Contexto e Complexidade do Direito Internacional
Contexto e Complexidade do Direito Internacional
Distinção de
figuras afins
Assim, podemos afirmar que há diversidade no que compõe os Estados na dimensão, capacidade
material, riqueza, meios de que dispõe refletida nos Estados enquanto comunidades.
No entanto, é de salientar como exemplo a discriminação positiva, existe para promover a igualdade
– dado que, à luz do Direito Internacional, os indivíduos são iguais (ao contrário da diversidade dos
Estados) – e não para favorecer determinada identidade.
Além dos Estados, existem também outros sujeitos do Direito Internacional, tais como organizações
internacionais de estados e outras organizações como a Santa Sé (sujeitos estes que são,
indubitavelmente, sujeitos do DI). Mas... E os povos? Os indivíduos? Serão sujeitos de DI? Ora, a
sua capacidade de influência junto de Estados pode ser muito relevante (é importante ter em conta
que, sendo reconhecidos como efetivos sujeitos de DI adquirem determinados direitos com certeza,
mas também obrigações).
No séc. XX reconheceram-se outros sujeitos, mas com relevância limitada, como o próprio indivíduo,
reconhecido como sujeito do Direito Internacional, porque a afetação da esfera jurídica é mediata, ou
seja, que não se executa diretamente (passa pelo Estado, que concede instrumentos próprios
consagrados no Direito Internacional), lógica que acabou por ser afastada pelos Tribunais de
Nuremberga e Tóquio, em que a afetação é imediata e se julgam os criminosos independentemente
do seu Estado.
Estes Tribunais julgavam crimes de guerra e crimes contra a humanidade, que correspondiam aos
crimes internacionais. Foi aplicado um conjunto de deveres resultantes do Direito Internacional e que
teriam sido infringidos no âmbito da sua ação. O indivíduo é titular de direitos, independentemente da
atuação do Estado – os Direitos Humanos são assegurados internacionalmente e os direitos
protegidos constitucionalmente.
É a característica mais visível e a melhor fundamentada e diz respeito às suas fontes normativas. As
fontes são diversas, começando-se pela distinção entre o tratado internacional, que é um acordo de
vontades de base internacional e intencional; e o costume internacional, que reflete a força da
convivência no seio da sociedade internacional.
Dada a incapacidade das Nações Unidas para construir uma governação internacional comum,
existem centros de poder diversos – pluralismo – não hierarquizados, de onde emanam as normas e
princípios jurídicos internacionais, que se vão aprofundando conforme a chegada de novas entidades
ao seio da sociedade internacional (coopera-se o que foi instituindo entre os povos, através de
afinidades).
Baseando-se na definição de Tonnies (1887), uma comunidade é caracterizada por laços de coesão
orgânicos e uma identidade comum. Já numa sociedade, essa união é racional e utilitária, que se dá
por coincidência de objetivos, mas sem a ideia de uma pertença ou identidade comum.
Na comunidade, os seus membros estão unidos apesar de tudo o que os distingue, enquanto na
SOCIEDADE estão separados apesar de tudo que os une.
Na SOCIEDADE, ao contrário da comunidade, não há uma coesão orgânica, não há uma identidade
de pertença, mas uma aliança racional, utilitária, perspetiva, assente nos interesses e não nos afetos.
Esta ideia de comunidade internacional fortaleceu-se na 2.a metade do século XX. Com a
proclamação pela Assembléia Geral das Nações Unidas da Declaração Universal dos Direitos
Humanos sendo um marco significativo neste trabalho de construção da comunidade internacional.
- Fases históricas do DI
Estas primeiras definições pertencem a dois jurisconsultos romanos. É o DR a primeira base na qual
se reconhece que as relações entre sociedades diversas são regidas pelo Direito e por um direito
que não é exclusivo de nenhuma localidade.
Na idade moderna, vemos novamente esta preocupação com o DI. Ora, antes deste momento da
história (ou seja, durante a Idade Média), o horizonte das sociedades era o Cristianismo (perspetiva
eurocentrista de certo). Mas, com os Descobrimentos, isto alterou-se, emergindo outra vez a
preocupação em regular as relações entre os povos.
. “o direito que todos os povos e todas as nações devem observar entre si” (F. Suarez, 1612) –
considerado no sul o pai do DI
. “o direito que regula as relações entre as nações” (Grócio, 1625)
Grócio, em geral, é considerado o fundador do DI moderno, já que foi ele que, na sua obra O Direito
da Paz e da Guerra (cuja versão original se encontra no Tribunal Internacional de Justiça e constitui o
primeiro livro do DI) baseia as relações internacionais na igualdade, defendendo o princípio da
liberdade dos mares (princípio basilar do DI que leva à sua construção entre nações soberanas e
independentes – perante tal conceção, convenções como o Tratado de Tordesilhas encontram o seu
fim; além do mais, o império do princípio da ocupação efetiva leva à perda de vigência destes
acordos).
Deste modo, Grócio contraria as convicções vigentes na Idade Média, já que contraria frontalmente o
poder secular da Igreja. Esta é uma perspetiva eurocêntrica de DI. Para conhecer outras
mundividências sobre o DI, consultar o Manual do Professor Wladimir Brito.
Assim, no âmbito do DI, há institutos particulares que se inspiram no Direito Romano (DR).
De facto, Roma é o berço do Direito, tendo também influência naquilo que é a génese do DI. Assim, é
no DR que vemos uma proto-história do DI.
Com efeito, os romanos criaram o ius civile para administração das relações entre cidadãos.
Mas, reconhecendo a existência de outras sociedades com as quais estabeleciam relações
comerciais e sociais, identificaram a necessidade de regulação das relações entre cidadãos e
peregrinos e entre peregrinos (ius gentium- conjunto de princípios fundamentais que regulava as
relações entre os cidadãos romanos e entre Roma com os estrangeiros que viviam no território do
Império.)
É desta forma que nasce uma relação interpessoal que ultrapassa as fronteiras internas, e é
nesta perspetiva que encontramos os princípios essenciais daquilo que são os elementos
constitutivos primários do que viria a ser o Direito Internacional.
Neste sentido, os romanos vêm a identificar uma série de princípios do direito natural, sendo
o ius gentium o verdadeiro antecessor do DI.
O Direito Romano, mais precisamente o ius gentium, continha já princípios que, mais tarde,
ajudaram a solidificar o Direito internacional: o caráter inter-relacional e a feição universal do Direito.
Ao Ius Gentium contrapunha-se o Ius Civile, que se aplicava apenas aos cidadãos romanos, não
podendo ser considerado um Direito Internacional, antecipando apenas o que viria a ser o Direito
Internacional Privado
Já na idade média revelou-se outra fase que antecedeu à cena internacional atual, através:
- por um lado de formação de estados que mais tarde afirmaram-se estados modernos
europeus, protagonistas da realidade internacional
- Por outro, a afirmação de estruturas políticas supra estaduais que atrasaram a integração de
uma sociedade internacional igualitária.
Estes fatores acabaram por ser decisivos na ascensão de povos sujeitos à cena internacional.
Mais tarde, na Idade Moderna na época dos Descobrimentos, a visão do mundo modifica-se. Os
descobrimentos tanto espanhóis como portugueses vieram abrir novos horizontes, de forma a colocar
novas questões ao DI e abrindo o caminho à globalização. O mundo passa então a significar uma
realidade global com vários povos, começa a haver a preocupação como se irão proceder as
relações entre todos estes povos. As Nações são iguais e entre si existem um direito entre nações
onde há igualdade - princípio da liberdade dos mares que os autores da escola espanhola não
defendiam, defendiam o que resultava do tratado Tordesilhas (entre Portugal e Espanha dividiram o
mundo em duas partes), no século XIX surge o princípio da ocupação efetiva. Dá-se também nesta
época a afirmação de Estados soberanos reconstituindo a autoridade estadual que favoreceu o
nascimento do DI.
- História do DI:
Este Congresso pôs termo a Vestefália e a Guerra Napoleónica, surgida na sequência da revolução
francesa, com protagonistas que louvavam um conjunto de princípios que contrariavam a realidade
anterior – nação soberana e legitimidade constitucional. Surge uma ideia de institucionalização dos
Direitos Humanos, decorrente das Revoluções Liberais francesas e Independência Norte Americana,
a ideia de nacionalismo e independência dos povos (primeiras sementes para o fim do colonialismo)
e os primeiros tribunais para resolver conflitos internacionais
O congresso de Viena tem uma perspetiva conservadora, ainda que assente na ideia de soberania
(consagração da soberania nacional, contra os Estados Unidos da Europa de Napoleão). Assim, a
partir de então, a cada Estado haveria de corresponder uma nação (mote que acaba por pôr termo
aos impérios que ainda subsistam na Europa, como é o caso do Otomano e do Austro-Húngaro e é a
base da Sociedade das Nações - SDN: degradação dos poderes imperiais)
Neste contexto, o chamado Droit de Regard adquire importância. Consiste num direito de controle
de outros Estados. Portugal, por exemplo, fazia parte da esfera de influência do Reino Unido (ou
seja, o Reino Unido detinha Droit de Regard sobre Portugal). A este poder de exercer influência e
controle sobre outros Estados estava associada uma maior responsabilidade pela manutenção da
paz e estabilidade internacionais.
Após Viena, há a tentativa de criação de um concerto europeu. Esta lógica de equilíbrio europeu
não foi muito estável, pois foram guerras, mesmo que limitadas. Além disso, surge uma guerra do
acesso a recursos em África, culminando na sua divisão. Com a Primeira Guerra Mundial (1GM) o
concerto europeu encontra o seu definitivo fim.
Além do mais, após a 1GM, com o desmoronamento dos impérios, há a multiplicação dos Estados
Europeus e a verdadeira afirmação do princípio chave do DI até então (uma nação um Estado; um
Estado uma nação), no quadro da SDN.
Apesar disto, a verdade é que há nações que extravasam Estados, já que as fronteiras que surgem
com o desmoronamento de impérios nem sempre correspondem às nações.
A SDN propriamente dita surge com o objetivo de assegurar a paz, após a 1GM. Isto porque a 1GM
despoletou tal choque, que se afirma uma boa vontade geral, propensa à mudança no sentido de
evitar a guerra, institucionalizando uma plataforma de entendimento independente.
É, inclusive, no âmbito da SDN que surge o primeiro tribunal internacional não arbitral para resolver
conflitos entre Estados: o Tribunal Permanente de Justiça Internacional (funcionava no mesmo
espaço do atual Tribunal Internacional de Justiça, em Haia). As declarações feitas pelos Estados que
aceitaram a jurisdição do Tribunal Permanente de Justiça Internacional são também as mesmas do
atual Tribunal Internacional de Justiça.
A SDN foi, enfim, um fórum de representação dos Estados, facilitando a criação e aprovação de
convenções como a de Genebra e o Pacto de Briand- Kellogg (negociadas através da SDN).
Ainda no quadro da SDN, foi instituída a Organização Internacional do Trabalho. Esta, devido à sua
centralidade, permaneceu apesar da SDN (existindo também no âmbito da atual ONU). A sua
finalidade versa em promover condições de cooperação entre Estados, de modo a assegurar a
melhoria de condições e direitos dos trabalhadores (essencialmente estabelecer cooperação
económica e técnica).
Em suma, a construção da paz, mais do que através das próprias organizações em si, passa acima
de tudo pelo desenvolvimento da cooperação internacional e, consequentemente, do Direito
Internacional (lógica funcionalista que seria a mais apropriada para assegurar a paz a segurança, o
desenvolvimento dos indivíduos) Desta forma, a missão de sistematizar e desenvolver o DI (espécie
de comissão de DI) adquire grande importância.
Em 1930, surge a proposta de criação de uma Federação dos Estados Europeus, como resposta à
escalada armamentista que dá origem à Segunda Guerra Mundial, que não se materializa.
Temos um maior desdobramento do DI. O DI é cada vez menos um direito apenas relativo à paz e à
guerra (como dizia Hugo Grócio) e os seus temas multiplicam-se, abordando mais as questões
sociais
Com o fim da II Guerra Mundial, devido aos horrores que foram praticados, despertou a consciência
de toda a população para a necessidade de proteção dos direitos humanos, numa escala
internacional. Como exemplo paradigmático surge a aprovação da DUDH, em 10 de dezembro de
1948, admitindo-se que o Direito Internacional teria como seu objetivo, mesmo contra a vontade dos
Estados, a proteção dos Direitos Humanos.
Em São Francisco (1945) são criadas as Nações Unidas com o objetivo de zelar pela paz
internacional (de modo a evitar, a todo o custo, conflitos bélicos em larga escala).
A verdade é que, tendo em conta a realidade dos Estados, que são formalmente iguais, mas
substancialmente demasiadamente distintos, é natural que os seus direitos e responsabilidades
difiram. Apesar disto, seria uma veleidade pensar que, na ausência de uma instituição sólida
internacional, os Estados com maior capacidade deveriam ter maior capacidade de implementar e
assegurar a efetivação do DI e, consequentemente, a paz. Assim, a criação, no arcabouço da ONU,
do direito de veto está associada a uma lógica pragmática de, de facto, dotar os maiores Estados de
meios para exercer devidamente a sua maior capacidade.
Durante algum tempo, acreditou-se que este modo de funcionamento se traduziria num bilateralismo
bondoso ou na afirmação definitiva do multilateralismo. Contudo, atualmente, o direito de veto, em
termos práticos, parece afastar-se do seu objetivo inicial, na medida em que funciona como
instrumento de afirmação de interesses próprios das grandes potências. Face a isto, surgem
propostas de modificação dos estatutos das Nações Unidas, para pôr termo a esta lógica
aristocrática de funcionamento.
Com efeito, a responsabilidade especial dada às potências com maior capacidade tem sido
progressivamente ignorada.
Voltando-nos agora para o idealismo de Eleanor Roosevelt (a Declaração Universal dos Direitos do
Homem), há que abordar um dos principais pilares da ONU: a sua luta para assegurar Direitos
Humanos (outro objetivo consagrado na carta das Nações Unidas), de tal modo que a Declaração
Universal dos Direitos Humanos (DUDH) é um dos seus documentos fundadores. Apesar da sua
geral aceitação a nível ocidental, noutras regiões do globo muitos perspectivam a DUDH como uma
reprovável manifestações de Etnocentrismo ocidental, evidenciando novamente falta de
consideração para com as características próprias de Estados não ocidentais
A partir de 1946, fixa-se a Cortina de Ferro e começa a Guerra Fria. Em grande medida, a efetividade
das Nações Unidas é afetada pela lógica dos espaços de influência da Guerra Fria (sistema
geopolítico bipolar). O sistema das Nações Unidas passa a basear-se numa rede funcionalista em
torno de um centro internacional aristocrático.
A Guerra Fria criou espaços de influência, em primeiro lugar na Europa (leste e ocidente), que se
estendeu para o resto do mundo, resultando numa divisão tácita das áreas de influência das duas
grandes potências (EUA e URSS). No fundo, os Estados integram alianças que formam uma
potência.
Os juristas soviéticos, após a Segunda Guerra Mundial, desenvolveram uma teoria que formalizou a
noção de esferas de influência: Teoria da Soberania Limitada.
Segundo a Teoria da Soberania Limitada, em determinado espaço, há uma potência cuja influência
se faz sentir. Assim, esta tem Droit de Regard, de vigilância. Foi esta teoria que justificou a invasão
da Tchecoslováquia, da Hungria, da Ucrânia, comprovando que nada do que vivemos atualmente (no
tocante, por exemplo, à guerra na Ucrânia) é inteiramente novo.
É uma nova ordem internacional com cheirinho a mofo (frase dita em sede de aula teórica, que
permite melhor compreender o conteúdo, mas não deve ser utilizada em exame). Por certo, mesmo
para resolver o conflito na Ucrânia, volta-se a realizar algo muito semelhante à Conferência de Ialta
(mas sem assento europeu), provando novamente que nada é novo.
Com o fim da Guerra Fria e o afirmar da democracia em grande parte do mundo surgiu a pretensa
teoria do “fim da história”. Atualmente, sabemos que esta não é definitiva.
Tópicos:
- A Guerra Fria e o sistema geopolítico bipolar; 1989 e o pretenso “fim da História”; 2022 – o
emergir de um “minilateralismo”? 2025 – uma nova lógica transacional?
- Criação de instâncias internacionais, acompanhado com a progressiva institucionalização da
realidade internacional e também do direito internacional. Inicialmente foi direcionado para a
Europa no pós guerra e mais tarde passou a designar-se para TODOS. O GATT (para a
regulação do comércio internacional , evoluiu para a criação da à OMC – o multilateralismo
liberal e a globalização.
- A pandemia e a reemergência da soberania como “independência/autonomia estratégica” (a
nova corrida aos recursos). Para além disso, criou-se também tribunais, como o tribunal de
Nuremberga no final da II GM- progressiva judicialização da realidade internacional,.
- As relações Norte-Sul (caminho para o fim dos coloniais, mundo desenvolvido vs mundo
subdesenvolvido) e o emergir do Sul Global. (apresenta-se como contraponto ao ocidente)
- A crise das Nações Unidas
- Uma nova ordem internacional em emergência (liderada por apenas uma superpotência) ou
o renascer da velha “ordem da Vestefália” ou um novo “concerto” com novos protagonistas?
Os desafios presentes
- a globalização econômico-financeira; (crises financeiras que resultou num processo de
globalização financeira liderada pelo ocidente,
- os riscos ambientais (alterações climáticas; biodiversidade)
- os desafios humanos (direitos humanos, erradicação da pobreza, diálogo inter-civilizacional,
conflitos armados, terrorismo, proliferação nuclear, saúde pública, etc.); (meados séc xx,
houve alguma luz sobre a universalidade dos direitos humanos)
- democratização; soberania como responsabilidade (reconfiguração da soberania, não como
poder absoluto do séc xvii xviii, mas como a da ordem de vestefália, mas como
responsabilidade do território e dos cidadãos, ex de tratados: quadro da nações unidas,
tratado da convenção das nações unidas sobre o mar que determina que os Estados têm
responsabilidade ambiental sobre o mar que circula o território, normalmente até 12 milhas
de oceano) (Francis Deng); unilateralismo v. multilateralismo;
- A nova “guerra das civilizações” ou “democracia v. autocracia” (lógica governada pela forma
de exercício do poder, é um objetivo da ONU a promoção da democracia, o poder soberano
reside nas pessoas e não uma instituição).
Todas estas questões solicitam o DI – em busca de uma “governação” (governance) global
axiologicamente fundada para essa ‘comunidade’ in fieri
- seria necessária uma governação em constelação, estruturada através de coordenação com
graus diversos de institucionalização e formalização para adoção e implementação de regras
comuns e garantia de bens coletivos internacionais, sem uma autoridade global e com
múltiplos e diversos agentes (James Rosenau)
Temos a emergência de atuação de novos autores – faz-se surgir a Santa Sé, a Cruz Vermelha, e
outros –que assumem mais protagonismo na definição da agenda da ação internacional:
organizações internacionais têm vindo a crescer e o seu papel é cada vez mais reconhecido, ao
ponto de participarem nos debates das Nações Unidas, ainda que as decisões cabem aos Estados.
Este surgimento das organizações internacionais tem o propósito de melhor estruturação da
sociedade internacional
Até ao séc xix o número de sujeitos internacionais era diminuto, existiam sociedades mas
estas não interagiam com os protagonistas da realidade internacional- nomeadamente a europa,
originando um isolamento do espaço ocidental que construiu o direito internacional e as 1os
instituições e o outro espaço.
Nós conhecemos essa evolução começando no séc. XIX e, particularmente, depois da 2a GM e traz
essa nova realidade de existirem cada vez mais outros sujeitos que não estados ainda que formados
por estes. Encontramos os atos das Organizações Unilaterais que não se confundem com atos dos
estados,quando o Conselho de Segurança da ONU a decisão não é dos estados é do Conselho de
Segurança da ONU. Com algumas organizações que têm um tal grau de autonomia face aos seus
estados que podemos ver há um conjunto de atos que vinculam os estados independentemente da
sua vontade. As decisões do Conselho de Segurança da ONU de acordo com o artigo 25 são
obrigatórias. Há problemas de efetivação com certeza, mas não deixam de ser obrigatórias. Está aqui
uma fragilidade, mas o Conselho de Segurança não deixa de ter meios de fazer valer as suas
decisões, através de meios que podem passar pelo recurso à força. Contudo, muitas vezes não o
pode adotar porque um dos elementos permanentes veta essas medidas. Mas existem outras, como
o Conselho da Europa e no âmbito deste vimos ser adoptada a convenção europeia dos Direito
Humanos em 1950 e esta consagra um elenco de Direitos fundamentais que beneficia todos os
indivíduos e até empresas que vincula todos os estados-membros. O tribunal europeu dos
Direitos humanos é um mecanismo de efetivação desta obrigatoriedade. Mais do que tudo temos a
união europeia que apresenta princípios fundamentais que de algum modo secundaram os estados.
Relevo da soft law, a realidade internacional é uma realidade com uma densidade mais porosa e
encontramos um estado institucional muito diferente dos estados. O facto de ser uma realidade tão
diversa leva a que em certa medida se avance através de atos que são consensualizados não como
atos jurídicos vinculativos, mas como atos que são orientações ou compromissos a que não são
conferidos relevos jurídicos vinculativos, mas o compromisso de procurar e adotar medidas para os
alcançar. Estas muitas vezes têm de ver não só com os estados, mas muitas vezes com a economia
internacional e, portanto, são colocadas ao Direito Internacional por dos Dirigentes de empresas. Ao
incentivar-se essa aproximação a esses parâmetros também esses sujeitos vão beneficiar pois irão
ver os seus produtos reconhecidos e não serão sujeitos de restrições. Não é Direito rígido e
vinculativo que se possa impor por mecanismo coercitivos, mas avançasse de um modo voluntário. E
Uma das dimensões a este nível tem sobretudo a ver com essa dimensão técnica, é o
desenvolvimento da estandardização que fixam essas referências técnicas e contribuem para a
melhor fluidez das relações internacionais.
Há uma entidade internacional cuja missão é aprovar aquilo que são regras, por exemplo, para os
contratos internacionais, não é um tratado que os vincule, mas que os estados podem adotar na sua
legislação e que as empresas podem seguir e que tornarão o comércio mais seguro e estável.
O primeiro tribunal internacional não era verdadeiramente um tribunal do ponto de vista de ser uma
entidade judicial, era uma entidade jurisdicional. Para ser uma entidade judicial era preciso ser
previamente constituído de acordo com lei ou tratado internacional com competências que sejam
compulsórias determinadas por lei e não pelas partes que aplique Direito estrito e seja independente.
O TPA foi importante para a resolução pacífica de conflitos através do Direito e não somente através
da negociação diplomática. O primeiro tribunal mesmo foi o TPI que foi substituído pelo TIJ que
corresponde efetivamente àquilo que foi mencionado anteriormente. Os estados só se submetem à
jurisdição do tribunal se se submeterem a tal. Mas sobretudo é importante fazer referência que desde
há algumas décadas vimos o surgimento de mais tribunais internacionais. Ao TIJ só podem recorrer
os
estados, só tem jurisdição para conflitos entre estados e tem competência consultiva no quadro da
ONU. Mas vimos surgir outros, alguns ad hoc, os tribunais de Ruanda ou da Jugoslávia, mas também
alguns permanentes como o tribunal para o Direito do mar e o tribunal penal internacional.
Crítica – todas estas posições, apesar de válidas, são incompletas. Isto acontece porque reduzem
uma realidade vasta que é a realidade internacional
Pretende-se então agora, apresentar uma definição aberta, multidimensional e dinâmica daquilo que
é o DIP, este define-se então como ordenamento jurídico formado por normas e princípios que
regulam as relações jurídico-públicas próprias da sociedade internacional, enquanto substrato
subjetivo, relacional e material
A questão da juridicidade do DI. É uma ordem jurídica autônoma, pois tem autonomia dogmática e
regulativa. Não é um ramo de direito.
Traços Fundamentais
O Direito Internacional Público (DIP) caracteriza-se pelo seu fragmentarismo, o que significa que a
sua regulação normativa não se estende de forma homogénea a todas as matérias que passam para
a sua esfera de influência. Este fragmentarismo pode ser analisado sob duas perspectivas principais:
b. Um fragmentarismo vertical, que espelha a circunstância de, quanto a certa matéria, o Direito
internacional normalmente estabelecer orientações mais gerais, não cuidando de efetuar o
tratamento normativo exaustivo da problemática sobre o que incide, tal sendo deixado à intervenção
do Direito Interno.
Quanto às fontes normativas, pode se afirmar que variadas são as fontes de DI relevantes, tendo por
bases os tratados internacionais (acordo de vontades) e o costume internacional (força da
convivência espontânea na comunidade internacional).
Esta multiplicação dos sujeitos internacionais começou por ser apenas quantitativa, através do
aparecimento de novos Estados, já no século XIX, num movimento que atingiria o seu auge com a
descolonização da segunda metade do século XX. Mas, rapidamente, essa multiplicação passaria a
ser qualitativa, com o emergir na cena internacional de novos sujeitos, distintos dos Estados, tais
como organizações internacionais ou os próprios indivíduos.
DI e figuras afins
A realidade internacional deixa-se influenciar pela moral, não vivendo apenas de proposições
jurídicas.
A cortesia é uma ordem em que encontramos regras entre os sujeitos que assentam na afabilidade,
na amizade que favorecem o fluir das relações internacionais, criam afinidades, mas que não têm
uma natureza jurídica – não são obrigatórias e o seu desrespeito não implica sanções jurídicas,
apenas sociais (ex.: cortar de comunicações).
No entanto, existe um protocolo diplomático que está convencionado e o seu desrespeito implica
sanções jurídicas, criado após a Convenção de Viena. É um exemplo de cortesia internacional a
utilização do tapete vermelho na recepção de governantes estrangeiros.
- Direito Internacional (rege relações jurídicas entre sujeitos de direito público, mas que são
sujeitos de direito internacional) e Direito Internacional Privado (regula relações jurídicas
entre sujeitos privados. Acolhe conjunto de princípios e normas jurídicas que regulam as
questões jurídico-privadas internacionais, devendo referir a lei aplicável ao caso concreto).
O direito Internacional Privado apesar de próximo ao dto internacional, não pode ser assimilado a
este.
Para além do mais, o direito internacional privado pode não ser considerado nem privado (escolhe de
entre várias opções a legislação aplicável ao caso, convocando vários ordenamentos jurídicos
estaduais com auxílio a uma determinação por fontes do direito público, que não resulta da vontade
das partes) nem internacional (através deste se seleciona a aplicação de um direito que é interno).
Atualmente, já há mais harmonização, até porque é possível haver normas criadas entre sujeitos
públicos que visam regular entes privados internacionais – como é o caso da União Europeia,
considerado um sujeito internacional.
(estados federados podem assumir contratos internacionais com outros Estados) (cada ordenamento
de cada estado tem os seus princípios sobre o direito internacional privado)
As relações internacionais são o ramo da ciência social que tem como objeto as relações que se
estabelecem entre os sujeitos de direito internacional, entre atores do quadro internacional com
vocação descritiva e analítica e não jurídica, Qual o comportamento dos atores internacionais? É
importante entender as relações internacionais
O direito da UE tem a sua base um fundamento do direito internacional, nasceu através de tratados
entre Estados europeus para a persecução de certos objetivos europeus.
Anteriormente à criação da UE houve múltiplas propostas, iniciaram com o objetivo de constituir uma
federação Estadual Europeia apesar de não o ser.
Atualmente tem características de união federal que no âmbito das relações aproximam-ao direito
estadual de tipo federal, mas não se confunde como tal.
A UE é uma organização internacional com 1 quadro orgânico próprio, fontes de direito próprio. Dado
a essa natureza única, muitos dizem que não é uma organização internacional como aquelas que
foram se multiplicando ao longo dos últimos séculos.
Hoje em dia, o direito da UE tem uma natureza híbrida, uma vez que conjuga aspectos do direito
internacional e do direito estadual.
O DI comum também pode ser designado como DI geral. Define-se como o conjunto de normas de
direito internacional que vincula a generalidade de sujeitos internacionais independentemente da sua
natureza ou situações.
ex:.respeito pela independência e soberania dos Estados; estão essencialmente codificados em
convenções internacionais mas a maioria desenvolveram-se e afirmam-se através do costume
vs
Já o DI particular tem como destinatário um conjunto limitado de sujeitos de direito internacional,
através de regras estabelecidas por convenções ou consuetudinariamente,
ex: regras aplicadas entre territórios fronteiriços, podem apensar abranger 2 sujeitos ou vários
sujeitos a nível regional
- Hierarquia
O direito internacional fundamentou-se entre Estados soberanos, independentes no plano
internacional. Mais tarde criou-se instituições com poder para impor regras a estes Estados.
Não podem os sujeitos de direito internacional afastar pela sua vontade os princípios imperativos do
direito internacional; Discute-se qual deve ser esse dto imperativo aos Estado.
- Modo de criação:
DI espontâneo é criado a partir de um comportamento, da ação dos sujeitos do direito internacional
que não é deliberado para a criação de normas mas da qual podemos deduzir a criação de normas.
ex: costume.
VS
DI convencional é então, aquele que resulta de declarações de vontade expressa de criação de
normas jurídicas, não têm de ser obrigatoriamente escritas, não têm obrigação de forma especial.
- Forma:
DI não escrito é utilizado mais nos atos unilaterais,
ex: renúncia de um Estado a exercer x comportamento através de uma conferência de imprensa que
permitiu a criação de um regime jurídico com uma renúncia ao comportamento.
vs
DI escrito (generalidade)
- A recusa de juridicidade do DI
É uma Moral internacional; é uma ordem de força.
No entanto, há um corpo normativo internacional jurídico que não é estritamente moral. Possui
órgãos para criar direito internacional apesar de não conseguirem de plena forma impor-lo.
Apesar de se ter já verificado a juridicidade do DIP, procura-se agora provar o seu fundamento de
obrigatoriedade. Para tal, originaram diversas doutrinas:
Apesar de se ter já verificado a juridicidade do DIP, procura-se agora provar o seu fundamento de
obrigatoriedade. Para tal, originaram diversas doutrinas:
“concessão comum de que é a vontade dos Estados que anima a obrigatoriedade das suas normas.
Deste modo, o sistema jurídico-internacional é o reflexo da manifestação da vontade dos Estados
que consentiram no estabelecimento de relações e vinculações, as quais obrigam porque foram
queridas”.
Assim, a realidade internacional define-se pelo conjunto da vontade dos Estados que consentiram
integrar relações e vinculações, das quais decorrem obrigações.
- Teoria da ‘vontade comum dos Estados’ (Triepel). o DI também é autónomo, mas tem o seu
fundamento numa convergência da vontade comum dos estados, baseado na prossecução
de interesses comuns e próprios que serve como fundamento do DI. Assim, os Estados não
se podem desvincular unilateralmente por sua vontade, mas nos termos que a vontade
comum delimitou. O Dr. Bacelar Gouveia refere “implica que haja, não já uma autolimitação
individual de cada Estado, mas a afirmação de uma vontade em conjunto com as dos outros
Estados, dando todos um acordo em simultâneo, comum, se e enquanto essa limitação
normativa se mantiver na esfera internacional, com base na prossecução de objetivos
partilhados”. Esta teoria também tem o seu inconveniente: existem tratados de vigência
objetiva, independentemente da vontade posterior dos estados, ou até casos de tratados
baseados em vontades unilaterais mais relevantes
Segundo esta teoria, o fundamento da obrigatoriedade do DI começou por ser o princípio Pacta Sunt
Servanda (após celebrado, o contrato deve ser cumprido ponto a ponto). Mais tarde substituído por
Consuetudo est servanda: uma norma pressuposta através da lógica e não criada.
“Nesta norma consuetudinariamente criada têm o seu fundamento de vigência às normas jurídicas do
Direito Internacional criadas por tratados. Esta norma é usualmente formulada no princípio Pacta
Sunt Servanda. Na norma fundamental pressuposta do Direito Internacional que institui o costume
dos Estados como facto gerador de Direito exprime-se um princípio que é o pressuposto fundamental
de todo o Direito.” - Kelsen
- Teses sociológicas
Assim como o direito estatal nasce da vivência entre os cidadãos, o DI nasce da vivência entre os
sujeitos da realidade internacional.
Assim, sendo a vivência internacional geradora da necessidade de leis e normas que possam
garantir a coexistência, numa projeção biológica da necessidade da ordem social, assim aplicada à
ordem internacional , de acordo com a ideia da sociabilidade internacional.
A teoria anterior evoluiria para a ideia de que o Dto em geral e o DI não seriam mais do que a
concretização de um desejo de ordenação em torno de instituições sociais, que requerem um
ordenamento jurídico próprio.
Críticas:
• Existem princípios gerais que se impõem, apesar da vontade dos Estados, por exemplo, o artigo
38.o do Estatuto do TIJ reconhece a existência de princípios gerais de Direito reconhecidos pelas
nações civilizadas e estes têm de facto uma substância normativa.
• Além dos Estados, existem outros sujeitos autónomos de Direito Internacional como as
Organizações Internacionais.
• Nenhuma das teorias reconhece o ius cogens (norma perentória imperativa do direito internacional).
- As teses jusnaturalistas.
Críticas:
• Crítica relativista – estes valores reduzem-se a uma essência residual, muito pouco densa devido à
diversidade cultural, ideológica, etc., e, portanto, os fundamentos podem ser insuficientes
• Ambiguidade normativa – existe alguma ambiguidade normativa entre a ética e a exigência jurídica
- Teorias contemporâneas
1) O neo-contratualismo liberal (Rawls)
Assenta em 8 princípios:
• Independência dos povos
• Igualdade
• Legítima defesa
• Dever de não intervenção na esfera interna
• Pacta sunt servanda
• Respeito por uma série limitada de direitos humanos (núcleo substantivo, relativamente limitado,
para que se reconheça que é consensual – conjunto de direitos humanos que corresponde à ideia de
dignidade)
• Respeito pelo direito da guerra (condições e limites)
• Dever de apoio humanitário
Liberalismo trans nacionalista, reconhece que a realidade internacional não é formada só por
Estados e que mesmo os Estados têm interesses diversos, a esfera internacional desenvolveu-se
com múltiplos atores no Direito Internacional.
Conceção “bottom-up” assente na interação racional/utilitária dos diferentes atores sociais, indivíduos
e grupos, que definem as preferências estaduais numa realidade de interdependência (Moravcsik,
1997) e com múltiplas fontes normativas e de diversa natureza em 3 níveis de desenvolvimento
dinâmico entre elaboração e a implementação na esfera internacional e na doméstica:
• privado/transnacional – o nível dos sujeitos de Direito Privado na comunidade internacional
• governamental/transnacional – o nível das Organizações Internacionais
• interestadual – a participação dos Estados
Propõe o recentramento do Direito Internacional das relações interestaduais para a tutela dos direitos
humanos, a intervenção humanitária pragmática, numa lógica de complementaridade das instituições
internacionais em relação às nacionais.
O seu maior contributo foi o reconhecimento do papel crescente de corporações, ONGs e outros
sujeitos privados na criação de Direito Internacional. Porém, ao extenuar fronteiras e criar escalas e
estruturas de relacionamento e processos comunicativos e produtivos, estas transformações turvam
os limites de responsabilidades e competências, dissipando poder (entre Estados, organizações
internacionais, empresas, ONGs, indivíduos, associações) e encolhendo os espaços de exercício e a
intensidade das formas tradicionais de autoridade, produzindo, em síntese, como efeitos últimos, a
fragmentariedade e a descentralização.
A legitimação desse crescente poder político internacional exige numa perspetiva constitucional,
ainda que não possa replicar o modelo democrático nacional-estadual, mas deve antes articular
novos modos de legitimação dessas estruturas de governança internacional e os modos
tradicionais de legitimação democrática-constitucional dos Estados. A proposta de um
“sistema/constelação” em 3 níveis (multinível) e não de um “governo mundial”:
• Nível global – a existência de uma Organização Internacional que supervisiona o cumprimento do
Estado das suas funções de garantir a segurança e os direitos dos seus cidadãos – papel que tem
sido desempenhado pelas Nações Unidas;
• Nível transnacional/funcional heterárquica – assente nos vários acordos internacionais setoriais, no
qual haveria simultaneamente participação do Estado, das Organizações Internacionais, ONGs e
outras pessoas coletivas do direito privado, no qual se encontram a nível paritário de igualdade;
• Nível estadual – onde, numa ordem jurídica pluralista, os diferentes Estados participam
democraticamente da criação de um Direito Internacional cosmopolita, através dos seus órgãos
representativos, como a Assembleia Geral das Nações Unidas. O objetivo (utópico) seria, a longo
prazo, a criação de um Parlamento Global onde estivessem representados, não só os Estados, mas
os cidadãos de todos os Estados.
Tem como condições a construção de um “espaço público comunicativo global” e uma reforma com
reforço do acesso e do poder de outras instâncias de controle, como o TIJ.
Críticas – Apesar destas estruturas já existirem, não existem no nível de integração e cooperação
propostos pelo autor daí que se fale numa verossimilhança das condições pressupostas. Não basta
haver condições para uma participação racional, é necessário que haja uma gramática básica
comum, aquilo que são os valores fundamentais, sob pena de não podermos ter uma participação
racional. A proposta é demasiado utópica.
Assim como todos os restantes setores jurídicos, o DI conhece mecanismos que dão origens às suas
normas, ou seja, as suas fontes.
A questão das fontes não deve ser tratada quantitativamente (se são muitas ou poucas), mas sim
qualitativamente (se são ou não fontes legítimas de produção do Direito).
Em virtude do caráter fragmentário e policêntrico do direito internacional não existe uma constituição
ou uma norma que apresenta o elenco das fontes de direito internacional. Perante tal situação o que
a doutrina faz é recorrer ao art 38 do ETIJ (estatuto do tribunal internacional de justiça). Esta norma
determina as fontes a que o tribunal internacional de justiça irá recorrer para resolver um conflito que
seja submetido à sua apreciação.
“1. O Tribunal, cuja função é decidir, de acordo com o Direito Internacional, os litígios que lhe sejam
submetidos, aplicará:
a) as convenções internacionais, gerais ou especiais, que estabeleçam regras
expressamente reconhecidas pelos Estados em litígio;
b) o costume internacional, como prova duma prática geral aceite como de direito (
c) os princípios gerais reconhecidos pelas Nações civilizadas;
d) sob reserva do disposto no artigo 59.º, as decisões judiciais e a doutrina dos publicistas
mais qualificados dos diferentes Estados, como meios auxiliares para a determinação das regras de
direito.
2. Este artigo não prejudicará a faculdade do Tribunal de, se as partes estiverem de acordo,
julgar ex aequo et bono.” (referência a decisões ex aequo e bono que não corresponde à relevância
da equidade).
No entanto, o art 38 do ETIJ está longe de ser um documento satisfatório no que toca à transcrição
de fontes de DI, pelo que, a este são apresentadas algumas críticas:
- O art 38 não esgota as fontes de direito internacional nem é a única norma que devemos ter
em conta, pois há os tribunais internacionais que nos seus estatutos que possuem normas
do género, nomeadamente o art 21 do estatuto de Roma do tribunal penal internacional.
- Nem todas as fontes aí previstas são fontes imediatas de direito internacional e portanto,
para bacelar gouveia não serão verdadeiras fontes.
- Este art não cria uma hierarquia de fontes
- Há outras fontes de direito internacional que o art não refere, sendo de questionar a
relevância daquelas que não são mencionadas.
- É um critério orientativo e não vinculativo,
- É um artigo que está desatualizado uma vez que a distinção entre nação civilizada e não
civilizada terminou com o período contemporâneo.
A questão é que pela própria natureza dos princípios estes têm uma autonomia da sua informação
independentemente da fonte onde estão plasmados. Alguns posicionaram-se pelo costume, outros
foram plasmados em tratados onde foram enunciados esses princípios ex-novos.
Outra questão é a decisão ex aequo et bono (art.o 38.o no2), a equidade é uma forma de resolução
casuística, não uma norma, pois não tem a característica da generalidade e da abstração. Tem uma
natureza individual e concreta, não sendo uma fonte de normas. Equidade não se confunde
necessariamente com ex aequo et bono, principalmente, no contexto internacional, por vezes esta
surge como equidade. A equidade referida no direito internacional corresponde a um princípio auxiliar
que se baseia naquilo que são os fins e os imperativos do próprio ordenamento jurídico, no fundo,
trata-se de um princípio semelhante ao princípio da proporcionalidade.
Numa realidade em que temos um aparecimento exponencial nas últimas décadas de novos sujeitos
internacionais que são as OI estas adotam atos nos quadros dos seus objetivos e competências que
são atos unilaterais, mesmo que estes possam resultar da decisão de órgãos em que participam
representantes dos vários estados. (não confundir estados com representantes dos estados).
Deste modo, critica-se também o artigo 38.o por não enquadrar os atos unilaterais dos Estados e das
Organizações Internacionais.
Além disso, a jurisprudência e a doutrina, não são criadoras, mas são reveladoras de normas e
princípios, a primeira com força vinculativa inter pares, pelo que parece válido considerá-las como
fontes ainda que secundárias.
O artigo apresenta uma denominação discriminatória, mas que, no entanto, não tem significado atual.
Esta expressão define que há povos civilizados outros não, mas que, no entanto, é apenas um
resquício da história colonialista (sendo que este artigo foi elaborado em épocas onde o colonialismo
ainda era uma realidade, pelo que se indaga se se deve eliminar esta primeira parte, de forma a não
levar a más interpretações).
Todas estas críticas levam a uma certa desvalorização do artigo, no entanto, não o tornam totalmente
inútil, pelo que ainda é considerado na ausência de outros prefeitos mais adequados.
Fontes primárias (revelam normas jurídicas). Segundo Bacelar Gouveia, são estas as “verdadeiras”
fontes normativas de DI
- Costume
- Tratados internacionais
- Atos unilaterais dos Estados e OI
Fontes secundárias (ajudam a encontrar normas jurídicas). Segundo Bacelar Gouveia são apenas
pretensas fontes de Direito Internacional
- Jurisprudência
- Doutrina (caso ‘Plataforma continental’ 1969, RFA v. Dinamarca e Holanda, pp. 36-37).
Costume
- problema do objetor persistente: se a prática for realizada por diversas pessoas mas apenas
algumas a contestarem, isso pode não ser significativo. O objetor persistente é aquele que,
ao longo do tempo em que uma prática está a desenvolver-se e a formar se uma norma
consuetudinária, desde logo objeta essa prática, considerando que ela não é conforme o
Direito – há uma recusa da prática, mas pode haver desvinculação do objetor persistente,
desde que o tenha manifestado de forma expressa
Dependendo do seu âmbito de aplicação, o costume pode ser geral, regional ou local- particular
- O geral obriga todos os sujeitos internacionais, ou seja, vincula todos os sujeitos que
participaram na sua formação e aqueles que não se opuseram aquela prática.
- regional: obriga um certo conjunto de sujeitos
- local: só tem aplicação num determinado Estado.
Assim, para termos um costume internacional tem de estar em causa na prática levada a cabo por
sujeitos internacionais de modo constante e uniforme, através de por exemplo, atos dos órgãos
internos, incluindo os tribunais, e externos dos sujeitos de DI.
Podemos utilizar múltiplas designações para os tratados: acordo, pacto, convênio, estatuto,
protocolo, carta, constituição, entre outras.
Esta definição é demasiado restritiva, pois só estão abrangidos na convenção de Viena os acordos
escritos entre os Estados, ora, nós podemos ter convenções e acórdãos que não sejam escritos, o
que importa é que sejam a conjugação da vontade de pelo menos dois sujeitos do Direito
internacional. Faz sentido que sejam por escrito por razões de certeza jurídica, mesmo que não
esteja patente num único instrumento. Além disso, prevê apenas os acordos entre Estados, mas
existem outros sujeitos de direito internacional.
Deve definir-se como: Acordo de vontades entre sujeitos de DI, agindo nessa qualidade, de que
resultam efeitos jurídico-internacionais.
Tendo em consideração a incidência sobre o respetivo regime jurídico podemos elencar diferentes
classificações de Tratados.
® Tratados-contrato e Tratados-lei
Tratados–contrato: prevê obrigações para ambas as partes, uma parte é dependente da outra, e
cessa quando as prestações são cumpridas. As obrigações de cada uma das partes são distintas e
correspondentes entre si, havendo uma equivalência entre elas, pelo menos, juridicamente.
Tratados-lei: habitualmente, tem um número de partes muito extenso e, em alguns casos, até
indeterminado. Se não se vinculam, necessariamente, num primeiro momento um número elevado de
sujeitos, a verdade é que o que se pretende é instituir um regime normativo de um setor a que se
possa vincular um conjunto de sujeitos. Além disso, ao contrário do Tratado, não é um cruzamento
de declarações opostas, será, antes, um regime de interesses tendencialmente uniformes, isto é, há
direitos e obrigações associadas a vontades que serão tendencialmente idênticas.
Habitualmente, contêm um regime bastante exaustivo (por oposição a um tratado- quadro que
apenas estabelece os princípios a adotar, sem este grau de exaustão que estabelece um conjunto de
regras).
Por contraposição, os Tratados restritos são aqueles que ou porque são fechados ou, ainda que não
o sejam, não estão abertos à generalidade dos sujeitos de Direito Internacional, porque instituem
condições de acesso. É o caso da União Europeia em que o Tratado é aberto, pois admite a adesão
de novos membros, mas estes membros têm de cumprir determinados requisitos e, nomeadamente,
serem Estados Europeus).
Dada essa maior importância exige-se a ratificação do Chefe de Estado. Nos tratados não solenes
não se exige tanto, tem, apenas, de haver uma vinculação de um representante do Estado com
competência para tal. Estes últimos, são, frequentemente, designados por acordos. A CRP distingue
acordos e tratados segundo este princípio, uma vez que a forma de vinculação ao Tratado é distinta.
Não são referidos pelo art 38 do ETIJ, no entanto, tal não significa que não sejam igualmente
relevantes.
Existem, ainda, atos unilaterais não autónomos, nas palavras de Bacelar Gouveia, estes “são
previstos por outras fontes normativas, que executam ou concretizam, não retirando deles próprios a
sua força jurídico-internacional”. Isto é, dependem e são regulados por outra fonte de Direito
Internacional. Estes atos têm efeitos jurídicos internacionais, mas vinculam apenas o sujeito que os
formulou.
É o exemplo da Adesão, ato que corresponde à situação em que um sujeito, que não era parte
originária, se vincula posteriormente a uma convenção. Por regra, a adesão é realizada através de
um Tratado de Adesão, não sendo este tratado um ato unilateral na medida em que requer um
acordo entre o Estado aderente e as Partes.
Ainda assim, em alguns casos é possível a adesão realizar-se por ato unilateral. Além da Adesão,
temos também o exemplo da Denúncia de um Tratado, esta resulta do Direito de desvinculação dos
Estados.
2) Vinculativos
Produzem efeitos jurídicos no sentido de obrigação ou de benefícios para um Estado ou para outros
sujeitos de Direito Internacional. Constituem compromissos que vinculam os Estados.
Os atos unilaterais das organizações internacionais têm natureza distinta dos Estados,
nomeadamente, porque obedecem ao princípio da especialidade, na medida em que as suas
competências estão limitadas pelas atribuições dos seus tratados fundadores e, portanto, estes atos
não são autónomos.
Por outro lado, têm como função desenvolver o que está instituído nesses mesmos contratos.
Deste modo, as organizações internacionais não poderão produzir efeitos jurídicos através de atos
unilaterais que não respeitem as suas competências. Ultimamente estes têm sido muito valorizados.
Podemos ainda encontrar atos de eficácia interna e externa, como o orçamento que financia as
Organizações Internacionais em que se estabelece a contribuição de todos os integrantes.
Por outro lado, os atos não exequíveis dependem de outros sujeitos de Direito Internacional, isto é,
de um ato complementar que visa dar-lhe efetividade e, por isso, são mais comuns.
As soft law, não são fonte de Direito, poderíamos dizer que se encontra na fronteira entre
aquilo que é direito e aquilo que não é. São soft law: as declarações feitas em conferências
internacionais; os acordos meramente políticos; os códigos de conduta; as declarações de princípios;
e os Livros Brancos. Entre estes elementos percebemos que todos exprimem uma certa
concordância acerca de uma matéria, isto é, exprimem o princípio de um compromisso sem, contudo,
introduzirem uma vinculação jurídica.
O soft law é relevante nos domínios do Direito Internacional em seja muito difícil obter o consenso
dos vários Estados. A matéria de excelência para exemplificar, atualmente, um destes campos, é a
matéria do ambiente, que é uma matéria que preocupa a generalidade dos Estados, mas não estão
reunidas as soluções para uma solução jurídica clara.
O soft law não substitui a regulação jurídica, não é essa a sua importância, não é uma alternativa ao
direito. Devidamente compreendido trata-se de uma técnica complementar à regulação jurídica
quando é impossível obtê-la. Soft law age como complemento quando é impossível obter uma
solução jurídica completa. Este complemento permite criar o ambiente adequado para, a médio
prazo, obter-se uma solução jurídica para a matéria em causa.
Exemplo: Durante as últimas décadas, há muitas declarações em que os Estados manifestam a sua
comum preocupação pela questão ambiental. Da comum preocupação não decorre nenhuma
consequência jurídica, mas gera-se um clima adequado para que, com a devida consciencialização
acerca da importância da regulamentação do ambiente, se obtenha uma solução.
“Os princípios gerais de Direito, reconhecidos pelas nações civilizadas”- art 38 do ETIJ.
Numa perspetiva jusnaturalista defende que os PGD decorrem da própria natureza da ordem jurídica
internacional. Enquanto numa perspetiva voluntarista, pode-se entender que os PGD são o resultado
do consenso entre os sujeitos de DI sobre o seu conteúdo fundamental. (ver sebenta deste ano).
O TIJ declarou, no caso “Delimitation of Maritime Boundary in the Gulf Maine Area” (1984) que os
princípios (no DI) são normas. A diferença é que os Princípios são mais gerais e têm um sentido e
alcance menos definidos do que as normas. Porém, enquanto alguns princípios dispõem de
aplicação direta (como normas), outros só são aplicados indiretamente, servindo de base para a
criação de normas futuras ou como elemento de interpretação.
Inicialmente eram aplicados apenas eternamente ou seja entre os Estados, mas hoje aplicam-se
mundialmente (boa fé, caso julgado etc….).
Pode-se diferenciar, ainda que não seja consensual, princípios gerais comuns de princípios gerais
restritos. Segundo esta doutrina, certos princípios (como o Estado de Direito Democrático,
Pluralismo, etc.) seriam princípios, não de toda a comunidade internacional, mas de um número
restrito de Estados da comunidade. Recorde-se, no entanto, que no quadro das Nações Unidas, esta
diferenciação não existe, sendo que os PGD previstos na CNU ou em Resoluções da AG abrangem
igualmente todos os sujeitos.
Qualquer uma destas funções podem ser desempenhadas pelos PGD, no entanto, as 3 últimas são
as mais diretas.
Já a primeira função afigura-se mais árdua, embora seja considerada inevitável pela avaliação
sistemática interna que necessariamente traz o dto internacional como por ser a maior utilidade que
se pode atribuir aos princípios que são de direito natural.
Normas de ius cogens: São normas peremptórias de DI, isto é, normas de valor reforçado, o
que significa que são normas imperativas e inderrogáveis.
A vertente mais importante é o facto de ser inderrogável (nem com a vontade das partes é possível
afastar uma norma de ius cogens).
▪ É IUS COGENS: Agora, consideremos uma norma de DI que determine a proibição do genocídio.
Tendo em conta esta norma, um Estado não pode praticar genocídio. Os Estados por acordo não
podem afastar esta norma: IMPERATIVA E INDERROGÁVEL, logo é de ius cogens.
Riscos.
Elencos possíveis: os arts.o 53o, 64o e 71o CVDT
A partir da 2.a metade do século XX, foi se reconhecendo princípios gerais do DI que não podem ser
afastados – normas inderrogáveis – às quais se chama ius cogens (direito cogente – de validade
absoluta). A expressão normas peremptórias também é usada frequentemente como sinónimo,
sendo normas internacionais com alcance universal (erga omnes), mas não necessariamente
inderrogáveis.
É com a CVDTE que o ius cogens é reconhecido num texto de valor convencional.
- parâmetro aferidor da validade dos tratados internacionais- art 53 CVDTE.
- parâmetros aferidos da vigência dos tratados internacionais- art 64 CVTDE.
Apesar de hoje ser reconhecida pela Jurisprudência Internacional e por convenções como a CVDTE,
é difícil determinar quais são todos os princípios que têm natureza de ius cogens. Entre os
argumentos invocados contra estes princípios, coloca-se o risco de petrificar o DI (prejudicando o seu
livre desenvolvimento), bem como a ideia de que certos princípios de ius cogens não são
consensuais entre toda a comunidade internacional e podem ter viés ideológico.
O TIJ só usou a expressão “ius cogens” no caso “Congo vs. Ruanda” (2006), ao abrigo dos crimes de
genocídio que ocorreram no Ruanda na década de 90.
Até aí, o TIJ foi cauteloso, não tomando uma posição expressa sobre o valor do ius cogens. Usando
outras expressões como “Princípios in transgressivos do Direito humanitário" (‘Parecer sobre a
legalidade do uso ou ameaça de armas nucleares’, 1996), ou "obrigações erga omnes” – isto é,
obrigações absolutas que todos os sujeitos têm (Parecer sobre o "Muro de Israel", 2004), mas sem
aludir à inderrogabilidade dessas obrigações.
Observação: O TICEJ (um tribunal ad-hoc, estabelecido pelo Conselho de Segurança para julgar os
crimes de genocídio após a Guerra da Jugoslávia), já tinha reconhecido explicitamente o ius cogens
no caso ‘Tadic’, em 1999.
Alguns autores admitem poder haver ius cogens regionais. Tal posição, porém, parece contradizer o
carácter absoluto do ius cogens, só faria sentido existir para normas de alcance universal.
Propostas
Ius Cogens Consensual:
● Proibição do Uso da Força (jurisprudência: Nicarágua v. EUA, 1986);
● Proibição do Genocídio (Congo v. Ruanda, 2006);
● Proibição da Escravatura;
● Proibição do Apartheid e da Discriminação Racial;
● Proibição dos Crimes Contra a Humanidade;
● Proibição da Tortura;
● Reconhecimento do Direito Internacional Humanitário;
● Responsabilidade dos Estados.
O alcance do ius cogens é apenas material. O reconhecimento do ius cogens não implica que o
tribunal tenha jurisdição para aplicá-lo. Isto observou-se no caso Congo v. Ruanda, 2006 e Portugal
v. Austrália (relativo à violação de normas imperativas durante a invasão de Timor-Leste), 1995 – o
Tribunal Internacional de Justiça mesmo reconhecendo a existência de ius cogens, não tinha
jurisdição para apreciar esses casos. (Isto deve-se a razões procedimentais que são alheias a ter
ocorrido ou não, substancialmente, violação de norma perentória – p. ex., através da formulação de
Reservas ao ETIJ, certos Estados não reconhecem a competência do TJ para julgar em casos de ius
cogens. Nesse caso, como os diferendos internacionais estão sujeitos ao princípio da vontade das
partes, se não houver o reconhecimento mútuo da competência do TIJ, não há competência para
julgar)
São inválidos todos os tratados (com o vício de nulidade, segundo o art. 53.o da CVDT) e atos
unilaterais contrários ao ius cogens. Coloca-se a questão de se essa invalidade se aplica para os
atos unilaterais do Conselho de Segurança da ONU, que, segundo o art. 103.o da CNU, têm força
superior e não podem ser invalidados por outra norma de DI. Consideramos que, apesar do disposto
no artigo, este ato não terá validade.
Equidade
As decisões baseadas na equidade são igualmente definidas por decisões “ex aequo et bono”. São
decisões que não se baseiam unicamente em direito positivo mas sim atendendo às especificidades
de cada caso.
Decisões ex aequo et bono são o mesmo que equidade? Nos sistemas jurídicos romano- germânicos
o entendimento é que são idênticas. No caso ‘Zonas Francas’ (1930), o Tribunal Permanente de
Justiça Internacional (DIPJ) considera a mesma coisa.
Porém, os Tribunais Internacionais também invocam, mesmo quando julgam ao abrigo de Fontes
Normativas, Princípios de Equidade (influência anglo-saxónica), que são diferentes de julgar por ex
aequo et bono, servindo para complementar e fundamentar as decisões baseadas em normas, com
critérios de equidade. (Esses Princípios de Equidade têm função semelhante ao Princípio da
Proporcionalidade e da Boa Fé, no sentido que visam procurar uma solução equitativa, sem que seja
à margem do Direito vigente).
Hierarquia do DI
Como resolver conflitos de normas de ius cogens? Considera-se que, por serem inderrogáveis, um
princípio de ius cogens não deve prevalecer sobre outro. Em vez disso, deve-se tentar conciliar os
conflitos entre direitos, reduzindo-os ao seu núcleo essencial não-conflituante. (Esta solução é similar
à resolução de conflitos de Direitos Fundamentais, estudada em Direito Constitucional. No DI, como
o reconhecimento do Ius Cogens ainda é muito recente e ainda não estão completamente pautados
os métodos para resolver conflitos, ainda não há solução consensual.)
“ARTIGO 103 - No caso de conflito entre as obrigações dos membros das Nações Unidas, em virtude
da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo internacional, prevalecerão
as obrigações assumidas em virtude da presente Carta.”
- Critério Cronológico
Define-se pelo moto “Lex posteriori priori derogat”.
Ou seja, defende que a vontade normativa que foi em último lugar manifestada prevalece sobre todas
as outras. A norma posterior derroga a norma anterior.
O fundamento deste critério prende-se com o facto de que a norma especial se melhor adequar a
orientação normativa que com mais proximidade quis abordar a hipótese em análise. No entanto, tal
nem sempre acontece.
A CVDTE foi assinada em Viena a 23/05/1969, tendo Portugal aderido a ela em 2003 e ratificando-a
em 2004. Com esta referência, elencaram-se alguns dos diferentes tipos de manifestação do
consentimento à vinculação aos tratados (artigo 2.o/1-b CVDT), que são estudados nos próximos
dois capítulos.
ART 1/ ART 2 A)- Estes dois artigos definem que a convenção se aplica aos tratados concluídos
entre os Estados e define estes como “acordo internacional concluído por escrito entre Estados”.
Art. 5.o: A CVDTE também regula os tratados celebrados por Estados que constituam OIs (Tratados
Constitutivos das OI) ou adotados no âmbito de uma OI, pelos estados-membros dessa OI.
● Os acordos regulados entre Estados podem dizer respeito à vinculação originária (dos Estados que
participaram da negociação do tratado) ou vinculação posterior (através da adesão ao tratado).
A maior parte das regras da CVDT são supletivas, aplicando-se apenas na ausência de regulação
convencionalmente prevista. Ocorre nos Tratados, em DIP, algo análogo aos Contratos, estes criam
um regime normativo com eficácia inter-Partes, aplicando-se princípio da 'Pacta Sunt Servanda' (art.
26.o CVDT).
Nem todas as regras da CVDT são supletivas. Algumas são imperativas, preceptivas e não podem
ser afastadas, mesmo que haja uma disposição de um Tratado que revele essa vontade. Mas a
maior parte das normas respeitantes à negociação, modo de vinculação, entrada em vigor,
formulação de reservas e modificação, são normas supletivas.
Celebração dos Tratados entre Estados.
- Negociação.
A Negociação é a fase em que os Estados discutem e trocam propostas que darão lugar ao texto. É
quando o conteúdo, objeto, regras aplicáveis, obrigações e direitos das partes do tratado são
discutidas e formuladas.
O art. 2.o/1-e) da CVDT define "Estado que participou na negociação" como "Estado que tomou parte
na elaboração e na adoção do texto do tratado". Denominação que não se confunde com "Estado
Contratante", que designa um Estado que consentiu em ficar vinculado pelo tratado, ou "Parte", que
tem o mesmo significado que Estado Contratante, mas tendo já o tratado entrado em vigor.
- Fases da Negociação
● Pré-negociação - Identificam-se as partes que vão participar do processo de negociação
(delimitação dos sujeitos). Em que se delimitam as matérias e determina-se o processo negocial,
incluindo a data de início, forma das reuniões (local, duração das reuniões). O conteúdo ou normas
substanciais do tratado ainda são indefinidos.
● Negociação geral - Determina-se a calendarização e dividem-se os subtemas entre
representantes e reuniões específicas (diferentes matérias do tratado podem ser divididas em sub
conferências com um tema específico - semelhantes às comissões nos Processo Legislativo). Certos
acordos, por terem um objeto limitado, nem têm essa subdivisão.
● Negociação específica - As partes trocam propostas, discutindo-as, conjugando-as e
modificando com base nas sugestões de outras partes.
Estas subfases muitas vezes nem são autonomizadas, mas feita em contínuo, nos tratados bilaterais.
É nos tratados multilaterais que, devido à sua complexidade, são necessárias subdivisões das
negociações.
● Art. 2.o, al. c) CVDT: A carta de Plenos poderes é um documento emanado de autoridade
competente do Estado que indica os representantes do Estado na negociação, adoção ou
autenticação do texto de um tratado, manifestado o consentimento do Estado a ficar vinculado ou
para praticar qualquer ato relativo ao tratado.
● Art. 8.o: Quando um ato for praticado por alguém não autorizada para esse fim, o ato não produz
efeitos jurídicos, a menos que seja confirmado posteriormente por esse Estado (considera-se que um
vício ou corrupção do representante de um Estado na negociação, não implica a não adoção do
tratado, se os órgãos do Estado posteriormente confirmarem-no, p. ex., ratificando o tratado)
- Habilitação negocial
É dada através da carta de 'plenos poderes' (artigo 2.o, no 1, al. c) CVDT). Instrumento através do
qual o Estado confere a uma determinada entidade o poder de o representar nas fases
subsequentes. Pode haver habilitações diferentes:
● Habilitação para negociar
● Habilitação para negociar e adotar o texto
Tal não significa que essa habilitação exista a nível do direito interno, esta é apenas uma previsão à
luz do direito internacional (no que toca o DI pode participar qualquer um destes, mas o direito interno
poderá restringir). Reconhece-se ainda:
● Nos Tratados Bilaterais: Os chefes de missão diplomática (os Embaixadores de cada Estado), para
adoção do texto de um tratado entre o Estado acreditante e o Estado receptor. (art. 7.o, n.o2, al. b)
● Os representantes acreditados juntos dos Estados numa conferência internacional ou junto de uma
organização internacional ou um dos seus órgãos. Desde que no âmbito dessa conferência,
organização ou órgão. (al. c)
Para além disso, esta alínea considera que, por costume (local): Mesmo na ausência de carta de
'plenos poderes', por prática consolidada entre os Estados contratantes, pode-se considerar
determinada pessoa como representante. (Esta habilitação é sempre específica, limitada àquela
negociação e entre aqueles Estados em particular).
Para além disso, prevê-se no ART N8 da CVDT as situações em que se ocorre a falta de “planos de
poderes” e a respectiva sanção.
Este artigo fundamenta que um ato relativo à conclusão de um tratado por uma pessoa não
autorizada para tal NÃO PRODUZ EFEITOS JURÍDICOS, a não ser que o Estado o confira
posteriormente. Sem sanação, o ato não produzirá efeitos.
- Adoção:
É a fase que põe término à negociação, em que o texto se torna um documento fechado.
Partes do Tratado:
- Preâmbulo: conjunto de considerações a respeito da razão de ser do tratado, bem como das
intenções dos Estados que o negociaram, incluindo a sua própria identificação que, porém,
não possui valor normativo.
- Corpo dispositivo: que tem o articulado ou o clausulado, conforme seja redigido por artigos
ou cláusulas, o qual consiste num conjunto de preceitos, separadamente para cada uma dá
matérias, distinguindo-se entre disposições materiais e cláusulas finais.
- Parte complementar: que tem os anexos, podendo aparecer com um sentido técnico ou
geográfico, embora possuindo o mesmo valor normativo do articulado.
O artigo 33.o rege a questão das línguas (é comum nos Tratados bilaterais que o Tratado seja
celebrado em cada uma das línguas, já nos Tratados Multilaterais tendem a ser celebrados numa ou
poucas línguas).
A diversidade de termos linguísticos poderá causar dúvidas de interpretação, nesse caso deve-se
procurar que a interpretação seja feita sempre através do princípio da boa-fé e tendo em conta as
finalidades (elemento teleológico) do tratado. Porém, nos termos do artigo 33.o/1, poder-se á
determinar que um texto (numa língua) prevaleça sobre os outros, em caso de conflito, se nada se
determinar, dever-se-á assumir que os tratados têm o mesmo sentido nos diversos nos diversos
textos e procurar a interpretação que concilie o objeto e fins do tratado (33.o/4).
Vinculação internacional
A assinatura que autentica o texto é a mesma que vincula o Estado membro a ele. (Pode ser uma
simples rubrica) Na maior parte dos casos, devido a exigências internas/constitucionais de
confirmação interna (como acontece no panorama português, ao abrigo do art. 8.o/2 da CRP), faz-se
uma assinatura ad referendum.
Troca de textos: Os representantes dos Estados (com habilitações funcionais ou plenos poderes)
trocam os textos depois de assinarem. Esta troca pode ser um mero ato protocolar e a vinculação
internacional fica dependente de um processo ulterior de confirmação. Ou pode, com o acordo entre
as partes, determinar o início de vigência do tratado.
Troca de cartas/notas - Acontece sobretudo em acordos bilaterais menos solenes (podendo ser feita
por representantes sem habilitação funcional). Através de uma nota diplomática/carta declara que
aceita a vinculação, que é respondida com outra carta com um vínculo idêntico.
A Ratificação pode ser, num dado acordo, a forma de vinculação prevista (foi o aconteceu na CVDT),
mas também é um requisito da vinculação interna para os tratados solenes.
Nos termos do artigo 14.o, c) e d) da CVDT, a assinatura pode ser feita sob "reserva de ratificação
posterior" (uma forma de assinatura ad referendum). Sendo que a assinatura é o que passa a
vincular internacionalmente o Estado, mas só com a ratificação passa a haver vinculação interna.
A designação diferente deve- se ao facto que, a nível interno, dá-se por via de órgãos distintos.
Em Portugal, é sempre prevista a aprovação (mas não a aceitação), seja pela AR (artigo 161.o-i),
CRP), ou pelo Governo (197.o/1-b), sendo que esta é suficiente para vincular nos acordos sob forma
simplificada (porém, os tratados solenes exigem posterior ratificação presidencial -135.o-b).
Nos EUA (entre outros), a aceitação é uma forma de adesão que é feita diretamente pelo executivo
(Presidente), sem intermédio do legislativo.
Art. 46.o
“1. A circunstância de o consentimento de um Estado em ficar vinculado por um tratado ter sido
manifestado com violação de uma disposição do seu direito interno relativa à competência para
concluir tratados não pode ser invocada por esse Estado como tendo viciado o seu consentimento,
salvo se essa violação tiver sido manifesta se disser respeito a uma norma de importância
fundamental do seu direito interno.”
Ressalta: Se a violação tiver sido manifesta e disser respeito a uma norma fundamental
(constitucional) do direito interno (devem-se verificar estas condições simultaneamente), pode-se
considerar que a violação de disposição interna, vicia o consentimento à vinculação ao tratado (caso
contrário é relevante para a vinculação e responsabilidades internacionais).
O n.o2 define violação manifesta: “2. Uma violação é manifesta se for objetivamente evidente para
qualquer Estado que proceda, nesse domínio, de acordo com a prática habitual e de boa fé.”
Do n.o2 retira-se que, se as outras partes (em negociação) tiverem conhecimento que determinada
prática é contrária ao direito interno de um Estado, parte nas negociações, então estar-se-á perante
uma violação manifesta e pode se considerar viciado o consentimento. (as consequências que
decorrem dos vícios e invalidades dos tratados estão no Cap. VII)
O Alcance do Tratado
Exceções: Art. 17º, concede aos Estados a possibilidade de se vincularem apenas a uma parte do
tratado sem obter o consentimento das partes.
Nota: Quanto à vinculação territorial, também se aplica o princípio geral se de alcance total. Porém,
nalguns Estados que tenham Regiões com Estatuto Especial (p. ex. Macau e Hong Kong na RP
China), podem ser a aplicação ser parcelar (depender da aprovação, ou dar-se de forma diferente,
naqueles territórios).
Reservas.
As reservas são atos unilaterais não autônomos (não produzem efeitos de forma independente,
necessitam de estar ligadas a outro ato, tipicamente as Convenções Internacionais).
A sua noção encontra-se no art 2, d) da CVDTE:“ designa uma declaração unilateral, qualquer que
seja o seu conteúdo ou a sua denominação, feita por um Estado quando assina, ratifica, aceita ou
aprova um tratado ou a ele adere, pela qual visa excluir ou modificar o efeito jurídico de certas
disposições do tratado na sua aplicação a esse Estado;”.
A admissibilidade de reservas (à luz do regime do tratado em que se insere) não significa que esta
seja reconhecida ou que venha a produzir os efeitos pretendidos, por simples declaração unilateral.
Em regra geral, a reserva que é expressamente autorizada por um tratado não carece de aceitação
por parte dos Estados contratantes, salvo disposição em contrário. (art 20 n 1)
Objeção da reserva
Efeitos da reserva
Conforme o artigo 22.o/1, "Salvo disposição em contrário, uma reserva pode ser retirada a todo o
tempo, sem que o consentimento do Estado que a aceitou seja necessário à retirada", o mesmo vale
para as objeções, conforme o 22.o/2.
Assim sendo, a objeção pode ser retirada (pelos mesmos órgãos com competência para formulá-las,
os órgãos com habilitação funcional ou com habilitação específica através de carta de plenos
poderes), sem que haja necessidade de confirmação pelos Estados que a aceitaram. Conforme o
23.o/4, a sua retirada também terá que ser formulada por escrito.
Entrada em vigor.
A entrada em vigor dita a 4º fase e implica que os efeitos jurídicos determinados nos respectivos
articulados se tornem eficazes, no pressuposto de que já eram vinculativos para as partes.
Um tratado entra em vigor nos termos e na data nele previstos ou acordados pelos Estados Partes -
art. 24.o/1 CVDT.
● Caso nada seja determinado, entra em vigor no momento da última manifestação de
consentimento à vinculação (na prática: dá-se quando todas as ratificações se deem, ou ainda,
decorrido um determinado prazo/vacatio legis desde a última ratificação) - 24.o, n.o2
● Quando o consentimento de um Estado em se vincular for dado em data posterior à entrada em
vigor, salvo disposição em contrário (norma supletiva), entrará em vigor relativamente a esse Estado
na data em que este manifestar o consentimento.
Consequência: Neste caso, o tratado já vincula na ordem jurídica internacional, mas ainda não
vincula as Partes que não manifestaram o seu consentimento.
Algo semelhante é a aplicação a título provisório (art. 25.o CVDT), do tratado ou de parte do tratado,
por disposição do tratado (1-a), ou acordo entre as partes (1-b). Esta aplicação dá-se principalmente
para permitir a efetivação célere de certos efeitos ou obrigações do tratado que, se tivessem de ser
aprovados e ratificados internamente, seria muito mais demorado. A partir do momento em que a
Parte (onde o tratado ainda não entrou em vigor), manifesta a intenção de não ser parte do tratado,
os efeitos da aplicação provisória cessam (art. 25.o/2).
Registo e publicação
Após a entrada em vigor, o registo, arquivo e publicação é feito pelo Secretário-Geral da ONU
(previsto no art. 102.o CNU) e no art. 80.o da CVDT, que assume funções de Depositário (devendo
comunicar as notificações às restantes partes).
Qual é o efeito da ausência de registo? O tratado torna-se oponível perante os órgãos das NU (não
poderão ser aplicados pelos órgãos da ONU, incluindo o TIJ, que não poderá aplicá-lo em litígios) -
art. 102, n.o2 CNU
De onde vem a necessidade de publicidade dos tratados? Visa combater os tratados secretos, os
sujeitos do DI devem poder saber os direitos e obrigações que competem aos demais sujeitos e os
tribunais internacionais devem ter conhecimento do conteúdo das convenções para poderem
aplicá-las na resolução de conflitos.
Este capítulo diz respeito às posições doutrinais sobre a relação entre a ordem jurídica internacional
e interna, bem como o processo de vinculação interno e os seus efeitos, de Portugal às convenções
internacionais, nos termos da CRP.
Posições monistas:
1. Monismo com primazia do Direito Interno: Em situação de conflito, deve sempre prevalecer
o direito interno uma vez que é nele que o DI se baseia e é deste que se estende. Esta tese foi típica
do século XIX e da metade do século XX.
2. Monismo com primazia do Direito Internacional: Defendida por Hans Kelsen (numa fase
mais tardia e internacionalista da sua doutrina), de que, em conflito entre D. interno e DI, este último
deve prevalecer. Como foi visto no Capítulo II, está associada à tese normativista do DI, que coloca o
Consuetudo Sunt Servanda como fundamento de todo o direito convencional, superior até à
Constituição.
Nos dias de hoje, quase todos subscreve a posição monista de uma forma mais ou menos mitigada*
e diferenciada* – Monismo com primado do DI mitigado e diferenciado.
*Mitigada porque: não se traduz no reconhecimento de uma unidade à Kelsen, em que as normas do
Estado têm a sua validade dependente das ordens internacionais. Não há uma pirâmide normativa
em que teríamos patamares estaduais, na qual o DI se encontra no topo. Não há uma perspetiva de
validade das normas.
Também é diferenciado* (relaciona-se com a natureza das normas em causa) porque esta
prevalência do DI face ao Direito interno não vale para todas as normas (por exemplo, a Constituição
só o reconhece na prevalência em relação a normas ineficazes – Art. 204º). O Art. 16º refere-se à
DUDH, que determina que as normas constitucionais se aplicarão em conformidade com a DUDH –
reconhece-se um valor paritário.
3. O artigo 8.o/3 foi introduzido na Revisão Constitucional de 1982, para acautelar a futura adesão à
CEE. Permitindo que atos unilaterais emanados de ÓIs (v.g., regulamentos da UE) pudessem ter
aplicabilidade direta. O prof. Freitas do Amaral, considera que atos de outras organizações
internacionais, nomeadamente do Conselho da Segurança da ONU (porém, é difícil classificar os
atos unilaterais do CS como normas, porque tendem a ter um alcance concreto), possam ter
aplicabilidade direta.
Há uma insuficiência no Art. 8º, que tem dificuldade em adequar essas disposições na Constituição.
Alguns autores defendem-no porque a receção do DI é feita de forma plena (vigorar integralmente no
quadro interno português, não sendo modificado nem restringido), já que, na verdade, não há um
condicionamento que, de alguma forma, restrinja a sua integração no quadro ordem da jurídica
interna, mas sujeita-o a um processo de vinculação, ainda que a vinculação não seja totalmente
conforme com a vinculação do DI.
Os tratados solenes e os acordos para além de possuírem de frente terminologia, também possuem
regime distintos.
- TRATADO
Aprovação: é sempre da competência AR
Vinculação: ratificação (manifesta a vontade do Estado portugues de se vincular aquele tratado
solene)
Fiscalização preventiva da constitucionalidade: admite-se que possa haver confirmação, no caso de
pronúncia da inconstitucionalidade– art. 279.º, n.º 4.
- ACORDO
Aprovação: podem ser da competência da AR ou do governo
Vinculação: aprovação (parlamentar ou governamental)
Fiscalização preventiva da constitucionalidade: não é prevista a confirmação
Ao longo do tempo tem se discutido a existência de uma distinção material entre o tratado e o
acordo, ou seja, visa-se saber se para certas matérias se impõe a adoção de certos procedimentos
ou se essa escolha é efetuada no momento das negociações, surgindo intensamente como puro
facto. Daqui retiram-se diversas posições:
- reserva material do tratado: tem sido a mais defendida pela doutrina portuguesa
Implica, que havendo contração internacional sobre certas matérias, não pode haver manipulação da
escolha do procedimento, a ser necessariamente o tratado solene, entendimento que deve ser
seguido.
A fase da negociação e adoção do texto a nível internacional, são versadas no plano interno pela
fase de “negociação e ajuste” das convenções internacionais.
No processo internacional, sabemos que quem aprova o texto são o Chefe de Estado, Chefe de
Governo, Ministro dos Negócios Estrangeiros e representante diplomático do Estado. Mas, nada nos
diz que no processo interno sejam as mesmas entidades a fazê-lo.
Tal como no processo internacional, a negociação é o processo em que as partes vão ajustando as
suas posições, fazendo modificações, até chegarem a um consenso que pode ser objeto de adoção.
A CRP utiliza “ajuste” quando se refere a aprovação e adoção de texto.
Segundo a CRP esta é uma competência do governo, no âmbito da sua competência política. 197.º,
n.º 1, al. b).
O ajuste é feito por assinatura ou rubrica do Conselho de Ministros, ainda que haja delegação tácita
no PM.
Ainda assim, existe aqui uma desconformidade com a CVDT. Tal deve-se ao facto de que no texto da
CVDT nem sempre esta competência surge atribuída aos governo, uma vez que nos casos de
habilitação funcional pode haver a intervenção de outras entidades além do governo.
Quem faz a negociação, o governo, tem o dever de informar diversas entidades do curso das
negociações: PR, partidos e grupos parlamentares (art.201/1/c; 114/3; 180/2/j).
Além disso, deve-se fazer referência à participação das Regiões Autónomas (governo regional) –
227.º, n.º 1, al. t) (voltam a intervir consultivamente na aprovação).
Segundo a CRP as Regiões autónomas poderão participar na fase de negociações, caso estejam em
causa assuntos que aludem ao seu interesse regional.
Bacelar Gouveia refere “para que as regiões autónomas possam reivindicar este direito, não é
preciso ser apenas um interesse específico regional, mas também não pode ser um interesse
nacional qualquer,sob pena de as regiões autónomas poderem intervir em tudo o que respeita à
negociação internacional do Estado português, o que seria sempre excessivo”.
Para além disso, não poderão participar em todo e qualquer convênio internacional, mas apenas nos
“tratados e acordos internacionais que diretamente lhes dizem respeito”.
Nas negociações o órgão que participa é o Governo Regional uma vez que possui a função política.
Já na aprovação o RAR estabelece outra possível participação das regiões autónomas.
Os tratados solenes são sempre aprovados por resolução da AR segundo o art 161 al. i da CRP.
Nos tratados solenes para efeitos de aprovação a respectiva competência é atribuída ao plenário
parlamentares, que votar segundo a maioria deliberativa geral, ou seja, a maioria relativa.
Se os acordos simplificados forem alvo de aprovação da AR, é também por resolução, assinada pelo
PR (a assinatura deste é um elemento de existência do acordo) que pode ser obrigatória: os
indicados no elenco do 161.º, al. i) e os relativos a matéria de competência reservada – arts. 164.º e
165.º; ou facultativa: aqueles que o governo entenda submeter à sua apreciação – art. 161/i
Ou seja, compete à AR aprovar os tratados, designadamente os tratados de participação de Portugal
em organizações Internacionais, os tratados de amizade, de paz, de defesa, de retificação de
fronteiras e os respeitantes a assuntos militares e também os acordos internacionais que versem
matérias da sua competência reservada ou que o governo entenda submeter à sua apreciação.
Os acordos simplificados da competência do governo são aprovados por decreto (assinado pelo
PR, sendo a assinatura deste um elemento de existência do acordo). – os que não versem sobre
matéria da competência reservada parlamentar – arts. 197.º, n.º 1, al. c) e 200.º, n.º 1, al. d)
Ou seja, compete ao Governo aprovar os acordos internacionais cuja aprovação não seja da
competência da AR ou que a esta não tenham sido submetidos.
Os acordos devem ainda ser assinados pelo PR – uma simples assinatura como formalidade e que, a
falta dela, pode levar à inexistência do ato – art.134/b e 137. Necessita-se ainda de referenda por
parte do Governo que, devido ao costume constitucional é feita pelo PM, que se não for feita provoca
inexistência do ato- art.140/1.
A adesão pode ser um ato unilateral, em que se entrega ao depositário uma notificação a declarar
que o Estado participar no Tratado – a nossa CRP não prevê isto à prevê que antes do Estado
entregar a notificação deve fazer todo um processo antes: o governo deve submeter o texto a
aprovação no Conselho de ministros e depois seguir o processo já referido – há uma aplicação
analógica das disposições relativas à aprovação e ratificação.
Tem de existir ratificação por parte do PR, de acordo com a CRP, o que não significa que o regime
tenha de ser o mesmo internacionalmente. – art. 135/b, que se formaliza num decreto presidencial.
Além disso, de acordo com o art.140/1 é exigida referenda governamental obrigatória – a ratificação
deve-se sujeitar a este condicionamento.
Como em relação a outros atos do PR, a CRP não prevê prazos – omissão que se funda num dos
aspectos constitucionais inerentes à liberdade de atuação do PR.
Não há ratificações tácitas e podemos ter situações de algum limo se o PR não tiver a devida
celeridade na ratificação. A celeridade pode ser relevante quando são tratados internacionais
aprovados em conferência intergovernamental, em que se esta não existir, poderá ser necessário
uma assinatura diferida – Estados que se vinculam depois da adoção de texto são, ainda, parte
originária, se tiver lugar num dado período de tempo.
Se isto não tiver lugar num período de tempo em que pode ser feito, o Estado terá de aderir através
de um processo mais complexo.
- Publicação
Ao contrário do que acontece com Leis e Decretos Leis, a publicação de tratados e acordos
internacionais no Diário da República é uma condição de vigência interna, e não de mera eficácia. –
art.8/2 e 119/1/b. O tratado/acordo não pode vigorar na ordem jurídica interna sem ter sido publicada
no DR
O 8º/2 estabelece ainda duas condições para a vigência interna do Tratado: que o tratado esteja em
vigor internacionalmente (se for um tratado bilateral, com o ato de vinculação internacional, vigora a
nível internacional, mesmo sem publicação, já nos tratados multilaterais, o Estado português pode
vincular-se a nível internacional, publicar e ele ainda não estar em vigor a nível internacional, já que
se exige a vinculação de todos) e que o Estado português se tenha já vinculado internacionalmente.
A entrada em vigor obedece a dois possíveis esquemas, no cumprimento do princípio geral de que
dependem de prévia publicação:
✓ A vigência é determinada no próprio diploma;
✓ A vigência surge supletivamente determinada na LPIFD (Lei acerca da Publicação, Identificação e
Formulário dos Diplomas) - “na falta de fixação do dia, os diplomas referidos no número anterior
entram em vigor, em todo o território nacional e no estrangeiro, no 5º dia após a publicação”.
Porém, não se pode esquecer que a CVDTE é também aplicável, contendo um regime supletivo só
pensado para os tratados internacionais.
A nossa CRP é tão zelosa do respeito das suas disposições, que prevê fiscalização preventiva da
constitucionalidade dos acordos internacionais, garantindo que o Estado Português não se vincula a
fontes normativas que violem a CRP.
O PR pode requerer essa fiscalização ao TC, no prazo de 8 dias (art.278/3), sendo que o TC se deve
manifestar até 25 dias depois do requerimento pelo PR (art.278/8), prazo este que pode ser
encurtado em caso de urgência.
O controlo da constitucionalidade ocorre em dois momentos:
✓ Depois da resolução de aprovação parlamentar e antes de o PR se decidir a ratificar, no caso de
tratados solenes;
✓ No caso dos acordos, dentro da fase de aprovação, no intervalo que se verifica entre a votação da
resolução parlamentar ou do decreto governamental e respetiva assinatura presidencial.
- Referendo (eventual)
Os tratados da UE são os únicos que poderão ser submetidos a referendo (Art. 295º). No resto dos
tratados, são as suas questões que são colocadas a referendo e não o tratado em siNo caso de
“tratado que vise a construção e aprofundamento da união europeia”, é a aprovação do próprio
tratado que pode ser submetida a referendo (art. 295.º) e não as questões sobre que incida o tratado
internacional (art. 115.º, n.º 3)
Não há que negociar textos, salvo se a desvinculação passar por um regime transitório. Para
conhecermos completamente o modo como as normas do DI e Direito Português se articulam, há
uma questão que se levanta pelo seu interesse prático: dada a autonomia de ambas as ordens
jurídicas, não faz sentido falar numa hierarquia (apenas faz sentido em ordens jurídicas num mesmo
ordenamento), pois não há uma relação de validade entre norma superior e norma inferior.
Isto não significa que não tenhamos de ter critérios normativos que determinem a disposição que
prevalecerá num conflito, num caso concreto à O DI não determina como é que esse conflito é
resolvido no plano interno, mas se no plano interno existir violação do DI, este exime determinadas
consequências que permitem a outros sujeitos e instituições do DI reagir, para responsabilizar o
Estado não cumpridor.
Podemos apontar uma insuficiência do DI quando comparado ao Direito dos Estados, porque estes
últimos tiveram capacidade de criar meios jurídicos, instituições, etc, que permitissem assegurar a
efetividade do Direito.
A CRP não declara nada de modo expresso – ao contrário da constituição holandesa, que declara
que as normas internacionais prevalecem sobre as normas constitucionais – sobre como organizar o
direito internacional.
Porém, apesar de não declarar de forma expressa, podemos tirar conclusões do modo como esta
organiza o DI a partir de várias disposições:
• DI comum:
- Os princípios do art. 7.º e a sua consideração como ius cogens – supraconstitucionalidade
(o DI tem valso superior)(J. Miranda e Gonçalves Pereira); paridade (Bacelar Gouveia)
(possuem o mesmo valor)
- O Art. 16º é o único artigo em que a CRP acolhe com estalão paritário( mesmo valor) a
DUDH – cláusula aberta de recepção formal.
- O art. 29.º, n.º 2 – valor infraconstitucional(tem valor inferior que crp) (“nos limites da lei”).
Dúvida suscitada pelo art. 7.º, n.º 7
- Restante do comum – valor infraconstitucional e supralegal (maior valor wue as leis
ordinárias mas valor menor que a CRP) (J. Miranda); supraconstitucional (Gonçalves Pereira)
Há um fundamento válido que se pode utilizar: Art. 204º que determina que nenhum juiz pode aplicar
normas inconstitucionais, pelo que se pode dizer que valerá para o DI em geral. Há
inconstitucionalidades que a CRP tolera, em relação ao DI convencional, mas o problema tem que
ver com o tipo de inconstitucionalidade que não faz sentido no âmbito do DI comum.
Algum DI convencional cabe no DI comum. São convencionais de acordo com a participação dos
Estados, mas o reconhecimento do seu conteúdo tem valor diferente qualitativamente. Há DI
convencional de que Portugal não é parte, mas que vincula o Estado português (Ex. tratados que
delimitam fronteiras), na medida em que produzem efeitos que se refletem no ordenamento jurídico
português.
- O seu valor é infraconstitucional e supralegal – Art. 7º. Se Portugal se posicionar como
Estado que respeita os princípios fundamentais do DI, só faz sentido uma posição em que
reconheça uma posição supralegal – conflito entre norma de direito da convenção legal e
uma norma interna, prevalece a da convenção internacional. Não se trata aqui de uma
revogação, pois não significa que a lei ou decreto lei sejam inválidos ou percam vigência,
trata-se sim de um efeito sobre a eficácia.
Há argumentos formais deste ponto de vista: A nossa CRP, quando o vício de que padece uma
convenção for de tipo orgânico ou formal, a convenção pode continuar a aplicar-se à Toleram-se
disposições de convenções internacionais contrárias às constituições, desde que não digam respeito
a inconstitucionalidades materiais, como a ausência dos quóruns.
Sendo assim, quais as disposições fundamentais de tipo orgânico e formal que não deixam que o
Tratado seja aplicado?
A CRP não diz, mas referem-se às seguintes:
incompetência absoluta;
incompetência relativa – art. 161.º, al. i) 1.ª parte;
referendo negativo,
inexistência da deliberação da AR por falta de quorum ou maioria de aprovação à
Se a violação disser respeito a estas matérias, o tratado não poderá ser aplicado.
A CVDT admite que os Estados se podem eximir ao respeito escrupuloso dos tratados, invocando a
violação de uma norma de Direito interno fundamental, mas acrescenta-se que essa violação seja
manifesta para as outras partes, isto é, que as outras partes consigam detectar. Porém, nenhum
Estado tem a obrigação de reconhecer as normas internas de outros Estados na elaboração dos
tratados, pelo que, ou o próprio Estado informou as outras partes das disposições fundamentais a
respeitar, ou o outro Estado teria obrigação de saber do direito interno do primeiro (o que não
acontece) à É por isso que a CVDT disponibiliza mecanismos para cada Estado assegurar o respeito
pelas suas normas (como a assinatura ad referendum).
No caso da DUDH, dada a receção do Art. 16º, o entendimento será de que se tratará de uma
inconstitucionalidade (art.16/2) a Bacelar Gouveia considerando que se vincula também a outras
declarações de direito internacional.
Qualquer outro conflito é uma desconformidade atípica, porque não se trata de uma pirâmide
normativa, fiscalizável com base no art.204, tratando-se de controlo difuso, e com base no art.70/1/i
da LOTC, tratando-se de controlo concreto. A norma do tratado não se torna inválida ou
inconstitucional, dado que se aplica a outros Estados.
No ponto de vista do direito interno, para preservar a constituição, o Estado português deverá
negociar e modificar o tratado internacional, de modo que as suas obrigações se tornem conformes
com as normas internas – válido apenas para DI convencional – ou deverá desvincular-se.
- Interpretação
A interpretação define-se pela tarefa que visa alcançar o sentido normativo dos tratados e regula-se
pelas disposições encontradas na CVDT, especialmente no art 31, 32.
É uma tarefa mais complicada do que interpretar uma norma consuetudinária (o sentido de
obrigatoriedade da prática), sobretudo se não estiver formalizada à mas, com a CVDTE, o direito
consuetudinário foi reduzido a escrito.
Esta é, então, uma tarefa que pretende alcançar o sentido normativo, de acordo com o objeto da
interpretação; sujeito da interpretação; elementos e resultados da interpretação.
De acordo com o art. 31.o/1 da Convenção, a CVDT refere outros critérios como o princípio da boa fé
que deve ter primado na interpretação de tratados internacionais. Deve-se, à luz deste critério,
preservar o efeito útil dos tratados. Proíbe-se, assim, a interpretação ad absurdum, uma interpretação
em má fé da letra do tratado, contrária aos seus fins e objetivos (mesmo quando esta interpretação
resultasse de outros elementos da hermenêutica jurídica).
Os elementos de interceptação são os meios que o intérprete utiliza para interpretar a norma, é a
mens legis. Por vezes a interpretação que resulta não coincide entre a letra e o espírito da lei.
- Principais:
- gramatical: elemento base e que serve de critério de delimitação. Tem sentido
negativo, que elimina qualquer sentido que não tenha correspondência com a letra
da lei (mesmo que a vontade das partes não fosse nesse sentido); ou dimensão
positiva, que recolhe os sentidos que, de modo mais próximo, correspondem à letra
da lei e ao sentido normal que têm os sentidos por ela utilizados. Considerando
tratados redigidos em várias línguas, em tratados multilaterais, há mais do que uma
versão autêntica (Ex. Resoluções dos órgãos da ONU). Pelo facto de estas
disposições serem formuladas em línguas diferentes, correspondem a diferentes
sistemas jurídicos, existindo um elevado grau de complexidade na interpretação dos
tratados. à devido a esta complexidade, podem surgir sentidos diferentes de acordo
com a língua: se os textos não forem todos autênticos, a orientação geral é a de
prevalecer o sentido do texto que tenha sido redigido na versão autêntica; se os
textos forem todos autênticos, a divergência só pode ser ultrapassada adotando se o
sentido que melhor concilie esses textos, atendendo ao objeto e fim do Tratado. Os
tratados bilaterais podem ter apenas uma língua oficial, o que facilita o papel do
intérprete. Esta interpretação é feita de modo descentralizado, porque são os
Estados que a interpretam, pelo que podem surgir conflitos potenciais, pois não se
pode garantir que todos interpretam da mesma maneira. define-se como o “sentido
comum atribuível aos termos do tratado” – 31.º, n.º 1;
- teleológico, segundo este admite-se que a interpretação deve procurar o sentido
normativo do tratado“à luz dos respetivos objeto e fim”– 31.º, n.º 1 e 33.º, n.º 4;
- sistemático; é aludido como “o contexto” dos termos do tratado sendo parte integral
do tratado. Assenta na ideia de que as normas não estão isoladas, mas integradas
num todo, num capítulo ou numa parte.- 31.º, n.º 2 e 3;
- Complementar:
- Histórico : todo o processo de negociação e as circunstâncias em que foi concluído o
tratado devem ser expressamente mencionados, como referência de confirmação do
sentido normativo. Refere-se também a práticas anteriores de outros Estados ou
tratados preexistentes com objeto semelhante. Não é um elemento fundamental- art.
32.º.
Os fins da interpretação definem-se como as descoberta das normas que se objetivam nas fontes
convencionais, de acordo com uma orientação objetivista e atualista:
▪ Objetivista, porque se pretende a mens legis (espírito da lei) e não a mens legislatoris
(intenção do legislador) – esta última traduz a posição subjetivista, redutora e, muitas vezes,
impossível, devido à dificuldade de colocação psicológica no espírito do autor da norma.
▪ Atualista, porque se pretende perceber as normas no seu contexto atual, não apenas a
vontade normativa que foi exteriorizada no momento em que entrou em vigor, que seria uma
perspetiva historicista.
Os fins da interpretação são em princípio objetivos, embora seja possível atender à intenção das
partes no sentido de atribuir a um termo, de acordo com o n.º 4, ou por ex. no art. 56.º, n.º 1, al. a); e
atualista – a relevância dos acordos e práticas ulteriores - 31.º, n.º 3
Resultado da interpretação
Os elementos de interpretação a utilizar pelos sujeitos da interpretação, com o objetivo de alcançar o
sentido normativo que neles se expressou, culmina no resultado da interpretação, que pode ter cinco
categorias:
▪ Interpretação declarativa: correspondência entre a letra e o objetivo do tratado.
▪ Interpretação restritiva: necessidade de limitar o alcance da letra, uma vez que o objetivo é
mais limitado.
▪ Interpretação extensiva: necessidade de alargar o alcance da letra, pois o objetivo é mais
alargado.
▪ Interpretação enunciativa: extração de um sentido hermenêutico não constante da letra,
mas que resulta da aplicação de argumentos lógico-formais.
▪ Interpretação ab-rogante: impõe-se quando se percebe que a letra do tratado não faz
sentido, por incongruência interna ou porque deve ser eliminada em favor de outro sentido
normativo prevalecente.
Resultados da interpretação: os limites à interpretação extensiva, em homenagem à soberania dos
Estados. A soberania dos Estados exige respeito: Um tratado não pode ser interpretado de forma a
ampliar direitos ou deveres além do que foi consentido pelo Estado na sua ratificação.
§ a interpretação dos Tratados e os direitos humanos (cf. Ac. TIJ de 27/6/2001, RFA v. USA,
Lagrande; Ac. TIJ 31/3/2004, México v. USA, Avena) VER SEBENTA DESTE ANO
- Integração de lacunas
As lacunas definem-se por situações que apesar de possuírem dignidade jurídica não se encontram
reguladas, pelo que tem a necessidade de serem integradas. É a ausência de um sentido orientador
em vista a um caso que carece de Direito.
No DIP, uma vez que este é um plano para além da soberania dos Estados, questiona-se em que
medida o DI deverá regular essa matéria, pois, se for matéria interna dos Estados, não é uma lacuna,
apenas uma matéria que ainda não está aberta à legislação pelo DI, mas se considerarmos uma
questão que não é tratada, por ter sido ignorada pelos Estados na elaboração do tratado, existe uma
lacuna que pode ser tratada da seguinte forma:
- analogia: em que se apela à aplicação de normas que regulam casos dotados de analogia
com o caso que carece de tratamento. Aquela situação não tem uma solução específica, mas
existe uma solução paralela em que a exigência normativa é semelhante ao caso concreto e
possui uma regra, que é aplicada à situação sem solução
- PGR: recorre-se aos princípios gerais de direito. Permitem ao aplicador densificar uma
norma a partir do princípio que irá aplicar ao caso concreto, ou seja, concretiza o princípio,
tornando-o numa regra jurídica que é, posteriormente, aplicada.
Importa ainda referir que o Parecer do TIJ, de 11/4/1949 sobre a utilização da analogia foi negativo,
dispensando tal método na integração de lacunas. Tal deu-se no caso relativo aos prejuízos sofridos
ao serviço das NU, em que os juízes utilizaram analogias para construir uma solução que justificasse
indemnização a dar à ONU.
No entanto, o art 27 tem uma exceção, que é o problema das ratificações imperfeitas consagrado no
art. 46º. O art 46 fundamenta que tal pode se verificar se houver violação manifesta de disposição
fundamental interna (constitucional), relativa à competência para concluir os tratados (norma de
natureza orgânica ou formal).
- Aplicação temporal
Quando as Partes são as mesmas no tratado anterior: O tratado posterior revoga o anterior. Porém, o
30.o/3 prevê que a aplicação do tratado anterior poderá valer quando as suas disposições forem
compatíveis com o tratado anterior. (Isto poderá acontecer quando um tratado posterior visa
complementar, praeter tractum, o regime do tratado anterior).
Quando as Partes não são as mesmas no tratado anterior (art. 30.o/4): Aplica-se o tratado que se
vincule para todas as Partes. (Entre os Estados que se vincularam ao tratado posterior aplica-se o
posterior. Entre um Estado que se vinculou ao Posterior e outro que não, aplica-se o último tratado
que vincula ambas as Partes nesta matéria).
- Aplicação subjetiva (arts. 34.º a 38.º)- refere-se às entidades a quem os efeitos do tratado se
aplicam.
Princípio da relatividade (arts. 34.º), é o princípio geral e diz que um tratado estabelece um regime
jurídico que pode conter direitos e obrigações para os Estados que dela são parte, não produzindo
efeitos para terceiros. O tratado é uma manifestação de vontade convergente, pelo que se vinculam
apenas os titulares dessas vontades.
No entanto, certos tratados preveem a criação de obrigações para 3.ºs (art. 35.º), logo nestes casos
uma disposição de um tratado faz nascer uma obrigação para um terceiro Estado se as Partes nesse
tratado entenderem criar a obrigação por meio dessa disposição e se o terceiro Estado aceitar
expressamente por escrito essa obrigação.
A previsão de direitos para 3.ºs (art. 36.º). Quando se trata de estender direitos a um terceiro Estado,
se não houver indicação em contrário, assume-se que esse terá consentido, ou seja, pode ser
consentimento tácito, e não expresso.
Art. 37.o: Quando um direito tenha nascido para um Estado terceiro, nos termos do artigo 36.o, não
poderá ser modificado ou revogado pelas Partes a não ser por acordo entre o 3.o Estado e as Partes
(37.o/1), e nunca poderá ser revogado se se concluir que a revogação não era intenção do Estado
Terceiro (n2).
Os tratados assim como não necessitam de permanecer sempre vigentes também não necessitam
de permanecer sempre iguais, sofrendo assim de uma vicissitude menos drástica: a sua alteração.
A cvdt regula quer a revisão quer a modificação dos tratados internacionais. O conceito de revisão
distingue-se do conceito de modificação.
- revisão: alteração das cláusulas do tratado envolvendo a participação dos Estados que
outorgaram o tratado
- modificação: alteração subjetiva e parcial do tratado internacional, apenas atinente a certas
partes, não ao universo global dos que nela participam
Assim como já referido, o conceito de revisão não coincide com o conceito de modificação, ainda que
a revisão tenda a alterar as disposições de um tratado.
O processo de revisão:
✓ pode ser previsto por esse tratado, mediante o acordo entre os Estados e, nesse caso, não se
coloca qualquer questão. – art.39
✓ se nada se estabelecer, aplicam-se as regras da CVDTE, tendo a revisão lugar mediante acordo
entre as partes, ou seja, todos os Estados participam no processo de revisão, seguindo o mesmo
processo da conclusão e entrada em vigor de um tratado – negociação, adoção do texto,
autenticação, vinculação e entrada em vigor. – art.39
Nos tratados multilaterais prevê-se regras específicas (art. 40.º) que se traduzem na celebração de
um novo acordo. Aplica-se o art. 30.º, no 1 a 3 caso haja coincidência de partes. Caso as partes
envolvidas no tratado original e no tratado de revisão não coincidam há uma situação de sucessão de
tratados que é regulada pelo art. 30.º, n.º 4. No caso de adesão posterior de um Estado, rege o art.
40.º, n.º 5.
A modificação define-se pela alteração das disposições do Tratado somente a respeito das relações
entre algumas partes.
- Admissibilidade – art. 41.º, n.º 1. O tratado pode ser modificado através de um acordo entre
2 ou mais partes se prever essa possibilidade e se o tratado não a proibir desde que não
prejudique o gozo dos direitos provenientes dos tratados por outras partes e não respeite a
uma disposição cuja derrogação não seja considerada compatível com o fim do tratado.
- Processo – aplica-se o art. 39.º assim como a obrigação de notificação da intenção às
restantes partes e das modificações operadas (art. 41.º, n.º 2).
Seguindo bacelar gouveia os requisitos subjetivos dizem respeito à qualidade e à capacidade dos
sujeitos internacionais outorgantes, bem como a manifestação da respetiva vontade, seja no plano
funcional dos órgãos que para tanto estão habilitados seja no plano psicológico relativamente às
exigências de expressão de vontade que seja livre e esclarecida.
O consentimento dos Estados de vinculação aos Tratados deve ser livre, consciente e corretamente
formado e manifestado. Podendo, quando falha nesses requisitos, sofrer de vícios:
- Vícios funcionais: – dizem respeito à conexão entre a vontade manifestada e os fins a
alcançar, são estes a irrelevância do desrespeito pelo direito interno (art. 27.º), com a
exceção da ratificação imperfeita, nos termos do art. 46.º); o excesso de representação (art.
47.º).
- Vícios materiais da vontade: afetam a liberdade de consciência e manifestação de vontades
(art. 48.º); o dolo (art. 49.º); corrupção do representante (art. 50.º); coação sobre o
representante (art. 51.º) e coação sobre o Estado (art. 52.º); § a questão da ‘coesão
económica’.
- Objetivos ou materiais
Define-se como os requisitos que são atinentes ao conteúdo e ao objeto do tratado, na medida em
que são internacionalmente relevantes, para além de dever ser inteligível e coerente nos efeitos que
contém.
▪ O Art. 103º da CNU determina que as normas da carta e atos do Conselho de Segurança
prevalecem sobre quaisquer outras obrigações dos Estados-membros da ONU. – Qualquer norma
contrária a esta determinação traduz-se num vício material do Tratado.
▪ Subordinação a outro tratado - Um tratado deve respeitar outro tratado que lhe é superior
(Ex. princípios gerais do DI têm de ser respeitados, na medida em que impõe uma obrigação que
prevalece). Os tratados normativos têm alcance erga omnes (efeitos oponíveis a terceiros, que não
podem celebrar um tratado entre si que afete esse tratado normativo, mesmo que dele não façam
parte). – art.30/2
- Formais
Consideram as exigências formais e procedimentais na extração do tratado, bem como o iter
procedimen raquel que importa respeitar para se afirmar completo.
- Respeito pelas regras relativas à conclusão dos Tratados que vinculam as partes.
- Respeito por todas as disposições relativas à conclusão de Tratados da CV, que não sejam
supletivas (art.42) ou que, sendo supletivas, sejam aplicáveis.
Estas vicissitudes, quando suscitadas, dão lugar a desvalores que reconduzem à nulidade (absoluta
ou relativa). Quando falamos de vícios, falamos de algo que afeta o tratado de início, desde o
momento da sua conclusão e da sua entrada em vigor.
O regime de invalidades regulado pela CDTVE é um regime imperativo, o que se traduz no facto de
que as consequências destas vicissitudes se aplicam obrigatoriamente para as Partes.
Nulidade: a nulidade no âmbito de um tratado traduz-se no apagamento dos seus efeitos, quase
como se o mesmo nunca tivesse visto a luz do dia. É explanado no art 69 n 1 da CVDT.
A nulidade pode ser tanto absoluta como relativa. A preferência da CVDT recai sobre a nulidade
absoluta , preferindo o princípio de que a causa de nulidade afeta todo o tratado.
Exemplos de vícios que implicam a nulidade absoluta: a coação (arts. 51.e 52.o) e a
incompatibilidade com jus cogens originário (art. 53.).
E se a incompatibilidade com for com ius cogens supervenientes (que não existia à data em que o
tratado foi concluído)?
● Segundo Artigo 64.o, o tratado torna-se nulo e cessa-se a vigência, isto parte do princípio de que a
nulidade absoluta é a regra geral das invalidades - previsto nos arts. 44.o/2 e 71.o/2.
● Porém, o "Draft Ius Cogens" da Comissão de Direito Internacional prevê que, se a divisibilidade do
Tratado for possível, poder-se-á expurgar a norma incompatível com o ius cogens e manter o resto
do Tratado.
- A nulidade relativa pode incidir apenas sobre parte do tratado, não deve ser invocada a todo
o tempo, pois podemos correr o risco de poder deixar de a invocar e só pode ser invocada
pelo Estado viciado – art.45.
Nas condições do Art. 44/3, pode não afetar todo o tratado, mas implicar um desvalor daquela parte,
na medida em que aquela parte seja divisível do restante Tratado, que possa ser autonomizada
deste, e que não constitua uma base essencial, para as partes, em ficarem vinculadas ao Tratado no
seu todo – o resto das normas podem ser aplicadas, só as que são afetadas deixam de se aplicar.
A nulidade relativa pode ser sanada, isto é, através da confirmação da vontade do Estado,
convalidam-se as disposições do Tratado, que continuam, então, a manifestar-se (o Erro e a
corrupção são sanáveis mediante a confirmação da vontade do Estado). – art.45.
As suas causas são: irregularidade na conclusão interna do tratado; restrição especial ao poder de
manifestar o consentimento; erro; dolo; corrupção do representante de um Estado.
- Efeitos
As disposições afetadas pela nulidade não têm força jurídica e deve ser reconstituído o status quo
ante - arts. 69.º, n.º 1 e 69.º, n.º 2, aa). Assim,
● os vícios subjetivos que incidam sobre a totalidade do Tratado implicam a nulidade dos
tratados bilaterais (um tratado não pode existir com apenas 1 parte);
● Os vícios subjetivos relativos ao consentimento de uma das partes que incidam sobre a
totalidade de um Tratado multilateral implicam a possibilidade de desvinculação dessa parte
(arts. 45.º e 69.º, n.º 4)
● os vícios objetivos e formais que incidam sobre a totalidade do tratado implicam a nulidade
do tratado multilateral ou bilateral
● os vícios subjetivos e objetivos que incidem sobre algumas disposições e em que se aplica o
art. 44.º, n.º 3 (exclui a coação e o ius cogens) implicam a nulidade dessas cláusulas nas
relações entre o Estado cujo consentimento foi viciado e o(s) outro(s) Estado(s)
● Consideram-se válidos os atos praticados antes da invocação da nulidade que tenham sido
praticados de boa fé - art. 69.º, n.º 2, al. b) com exceção prevista nos termos do n.º 3 do art
referido para a parte que provocou o vício de consentimento.
● Quando se trate de violação de ius cogens há que distinguir os efeitos já produzidos no 53.º
(devem eliminar-se sem salvaguarda da boa fé) e no 64.º (são válidos) – art. 71.º.
- SUSPENSÃO DE APLICAÇÃO
▪ Art.61/1 - Se a impossibilidade de cumprir um tratado for temporária, apenas pode ser invocada
como motivo de suspensão da aplicação do tratado.
Se, no momento em que o tratado é celebrado há uma mudança significativa do contexto – alteração
fundamental das circunstâncias – uma das partes pode invocar essa alteração como motivo para
fazer cessar ou suspender a vigência do Tratado. Não pode ser invocada se se verificarem algumas
das situações previstas no art. 45.º (estoppel)* – a) Aceitou expressamente considerar que o tratado
conforme os casos, é válido, permanece em vigor ou continua a ser aplicável; ou b) Deva, em razão
da sua conduta, ser considerado como tendo aceite, conforme os casos, a validade do tratado ou a
sua permanência em vigor ou em aplicação.
Conclusão, entre todas as partes, de um Tratado posterior sobre a mesma matéria, nos termos do
art. 59/2.
A aplicação de um tratado relativamente a todas as Partes ou a uma Parte determinada pode ser
suspensa se houver essa previsão no Tratado ou houver consentimento de todas as partes, após
consulta de outros Estados Contratantes – art. 57.º
Suspensão de aplicação de um tratado multilateral, quando haja acordo entre certas partes – art.58.
Pode ainda ocorrer a suspensão da aplicação, como consequência da violação substancial do
Tratado – art. 60/1 e 2, alínea a), b) e c). Não pode ser invocada se se verificarem algumas das
situações previstas no art. 45.º (estoppel), tal como se refere acima*.
O desaparecimento da(s) parte(s), como um Estado – isto significa que aquela população e o
território passou a estar sob a jurisdição de outro Estado. Não conduz necessariamente ao seu
desaparecimento como parte de um tratado, pois há um regime de sucessão dos Estados.
A cessação da vigência pode ter lugar em qualquer momento, por consentimento de todas as partes
– art.54. – o acordo entre as partes traduz uma derrogação: um conjunto de partes pode suspender
ou fazer cessar a vigência do tratado entre si, desde que notifique as outras partes e que estas não
levantem objeções; é preciso também que a natureza do tratado o permita e não haja dependência
entre as obrigações e direitos das restantes partes às que pretendem cessar a vigência do tratado.
Incumprimento de uma das partes que incide numa disposição fundamental. Implica a suspensão ou
a cessação de vigência (dependendo do tipo de tratado, isto é, se é bilateral ou multilateral). A
suspensão é a consequência mais imediata, pela exceção do não cumprimento.
Alteração fundamental das circunstâncias relevantes, nos termos do art. 62.º (rebus sic stantibus)
–Não pode ser invocada nos tratados que fixam fronteiras, nem pode ser invocada se o Estado
ilicitamente provocou a alteração e se se verificarem algumas das situações previstas no art.
45.º(estoppel)*.
▪ Costume contra tractum?
– CESSAÇÃO DA VIGÊNCIA
Pode ocorrer por vontade das partes ou por factos alheios à vontade destas. De acordo com o art.
42/2 - A cessação da vigência de um tratado, a sua denúncia ou a retirada de uma Parte só podem
ter lugar de acordo com as disposições do tratado, ou da presente Convenção. A mesma regra vale
para a suspensão da aplicação de um tratado.
Perante o fim da vigência dos Tratados, prevê-se um procedimento que se desenvolve por
duas fases:
✓ Fase amigável – uma das partes notificar a outra que pretende a cessação do tratado, invocando
uma justificação, que pode ser aceite;
✓ Fase litigiosa – no caso de a justificação não ter sido aceite. Este problema pode ser resolvido por
recurso à arbitragem ou por recurso à via especial de conciliação.
Podemos ainda distinguir dois tipos de causas que contribuem para a cessação da vigência:
✓ Vontade comum/coletiva: todos os sujeitos vinculados no tratado contribuem para a
cessação da vigência, tomando o nome de revogação ou ab-rogação, que pode ser retroativa
(atingindo os efeitos já produzidos) ou prospectiva (só vale para o futuro).
✓ Vontade individual: distingue-se entre:
a) Denúncia: uma das partes se opõe à renovação do tratado, comunicando isso nos termos
estabelecidos;
b) Recesso: tratado admite a saída do mesmo em qualquer momento, por vontade unilateral
dos sujeitos;
c) Incumprimento do Tratado.
O princípio geral é o da inoperacionalidade, a não ser que a denúncia e o recesso tenham sido
aceites pela partes ou que isso se deduz da natureza do tratado – art.56/1. Se isso suceder,
estabelecem-se 12 meses para os efeitos da cessação da vigência possam começar a produzir-se.
Caso o Tratado não preveja a denúncia ou recesso, estes só poderão ter lugar com verificação de
uma das condições previstas no art.56/1.
Nota: não é admissível o recesso nas convenções de codificação e nas que constituem situações
objetivas
Ainda, de acordo com o 70/1/a e b, o facto de um tratado ter cessado a sua vigência, nos termos das
suas disposições isenta as partes da obrigação de continuarem a cumprir o Tratado e não prejudica
qualquer direito, obrigação ou situação jurídica das partes, criados pelo cumprimento do tratado,
antes da cessação da sua vigência.
No que diz respeito ao art.71, este prevê as consequências da nulidade de um tratado incompatível
com uma norma imperativa de direito internacional geral – jus cogens. Devemos ainda ter em conta o
art.69 e o art.72.
- Estado soberano:
Tem a plenitude da soberania internacional podendo assim desenvolver todos os atributos que lhe
são reconhecidos.
O Estado soberano é constituído por elementos como o território (que representa o âmbito espacial
de projeção da sua ordem jurídica), o povo (conjunto de pessoas ligadas por um vínculo de
cidadania) e o poder político (poder este com capacidade de gestão desse território e desse povo,
relacionando-se com a soberania que, na esfera interna traduz o poder máximo de auto organização
e na esfera internacional, que se manifesta na independência e igualdade frente a outros poderes).
Deveres: respeito pelo DI; dever de cooperação internacional; proibição do uso da força; proibição de
ingerência em assuntos internos.
Direitos: não sujeição do Estado a outros sujeitos do DI; regularidade dos respectivos atos;
autonomia da própria organização política.
- Estado divididos:
O exemplo que tínhamos historicamente era a Alemanha, mas, atualmente, é possível referir a
Coreia. Podemos considerar que se trata de um Estado que se dividiu fruto de determinadas
circunstâncias, mas, ainda que assim fosse no início, historicamente, consolidou-se uma situação em
que temos dois Estados soberanos distintos e que partiram de um território que era historicamente
unitário
Estados neutralizados - São Estados que, de forma voluntária (e.g. Suíça) ou por outorga de outros
Estados (e.g. Áustria), não podem participar de pactos ou conflitos militares.
Historicamente, o Estado confederado, que é uma união de Estados Soberanos, em que estes
mantêm a personalidade jurídica internacional, mas exercem-na através da Confederação.
- Entidades pró-estatais
- Beligerantes
São organizações de pessoas, de rebeldes armados e meios que, num determinado território, lutam
de forma bélica contra o governo do Estado que tem jurisdição sobre esse território, com intenção de
depor o governo ou formar um novo território.
Uma das suas características é a prossecução da luta armada, contrariando as exigências da ordem
constitucional e da ordem pública do Estado onde exercem essa atividade. A luta armada é feita em
nome da mutação do sistema político nacional, dentro do contexto estadual, não extravasando,
portanto, para outros Estados, não tendo, normalmente, implicação internacional.
Deve ser uma organização com uma estrutura próxima da estrutura do governo de um Estado à
organização de tipo administrativo e de tipo militar e um governo mais ou menos estruturado capaz
de exercer a administração desse território e impor as regras à população.
Estes pretendem transformar o território onde habitam e o conjunto das pessoas que fazem parte
deste, numa realidade estadual, dando origem ao nascimento de uma unidade jurídico-política, onde
já existe uma unidade histórico-geográfica. Estas concretizam o seu objetivo de construção do
Estado pela simples proclamação da independência ou pela secessão, separando-se do Estado a
que pertenciam.
A sua atividade não é necessariamente bélica, pois para lá de uma atividade militar, combatendo no
terreno onde pretendem construir o novo Estado, pode haver uma atividade diplomática, chamando à
atenção para a justeza da criação daquela nova entidade. O exemplo mais paradigmático foi o
movimento da Libertação da Palestina.
- Os Insurretos:
Reúne meios humanos e materiais de natureza militar ou paramilitar e que lutam contra o governo,
para o depor utilizando a força. A diferença fundamental em relação aos beligerantes que faz com
que não sejam reconhecidos enquanto sujeitos do DI, é o facto de não terem uma estrutura capaz de
dominar e administrar qualquer parte do território, executando as suas atividades de guerrilha Página
72 de 90 em diversas zonas do território, sem que se possa dizer que nalguma delas assumam o
controlo político-administrativo. A importância do seu reconhecimento também serve como força de
desresponsabilização dos Estados, dado que, por definição, praticam atos violentos que afetam
terceiros
- ENTIDADES INFRAESTATAIS
corporizam espaços territoriais, dotados de autonomia jurídica pública e com poderes limitados na
vida internacional, num contexto geral de entidades que se situam abaixo do Estado a que
diferencialmente se vinculam. São bastante heterogêneas e por isso é difícil definir um perfil
uniforme. Refletem desejos de autonomia jurídico-pública, não deixando de estar sujeitas a um poder
constituinte originário que as subordina:
▪ Mandatos ou territórios sob tutela: após as Guerras Mundiais, houve territórios que
integravam impérios e foram colocados num estatuto diferenciado, sob tutela ou mandato.
Isto aconteceu com vários territórios do Médio Oriente (estatuto de mandato com vista à
autodeterminação, Ex. Palestina). O Conselho de Tutela exercia a administração temporária
até que os territórios que integravam o império adquirissem condições para se tornarem
independentes;
▪ Colónias autónomas: estatuto especial que deriva da associação com outros
Estados soberanos. Tendo competências autónomas, reconhecem um chefe de Estado que
não é próprio e por eles autodeterminado. A prazo, existem movimentos em curso no sentido
da sua independência (Ex. Colónias britânicas)
▪ Territórios infraestatais com capacidade internacional: passa-se a reconhecer a sua
capacidade de participação nas relações internacionais. Estes territórios são regiões
administrativas especiais com leis próprias e uma lei fundamental de tipo constitucional que
cria um ordenamento jurídico autónomo e ainda com poder jurisdicional próprio. São parte
integrantes da República Popular da China, cuja Constituição permite a existência de um
regime administrativo especial, desviante em relação ao regime unitarista praticado no
restante território chinês (Ex. Hong Kong e Macau). Do ponto de vista internacional, esse
estatuto de autonomia que elas contêm traduz-se num conjunto de prerrogativas associadas
aos Estados – jus tractum de forma autónoma e determinada, direito de pertencer a algumas
OI.
O caso do Kosovo: processo de independência controverso com uma intervenção internacional
humanitária para salvaguarda da sobrevivência e liberdade da população. Do ponto de vista do DI,
houve reservas sobre o modo como o processo foi produzido. Em 1999 foi instituído o regime
especial (Kosovo era reconhecido como um territór
- Associações de Estados
o Estado é a entidade com mais tradição no plano internacional, portanto nem sempre se apresenta
na sua singeleza, mas se mostra articuladamente, numa junção de vários Estados (Ex.
Commonwealth – assegura um conjunto de relações privilegiadas, mas não tem competências,
servindo apenas para cooperação política. Nela, todos partilham o mesmo soberano, que é a Rainha
de Inglaterra. É uma fusão meramente formal, tudo se passando como se ela não tivesse acontecido,
não se considerando os Estados limitados na sua soberania).
A ONU também tem finalidades amplas, pois, para além da sua finalidade central, tem várias outras
finalidades, não definidas do mesmo modo pelos Estados. Para além destas, possui competências
implícitas que, não estando expressamente previstas, são necessárias para assegurar as respectivas
finalidades.
Uma OI, na medida em que não seja reconhecida por terceiros, terá dificuldade em estabelecer
relações internacionais com esses terceiros, o que limita a sua atuação e as leva a agir através dos
seus Estados-Membros.
Classificações das OI
● Fins: gerais (e.g. ONU) ou especiais (e.g. OMC) - Sem prejuízo do princípio da especialidade, os
fins podem ser mais ou menos amplos.
● Estrutura: intergovernamentais (os Estados não abdicam de prerrogativas soberanas) e
supranacionais (os Estados dotam a Organização de órgãos próprios e os seus atos são diretamente
aplicáveis nos Estados, e.g. UE)
● Acesso - abertas (admitem a entrada de novos membros) ou restritas (não admitem). (Em
semelhança aos tratados gerais e restritos, que podem ser abertos ou fechados - consoante a
possibilidade de adesão de novos membros).
Podemos encontrar critérios de acesso distintos, sejam geográficos, políticos, econômicos (A UE é
um exemplo de uma OI que reúne todos esses critérios para o seu acesso, só admitindo Estados de
Direito Democráticos, no continente europeu e que tenham cumprido certas metas económicas)
● Duração - com ou sem termo (previsto pelo tratado).
Já num quadro pós-Nações Unidas, começaram-se a prever mecanismos de tutela internacional para
os indivíduos, como o direito de queixa (que ficou previsto nos protocolos facultativos do Pacto
Internacional de Direitos Civis e Políticos - PIDCP
- e no Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais - PIDESC, permitindo ao
indivíduo fazer queixa a uma Comissão Internacional, por violação das normas dos pactos pelo seu
Estado). A imputabilidade do indivíduo enquanto sujeito do DI, passa de, não só de sujeito passivo de
obrigações internacionais, mas de sujeito titular de direitos.
Com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH), passou a haver mecanismos de tutela
jurisdicional, nomeadamente o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH).
É duvidoso que estes mecanismos de tutela tenham carácter self-executing - aplicabilidade direta.
Pois, apesar da comissão ou tribunal internacional determinar que o Estado cesse a violação ou
omissão de norma internacional para com o indivíduo, a sua aplicação está, em última instância,
sujeita à intermediação do Estado responsável.
(Isto no âmbito do DI dos Indivíduos. Nos litígios do TIJ, o não cumprimento da sentença pelos
Estados, pode resultar numa intervenção pelo CS).
Em suma, a personalidade jurídica internacional dos indivíduos é passiva, sendo titulares de direitos
e obrigações, mas não criadores de direito substantivo internacional.
Apesar disso, a emergência de uma cidadania europeia (e o maior acesso à tutela direta de direitos a
nível dos tribunais europeus), bem como os processos de governance internacional, onde tem vindo
a crescer o papel dos cidadãos e pessoas coletivas do direito privado (ONGs e multinacionais),
principalmente na criação de soft law.
- Organizações não-Governamentais.
Não há ONGs que se constituam ao abrigo do DI, estas são sujeitos de direito interno constituídas
ao abrigo do direito nacional de algum Estado. No entanto, há algumas que se têm salientado no
quadro da cooperação internacional em alguns domínios – entidades de direito privado com
finalidades projetadas no DI e nas relações internacionais e que, muitas das vezes, a sua finalidade é
de interagir com os sujeitos do DI na promoção de objetivos comuns (Ex. WWF). De acordo com o
Art. 71º CNU, as mais relevantes têm estatuto de observadores no quadro das Nações Unidas e
direito de petição ou queixa relativamente a situações que se enquadram no âmbito das suas
finalidades.
- Corporações transnacionais.
Semelhantes às ONGs, mas um pouco aquém, porque estas não têm o reconhecimento das ONGs,
não sendo observadoras. São sujeitos do direito interno, cuja finalidade é uma atividade de
desenvolvimento comercial, mas há uma internacionalização progressiva do tratamento das suas
relações jurídicas com os Estados. O que caracteriza estas empresas é o desenvolvimento de uma
atividade de natureza privada e que se projeta internacionalmente e que tem lugar no território de
diversos Estados.