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Estratégia de Defesa e Cooperação do Brasil

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Felipe
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Discursos

A grande estratégia do Brasil

importações, como foi o caso das lanchas fluviais blindadas


que adquirimos da Colômbia. Constatei com grande satisfação,
durante a Operação Amazônia, em outubro de 2014, que as lanchas
colombianas mereceram o reconhecimento pleno das nossas Forças
Armadas. Há muito a explorar, ainda, nesse campo.
No plano multilateral, o Conselho de Defesa Sul-Americano
da Unasul (CDS) é o principal órgão para a cooperação em defesa.
Por meio do CDS, as nações sul-americanas constroem confiança
entre suas forças armadas, compartilham percepções, cooperam
em iniciativas comuns e coordenam suas políticas de defesa, com
envolvimento de civis e militares.
A criação de uma base industrial de defesa sul-americana é um
dos objetivos da ação regional. Destaco o projeto do avião treinador
básico Unasur 1, resultado de uma promissora cooperação industrial.
O mesmo pode ser dito sobre a construção de um VANT regional.
Notamos ainda o interesse de nossos vizinhos por projetos como
o Sisfron e o Proteger. Com a Colômbia, estamos desenvolvendo o
projeto de um navio-patrulha fluvial (não confundir com a lancha),
que pode interessar também a outros países, sobretudo os que
integram o Tratado de Cooperação Amazônica.
Outro objetivo central do CDS é o desenvolvimento de uma
identidade comum em defesa na América do Sul. Para esse fim,
foi criada, em 2013, a ESUDE, Escola Sul-Americana de Defesa.
A secretaria administrativa da ESUDE instalará em Quito, na
sede da Unasul. A ESUDE tem uma estrutura descentralizada,
de que é exemplo o bem-sucedido Curso Avançado de Defesa
Sul-Americano, que desde 2012 vem sendo realizado na Escola
Superior de Guerra no Rio de Janeiro. Outra instância de reflexão é
o Centro de Estudos Estratégicos de Defesa da Unasul, em Buenos
Aires, do qual temos participado com afinco e interesse crescentes.

313
Celso Amorim

A formação da identidade sul-americana em defesa será


uma decorrência gradual e natural do processo de aproximação,
respeitada a pluralidade de visões e percepções na América do Sul.
Mas, ao lado dessa pluralidade de visões – cada país é soberano
para decidir como deve autogovernar-se (nós temos a nossa
preferência claramente expressa, que é a democracia plena) –,
há também interesses comuns, como a proteção dos recursos
naturais da América do Sul. A guerra entre países sul-americanos
é uma hipótese cada vez mais impensável. Vai conformando-se na
América do Sul uma comunidade democrática de paz e segurança.
A Zona de Paz de Cooperação do Atlântico Sul, criada em 1986,
foi revitalizada por uma reunião em nível de ministros das Relações
Exteriores e Defesa em janeiro de 2013, em Montevidéu, à qual o
então Ministro Antonio Patriota e eu comparecemos. O objetivo
primordial da Zopacas é um oceano livre de armas nucleares e de
rivalidades que lhe sejam estranhas. A cooperação em geral esteve
limitada a alguns aspectos relativos ao meio ambiente marinho.
Em Defesa, a atividade da Zopacas é mais recente. Em outubro
de 2013, realizamos um simpósio sobre segurança marítima da
Zopacas em Salvador.
A cooperação em defesa com muitos de nossos parceiros
africanos tem uma importante componente marítima. Temos
colaborado com as guardas costeiras de países-arquipélagos
como Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, todos eles chaves para
o combate à pirataria no Atlântico Sul e para a segurança das
rotas marítimas. O importante papel desempenhado desde os
anos 1990 pela Marinha do Brasil na construção da Marinha da
Namíbia é amplamente reconhecido. Desde o início dessa parceria,
a Marinha do Brasil formou mais de 1200 alunos namibianos. Em
setembro passado, assinei, junto ao meu colega Ministro da Defesa
angolano, um memorando que abre importantes perspectivas
na área, inclusive de aquisição e produção em Angola de navios-

314
Discursos
A grande estratégia do Brasil

-patrulha brasileiros. Com a África do Sul, realizamos a manobra


naval Ibsamar, no âmbito do IBAS, o mecanismo de diálogo
trilateral Índia, Brasil e África do Sul.
A cooperação com nossos parceiros da orla ocidental da
África não se esgota na dimensão naval. Ela engloba também
– crescentemente – a terrestre e aeronáutica. Cito, a título de
exemplo, a coprodução Brasil-África do Sul de um míssil ar-ar de
quinta geração, o A-Darter, que, no caso do Brasil, equipará as
novas aeronaves de combate da FAB, o Gripen-NG. A cooperação
aeronáutica também está na agenda com Moçambique, um país
situado no Oceano Índico e membro da Comunidade dos Países
de Língua Portuguesa, sobre o qual talvez possamos dizer que faz
parte do “Atlântico Sul geopolítico”. Em tempos recentes, temos
multiplicado iniciativas de cooperação entre o Exército Brasileiro
e seus contrapartes africanos, por exemplo nas áreas de saúde
militar com Angola, e também com a venda de viaturas Marruá
para a Namíbia. A partir de 2015, escolas do Exército receberão o
primeiro contingente de militares namibianos, e formarão tanto
praças quanto oficiais.
A cooperação em defesa excede o entorno estritamente
regional e alcança nações amigas próximas de nós, como o Haiti e
o Líbano. A maior parte da tropa da Minustah é sul-americana. Ao
longo de dez anos, mais de trinta mil militares brasileiros passaram
pelo Haiti. À medida que a missão da ONU diminui sua presença no
Haiti, vamos incrementando nossa cooperação bilateral: o Exército
Brasileiro vai ajudar a formar o corpo de engenharia militar do
Haiti. Há poucos meses assinei o acordo relativo a essa cooperação
bilateral em uma visita que fiz a Porto Príncipe.
No Líbano, nossos marinheiros estão ajudando, no âmbito da
Unifil, a manter a paz em um país com o qual mantemos intensos
laços afetivos, e mesmo familiares. O Brasil tem a nau capitânia da

315
Celso Amorim

componente naval da Unifil, e um almirante da Marinha do Brasil


é o comandante dessa força tarefa. Por meio disso, marcamos
presença em um dos mais tradicionais tabuleiros da geopolítica
global, o Mar Mediterrâneo. Também com o Líbano a cooperação
bilateral em defesa vai tomando corpo: já temos, por exemplo, um
bom número de alunos libaneses cursando a Escola Naval, de onde
sairão como guardas-marinha.
Todas essas medidas mostram o empenho do Governo bra-
sileiro com a paz no Líbano. Esse compromisso tem uma dimensão
muito direta: durante a guerra de Israel com o Líbano em 2006,
mais de três mil brasileiros foram evacuados do Líbano com o
apoio do Governo brasileiro. Isso confirma algo que sempre tenho
repetido: é uma ilusão supor que o que acontece em outras regiões
do mundo não nos afeta.
Assim como na política externa, também na política de defesa
a ideia de uma maior projeção no mundo pode suscitar dúvidas.
Recordo que, nos primeiros anos do Governo Lula, quando era
Chanceler, os jornalistas costumavam questionar-me sobre por que
o Brasil tinha decidido enviar a tropa para o Haiti. Eu respondia
que não podíamos fugir às nossas responsabilidades para com um
país da região que corria o risco de tornar-se um Estado falido.
E acrescentava: não é preciso ser rico para ser solidário.
Ser solidário é, ao mesmo tempo, respeitar o princípio da
não intervenção e adotar uma postura de não indiferença, isto é,
transmitir o sinal político de que o nosso país está interessado no
bem-estar de seus parceiros e disposto a ajudá-los. A solidariedade,
especialmente para com países com grandes assimetrias de
recursos, sempre nos trará benefícios a médio e longo prazo, seja
em termos do aumento de nossa segurança e da confiança mútua,
seja no apoio a nossas teses em organizações internacionais.

316
Discursos
A grande estratégia do Brasil

Para o Brasil, que tem muito a perder com a instabilidade


em seu entorno, a boa vontade dos vizinhos – inclusive dos mais
fracos e vulneráveis – é um interesse estratégico. Contribuir para
o fortalecimento institucional de parceiros, inclusive no campo
da defesa, em um quadro plenamente democrático, é parte do
interesse nacional brasileiro. Assim, elimina-se a falsa dicotomia
entre o autointeresse e a solidariedade.
À medida que o orçamento da defesa caminhar para o patamar
de 2% do PIB, o que nos aproximará da média dos BRICS, como
julgamos adequado, a percepção de uma escolha excludente entre
investimento nas nossas Forças e cooperação externa naturalmente
se diluirá. Até lá, contudo, devemos contribuir, dentro de nossas
possibilidades, com a defesa de nossos vizinhos de aquém e além-
-mar, em um clima de respeito e confiança mútua.
Assim, tornaremos realidade a contribuição da grande
estratégia do Brasil tanto para o interesse nacional quanto para a
paz no mundo.

317
Sérgio Vieira de Mello
Discurso no encerramento do Curso de Altos Estudos de Política
e Estratégia da ESG. Rio de Janeiro, 28 de novembro de 2014

Sinto-me muito contente em participar de uma cerimônia tão


importante como essa e em poder fazer algumas poucas reflexões.
Primeiro, porque me impressiona a vitalidade do CAEPE. Temos
aqui, na Escola Superior de Guerra, homens e mulheres, civis e
militares, dos mais diversos recantos do país, das mais diversas
formações profissionais, todos eles interessados em algo que está
no título da turma, que é ‘Pensar o Brasil’.
Quando reflito sobre esse fato, me vem à mente as palavras
de um ex-chefe meu a propósito da instituição à qual pertenci
durante muitos anos, o Itamaraty. Ele dizia que a melhor tradição
do Itamaraty é saber renovar-se. E acho que isso também pode
ser dito da Escola Superior de Guerra. O Comandante da Escola,
Almirante Leal Ferreira, diz que temos que estar sempre abertos
a mudanças, olhando para um novo tempo, enfrentando novos
desafios. Essa é a qualidade essencial de uma instituição de ensino
onde todos aprendem. A relação de diálogo é o que mais importa.
Dou os parabéns à ESG por mais essa turma.
Não posso deixar de congratular a Turma pela escolha de seu
patrono, Sérgio Vieira de Mello, a quem eu tive a honra e o prazer

319
Celso Amorim

de conhecer. Sérgio Vieira de Mello viveu como um diplomata e


morreu como um soldado.
Ele simboliza muito do que a nossa política externa e a nossa
política de defesa têm procurado fazer pelo Brasil e pelo mundo.
Sérgio Vieira de Mello trabalhou pela paz em várias frentes: em
relação aos refugiados; em assuntos humanitários; como Alto
Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos; e, depois
de uma vida relativamente curta – ele era jovem ainda –, aceitou
um desafio enorme: ser representante da ONU no Iraque.
Lá ele enfrentou uma situação muito difícil, em um país
que acabara de sofrer uma guerra. Enfrentou também o desafio
intelectual de identificar qual seria o papel das Nações Unidas
em um país que tinha sido objeto – não quero julgar os méritos
– de uma ação militar unilateral. Como as Nações Unidas, que
não tinham participado daquela intervenção, poderiam ajudar na
reconstrução do Iraque?
Menciono essa dificuldade porque ela foi o tema da última
conversa que tive com Sérgio Vieira de Mello, em um hotel em
Amã, na Jordânia. Eu tinha tido, logo antes, uma entrevista com
o Secretário-Geral da ONU, da qual Sérgio também participou.
Depois, ele pediu para ter uma conversa particular comigo. Tenho
certeza de que, onde quer que ele esteja, ele não teria nenhum
problema em eu revelar que, nessa conversa, ele pediu ao Brasil
que ajudasse a ONU a ter um papel importante na reconstrução
do Iraque.
Ele temia muito pelo futuro do Iraque. Hoje, quando vemos
o que está acontecendo no Iraque, vemos que Sérgio Vieira de
Mello tinha razão: os problemas que existem são provavelmente
tão grandes ou maiores do que aqueles que existiam antes da ação
militar.

320
Discursos
Sérgio Vieira de Mello

Ele era um homem da paz, um batalhador da paz, que nunca


temeu enfrentar situações difíceis. Na primeira vez em que estive
com ele, na missão do Brasil em Genebra, ele servia no Camboja.
Depois disso – não estou seguindo a ordem cronológica –, ele esteve
presente de forma muito importante no Timor Leste. E, após a
segunda guerra do Golfo, aceitou esse desafio tremendo do Iraque.
Uma pergunta que deve ser feita quando se pensa na memória
de Sérgio Vieira de Mello é: por que morreu de maneira tão brutal
um homem que estava trabalhando pela paz e pela reconstrução
daquele país? E quais foram as circunstâncias que fizeram com que
a situação do Iraque não permitisse que ele exercesse esse desejo
de contribuir para a paz?
Isso me faz pensar no sistema internacional em que nós temos
nos inserido. Há uma discussão célebre de Max Weber, o famoso
sociólogo, sobre a ética da convicção e a ética da responsabilidade.
A ética da convicção é a ética dos santos: eles fazem algo porque
acham que aquilo é correto. (Por acaso um filho meu fez um filme
agora sobre a Irmã Dulce, que é um bom exemplo do que significa a
ética da convicção.) Já a ética da responsabilidade é a ética política,
a ética dos resultados, e de resultados sustentáveis a médio e longo
prazo. Para a busca desses resultados, não é suficiente – embora
seja indispensável – ter boas intenções e grandes ideais. É preciso
que o conjunto dos meios políticos, legais e militares esteja de tal
modo configurado, que a vontade de trazer progresso, paz e bem-
-estar a um determinado país possa concretizar-se.
Os brasileiros que estão envolvidos na missão da ONU no
Haiti sabem dessas dificuldades. Não é só a vontade de fazer, é
também a necessidade de ter condições para que aquilo que se quer
fazer que aconteça. Quando pensamos nisso, temos que considerar
as limitações que existem no atual sistema das Nações Unidas. Ao
mesmo tempo em que cria expectativas em torno de pessoas como

321
Celso Amorim

Sérgio Vieira de Mello, esse sistema frustra a realização dessas


expectativas. Sérgio Vieira de Mello é um símbolo, mas muitos
outros também desapareceram por motivos diferentes.
Nós perdemos muita gente no Haiti: perdemos a Dra. Zilda
Arns, perdemos soldados, perdemos o Vice-Representante Especial
do Secretário-Geral da ONU, Luiz Carlos Costa. No Haiti, ocorreu
uma catástrofe natural. Agora, no Iraque, foi uma situação política.
Nós temos que pensar nisso profundamente. Às vezes, as ações
– mesmo que bem-intencionadas, mesmo que por motivações
éticas justificadas – podem levar a resultados não desejáveis.
Frequentemente, as intervenções militares levam mesmo a
situações mais graves do que aquelas que existiam antes.
Basta olhar para o mundo de hoje, para o próprio Iraque,
infelizmente. Digo isso com pesar, porque eu próprio me interessei
muito pelo tema do Iraque quando fui embaixador da ONU. O país
enfrenta hoje uma situação dificílima, que gera perplexidade em
todos nós. Ao olhar para essa situação, não posso deixar de pensar
naquela última conversa que tive com esse ilustre brasileiro. Sérgio
Vieira de Mello foi um homem de coragem, mas também de muito
amor, um amor focado de uma maneira responsável, que queria
buscar respostas práticas para os problemas.
Por isso, eu queria parabenizar a turma pelo excelente
trabalho que seguramente fizeram, pela magnífica interação – que
pude verificar nas palavras dos dois oradores que falaram – e por
terem escolhido Sérgio Vieira de Mello, esse misto de diplomata e
guerreiro, esse homem da paz, como seu patrono.
Muito obrigado por terem participado da cerimônia. Parabéns
a todos!

322
San Tiago Dantas
Palavras por ocasião do lançamento do livro Poder Nacional, Cultura
Política e Paz Mundial. Rio de Janeiro, 12 de dezembro de 2014

Queria hoje dizer um pouco de como a minha geração viu San


Tiago Dantas. Antes disso, vou permitir-me uma pequena palavra
pessoal, porque os meus caminhos e os caminhos do Ministro
Marcílio Marques Moreira têm se cruzado muitas vezes, sempre
com a grande vantagem minha. Espero que hoje também seja
assim.
O Ministro Marcílio referiu-se, em sua fala, a um evento em
homenagem a San Tiago Dantas em 1984. Esse era um período
em que eu vivia uma espécie de exílio dourado na Holanda, depois
dos meus conturbados tempos de presidente da Embrafilme. Eu
estava de férias no Rio e telefonei para a casa do Marcílio. Atendeu
a Maria Luísa, sua mulher, que me disse: “O Marcílio está viajando
muito, é difícil, mas amanhã ele vai fazer uma palestra sobre
Santiago Dantas”.
Eu achava que era uma palestra para o ambiente acadêmico,
que as pessoas iriam em trajes esportivos. Lembro-me de que
fui com meu sogro e meu filho, e o máximo que nós pusemos foi
um blazer. E lá fomos nós ao instituto dirigido pelo Hélio Jaguaribe,
se não me engano no Jardim Botânico. Acontece que era uma
sessão solene, dos vinte anos da morte de San Tiago Dantas.

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