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Contexto e Complexidade do Direito Internacional

O capítulo aborda o contexto e as fases históricas do Direito Internacional (DI), destacando sua complexidade e pluralidade, refletindo a diversidade cultural e econômica dos Estados. A evolução do DI é traçada desde a proto-história, com influências do Direito Romano, até a formação do ius publicum europeu após a Paz de Vestfália, que estabeleceu a igualdade soberana entre Estados. Além disso, discute a distinção entre comunidade e sociedade internacional, enfatizando a fragilidade das instituições que sustentam o DI.
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Contexto e Complexidade do Direito Internacional

O capítulo aborda o contexto e as fases históricas do Direito Internacional (DI), destacando sua complexidade e pluralidade, refletindo a diversidade cultural e econômica dos Estados. A evolução do DI é traçada desde a proto-história, com influências do Direito Romano, até a formação do ius publicum europeu após a Paz de Vestfália, que estabeleceu a igualdade soberana entre Estados. Além disso, discute a distinção entre comunidade e sociedade internacional, enfatizando a fragilidade das instituições que sustentam o DI.
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CAPÍTULO 1- O Direito Internacional. Contexto. Fases históricas. Noção de DI.

Distinção de
figuras afins

Contexto do Direito Internacional

A realidade social internacional é:

-​ Complexa – assente numa realidade política, económica, social, cultural diversa.

Neste sentido, um contraponto comum é aquele efetuado entre a realidade internacional e a


realidade dos Estados (será a realidade internacional mais complexa do que a realidade dos
Estados?), tendo em mente que o Direito é culturalmente condicionado. Ora, obviamente que,
verificando-se uma pluralidade de culturas, a realidade internacional será a mais complexa, já que
terá de acomodar essa mesma diversidade cultural (diversidade linguística, econômica- há Estados
desenvolvidos com uma capacidade económico-financeira muito significativa e outros numa posição
mais débil).

Assim, podemos afirmar que há diversidade no que compõe os Estados na dimensão, capacidade
material, riqueza, meios de que dispõe refletida nos Estados enquanto comunidades.

No entanto, é de salientar como exemplo a discriminação positiva, existe para promover a igualdade
– dado que, à luz do Direito Internacional, os indivíduos são iguais (ao contrário da diversidade dos
Estados) – e não para favorecer determinada identidade.

Após a 1ª Guerra Mundial, a diversidade manifestava-se na política, assente na Democracia, Estado


de Direito, Liberdade, em contraposição com regimes coletivistas que tinham uma concepção social
que não valorizava a democracia pluralista, mas outros fins tendencialmente igualitários numa outra
perspetiva. Diferenciação entre regimes autoritários: vivencia-se uma deriva autoritária. Na queda do
Muro de Berlim, acredita-se que a política ocidental vencerá e se iria impor no resto do mundo

​ . Plural – formado multiplicidade de sujeitos e de domínios, na sua maioria Estados, que,


apesar de serem formalmente semelhantes, apresentam-se grandemente distintos nas suas
valências económicas, populacionais e sociais.

Além dos Estados, existem também outros sujeitos do Direito Internacional, tais como organizações
internacionais de estados e outras organizações como a Santa Sé (sujeitos estes que são,
indubitavelmente, sujeitos do DI). Mas... E os povos? Os indivíduos? Serão sujeitos de DI? Ora, a
sua capacidade de influência junto de Estados pode ser muito relevante (é importante ter em conta
que, sendo reconhecidos como efetivos sujeitos de DI adquirem determinados direitos com certeza,
mas também obrigações).

Logo, esta multiplicação/pluralismo começou por ser meramente quantitativa, através do


aparecimento de novos Estados no século XIX, devido ao processo de descolonização, passando a
ser qualitativa com o surgimento de novos sujeitos na cena internacional.

No séc. XX reconheceram-se outros sujeitos, mas com relevância limitada, como o próprio indivíduo,
reconhecido como sujeito do Direito Internacional, porque a afetação da esfera jurídica é mediata, ou
seja, que não se executa diretamente (passa pelo Estado, que concede instrumentos próprios
consagrados no Direito Internacional), lógica que acabou por ser afastada pelos Tribunais de
Nuremberga e Tóquio, em que a afetação é imediata e se julgam os criminosos independentemente
do seu Estado.

Estes Tribunais julgavam crimes de guerra e crimes contra a humanidade, que correspondiam aos
crimes internacionais. Foi aplicado um conjunto de deveres resultantes do Direito Internacional e que
teriam sido infringidos no âmbito da sua ação. O indivíduo é titular de direitos, independentemente da
atuação do Estado – os Direitos Humanos são assegurados internacionalmente e os direitos
protegidos constitucionalmente.

​ . Fragmentada – assente em justaposição e agregação diversa de sujeitos. Conseguimos


perceber que, no mundo, há espaços com identidade e características comuns, espaços de
identidade regional (o clássico exemplo do ocidente em contraposição ao leste). Neste contexto, uma
das grandes acusações ao DI, tal como o conhecemos, é de que é um Direito eurocêntrico ou
ocidentocêntrico, não considerando as idiossincrasias de Estados de outras regiões do globo.

O fragmentarismo pode assentar em duas perspetivas:


▪ Fragmentação horizontal – determinada pela ausência de regulação de assuntos que se encontram
conexos com outros que já possuem regulação, surgindo um ordenamento internacional disperso e
intermitente;
▪ Fragmentação vertical – o Direito Internacional estabelece orientações mais gerais, não efetuando
um tratamento exaustivo da problemática sobre que incide (tal é deixado à intervenção interna).

​ . Policêntrica – A realidade internacional é então não hierarquizada, mas com centros de


poder diversos.

É a característica mais visível e a melhor fundamentada e diz respeito às suas fontes normativas. As
fontes são diversas, começando-se pela distinção entre o tratado internacional, que é um acordo de
vontades de base internacional e intencional; e o costume internacional, que reflete a força da
convivência no seio da sociedade internacional.

Dada a incapacidade das Nações Unidas para construir uma governação internacional comum,
existem centros de poder diversos – pluralismo – não hierarquizados, de onde emanam as normas e
princípios jurídicos internacionais, que se vão aprofundando conforme a chegada de novas entidades
ao seio da sociedade internacional (coopera-se o que foi instituindo entre os povos, através de
afinidades).

​ . Institucionalização débil, progressiva, mas precária. A efetividade do Direito


Internacional padece da dependência dos quadros jurídicos internos. Não possui legislador ( não
possui sede legislativa, a criação do direito é difusa através de decisões das organizações
internacionais, tratados…), juiz ( faz com que a efetivação do direito internacional seja feita através
da autotutela, mecanismo antigo anterior à criação do poder estadual, não existem mecanismos de
efetivação independentes, a partir do séc xx começou a surgiu tribunais internacionais, inicialmente
apenas arbitrários e mais tarde os tribunais não arbitrais criados pelas Nações Unidas ) ou policia,
figuras necessárias no Estado.

Distinção entre a Comunidade e a Sociedade internacional

Baseando-se na definição de Tonnies (1887), uma comunidade é caracterizada por laços de coesão
orgânicos e uma identidade comum. Já numa sociedade, essa união é racional e utilitária, que se dá
por coincidência de objetivos, mas sem a ideia de uma pertença ou identidade comum.

Na comunidade, os seus membros estão unidos apesar de tudo o que os distingue, enquanto na
SOCIEDADE estão separados apesar de tudo que os une.

Na SOCIEDADE, ao contrário da comunidade, não há uma coesão orgânica, não há uma identidade
de pertença, mas uma aliança racional, utilitária, perspetiva, assente nos interesses e não nos afetos.

A realidade internacional ainda aponta para a existência de uma - ou várias - sociedades


internacionais baseadas em interesses utilitários e sinalagmáticos. Na esfera internacional, há uma
“comunidade in fieri” com laços ténues, mas uma consciência de identidade humana progressiva; por
outro lado, os traços da realidade internacional indicados limitam o seu desenvolvimento.

Esta ideia de comunidade internacional fortaleceu-se na 2.a metade do século XX. Com a
proclamação pela Assembléia Geral das Nações Unidas da Declaração Universal dos Direitos
Humanos sendo um marco significativo neste trabalho de construção da comunidade internacional.

No fundo, a indagação aqui latente é a seguinte: Há ou não há sociedade internacional? E, mais do


que sociedade, há comunidade internacional ou não?

Ao discutir o DI devemos ter sempre presente a diferença fundamental entre comunidade e


sociedade internacional. Admitir a existência de uma sociedade internacional é mais concebível do
que a existência de uma verdadeira comunidade internacional. E sabemos que, havendo sociedade,
há Direito (ubi societas ibi ius). Todavia, mesmo o conceito de sociedade está ameaçado, pela falta
de institucionalização (as instituições são essenciais para que a unidade seja supra a simples soma
das partes e nem sempre há elementos de coesão que permitam unir suficientemente os Estados).
Nesta conjuntura, a pandemia de COVID-19, que fustigou o mundo, é um exemplo de manifestação
de uma verdadeira comunidade internacional, culminando na conclusão de que, afinal, todos somos
humanos e essa Humanidade une-nos impreterivelmente. A Humanidade tem de facto
uma identidade. Mas, será isto suficiente?

-​ Fases históricas do DI

-​ Proto-história do DI (do Ius Gentium romano ao Ius Publicum Europaeum –


séc. XVII)

O Direito Internacional é: (definição ao longo dos tempos)


. “o que a razão natural estabeleceu entre todos os homens” (Gaio)
. “o que é usado por todos os povos” (Ulpiano)

Estas primeiras definições pertencem a dois jurisconsultos romanos. É o DR a primeira base na qual
se reconhece que as relações entre sociedades diversas são regidas pelo Direito e por um direito
que não é exclusivo de nenhuma localidade.

“O direito regulador da comunidade política internacional” (Vitória, 1528).

Na idade moderna, vemos novamente esta preocupação com o DI. Ora, antes deste momento da
história (ou seja, durante a Idade Média), o horizonte das sociedades era o Cristianismo (perspetiva
eurocentrista de certo). Mas, com os Descobrimentos, isto alterou-se, emergindo outra vez a
preocupação em regular as relações entre os povos.

. “o direito que todos os povos e todas as nações devem observar entre si” (F. Suarez, 1612) –
considerado no sul o pai do DI
. “o direito que regula as relações entre as nações” (Grócio, 1625)

Grócio, em geral, é considerado o fundador do DI moderno, já que foi ele que, na sua obra O Direito
da Paz e da Guerra (cuja versão original se encontra no Tribunal Internacional de Justiça e constitui o
primeiro livro do DI) baseia as relações internacionais na igualdade, defendendo o princípio da
liberdade dos mares (princípio basilar do DI que leva à sua construção entre nações soberanas e
independentes – perante tal conceção, convenções como o Tratado de Tordesilhas encontram o seu
fim; além do mais, o império do princípio da ocupação efetiva leva à perda de vigência destes
acordos).
Deste modo, Grócio contraria as convicções vigentes na Idade Média, já que contraria frontalmente o
poder secular da Igreja. Esta é uma perspetiva eurocêntrica de DI. Para conhecer outras
mundividências sobre o DI, consultar o Manual do Professor Wladimir Brito.

§ uma perspetiva global: vide Wladimir Brito

Com a sedentarização, as sociedades humanas passaram a fixar-se num território, surgindo


instituições e regras aplicáveis nesses locais. Com o respetivo desenvolvimento começa a procurar
estender-se esta lógica de regulação pacífica à associação destas sociedades.

Até ao aparecimento da sociedade romana, poucos foram os contributos das civilizações


clássicas e pré-clássicas para o DIP. O DIP desenvolveu-se nesta época com o aparecimento da
civilização romana, tal o labor na estruturação de tópicos que posteriormente se revelariam matriciais
para o Direito Internacional.

Assim, no âmbito do DI, há institutos particulares que se inspiram no Direito Romano (DR).
De facto, Roma é o berço do Direito, tendo também influência naquilo que é a génese do DI. Assim, é
no DR que vemos uma proto-história do DI.
Com efeito, os romanos criaram o ius civile para administração das relações entre cidadãos.
Mas, reconhecendo a existência de outras sociedades com as quais estabeleciam relações
comerciais e sociais, identificaram a necessidade de regulação das relações entre cidadãos e
peregrinos e entre peregrinos (ius gentium- conjunto de princípios fundamentais que regulava as
relações entre os cidadãos romanos e entre Roma com os estrangeiros que viviam no território do
Império.)
É desta forma que nasce uma relação interpessoal que ultrapassa as fronteiras internas, e é
nesta perspetiva que encontramos os princípios essenciais daquilo que são os elementos
constitutivos primários do que viria a ser o Direito Internacional.
Neste sentido, os romanos vêm a identificar uma série de princípios do direito natural, sendo
o ius gentium o verdadeiro antecessor do DI.

O Direito Romano, mais precisamente o ius gentium, continha já princípios que, mais tarde,
ajudaram a solidificar o Direito internacional: o caráter inter-relacional e a feição universal do Direito.
Ao Ius Gentium contrapunha-se o Ius Civile, que se aplicava apenas aos cidadãos romanos, não
podendo ser considerado um Direito Internacional, antecipando apenas o que viria a ser o Direito
Internacional Privado

Já na idade média revelou-se outra fase que antecedeu à cena internacional atual, através:
-​ por um lado de formação de estados que mais tarde afirmaram-se estados modernos
europeus, protagonistas da realidade internacional
-​ Por outro, a afirmação de estruturas políticas supra estaduais que atrasaram a integração de
uma sociedade internacional igualitária.
Estes fatores acabaram por ser decisivos na ascensão de povos sujeitos à cena internacional.

Mais tarde, na Idade Moderna na época dos Descobrimentos, a visão do mundo modifica-se. Os
descobrimentos tanto espanhóis como portugueses vieram abrir novos horizontes, de forma a colocar
novas questões ao DI e abrindo o caminho à globalização. O mundo passa então a significar uma
realidade global com vários povos, começa a haver a preocupação como se irão proceder as
relações entre todos estes povos. As Nações são iguais e entre si existem um direito entre nações
onde há igualdade - princípio da liberdade dos mares que os autores da escola espanhola não
defendiam, defendiam o que resultava do tratado Tordesilhas (entre Portugal e Espanha dividiram o
mundo em duas partes), no século XIX surge o princípio da ocupação efetiva. Dá-se também nesta
época a afirmação de Estados soberanos reconstituindo a autoridade estadual que favoreceu o
nascimento do DI.

-​ História do DI:

-​ Formação do DI - a “ordem da Vestefália”– da Vestefália (1648) a Viena (1815):


-​ a instituição do ius publicum europeo assente nos Estados soberanos (o equilíbrio europeu
assente no poder do príncipe soberano, ou seja, no seu território o príncipe é soberano);
-​ a afirmação dos princípios comuns às nações civilizadas:
• liberdade dos mares;
• igualdade soberana dos Estados (fim do poder temporal do Papa; igualdade entre
os príncipes significa que não pode haver imposição de regras por qualquer pretenso poder
superior);
• o DI dos tratados (não institucionais).

No fundo, a partir da paz de Vestefália, o DI constrói-se assente na igualdade soberana (sendo


produto da vontade comum entre esses soberanos).
Afirmam-se também o costume e atos deliberados ou acordos entre Estados (tratados) como as
principais fontes do DI. Coincide do ponto de vista teórico à perspetiva de Grócio.

Desenvolvimento das ideias:

O nascimento do direito internacional é indicado no dia 24 de outubro de 1648, dia em que


se formalizou o fim da guerra dos 30 anos que foi plasmada na paz de Vestfália. Daqui se retiram
dois tratados: o de osnabruck e o de munster. Foi com estes tratados que se eliminou a influência de
estruturas supra estaduais, como o papa fazendo com que cada príncipe fosse soberano no território
em que exerce o poder. Tal resultou no primeiro momento da história internacional em que se
reconheceu a igualdade formal dos Estados.
A partir deste momento os Estados passam a atuar na realidade internacional com a sua
soberania, interna e externa, plenamente reconhecida. Deu-se assim o equilíbrio de poderes; a ideia
de princípios comuns às nações civilizadas (que levariam à formulação posterior dos Princípios
Gerais do DI);
​ Mais tarde, na época contemporânea do século XIX deu-se na Europa uma multiplicação de
relações internacionais com a transformações dos Estados modernos em Estados constitucionais.
Fundou-se o congresso de Viena após as invasões napoleônicas, fundando uma nova ordem
europeia nas relações internacionais.
Do ponto de vista das relações internacionais vamos assistir à industrialização e ao aumento
do comércio que beneficiava da liberdade, temos também uma revolução tecnológica
(navegabilidade dos rios internacionais - Remos, Danúbio, etc.), das comunicações (comunicações
instantâneas que necessitam de uma regulação internacional) e dos transportes, eram necessárias
assim organizações internacionais para a regulação, passando a existir um direito internacional
técnico. Deu-se assim as primeiras intervenções sobre o estatuto dos rios internacionais e sua
navegação marítima- liberdade dos Mares (doutrina do mare liberum - o alto mar é um domínio livre,
o primeiro a ser regulado pelo DI).
É de não esquecer o surgimento das primeiras preocupações das intervenções humanitárias,
vendo se dar os 1ºs passos para o direito internacional humanitário.

-​ Consolidação do DI - do “concerto europeu” à ONU– de Viena (1815) a S. Francisco


(1945).

A Idade Contemporânea projetou o desenvolvimento do DI, e a transformação de Estados Modernos


em Estados Constitucionais fez alargar o âmbito das relações bilaterais e multilaterais, passando a
existir a ideia de multilateralização dos tratados, sobretudo depois da consolidação do Congresso de
Viena em 1815.

Este Congresso pôs termo a Vestefália e a Guerra Napoleónica, surgida na sequência da revolução
francesa, com protagonistas que louvavam um conjunto de princípios que contrariavam a realidade
anterior – nação soberana e legitimidade constitucional. Surge uma ideia de institucionalização dos
Direitos Humanos, decorrente das Revoluções Liberais francesas e Independência Norte Americana,
a ideia de nacionalismo e independência dos povos (primeiras sementes para o fim do colonialismo)
e os primeiros tribunais para resolver conflitos internacionais

O congresso de Viena tem uma perspetiva conservadora, ainda que assente na ideia de soberania
(consagração da soberania nacional, contra os Estados Unidos da Europa de Napoleão). Assim, a
partir de então, a cada Estado haveria de corresponder uma nação (mote que acaba por pôr termo
aos impérios que ainda subsistam na Europa, como é o caso do Otomano e do Austro-Húngaro e é a
base da Sociedade das Nações - SDN: degradação dos poderes imperiais)

Nesta fase dá-se


-​ Uma a multiplicação dos sujeitos do Direito Internacional, com a primeira vaga de
independência de colônias;
-​ Dá-se a criação das primeiras Organizações Internacionais (União Telegráfica
Internacional, 1865; União Postal Internacional, 1874) Isto porque, o comércio
internacional faz-se sentir, aumentando-se as exigências graças à Revolução
Industrial, que englobou também uma revolução tecnológica e das comunicações,
culminando na criação destas organizações internacionais técnicas (exigindo que
haja regras comuns a todos que não resultem apenas da vontade dos Estados; estas
organizações deveriam ser tecnicamente aptas, não estando estreitamente
relacionadas com os Estados, mas antes com o comércio entre comerciantes).
-​ A institucionalização da resolução de conflitos (as Conferências de Haia e o Tribunal
Permanente de Arbitragem, Haia, 1899) a partir do ‘sistema dos congressos’, em
resposta à exigência de assegurar humanização das relações entre os povos (que,
de alguma forma, sofrem um embate significativo, graças à revolução tecnológica - a
guerra, por exemplo, passa a fazer-se com armas com um potencial de destruição
maciço);
-​ Consolidação das ideias liberais; a emergência do nacionalismo e a afirmação do
princípio das nacionalidades após a 1GM;
-​ Pretensão universalista dos direitos individuais e a consolidação do direito
consuetudinário de limitação e humanização da guerra (as Convenções de Genebra,
1864, 1906, 1929, 1949) e o reconhecimento da Cruz Vermelha (criada em 1863)
como sujeito de DI, também como resposta à exigência de assegurar humanização
das relações entre os povos (que, de alguma forma, sofrem um embate significativo,
graças à revolução tecnológica - a guerra, por exemplo, passa a fazer-se com armas
com um potencial de destruição maciço);
-​ Criou-se a primeira OI (organização internacional) “global” – a Sociedade das
Nações; o primeiro tribunal internacional – o Tribunal Permanente de Justiça
Internacional - este desenvolvimento dos processos institucionais deu início a uma
governação internacional que procurou conciliar a soberania com a cooperação
internacional.

Neste contexto, o chamado Droit de Regard adquire importância. Consiste num direito de controle
de outros Estados. Portugal, por exemplo, fazia parte da esfera de influência do Reino Unido (ou
seja, o Reino Unido detinha Droit de Regard sobre Portugal). A este poder de exercer influência e
controle sobre outros Estados estava associada uma maior responsabilidade pela manutenção da
paz e estabilidade internacionais.

Esta primazia dada, no Congresso de Viena, à responsabilidade para a manutenção da paz e


segurança internacional (assegurar a estabilidade) vai se repetindo mais tarde. De facto, vemos isto
nas atuais Nações Unidas, através da existência de membros permanentes com direito de veto.
Estes, pela sua preponderância, têm responsabilidades acrescidas, logo determinadas prerrogativas
para a exercerem (com grande poder surge grande responsabilidade).

Após Viena, há a tentativa de criação de um concerto europeu. Esta lógica de equilíbrio europeu
não foi muito estável, pois foram guerras, mesmo que limitadas. Além disso, surge uma guerra do
acesso a recursos em África, culminando na sua divisão. Com a Primeira Guerra Mundial (1GM) o
concerto europeu encontra o seu definitivo fim.

Além do mais, após a 1GM, com o desmoronamento dos impérios, há a multiplicação dos Estados
Europeus e a verdadeira afirmação do princípio chave do DI até então (uma nação um Estado; um
Estado uma nação), no quadro da SDN.

Apesar disto, a verdade é que há nações que extravasam Estados, já que as fronteiras que surgem
com o desmoronamento de impérios nem sempre correspondem às nações.

A SDN propriamente dita surge com o objetivo de assegurar a paz, após a 1GM. Isto porque a 1GM
despoletou tal choque, que se afirma uma boa vontade geral, propensa à mudança no sentido de
evitar a guerra, institucionalizando uma plataforma de entendimento independente.

É, inclusive, no âmbito da SDN que surge o primeiro tribunal internacional não arbitral para resolver
conflitos entre Estados: o Tribunal Permanente de Justiça Internacional (funcionava no mesmo
espaço do atual Tribunal Internacional de Justiça, em Haia). As declarações feitas pelos Estados que
aceitaram a jurisdição do Tribunal Permanente de Justiça Internacional são também as mesmas do
atual Tribunal Internacional de Justiça.

A SDN foi, enfim, um fórum de representação dos Estados, facilitando a criação e aprovação de
convenções como a de Genebra e o Pacto de Briand- Kellogg (negociadas através da SDN).

Ainda no quadro da SDN, foi instituída a Organização Internacional do Trabalho. Esta, devido à sua
centralidade, permaneceu apesar da SDN (existindo também no âmbito da atual ONU). A sua
finalidade versa em promover condições de cooperação entre Estados, de modo a assegurar a
melhoria de condições e direitos dos trabalhadores (essencialmente estabelecer cooperação
económica e técnica).

A Organização Internacional do Trabalho permite efetivar a Teoria Funcionalista das Relações


Internacionais. Segundo esta, é a cooperação prática entre os Estados que permite eliminar a
rivalidade política, assegurando a paz internacional. Assim, o caminho da paz é o da construção de
organizações internacionais setoriais, com representantes técnicos.

Através do trabalho destas organizações, asseguramos a existência de um regime internacional


comum entre Estados, eliminando rivalidades. Assim, os Estados ficaram destituídos de
competências, deixando de constituir ameaça uns para os outros. Esta é também a lógica subjacente
às Nações Unidas, nomeadamente através do Conselho Económico Social (ECO-SOC - órgão no
qual se assegura a cooperação internacional comercial e técnica, estando as organizações
internacionais setoriais representadas, tais como a OMS e a UNESCO, na lógica funcionalista).

Em suma, a construção da paz, mais do que através das próprias organizações em si, passa acima
de tudo pelo desenvolvimento da cooperação internacional e, consequentemente, do Direito
Internacional (lógica funcionalista que seria a mais apropriada para assegurar a paz a segurança, o
desenvolvimento dos indivíduos) Desta forma, a missão de sistematizar e desenvolver o DI (espécie
de comissão de DI) adquire grande importância.

Em 1930, surge a proposta de criação de uma Federação dos Estados Europeus, como resposta à
escalada armamentista que dá origem à Segunda Guerra Mundial, que não se materializa.

-​ DI contemporâneo – de S. Francisco (1945) - …atualidade

Temos um maior desdobramento do DI. O DI é cada vez menos um direito apenas relativo à paz e à
guerra (como dizia Hugo Grócio) e os seus temas multiplicam-se, abordando mais as questões
sociais

Com o fim da II Guerra Mundial, devido aos horrores que foram praticados, despertou a consciência
de toda a população para a necessidade de proteção dos direitos humanos, numa escala
internacional. Como exemplo paradigmático surge a aprovação da DUDH, em 10 de dezembro de
1948, admitindo-se que o Direito Internacional teria como seu objetivo, mesmo contra a vontade dos
Estados, a proteção dos Direitos Humanos.

Em São Francisco (1945) são criadas as Nações Unidas com o objetivo de zelar pela paz
internacional (de modo a evitar, a todo o custo, conflitos bélicos em larga escala).

O sistema das Nações Unidas – uma rede funcionalista em torno de um centro de


(inter)nacional demoaristocrático. O termo aristocrática é contraditório, pois numa certa perspectiva
temos lógica democrática que reconhece um lugar a todos os Estado a nível global na assembleia da
Nação, sejam estes pequenos, seja qual for a sua capacidade financeira, garantindo a todos TODOS
um lugar neste fórum de discussão. Temos ainda a lógica aristocrática, em que a facção vitoriosa da
2 GM tem um lugar preponderante tomando lugar no Conselho de Segurança, que os torna
privilegiados na organização uma vez que as decisões deste conselho são vinculativas e os seus
órgãos possuem direito de veto e lugar permanente.

A verdade é que, tendo em conta a realidade dos Estados, que são formalmente iguais, mas
substancialmente demasiadamente distintos, é natural que os seus direitos e responsabilidades
difiram. Apesar disto, seria uma veleidade pensar que, na ausência de uma instituição sólida
internacional, os Estados com maior capacidade deveriam ter maior capacidade de implementar e
assegurar a efetivação do DI e, consequentemente, a paz. Assim, a criação, no arcabouço da ONU,
do direito de veto está associada a uma lógica pragmática de, de facto, dotar os maiores Estados de
meios para exercer devidamente a sua maior capacidade.

Durante algum tempo, acreditou-se que este modo de funcionamento se traduziria num bilateralismo
bondoso ou na afirmação definitiva do multilateralismo. Contudo, atualmente, o direito de veto, em
termos práticos, parece afastar-se do seu objetivo inicial, na medida em que funciona como
instrumento de afirmação de interesses próprios das grandes potências. Face a isto, surgem
propostas de modificação dos estatutos das Nações Unidas, para pôr termo a esta lógica
aristocrática de funcionamento.

Com efeito, a responsabilidade especial dada às potências com maior capacidade tem sido
progressivamente ignorada.

Possuímos, assim duas correntes do DIP:


-​ realista (compreender a realidade e os fenômenos, explicando-o e fazendo que as decisões
obedeçam)
-​ idealista (compreender os interesses e realidades mas colocando uma componente idealista
do desenvolvimento das sociedades).

Voltando-nos agora para o idealismo de Eleanor Roosevelt (a Declaração Universal dos Direitos do
Homem), há que abordar um dos principais pilares da ONU: a sua luta para assegurar Direitos
Humanos (outro objetivo consagrado na carta das Nações Unidas), de tal modo que a Declaração
Universal dos Direitos Humanos (DUDH) é um dos seus documentos fundadores. Apesar da sua
geral aceitação a nível ocidental, noutras regiões do globo muitos perspectivam a DUDH como uma
reprovável manifestações de Etnocentrismo ocidental, evidenciando novamente falta de
consideração para com as características próprias de Estados não ocidentais
A partir de 1946, fixa-se a Cortina de Ferro e começa a Guerra Fria. Em grande medida, a efetividade
das Nações Unidas é afetada pela lógica dos espaços de influência da Guerra Fria (sistema
geopolítico bipolar). O sistema das Nações Unidas passa a basear-se numa rede funcionalista em
torno de um centro internacional aristocrático.

A Guerra Fria criou espaços de influência, em primeiro lugar na Europa (leste e ocidente), que se
estendeu para o resto do mundo, resultando numa divisão tácita das áreas de influência das duas
grandes potências (EUA e URSS). No fundo, os Estados integram alianças que formam uma
potência.

Os juristas soviéticos, após a Segunda Guerra Mundial, desenvolveram uma teoria que formalizou a
noção de esferas de influência: Teoria da Soberania Limitada.
Segundo a Teoria da Soberania Limitada, em determinado espaço, há uma potência cuja influência
se faz sentir. Assim, esta tem Droit de Regard, de vigilância. Foi esta teoria que justificou a invasão
da Tchecoslováquia, da Hungria, da Ucrânia, comprovando que nada do que vivemos atualmente (no
tocante, por exemplo, à guerra na Ucrânia) é inteiramente novo.

É uma nova ordem internacional com cheirinho a mofo (frase dita em sede de aula teórica, que
permite melhor compreender o conteúdo, mas não deve ser utilizada em exame). Por certo, mesmo
para resolver o conflito na Ucrânia, volta-se a realizar algo muito semelhante à Conferência de Ialta
(mas sem assento europeu), provando novamente que nada é novo.

Com o fim da Guerra Fria e o afirmar da democracia em grande parte do mundo surgiu a pretensa
teoria do “fim da história”. Atualmente, sabemos que esta não é definitiva.

Tópicos:
-​ A Guerra Fria e o sistema geopolítico bipolar; 1989 e o pretenso “fim da História”; 2022 – o
emergir de um “minilateralismo”? 2025 – uma nova lógica transacional?
-​ Criação de instâncias internacionais, acompanhado com a progressiva institucionalização da
realidade internacional e também do direito internacional. Inicialmente foi direcionado para a
Europa no pós guerra e mais tarde passou a designar-se para TODOS. O GATT (para a
regulação do comércio internacional , evoluiu para a criação da à OMC – o multilateralismo
liberal e a globalização.
-​ A pandemia e a reemergência da soberania como “independência/autonomia estratégica” (a
nova corrida aos recursos). Para além disso, criou-se também tribunais, como o tribunal de
Nuremberga no final da II GM- progressiva judicialização da realidade internacional,.
-​ As relações Norte-Sul (caminho para o fim dos coloniais, mundo desenvolvido vs mundo
subdesenvolvido) e o emergir do Sul Global. (apresenta-se como contraponto ao ocidente)
-​ A crise das Nações Unidas
-​ Uma nova ordem internacional em emergência (liderada por apenas uma superpotência) ou
o renascer da velha “ordem da Vestefália” ou um novo “concerto” com novos protagonistas?

Os desafios presentes
-​ a globalização econômico-financeira; (crises financeiras que resultou num processo de
globalização financeira liderada pelo ocidente,
-​ os riscos ambientais (alterações climáticas; biodiversidade)
-​ os desafios humanos (direitos humanos, erradicação da pobreza, diálogo inter-civilizacional,
conflitos armados, terrorismo, proliferação nuclear, saúde pública, etc.); (meados séc xx,
houve alguma luz sobre a universalidade dos direitos humanos)
-​ democratização; soberania como responsabilidade (reconfiguração da soberania, não como
poder absoluto do séc xvii xviii, mas como a da ordem de vestefália, mas como
responsabilidade do território e dos cidadãos, ex de tratados: quadro da nações unidas,
tratado da convenção das nações unidas sobre o mar que determina que os Estados têm
responsabilidade ambiental sobre o mar que circula o território, normalmente até 12 milhas
de oceano) (Francis Deng); unilateralismo v. multilateralismo;
-​ A nova “guerra das civilizações” ou “democracia v. autocracia” (lógica governada pela forma
de exercício do poder, é um objetivo da ONU a promoção da democracia, o poder soberano
reside nas pessoas e não uma instituição).
Todas estas questões solicitam o DI – em busca de uma “governação” (governance) global
axiologicamente fundada para essa ‘comunidade’ in fieri
-​ seria necessária uma governação em constelação, estruturada através de coordenação com
graus diversos de institucionalização e formalização para adoção e implementação de regras
comuns e garantia de bens coletivos internacionais, sem uma autoridade global e com
múltiplos e diversos agentes (James Rosenau)

Multiplicação dos sujeitos (uma polity global em construção?)

Temos a emergência de atuação de novos autores – faz-se surgir a Santa Sé, a Cruz Vermelha, e
outros –que assumem mais protagonismo na definição da agenda da ação internacional:
organizações internacionais têm vindo a crescer e o seu papel é cada vez mais reconhecido, ao
ponto de participarem nos debates das Nações Unidas, ainda que as decisões cabem aos Estados.
Este surgimento das organizações internacionais tem o propósito de melhor estruturação da
sociedade internacional

Até ao séc xix o número de sujeitos internacionais era diminuto, existiam sociedades mas
estas não interagiam com os protagonistas da realidade internacional- nomeadamente a europa,
originando um isolamento do espaço ocidental que construiu o direito internacional e as 1os
instituições e o outro espaço.

A multiplicidade de sujeitos começou por ser apenas quantitativa com o aparecimento de


novos Estados no século XIX através das vagas descolonizadoras das antigas colônias africanas e
asiáticas que atingiram o seu auge na segunda metade do século XX. Mais tarde, a multiplicação
passou a ser qualitativa com o surgimento de novos sujeitos que até então eram desconhecidos e
combatidos.

-​ Estados (a multiplicação dos sujeitos Estados deu-se essencialmente através da


descolonização, defendida pelas Nações Unidas através da luta armada. Decorreu da defesa
do princípio da autodeterminação dos povos. As nações unidas foram formadas por pouco
mais de 50 estados e hoje tem mais de 100. A multiplicação de Estados deu origem ao fim
do protagonismo internacional da Europa e da América do Norte. )
-​ Organizações internacionais (OI), em especial a ONU e a UE. Criação de novas
organizações internacionais, quer seja com um espaço de projeção regional e com um setor
a que se dedicam. O nascimento de novas organizações internacionais relaciona-se com a
ansiedade de melhor estruturar a sociedade internacional. Na 1º metade do séc xx, as
organizações eram intergovernamentais, sendo inicialmente locais ou regionais, algumas
evoluíram para serem pará-universais. Já na segunda metade do século XX
desenvolveram-se as organizações internacionais supranacionais.
-​ A emergência de sujeitos não estatais - afirmação de novos sujeitos de DI?: as Organizações
Não Governamentais (ONG) e Corporações transnacionais (CTN),
-​ Emancipação do indivíduo como sujeito de DI. Todas as pessoas pelo fato de o serem têm
direitos inerentes à natureza humana. Não é necessário que estes direitos sejam
reconhecidos pelos estados. Direito de reclamação dos indivíduos e de instituições
internacionais. Reconhecer o indivíduo como sujieto de DI implica também reconhecer a sua
respobsabilidade na violaçáo do DI, tal acontece desde a 2gm (ex: julgamento de nazis). a
criação do Tribunal Internacional de Justiça (TIJ), Sem excluir os tribunais arbitrais (como o
Tribunal Permanente de Arbitragem) e tribunais ad-hoc (prática iniciada com o Tribunal de
Nuremberga, são tribunais criados especificamente para julgar crimes contra a humanidade,
genocídio e crimes de guerra).
-​ os povos e as minorias,
-​ a Humanidade.

Multiplicação dos fora internacionais


para além das OI: o G-System (G7; G-77; G-20), o Fórum Económico Mundial, PPP (UN global
compact), Fórum da Governação da Internet, etc.

Extensão das fontes

Multiplicação dos tratados internacionais, aspecto interessante de solidificação do Direito


Internacional, através deles vemos os sujeitos do Direito Internacional a regular as suas relações
através do Direito. Aproximamo-nos de uma sociedade internacional que pauta as suas relações
pelo Direito e não pela força ultrapassando aquele estado de natureza que antecede o Direito.

A aceleração da formação e codificação dos costumes é manifestação dessa mesma


institucionalização progressiva. Por essa via aquilo que era o resultado de práticas adotadas ao longo
dos séculos torna-se mais evidente e certo. O costume é uma forma de criação do Direito que terá
várias virtualidades porque é espontânea e é criada pelos próprios destinatários das normas. Mas
tem também aquilo que são debilidades é uma forma de desenvolvimento porventura não
consentânea com a realidade complexa, por outro lado é difícil perceber em matérias muito técnicas
como é que se pode pensar no costume, são necessárias fórmulas mais apropriadas em que mais do
que soluções políticas sejam as melhores do ponto de vista técnico como é o caso das alterações
climática (há uma evidência científica e devem-se elaborar respostas técnicas para a resolução
dessa evidência, não parte de nenhuma opção política). É um processo de racionalização que surge
pelos Estados no iluminismo e que em Portugal surge pelo Marquês de Pombal. no Direito
internacional esse processo está mais atrasado.

Nós conhecemos essa evolução começando no séc. XIX e, particularmente, depois da 2a GM e traz
essa nova realidade de existirem cada vez mais outros sujeitos que não estados ainda que formados
por estes. Encontramos os atos das Organizações Unilaterais que não se confundem com atos dos
estados,quando o Conselho de Segurança da ONU a decisão não é dos estados é do Conselho de
Segurança da ONU. Com algumas organizações que têm um tal grau de autonomia face aos seus
estados que podemos ver há um conjunto de atos que vinculam os estados independentemente da
sua vontade. As decisões do Conselho de Segurança da ONU de acordo com o artigo 25 são
obrigatórias. Há problemas de efetivação com certeza, mas não deixam de ser obrigatórias. Está aqui
uma fragilidade, mas o Conselho de Segurança não deixa de ter meios de fazer valer as suas
decisões, através de meios que podem passar pelo recurso à força. Contudo, muitas vezes não o
pode adotar porque um dos elementos permanentes veta essas medidas. Mas existem outras, como
o Conselho da Europa e no âmbito deste vimos ser adoptada a convenção europeia dos Direito
Humanos em 1950 e esta consagra um elenco de Direitos fundamentais que beneficia todos os
indivíduos e até empresas que vincula todos os estados-membros. O tribunal europeu dos
Direitos humanos é um mecanismo de efetivação desta obrigatoriedade. Mais do que tudo temos a
união europeia que apresenta princípios fundamentais que de algum modo secundaram os estados.

Relevo da soft law, a realidade internacional é uma realidade com uma densidade mais porosa e
encontramos um estado institucional muito diferente dos estados. O facto de ser uma realidade tão
diversa leva a que em certa medida se avance através de atos que são consensualizados não como
atos jurídicos vinculativos, mas como atos que são orientações ou compromissos a que não são
conferidos relevos jurídicos vinculativos, mas o compromisso de procurar e adotar medidas para os
alcançar. Estas muitas vezes têm de ver não só com os estados, mas muitas vezes com a economia
internacional e, portanto, são colocadas ao Direito Internacional por dos Dirigentes de empresas. Ao
incentivar-se essa aproximação a esses parâmetros também esses sujeitos vão beneficiar pois irão
ver os seus produtos reconhecidos e não serão sujeitos de restrições. Não é Direito rígido e
vinculativo que se possa impor por mecanismo coercitivos, mas avançasse de um modo voluntário. E
Uma das dimensões a este nível tem sobretudo a ver com essa dimensão técnica, é o
desenvolvimento da estandardização que fixam essas referências técnicas e contribuem para a
melhor fluidez das relações internacionais.

Há uma entidade internacional cuja missão é aprovar aquilo que são regras, por exemplo, para os
contratos internacionais, não é um tratado que os vincule, mas que os estados podem adotar na sua
legislação e que as empresas podem seguir e que tornarão o comércio mais seguro e estável.

O primeiro tribunal internacional não era verdadeiramente um tribunal do ponto de vista de ser uma
entidade judicial, era uma entidade jurisdicional. Para ser uma entidade judicial era preciso ser
previamente constituído de acordo com lei ou tratado internacional com competências que sejam
compulsórias determinadas por lei e não pelas partes que aplique Direito estrito e seja independente.
O TPA foi importante para a resolução pacífica de conflitos através do Direito e não somente através
da negociação diplomática. O primeiro tribunal mesmo foi o TPI que foi substituído pelo TIJ que
corresponde efetivamente àquilo que foi mencionado anteriormente. Os estados só se submetem à
jurisdição do tribunal se se submeterem a tal. Mas sobretudo é importante fazer referência que desde
há algumas décadas vimos o surgimento de mais tribunais internacionais. Ao TIJ só podem recorrer
os
estados, só tem jurisdição para conflitos entre estados e tem competência consultiva no quadro da
ONU. Mas vimos surgir outros, alguns ad hoc, os tribunais de Ruanda ou da Jugoslávia, mas também
alguns permanentes como o tribunal para o Direito do mar e o tribunal penal internacional.

-​ Noção de Direito Internacional

Critério dos sujeitos:


​ Segundo este critério o Direito Internacional Público (DIP) regula as relações entre diversos
sujeitos da sociedade internacional, cuja natureza enquanto sujeitos jurídicos pode, por vezes, ser
controversa. Isto deve-se ao facto de os próprios sujeitos do DIP não lhe serem preexistentes; pelo
contrário, é o próprio Direito Internacional que os define.
​ Ao longo do tempo, este critério sofreu alterações graças às mudanças que se verificaram na
realidade internacional, se inicialmente entendia o Direito Internacional como um ramo jurídico
destinado exclusivamente a disciplinar as relações entre Estados soberanos; hoje ã abrangência
deste critério foi alargada outros sujeitos internacionais, passando a definir-se como “o setor jurídico
regulador dos sujeitos da sociedade internacional. Esse alargamento do conceito deve-se ao facto de
que, na prática, a realidade internacional nunca esteve restrita apenas aos Estados.
​ Este critério depara-se ainda com outra questão, o facto de que quem são e o que são os
sujeitos de Direito internacional depende deste Dto internacional.

Critério dos objetos:​


Já o critério dos objetos vem fundamentar que o Direito Internacional Público (DIP) constitui
uma ordem normativa que regula os assuntos com implicações nas relações internacionais, conforme
estabelecido no artigo 2.º, n.º 7 da Carta das Nações Unidas (CNU). No entanto, nem todos os temas
com tais implicações fazem parte do seu objeto de regulação, pelo menos de forma atual, assim
como há matérias sem impacto direto nas relações internacionais que acabam por integrar o seu
âmbito.
O DIP distingue entre matérias internas, que pertencem à esfera exclusiva dos Estados, e
matérias internacionais, que transcendem as fronteiras nacionais e envolvem relações entre sujeitos
do DIP. A sua justificação assenta na natureza transestadual deste ramo do direito, que se ocupa de
questões que ultrapassam a esfera dos Estados e afetam as interações entre os seus sujeitos
Contudo, este critério apresenta insuficiências. Nem todas as matérias são
"internacionalizáveis", e, em certos casos, surge a dificuldade de traçar com precisão a linha que
separa o Direito Internacional do Direito interno. Esta questão foi abordada pelo Tribunal
Internacional de Justiça (TIJ) no caso Nottebohm (1955), onde se discutiu a relação entre normas
nacionais e internacionais no reconhecimento da nacionalidade, evidenciando a complexidade dessa
delimitação.
Critério das Fontes normativas
O critério das fontes normativas define o Direito Internacional Público como o conjunto de
normas criadas e reveladas por processos próprios da comunidade jurídica internacional, que
transcendem o Estado. Este critério não fornece, contudo, uma definição material do DIP, mas
apenas considera o modo de produção das regras internacionais.
Apesar de sua relevância, este critério apresenta fragilidades. Ele reduz o DIP a uma
dimensão exclusivamente formal, ignorando as suas dimensões materiais e subjetivas. Além disso,
nem todas as fontes do DIP lhe são privativas. O costume, por exemplo, é uma fonte do Direito
Internacional, mas não se distingue essencialmente do costume no Direito interno, o que impede a
sua classificação como uma fonte exclusivamente internacional.

Crítica – todas estas posições, apesar de válidas, são incompletas. Isto acontece porque reduzem
uma realidade vasta que é a realidade internacional
​ ​
Pretende-se então agora, apresentar uma definição aberta, multidimensional e dinâmica daquilo que
é o DIP, este define-se então como ordenamento jurídico formado por normas e princípios que
regulam as relações jurídico-públicas próprias da sociedade internacional, enquanto substrato
subjetivo, relacional e material

Elementos constitutivos desse conceito:


• Formal – Conjunto de princípios e das normas, com conteúdo jurídico, que entre si, se articulam
sistematicamente, formando um ordenamento normativo;
• Subjetivo – os membros da sociedade internacional que mutuamente estabelecem relações e
vinculações de coordenação e de subordinação;
• Funcional – o estatuto jurídico-público das pessoas jurídicas envolvidas;
• Material – matérias abrangidas pela regulação em causa, imputadas à órbita das relações
internacionais em função da sua intencionalidade, que assim escapam do domínio interno, que
privativamente se reserva aos sujeitos quando atuam ao nível dos seus Direitos internos.

A questão da juridicidade do DI. É uma ordem jurídica autônoma, pois tem autonomia dogmática e
regulativa. Não é um ramo de direito.

Traços Fundamentais

-​ O Fragmentarismo do Direito Internacional

O Direito Internacional Público (DIP) caracteriza-se pelo seu fragmentarismo, o que significa que a
sua regulação normativa não se estende de forma homogénea a todas as matérias que passam para
a sua esfera de influência. Este fragmentarismo pode ser analisado sob duas perspectivas principais:

a. Um fragmentarismo horizontal, que se determina pela ausência de uma regulação sobre os


assuntos conexos com aqueles que, em cada momento, já obtiveram essa regulação, surgindo assim
um ordenamento jurídico disperso e intermitente;

b. Um fragmentarismo vertical, que espelha a circunstância de, quanto a certa matéria, o Direito
internacional normalmente estabelecer orientações mais gerais, não cuidando de efetuar o
tratamento normativo exaustivo da problemática sobre o que incide, tal sendo deixado à intervenção
do Direito Interno.

-​ O policentrismo do Direito Internacional

O policentrismo é a característica mais preponderante do DIP.


O dip é policêntrico quanto às fontes normativas e às entidades subjetivas de onde emanam as
normas e os princípios jurídicos internacionais.

Quanto às fontes normativas, pode se afirmar que variadas são as fontes de DI relevantes, tendo por
bases os tratados internacionais (acordo de vontades) e o costume internacional (força da
convivência espontânea na comunidade internacional).

Já quanto às entidades subjetivas de onde emanam as normas e os princípios jurídicos


internacionais o policentrismo é influenciado pelo caráter plural do DI, com a multiplicidade e a
chegada de novos sujeitos e de domínios do DI.

Esta multiplicação dos sujeitos internacionais começou por ser apenas quantitativa, através do
aparecimento de novos Estados, já no século XIX, num movimento que atingiria o seu auge com a
descolonização da segunda metade do século XX. Mas, rapidamente, essa multiplicação passaria a
ser qualitativa, com o emergir na cena internacional de novos sujeitos, distintos dos Estados, tais
como organizações internacionais ou os próprios indivíduos.

Relações Jurídicas Internacionais

Cooperação/coordenação (prossecução de interesses próprios e comuns de sentido unívoco)


Reciprocidade (prossecução de interesses próprios correlativos – relação sinalagmática)
Subordinação (prossecução de interesses comuns – relação hierárquica)

(complementar com a sebenta)

DI e figuras afins

-​ Direito Internacional e Moral internacional

A realidade internacional deixa-se influenciar pela moral, não vivendo apenas de proposições
jurídicas.

Apesar de as relações internacionais serem progressivamente menos sensíveis à Moral


Internacional, ao ritmo de que estas se materializam e o jogo de poderes entre grandes potências se
intensifica; não se pode deixar de identificar algumas regras relevantes da Moral Internacional:
perdoar a dívida internacional de Estados em desenvolvimento e o apoio humanitário às
populações vítimas de flagelos e de conflitos. Estas regras apontam para para práticas de
excecional crise.

-​ Direito Internacional e cortesia internacional


(tapete encarnado na receção dos governantes estrangeiros)

A cortesia é uma ordem em que encontramos regras entre os sujeitos que assentam na afabilidade,
na amizade que favorecem o fluir das relações internacionais, criam afinidades, mas que não têm
uma natureza jurídica – não são obrigatórias e o seu desrespeito não implica sanções jurídicas,
apenas sociais (ex.: cortar de comunicações).
No entanto, existe um protocolo diplomático que está convencionado e o seu desrespeito implica
sanções jurídicas, criado após a Convenção de Viena. É um exemplo de cortesia internacional a
utilização do tapete vermelho na recepção de governantes estrangeiros.

-​ Direito Internacional (rege relações jurídicas entre sujeitos de direito público, mas que são
sujeitos de direito internacional) e Direito Internacional Privado (regula relações jurídicas
entre sujeitos privados. Acolhe conjunto de princípios e normas jurídicas que regulam as
questões jurídico-privadas internacionais, devendo referir a lei aplicável ao caso concreto).

O direito Internacional Privado apesar de próximo ao dto internacional, não pode ser assimilado a
este.

Para além do mais, o direito internacional privado pode não ser considerado nem privado (escolhe de
entre várias opções a legislação aplicável ao caso, convocando vários ordenamentos jurídicos
estaduais com auxílio a uma determinação por fontes do direito público, que não resulta da vontade
das partes) nem internacional (através deste se seleciona a aplicação de um direito que é interno).

Atualmente, já há mais harmonização, até porque é possível haver normas criadas entre sujeitos
públicos que visam regular entes privados internacionais – como é o caso da União Europeia,
considerado um sujeito internacional.
(estados federados podem assumir contratos internacionais com outros Estados) (cada ordenamento
de cada estado tem os seus princípios sobre o direito internacional privado)

-​ Direito internacional e relações internacionais

As relações internacionais são o ramo da ciência social que tem como objeto as relações que se
estabelecem entre os sujeitos de direito internacional, entre atores do quadro internacional com
vocação descritiva e analítica e não jurídica, Qual o comportamento dos atores internacionais? É
importante entender as relações internacionais

-​ Direito Internacional e Direito da União Europeia

O direito da UE tem a sua base um fundamento do direito internacional, nasceu através de tratados
entre Estados europeus para a persecução de certos objetivos europeus.

Anteriormente à criação da UE houve múltiplas propostas, iniciaram com o objetivo de constituir uma
federação Estadual Europeia apesar de não o ser.
Atualmente tem características de união federal que no âmbito das relações aproximam-ao direito
estadual de tipo federal, mas não se confunde como tal.
A UE é uma organização internacional com 1 quadro orgânico próprio, fontes de direito próprio. Dado
a essa natureza única, muitos dizem que não é uma organização internacional como aquelas que
foram se multiplicando ao longo dos últimos séculos.

Hoje em dia, o direito da UE tem uma natureza híbrida, uma vez que conjuga aspectos do direito
internacional e do direito estadual.

Classificações do Direito Internacional

Critérios de classificação: Estes não se opõem uns aos outros.

-​ Âmbito de aplicação que é bastante vasto, abrange possivelmente todos os sujeitos de


Direito internacional

O DI comum também pode ser designado como DI geral. Define-se como o conjunto de normas de
direito internacional que vincula a generalidade de sujeitos internacionais independentemente da sua
natureza ou situações.
ex:.respeito pela independência e soberania dos Estados; estão essencialmente codificados em
convenções internacionais mas a maioria desenvolveram-se e afirmam-se através do costume
vs
Já o DI particular tem como destinatário um conjunto limitado de sujeitos de direito internacional,
através de regras estabelecidas por convenções ou consuetudinariamente,​
ex: regras aplicadas entre territórios fronteiriços, podem apensar abranger 2 sujeitos ou vários
sujeitos a nível regional

-​ Hierarquia
O direito internacional fundamentou-se entre Estados soberanos, independentes no plano
internacional. Mais tarde criou-se instituições com poder para impor regras a estes Estados.
Não podem os sujeitos de direito internacional afastar pela sua vontade os princípios imperativos do
direito internacional; Discute-se qual deve ser esse dto imperativo aos Estado.

O DI fundamental define que a comunidade internacional reconhece que há um conjunto de normas


que prevalecem independentemente da vontade dos estados e, nesse sentido, essas, pelo menos,
são de hierarquia superior.
ex: art 103 da carta, pressupõe que esta prevalece sobre todos os outros, não é fruto da vontade
concreta dos estados, mas provém da da vontade da comunidade internacional.
vs
DI ordinário está sujeito às normas fundamentais.
ex:, apesar de ainda não ser o modelo de relação jurídica fundamental na ordem internacional, já
encontramos relações de subordinação.
-​ Âmbito material:
DI geral define-se pelo conjunto de normas que rege as relações internacionais como regra
v.s
DI especial é o conjunto de normas que para o mesmo objetivo regular as relações entre os Estados
de modo distinto, afasta as regras gerais.
ex: a exceção de não cumprimento, é um meio de autotutela dos Estados e ainda uma uma regra
internacional, no entanto não pode acontecer na UE pq o direito da UE têm regras especiais. Entre
geral e especial, prevalece a especial)

-​ Modo de criação:
DI espontâneo é criado a partir de um comportamento, da ação dos sujeitos do direito internacional
que não é deliberado para a criação de normas mas da qual podemos deduzir a criação de normas.
ex: costume.
VS
DI convencional é então, aquele que resulta de declarações de vontade expressa de criação de
normas jurídicas, não têm de ser obrigatoriamente escritas, não têm obrigação de forma especial.

-​ Forma:
DI não escrito é utilizado mais nos atos unilaterais,
ex: renúncia de um Estado a exercer x comportamento através de uma conferência de imprensa que
permitiu a criação de um regime jurídico com uma renúncia ao comportamento.
vs
DI escrito (generalidade)

Capítulo 2- O fundamento do Direito Internacional. Teses em presença

Fundamento do Direito Internacional

-​ A recusa de juridicidade do DI
É uma Moral internacional; é uma ordem de força.

Nos séculos passados, duvidava-se a existência de um verdadeiro direito internacional. Alguns


autores defendem, assim, que o direito internacional não é um verdadeiro direito, mas sim um
conjunto de normas de condutas éticas a que os sujeitos aderem de forma voluntária para melhorar a
convivência e o interesse. Conjunto de regras que fazem parte do jogo de poderes entre os Estados.

No entanto, há um corpo normativo internacional jurídico que não é estritamente moral. Possui
órgãos para criar direito internacional apesar de não conseguirem de plena forma impor-lo.

Apesar de se ter já verificado a juridicidade do DIP, procura-se agora provar o seu fundamento de
obrigatoriedade. Para tal, originaram diversas doutrinas:

-​ Direito imperfeito ou incompleto


Alguns autores defendem a tese que o Direito Internacional é imperfeito ou incompleto, em virtude da
inexistência de um legislador, polícia, ou juiz global que efetive o DI. Apesar de não incorreta, esta
posição é criticável, porque assume que o DI deve ter uma configuração igual à do Direito Estadual.
Ademais, podemos considerar a existência de legisladores (os Estados e as OIs, produtoras de
direitos convencionais e atos jurídicos), tribunais, e até polícia (o Conselho de Segurança da ONU,
que têm possibilidade de intervenção em assuntos de paz e segurança internacional). A diferença
assenta em que a ordem jurídica internacional depende do consenso dos seus sujeitos.

Apesar de se ter já verificado a juridicidade do DIP, procura-se agora provar o seu fundamento de
obrigatoriedade. Para tal, originaram diversas doutrinas:

-​ Doutrinas voluntaristas (o seu fundamento e validade assentam na vontade dos Estados)


associadas ao positivismo jurídico.
Os voluntaristas defendem que é através da vontade dos Estados que se dá a obrigatoriedade das
normas internacionais.

“concessão comum de que é a vontade dos Estados que anima a obrigatoriedade das suas normas.
Deste modo, o sistema jurídico-internacional é o reflexo da manifestação da vontade dos Estados
que consentiram no estabelecimento de relações e vinculações, as quais obrigam porque foram
queridas”.

Assim, a realidade internacional define-se pelo conjunto da vontade dos Estados que consentiram
integrar relações e vinculações, das quais decorrem obrigações.

Entre a doutrina voluntarista, encontram-se:


-​ Teoria do ‘Direito Estadual Externo ( Philippe e Albert Zorn, Max Wenzel). O direito
internacional é um ramo do direito estadual que se projeta na esfera externa. É a posição
mais “estadual” sobre o DI. Defende que o DI nada mais é do que uma projeção externa da
vontade dos Estados. – O Direito permaneceria estadual e seria capaz de se vincular e
desvincular o Estado a seu bel-prazer, negando-se uma heterolimitação normativa.
(defendida por Philippe e Albert Zon, Max Wenzel – séc. XIX)

-​ Teoria da ‘Autolimitação do Estado’ (Jellinek). O estado soberano reconhecendo uma


realidade que extravasa o espaço da sua soberania auto limita essa soberania nesse espaço
que já não é da sua jurisdição soberana. Através das práticas que instituem costume e que
resultam das ações dos Estados ou através de convenções de estados que limitam a sua
ação cria-se as normas que regem esse plano. No entanto, permite a auto desvinculação dos
Estados, isto acontece porque sendo o Estado absoluto, só pode se verificar a vinculação
dos Estados pela sua própria vontade a aceitá-la, o que admite que estes podem
desvincular-se se assim desejarem.

-​ Teoria da ‘vontade comum dos Estados’ (Triepel). o DI também é autónomo, mas tem o seu
fundamento numa convergência da vontade comum dos estados, baseado na prossecução
de interesses comuns e próprios que serve como fundamento do DI. Assim, os Estados não
se podem desvincular unilateralmente por sua vontade, mas nos termos que a vontade
comum delimitou. O Dr. Bacelar Gouveia refere “implica que haja, não já uma autolimitação
individual de cada Estado, mas a afirmação de uma vontade em conjunto com as dos outros
Estados, dando todos um acordo em simultâneo, comum, se e enquanto essa limitação
normativa se mantiver na esfera internacional, com base na prossecução de objetivos
partilhados”. Esta teoria também tem o seu inconveniente: existem tratados de vigência
objetiva, independentemente da vontade posterior dos estados, ou até casos de tratados
baseados em vontades unilaterais mais relevantes

-​ A doutrina NÃO voluntária é mais recente e explica a razão de ser da obrigatoriedade do


DI. Apesar da diversidade de explicações ser grande, todos concordam com a conclusão
geral de que não é por ser querido que o DI se torna obrigatório. As principais teorias a
salientar são

-​ Tese normativista. Defendida por Kelsen.

Reconhece a autonomia do Direito Internacional não necessariamente de uma manifestação de


vontade dos Estados, mas no reconhecimento de um processo próprio de criação normativa.

Segundo esta teoria, o fundamento da obrigatoriedade do DI começou por ser o princípio Pacta Sunt
Servanda (após celebrado, o contrato deve ser cumprido ponto a ponto). Mais tarde substituído por
Consuetudo est servanda: uma norma pressuposta através da lógica e não criada.

“Nesta norma consuetudinariamente criada têm o seu fundamento de vigência às normas jurídicas do
Direito Internacional criadas por tratados. Esta norma é usualmente formulada no princípio Pacta
Sunt Servanda. Na norma fundamental pressuposta do Direito Internacional que institui o costume
dos Estados como facto gerador de Direito exprime-se um princípio que é o pressuposto fundamental
de todo o Direito.” - Kelsen
-​ Teses sociológicas

-​ A sociabilidade internacional (Scelle)

Veem a obrigatoriedade do DI através da vivência internacional.

Assim como o direito estatal nasce da vivência entre os cidadãos, o DI nasce da vivência entre os
sujeitos da realidade internacional.

Assim, sendo a vivência internacional geradora da necessidade de leis e normas que possam
garantir a coexistência, numa projeção biológica da necessidade da ordem social, assim aplicada à
ordem internacional , de acordo com a ideia da sociabilidade internacional.

-​ O Institucionalismo (Santi Romano)

A teoria anterior evoluiria para a ideia de que o Dto em geral e o DI não seriam mais do que a
concretização de um desejo de ordenação em torno de instituições sociais, que requerem um
ordenamento jurídico próprio.

-​ A irrelevância do fundamento do DI (Ago)


Há uma corrente mais radical de sociólogos que recusam a relevância das teorias de fundamento do
Direito Internacional.

Críticas:
• Existem princípios gerais que se impõem, apesar da vontade dos Estados, por exemplo, o artigo
38.o do Estatuto do TIJ reconhece a existência de princípios gerais de Direito reconhecidos pelas
nações civilizadas e estes têm de facto uma substância normativa.

• Além dos Estados, existem outros sujeitos autónomos de Direito Internacional como as
Organizações Internacionais.

• Nenhuma das teorias reconhece o ius cogens (norma perentória imperativa do direito internacional).

-​ As teses jusnaturalistas.

O jusnaturalismo faz apoiar a obrigatoriedade do direito internacional no respeito do Direito Natural,


hierarquicamente superior ao poder dos Estados, pelo que estes devem obediência ao Direito
natural.

-​ O jusnaturalismo teológico ontológico (Le Fur, Gonçalves Pereira)


– legitimados por Deus, esta ordem social é o reflexo da ordem divina, subjacente a todos os
desenvolvimentos humanos.

-​ O jusnaturalismo axiológico (Verdross, Afonso Queiró, Silva Cunha)


§ o jusnaturalismo axiológico assente na dignidade humana situada e concreta (Bacelar Gouveia). O
seu fundamento são “os ditames suprapositivos que a dignidade da pessoa humana permite
deslindar, numa vocação universalista e permanente que atenda à sua importância singular no
contexto da convivência social internacional.

Críticas:
• Crítica relativista – estes valores reduzem-se a uma essência residual, muito pouco densa devido à
diversidade cultural, ideológica, etc., e, portanto, os fundamentos podem ser insuficientes
• Ambiguidade normativa – existe alguma ambiguidade normativa entre a ética e a exigência jurídica

-​ Teorias contemporâneas
1) O neo-contratualismo liberal (Rawls)
Assenta em 8 princípios:
• Independência dos povos
• Igualdade
• Legítima defesa
• Dever de não intervenção na esfera interna
• Pacta sunt servanda
• Respeito por uma série limitada de direitos humanos (núcleo substantivo, relativamente limitado,
para que se reconheça que é consensual – conjunto de direitos humanos que corresponde à ideia de
dignidade)
• Respeito pelo direito da guerra (condições e limites)
• Dever de apoio humanitário

Articula os povos liberais (organizados segundo o consenso original e subsequente, definido na


“Teoria da Justiça”) e os povos decentes (organizados segundo 4 condições fundamentais: sociedade
institucionalizada de forma pacífica, com reconhecimento de diferentes forças sociais e amante da
paz internacional; estado de direito, fundado na lei e numa~ideia de justiça; com reconhecimento de
um mínimo de direitos humanos) numa “utopia realista”.
Críticas:
• artificialidade de uma realidade internacional que ignora a interdependência e o domínio, bem como
os fatores das relações internacionais que promovem a desigualdade e, desse modo, limita-se a
legitimar o statu quo;
• ignora o indivíduo e até a não coincidência povo/Estado.

2) O liberalismo plural (Slaughter)​

Liberalismo trans nacionalista, reconhece que a realidade internacional não é formada só por
Estados e que mesmo os Estados têm interesses diversos, a esfera internacional desenvolveu-se
com múltiplos atores no Direito Internacional.

Conceção “bottom-up” assente na interação racional/utilitária dos diferentes atores sociais, indivíduos
e grupos, que definem as preferências estaduais numa realidade de interdependência (Moravcsik,
1997) e com múltiplas fontes normativas e de diversa natureza em 3 níveis de desenvolvimento
dinâmico entre elaboração e a implementação na esfera internacional e na doméstica:
• privado/transnacional – o nível dos sujeitos de Direito Privado na comunidade internacional
• governamental/transnacional – o nível das Organizações Internacionais
• interestadual – a participação dos Estados

Propõe o recentramento do Direito Internacional das relações interestaduais para a tutela dos direitos
humanos, a intervenção humanitária pragmática, numa lógica de complementaridade das instituições
internacionais em relação às nacionais.

O seu maior contributo foi o reconhecimento do papel crescente de corporações, ONGs e outros
sujeitos privados na criação de Direito Internacional. Porém, ao extenuar fronteiras e criar escalas e
estruturas de relacionamento e processos comunicativos e produtivos, estas transformações turvam
os limites de responsabilidades e competências, dissipando poder (entre Estados, organizações
internacionais, empresas, ONGs, indivíduos, associações) e encolhendo os espaços de exercício e a
intensidade das formas tradicionais de autoridade, produzindo, em síntese, como efeitos últimos, a
fragmentariedade e a descentralização.

3) Teses deliberativas e da ética comunicativa (Habermas)


Após a II guerra e, especialmente, no último quartel do séc. XX, assiste-se a uma reconfiguração
(restrição) da soberania e ao desenvolvimento da governança internacional com estruturas de
cooperação e integração global e regional em múltiplos domínios (da promoção dos direitos
humanos a numerosos domínios económico-sociais e jurídicos), como resposta regulatória para a
crescente interdependência.

A necessidade de comunicação entre os vários espaços político-cultural- religiosos impõe-se e só


uma concepção cosmopolita pode fundamentar o Direito Internacional.

A legitimação desse crescente poder político internacional exige numa perspetiva constitucional,
ainda que não possa replicar o modelo democrático nacional-estadual, mas deve antes articular
novos modos de legitimação dessas estruturas de governança internacional e os modos
tradicionais de legitimação democrática-constitucional dos Estados. A proposta de um
“sistema/constelação” em 3 níveis (multinível) e não de um “governo mundial”:
• Nível global – a existência de uma Organização Internacional que supervisiona o cumprimento do
Estado das suas funções de garantir a segurança e os direitos dos seus cidadãos – papel que tem
sido desempenhado pelas Nações Unidas;
• Nível transnacional/funcional heterárquica – assente nos vários acordos internacionais setoriais, no
qual haveria simultaneamente participação do Estado, das Organizações Internacionais, ONGs e
outras pessoas coletivas do direito privado, no qual se encontram a nível paritário de igualdade;
• Nível estadual – onde, numa ordem jurídica pluralista, os diferentes Estados participam
democraticamente da criação de um Direito Internacional cosmopolita, através dos seus órgãos
representativos, como a Assembleia Geral das Nações Unidas. O objetivo (utópico) seria, a longo
prazo, a criação de um Parlamento Global onde estivessem representados, não só os Estados, mas
os cidadãos de todos os Estados.
Tem como condições a construção de um “espaço público comunicativo global” e uma reforma com
reforço do acesso e do poder de outras instâncias de controle, como o TIJ.

Críticas – Apesar destas estruturas já existirem, não existem no nível de integração e cooperação
propostos pelo autor daí que se fale numa verossimilhança das condições pressupostas. Não basta
haver condições para uma participação racional, é necessário que haja uma gramática básica
comum, aquilo que são os valores fundamentais, sob pena de não podermos ter uma participação
racional. A proposta é demasiado utópica.

CAPÍTULO 3- AS FONTES DO DIREITO INTERNACIONAL.


O art. 38.º ETIJ e as fontes de do DI

Assim como todos os restantes setores jurídicos, o DI conhece mecanismos que dão origens às suas
normas, ou seja, as suas fontes.

As fontes de DI definem-se pelo “modo de produção e revelação de regras jurídicas internacionais”.

As fontes do DI podem ser diversificadamente classificadas:


-​ Fontes mediata/secundárias e imediatas/primárias do Direito. Segundo Bacelar Gouveia esta
classificação não nutre sentido, uma vez que entende que ou as fontes são direitas e fazem
revelar normas ou não são fontes uma vez que delas nada se extrai. Logo, apenas fontes
imediatas são para Bacelar Gouveia, verdadeiras fontes de DI.
-​ As fontes imediatas revelam normas jurídicas, são estas, o costume, as convenções
ou tratados internacionais, os princípios gerais de direito e os atos unilaterais.
-​ As fontes mediatas ajudam a encontrar normas jurídicas mas não se retiram
diretamente delas. Ex: jurisprudência doutrinária.
-​ Fontes formais e fontes materiais. Para Bacelar Gouveia esta classificação não é satisfatória
uma vez que considera que só as fontes formais são verdadeiras fontes.
-​ As Fontes formais têm reconhecida pelo sistema jurídico a capacidade de criarem
direito.
-​ As fontes materiais não beneficiam desse reconhecimento mas acabam por
influenciar e modelar o sentido da norma jurídica contribuindo para que se atenue a
distinção entre a criação e a aplicação da norma jurídica. ex: jurisprudência e
doutrina
-​ Fontes espontâneas (costume, princípios gerais do direito) e fontes convencionais
(convenções ou tratados internacionais) e fontes autoritárias/unilaterais (atos dos Estados e
das OI).

A questão das fontes não deve ser tratada quantitativamente (se são muitas ou poucas), mas sim
qualitativamente (se são ou não fontes legítimas de produção do Direito).

Em virtude do caráter fragmentário e policêntrico do direito internacional não existe uma constituição
ou uma norma que apresenta o elenco das fontes de direito internacional. Perante tal situação o que
a doutrina faz é recorrer ao art 38 do ETIJ (estatuto do tribunal internacional de justiça). Esta norma
determina as fontes a que o tribunal internacional de justiça irá recorrer para resolver um conflito que
seja submetido à sua apreciação.

“1. O Tribunal, cuja função é decidir, de acordo com o Direito Internacional, os litígios que lhe sejam
submetidos, aplicará:
​ a) as convenções internacionais, gerais ou especiais, que estabeleçam regras
expressamente reconhecidas pelos Estados em litígio;
​ b) o costume internacional, como prova duma prática geral aceite como de direito (
​ c) os princípios gerais reconhecidos pelas Nações civilizadas;
​ d) sob reserva do disposto no artigo 59.º, as decisões judiciais e a doutrina dos publicistas
mais qualificados dos diferentes Estados, como meios auxiliares para a determinação das regras de
direito.
​ 2. Este artigo não prejudicará a faculdade do Tribunal de, se as partes estiverem de acordo,
julgar ex aequo et bono.” (referência a decisões ex aequo e bono que não corresponde à relevância
da equidade).

No entanto, o art 38 do ETIJ está longe de ser um documento satisfatório no que toca à transcrição
de fontes de DI, pelo que, a este são apresentadas algumas críticas:
-​ O art 38 não esgota as fontes de direito internacional nem é a única norma que devemos ter
em conta, pois há os tribunais internacionais que nos seus estatutos que possuem normas
do género, nomeadamente o art 21 do estatuto de Roma do tribunal penal internacional.
-​ Nem todas as fontes aí previstas são fontes imediatas de direito internacional e portanto,
para bacelar gouveia não serão verdadeiras fontes.
-​ Este art não cria uma hierarquia de fontes
-​ Há outras fontes de direito internacional que o art não refere, sendo de questionar a
relevância daquelas que não são mencionadas.
-​ É um critério orientativo e não vinculativo,
-​ É um artigo que está desatualizado uma vez que a distinção entre nação civilizada e não
civilizada terminou com o período contemporâneo.

Para além disso, enfrente criticada por excesso e por insuficiência:


-​ 1) Crítica por excesso
Quando se fala dos princípios gerais do direito, não podemos admitir que são fonte de direito
enquanto elementos de suporte, de revelação ou de criação das normas, porque eles próprios são as
normas.

A questão é que pela própria natureza dos princípios estes têm uma autonomia da sua informação
independentemente da fonte onde estão plasmados. Alguns posicionaram-se pelo costume, outros
foram plasmados em tratados onde foram enunciados esses princípios ex-novos.

Outra questão é a decisão ex aequo et bono (art.o 38.o no2), a equidade é uma forma de resolução
casuística, não uma norma, pois não tem a característica da generalidade e da abstração. Tem uma
natureza individual e concreta, não sendo uma fonte de normas. Equidade não se confunde
necessariamente com ex aequo et bono, principalmente, no contexto internacional, por vezes esta
surge como equidade. A equidade referida no direito internacional corresponde a um princípio auxiliar
que se baseia naquilo que são os fins e os imperativos do próprio ordenamento jurídico, no fundo,
trata-se de um princípio semelhante ao princípio da proporcionalidade.

-​ 2) Crítica por defeito

Numa realidade em que temos um aparecimento exponencial nas últimas décadas de novos sujeitos
internacionais que são as OI estas adotam atos nos quadros dos seus objetivos e competências que
são atos unilaterais, mesmo que estes possam resultar da decisão de órgãos em que participam
representantes dos vários estados. (não confundir estados com representantes dos estados).

Deste modo, critica-se também o artigo 38.o por não enquadrar os atos unilaterais dos Estados e das
Organizações Internacionais.

Além disso, a jurisprudência e a doutrina, não são criadoras, mas são reveladoras de normas e
princípios, a primeira com força vinculativa inter pares, pelo que parece válido considerá-las como
fontes ainda que secundárias.

-​ 3) Crítica à formulação utilizada “comuns às nações civilizadas”

O artigo apresenta uma denominação discriminatória, mas que, no entanto, não tem significado atual.
Esta expressão define que há povos civilizados outros não, mas que, no entanto, é apenas um
resquício da história colonialista (sendo que este artigo foi elaborado em épocas onde o colonialismo
ainda era uma realidade, pelo que se indaga se se deve eliminar esta primeira parte, de forma a não
levar a más interpretações).

Todas estas críticas levam a uma certa desvalorização do artigo, no entanto, não o tornam totalmente
inútil, pelo que ainda é considerado na ausência de outros prefeitos mais adequados.

Fontes primárias e fontes secundárias.

Fontes primárias (revelam normas jurídicas). Segundo Bacelar Gouveia, são estas as “verdadeiras”
fontes normativas de DI
​ - Costume
​ - Tratados internacionais
​ - Atos unilaterais dos Estados e OI

Fontes secundárias (ajudam a encontrar normas jurídicas). Segundo Bacelar Gouveia são apenas
pretensas fontes de Direito Internacional
​ - Jurisprudência
​ - Doutrina (caso ‘Plataforma continental’ 1969, RFA v. Dinamarca e Holanda, pp. 36-37).

Costume

O costume tem a sua definição consagrada no art 38 n 1, b) do ETIJ.

O costume é composto por dois elementos:


-​ corpus: elemento material, corresponde à repetição de uma conduta ativa ou omissiva.
Não há um critério temporal fixo para a formação do costume. No entanto, existe a proposta de que a
prática deve ter ocorrido cada vez que os sujeitos tiveram oportunidade de a manifestar e deve ter
uma caráter uniforme
-​ animus: elemento psicológico, corresponderá à convicção de obrigatoriedade de adotar essa
conduta.
(completar com setenta deste ano).
Ou seja, o costume define-se como repetição de uma conduta acompanhada com a convicção da
sua obrigatoriedade. Neste será mais difícil de provar o animus.

-​ problema do objetor persistente: se a prática for realizada por diversas pessoas mas apenas
algumas a contestarem, isso pode não ser significativo. O objetor persistente é aquele que,
ao longo do tempo em que uma prática está a desenvolver-se e a formar se uma norma
consuetudinária, desde logo objeta essa prática, considerando que ela não é conforme o
Direito – há uma recusa da prática, mas pode haver desvinculação do objetor persistente,
desde que o tenha manifestado de forma expressa

-​ presunção do iuris tantum: ao se verificar o corpus, e nada apontando em contrário, então,


admite-se que também se formou o animus.

Segundo o art 38 é a prova de uma prática geral aceite como direito.


No entanto:
-​ não se trata da prova de uma prática e sim de uma prática em si sendo que é a própria
prática que se vai elevar a norma jurídico ou internacional
-​ não tem de ser aceite pelo direito, na medida em que a sua característica principal reside no
facto de nascer de forma natural ou espontânea,

Dependendo do seu âmbito de aplicação, o costume pode ser geral, regional ou local- particular
-​ O geral obriga todos os sujeitos internacionais, ou seja, vincula todos os sujeitos que
participaram na sua formação e aqueles que não se opuseram aquela prática.
-​ regional: obriga um certo conjunto de sujeitos
-​ local: só tem aplicação num determinado Estado.

O costume pode ter três sentidos:


• Secundum tractum – um costume de certa forma paralelo ou com sentido semelhante a uma
convenção, ocorre geralmente quando o costume é a base da convenção que vem desenvolver esse
costume;
• Praeter tractum – serve para preencher aquilo que são questões que o tratado não resolve ou não
prevê, não o contraria, mas vai para além daquele.
• Contra tractum – se o âmbito da norma for o mesmo, se vincular os mesmos sujeitos, a regra é
norma posterior derroga norma anterior, logo o costume que contrarie a regra do tratado, pode
derrogar a norma deste tratado e vice-versa. Um exemplo é o que resulta na Carta da ONU no artigo
27.o

Assim, para termos um costume internacional tem de estar em causa na prática levada a cabo por
sujeitos internacionais de modo constante e uniforme, através de por exemplo, atos dos órgãos
internos, incluindo os tribunais, e externos dos sujeitos de DI.

Tratados Internacionais- ART 38 n 1 a) DO ETIJ

Podemos utilizar múltiplas designações para os tratados: acordo, pacto, convênio, estatuto,
protocolo, carta, constituição, entre outras.

Nos nossos dias, os tratados são a principal fonte de DIP.

Definição de Tratado, retirada da Convenção de Viena dos Tratados entre os Estados


– “um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional,
quer esteja consignado num instrumento único, quer em dois ou mais instrumentos conexos, e
qualquer que seja a sua denominação particular”. Contudo, existem tratados que vão para além
desta definição, a estes não será aplicável a convenção de Viena.

Esta definição é demasiado restritiva, pois só estão abrangidos na convenção de Viena os acordos
escritos entre os Estados, ora, nós podemos ter convenções e acórdãos que não sejam escritos, o
que importa é que sejam a conjugação da vontade de pelo menos dois sujeitos do Direito
internacional. Faz sentido que sejam por escrito por razões de certeza jurídica, mesmo que não
esteja patente num único instrumento. Além disso, prevê apenas os acordos entre Estados, mas
existem outros sujeitos de direito internacional.

Deve definir-se como: Acordo de vontades entre sujeitos de DI, agindo nessa qualidade, de que
resultam efeitos jurídico-internacionais.

Os tratados internacionais não se confundem com outras figuras afins


-​ Feixes de atos unilaterais: – são várias declarações de vontade unilaterais, das quais não
resulta um acordo, apenas uma tomada de posição simultânea de vários Estados São atos
unilaterais individuais, mas no mesmo sentido. Por exemplo, vários Estados reconhecem,
simultaneamente, a legitimidade de um Governo, ou protestam uma situação na comunidade
internacional.
-​ Acordos políticos: combinação de vontades formulada entre sujeitos internacionais, muitas
vezes sobre aspectos determinados da evolução futura da sociedade internacional, mas que
não está provida de efeitos jurídicos.
-​ gentlemen 's agreements: forma de acordo comum, a que não se conferem efeitos
vinculativos. São mais informais do que os Acordos Políticos e incidem, principalmente, na
ordem da moral e da cortesia internacionais.
-​ Acordos entre os Estados e sujeitos de direito privado: Celebram acordos com declarações
de vontade que vêm reger por exemplo de que modo esses particulares vão explorar um
dado mineral no Estado, mas devido à importância que estes sujeitos particulares têm
assumido a redação destes acordos assemelha se à redação de tratados. Estes acordos
estão ligados às ordens jurídicas internas, remetendo para elas, contudo, o Direito
Internacional vai reconhecendo algum relevo:
• A resolução 1803 da Assembleia Geral de 1962 – estabelece orientações e
princípios nesta matéria, que visam salvaguardar princípios fundamentais respeitantes ao
estatuto dos Estados e o respeito pela autonomia privada e vontade manifestada,
estabelecendo alguma proteção aos sujeitos privados.
• CIADI (centro internacional para a arbitragem de disputas sobre investimento) – o
objetivo é apoiar as partes em causa na resolução de diferendos. Este é um organismo
internacional, que adotou um conjunto de regras para serem aplicadas a este tipo de
acordos.

-​ Há ainda quem proponha a natureza dos “quase tratados”, dado o desenvolvimento de


mecanismos internacionais e de regras internacionais que incidem sobre estas relações
entre Estados e outros sujeitos, que têm uma ação e projeção internacional. Há esta
crescente internacionalização, mas ainda não são considerados tratados.

Tendo em consideração a incidência sobre o respetivo regime jurídico podemos elencar diferentes
classificações de Tratados.

® Tratados-contrato e Tratados-lei
Tratados–contrato: prevê obrigações para ambas as partes, uma parte é dependente da outra, e
cessa quando as prestações são cumpridas. As obrigações de cada uma das partes são distintas e
correspondentes entre si, havendo uma equivalência entre elas, pelo menos, juridicamente.

Tratados-lei: habitualmente, tem um número de partes muito extenso e, em alguns casos, até
indeterminado. Se não se vinculam, necessariamente, num primeiro momento um número elevado de
sujeitos, a verdade é que o que se pretende é instituir um regime normativo de um setor a que se
possa vincular um conjunto de sujeitos. Além disso, ao contrário do Tratado, não é um cruzamento
de declarações opostas, será, antes, um regime de interesses tendencialmente uniformes, isto é, há
direitos e obrigações associadas a vontades que serão tendencialmente idênticas.

Habitualmente, contêm um regime bastante exaustivo (por oposição a um tratado- quadro que
apenas estabelece os princípios a adotar, sem este grau de exaustão que estabelece um conjunto de
regras).

® Tratados multilaterais (várias partes) e bilaterais (duas partes apenas)

® Tratados abertos e tratados fechados


O critério prende-se com a admissibilidade de partes para além daquelas que celebraram o tratado
na sua origem. São tratados abertos quando um tratado após a sua celebração permite a adesão de
novas partes e são tratados fechados quando não o admitem. Por norma, os tratados bilaterais são
fechados, mas os tratados multilaterais poderão apresentar ambas as classificações.

® Tratados Gerais ou Tratados Restritos


Esta classificação prende-se com o âmbito subjetivo que eles podem ter. Os tratados gerais contêm
regras que são aplicáveis à generalidade dos sujeitos de Direito Internacional. Habitualmente os
tratados gerais são tratados-abertos e tratados-lei. Um exemplo de um Tratado Geral é a convenção
de Viena.

Por contraposição, os Tratados restritos são aqueles que ou porque são fechados ou, ainda que não
o sejam, não estão abertos à generalidade dos sujeitos de Direito Internacional, porque instituem
condições de acesso. É o caso da União Europeia em que o Tratado é aberto, pois admite a adesão
de novos membros, mas estes membros têm de cumprir determinados requisitos e, nomeadamente,
serem Estados Europeus).

® Tratados Solenes e Tratados Não-Solenes


Habitualmente, reservados para tratados com uma importância política superior, que correspondem a
domínios mais relevantes da soberania dos estados, ou a regimes mais extensos e abrangentes que
comportem uma vinculação muito importante para os Estados (ex.: tratado de adesão à SECA,
porque visava uma vinculação de natureza económica e política, com um objetivo de criação de uma
comunidade europeia).

Dada essa maior importância exige-se a ratificação do Chefe de Estado. Nos tratados não solenes
não se exige tanto, tem, apenas, de haver uma vinculação de um representante do Estado com
competência para tal. Estes últimos, são, frequentemente, designados por acordos. A CRP distingue
acordos e tratados segundo este princípio, uma vez que a forma de vinculação ao Tratado é distinta.

Atos jurídicos unilaterais

Não são referidos pelo art 38 do ETIJ, no entanto, tal não significa que não sejam igualmente
relevantes.

Dentro dos atos unilaterais dos Estados podem distinguir entre


-​ atos autônomos: apenas este são fontes de DIP. Atos que por si só produzem efeitos
jurídicos, são válidos e eficazes sem estarem dependentes de outros atos out fontes por si só
-​ atos não autônomos: surgem ligados a uma outra fonte de DIP, nomeadamente a
convenções internacionais. Inserem-se no processo de formação de outros atos ou decorrem
direta ou indiretamente de outros atos. Ex: reserva a uma convenção internacional.

Os atos unilaterais autônomos agrupam-se em 5 categorias:


-​ Notificação: ato pelo qual o Estado leva ao conhecimento de outro sujeito internacional um
certo facto ou intenção de onde decorrem certas consequências jurídicas.
-​ Promessa: compromisso assumido pelo Estado de no futuro adotar um determinado
comportamento concedendo vantagens a outro sujeito.
-​ Reconhecimento: através do qual o Estado constata que determinada situação é conforme
ao direito internacional, daí resultando determinados efeitos jurídicos.
-​ Protesto: ato praticado pelo Estado através do qual se constata que determinada situação é
contrária ao direito internacional.
-​ Renúncia: De acordo com Bacelar Gouveia é através da renúncia o Estado expressa a sua
vontade de fazer extinguir um direito seu, considerando que se diferencia da simples
situação de não exercício. Já para Maria Luísa Duarte a renúncia corresponde a uma
declaração do Estado pela qual este manifesta a sua vontade de não exercer determinado
direito, de abdicar determinado direito ou de transmitir esse direito a outro sujeito (abandono
de 1 território).

Existem, ainda, atos unilaterais não autónomos, nas palavras de Bacelar Gouveia, estes “são
previstos por outras fontes normativas, que executam ou concretizam, não retirando deles próprios a
sua força jurídico-internacional”. Isto é, dependem e são regulados por outra fonte de Direito
Internacional. Estes atos têm efeitos jurídicos internacionais, mas vinculam apenas o sujeito que os
formulou.

É o exemplo da Adesão, ato que corresponde à situação em que um sujeito, que não era parte
originária, se vincula posteriormente a uma convenção. Por regra, a adesão é realizada através de
um Tratado de Adesão, não sendo este tratado um ato unilateral na medida em que requer um
acordo entre o Estado aderente e as Partes.

Ainda assim, em alguns casos é possível a adesão realizar-se por ato unilateral. Além da Adesão,
temos também o exemplo da Denúncia de um Tratado, esta resulta do Direito de desvinculação dos
Estados.

Regime Jurídico dos atos unilaterais


1) A ausência de requisitos formais
O único requisito que se verifica é a exigência de publicidade. Contudo, esta possibilidade poderá ser
escrita ou oral. Além disso, considera-se que tanto o Chefe de Estado, como o Chefe do Governo e o
Ministro dos Negócios Estrangeiros são entidades relevantes de um Estado para afirmar uma
declaração do Estado com poder vinculativo. Em alguns casos também se poderá considerar outros
ministros ou representantes diplomáticos.

2) Vinculativos
Produzem efeitos jurídicos no sentido de obrigação ou de benefícios para um Estado ou para outros
sujeitos de Direito Internacional. Constituem compromissos que vinculam os Estados.

Os efeitos jurídicos vinculam quem os proferiu, exceto se o comportamento de outros sujeitos de


algum modo implicar que há uma vinculação a esses mesmos efeitos jurídicos internacionais, por
exemplo, aquando da proclamação do Presidente Truman quando reclamou jurisdição sobre a
exploração da plataforma continental em que outros sujeitos acompanharam a sua proclamação.

3) Irrevogáveis de modo arbitrário


São atos irrevogáveis de modo arbitrário, sendo que podem ser revogados, mas as condições têm de
ser interpretadas à luz do contexto e circunstâncias em que foram pronunciados. Por exemplo,
alteração das circunstâncias.
® Os atos jurídicos unilaterais que sejam contrários às normas gerais do Direito
Internacional com valor imperativo (ius cogens) não produzem efeitos jurídicos.

-​ Atos das Organizações Internacionais

Os atos unilaterais das organizações internacionais têm natureza distinta dos Estados,
nomeadamente, porque obedecem ao princípio da especialidade, na medida em que as suas
competências estão limitadas pelas atribuições dos seus tratados fundadores e, portanto, estes atos
não são autónomos.

Por outro lado, têm como função desenvolver o que está instituído nesses mesmos contratos.

Deste modo, as organizações internacionais não poderão produzir efeitos jurídicos através de atos
unilaterais que não respeitem as suas competências. Ultimamente estes têm sido muito valorizados.

• Atos de eficácia interna e externa


Os atos de eficácia interna são atos meramente organizativos, como os regulamentos de
funcionamento dos órgãos, não sendo aplicados a outros sujeitos de direito internacional. Já os atos
de eficácia externa destinam-se a produzir efeitos jurídicos seja de alcance geral, como os atos da
Assembleia Geral da ONU que vincula todos os Estados Membros, seja de alcance restrito que
vincula apenas alguns sujeitos conforme ocorre com os atos das instituições da União Europeia.

Podemos ainda encontrar atos de eficácia interna e externa, como o orçamento que financia as
Organizações Internacionais em que se estabelece a contribuição de todos os integrantes.

• Atos normativos e não normativos


Os atos normativos têm alcance geral e abstrato e os atos não normativos têm
como destinatários sujeitos individualizados e aplicam-se a situações concretas e
determinadas.

• Atos exequíveis e não exequíveis


Trata-se de atos exequíveis quando podem ser executados, ou seja, beneficiam de mecanismos que
permitem a sua efetivação junto da esfera jurídica daqueles que são por eles obrigados, por exemplo
atos de organização da União Europeia.

Por outro lado, os atos não exequíveis dependem de outros sujeitos de Direito Internacional, isto é,
de um ato complementar que visa dar-lhe efetividade e, por isso, são mais comuns.

• Atos perceptivos e programáticos


Os atos perceptivos destinam-se a produzir efeitos jurídicos vinculativos propondo-se a modificar os
regimes jurídicos de modo a criar obrigações jurídicas. Em contrapartida, os atos programáticos são
meras orientações ou declarações das quais não resultam efeitos jurídicos vinculativos para os seus
destinatários. É através destes atos programáticos que surge a problemática da soft law.

® A problemática da soft law


Atos dos quais não resulta um regime jurídico capaz de produzir efeitos que sejam imperativos, mas
que resultam de um quadro de coordenação que apela à adesão dos destinatários, sendo que, por
vezes, estes atos acabam por se desenvolver consagrando-se em atos de natureza vinculativa, por
exemplo, em Tratados.

As soft law, não são fonte de Direito, poderíamos dizer que se encontra na fronteira entre
aquilo que é direito e aquilo que não é. São soft law: as declarações feitas em conferências
internacionais; os acordos meramente políticos; os códigos de conduta; as declarações de princípios;
e os Livros Brancos. Entre estes elementos percebemos que todos exprimem uma certa
concordância acerca de uma matéria, isto é, exprimem o princípio de um compromisso sem, contudo,
introduzirem uma vinculação jurídica.

O soft law é relevante nos domínios do Direito Internacional em seja muito difícil obter o consenso
dos vários Estados. A matéria de excelência para exemplificar, atualmente, um destes campos, é a
matéria do ambiente, que é uma matéria que preocupa a generalidade dos Estados, mas não estão
reunidas as soluções para uma solução jurídica clara.

O soft law não substitui a regulação jurídica, não é essa a sua importância, não é uma alternativa ao
direito. Devidamente compreendido trata-se de uma técnica complementar à regulação jurídica
quando é impossível obtê-la. Soft law age como complemento quando é impossível obter uma
solução jurídica completa. Este complemento permite criar o ambiente adequado para, a médio
prazo, obter-se uma solução jurídica para a matéria em causa.

Exemplo: Durante as últimas décadas, há muitas declarações em que os Estados manifestam a sua
comum preocupação pela questão ambiental. Da comum preocupação não decorre nenhuma
consequência jurídica, mas gera-se um clima adequado para que, com a devida consciencialização
acerca da importância da regulamentação do ambiente, se obtenha uma solução.

CAPÍTULO 4- DI PARA ALÉM DAS FONTES FORMAIS.

Princípios gerais do Direito

Os princípios gerais do direito são igualmente elencados no art 38 do ETIJ.

“Os princípios gerais de Direito, reconhecidos pelas nações civilizadas”- art 38 do ETIJ.

Esta disposição suscita as maiores reticências quanto à respetiva aceitabilidade científica:


-​ discriminização inadmissível proveniente da expressão “nações civilizadas” que dá a
entender que existem 9 outras nações que não são civilizadas (distinção proveniente dos
tempos coloniais)
-​ os PGD não derivam de nações mas sim dos Estados.
-​ A referência a Estados desconsidera outros sujeitos do direito internacional que auxiliam na
descoberta destes princípios.

Os PGD correspondem a proposições gerais que indicam ao intérprete e ao aplicador de direito


Internacional uma determinada direção, em grande parte se concretizando através de outras normas,
que fazem dele uma aplicação normativa, ainda que possam ter uma aplicação autônoma.
No entanto, não fazem parte das fontes de direito internacional formal. ​

Numa perspetiva jusnaturalista defende que os PGD decorrem da própria natureza da ordem jurídica
internacional. Enquanto numa perspetiva voluntarista, pode-se entender que os PGD são o resultado
do consenso entre os sujeitos de DI sobre o seu conteúdo fundamental. (ver sebenta deste ano).

O TIJ declarou, no caso “Delimitation of Maritime Boundary in the Gulf Maine Area” (1984) que os
princípios (no DI) são normas. A diferença é que os Princípios são mais gerais e têm um sentido e
alcance menos definidos do que as normas. Porém, enquanto alguns princípios dispõem de
aplicação direta (como normas), outros só são aplicados indiretamente, servindo de base para a
criação de normas futuras ou como elemento de interpretação.

Inicialmente eram aplicados apenas eternamente ou seja entre os Estados, mas hoje aplicam-se
mundialmente (boa fé, caso julgado etc….).

Pode-se diferenciar, ainda que não seja consensual, princípios gerais comuns de princípios gerais
restritos. Segundo esta doutrina, certos princípios (como o Estado de Direito Democrático,
Pluralismo, etc.) seriam princípios, não de toda a comunidade internacional, mas de um número
restrito de Estados da comunidade. Recorde-se, no entanto, que no quadro das Nações Unidas, esta
diferenciação não existe, sendo que os PGD previstos na CNU ou em Resoluções da AG abrangem
igualmente todos os sujeitos.

Neste sentido podemos distinguir dois grupos de princípios


-​ Princípios gerais oriundos dos direitos internos: boa fé, abuso do direito, princípios
processuais e de prova, estoppel, princípios de direito privado (casos ‘Barcelona Traction’,
‘canal de Corfu’)
-​ Princípios gerais internacionais: proibição do uso da força, igualdade soberana dos Estados,
resolução pacífica dos conflitos, não ingerência, cooperação, igualdade de direitos dos povos
e autodeterminação (‘Declaração relativa às relações amigáveis e de cooperação entre os
Estados conforme a CNU’, AG 1970), reciprocidade, livre consentimento, liberdade dos
mares, responsabilidade

Funções dos PGD:


Os princípios gerais do direito desempenham uma função interpretativa e desempenho de uma
função integradora no sentido de integrar lacunas. Estão previstos para evitar que uma causa ficasse
sem resolução nas situações em que se constatasse que não existia uma norma consuetudinária ou
uma norma convencional aplicável ao caso.

-​ Legitimadora: os princípios sobretudo os de coloração ética, fazem questionar a legitimidade


material das norma ou de outros princípios que com eles estejam desconformes, podendo
provocar a respectiva invalidade material
-​ Interpretativa: os princípios permitem determinar referências, de entre várias soluções
hermenêuticas, de outro modo todas igualmente possíveis
-​ Integradora: os princípios possibilitam integrar lacunas de regulamentação, assim se
colmatando a ausência de critérios de decisão, derivada da falta de normas aplicáveis.
-​ Complementadora: os princípios têm a virtualidade de reguyaltavimente alargar a extensão
da aplicação do DIP

Qualquer uma destas funções podem ser desempenhadas pelos PGD, no entanto, as 3 últimas são
as mais diretas.

Já a primeira função afigura-se mais árdua, embora seja considerada inevitável pela avaliação
sistemática interna que necessariamente traz o dto internacional como por ser a maior utilidade que
se pode atribuir aos princípios que são de direito natural.

Normas de ius cogens: São normas peremptórias de DI, isto é, normas de valor reforçado, o
que significa que são normas imperativas e inderrogáveis.
A vertente mais importante é o facto de ser inderrogável (nem com a vontade das partes é possível
afastar uma norma de ius cogens).

Exemplos práticos (para melhor compreensão dos conteúdos):


▪ NÃO É IUS COGENS: dois Estados celebraram uma convenção internacional da qual decorrem
vantagens e obrigações para cada um. Esta convenção é fonte de DIP e vincula os Estados a
adotar determinada conduta (as suas normas são obrigatórias para os Estados). Contudo, havendo
acordo das partes, é possível alterar as disposições (afastando-se o princípio pacta sunt servanda).
Ora, isto significa que esta convenção não é norma de ius cogens.

▪ É IUS COGENS: Agora, consideremos uma norma de DI que determine a proibição do genocídio.
Tendo em conta esta norma, um Estado não pode praticar genocídio. Os Estados por acordo não
podem afastar esta norma: IMPERATIVA E INDERROGÁVEL, logo é de ius cogens.

Riscos.
Elencos possíveis: os arts.o 53o, 64o e 71o CVDT

-​ O reconhecimento do ius cogens - normas peremptórias do DI

A partir da 2.a metade do século XX, foi se reconhecendo princípios gerais do DI que não podem ser
afastados – normas inderrogáveis – às quais se chama ius cogens (direito cogente – de validade
absoluta). A expressão normas peremptórias também é usada frequentemente como sinónimo,
sendo normas internacionais com alcance universal (erga omnes), mas não necessariamente
inderrogáveis.

É com a CVDTE que o ius cogens é reconhecido num texto de valor convencional.
-​ parâmetro aferidor da validade dos tratados internacionais- art 53 CVDTE.
-​ parâmetros aferidos da vigência dos tratados internacionais- art 64 CVTDE.

Apesar de hoje ser reconhecida pela Jurisprudência Internacional e por convenções como a CVDTE,
é difícil determinar quais são todos os princípios que têm natureza de ius cogens. Entre os
argumentos invocados contra estes princípios, coloca-se o risco de petrificar o DI (prejudicando o seu
livre desenvolvimento), bem como a ideia de que certos princípios de ius cogens não são
consensuais entre toda a comunidade internacional e podem ter viés ideológico.

O TIJ só usou a expressão “ius cogens” no caso “Congo vs. Ruanda” (2006), ao abrigo dos crimes de
genocídio que ocorreram no Ruanda na década de 90.

Até aí, o TIJ foi cauteloso, não tomando uma posição expressa sobre o valor do ius cogens. Usando
outras expressões como “Princípios in transgressivos do Direito humanitário" (‘Parecer sobre a
legalidade do uso ou ameaça de armas nucleares’, 1996), ou "obrigações erga omnes” – isto é,
obrigações absolutas que todos os sujeitos têm (Parecer sobre o "Muro de Israel", 2004), mas sem
aludir à inderrogabilidade dessas obrigações.

Observação: O TICEJ (um tribunal ad-hoc, estabelecido pelo Conselho de Segurança para julgar os
crimes de genocídio após a Guerra da Jugoslávia), já tinha reconhecido explicitamente o ius cogens
no caso ‘Tadic’, em 1999.

Alguns autores admitem poder haver ius cogens regionais. Tal posição, porém, parece contradizer o
carácter absoluto do ius cogens, só faria sentido existir para normas de alcance universal.

Propostas
Ius Cogens Consensual:
● Proibição do Uso da Força (jurisprudência: Nicarágua v. EUA, 1986);
● Proibição do Genocídio (Congo v. Ruanda, 2006);
● Proibição da Escravatura;
● Proibição do Apartheid e da Discriminação Racial;
● Proibição dos Crimes Contra a Humanidade;
● Proibição da Tortura;
● Reconhecimento do Direito Internacional Humanitário;
● Responsabilidade dos Estados.

Ius cogens não consensual:


● O Direito à Autodeterminação (dos Povos);
● Soberania permanente (dos Estados) sobre os recursos naturais (no seu território); (o argumento
contra o reconhecimento deste direito como de ius cogens, é que a sobre-exploração de recursos
naturais pode ter consequências negativas para toda a Humanidade) ;
● No que respeita aos Direitos Humanos, existe um conflito entre uma tese maximalista (como a
defendida por Jorge Miranda, de que os Direitos Humanos devem ser garantidos na sua extensão
máxima) e uma tese minimalista. (Esta Dicotomia viu-se refletida em casos do TIJ, como ‘Barcelona
Traction’, 1970, Lagrange, D. v. EUA, 2001, e Avena, Mex. v. USA, 2004).

O alcance do ius cogens é apenas material. O reconhecimento do ius cogens não implica que o
tribunal tenha jurisdição para aplicá-lo. Isto observou-se no caso Congo v. Ruanda, 2006 e Portugal
v. Austrália (relativo à violação de normas imperativas durante a invasão de Timor-Leste), 1995 – o
Tribunal Internacional de Justiça mesmo reconhecendo a existência de ius cogens, não tinha
jurisdição para apreciar esses casos. (Isto deve-se a razões procedimentais que são alheias a ter
ocorrido ou não, substancialmente, violação de norma perentória – p. ex., através da formulação de
Reservas ao ETIJ, certos Estados não reconhecem a competência do TJ para julgar em casos de ius
cogens. Nesse caso, como os diferendos internacionais estão sujeitos ao princípio da vontade das
partes, se não houver o reconhecimento mútuo da competência do TIJ, não há competência para
julgar)

São inválidos todos os tratados (com o vício de nulidade, segundo o art. 53.o da CVDT) e atos
unilaterais contrários ao ius cogens. Coloca-se a questão de se essa invalidade se aplica para os
atos unilaterais do Conselho de Segurança da ONU, que, segundo o art. 103.o da CNU, têm força
superior e não podem ser invalidados por outra norma de DI. Consideramos que, apesar do disposto
no artigo, este ato não terá validade.

Equidade

As decisões baseadas na equidade são igualmente definidas por decisões “ex aequo et bono”. São
decisões que não se baseiam unicamente em direito positivo mas sim atendendo às especificidades
de cada caso.

Decisões ex aequo et bono são o mesmo que equidade? Nos sistemas jurídicos romano- germânicos
o entendimento é que são idênticas. No caso ‘Zonas Francas’ (1930), o Tribunal Permanente de
Justiça Internacional (DIPJ) considera a mesma coisa.

Porém, os Tribunais Internacionais também invocam, mesmo quando julgam ao abrigo de Fontes
Normativas, Princípios de Equidade (influência anglo-saxónica), que são diferentes de julgar por ex
aequo et bono, servindo para complementar e fundamentar as decisões baseadas em normas, com
critérios de equidade. (Esses Princípios de Equidade têm função semelhante ao Princípio da
Proporcionalidade e da Boa Fé, no sentido que visam procurar uma solução equitativa, sem que seja
à margem do Direito vigente).

A equidade não configura qualquer esquema de produção de critérios materiais de decisão


normativos. Mas sim um critério que se constrói ao sabor do caso, visando uma orientação que se
baseia no sentido de justiça subjetiva.

Assim, é natural que a equidade seja afastada do elenco de fontes do DI.

No entanto, o uso da equidade apresenta alguns critérios:


-​ É necessário que as partes expressem vontade de recorrer à equidade no caso, quer seja ad
hoc ou através de uma prévia convenção.
-​ É também necessário que as normas aplicáveis ao caso não sejam normas imperativas. A
vontade das normas só pode ser aplicada a normas que podem ser voluntariamente
afastadas.
Sem estes critérios verificados não é plausível o uso da equidade nos casos.

Outras considerações de justiça moral


A jurisprudência internacional já considerou “Considerações de Humanidade” – considerações de
natureza ética, extrajurídicas, (caso 'canal de Corfu' 1949, p. 22. Mas também já invocou a sua
irrelevância para julgamentos (caso 'South West Africa', 1966, p. 34). Em suma, não é clara a
aplicabilidade destas considerações.

Hierarquia do DI

-​ Critérios Ético-valorativo (em especial o jus cogens)


Parte da ideia de que as opções jurídico-internacionais que constam das suas fontes e normas não
são todas iguais. Assim, possuímos um patamar mais relevante pela proximidade com o próprio
fundamento supremo do DI e os restantes patamares inferiores que não são de igual relevância.

Aqui refere-se ao ius cogens, direito Internacional Positivo.


A CVDTE fundamenta que as normas de ius cogens prevalecem sobre outras que não estejam
alcançadas a esse supremo estalão normativo independente de outras considerações, como o tipo
de fonte ou o momento da vigência.

Como resolver conflitos de normas de ius cogens? Considera-se que, por serem inderrogáveis, um
princípio de ius cogens não deve prevalecer sobre outro. Em vez disso, deve-se tentar conciliar os
conflitos entre direitos, reduzindo-os ao seu núcleo essencial não-conflituante. (Esta solução é similar
à resolução de conflitos de Direitos Fundamentais, estudada em Direito Constitucional. No DI, como
o reconhecimento do Ius Cogens ainda é muito recente e ainda não estão completamente pautados
os métodos para resolver conflitos, ainda não há solução consensual.)

-​ Critério Formal/hierárquico (103º CNU):


A relação da ONU com outras OI pauta-se, através do art 103 da CNU e de textos de outras
organizações, pela prevalência das obrigações que resultam da Carta das Nações Unidas
sobre quaisquer outras.

“ARTIGO 103 - No caso de conflito entre as obrigações dos membros das Nações Unidas, em virtude
da presente Carta e as obrigações resultantes de qualquer outro acordo internacional, prevalecerão
as obrigações assumidas em virtude da presente Carta.”

-​ Critério Cronológico
Define-se pelo moto “Lex posteriori priori derogat”.
Ou seja, defende que a vontade normativa que foi em último lugar manifestada prevalece sobre todas
as outras. A norma posterior derroga a norma anterior.

-​ Critério Lógico (lex specialis…)


Salienta que as fontes ou normas que especificamente regula certas situações prevalecem sobre as
fontes e as normas que apenas em termos gerais versam sobre a mesma situação.

A norma especial revoga a norma geral.

O fundamento deste critério prende-se com o facto de que a norma especial se melhor adequar a
orientação normativa que com mais proximidade quis abordar a hipótese em análise. No entanto, tal
nem sempre acontece.

CAPÍTULO 5- DIREITO DOS TRATADOS.

Há várias Convenções de Viena sobre o Direito dos Tratados, nomeadamente, a Convenção de


Viena sobre o Direito dos Tratados dos Estados e Organizações Internacionais e Entre OIs, que
atende às diferenças que as OIs têm (o princípio da especialidade, órgãos e processos de
deliberação distintos), mas são essencialmente idênticas à CVDTE (Convenção de Viena sobre o
Direito dos Tratados dos Estados).

A CVDTE foi assinada em Viena a 23/05/1969, tendo Portugal aderido a ela em 2003 e ratificando-a
em 2004. Com esta referência, elencaram-se alguns dos diferentes tipos de manifestação do
consentimento à vinculação aos tratados (artigo 2.o/1-b CVDT), que são estudados nos próximos
dois capítulos.

Âmbito de aplicação da CVDTE

ART 1/ ART 2 A)- Estes dois artigos definem que a convenção se aplica aos tratados concluídos
entre os Estados e define estes como “acordo internacional concluído por escrito entre Estados”.

Art. 5.o: A CVDTE também regula os tratados celebrados por Estados que constituam OIs (Tratados
Constitutivos das OI) ou adotados no âmbito de uma OI, pelos estados-membros dessa OI.

● Os acordos regulados entre Estados podem dizer respeito à vinculação originária (dos Estados que
participaram da negociação do tratado) ou vinculação posterior (através da adesão ao tratado).

A maior parte das regras da CVDT são supletivas, aplicando-se apenas na ausência de regulação
convencionalmente prevista. Ocorre nos Tratados, em DIP, algo análogo aos Contratos, estes criam
um regime normativo com eficácia inter-Partes, aplicando-se princípio da 'Pacta Sunt Servanda' (art.
26.o CVDT).

Nem todas as regras da CVDT são supletivas. Algumas são imperativas, preceptivas e não podem
ser afastadas, mesmo que haja uma disposição de um Tratado que revele essa vontade. Mas a
maior parte das normas respeitantes à negociação, modo de vinculação, entrada em vigor,
formulação de reservas e modificação, são normas supletivas.
Celebração dos Tratados entre Estados.

-​ Negociação.
A Negociação é a fase em que os Estados discutem e trocam propostas que darão lugar ao texto. É
quando o conteúdo, objeto, regras aplicáveis, obrigações e direitos das partes do tratado são
discutidas e formuladas.

O art. 2.o/1-e) da CVDT define "Estado que participou na negociação" como "Estado que tomou parte
na elaboração e na adoção do texto do tratado". Denominação que não se confunde com "Estado
Contratante", que designa um Estado que consentiu em ficar vinculado pelo tratado, ou "Parte", que
tem o mesmo significado que Estado Contratante, mas tendo já o tratado entrado em vigor.

-​ Fases da Negociação
● Pré-negociação - Identificam-se as partes que vão participar do processo de negociação
(delimitação dos sujeitos). Em que se delimitam as matérias e determina-se o processo negocial,
incluindo a data de início, forma das reuniões (local, duração das reuniões). O conteúdo ou normas
substanciais do tratado ainda são indefinidos.
● Negociação geral - Determina-se a calendarização e dividem-se os subtemas entre
representantes e reuniões específicas (diferentes matérias do tratado podem ser divididas em sub
conferências com um tema específico - semelhantes às comissões nos Processo Legislativo). Certos
acordos, por terem um objeto limitado, nem têm essa subdivisão.
● Negociação específica - As partes trocam propostas, discutindo-as, conjugando-as e
modificando com base nas sugestões de outras partes.

Estas subfases muitas vezes nem são autonomizadas, mas feita em contínuo, nos tratados bilaterais.
É nos tratados multilaterais que, devido à sua complexidade, são necessárias subdivisões das
negociações.

Em negociações no quadro de Organizações Internacionais (art. 5.o CVDT), o órgão representativo


da OI (v.g. o Secretário-Geral das NU, em tratados celebrados no âmbito da ONU) tem uma função
de coordenação ou direção da negociação.

-​ Representação do Estado em negociações: Plenos Poderes e Habilitação Funcional.


Como entidade abstrata, o Estado age através dos seus órgãos. Os órgãos com capacidade para
representarem um Estado são previstos na constituição do respectivo Estado (em Portugal: Governo
- nos termos do art. 197.o/1-b, e AR - nos termos do art. 161.o-i)

● Art. 2.o, al. c) CVDT: A carta de Plenos poderes é um documento emanado de autoridade
competente do Estado que indica os representantes do Estado na negociação, adoção ou
autenticação do texto de um tratado, manifestado o consentimento do Estado a ficar vinculado ou
para praticar qualquer ato relativo ao tratado.
● Art. 8.o: Quando um ato for praticado por alguém não autorizada para esse fim, o ato não produz
efeitos jurídicos, a menos que seja confirmado posteriormente por esse Estado (considera-se que um
vício ou corrupção do representante de um Estado na negociação, não implica a não adoção do
tratado, se os órgãos do Estado posteriormente confirmarem-no, p. ex., ratificando o tratado)

-​ Habilitação negocial
É dada através da carta de 'plenos poderes' (artigo 2.o, no 1, al. c) CVDT). Instrumento através do
qual o Estado confere a uma determinada entidade o poder de o representar nas fases
subsequentes. Pode haver habilitações diferentes:
● Habilitação para negociar
● Habilitação para negociar e adotar o texto

-​ Habilitação funcional (artigo 7.o, n.o 2 CVDTE):


Há entidades que, sem necessidade de carta de 'plenos poderes' são consideradas representantes
do Estado, podendo participar em qualquer fase relativa à conclusão de um tratado, quer para a
negociação quer para fases posteriores. À luz do DI, podem incluir:
● O chefe de Estado
● O chefe de governo
● O ministro dos negócios estrangeiros

Tal não significa que essa habilitação exista a nível do direito interno, esta é apenas uma previsão à
luz do direito internacional (no que toca o DI pode participar qualquer um destes, mas o direito interno
poderá restringir). Reconhece-se ainda:
● Nos Tratados Bilaterais: Os chefes de missão diplomática (os Embaixadores de cada Estado), para
adoção do texto de um tratado entre o Estado acreditante e o Estado receptor. (art. 7.o, n.o2, al. b)
● Os representantes acreditados juntos dos Estados numa conferência internacional ou junto de uma
organização internacional ou um dos seus órgãos. Desde que no âmbito dessa conferência,
organização ou órgão. (al. c)

-​ Habilitação específica (art 7º n1 CVDTE):


Ocorre quando um sujeito internacional confere a carta de plenos poderes a alguém para que em seu
nome negociar, adoptar ou autenticar o texto de um tratado.

Para além disso, esta alínea considera que, por costume (local): Mesmo na ausência de carta de
'plenos poderes', por prática consolidada entre os Estados contratantes, pode-se considerar
determinada pessoa como representante. (Esta habilitação é sempre específica, limitada àquela
negociação e entre aqueles Estados em particular).

Para além disso, prevê-se no ART N8 da CVDT as situações em que se ocorre a falta de “planos de
poderes” e a respectiva sanção.
Este artigo fundamenta que um ato relativo à conclusão de um tratado por uma pessoa não
autorizada para tal NÃO PRODUZ EFEITOS JURÍDICOS, a não ser que o Estado o confira
posteriormente. Sem sanação, o ato não produzirá efeitos.

-​ Adoção:
É a fase que põe término à negociação, em que o texto se torna um documento fechado.

A adoção pode se dividir em dois momentos:


-​ aprovação do texto, ato que expressa o encerramento das negociações, tendo esta chegado
a bom porto. Segundo o ART 9 N a aprovação de ser feita pelo consentimentos de todos os
Estados Participantes na sua elaboração ou por maioria de ⅔ dos Estados no caso de uma
conferência Internacional. Daqui resultam alguns efeitos:
-​ aplicação imediata das disposições que regem a autenticação do texto, a
manifestação do consentimento à vinculação, a entrada em vigor, as
reservas, o depósito, bem como outras que se suscitam antes da entrada em
vigor – art. 24.º, n.º 4.
-​ autenticação do texto, ato que lhe atribui valor de veracidade e de definitividade. São
múltiplos os atos que formalmente servem este propósito de atestar a autenticidade de um
projeto de tratado internacional:
-​ Assinatura simples e assinatura diferida (nos tratados multilaterais abertos
para os Estados que não negociaram ou negociaram e não adotaram o texto
– ex. a CVDT – 81.º)
-​ Assinatura ad referendum (provisória e sujeita a confirmação)
-​ Rubrica
-​ Outro processo (al. a) do art. 10.º) – inclusão do texto aprovado na Ata final
de uma conferência, ou inclusão numa Resolução, ou a assinatura do
presidente do órgão em que se aprovou o texto (AG NU, por. ex.)
Consequências da autenticação do texto:
● Os Estados passam a ter um direito a vincularem-se, a avançarem para as fases seguintes
da conclusão do tratado. Poderá dar início à assinatura.
● Os Estados ficam obrigados a abster-se de qualquer comportamento que possa afetar o
fim ou a boa conclusão do tratado. Isto de acordo com o art. 18.o, al. a), e do Princípio da Boa Fé.

Partes do Tratado:

-​ Preâmbulo: conjunto de considerações a respeito da razão de ser do tratado, bem como das
intenções dos Estados que o negociaram, incluindo a sua própria identificação que, porém,
não possui valor normativo.
-​ Corpo dispositivo: que tem o articulado ou o clausulado, conforme seja redigido por artigos
ou cláusulas, o qual consiste num conjunto de preceitos, separadamente para cada uma dá
matérias, distinguindo-se entre disposições materiais e cláusulas finais.
-​ Parte complementar: que tem os anexos, podendo aparecer com um sentido técnico ou
geográfico, embora possuindo o mesmo valor normativo do articulado.

O artigo 33.o rege a questão das línguas (é comum nos Tratados bilaterais que o Tratado seja
celebrado em cada uma das línguas, já nos Tratados Multilaterais tendem a ser celebrados numa ou
poucas línguas).

A diversidade de termos linguísticos poderá causar dúvidas de interpretação, nesse caso deve-se
procurar que a interpretação seja feita sempre através do princípio da boa-fé e tendo em conta as
finalidades (elemento teleológico) do tratado. Porém, nos termos do artigo 33.o/1, poder-se á
determinar que um texto (numa língua) prevaleça sobre os outros, em caso de conflito, se nada se
determinar, dever-se-á assumir que os tratados têm o mesmo sentido nos diversos nos diversos
textos e procurar a interpretação que concilie o objeto e fins do tratado (33.o/4).

Vinculação internacional

Corresponde à 3 fase da elaboração dos tratados.

Se o Estado se empenhou tanto na condução das negociações, que atingiram a maturidade da


adopção de um texto, é natural que depois tenha a possibilidade de beneficiar da conjugação dos
interesses que nele se plasmaram, obrigando-se ao respectivo texto.

O ART 11 da CVDTE elenca as modalidades de vinculação internacional, sendo estes:


-​ Assinatura.
Habitual nos acordos sob forma simplificada (designação constitucional para tratados de menor
importância).

A assinatura que autentica o texto é a mesma que vincula o Estado membro a ele. (Pode ser uma
simples rubrica) Na maior parte dos casos, devido a exigências internas/constitucionais de
confirmação interna (como acontece no panorama português, ao abrigo do art. 8.o/2 da CRP), faz-se
uma assinatura ad referendum.

-​ Troca dos textos (‘cartas’) – art. 13.º


Traduz-se na entrega recíproca dos textos ou de notas, assinados por ambas as partes em
representação dos respectivos sujeitos outorgantes.

Troca de textos: Os representantes dos Estados (com habilitações funcionais ou plenos poderes)
trocam os textos depois de assinarem. Esta troca pode ser um mero ato protocolar e a vinculação
internacional fica dependente de um processo ulterior de confirmação. Ou pode, com o acordo entre
as partes, determinar o início de vigência do tratado.

Troca de cartas/notas - Acontece sobretudo em acordos bilaterais menos solenes (podendo ser feita
por representantes sem habilitação funcional). Através de uma nota diplomática/carta declara que
aceita a vinculação, que é respondida com outra carta com um vínculo idêntico.

-​ Ratificação (ato livre).


É considerada por Jorge Bacelar a mais frequente de todas as modalidades.

A ratificação é uma competência do Chefe de Estado. É simultaneamente, um ato com


consequências para o DIP e para o Direito Interno (a ratificação poderá ser necessária à vinculação
interna e, por sua vez, a vinculação interna será necessária à vinculação internacional do Estado ao
tratado).

A Ratificação pode ser, num dado acordo, a forma de vinculação prevista (foi o aconteceu na CVDT),
mas também é um requisito da vinculação interna para os tratados solenes.

Nos termos do artigo 14.o, c) e d) da CVDT, a assinatura pode ser feita sob "reserva de ratificação
posterior" (uma forma de assinatura ad referendum). Sendo que a assinatura é o que passa a
vincular internacionalmente o Estado, mas só com a ratificação passa a haver vinculação interna.

-​ Aceitação e Aprovação – art. 14º n. 2.


Têm efeitos e natureza análoga aos da ratificação pelo que é paralela a esta.

A designação diferente deve- se ao facto que, a nível interno, dá-se por via de órgãos distintos.

Em Portugal, é sempre prevista a aprovação (mas não a aceitação), seja pela AR (artigo 161.o-i),
CRP), ou pelo Governo (197.o/1-b), sendo que esta é suficiente para vincular nos acordos sob forma
simplificada (porém, os tratados solenes exigem posterior ratificação presidencial -135.o-b).

Nos EUA (entre outros), a aceitação é uma forma de adesão que é feita diretamente pelo executivo
(Presidente), sem intermédio do legislativo.

-​ Adesão – art. 15.º


Surge nos casos em que está em causa a vinculação de um sujeito que não adotou o texto, não
tendo participado nas negociações, nem tendo feito a respectiva assinatura diferida.

É uma modalidade superveniente de vinculação. Dá-se sempre depois do momento da assinatura do


tratado (que, como vimos na assinatura diferida, não é um único momento, mas um período
estabelecido dentro do qual se pode assinar), podendo ou não ser depois da entrada em vigor do
tratado (dependerá do momento da entrada em vigor do Estado), mas é sempre depois da
autenticação.

O momento a partir do qual se considera produzida a vontade de os Estados internacionalmente se


vincularem - tal não se confundindo, porém, com o momento da sua entrada em vigor pode ser
concretizado nalgum destes acontecimentos quanto aos instrumentos ou actos de vinculação, a não
ser que outra coisa convencionalmente se estabeleça:
- na troca desses instrumentos entre os Estados contratantes, havendo a figura da troca de
instrumentos constitutivos; (tratados bilaterais)
- no depósito dos instrumentos internacionalmente vinculativos junto do depositário (As funções dos
depositários estão previstas nos arts. 76.e 77.o da CVDT.), para os tratados internacionais
multilaterais em geral. O depositário pode ser o principal funcionário administrativo (ex: Secretário
Geral das NU), ou um Estado reconhecido para esse efeito, que guarda o tratado, recebe todas as
notificações
- na notificação da emissão se a vinculação se der no momento da notificação pelo Depositário aos
outros Estados. (Tratados Multilaterais)

Problemática da ratificação Imperfeita - art. 46.o

Quais são as implicações da desconformidade entre normas internas e a vinculação ao tratado?

Art. 46.o
“1. A circunstância de o consentimento de um Estado em ficar vinculado por um tratado ter sido
manifestado com violação de uma disposição do seu direito interno relativa à competência para
concluir tratados não pode ser invocada por esse Estado como tendo viciado o seu consentimento,
salvo se essa violação tiver sido manifesta se disser respeito a uma norma de importância
fundamental do seu direito interno.”

Ressalta: Se a violação tiver sido manifesta e disser respeito a uma norma fundamental
(constitucional) do direito interno (devem-se verificar estas condições simultaneamente), pode-se
considerar que a violação de disposição interna, vicia o consentimento à vinculação ao tratado (caso
contrário é relevante para a vinculação e responsabilidades internacionais).

O n.o2 define violação manifesta: “2. Uma violação é manifesta se for objetivamente evidente para
qualquer Estado que proceda, nesse domínio, de acordo com a prática habitual e de boa fé.”

Do n.o2 retira-se que, se as outras partes (em negociação) tiverem conhecimento que determinada
prática é contrária ao direito interno de um Estado, parte nas negociações, então estar-se-á perante
uma violação manifesta e pode se considerar viciado o consentimento. (as consequências que
decorrem dos vícios e invalidades dos tratados estão no Cap. VII)

O Alcance do Tratado

O consentimento a estar vinculado a um tratado internacional, agora do ponto de vista da sua


extensão, assenta no princípio da unidade material do respectivo clausulado, não podendo o sujeito
vincular-se apenas a uma parte desse texto
Princípio geral: O alcance (formal) do Tratado é total. Por regra, e sem prejuízo da Formulação de
Reservas (prevista nos arts. 19.o a 23.o da CVDT), os tratados aplicam-se na sua totalidade.

Exceções: Art. 17º, concede aos Estados a possibilidade de se vincularem apenas a uma parte do
tratado sem obter o consentimento das partes.

Nota: Quanto à vinculação territorial, também se aplica o princípio geral se de alcance total. Porém,
nalguns Estados que tenham Regiões com Estatuto Especial (p. ex. Macau e Hong Kong na RP
China), podem ser a aplicação ser parcelar (depender da aprovação, ou dar-se de forma diferente,
naqueles territórios).

Reservas.

As reservas são atos unilaterais não autônomos (não produzem efeitos de forma independente,
necessitam de estar ligadas a outro ato, tipicamente as Convenções Internacionais).

A sua noção encontra-se no art 2, d) da CVDTE:“ designa uma declaração unilateral, qualquer que
seja o seu conteúdo ou a sua denominação, feita por um Estado quando assina, ratifica, aceita ou
aprova um tratado ou a ele adere, pela qual visa excluir ou modificar o efeito jurídico de certas
disposições do tratado na sua aplicação a esse Estado;”.

As reservas distinguem-se de outras figuras do DI, nomeadamente as Declarações interpretativas.

O art 19 da CVDTE define a admissibilidade das reservas:


-​ Inadmissibilidade total (proíbe a totalidade das reservas, ex. ERTPI – art. 120.º,) ou parcial
( só permite certas reservas, ex. CNUDM – art. 309.º) – art. 19.º, al. a) e b)
-​ Incompatibilidade com o objeto e o fim do Tratado – art. 19.º, al. c). ex: as reservas aos
tratados sobre direitos humanos.
-​ Momento da formulação (arts. 19.º e 23.º, n.º 2), A reserva deve ser formulada por um
estado no momento da assinatura, da ratificação, da aceitação, da aprovação ou da adesão
a um tratado, e devem ser posteriormente confirmada pelo Estado que a formulou no
momento em que manifesta o seu consentimento em ficar vinculado pelo tratado.
-​ Processo (art. 23.º). A reserva, a aceitação expressa de uma reserva e a objecção a uma
reserva devem ser formuladas a escrito e comunicadas às partes do tratados e a Estados
que possam vir a fazer parte deste.(n1) Deve ser confirmada pelo Estado que a formulou no
momento em que manifesta o seu consentimento em ficar vinculado pelo tratado (n2). A
aceitação expressa de uma reserva ou a objecção a uma reserva, se anteriores à
confirmação da reserva, não necessitam de ser elas próprias confirmadas (n3). Também a
objeção à reserva deve ser formulada a escrito(n4).

A admissibilidade de reservas (à luz do regime do tratado em que se insere) não significa que esta
seja reconhecida ou que venha a produzir os efeitos pretendidos, por simples declaração unilateral.

Em regra geral, a reserva que é expressamente autorizada por um tratado não carece de aceitação
por parte dos Estados contratantes, salvo disposição em contrário. (art 20 n 1)

No entanto, podemos elencar uma série de situações em o contrário se verifica:


-​ Por todas as partes (art. 20.º, n.º 2 O) Quando se trata de um Tratado multilateral aberto com
um n.o restrito de Partes, ou quando, devido aos fins do tratado, é imprescindível a
vinculação de todas as partes para o seu prosseguimento, então a reserva exige a aceitação
de todas as partes.
-​ Pelo órgão competente da OI instituído pelo Tratado (art. 20.º, n.º 3) Quando o Tratado for
constitutivo de uma organização internacional e salvo disposição em contrário, a reserva
exige aceitação do órgão competente dessa organização.
-​ Aceitação tácita (art. 20.º, n.º 5) considera-se que o Estado aceitou tacitamente a reserva,
quando este não formulou qualquer objeção à reserva nos 12 meses seguintes à data da
notificação, ou, se posterior, à data em que ficou vinculado ao tratado. Assim, se o Estado
não objetar a reserva, considera-se que a aceitou tacitamente. Aceitando também as
modificações nos efeitos ou obrigações entre a Parte aceitante e o Estado autor da reserva,
nas relações entre ambos, ao abrigo do tratado em que a reserva foi formulada.

Objeção da reserva

Declaração unilateral, com o objetivo de excluir ou modificar os efeitos da reserva ou excluir a


aplicação do Tratado em relação ao sujeito do DI que a formulou.
A objeção não implica apenas a exclusão da reserva nas relações com o Estado que a formulou,
pode por exemplo ser modificativa do alcance da reserva.

Efeitos da reserva

-​ Relatividade: Os efeitos previstos na reserva vinculam apenas o Estado que as formulou e as


partes que aceitaram, não modificando a relação entre estas últimas (arts. 20.o, no4 e 21.o,
[Link] 1 e 2).

No caso de objeção à reserva:


-​ O Estado objetor pode, se entender que aquela reserva é fundamentalmente contrária aos
fins do tratado, impedir a entrada em vigor do tratado entre si e o Estado que a formulou.
-​ Se o Estado objetor não se opõe à entrada em vigor entre si o Estado que formulou a
reserva, as disposições sobre a qual incide a reserva não se aplicam, mas o Estado aceita a
sua vinculação ao tratado (art. 21.o, n.o3)
-​ Se o Estado objetor se opõe expressamente à entrada em vigor do Tratado entre si e o
Estado que formulou a reserva, o tratado não vigora nas relações entre esses Estados - art.
20.o/4-b.

Revogação das reservas:

Conforme o artigo 22.o/1, "Salvo disposição em contrário, uma reserva pode ser retirada a todo o
tempo, sem que o consentimento do Estado que a aceitou seja necessário à retirada", o mesmo vale
para as objeções, conforme o 22.o/2.

Assim sendo, a objeção pode ser retirada (pelos mesmos órgãos com competência para formulá-las,
os órgãos com habilitação funcional ou com habilitação específica através de carta de plenos
poderes), sem que haja necessidade de confirmação pelos Estados que a aceitaram. Conforme o
23.o/4, a sua retirada também terá que ser formulada por escrito.

Porque é que a retirada/revogação da reserva prescinde de confirmação? Porque, ao retirar-se a


reserva, está-se a contribuir para a integridade e plenitude do tratado, na sua aplicação entre as
Partes.

Entrada em vigor.

A entrada em vigor dita a 4º fase e implica que os efeitos jurídicos determinados nos respectivos
articulados se tornem eficazes, no pressuposto de que já eram vinculativos para as partes.
Um tratado entra em vigor nos termos e na data nele previstos ou acordados pelos Estados Partes -
art. 24.o/1 CVDT.
● Caso nada seja determinado, entra em vigor no momento da última manifestação de
consentimento à vinculação (na prática: dá-se quando todas as ratificações se deem, ou ainda,
decorrido um determinado prazo/vacatio legis desde a última ratificação) - 24.o, n.o2
● Quando o consentimento de um Estado em se vincular for dado em data posterior à entrada em
vigor, salvo disposição em contrário (norma supletiva), entrará em vigor relativamente a esse Estado
na data em que este manifestar o consentimento.
Consequência: Neste caso, o tratado já vincula na ordem jurídica internacional, mas ainda não
vincula as Partes que não manifestaram o seu consentimento.

O já referido 24.o/4 regula a pré-vigência (vigência de disposições do tratado anteriores à sua


entrada em vigor, dá-se principalmente para normas processuais relativas ao tratado e são aplicáveis
desde a adoção do texto).

Algo semelhante é a aplicação a título provisório (art. 25.o CVDT), do tratado ou de parte do tratado,
por disposição do tratado (1-a), ou acordo entre as partes (1-b). Esta aplicação dá-se principalmente
para permitir a efetivação célere de certos efeitos ou obrigações do tratado que, se tivessem de ser
aprovados e ratificados internamente, seria muito mais demorado. A partir do momento em que a
Parte (onde o tratado ainda não entrou em vigor), manifesta a intenção de não ser parte do tratado,
os efeitos da aplicação provisória cessam (art. 25.o/2).

Registo e publicação
Após a entrada em vigor, o registo, arquivo e publicação é feito pelo Secretário-Geral da ONU
(previsto no art. 102.o CNU) e no art. 80.o da CVDT, que assume funções de Depositário (devendo
comunicar as notificações às restantes partes).

Qual é o efeito da ausência de registo? O tratado torna-se oponível perante os órgãos das NU (não
poderão ser aplicados pelos órgãos da ONU, incluindo o TIJ, que não poderá aplicá-lo em litígios) -
art. 102, n.o2 CNU

De onde vem a necessidade de publicidade dos tratados? Visa combater os tratados secretos, os
sujeitos do DI devem poder saber os direitos e obrigações que competem aos demais sujeitos e os
tribunais internacionais devem ter conhecimento do conteúdo das convenções para poderem
aplicá-las na resolução de conflitos.

CAPÍTULO 6- DIREITO INTERNACIONAL E DIREITO NACIONAL OS SISTEMAS DE


ARTICULAÇÃO. O DIREITO INTERNACIONAL NA ORDEM JURÍDICA PORTUGUESA

Relação entre o DI e o direito interno.

Este capítulo diz respeito às posições doutrinais sobre a relação entre a ordem jurídica internacional
e interna, bem como o processo de vinculação interno e os seus efeitos, de Portugal às convenções
internacionais, nos termos da CRP.

Os dois principais modelos que relacionam os fundamentos do DI com os do direito


interno são o dualismo e o monismo.
● Dualismo: As ordens jurídicas interna e internacional são (tendencialmente) radicalmente distintas.
Esta diferença deve-se aos diferentes sujeitos, princípios e fontes normativas que as compõem. A
justaposição entre o Direito Internacional e o Direito Interno dá-se sempre pela transformação (pelos
órgãos dos Estados) do DI pelo direito interno. Na perspetiva dualista, o direito interno é todo de
origem estadual, enquanto o direito internacional não vincula diretamente nas ordens jurídicas
internas dos Estados (pelo menos sem que se transforme em direito interno), restringindo-se às
relações jurídicas entre os sujeitos internacionais (não tem, por isso, uma base territorial, é aplicado
exclusivamente nas relações entre sujeitos do DI).

● Monismo: O DI e o direito interno substanciam-se num quadro/princípios comuns (valores idênticos


- boa fé, Pacta Sunt Servanda, etc.). Atualmente, não há domínio jurídico que não seja regulado pelo
DI, tendo este vir a atuar cada vez mais em âmbitos objetivos, que antes eram exclusivos do direito
interno. E também os sujeitos do DI, originalmente apenas o Estado e as OIs, tem havido uma
expansão do âmbito subjetivo do DI.

Posições monistas:
1. Monismo com primazia do Direito Interno: Em situação de conflito, deve sempre prevalecer
o direito interno uma vez que é nele que o DI se baseia e é deste que se estende. Esta tese foi típica
do século XIX e da metade do século XX.
2. Monismo com primazia do Direito Internacional: Defendida por Hans Kelsen (numa fase
mais tardia e internacionalista da sua doutrina), de que, em conflito entre D. interno e DI, este último
deve prevalecer. Como foi visto no Capítulo II, está associada à tese normativista do DI, que coloca o
Consuetudo Sunt Servanda como fundamento de todo o direito convencional, superior até à
Constituição.

Nos dias de hoje, quase todos subscreve a posição monista de uma forma mais ou menos mitigada*
e diferenciada* – Monismo com primado do DI mitigado e diferenciado.

*Mitigada porque: não se traduz no reconhecimento de uma unidade à Kelsen, em que as normas do
Estado têm a sua validade dependente das ordens internacionais. Não há uma pirâmide normativa
em que teríamos patamares estaduais, na qual o DI se encontra no topo. Não há uma perspetiva de
validade das normas.

A perspetiva no monismo é a refletida na nossa Constituição:


A consequência em relação a uma norma legislativa contrária a um tratado internacional a que
Portugal está vinculado, torna-se ineficaz (mitigado, desaplica-se a norma legal e faz-se valer a
norma do tratado).

Também é diferenciado* (relaciona-se com a natureza das normas em causa) porque esta
prevalência do DI face ao Direito interno não vale para todas as normas (por exemplo, a Constituição
só o reconhece na prevalência em relação a normas ineficazes – Art. 204º). O Art. 16º refere-se à
DUDH, que determina que as normas constitucionais se aplicarão em conformidade com a DUDH –
reconhece-se um valor paritário.

Relação entre o DI e o direito interno - sistemas de incorporação do DI nas ordens internas

-​ Sistema de transformação - Na visão dualista, não há unidade entre DI e direito interno, e


para que o DI possa ser o direito que vigora no espaço territorial, tem de ser transformado
em direito interno.(Ex. No Reino Unido só pode vigorar o direito inglês, devendo o DI ser
transformado no Parlamento. O Parlamento declara que determinado DI é convertido em
direito inglês. Tem de haver um ato que, formalmente, opere a transformação, não sendo
necessário alterar nenhuma legislação. Na Itália, esta perspetiva vem sendo afastada
por causa da integração europeia).
-​ Sistema de recepção - Na perspetiva monista, tem de haver sempre uma receção, porque,
embora relacionadas e embora façam parte de um sistema unitário, ambas as partes acabam
por ter autonomia. O DI é recebido por algum dispositivo do direito interno, mas integra-se
como DI, não sendo transformado em direito interno – não se modifica a natureza do DI. Em
conflitos, temos de determinar qual prevalece em cada situação. Este mecanismo prevê-se
no Art. 8º CRP + 29º em matéria criminal – no conflito entre direito ordinário e DI, o segundo
prevalece, mas em conflitos de Direito constitucional e DI, é o Direito constitucional que
prevalece

É através destas vias que o DI é tratado e recebido:


• Receção automática para o DI comum (normas consuetudinárias) – incorporação como tais, sem
necessidade de formalidade;
• Receção condicionada – incorporação como tais, mas com algumas condições.

Relação entre o DI e o direito interno português – a incorporação no direito português.

Artigo 8.o CRP.


1. "As normas e os princípios do direito internacional geral fazem parte integrante do direito
português" → Inclui todas as normas de ius cogens, Princípios Gerais do DI, o costume internacional
geral, tratados gerais (que estabelecem um regime para toda a comunidade internacional). Apesar de
não ser previsto, a doutrina entende que se deve aplicar automaticamente o costume local ou
regional que vincule Portugal. (Por outro lado, a recepção formal da DUDH - artigo 16.o/2 -
poder-se-ia considerar já recebida automaticamente por este artigo, por constituir DI geral/comum).

2. "As normas constantes de convenções internacionais, regularmente ratificadas ou aprovadas


vigoram na ordem interna após a sua publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o
Estado Português" → Sistema Monista, de recepção condicionada, quer por aprovação (acordos sob
forma simplificada) ou também por ratificação (tratados solenes) e sendo sempre necessária a
publicação no DR (artigo 119.o/1-b) para que a convenção vigora em Portugal.

3. O artigo 8.o/3 foi introduzido na Revisão Constitucional de 1982, para acautelar a futura adesão à
CEE. Permitindo que atos unilaterais emanados de ÓIs (v.g., regulamentos da UE) pudessem ter
aplicabilidade direta. O prof. Freitas do Amaral, considera que atos de outras organizações
internacionais, nomeadamente do Conselho da Segurança da ONU (porém, é difícil classificar os
atos unilaterais do CS como normas, porque tendem a ter um alcance concreto), possam ter
aplicabilidade direta.

4. O artigo 8.o/4 surgiu no âmbito da possibilidade de um Tratado Constitucional Europeu. Dispõe


que tanto os tratados que regem a UE, como as normas emanadas dos seus órgãos (relega para o
D. da UE), são, não só aplicáveis na ordem interna. Isto de modo a salvaguardar a previsão que era
feita pelo Tratado Constitucional, de que as normas europeias tinham primazia sobre as de direito
interno, desde que respeitassem os princípios fundamentais do Estado de direito democrático
(imanentes dos artigos. 1.o e 2.o da CRP, e podendo também, numa interpretação extensiva,
entender-se fizerem parte os Limites Materiais de Revisão - artigo 288.o da CRP).

§ outras disposições relevantes – arts. 7.º, 16º, 29.º, n.º 2

Há uma insuficiência no Art. 8º, que tem dificuldade em adequar essas disposições na Constituição.
Alguns autores defendem-no porque a receção do DI é feita de forma plena (vigorar integralmente no
quadro interno português, não sendo modificado nem restringido), já que, na verdade, não há um
condicionamento que, de alguma forma, restrinja a sua integração no quadro ordem da jurídica
interna, mas sujeita-o a um processo de vinculação, ainda que a vinculação não seja totalmente
conforme com a vinculação do DI.

O DI convencional e o direito português - CRP

Os tratados solenes e os acordos para além de possuírem de frente terminologia, também possuem
regime distintos.

-​ TRATADO
Aprovação: é sempre da competência AR
Vinculação: ratificação (manifesta a vontade do Estado portugues de se vincular aquele tratado
solene)
Fiscalização preventiva da constitucionalidade: admite-se que possa haver confirmação, no caso de
pronúncia da inconstitucionalidade– art. 279.º, n.º 4.

-​ ACORDO
Aprovação: podem ser da competência da AR ou do governo
Vinculação: aprovação (parlamentar ou governamental)
Fiscalização preventiva da constitucionalidade: não é prevista a confirmação

Refere-se ainda a inadmissibilidade de vinculação a acordos por troca de “notas/cartas” sem


posterior aprovação ou ratificação – art. 8.º, n.º 2 – Bacelar Gouveia “O Direito Português não admite
a celebração de convenções por troca de notas, uma vez que tal dispensaria a intervenção do chefe
de Estado, inadmissivelmente arredando aquele órgão fundamental do nosso sistema político de uma
intervenção no respectivo procedimento.

Ao longo do tempo tem se discutido a existência de uma distinção material entre o tratado e o
acordo, ou seja, visa-se saber se para certas matérias se impõe a adoção de certos procedimentos
ou se essa escolha é efetuada no momento das negociações, surgindo intensamente como puro
facto. Daqui retiram-se diversas posições:

-​ reserva material do tratado: tem sido a mais defendida pela doutrina portuguesa
Implica, que havendo contração internacional sobre certas matérias, não pode haver manipulação da
escolha do procedimento, a ser necessariamente o tratado solene, entendimento que deve ser
seguido.

A divisão essencial assenta na essencialidade da matéria abrangida – art.161/i (“Aprovar os tratados,


designadamente os tratados de participação de Portugal em organizações internacionais, os tratados
de amizade, de paz, de defesa, de retificação de fronteiras e os respeitantes a assuntos militares,
bem como os acordos internacionais que versem matérias da sua competência reservada ou que o
Governo entenda submeter à sua apreciação); art.197/1/c; art.8/2 e outras considerações em relação
a “opções políticas primárias”. Assim, a maioria da doutrina portuguesa defende que existe uma
reserva material de tratado, que implica que, havendo contratação internacional sobre certas
matérias, não se pode escolher outro procedimento sem ser o Tratado solene. – isto insere-se na
lógica da defesa de que a função parlamentar deve regular as matérias mais relevantes, e não o
governo.

-​ Não existe reserva material do tratado: minoritária.


O procedimento de tratado não é uma imposição constitucional, é algo que fica bem definido no
âmbito das negociações internacionais prévias.
Procedimento relativo à negociação e vinculação do Estado português

-​ Negociação e ajuste (adopção do texto)

A fase da negociação e adoção do texto a nível internacional, são versadas no plano interno pela
fase de “negociação e ajuste” das convenções internacionais.

No processo internacional, sabemos que quem aprova o texto são o Chefe de Estado, Chefe de
Governo, Ministro dos Negócios Estrangeiros e representante diplomático do Estado. Mas, nada nos
diz que no processo interno sejam as mesmas entidades a fazê-lo.

Tal como no processo internacional, a negociação é o processo em que as partes vão ajustando as
suas posições, fazendo modificações, até chegarem a um consenso que pode ser objeto de adoção.
A CRP utiliza “ajuste” quando se refere a aprovação e adoção de texto.

Segundo a CRP esta é uma competência do governo, no âmbito da sua competência política. 197.º,
n.º 1, al. b).

A condução das negociações é atribuída ao Ministério Negócios Estrangeiros.

O ajuste é feito por assinatura ou rubrica do Conselho de Ministros, ainda que haja delegação tácita
no PM.

Ainda assim, existe aqui uma desconformidade com a CVDT. Tal deve-se ao facto de que no texto da
CVDT nem sempre esta competência surge atribuída aos governo, uma vez que nos casos de
habilitação funcional pode haver a intervenção de outras entidades além do governo.

Quem faz a negociação, o governo, tem o dever de informar diversas entidades do curso das
negociações: PR, partidos e grupos parlamentares (art.201/1/c; 114/3; 180/2/j).

Além disso, deve-se fazer referência à participação das Regiões Autónomas (governo regional) –
227.º, n.º 1, al. t) (voltam a intervir consultivamente na aprovação).

Segundo a CRP as Regiões autónomas poderão participar na fase de negociações, caso estejam em
causa assuntos que aludem ao seu interesse regional.

Bacelar Gouveia refere “para que as regiões autónomas possam reivindicar este direito, não é
preciso ser apenas um interesse específico regional, mas também não pode ser um interesse
nacional qualquer,sob pena de as regiões autónomas poderem intervir em tudo o que respeita à
negociação internacional do Estado português, o que seria sempre excessivo”.

Para além disso, não poderão participar em todo e qualquer convênio internacional, mas apenas nos
“tratados e acordos internacionais que diretamente lhes dizem respeito”.

Nas negociações o órgão que participa é o Governo Regional uma vez que possui a função política.
Já na aprovação o RAR estabelece outra possível participação das regiões autónomas.

-​ Aprovação (legitimação político-democrática)

Não possui uma correspondência no plano do DI.

Os tratados solenes são sempre aprovados por resolução da AR segundo o art 161 al. i da CRP.
Nos tratados solenes para efeitos de aprovação a respectiva competência é atribuída ao plenário
parlamentares, que votar segundo a maioria deliberativa geral, ou seja, a maioria relativa.

Já nos acordos simplificados a competência de aprovação é variável, podendo tanto ser da


Assembleia como do Governo.

Se os acordos simplificados forem alvo de aprovação da AR, é também por resolução, assinada pelo
PR (a assinatura deste é um elemento de existência do acordo) que pode ser obrigatória: os
indicados no elenco do 161.º, al. i) e os relativos a matéria de competência reservada – arts. 164.º e
165.º; ou facultativa: aqueles que o governo entenda submeter à sua apreciação – art. 161/i
Ou seja, compete à AR aprovar os tratados, designadamente os tratados de participação de Portugal
em organizações Internacionais, os tratados de amizade, de paz, de defesa, de retificação de
fronteiras e os respeitantes a assuntos militares e também os acordos internacionais que versem
matérias da sua competência reservada ou que o governo entenda submeter à sua apreciação.

Os acordos simplificados da competência do governo são aprovados por decreto (assinado pelo
PR, sendo a assinatura deste um elemento de existência do acordo). – os que não versem sobre
matéria da competência reservada parlamentar – arts. 197.º, n.º 1, al. c) e 200.º, n.º 1, al. d)
Ou seja, compete ao Governo aprovar os acordos internacionais cuja aprovação não seja da
competência da AR ou que a esta não tenham sido submetidos.

Os acordos devem ainda ser assinados pelo PR – uma simples assinatura como formalidade e que, a
falta dela, pode levar à inexistência do ato – art.134/b e 137. Necessita-se ainda de referenda por
parte do Governo que, devido ao costume constitucional é feita pelo PM, que se não for feita provoca
inexistência do ato- art.140/1.

A adesão pode ser um ato unilateral, em que se entrega ao depositário uma notificação a declarar
que o Estado participar no Tratado – a nossa CRP não prevê isto à prevê que antes do Estado
entregar a notificação deve fazer todo um processo antes: o governo deve submeter o texto a
aprovação no Conselho de ministros e depois seguir o processo já referido – há uma aplicação
analógica das disposições relativas à aprovação e ratificação.

A desconformidade do regime interno português de vinculação nos Acordos com o regime


internacional, provoca a necessidade de recorrer à assinatura sob reserva da aprovação interna.
VER SEBENTA DESTE ANO
-​ Ratificação

Os tratados solenes, seguindo a tradição e o regime de DI, precisam de intervenção ao nível do


Chefe de Estado, ao contrário do que acontece nos acordos simplificados, que dispensam uma fase
autónoma de vinculação, pois coincide no mesmo momento o ato de assinatura, a adoção do texto e
a vinculação.

Tem de existir ratificação por parte do PR, de acordo com a CRP, o que não significa que o regime
tenha de ser o mesmo internacionalmente. – art. 135/b, que se formaliza num decreto presidencial.
Além disso, de acordo com o art.140/1 é exigida referenda governamental obrigatória – a ratificação
deve-se sujeitar a este condicionamento.

Como em relação a outros atos do PR, a CRP não prevê prazos – omissão que se funda num dos
aspectos constitucionais inerentes à liberdade de atuação do PR.
Não há ratificações tácitas e podemos ter situações de algum limo se o PR não tiver a devida
celeridade na ratificação. A celeridade pode ser relevante quando são tratados internacionais
aprovados em conferência intergovernamental, em que se esta não existir, poderá ser necessário
uma assinatura diferida – Estados que se vinculam depois da adoção de texto são, ainda, parte
originária, se tiver lugar num dado período de tempo.
Se isto não tiver lugar num período de tempo em que pode ser feito, o Estado terá de aderir através
de um processo mais complexo.

-​ Publicação

A última fase é a da aplicação dos tratados e dos acordos no Diário da República.


Tal dá-se uma vez que após a ratificação é necessário dar a conhecer o conteúdo da convenção à
comunidade, em que só depois deste conhecimento se pode avançar para a respetiva vigência

Ao contrário do que acontece com Leis e Decretos Leis, a publicação de tratados e acordos
internacionais no Diário da República é uma condição de vigência interna, e não de mera eficácia. –
art.8/2 e 119/1/b. O tratado/acordo não pode vigorar na ordem jurídica interna sem ter sido publicada
no DR

O 8º/2 estabelece ainda duas condições para a vigência interna do Tratado: que o tratado esteja em
vigor internacionalmente (se for um tratado bilateral, com o ato de vinculação internacional, vigora a
nível internacional, mesmo sem publicação, já nos tratados multilaterais, o Estado português pode
vincular-se a nível internacional, publicar e ele ainda não estar em vigor a nível internacional, já que
se exige a vinculação de todos) e que o Estado português se tenha já vinculado internacionalmente.

Os aspetos fundamentais desta fase de publicidade e eficácia das convenções Internacionais


assentam na análise de dois tópicos centrais:
✓ A sujeição a publicação dos atos de ratificação presidencial e de aprovação, parlamentar ou
governamental, na sua qualidade de atos finais de feitura das convenções internacionais.
✓ A conexão estreita entre a vigência interna e internacional das convenções internacionais, numa
articulação entre a esfera internacional e a esfera interna de eficácia.

A entrada em vigor obedece a dois possíveis esquemas, no cumprimento do princípio geral de que
dependem de prévia publicação:
✓ A vigência é determinada no próprio diploma;
✓ A vigência surge supletivamente determinada na LPIFD (Lei acerca da Publicação, Identificação e
Formulário dos Diplomas) - “na falta de fixação do dia, os diplomas referidos no número anterior
entram em vigor, em todo o território nacional e no estrangeiro, no 5º dia após a publicação”.

Porém, não se pode esquecer que a CVDTE é também aplicável, contendo um regime supletivo só
pensado para os tratados internacionais.

-​ Fiscalização preventiva da constitucionalidade

A nossa CRP é tão zelosa do respeito das suas disposições, que prevê fiscalização preventiva da
constitucionalidade dos acordos internacionais, garantindo que o Estado Português não se vincula a
fontes normativas que violem a CRP.

O PR pode requerer essa fiscalização ao TC, no prazo de 8 dias (art.278/3), sendo que o TC se deve
manifestar até 25 dias depois do requerimento pelo PR (art.278/8), prazo este que pode ser
encurtado em caso de urgência.
O controlo da constitucionalidade ocorre em dois momentos:
✓ Depois da resolução de aprovação parlamentar e antes de o PR se decidir a ratificar, no caso de
tratados solenes;
✓ No caso dos acordos, dentro da fase de aprovação, no intervalo que se verifica entre a votação da
resolução parlamentar ou do decreto governamental e respetiva assinatura presidencial.

A apreciação do TC pode resultar em:


-​ Não decisão – quando o TC nada decide ou no caso de haver uma decisão que não seja
proferida
dentro do prazo, precludido-se o poder jurisdicional.
-​ Pronúncia pela inconstitucionalidade – TC considera a existência de cláusulas viciadas de
inconstitucionalidade;
-​ A não pronúncia pela inconstitucionalidade – TC não deteta a existência de
inconstitucionalidades.

Se for confirmada a inconstitucionalidade do tratado/acordo, o diploma que a AR ou o Governo


aprovou será vetado pelo PR (o tratado ou acordo não podem ser vetados) e devolvido ao órgão que
o tiver aprovado – art.279/1.
• Art. 279º/4– prevê-se a confirmação de tratados, que foram declarados inconstitucionais, pela AR,
por maioria de 2/3 dos deputados presentes, desde que superior à maioria dos deputados em
efectividade de funções não refere a confirmação dos acordos. Mas, por exemplo: como o veto é
sobre o decreto do governo, pode-se interpretar que os acordos também podem ser confirmados, nos
termos do nº2.
• A outra hipótese além da confirmação, é a aprovação com modificação, através da formulação de
reservas. A formulação de reservas tem de ter lugar até ao momento da vinculação. – art. 279/3.
• Além destas hipóteses, surge a não decisão (o órgão que emanou o diploma entende não se
prosseguir com o assunto, extinguindo-se o diploma) ou o expurgo (extrair do diploma as normas ou
os seus segmentos que se revelaram inconstitucionais)

-​ Referendo (eventual)

Os acordos estão sujeitos a um condicionamento resultante do regime do referendo - art. 115.º,


n.ºs 1, 3, 5 e 11. – permite-se que o povo seja perguntado acerca das matérias a versar no futuro, em
tratado solene ou acordo simplificado, da competência da AR ou do Governo. Porém, apesar desta
abertura trazida pela revisão constitucional, há matérias que não podem ser alvo de referendo, como
a retificação de fronteiras e os tratados que digam respeito à paz.

Os tratados da UE são os únicos que poderão ser submetidos a referendo (Art. 295º). No resto dos
tratados, são as suas questões que são colocadas a referendo e não o tratado em siNo caso de
“tratado que vise a construção e aprofundamento da união europeia”, é a aprovação do próprio
tratado que pode ser submetida a referendo (art. 295.º) e não as questões sobre que incida o tratado
internacional (art. 115.º, n.º 3)

O resultado do referendo vincula os órgãos competentes a aprovar ou ratificar no caso afirmativo e a


não aprovarem ou ratificarem em caso negativo – arts. 241.º, 242.º e 243.º LORR - o Art. 242º refere
a impossibilidade de o Presidente recusar uma retificação por via de discordância do mesmo.

Além disto, o Presidente da República submete à fiscalização preventiva obrigatória da


constitucionalidade e da legalidade as propostas de referendo que lhe tenham sido remetidas pela
Assembleia da República ou pelo Governo. – art.115/8

-​ Procedimento português para a desvinculação ou suspensão da aplicação


Como é que o estado português se desvincula?
R:.Esta questão não está regulada, mas deve ter um procedimento substancialmente idêntico ao da
vinculação, nomeadamente assegurando que deve haver uma aprovação pela AR ou Governo nesse
sentido.

Não há que negociar textos, salvo se a desvinculação passar por um regime transitório. Para
conhecermos completamente o modo como as normas do DI e Direito Português se articulam, há
uma questão que se levanta pelo seu interesse prático: dada a autonomia de ambas as ordens
jurídicas, não faz sentido falar numa hierarquia (apenas faz sentido em ordens jurídicas num mesmo
ordenamento), pois não há uma relação de validade entre norma superior e norma inferior.

Isto não significa que não tenhamos de ter critérios normativos que determinem a disposição que
prevalecerá num conflito, num caso concreto à O DI não determina como é que esse conflito é
resolvido no plano interno, mas se no plano interno existir violação do DI, este exime determinadas
consequências que permitem a outros sujeitos e instituições do DI reagir, para responsabilizar o
Estado não cumpridor.

Podemos apontar uma insuficiência do DI quando comparado ao Direito dos Estados, porque estes
últimos tiveram capacidade de criar meios jurídicos, instituições, etc, que permitissem assegurar a
efetividade do Direito.

-​ Conflito entre normas de DI e normas portuguesas

A CRP não declara nada de modo expresso – ao contrário da constituição holandesa, que declara
que as normas internacionais prevalecem sobre as normas constitucionais – sobre como organizar o
direito internacional.

Porém, apesar de não declarar de forma expressa, podemos tirar conclusões do modo como esta
organiza o DI a partir de várias disposições:

• DI comum:
-​ Os princípios do art. 7.º e a sua consideração como ius cogens – supraconstitucionalidade
(o DI tem valso superior)(J. Miranda e Gonçalves Pereira); paridade (Bacelar Gouveia)
(possuem o mesmo valor)
-​ O Art. 16º é o único artigo em que a CRP acolhe com estalão paritário( mesmo valor) a
DUDH – cláusula aberta de recepção formal.
-​ O art. 29.º, n.º 2 – valor infraconstitucional(tem valor inferior que crp) (“nos limites da lei”).
Dúvida suscitada pelo art. 7.º, n.º 7
-​ Restante do comum – valor infraconstitucional e supralegal (maior valor wue as leis
ordinárias mas valor menor que a CRP) (J. Miranda); supraconstitucional (Gonçalves Pereira)

Há um fundamento válido que se pode utilizar: Art. 204º que determina que nenhum juiz pode aplicar
normas inconstitucionais, pelo que se pode dizer que valerá para o DI em geral. Há
inconstitucionalidades que a CRP tolera, em relação ao DI convencional, mas o problema tem que
ver com o tipo de inconstitucionalidade que não faz sentido no âmbito do DI comum.

• DI convencional - (com exceção do que caiba nos princípios acima referidos):

Algum DI convencional cabe no DI comum. São convencionais de acordo com a participação dos
Estados, mas o reconhecimento do seu conteúdo tem valor diferente qualitativamente. Há DI
convencional de que Portugal não é parte, mas que vincula o Estado português (Ex. tratados que
delimitam fronteiras), na medida em que produzem efeitos que se refletem no ordenamento jurídico
português.
-​ O seu valor é infraconstitucional e supralegal – Art. 7º. Se Portugal se posicionar como
Estado que respeita os princípios fundamentais do DI, só faz sentido uma posição em que
reconheça uma posição supralegal – conflito entre norma de direito da convenção legal e
uma norma interna, prevalece a da convenção internacional. Não se trata aqui de uma
revogação, pois não significa que a lei ou decreto lei sejam inválidos ou percam vigência,
trata-se sim de um efeito sobre a eficácia.

Há argumentos formais deste ponto de vista: A nossa CRP, quando o vício de que padece uma
convenção for de tipo orgânico ou formal, a convenção pode continuar a aplicar-se à Toleram-se
disposições de convenções internacionais contrárias às constituições, desde que não digam respeito
a inconstitucionalidades materiais, como a ausência dos quóruns.

-​ Conflito entre normas de DI e normas portuguesas na fase da vinculação


-​ Se a convenção estabelecer a sua data de entrada em vigor, será essa data a
cumprir do ponto de vista do Direito Português. PREVALECE O DI
-​ Se a convenção estabelecer a sua entrada em vigor, mas essa data será, do ponto
de vista do Direito Português, num momento anterior ao da publicação oficial, essa
vigência só irá ocorrer após esta publicação, prevalecendo a norma constitucional
sobre as outras normas, internacionais e legais.
-​ Se a convenção nada disser sobre a sua vigência, a entrada em vigor irá acontecer
logo que o último Estado que a negociou manifeste vontade de se vincular, se
vincule – até lá a vigência da convenção fica congelada, pois ainda não se pode
considerar internacionalmente vinculante e, se não é vinculante dessa forma,
também não o será internamente. PREVALENCIA DI
-​ Se a convenção nada disser sobre a sua vigência, se a última vontade de
vinculação for a de Portugal, aquela vigência fica congelada, devido à vacatio legis –
mesmo já havendo vigência internacional, deve-se esperar pela aplicação da vacatio
legis interna, que condicionará a vigência internacional. PREVALECE DTO INTERNO

-​ ➢ Regime de controlo da constitucionalidade das normas do DI:


-​ Preventivo só pode existir face ao DI convencional, pois o DI consuetudinário é
espontâneo, não passando por um processo deliberativo. Pode ter lugar no processo
de vinculação do Estado Português – o PR pode solicitar o controle da
constitucionalidade antes de ratificar. Se falarmos de DI unilateral, produto da
vontade de um Estado ou de OI, não poderá haver fiscalização preventiva, dado que
o autor não integra o Estado português. A nossa CRP tem um regime de controle de
constitucionalidade rigoroso, que pode contender com o respeito pelo DI e suas
obrigações. Poder-se-ia defender então que, com a possibilidade de controle
preventivo, não deveria existir controle sucessivo, pois coloca uma incerteza nas
relações com os outros Estados.
-​ Sucessivo – de iure constituto e de iure constituindo (a distinção entre a fiscalização
abstrata e a concreta – arts. 280.º, 281.º e 282.º).
-​ Material: controle do conteúdo das normas de DI. – se o juiz entender que a
disposição do tratado é contrária à CRP, ele não aplica a norma do tratado.
-​ Orgânica e formal: Há um controle que diz respeito ao cumprimento das regras e
formalidades e competências e exercício das competências de órgãos do Estado. Se
o juiz entender que uma disposição daquele tratado é contrária à CRP, a CRP obriga
a não aplicação da convenção.
Quando se fala em inconstitucionalidade orgânica e formal, o Art. 277º refere-se a tratados
internacionais, mas o professor Jorge Miranda entende que deve estender-se aos acordos
(interpretação extensiva), já que os tratados são aquela forma que a nossa CRP considera para
matérias mais relevantes, ao passo que os acordos se destinam à política do dia a dia, a questões
mais técnicas (low qualities). Esta disposição admite que se tratando da violação de uma norma
constitucional de aspectos orgânicos, o Tratado Internacional pode permanecer em aplicação, desde
que aplicado pelas outras partes e desde que não diga respeito a uma disposição interna
constitucional fundamental.
No entanto, a CRP admite que um tratado pode ser aplicado em desrespeito da própria CRP, mas
apenas face a algumas normas constitucionais.

Sendo assim, quais as disposições fundamentais de tipo orgânico e formal que não deixam que o
Tratado seja aplicado?
A CRP não diz, mas referem-se às seguintes:
incompetência absoluta;
incompetência relativa – art. 161.º, al. i) 1.ª parte;
referendo negativo,
inexistência da deliberação da AR por falta de quorum ou maioria de aprovação à
Se a violação disser respeito a estas matérias, o tratado não poderá ser aplicado.

-​ Desconformidades a propósito de ratificações imperfeitas (Art. 46º CVDT) - Quando Estados


se vinculam a convenções internacionais, há um princípio fundamental de pacta sunt
servanda, o único que consegue assegurar a existência do DI, que têm de respeitar.

A CVDT admite que os Estados se podem eximir ao respeito escrupuloso dos tratados, invocando a
violação de uma norma de Direito interno fundamental, mas acrescenta-se que essa violação seja
manifesta para as outras partes, isto é, que as outras partes consigam detectar. Porém, nenhum
Estado tem a obrigação de reconhecer as normas internas de outros Estados na elaboração dos
tratados, pelo que, ou o próprio Estado informou as outras partes das disposições fundamentais a
respeitar, ou o outro Estado teria obrigação de saber do direito interno do primeiro (o que não
acontece) à É por isso que a CVDT disponibiliza mecanismos para cada Estado assegurar o respeito
pelas suas normas (como a assinatura ad referendum).

-​ Desconformidade de atos legislativos com o DI.

No caso da DUDH, dada a receção do Art. 16º, o entendimento será de que se tratará de uma
inconstitucionalidade (art.16/2) a Bacelar Gouveia considerando que se vincula também a outras
declarações de direito internacional.

Qualquer outro conflito é uma desconformidade atípica, porque não se trata de uma pirâmide
normativa, fiscalizável com base no art.204, tratando-se de controlo difuso, e com base no art.70/1/i
da LOTC, tratando-se de controlo concreto. A norma do tratado não se torna inválida ou
inconstitucional, dado que se aplica a outros Estados.

A consequência jurídica de qualquer incompatibilidade entre normas de DI e normas portuguesas é


a ineficácia.
-​ Sucede a desaplicação: a norma não poderá produzir efeitos enquanto a
desconformidade se mantiver.
-​ E se for uma norma legal contrária a uma norma de uma convenção internacional?
As normas internacionais têm valor supralegal, pelo que não se aplica a norma
infralegal.
No ponto de vista do DI, se o Estado tem na ordem jurídica disposições contrárias ao DI a que está
vigorado, deverá modificar as normas internas e constitucionais e ordinárias, para poder cumprir
integralmente os compromissos internacionais.

No ponto de vista do direito interno, para preservar a constituição, o Estado português deverá
negociar e modificar o tratado internacional, de modo que as suas obrigações se tornem conformes
com as normas internas – válido apenas para DI convencional – ou deverá desvincular-se.

CAPÍTULO 7- Interpretação, integração e aplicação dos Tratados. Requisitos de validade e


regime das invalidades. Suspensão, cessação da vigência dos Tratados e recesso

-​ Interpretação

§ A unidade da interpretação como um método (“regra geral”).

A interpretação define-se pela tarefa que visa alcançar o sentido normativo dos tratados e regula-se
pelas disposições encontradas na CVDT, especialmente no art 31, 32.

É uma tarefa mais complicada do que interpretar uma norma consuetudinária (o sentido de
obrigatoriedade da prática), sobretudo se não estiver formalizada à mas, com a CVDTE, o direito
consuetudinário foi reduzido a escrito.

A interpretação segue um determinado método desenvolvido, desde a Idade Média, da lógica


escolástica, que interpretou textos jurídicos. Esta foi evoluindo ao longo do renascimento,
sistematizada e tornada uma ciência no séc. XIX, com positivismo. Podemos adaptar para os
tratados, porque a lógica do método da hermenêutica é especialmente apta para normas legais, e os
tratados da CVDT têm uma ligação com as normas legais, por serem reduzidos a escrito – por isto, a
aplicação do método é idêntica em ambas as situações.

Esta é, então, uma tarefa que pretende alcançar o sentido normativo, de acordo com o objeto da
interpretação; sujeito da interpretação; elementos e resultados da interpretação.

De acordo com o art. 31.o/1 da Convenção, a CVDT refere outros critérios como o princípio da boa fé
que deve ter primado na interpretação de tratados internacionais. Deve-se, à luz deste critério,
preservar o efeito útil dos tratados. Proíbe-se, assim, a interpretação ad absurdum, uma interpretação
em má fé da letra do tratado, contrária aos seus fins e objetivos (mesmo quando esta interpretação
resultasse de outros elementos da hermenêutica jurídica).

Temos igualmente os elementos de interpretação, duvidoso entre elementos principais (gramatical,


teleinfo e sistemático) e complementar (histórico).

Os elementos de interceptação são os meios que o intérprete utiliza para interpretar a norma, é a
mens legis. Por vezes a interpretação que resulta não coincide entre a letra e o espírito da lei.

-​ Principais:
-​ gramatical: elemento base e que serve de critério de delimitação. Tem sentido
negativo, que elimina qualquer sentido que não tenha correspondência com a letra
da lei (mesmo que a vontade das partes não fosse nesse sentido); ou dimensão
positiva, que recolhe os sentidos que, de modo mais próximo, correspondem à letra
da lei e ao sentido normal que têm os sentidos por ela utilizados. Considerando
tratados redigidos em várias línguas, em tratados multilaterais, há mais do que uma
versão autêntica (Ex. Resoluções dos órgãos da ONU). Pelo facto de estas
disposições serem formuladas em línguas diferentes, correspondem a diferentes
sistemas jurídicos, existindo um elevado grau de complexidade na interpretação dos
tratados. à devido a esta complexidade, podem surgir sentidos diferentes de acordo
com a língua: se os textos não forem todos autênticos, a orientação geral é a de
prevalecer o sentido do texto que tenha sido redigido na versão autêntica; se os
textos forem todos autênticos, a divergência só pode ser ultrapassada adotando se o
sentido que melhor concilie esses textos, atendendo ao objeto e fim do Tratado. Os
tratados bilaterais podem ter apenas uma língua oficial, o que facilita o papel do
intérprete. Esta interpretação é feita de modo descentralizado, porque são os
Estados que a interpretam, pelo que podem surgir conflitos potenciais, pois não se
pode garantir que todos interpretam da mesma maneira. define-se como o “sentido
comum atribuível aos termos do tratado” – 31.º, n.º 1;
-​ teleológico, segundo este admite-se que a interpretação deve procurar o sentido
normativo do tratado“à luz dos respetivos objeto e fim”– 31.º, n.º 1 e 33.º, n.º 4;
-​ sistemático; é aludido como “o contexto” dos termos do tratado sendo parte integral
do tratado. Assenta na ideia de que as normas não estão isoladas, mas integradas
num todo, num capítulo ou numa parte.- 31.º, n.º 2 e 3;
-​ Complementar:
-​ Histórico : todo o processo de negociação e as circunstâncias em que foi concluído o
tratado devem ser expressamente mencionados, como referência de confirmação do
sentido normativo. Refere-se também a práticas anteriores de outros Estados ou
tratados preexistentes com objeto semelhante. Não é um elemento fundamental- art.
32.º.

Os fins da interpretação definem-se como as descoberta das normas que se objetivam nas fontes
convencionais, de acordo com uma orientação objetivista e atualista:
▪ Objetivista, porque se pretende a mens legis (espírito da lei) e não a mens legislatoris
(intenção do legislador) – esta última traduz a posição subjetivista, redutora e, muitas vezes,
impossível, devido à dificuldade de colocação psicológica no espírito do autor da norma.
▪ Atualista, porque se pretende perceber as normas no seu contexto atual, não apenas a
vontade normativa que foi exteriorizada no momento em que entrou em vigor, que seria uma
perspetiva historicista.

Os fins da interpretação são em princípio objetivos, embora seja possível atender à intenção das
partes no sentido de atribuir a um termo, de acordo com o n.º 4, ou por ex. no art. 56.º, n.º 1, al. a); e
atualista – a relevância dos acordos e práticas ulteriores - 31.º, n.º 3

Resultado da interpretação
Os elementos de interpretação a utilizar pelos sujeitos da interpretação, com o objetivo de alcançar o
sentido normativo que neles se expressou, culmina no resultado da interpretação, que pode ter cinco
categorias:
▪ Interpretação declarativa: correspondência entre a letra e o objetivo do tratado.
▪ Interpretação restritiva: necessidade de limitar o alcance da letra, uma vez que o objetivo é
mais limitado.
▪ Interpretação extensiva: necessidade de alargar o alcance da letra, pois o objetivo é mais
alargado.
▪ Interpretação enunciativa: extração de um sentido hermenêutico não constante da letra,
mas que resulta da aplicação de argumentos lógico-formais.
▪ Interpretação ab-rogante: impõe-se quando se percebe que a letra do tratado não faz
sentido, por incongruência interna ou porque deve ser eliminada em favor de outro sentido
normativo prevalecente.
Resultados da interpretação: os limites à interpretação extensiva, em homenagem à soberania dos
Estados. A soberania dos Estados exige respeito: Um tratado não pode ser interpretado de forma a
ampliar direitos ou deveres além do que foi consentido pelo Estado na sua ratificação.

§ a interpretação dos Tratados e os direitos humanos (cf. Ac. TIJ de 27/6/2001, RFA v. USA,
Lagrande; Ac. TIJ 31/3/2004, México v. USA, Avena) VER SEBENTA DESTE ANO

-​ Integração de lacunas

As lacunas definem-se por situações que apesar de possuírem dignidade jurídica não se encontram
reguladas, pelo que tem a necessidade de serem integradas. É a ausência de um sentido orientador
em vista a um caso que carece de Direito.

No DIP, uma vez que este é um plano para além da soberania dos Estados, questiona-se em que
medida o DI deverá regular essa matéria, pois, se for matéria interna dos Estados, não é uma lacuna,
apenas uma matéria que ainda não está aberta à legislação pelo DI, mas se considerarmos uma
questão que não é tratada, por ter sido ignorada pelos Estados na elaboração do tratado, existe uma
lacuna que pode ser tratada da seguinte forma:
-​ analogia: em que se apela à aplicação de normas que regulam casos dotados de analogia
com o caso que carece de tratamento. Aquela situação não tem uma solução específica, mas
existe uma solução paralela em que a exigência normativa é semelhante ao caso concreto e
possui uma regra, que é aplicada à situação sem solução
-​ PGR: recorre-se aos princípios gerais de direito. Permitem ao aplicador densificar uma
norma a partir do princípio que irá aplicar ao caso concreto, ou seja, concretiza o princípio,
tornando-o numa regra jurídica que é, posteriormente, aplicada.

Importa ainda referir que o Parecer do TIJ, de 11/4/1949 sobre a utilização da analogia foi negativo,
dispensando tal método na integração de lacunas. Tal deu-se no caso relativo aos prejuízos sofridos
ao serviço das NU, em que os juízes utilizaram analogias para construir uma solução que justificasse
indemnização a dar à ONU.

-​ Aplicação dos tratados

O princípio do "Pacta Sunt Servanda" (art. 26 e 27) estabelece que:


-​ o tratado vincula as Partes na sua íntegra (sem prejuízo da possibilidade de formulação de
reservas, desde que permitidas pelo Tratado e aceites pelas Partes) e deve ser por elas
cumprido escrupulosamente e de boa fé (art 26)
-​ o tratado não pode deixar de ser cumprido através da invocação dos direitos internos. (art
27).

No entanto, o art 27 tem uma exceção, que é o problema das ratificações imperfeitas consagrado no
art. 46º. O art 46 fundamenta que tal pode se verificar se houver violação manifesta de disposição
fundamental interna (constitucional), relativa à competência para concluir os tratados (norma de
natureza orgânica ou formal).

-​ Aplicação temporal

Aplicação provisória antes da vigência (art. 25.º)


Os tratados podem, através de um acordo (ou estando previsto no tratado), definir a sua aplicação
provisória (total ou parcial - na medida em que houver divisibilidade do tratado - art. 44.o), antes que
esta entre em vigor. (As Partes acordam em aplicar provisoriamente certas condutas, antes de
estarem vinculadas)
● Diferente da previsão de disposições processuais necessárias à conclusão do tratado, no
art. 24.o.

Não retroatividade (art. 28.º)

"Salvo se o contrário se estabeleça, as disposições de um tratado não vinculam a Parte quanto a


atos anteriores à data de entrada de vigor do tratado para essa Parte."
● É uma disposição supletiva, podendo, ou por disposição em contrário, ou por prática das
partes ser afastada.
● Os tratados só produzem efeitos a partir da data em que entram em vigor em relação
àquela parte. Que não é necessariamente a entrada em vigor do tratado na ordem internacional,
podendo um Tratado já em vigor na ordem internacional ainda não produzir efeitos para todas as
partes.

Sucessão de tratados no tempo (arts. 30.º, 41.º e 60.º)

-​ Princípio geral: O tratado posterior derroga o tratado anterior. Se os tratados forem no


mesmo sentido ou regularem o mesmo âmbito (art. 30.o/2).
-​ Exceção: A CNU tem prevalência sobre todos os demais tratados. (art. 103.o da CNU,
acolhido pelo 30.o/1 da CVDT).

Um tratado pode estabelecer a subordinação a um tratado anterior ou posterior. Nesse caso,


prevalecem as disposições do tratado ao qual está subordinado (tratado superior prevalece sobre
tratado subordinado).

Quando as Partes são as mesmas no tratado anterior: O tratado posterior revoga o anterior. Porém, o
30.o/3 prevê que a aplicação do tratado anterior poderá valer quando as suas disposições forem
compatíveis com o tratado anterior. (Isto poderá acontecer quando um tratado posterior visa
complementar, praeter tractum, o regime do tratado anterior).

Quando as Partes não são as mesmas no tratado anterior (art. 30.o/4): Aplica-se o tratado que se
vincule para todas as Partes. (Entre os Estados que se vincularam ao tratado posterior aplica-se o
posterior. Entre um Estado que se vinculou ao Posterior e outro que não, aplica-se o último tratado
que vincula ambas as Partes nesta matéria).

Ressalvas - art. 30.o/5 - à Aplicação de Tratados Sucessivos:


-​ A criação de um acordo para modificar disposições num tratado multilateral, previsto no art.
41.o não é um tratado sucessivo, porque não visa substituir o tratado anterior, apenas criar
um regime especial dentro desse tratado (na medida em que for permitido ou não prejudicar
o gozo das outras Partes).
-​ A cessação ou suspensão do tratado por violação (art. 60.o) pode afetar a aplicação no
tempo do tratado, na medida em que pode suspender totalmente a aplicação (60.o/2 - ii) ou
para a Parte lesada (al b.)

-​ Aplicação territorial (art. 29.º - regra supletiva)


Em princípio os tratados aplicam-se à totalidade do território do Estado (art. 29.o), mas esse regime é
supletivo. Um Estado com territórios com um estatuto especial pode, durante as negociações,
entender a não aplicação territorial total do tratado (se este permitir).

-​ Aplicação subjetiva (arts. 34.º a 38.º)- refere-se às entidades a quem os efeitos do tratado se
aplicam.

Princípio da relatividade (arts. 34.º), é o princípio geral e diz que um tratado estabelece um regime
jurídico que pode conter direitos e obrigações para os Estados que dela são parte, não produzindo
efeitos para terceiros. O tratado é uma manifestação de vontade convergente, pelo que se vinculam
apenas os titulares dessas vontades.

No entanto, certos tratados preveem a criação de obrigações para 3.ºs (art. 35.º), logo nestes casos
uma disposição de um tratado faz nascer uma obrigação para um terceiro Estado se as Partes nesse
tratado entenderem criar a obrigação por meio dessa disposição e se o terceiro Estado aceitar
expressamente por escrito essa obrigação.

A previsão de direitos para 3.ºs (art. 36.º). Quando se trata de estender direitos a um terceiro Estado,
se não houver indicação em contrário, assume-se que esse terá consentido, ou seja, pode ser
consentimento tácito, e não expresso.

Art. 37.o: Quando um direito tenha nascido para um Estado terceiro, nos termos do artigo 36.o, não
poderá ser modificado ou revogado pelas Partes a não ser por acordo entre o 3.o Estado e as Partes
(37.o/1), e nunca poderá ser revogado se se concluir que a revogação não era intenção do Estado
Terceiro (n2).

Exceções ao Princípio da Relatividade (na aplicação subjetiva):


● Quando se trata de um Tratado Codificador de Costume Internacional. As disposições que sejam
normas de origem consuetudinária vão vincular os mesmos com os Estados terceiros. Pois o
costume já os vinculava previamente. (art. 38.o)
● Tratados que criam obrigações erga omnes, como os tratados que fixam fronteiras (que geralmente
são tratados bilaterais ou multilaterais fechados), ou que estabeleçam a neutralidade de um Estado.
As obrigações erga omnes devem ser respeitadas por toda a comunidade internacional, mesmo que
não tenham acordado.
● Os Tratados normativos, que se baseiam em objetivos comuns da humanidade ou da comunidade
internacional e tentam definir um regime normativo geral e objetivo. Contudo entende-se que, a
menos que as disposições normativas tenham valor consuetudinário ou de ius cogens, estas não
vincularão os Estados não-Contratantes. Ex: Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, Pacto
Internacional de DESCS, Convenção de Genebra.

-​ Revisão e modificação dos Tratados

Os tratados assim como não necessitam de permanecer sempre vigentes também não necessitam
de permanecer sempre iguais, sofrendo assim de uma vicissitude menos drástica: a sua alteração.

A cvdt regula quer a revisão quer a modificação dos tratados internacionais. O conceito de revisão
distingue-se do conceito de modificação.
-​ revisão: alteração das cláusulas do tratado envolvendo a participação dos Estados que
outorgaram o tratado
-​ modificação: alteração subjetiva e parcial do tratado internacional, apenas atinente a certas
partes, não ao universo global dos que nela participam
Assim como já referido, o conceito de revisão não coincide com o conceito de modificação, ainda que
a revisão tenda a alterar as disposições de um tratado.
O processo de revisão:
✓ pode ser previsto por esse tratado, mediante o acordo entre os Estados e, nesse caso, não se
coloca qualquer questão. – art.39
✓ se nada se estabelecer, aplicam-se as regras da CVDTE, tendo a revisão lugar mediante acordo
entre as partes, ou seja, todos os Estados participam no processo de revisão, seguindo o mesmo
processo da conclusão e entrada em vigor de um tratado – negociação, adoção do texto,
autenticação, vinculação e entrada em vigor. – art.39

Nos tratados multilaterais prevê-se regras específicas (art. 40.º) que se traduzem na celebração de
um novo acordo. Aplica-se o art. 30.º, no 1 a 3 caso haja coincidência de partes. Caso as partes
envolvidas no tratado original e no tratado de revisão não coincidam há uma situação de sucessão de
tratados que é regulada pelo art. 30.º, n.º 4. No caso de adesão posterior de um Estado, rege o art.
40.º, n.º 5.

A modificação define-se pela alteração das disposições do Tratado somente a respeito das relações
entre algumas partes.
-​ Admissibilidade – art. 41.º, n.º 1. O tratado pode ser modificado através de um acordo entre
2 ou mais partes se prever essa possibilidade e se o tratado não a proibir desde que não
prejudique o gozo dos direitos provenientes dos tratados por outras partes e não respeite a
uma disposição cuja derrogação não seja considerada compatível com o fim do tratado.
-​ Processo – aplica-se o art. 39.º assim como a obrigação de notificação da intenção às
restantes partes e das modificações operadas (art. 41.º, n.º 2).

§ Há limites materiais à revisão?


-​ No caso dos tratados normativos a questão pode ser respondida favoravelmente (cf. CNUDM
– art. 155.º, n.º 2);
-​ no que toca ao ius cogens; a resposta é negativa, uma vez que pela sua natureza
inderrogavel não podem ser modificadas.
-​ Alguns tratados constitutivos de OI (UE e ONU): o objeto e fim do tratado levantam-se em
relação às OI, nomeadamente na UE. VER SEBENTA DESTE ANO.

-​ Requisitos de validade dos Tratados

-​ requisitos subjetivos – o consentimento livre, consciente e corretamente formado e


manifestado.

Seguindo bacelar gouveia os requisitos subjetivos dizem respeito à qualidade e à capacidade dos
sujeitos internacionais outorgantes, bem como a manifestação da respetiva vontade, seja no plano
funcional dos órgãos que para tanto estão habilitados seja no plano psicológico relativamente às
exigências de expressão de vontade que seja livre e esclarecida.

O consentimento dos Estados de vinculação aos Tratados deve ser livre, consciente e corretamente
formado e manifestado. Podendo, quando falha nesses requisitos, sofrer de vícios:
-​ Vícios funcionais: – dizem respeito à conexão entre a vontade manifestada e os fins a
alcançar, são estes a irrelevância do desrespeito pelo direito interno (art. 27.º), com a
exceção da ratificação imperfeita, nos termos do art. 46.º); o excesso de representação (art.
47.º).
-​ Vícios materiais da vontade: afetam a liberdade de consciência e manifestação de vontades
(art. 48.º); o dolo (art. 49.º); corrupção do representante (art. 50.º); coação sobre o
representante (art. 51.º) e coação sobre o Estado (art. 52.º); § a questão da ‘coesão
económica’.

-​ Objetivos ou materiais
Define-se como os requisitos que são atinentes ao conteúdo e ao objeto do tratado, na medida em
que são internacionalmente relevantes, para além de dever ser inteligível e coerente nos efeitos que
contém.

Estabelece qual o Direito aplicável naquele caso.


▪ Exige-se sempre o respeito pelo ius cogens, cuja violação acarreta a nulidade do tratado
(Art. 53º e 64º). – é nulo todo o tratado que, no momento da sua conclusão, seja incompatível com
uma norma imperativa de direito internacional geral, aceite e reconhecida pela comunidade
internacional e que só pode ser modificada por nova norma de DI geral com a mesma natureza.

▪ O Art. 103º da CNU determina que as normas da carta e atos do Conselho de Segurança
prevalecem sobre quaisquer outras obrigações dos Estados-membros da ONU. – Qualquer norma
contrária a esta determinação traduz-se num vício material do Tratado.

▪ Subordinação a outro tratado - Um tratado deve respeitar outro tratado que lhe é superior
(Ex. princípios gerais do DI têm de ser respeitados, na medida em que impõe uma obrigação que
prevalece). Os tratados normativos têm alcance erga omnes (efeitos oponíveis a terceiros, que não
podem celebrar um tratado entre si que afete esse tratado normativo, mesmo que dele não façam
parte). – art.30/2

-​ Formais
Consideram as exigências formais e procedimentais na extração do tratado, bem como o iter
procedimen raquel que importa respeitar para se afirmar completo.

-​ Respeito pelas regras relativas à conclusão dos Tratados que vinculam as partes.
-​ Respeito por todas as disposições relativas à conclusão de Tratados da CV, que não sejam
supletivas (art.42) ou que, sendo supletivas, sejam aplicáveis.

-​ Regime das invalidades

Estas vicissitudes, quando suscitadas, dão lugar a desvalores que reconduzem à nulidade (absoluta
ou relativa). Quando falamos de vícios, falamos de algo que afeta o tratado de início, desde o
momento da sua conclusão e da sua entrada em vigor.

O regime de invalidades regulado pela CDTVE é um regime imperativo, o que se traduz no facto de
que as consequências destas vicissitudes se aplicam obrigatoriamente para as Partes.

Nulidade: a nulidade no âmbito de um tratado traduz-se no apagamento dos seus efeitos, quase
como se o mesmo nunca tivesse visto a luz do dia. É explanado no art 69 n 1 da CVDT.

Questão controvertida. VER SEBENTA DESTE ANO.


-​ Classificações da nulidade:

A nulidade pode ser tanto absoluta como relativa. A preferência da CVDT recai sobre a nulidade
absoluta , preferindo o princípio de que a causa de nulidade afeta todo o tratado.

-​ Na nulidade absoluta, o princípio geral é a afetação da totalidade do Tratado e os vícios que


a acarretam são insuscetíveis de convalidação. ART 51, 52. Pode ser invocada a todo o
tempo.

Exemplos de vícios que implicam a nulidade absoluta: a coação (arts. 51.e 52.o) e a
incompatibilidade com jus cogens originário (art. 53.).​

E se a incompatibilidade com for com ius cogens supervenientes (que não existia à data em que o
tratado foi concluído)?
● Segundo Artigo 64.o, o tratado torna-se nulo e cessa-se a vigência, isto parte do princípio de que a
nulidade absoluta é a regra geral das invalidades - previsto nos arts. 44.o/2 e 71.o/2.

● Porém, o "Draft Ius Cogens" da Comissão de Direito Internacional prevê que, se a divisibilidade do
Tratado for possível, poder-se-á expurgar a norma incompatível com o ius cogens e manter o resto
do Tratado.

-​ A nulidade relativa pode incidir apenas sobre parte do tratado, não deve ser invocada a todo
o tempo, pois podemos correr o risco de poder deixar de a invocar e só pode ser invocada
pelo Estado viciado – art.45.

Nas condições do Art. 44/3, pode não afetar todo o tratado, mas implicar um desvalor daquela parte,
na medida em que aquela parte seja divisível do restante Tratado, que possa ser autonomizada
deste, e que não constitua uma base essencial, para as partes, em ficarem vinculadas ao Tratado no
seu todo – o resto das normas podem ser aplicadas, só as que são afetadas deixam de se aplicar.

A nulidade relativa pode ser sanada, isto é, através da confirmação da vontade do Estado,
convalidam-se as disposições do Tratado, que continuam, então, a manifestar-se (o Erro e a
corrupção são sanáveis mediante a confirmação da vontade do Estado). – art.45.

As suas causas são: irregularidade na conclusão interna do tratado; restrição especial ao poder de
manifestar o consentimento; erro; dolo; corrupção do representante de um Estado.

-​ Efeitos
As disposições afetadas pela nulidade não têm força jurídica e deve ser reconstituído o status quo
ante - arts. 69.º, n.º 1 e 69.º, n.º 2, aa). Assim,
●​ os vícios subjetivos que incidam sobre a totalidade do Tratado implicam a nulidade dos
tratados bilaterais (um tratado não pode existir com apenas 1 parte);

●​ Os vícios subjetivos relativos ao consentimento de uma das partes que incidam sobre a
totalidade de um Tratado multilateral implicam a possibilidade de desvinculação dessa parte
(arts. 45.º e 69.º, n.º 4)

●​ os vícios objetivos e formais que incidam sobre a totalidade do tratado implicam a nulidade
do tratado multilateral ou bilateral
●​ os vícios subjetivos e objetivos que incidem sobre algumas disposições e em que se aplica o
art. 44.º, n.º 3 (exclui a coação e o ius cogens) implicam a nulidade dessas cláusulas nas
relações entre o Estado cujo consentimento foi viciado e o(s) outro(s) Estado(s)

●​ Consideram-se válidos os atos praticados antes da invocação da nulidade que tenham sido
praticados de boa fé - art. 69.º, n.º 2, al. b) com exceção prevista nos termos do n.º 3 do art
referido para a parte que provocou o vício de consentimento.

●​ Quando se trate de violação de ius cogens há que distinguir os efeitos já produzidos no 53.º
(devem eliminar-se sem salvaguarda da boa fé) e no 64.º (são válidos) – art. 71.º.

-​ Processo – arts. 65.º a 68.º


●​ Notificação fundamentada e por escrito da intenção à(s) outra(s) parte(s) – art. 65.º,
n.º 1 e 5
●​ Não havendo objeção ( (num prazo, supletivamente, de 3 meses- art 65.º, n.º 2),
consignar-se-á num instrumento comunicado à(s) outra(s) parte(s) a invalidade e
respetivas consequências (art. 67.º, n.º 2). Competência – art. 67.º, n.º 2.
●​ Podem ser revogados estes atos até ao momento em que produzam efeitos (art.
68.º).
●​ Em caso de objeção:
○​ Resolução do diferendo nos termos previamente convencionados pelas
partes – art. 65.º, n.º 4
○​ Recurso aos meios do art. 33.º CNU – art. 65.º, n.º 3
○​ Caso o recurso aos meios do art. 33.º CNU tenha sido infrutífero, no caso de
o diferendo incidir sobre a violação de suas cogens, é possível o recurso por
acordo com a arbitragem, ou o recurso ao TIJ – art. 66.º, al. a); quando o
diferendo incida sobre outro fundamento, qualquer parte pode solicitar o
recurso ao processo de conciliação anexo à CVDT – art. 66.º, al. b)

-​ SUSPENSÃO DE APLICAÇÃO

▪ Art.61/1 - Se a impossibilidade de cumprir um tratado for temporária, apenas pode ser invocada
como motivo de suspensão da aplicação do tratado.

Se, no momento em que o tratado é celebrado há uma mudança significativa do contexto – alteração
fundamental das circunstâncias – uma das partes pode invocar essa alteração como motivo para
fazer cessar ou suspender a vigência do Tratado. Não pode ser invocada se se verificarem algumas
das situações previstas no art. 45.º (estoppel)* – a) Aceitou expressamente considerar que o tratado
conforme os casos, é válido, permanece em vigor ou continua a ser aplicável; ou b) Deva, em razão
da sua conduta, ser considerado como tendo aceite, conforme os casos, a validade do tratado ou a
sua permanência em vigor ou em aplicação.

Conclusão, entre todas as partes, de um Tratado posterior sobre a mesma matéria, nos termos do
art. 59/2.

A aplicação de um tratado relativamente a todas as Partes ou a uma Parte determinada pode ser
suspensa se houver essa previsão no Tratado ou houver consentimento de todas as partes, após
consulta de outros Estados Contratantes – art. 57.º

Suspensão de aplicação de um tratado multilateral, quando haja acordo entre certas partes – art.58.
Pode ainda ocorrer a suspensão da aplicação, como consequência da violação substancial do
Tratado – art. 60/1 e 2, alínea a), b) e c). Não pode ser invocada se se verificarem algumas das
situações previstas no art. 45.º (estoppel), tal como se refere acima*.

Causas relativas às partes:

O desaparecimento da(s) parte(s), como um Estado – isto significa que aquela população e o
território passou a estar sob a jurisdição de outro Estado. Não conduz necessariamente ao seu
desaparecimento como parte de um tratado, pois há um regime de sucessão dos Estados.

A cessação da vigência pode ter lugar em qualquer momento, por consentimento de todas as partes
– art.54. – o acordo entre as partes traduz uma derrogação: um conjunto de partes pode suspender
ou fazer cessar a vigência do tratado entre si, desde que notifique as outras partes e que estas não
levantem objeções; é preciso também que a natureza do tratado o permita e não haja dependência
entre as obrigações e direitos das restantes partes às que pretendem cessar a vigência do tratado.

A denúncia é causa de cessação da vigência dos Tratados bilaterais – art.56 – “… salvo: a) Se


estiver estabelecido que as Partes admitiram a possibilidade de denúncia ou de retirada; ou b) Se o
direito de denúncia ou de retirada puder ser deduzido da natureza do tratado.

Conclusão de um tratado subsequente sobre a mesma matéria, na medida em que as suas


disposições são incompatíveis com as disposições do tratado anterior (este cessará a sua vigência),
nos termos do art. 59.º, n.º 1.

Incumprimento de uma das partes que incide numa disposição fundamental. Implica a suspensão ou
a cessação de vigência (dependendo do tipo de tratado, isto é, se é bilateral ou multilateral). A
suspensão é a consequência mais imediata, pela exceção do não cumprimento.

Pode ainda ocorrer a suspensão da aplicação e cessação da vigência, como consequência da


violação substancial do Tratado (art.60/3) – art. 60/1 e 2 a), b) e c). Não pode ser invocada se se
verificarem algumas das situações previstas no art. 45.º (estoppel)*.

Causas alheias às partes:


Cessação da vigência, nos termos previstos no Tratado - art. 54.º, al a.
Cessação da vigência do tratado multilateral quando o número de partes se torne inferior ao número
necessário, nos termos do art. 55º, apenas se isso for previsto no Tratado. Se nada for dito, num
tratado multilateral, mesmo que os Estados se desvinculem num número que deixa os Estados parte
num número inferior ao que era necessário para a sua vigência, este não cessa a sua vigência, ainda
que se converta num tratado bilateral.
Impossibilidade superveniente de execução relevante, nos termos do art. 61.º, n.º 1 – uma parte
pode invocar a impossibilidade de cumprir o tratado, caso tenha desaparecido ou se tenha destruído
o objeto indispensável ao cumprimento do Tratado.

Alteração fundamental das circunstâncias relevantes, nos termos do art. 62.º (rebus sic stantibus)
–Não pode ser invocada nos tratados que fixam fronteiras, nem pode ser invocada se o Estado
ilicitamente provocou a alteração e se se verificarem algumas das situações previstas no art.
45.º(estoppel)*.
▪ Costume contra tractum?

– CESSAÇÃO DA VIGÊNCIA
Pode ocorrer por vontade das partes ou por factos alheios à vontade destas. De acordo com o art.
42/2 - A cessação da vigência de um tratado, a sua denúncia ou a retirada de uma Parte só podem
ter lugar de acordo com as disposições do tratado, ou da presente Convenção. A mesma regra vale
para a suspensão da aplicação de um tratado.

Perante o fim da vigência dos Tratados, prevê-se um procedimento que se desenvolve por
duas fases:
✓ Fase amigável – uma das partes notificar a outra que pretende a cessação do tratado, invocando
uma justificação, que pode ser aceite;
✓ Fase litigiosa – no caso de a justificação não ter sido aceite. Este problema pode ser resolvido por
recurso à arbitragem ou por recurso à via especial de conciliação.

Podemos ainda distinguir dois tipos de causas que contribuem para a cessação da vigência:
✓ Vontade comum/coletiva: todos os sujeitos vinculados no tratado contribuem para a
cessação da vigência, tomando o nome de revogação ou ab-rogação, que pode ser retroativa
(atingindo os efeitos já produzidos) ou prospectiva (só vale para o futuro).
✓ Vontade individual: distingue-se entre:
a) Denúncia: uma das partes se opõe à renovação do tratado, comunicando isso nos termos
estabelecidos;
b) Recesso: tratado admite a saída do mesmo em qualquer momento, por vontade unilateral
dos sujeitos;
c) Incumprimento do Tratado.

O princípio geral é o da inoperacionalidade, a não ser que a denúncia e o recesso tenham sido
aceites pela partes ou que isso se deduz da natureza do tratado – art.56/1. Se isso suceder,
estabelecem-se 12 meses para os efeitos da cessação da vigência possam começar a produzir-se.

Como factos alheios à vontade das partes surge:


-​ A caducidade é o fim da vigência dos Tratados internacionais pelo decurso do tempo ou pela
superveniência de novos pressupostos extintivos do mesmo, num período que pode ser certo ou não
é certo quando está definido nas cláusulas finais ou por outra via; incerto quando se verifica o
esgotamento da razão de aplicação do tratado, por alteração superveniente dos pressupostos ou
quando é resultado da normal execução do mesmo ou do desaparecimento dos sujeitos contratuais.

-​ A impossibilidade de cumprimento, consiste na incapacidade de se cumprir os efeitos


estabelecidos no tratado, pelo qual ele não pode continuar a vigorar. Esta impossibilidade
pode ser objetiva, porque se relaciona com um aspeto externo e não com a vontade das
partes cumprirem o Tratado; definitiva, devido à destruição ou desaparecimento do objeto
indispensável à execução do Tratado Pode ocorrer cessação da vigência do tratado, como
consequência da sua violação substancial – art.60/1/2
Vicissitudes que podem ou não afetar o tratado:
▪ Ruptura de relações diplomáticas – art. 63 e 74 - A inexistência de relações diplomáticas não
impede
a realização de tratados. A ruptura de relações diplomáticas não produz efeitos nas relações
jurídicas entre elas, estabelecidas no Tratado,salvo quando haja existência de relações diplomáticas
que sejam indispensáveis à aplicação do Tratado.
▪ Quando se fala de guerra, há um entendimento diferente: existem determinados tratados que, numa
situação de guerra, não cessando a sua vigência (como os tratados de natureza política), suspendem
a sua aplicação, caso a guerra seja um acontecimento incompatível com a manutenção dos efeitos
convencionais (Ex. tratados de paz e amizade e tratados de natureza técnica). Há tratados que, pelo
contrário, vinculam as partes obrigatoriamente e têm de ser integralmente respeitadas (Ex.
Tratados relativos ao direito humanitário e direito da guerra).
-​ DENÚNCIA E RECESSO
A denúncia acarreta a cessação da vigência dos Tratados bilaterais. Já nos tratados multilaterais, a
desvinculação de uma parte assume a forma de recesso e só implica a desvinculação dessa parte e
a consequente modificação das relações jurídicas entre si e as restantes partes, mantendo-se em
vigor o tratado para as restantes, exceto na situação do art.55.

Caso o Tratado não preveja a denúncia ou recesso, estes só poderão ter lugar com verificação de
uma das condições previstas no art.56/1.
Nota: não é admissível o recesso nas convenções de codificação e nas que constituem situações
objetivas

-​ PROCESSO RELATIVO À SUSPENSÃO, CESSAÇÃO DA VIGÊNCIA, DENÚNCIA OU


RECESSO
▪ Pode ser de acordo com as disposições do Tratado – art. 54/a; 57/e 58/1/a e 2.
▪ No caso de denúncia ou recesso, é feito ao abrigo do art.56/1 e a intenção deve ser comunicada
com 12 meses de antecedência – art. 56/2.
▪ Pode-se traduzir num processo que siga um regime idêntico ao referido para as invalidades – art.65
68.

CONSEQUÊNCIAS DA EXTINÇÃO DE UM TRATADO OU DO RECESSO NUM TRATADO


MULTILATERAL
As consequências podem ser determinadas pelas disposições do Tratado ou resultantes de
convenção entre as partes – art.70/1.

Ainda, de acordo com o 70/1/a e b, o facto de um tratado ter cessado a sua vigência, nos termos das
suas disposições isenta as partes da obrigação de continuarem a cumprir o Tratado e não prejudica
qualquer direito, obrigação ou situação jurídica das partes, criados pelo cumprimento do tratado,
antes da cessação da sua vigência.

No que diz respeito ao art.71, este prevê as consequências da nulidade de um tratado incompatível
com uma norma imperativa de direito internacional geral – jus cogens. Devemos ainda ter em conta o
art.69 e o art.72.

-​ Tipos principais de sujeitos

1.​ Estados e entidades afins.


Os estados são os sujeitos mais antigos de DIP pelo que adquirem um estatuto mais elaborado.
Ainda assim, há muito foi desmentida o facto de que os estados são os únicos sujeitos de dip pelo
que a sociedade internacional é constituída igualmente por outros sujeitos.

-​ Estado soberano:

Tem a plenitude da soberania internacional podendo assim desenvolver todos os atributos que lhe
são reconhecidos.

O Estado soberano é constituído por elementos como o território (que representa o âmbito espacial
de projeção da sua ordem jurídica), o povo (conjunto de pessoas ligadas por um vínculo de
cidadania) e o poder político (poder este com capacidade de gestão desse território e desse povo,
relacionando-se com a soberania que, na esfera interna traduz o poder máximo de auto organização
e na esfera internacional, que se manifesta na independência e igualdade frente a outros poderes).

A Convenção de Montevidéu acrescenta um novo elemento: para ser um Estado, também é


necessário que o poder político tenha capacidade para estabelecer relações internacionais, isto é, o
Estado deve ser reconhecido internacionalmente enquanto governo. As faculdades destes Estados
são o ius tractum, ius legationis, o direito de reclamação e ius belli (contra um ataque armado
admite-se a legítima defesa, própria e alheia– arts. 2.º, n.º 4 e 51.º CNU) – art.1 da convenção de
Montevidéu.

Deveres: respeito pelo DI; dever de cooperação internacional; proibição do uso da força; proibição de
ingerência em assuntos internos.
Direitos: não sujeição do Estado a outros sujeitos do DI; regularidade dos respectivos atos;
autonomia da própria organização política.

-​ Estado divididos:
O exemplo que tínhamos historicamente era a Alemanha, mas, atualmente, é possível referir a
Coreia. Podemos considerar que se trata de um Estado que se dividiu fruto de determinadas
circunstâncias, mas, ainda que assim fosse no início, historicamente, consolidou-se uma situação em
que temos dois Estados soberanos distintos e que partiram de um território que era historicamente
unitário

A questão do reconhecimento do Estado:


A existência do sujeito Estado implica a verificação dos três elementos anteriormente mencionados e,
de um ponto de vista efetivo, há o entendimento de que estes elementos fazem com que o
reconhecimento dos Estados seja meramente declarativo- TEORIA DECLARATIVA. posição adotada.
art 3 da convenção de montevidéu.

Já a teoria constitutiva, defende que a personalidade internacional do Estado depende do seu


reconhecimento por outros Estados (e pela ONU), daqui se retira um dever de não reconhecimento
das situações resultantes de atos contrários ao DI (Doutrina Stimson) - e.g. não reconhecimento de
um Estado que ocupa ilegitimamente um território - é uma posição mais normativista (enquanto a
declarativa é mais factícia).

As posições quanto ao reconhecimento do governo, são:


● A doutrina da efetividade (de Genaro Estrara, MNE mexicano nos anos 30) - apenas a capacidade
de administração soberana é requisito de reconhecimento internacional. (Se um Estado tiver
estruturas governativas, controle sobre o território e capacidade internacional, deverá ser
reconhecido).
● A doutrina da legitimidade (de Carlos Tobar e Woodrow Wilson), defende que o reconhecimento
deve ter por base a conformidade constitucional ou, em caso de ruptura constitucional, através da
legitimação democrática.
● Na doutrina portuguesa, Gonçalves Pereira aproxima-se da doutrina da legitimidade
(reconhecimento constitutivo). J. Miranda e Bacelar Gouveia defendem a doutrina da efetividade
(reconhecimento declarativo).
● Os governos no exílio (que tiveram grande importância na 2.a GM) são reconhecidos com base na
doutrina da legitimidade, representando um Estado que só existe de jure, estando de facto ocupado
(ilegitimamente).

-​ Estados de soberania restrita


Historicamente, os Estados protegidos e Estados-vassalo (exercem direitos através de um Estado
suserano externo) - e.g. Protetorado francês sobre Marrocos (1912-1956)
Estados exíguos - dispõe de todas as prerrogativas da C. de Montevideo, mas a sua capacidade de
gozo é afetada pela sua exiguidade territorial (por terem um território demasiado diminuto não são
aceites à plenitude da capacidade jurídico-internacional, embora possam exercer alguns poderes).
Afeta essencialmente o ius belli, pelo que da colaboração de Estados maiores para exercerem
dimensões do poder político (principalmente a defesa nacional), tornando-se dependentes destes
(beneficiam da moeda, infraestruturas e proteção de Estados soberanos vizinhos). e.g. Mónaco,
Liechtenstein, Andorra, San Marino (na Europa)

Estados neutralizados - São Estados que, de forma voluntária (e.g. Suíça) ou por outorga de outros
Estados (e.g. Áustria), não podem participar de pactos ou conflitos militares.

Historicamente, o Estado confederado, que é uma união de Estados Soberanos, em que estes
mantêm a personalidade jurídica internacional, mas exercem-na através da Confederação.

-​ Estados não soberanos


Não dispõem de qualquer tipo de soberania no plano internacional, mas não deixam de ser
considerados Estados, fundados nos respectivos textos constitucionais.
▪ Estados federados: mantêm a sua soberania interna através do poder constituinte, mas, a
nível internacional, transferem a totalidade dos seus poderes para o nível federal – não são, por isso,
sujeitos do DI;
▪ União Real: mantêm a sua soberania interna, ainda que limitada, mas existem órgãos
comuns aos membros da união real, numa lógica de fusão do poder estadual superior com os
poderes estaduais subjacentes.

-​ Entidades pró-estatais

-​ Beligerantes
São organizações de pessoas, de rebeldes armados e meios que, num determinado território, lutam
de forma bélica contra o governo do Estado que tem jurisdição sobre esse território, com intenção de
depor o governo ou formar um novo território.

Uma das suas características é a prossecução da luta armada, contrariando as exigências da ordem
constitucional e da ordem pública do Estado onde exercem essa atividade. A luta armada é feita em
nome da mutação do sistema político nacional, dentro do contexto estadual, não extravasando,
portanto, para outros Estados, não tendo, normalmente, implicação internacional.

Deve ser uma organização com uma estrutura próxima da estrutura do governo de um Estado à
organização de tipo administrativo e de tipo militar e um governo mais ou menos estruturado capaz
de exercer a administração desse território e impor as regras à população.

Estes ascendem à qualidade de sujeitos de DI através do reconhecimento, reconhecidos por razão


de interesse do próprio Estado onde estão os beligerantes, para que o próprio Estado se exima de
responsabilidades – qualquer facto que ocorra e lese outros sujeitos do DI e estrangeiros não é da
responsabilidade do Estado;

-​ Movimentos de libertação nacional:


É através da constituição de uma estrutura de representação que um povo luta pela sua
autodeterminação, que é a forma mais formal de libertação dos povos.

Estes movimentos são reconhecidos mediante condições:


-​ têm de ser representativos
-​ tem de ter um controle político sobre o povo que visa representar e libertar.

Estes pretendem transformar o território onde habitam e o conjunto das pessoas que fazem parte
deste, numa realidade estadual, dando origem ao nascimento de uma unidade jurídico-política, onde
já existe uma unidade histórico-geográfica. Estas concretizam o seu objetivo de construção do
Estado pela simples proclamação da independência ou pela secessão, separando-se do Estado a
que pertenciam.

A sua atividade não é necessariamente bélica, pois para lá de uma atividade militar, combatendo no
terreno onde pretendem construir o novo Estado, pode haver uma atividade diplomática, chamando à
atenção para a justeza da criação daquela nova entidade. O exemplo mais paradigmático foi o
movimento da Libertação da Palestina.

-​ Os Insurretos:
Reúne meios humanos e materiais de natureza militar ou paramilitar e que lutam contra o governo,
para o depor utilizando a força. A diferença fundamental em relação aos beligerantes que faz com
que não sejam reconhecidos enquanto sujeitos do DI, é o facto de não terem uma estrutura capaz de
dominar e administrar qualquer parte do território, executando as suas atividades de guerrilha Página
72 de 90 em diversas zonas do território, sem que se possa dizer que nalguma delas assumam o
controlo político-administrativo. A importância do seu reconhecimento também serve como força de
desresponsabilização dos Estados, dado que, por definição, praticam atos violentos que afetam
terceiros

-​ ENTIDADES INFRAESTATAIS
corporizam espaços territoriais, dotados de autonomia jurídica pública e com poderes limitados na
vida internacional, num contexto geral de entidades que se situam abaixo do Estado a que
diferencialmente se vinculam. São bastante heterogêneas e por isso é difícil definir um perfil
uniforme. Refletem desejos de autonomia jurídico-pública, não deixando de estar sujeitas a um poder
constituinte originário que as subordina:
▪ Mandatos ou territórios sob tutela: após as Guerras Mundiais, houve territórios que
integravam impérios e foram colocados num estatuto diferenciado, sob tutela ou mandato.
Isto aconteceu com vários territórios do Médio Oriente (estatuto de mandato com vista à
autodeterminação, Ex. Palestina). O Conselho de Tutela exercia a administração temporária
até que os territórios que integravam o império adquirissem condições para se tornarem
independentes;
▪ Colónias autónomas: estatuto especial que deriva da associação com outros
Estados soberanos. Tendo competências autónomas, reconhecem um chefe de Estado que
não é próprio e por eles autodeterminado. A prazo, existem movimentos em curso no sentido
da sua independência (Ex. Colónias britânicas)
▪ Territórios infraestatais com capacidade internacional: passa-se a reconhecer a sua
capacidade de participação nas relações internacionais. Estes territórios são regiões
administrativas especiais com leis próprias e uma lei fundamental de tipo constitucional que
cria um ordenamento jurídico autónomo e ainda com poder jurisdicional próprio. São parte
integrantes da República Popular da China, cuja Constituição permite a existência de um
regime administrativo especial, desviante em relação ao regime unitarista praticado no
restante território chinês (Ex. Hong Kong e Macau). Do ponto de vista internacional, esse
estatuto de autonomia que elas contêm traduz-se num conjunto de prerrogativas associadas
aos Estados – jus tractum de forma autónoma e determinada, direito de pertencer a algumas
OI.
O caso do Kosovo: processo de independência controverso com uma intervenção internacional
humanitária para salvaguarda da sobrevivência e liberdade da população. Do ponto de vista do DI,
houve reservas sobre o modo como o processo foi produzido. Em 1999 foi instituído o regime
especial (Kosovo era reconhecido como um territór

-​ ENTIDADES SUPRA ESTATAIS:

-​ As confederações e uniões reais.


As Confederações são associações de Estados que se fundam num tratado internacional, em que
são definidas as suas atribuições e os órgãos que ficam incumbidos da respetiva prossecução. As
Uniões Reais são Estados compostos, criados a partir de um tratado internacional, integrando vários
Estados.

-​ Associações de Estados
o Estado é a entidade com mais tradição no plano internacional, portanto nem sempre se apresenta
na sua singeleza, mas se mostra articuladamente, numa junção de vários Estados (Ex.
Commonwealth – assegura um conjunto de relações privilegiadas, mas não tem competências,
servindo apenas para cooperação política. Nela, todos partilham o mesmo soberano, que é a Rainha
de Inglaterra. É uma fusão meramente formal, tudo se passando como se ela não tivesse acontecido,
não se considerando os Estados limitados na sua soberania).

-​ INSTITUIÇÕES NÃO ESTATAIS:


▪ Santa Sé. Na atualidade, resulta do Acordo de Latrão celebrado entre o papado e o jovem Estado
italiano. Dispõe de um espaço em que, fruto dos acordos internacionais celebrados com Estados
(concordatas), lhe é reconhecida uma autonomia de jurisdição e algumas competências para além
dos seus fins espirituais. O território encontra-se sobre a jurisdição soberana da Santa Sé.
Não sendo um Estado, não é membro da ONU nem sujeito do DI e tem uma simples função de
mediação.

▪ Soberana Ordem de Malta. Tem finalidades espirituais e assistenciais a peregrinos e sujeitos em


situação de catástrofe – em tempos teve funções de tipo militar. Tem relevância para alguns
católicos, sendo reconhecida como sujeito do DI para fins espirituais pelos Estados católicos, mas
não possui relevância global.

▪ Cruz Vermelha Internacional e Crescente Vermelho. O Crescente Vermelho tem as mesmas


finalidades que a Cruz Vermelha e age mediante o mesmo quadro, sendo considerada sua “gémea”
pertencente ao Estado Islâmico. Devem prestar apoio humanitário aos feridos e a populações
envolvidas em conflitos: em primeiro lugar pensada para os feridos de guerra, mas agora tem
funções mais amplas.
-​ OIs
Associações de sujeitos do DI, criadas por um tratado constitutivo, sujeitas ao princípio da
especialidade (a sua capacidade de gozo é limitada pelos fins incluídos nas suas competências
explícitas e implícitas). Têm vista a prosseguir fins comuns dos seus membros. Não têm base
territorial, mas sim funcional.

A personalidade jurídica e capacidade de gozo: as OI não possuem capacidades de fins gerais


(desenvolvem múltiplas atribuições, nos diversos campos de atividade), ainda que algumas OI
tenham capacidades quase de fins gerais (Ex. UE), mas sim fins especiais, que se alinham na
prossecução de algumas finalidades apenas.

A ONU também tem finalidades amplas, pois, para além da sua finalidade central, tem várias outras
finalidades, não definidas do mesmo modo pelos Estados. Para além destas, possui competências
implícitas que, não estando expressamente previstas, são necessárias para assegurar as respectivas
finalidades.
Uma OI, na medida em que não seja reconhecida por terceiros, terá dificuldade em estabelecer
relações internacionais com esses terceiros, o que limita a sua atuação e as leva a agir através dos
seus Estados-Membros.

Classificações das OI
● Fins: gerais (e.g. ONU) ou especiais (e.g. OMC) - Sem prejuízo do princípio da especialidade, os
fins podem ser mais ou menos amplos.
● Estrutura: intergovernamentais (os Estados não abdicam de prerrogativas soberanas) e
supranacionais (os Estados dotam a Organização de órgãos próprios e os seus atos são diretamente
aplicáveis nos Estados, e.g. UE)
● Acesso - abertas (admitem a entrada de novos membros) ou restritas (não admitem). (Em
semelhança aos tratados gerais e restritos, que podem ser abertos ou fechados - consoante a
possibilidade de adesão de novos membros).
Podemos encontrar critérios de acesso distintos, sejam geográficos, políticos, econômicos (A UE é
um exemplo de uma OI que reúne todos esses critérios para o seu acesso, só admitindo Estados de
Direito Democráticos, no continente europeu e que tenham cumprido certas metas económicas)
● Duração - com ou sem termo (previsto pelo tratado).

-​ O indivíduo e outros particulares


O 1.o momento em que o indivíduo foi tratado como um sujeito do DI foi com os julgamentos de
Nuremberga e Tóquio. Prevendo-se a responsabilidade individual por crimes internacionais.
Julgou-se os indivíduos diretamente através do DI, abdicando da mediação do direito estadual.

Já num quadro pós-Nações Unidas, começaram-se a prever mecanismos de tutela internacional para
os indivíduos, como o direito de queixa (que ficou previsto nos protocolos facultativos do Pacto
Internacional de Direitos Civis e Políticos - PIDCP
- e no Pacto Internacional de Direitos Económicos, Sociais e Culturais - PIDESC, permitindo ao
indivíduo fazer queixa a uma Comissão Internacional, por violação das normas dos pactos pelo seu
Estado). A imputabilidade do indivíduo enquanto sujeito do DI, passa de, não só de sujeito passivo de
obrigações internacionais, mas de sujeito titular de direitos.

Com a Convenção Europeia dos Direitos Humanos (CEDH), passou a haver mecanismos de tutela
jurisdicional, nomeadamente o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem (TEDH).

É duvidoso que estes mecanismos de tutela tenham carácter self-executing - aplicabilidade direta.
Pois, apesar da comissão ou tribunal internacional determinar que o Estado cesse a violação ou
omissão de norma internacional para com o indivíduo, a sua aplicação está, em última instância,
sujeita à intermediação do Estado responsável.
(Isto no âmbito do DI dos Indivíduos. Nos litígios do TIJ, o não cumprimento da sentença pelos
Estados, pode resultar numa intervenção pelo CS).

Em suma, a personalidade jurídica internacional dos indivíduos é passiva, sendo titulares de direitos
e obrigações, mas não criadores de direito substantivo internacional.

Apesar disso, a emergência de uma cidadania europeia (e o maior acesso à tutela direta de direitos a
nível dos tribunais europeus), bem como os processos de governance internacional, onde tem vindo
a crescer o papel dos cidadãos e pessoas coletivas do direito privado (ONGs e multinacionais),
principalmente na criação de soft law.

-​ Organizações não-Governamentais.
Não há ONGs que se constituam ao abrigo do DI, estas são sujeitos de direito interno constituídas
ao abrigo do direito nacional de algum Estado. No entanto, há algumas que se têm salientado no
quadro da cooperação internacional em alguns domínios – entidades de direito privado com
finalidades projetadas no DI e nas relações internacionais e que, muitas das vezes, a sua finalidade é
de interagir com os sujeitos do DI na promoção de objetivos comuns (Ex. WWF). De acordo com o
Art. 71º CNU, as mais relevantes têm estatuto de observadores no quadro das Nações Unidas e
direito de petição ou queixa relativamente a situações que se enquadram no âmbito das suas
finalidades.

-​ Corporações transnacionais.
Semelhantes às ONGs, mas um pouco aquém, porque estas não têm o reconhecimento das ONGs,
não sendo observadoras. São sujeitos do direito interno, cuja finalidade é uma atividade de
desenvolvimento comercial, mas há uma internacionalização progressiva do tratamento das suas
relações jurídicas com os Estados. O que caracteriza estas empresas é o desenvolvimento de uma
atividade de natureza privada e que se projeta internacionalmente e que tem lugar no território de
diversos Estados.

O princípio fundamental no âmbito do DI é o princípio da soberania do Estado, que determina a forma


como a exploração dos seus recursos tem lugar. Existem algumas nuances, na medida em que, se
um Estado é livre de nacionalizar uma empresa estrangeira que atua no seu território, tem uma
obrigação de indemnizar os titulares dessa empresa pelo facto de eles serem estrangeiros.

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