas, em
torno de um homem que foi duas vezes ministro de João Goulart,
ainda que no Governo parlamentarista – se faça na Escola Superior
de Guerra.
A inspiração disso é uma visão ampla do Brasil, a visão de
um Brasil que está olhando para o futuro e que está ciente do
que ele pode fazer. Temos que unir nossas forças, nosso sentido
ético e nosso desejo de superar as nossas desigualdades sociais.
Isso é fundamental para que o Brasil possa olhar a si mesmo com
autoestima e ser visto pelos outros com respeito.
328
Discurso de despedida
Discurso por ocasião da transmissão de cargo para o Ministro
Jaques Wagner. Brasília, 2 de janeiro de 2015
Eu queria, em primeiro lugar, agradecer à Presidenta Dilma
Rousseff pela confiança que depositou em mim no momento em
que – parodiando, talvez com alguma deformação, Camões –, eu
estava colhendo do sossego o doce fruto e convocou-me para uma
tarefa importante, complexa e delicada, mas que fazia parte de
uma longa transição democrática pela qual o Brasil estava vivendo
– e de certa maneira ainda continua, porque a democratização é
um processo permanente. Foi para mim uma honra muito especial,
no momento em que, como eu já disse outras vezes, esperava que
a minha biografia, oficial pelo menos, senão a minha vida, mas a
minha biografia já estivesse encerrada.
Eu quero agradecer também aos comandantes das Forças
Armadas que participaram comigo dessa jornada difícil. Uma
jornada em que se pode dizer que a travessia é até mais importante
do que o ponto de chegada. E nessa travessia eu tive sempre a
compreensão, o diálogo, a franqueza, a lealdade dos comandantes
militares: o Comandante da Marinha, meu velho amigo Julio
Soares de Moura Neto, companheiro de bancos escolares, antes
que ele entrasse para o Colégio Naval; o Comandante do Exército,
Enzo Martins Peri, com quem tive inclusive o prazer de trocar livros
sobre história e política que, pelo menos do meu ponto de vista,
329