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A Busca de Carrie pela Verdade Familiar

Carrie descobre que é filha adotiva e decide encontrar sua verdadeira mãe, Zelah, na Irlanda, apesar da oposição de seu noivo, John. Durante a viagem, ela enfrenta desafios e um encontro desconfortável com um jovem que a lembra de sua mãe. A busca por sua identidade e conexão familiar a leva a um conflito interno entre seu amor por seus pais adotivos e a necessidade de descobrir suas raízes.

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Esther Mara
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A Busca de Carrie pela Verdade Familiar

Carrie descobre que é filha adotiva e decide encontrar sua verdadeira mãe, Zelah, na Irlanda, apesar da oposição de seu noivo, John. Durante a viagem, ela enfrenta desafios e um encontro desconfortável com um jovem que a lembra de sua mãe. A busca por sua identidade e conexão familiar a leva a um conflito interno entre seu amor por seus pais adotivos e a necessidade de descobrir suas raízes.

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A marca do pecado

Margaret Mayo

Digitalização Joyce
Revisão Juliana / Joyce

Assim que soube que era filha adotiva de David e Anne, Carrie sentiu que
precisava conhecer Zelah, sua mãe verdadeira. Com o coração pesado pela
idéia de ter sido rejeitada ainda recém-nascida, partiu para a Irlanda. Então,
em meio à suave paisagem daquela terra tão acolhedora, teve a doce
surpresa de conhecer Damon Courtney, o homem que fez seu coração
palpitar de amor. Mas seu encantamento ia durar pouco, pois Damon
conhecia Zelah muito bem. "Ela é uma mulher vulgar, uma leviana'', revelou
ele, cheio de desprezo. "E nada no mundo jamais me convencerá de que
você, filha dela, não seja exata-mente igual!"

NOTA : Faltam as páginas 105 e 106

CAPITULO I

— Sinto muito, John, não posso continuar com isso. Ele empalideceu.
— Mas por quê, Carrie? Fiz alguma coisa de errado ou será que existe outro
homem em sua vida? Se existe, eu quebro o pescoço dele, juro.
A moça sacudiu a cabeça tristemente.
—- Não há ninguém. Trata-se apenas de um problema pessoal; não posso me
casar com você até que... — interrompeu-se, sem saber como continuar.
— Quer dizer que você está apenas adiando o casamento? — Sua expressão
aliviou-se. — Por que não disse que era isso? Pensei que você quisesse... Ah,
não importa o que pensei. — Puxou-a então para perto de si. abraçando-a
com força, como se nunca mais fosse soltá-la.
Carrie desviou o rosto, tentando fugir dos lábios ávidos de John. O azul dos
seus olhos tornou-se opaco. Todo o seu mundo desmoronava, como numa
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explosão. John continuou a abraçá-la, insensível a seu conflito interior.


Segurou seu rosto e a beijou, soltando-a apenas quando percebeu que ela não
reagia.
— Você não pode me contar o que a preocupa? — perguntou irritado, pondo
as mãos nos bolsos e mantendo uma expressão sombria e carregada. — Por
que todo esse mistério? Se é um problema pessoal, não tenho o direito de
saber? Além disso, logo serei seu marido, embora já comece a duvidar disso.
Carrie fitou aqueles olhos castanhos e ansiosos. Pobre John! Não era muito
bonito, apesar de bom, gentil e digno de sua confiança. Detestava magoá-lo,
mas o que lhe restava fazer? Não poderia casar-se com ele. Não, sem antes
resolver aquela situação.
— Provavelmente você vai dizer que é bobagem, mas não posso evitar,
John. Tenho que descobrir. Preciso!
— Descobrir o quê, pelo amor de Deus? Chega de tantas desculpas. Conte-
me o que a perturba.
Carrie enrolou nos dedos uma mecha de seus belos cabelos arruivados.
— Anne e David não são meus pais verdadeiros — disse de repente. Não
conseguia mais chamá-los de pai e mãe. Aquela revelação a havia deixado
profundamente ferida, mesmo sabendo que eles tiveram a melhor das
intenções.
— Quer dizer que você é filha adotiva? — perguntou John. — E daí? Milhares
de crianças também são. Não é por isso que vou deixar de amá-la, nem um
pouco. — Ele riu. — Se é isso que a preocupa, sua bobinha, pode ficar
tranquila. Eu não me importo, mesmo.
— Não é tão simples assim. Eles... eles nunca me adotaram
legalmente.
— Quer dizer que seus pais verdadeiros poderiam aparecer a qualquer hora e
exigir seus direitos sobre você.
— Acho muito difícil que façam isso, principalmente depois de todo esse
tempo. Além disso, não se sabe quem é meu pai.
— Eles não eram casados? Ela negou com a cabeça.
— Mas obriguei Anne a me falar sobre minha verdadeira mãe. A princípio
ela não queria, mas acabou concordando quando percebeu que eu estava
decidida. Parece que ela era irmã da melhor amiga de Anne e tinha apenas
dezesseis anos quando nasci.
— E ela nunca tentou vê-la... ou exigir você de volta?
— Não, ela deixou a Inglaterra depois que nasci.
— Então, não consigo entender qual é o problema — disse John. — É melhor
esquecer tudo.
— Mas tenho que encontrá-la, não entende? — balbuciou Carrie. —Ela é
minha carne, meu sangue. É a única pessoa da família que tenho... agora. E
quero vê-la.
— Carrie, não faça isso — disse ele, segurando-a pelos ombros. — Não vai
resolver nada. Pense em Anne e David. Pense em todo o amor e carinho com
que a criaram. Não jogue tudo isso fora, não os deixe mais magoados do que
já devem estar. Eles dedicaram a vida a você e, se agora lhe contaram a
verdade, é porque a amam e acharam que você tinha o direito de saber.
Não posso fazer nada — disse Carrie, soltando-se com um encolher de
ombros. — É uma coisa que tenho de fazer. Nunca conseguirei ser feliz se não
chegar ao fim de tudo isso. John pareceu preocupado.
— Você é teimosa, Carrie. Nunca a vi assim antes. Anne e David sabem o que
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você quer fazer?


Ela acenou com a cabeça, dizendo que sim.
— E eles concordam?
— Não, mas não vão me impedir, como você está tentando fazer.
— Onde mora essa... essa pessoa que você tanto quer encontrar?
— Seu último endereço é da Irlanda; porém, é de dois anos atrás. Não sei se
ainda está lá, mas pretendo descobrir.
— Vou com você — disse ele. — Não gosto da ideia de você viajar sozinha.
— Não, John, isso é algo que eu tenho que fazer. É pessoal, não quero que vá
comigo.
- Acho melhor pensar bem antes de sair assim — disse ele, parecendo
magoado. — Agora preciso ir, mas voltarei amanhã. Espero que até lá você já
tenha recuperado o juízo.
Não tentou beijá-la de novo e Carrie achou melhor assim. Naquele estado de
espírito, não queria ser tocada por ninguém... nem mesmo por John, a quem
amava tanto.
Quando ele saiu, Carrie subiu para seu quarto. Sabia que Anne e David
estariam esperando para saber a reação dele, mas não conseguiria encará-
los, mesmo sabendo que os feria com sua atitude. Por que não lhe contaram
antes? Por que esperaram até agora, quando começava a planejar seu
casamento?
Estava tão feliz! Ainda na semana anterior ela e John estiveram procurando
casa e quase decidiram reservar uma, nas imediações de Walsall, uma
pequena cidade no interior da Inglaterra. Queria estar perto de seus pais;
agora, porém, já não tinha certeza de mais nada. Só queria
encontrar sua verdadeira mãe. Era algo que tinha de fazer e ninguém, nem
mesmo John, a convenceria do contrário.
Carrie não dormiu bem aquela noite e, de manhã, já estava resolvida. Tinha
duas semanas de férias vencidas no emprego. Pretendia aproveitá-las para a
lua-de-mel, mas as tiraria agora. O sr. Higgins era compreensivo e, se lhe
dissesse que tinha problemas pessoais, ele seria o primeiro a concordar.
Enquanto tomava o café da manhã, percebeu que Anne estava curiosa, mas
tentou ignorar seu olhar preocupado. Era a única coisa que podia fazer, senão
acabaria abraçando-a e dizendo: Por favor, não se preocupe. Eu ainda a amo
e sempre a amarei, não importa o que aconteça. Mas sabia que era melhor
não fazê-lo, pelo menos naquela fase. Assim que tivesse tudo planejado,
quando não houvesse mais o perigo de acabar se desfazendo em lágrimas e
desistindo de tudo, então contaria a Anne.
Saiu de casa no horário de sempre. Mas não foi para o escritório. Telefonou
para lá e, como já esperava, o sr. Higgins concordou que tirasse as duas
semanas de férias a partir daquele dia.
Em seguida, foi a uma agência de viagens e conseguiu uma reserva para a
balsa que ia de Fishguard até Rosslare, naquela mesma noite. Não havia
planejado viajar tão depressa, mas, como era o único transporte disponível,
não hesitou.
Anne ficou surpresa ao vê-la de volta fora do horário normal. Ficou nervosa
quando Carrie lhe falou de seus planos.
— Eu voltarei, mamãe. Não se preocupe, mas tenho de fazer isso. Por favor,
compreenda!
— Estou tentando — disse Anne em prantos. — Mas e John? O que ele vai
dizer?
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— Ele não vai gostar; pensa que estou louca. Acho melhor que eu vá antes de
vê-lo novamente. Ele deve vir aqui hoje à noite, você fala com ele por mim?
Anne, embora cheia de tristeza, concordou.
— Antes não lhe tivesse contado. Mas, de certa forma, é um alívio. Foi uma
carga pesada para mim... esconder isso todos esses anos, com medo de
perdê-la. Só espero que isso não aconteça agora. Acho que eu não resistiria.
Carrie abraçou-a.
— Eu amo você, mamãe, e papai também. Eu voltarei, não tenha medo.
Ela saiu. Sentia-se muito deprimida. Era como se um capítulo se encerrasse
em sua vida, para dar início a outro.
A viagem até Fishguard era longa, mas havia tempo de sobra. Seu pequeno
carro vermelho seguia praticamente sozinho pela estrada, enquanto seus
pensamentos se voltavam para o futuro. Poderia ser uma viagem inútil, mas,
pelo menos, teria tentado.
De manhãzinha a balsa chegou a Rosslare. Carrie pouco dormiu durante a
noite, mas não se sentia cansada. Estava ansiosa por seguir
No mapa da Irlanda que levava consigo, descobriu que o endereço procurado
ficava no condado de Wicklow, a uns cinquenta quilómetros dalí.
Quando deixava o porto de Rosslare, uma fina névoa cinzenta envolveu o
carro, tornando-se misteriosamente rosada, à medida que o sol, ainda
distante, surgia para anunciar o início de um novo dia. Aos poucos, a neblina
desapareceu e Carrie ficou extasiada com a beleza da região. Por um
momento, parou o carro e desceu para admirar a suave ondulação das colinas
e o verde exuberante da vegetação.
A viagem levou-a a paisagens ainda mais empolgantes: vales verdejantes,
rios acidentados e lagos tranquilos. Quando chegou a seu destino, teve a
estranha sensação de estar voltando para casa. Mas era tolice, pois nunca
havia estado ali. Sua casa era na Inglaterra, com Anne e David, mas no fundo
sentia que poderia morar ali e ser feliz. Talvez por essa razão sua mãe tivesse
escolhido a Irlanda... Ali seria fácil esquecer seus problemas; a filha que não
havia desejado.
Não foi difícil encontrar o endereço que Anne lhe dera. Ficava entre uma série
de casinhas, numa vila, perto de Woodenbridge. Era cedo ainda, mas já havia
fumaça na chaminé. Encorajada por esse sinal de vida, Carrie bateu à porta.
Seu coração pulsou mais forte quando ouviu passos. A mulher que a atendeu
tinha idade para ser sua mãe, mas não se parecia em nada com o que Carrie
havia imaginado. O cabelo eriçado era tingido de preto e os olhos brilhantes
estavam marcados por profundas olheiras. Os lábios finos eram de um
vermelho claro, o rosto era lívido e o vestido parecia não ser lavado há muito
tempo.
-- Sim? — perguntou a mulher, meio agressiva. — Que é que você
deseja ?
Carrie teve vontade de sair correndo. O desleixo da mulher lhe
provocava náuseas. Anne era tão caprichosa e asseada... imagine ser criada
naquela casa!
— Sra. Cunningham? — perguntou, apreensiva, — Zelah
Cunningham?
Para seu alívio, a mulher negou com a cabeça.
— Ela saiu daqui há um ano e meio. — E bateu a porta antes que Carrie
pudesse dizer qualquer coisa. Logo, porém, abriu-a novamente, perguntando:
— Que queria com ela?
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— É particular — respondeu Carrie. — Ela não deixou um outro endereço? A


senhora não sabe onde poderia encontrá-la?
Pela primeira vez a mulher encarou-a com mais atenção.
— Você é parente dela?
— Mais ou menos. — Carrie preferiu não revelar seu parentesco. A mulher
parecia gostar de fofocas e logo todo o lugarejo estaria sabendo.
— Meu filho poderia ajudá-la — disse a mulher de repente. — Pelo menos, ele
pode levá-la a uma pessoa que deve saber onde ela está.
Carrie não percebeu o olhar dissimulado da mulher. Estava animada,
pensando que talvez sua tarefa fosse mais fácil do que havia imaginado. Mas
o moço que surgiu quando a mãe o chamou deixou Carrie angustiada. Era um
jovem de olhar malicioso e roupas tão sujas quanto as da mãe. Ele fitou Carrie
com olhos cobiçosos e sorriu ironicamente. Quando soube o que ela queria,
dirigiu-se para o carro com um andar insolente.
— É claro que vou ajudá-la. Faço qualquer coisa para agradar uma moça.
Parecia não haver outra saída. Ele já estava entrando no carro. Carrie mordeu
o lábio, ansiosa. Tentou se acalmar. Talvez não fosse acontecer nada;
queriam apenas ajudar.
— Fica a alguns quilómetros daqui — disse ele, quando ela deu a partida. —
Pegue o mesmo caminho por onde veio e lhe mostrarei.
A estrada era estreita e quase não havia tráfego. Carrie estava nervosa, mas
tentava não demonstrar.
— É uma região muito bonita. Você deve se orgulhar de morar aqui.
— E claro que me orgulho — respondeu ele. — Mas, às vezes, é meio
monótono. Quase não há trabalho aqui, sabe?
— Então por que não tenta ir para a Inglaterra ou para outro país procurar
emprego?
Ele encolheu os ombros, dando a entender que não estava muito
interessado em trabalhar.
-É muito longe esse lugar onde a sra. Cunningham mora? — perguntou
ela.
-Zelah? Puxa, como ela era bonita! Senti muito quando foi embora, imagino
quanto, pensou Carrie, desaprovando a expressão maldosa no rosto do rapaz.
Sua desaprovação aumentou, pois ele havia se voltado para ela e a observava
atentamente, mas não por simples curiosidade, quando ele estendeu a mão
para tocar seus cabelos, ela acelerou o carro.
- Que cabelo bonito! — disse ele. — Tão claro e sedoso como o de Si. Sabe, eu
amava Zelah. Ela nunca percebeu, mas eu a amava. Ela deixava escovar seus
cabelos e às vezes... Ele se calou e Carrie o olhou com o canto dos olhos.
-As vezes, ela fazia o quê? — perguntou ela, não muito satisfeita com o rumo
que a conversa tomava.
-As vezes ela me beijava. — Sua respiração tornou-se ofegante com a
recordação. Sua mão deslizou pelo ombro de Carrie, roçando de leve seu seio.
— Você é igual a ela — disse ele, tentando alcançar o freio de não.
-Pare com isso! — gritou ela, pisando fundo no acelerador e trotando afastar-
lhe a mão. O carro atravessou para o outro lado da pista, exatamente quando
vinha um outro automóvel na direção oposta. O motorista buzinou com
insistência ao perceber o perigo.
Carrie freou bruscamente, conseguindo parar o carro alguns milímetros antes
de colidir.
— Você quase nos mata! — gritou, furiosa. — Se puser essas mãos sujas cm
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mim mais uma vez, eu...


Sua porta foi aberta e ela, praticamente arrancada do carro. As mãos fortes
daquele estranho, tão alto e musculoso, continuaram segurando-a com
firmeza, puxando seu corpo frágil em direção ao dele. Ele estava louco de
raiva.
- Da próxima vez que resolver brigar com seu namorado, faça o favor de
parar o carro antes.
Carrie tentou replicar, mas as palavras lhe fugiram. Os olhos escuros do
homem brilhavam. Seu rosto era enérgico e arrogante como o de um falcão.
Vendo que não respondia, ele a sacudiu com tanta força que, por pouco, não
a derrubou.
— Você não tem nada a dizer? — gritou ele.
— Fique o senhor sabendo que ele não é meu namorado — respondeu ela,
com voz firme. — Ele... ele estava... me importunando. Tentei detê-lo e perdi
o controle do carro.
— Você não acha que deveria ter mais cuidado com as companhias que
arranja?
— Ele simplesmente estava me ensinando o caminho até um lugar — disse
Carrie, conseguindo se soltar. — Não houve prejuízos; não vejo por que fazer
tanto escândalo. — Afastando-se um pouco, ela pôde observá-lo melhor. Alto,
magro e forte, deveria ter uns trinta e cinco anos. Era de certa forma
atraente, mas de uma beleza rude, com uma expressão de crueldade nos
olhos cinzentos. Ele corria os dedos por entre os cabelos escuros que o vento
havia despenteado. Ao mesmo tempo, observava-a com tanta atenção que
Carrie começou a ficar nervosa.
Ele encolheu os ombros.
— Se é assim que você prefere, vou deixá-la seguir seu destino. De qualquer
forma, acho melhor livrar-se de más companhias.
Antes que Carrie pudesse responder, ele se voltou e entrou no carro. Só então
ela notou que era um Rolls Royce prateado. Não era de se admirar que se
irritasse tanto! Imagine, então, se tivesse batido nele com seu velho carrinho
vermelho.
Ele deu a ré e manobrou, passando por ela sem sequer olhá-la. Para seu
espanto, quando voltou a seu carro, Carrie viu que o rapaz havia
desaparecido. Durante a discussão, ela nem percebeu a fuga dele. Pudera, o
magnetismo daquele estranho era tão forte que a impediu de prestar atenção
em qualquer outra coisa.
Foi um alívio saber que não teria que tolerar aquele rapaz insolente. Mas
agora estava confusa. Não sabia que direção tomar para continuar sua busca.
Além disso, sentia-se constrangida e preocupada com o que o rapaz havia
dito sobre Zelah. Da maneira como ele havia falado, parecia que Zelah era...
não, ela se recusava a pensar assim. Procurou não pensar no assunto.
Continuou dirigindo, tentando evitar os buracos e defeitos da pista. Passou
por diversas vilas e lugarejos, mas ninguém jamais ouvira falar de Zelah
Cunningham. Continuou em sua busca, sentindo-se cada vez mais frustrada, à
medida que o dia avançava.
Já no fim da tarde, decidiu procurar um lugar para passar a noite. Antes disso,
atendendo aos insistentes pedidos de Anne, enviou-lhe um cartão-postal,
dando notícias de sua chegada.
Não foi difícil encontrar um quarto, numa linda casinha à beira de um lago. Ali
Carrie sentiu que poderia ficar dias e dias desfrutando daquela tranquilidade.
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Contudo, logo cedo, já estava de saída, continuando sua viagem. Não podia
perder tempo. Percorreu novamente a região, conferindo todas as vilas no
mapa. O lugar para onde o rapaz queria levá-la não poderia ser muito longe
dali.
À tarde, cansada e desanimada, estacionou o carro perto do mar e sentou-se
na mureta da praia. Procurar uma pessoa de quem só sabia o nome era uma
tarefa difícil. Antes John tivesse vindo também. Pelo menos lhe faria
companhia.
A princípio, não percebeu o grupo de adolescentes que tinham vindo para a
praia e agora jogavam beisebol. Só quando a bola veio em sua direção e um
dos rapazes correu para apanhá-la é que Carrie realmente os notou.
— Olá — disse ele. — Você parece estar muito triste. Quer se juntar a nós?
Carrie recusou, balançando a cabeça. Era um garoto simpático, bem diferente
daquele atrevido do dia anterior. Tinha cabelos claros e um vigor que o
tornava muito atraente. Mas não estava interessada em jogar beisebol.
— Venha — insistiu ele. — Vamos fazer um churrasco depois. Vai ser
divertido.
Ela recusou novamente.
— Não, obrigada. Estou procurando uma pessoa, Zelah Cunningham. Você a
conhece?
— Não, mas talvez os outros conheçam. — Ele lhe estendeu a mão. — Vamos
lá perguntar.
Quando ia recusar pela terceira vez, a imagem do homem do Rolls Royce
passou, de relance, por sua mente, o rosto carrancudo, cheio de censura.
Carrie não hesitou: aceitou o convite.
— Está bem, vamos lá — concordou ela.
Caminharam até os outros rapazes e moças que já reclamavam a demora da
bola. Ele não soltou sua mão e ela não insistiu. Já havia passado dois dias
praticamente sozinha e estava se sentindo um pouco infeliz.
— Como você se chama? — perguntou o rapaz, quando se
aproximavam do grupo.
— Carrie — respondeu ela.
— Meu nome é Neil.
Ele a apresentou aos outros. Todos pareceram contentes com sua presença e,
assim, Carrie passou algum tempo jogando alegremente, satisfeita por
conseguir esquecer o motivo que a levara até ali.
Depois ajudou a catar gravetos e preparar a fogueira para o churrasco.
Quando escureceu, eles acenderam o fogo e assaram carne e salsichas.
Saborearam o churrasco, bebendo vinho das diversas garrafas que havia.
Um dos rapazes, então, pegou um violão e todos cantaram, sentados em volta
da fogueira. Aos poucos, sem que Carrie percebesse, o grupo se dividiu em
casais que se afastaram, deixando-a sozinha com Neil. Ele estendeu o braço e
envolveu seus ombros.
Quando ele a beijou, Carrie não se incomodou; pareceu-lhe natural, já que a
haviam recebido com tanto carinho na festa. Seus beijos, porém, tornaram-se
mais intensos e quando ele a fez deitar-se na areia, prendendo-lhe o corpo
com uma das pernas, Carrie começou a se irritar.
Ele era exatamente igual a todos os outros rapazes que havia conhecido.
Quando Neil começou a acariciar seu corpo, pediu-lhe que parasse.
Ele riu e seu hálito exalava álcool. Olhando rapidamente para a praia, Carrie
percebeu que todos tinham as mesmas intenções. A única diferença é que as
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outras garotas não resistiam.


Quando ficou bem claro que Neil ignorava sua resistência, ela não teve outra
saída senão morder-lhe o lábio com força, até sentir na boca o gosto de
sangue.
Com um grito abafado, ele a soltou.
— Sua gata selvagem! — gritou ele, mas Carrie mal o ouviu.
Levantou-se rapidamente e saiu correndo. Quando percebeu que havia
esquecido os sapatos, deteve-se um instante e olhou para trás. Mas lá estava
Neil correndo atrás dela. Resolveu seguir descalça mesmo.
Sem olhar para onde ia, Carrie começou a correr de novo. Gritou assustada,
quando se chocou com alguém que vinha em sua direção. Dois braços
poderosos a seguraram e um homem com voz alegre e jovial disse:
— Ei, onde você... — Vendo quem era ela, ele mudou bruscamente de tom. —
Deus do céu, é você? Está em dificuldades com os rapazes de novo?
A lua iluminava seu rosto e Carrie pôde perceber sua expressão de censura.
— E daí? — replicou. — Não é da sua conta.
— Tem razão. — Ele a soltou e olhou pensativo para a fogueira. O fogo já se
apagava. As brasas brilhavam, deixando entrever os casais que se contorciam
na areia.
— Então é disso que você gosta? — perguntou bruscamente.
— Você acha que eu estaria fugindo se gostasse? — Carrie fitou-o
longamente. Pela segunda vez ele aparecia no momento mais inoportuno.
— Então, por que se deixa envolver nessas situações? E não venha me dizer
que não sabia que tipo de festa era essa.
CarRIe encolheu os ombros. Não adiantava dizer nada. Ele não acreditaria.
— Pense o que quiser, não faz diferença para mim.
— Onde estão seus sapatos? — indagou ele.
— Ficaram lá, mas não faz mal. Tenho outro par em meu carro.
— Você está em férias?
— Mais ou menos — admitiu Carrie.
— Se fosse você, tomaria mais cuidado com as companhias que
arranja. Uma moça como você sempre acaba arrumando encrencas.
— Grata pelo conselho. Vou embora, antes que você também acabe agindo
como todos os outros homens. — De cabeça erguida, quase desafiadora,
Carrie se afastou, procurando mostrar o máximo de dignidade.
Enquanto caminhava até o carro, ela fez todo o possível para não pensar mais
nele, mas foi em vão.
Caminhou um bom pedaço pela estrada, até que percebeu que seu carro
havia desaparecido! Fora de si, observou bem a estrada. Quem sabe estaria
no local errado. Mas não, era ali que o havia deixado; tinha certeza.
Estava andando de um lado para outro, quase chorando de desespero,
quando ouviu aquela voz conhecida:
— Acho que são seus. — Lá estava aquele estranho arrogante,
trazendo seus sapatos.
Só quando se aproximou, ele pôde perceber a angústia que a dominava.
— Que houve agora? — perguntou, impaciente. — Ainda se
lamentando pelo que aconteceu na praia?
Carrie curvou-se e calçou os sapatos, sem sequer lhe agradecer.
— Meu carro foi roubado.
Ele a encarou, com um ar desconfiado.
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— Tem certeza? — perguntou, irónico. — Vocês estavam bebendo, você pode


estar enganada.
— Engano foi pensar que você me compreenderia. Tenho certeza de que o
estacionei aqui. Não bebi tanto assim.
— As portas estavam trancadas?
Quando ia lhe perguntar se achava que ela era alguma idiota, lembrou-se de
tudo. Sacudiu a cabeça, cheia de tristeza.
— Acho que não. Estava sentada ali na mureta e não pretendia me afastar
daqui.
— E deixou as chaves na ignição, também — observou ele, arrastando as
palavras.
Ele a tomava por uma perfeita idiota e Carrie sabia que o estranho tinha
razão.
— Sim — disse, com voz fraca. — Minha bolsa estava dentro
também... e minha mala. Levaram tudo. Que vou fazer agora?

CAPÍTULO II

Fez-se um longo silêncio. Carrie nunca havia se sentido tão tola e descuidada.
O homem, pelo visto, pensava a mesma coisa.
-Nunca vi ninguém tão idiota — disse ele, afinal. — Acho que essa história de
mulheres bonitas e burras deve ter seu fundo de verdade.
-Não foi minha culpa — defendeu-se ela. — Se aquele rapaz não fosse me
convidado, nada disso teria acontecido.
-Quer dizer que você deixa o carro praticamente aberto, todo o seu dinheiro
dentro dele, além das chaves na ignição e a culpa é do rapaz? É inacreditável!
EIa se voltou para ele, desconsolada.
-Eu devia saber que você não me entenderia. Obrigada por encontrar meus
sapatos e adeus.
Afastou-se dali, furiosa. Precisava resolver o que fazer. Teria que procurar a
polícia! Mas onde haveria uma delegacia naquele fim de mundo? Não se
lembrava de ter visto nenhuma.
Quando percebeu que ele a seguia, apertou o passo. A última pessoa a quem
pediria ajuda era ele.
— Onde pretende se alojar? — perguntou ele, atrás de Carrie. — Talvez eu
possa ajudar...
Pela primeira vez ele se mostrava prestativo, mas ela não se deteve.
— Vou... vou passear por aí.
Ele fungou, demonstrando irritação.
— Deus me livre de mulheres desmioladas!
Apertou o passo até alcançá-la e continuou caminhando a seu lado.
— Quer dizer que você não tem onde passar a noite? Que espécie de idiota é
você?
Era inútil tentar se defender. Ele já havia formado uma opinião. Carrie
manteve-se em silêncio e continuou caminhando. A estatura e o porte do
homem a impressionavam. Sentia-se diminuída diante daquela presença
dominadora.
Não obtendo resposta, ele prosseguiu:
— Sei muito bem o que deve estar procurando. Conheço bem o seu tipo. Que
espécie de sujeito espera encontrar?
Num ímpeto, Carrie tentou esbofeteá-lo, mas ele foi mais rápido e segurou-lhe
Julia Florzinha nº 98

o braço, torcendo-o para trás. Mais uma vez ela sentia a força daqueles
músculos. Uma estranha sensação percorreu suas veias. Havia um quê de
atraente e perigoso naquele homem. Por um instante, imaginou o que sentiria
sendo beijada por ele. Mas logo afastou esse pensamento e tentou se soltar.
— Vim aqui procurar alguém, mas não um namorado. Se faz questão de
saber, eu já tenho um namorado.
— E como é que ele deixou você vir sozinha passear pela Irlanda? Ele não
deve se preocupar muito com você, quer dizer...
Calou-se por um instante e observou Carrie dos pés à cabeça. Ela estremeceu
de raiva.
— Uma moça como você é um alvo fácil.
— O que quer dizer com uma moça como eu?
— Ora, esse cabelo tingido, ruivo desse jeito, só pode ser para chamar
atenção.
— Essa cor é natural — esbravejou ela. — Quer soltar meu braço? Você está
me machucando!
Ele a encarou demoradamente e então a soltou, num gesto tão violento
que quase a derrubou.
— Ainda não resolvemos. Onde vai passar a noite?
— Ora, não se preocupe comigo — retrucou Carrie, cheia de altivez e
sarcasmo. — Encontrarei algum lugar. Não vá se incomodar por minha causa.
— Não é essa a minha intenção; não se preocupe. Acontece que tenho
consciência e não poderia dormir tranquilo sabendo que você estaria
vagando sozinha pelas estradas da Irlanda.
Era ironia, ela sabia, mas não pôde evitar uma resposta sarcástica:
— Que sugere, então? Que eu vá para sua casa?
— Acho que não há outra alternativa.
— Você não está falando sério...
— Infelizmente, estou. A não ser que você tenha ideia melhor.
Carrie encarou-o, apreensiva, mas ele ostentava a mesma frieza. Ele não
estaria fazendo aquela proposta por mera bondade ou gentileza, pensou ela.
Talvez sentisse pena ou desprezo, mas nunca interesse. Ele não se sentia
atraído por ela, era óbvio, por isso Carrie podia ficar tranquila.
— De fato, não tenho muita escolha... mas não gosto da ideia.
— Muito menos eu — afirmou ele. — Mas já que está decidida, não
precisamos discutir mais. Hawksmoor fica a três ou quatro quilómetros daqui.
Acha que aguenta a caminhada'
— Não sei bem que imagem o senhor faz de mim, mas posso
garantir-lhe que tenho um bom par de pernas e sempre gostei
de caminhar.
— Isso é bom.
Ele se pôs a caminho, deixando Carrie para trás. Ela precisou correr para
acompanhá-lo. Ele parecia ignorá-la completamente. Mais adiante, diminuiu o
passo, permitindo que ela seguisse a seu lado.
Ao dizer que gostava de caminhar, Carrie não imaginou que os três
quilómetros eram praticamente só subida. A estrada foi se estreitando até se
tornar um caminho que mal dava para um carro. A palavra Hawksmoor a
intrigava. Parecia um lugar desolado; talvez fosse o nome de uma casa ou de
uma vila. Logo descobriria, mas queria visualizar o local. Tanto podia ser uma
imensa mansão plantada no meio do campo, como um amontoado de
casinhas situadas ao pé de uma colina.
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O cansaço logo a dominou. O caminho se tornava cada vez mais acidentado e


íngreme e suas pernas se recusavam a continuar. O estranho, entretanto,
caminhava normalmente, não demonstrando cansaço. A estradinha, agora,
não passava de uma trilha, perdida entre o arvoredo que se tornava mais
denso à medida que subiam.
De repente, chegaram a uma clareira e Carrie se deteve. A luz suave
eprateada do luar deixava entrever uma casa que mais parecia um monte de
ruínas. Ficou desconfiada, mas continuou a caminhar. Aproximando-se mais
da casa, percebeu que estava sendo reformada. Havia andaimes armados em
torno das paredes, além de pilhas de tijolos e montes de areia e cascalho pelo
gramado.
— E aqui que você mora? — indagou ela.
De onde estava, notou que nem o telhado estava inteiro. Devia ser uma
brincadeira. Ele não poderia morar ali, naquela casa abandonada. No passado,
talvez, a casa tivesse sido muito bonita; provavelmente um solar que abrigara
uma família numerosa. Mas deveria ter ficado abandonada por muito tempo.
Seu aspecto era deplorável.
— Parece... vazia — murmurou ela. — Não deve estar em condições de ser
habitada.
— Em cavalo dado não se olha os dentes — disse ele. — Se quer passar a
noite debaixo de um teto, terá que aceitá-lo como está.
Um teto! Meio teto, isso sim! Sua única esperança era que o interior da casa
estivesse em melhores condições. Não conseguia entender como ele poderia
morar num lugar como aquele e possuir um Rolls Royce novinho em folha.
Não fazia sentido. Seu coração batia descompassado, enquanto o seguia. Os
passos ecoavam pelo pátio calçado de pedras. Ele abriu uma porta de
madeira carcomida, que dava para uma estreita passagem. Não havia luz e
Carrie teve que tatear na escuridão. Logo ele abriu outra porta e acendeu a
luz. O brilho amarelado da lâmpada espalhou-se pelo corredor.
Dentro da sala, Carrie pôde observar claramente o rosto de seu anfitrião. Ele
a encarava com ferocidade, fazendo-a sentir-se constrangida.
— Eu lhe agradeço pelo que está fazendo por mim. Assim que puder, pagarei
por isso.
— Você pode pagar trabalhando — respondeu ele, em tom de
indiferença. — E difícil mantermos empregados aqui, com a casa nessas
condições. Pode começar pegando o bule e me preparando um café. Voltarei
num instante.
Ele saiu por outra porta e Carrie o seguiu com o olhar. Estava furiosa consigo
mesma. Por que não havia se recusado? Por que permitiu que ele lhe desse
ordens? Se quisesse beber alguma coisa, ele que preparasse... Ele havia dito
mantermos... Seria casado? Sua esposa deveria ser uma tola por viver com
um homem tão detestável.
Deu um suspiro e olhou à sua volta. A cozinha estava em perfeita ordem; era
surpreendente. As paredes estavam caiadas e os armários de madeira
natural, com certeza, haviam sido instalados recentemente. Havia até uma
máquina de lavar e uma secadora, além de um congelador e uma máquina de
lavar louça. Como, com tudo isso, havia dificuldade em conseguir
empregadas? Só poderia ser por causa do dono da casa. Com aquele seu ar
de autoridade e petulância, qualquer pessoa se recusaria a cumprir, ordens.
Parece que ele não conhecia as palavras por favor e obrigado. Com certeza,
Julia Florzinha nº 98

até a esposa ele deveria tratar desse jeito. Carrie irritou-se pensando nessas
coisas. Quando ele voltou, encontrou-a no mesmo lugar e perguntou, irritado:
— Além de idiota, você também é incapaz? Ela ergueu o rosto, sentindo-se
desafiada.
— Não vejo por que devo receber ordens. Se quer um café, faça-o você
mesmo. Se puder me mostrar onde vou dormir, gostaria de me retirar. Não
quero incomodá-lo mais.
Ele olhou para ela, enfurecido. Atravessou a cozinha e escancarou a porta.
— Experimente dormir lá fora. O céu pode ser seu teto e o gramado, sua
cama. Boa noite, senhorita.
Carrie deu um passo em direção à porta, mas se deteve. Seria tolice dormir
ao relento só porque se sentia insultada. No fundo, ela também estava
querendo tomar um café.
Como se tivesse lido seus pensamentos, ele disse:
— Se mudar de ideia, o bule está logo ali.
Tentando não se irritar, Carrie pegou o bule. Tirou a tampa e o levou à
torneira. A água saía em pequenas golfadas. Quando, finalmente, o bule
estava cheio, tampou-o e o levou até o fogão. Seus gestos eram observados o
tempo todo. Encontrou o café e o açúcar nas latas apropriadas e o leite, na
geladeira.
— Faça café para três — disse ele, vendo que ela havia preparado apenas
duas xícaras.
Carrie obedeceu, mantendo-se em silêncio. Enquanto estava ocupada, foi fácil
permanecer assim; mas quando deixou tudo pronto, esperando apenas a
água ferver, ficou constrangida. Ele ainda não havia afastado os olhos dela.
— Como você se chama? — perguntou ele, afinal. Sua voz, grave e profunda,
quebrou o silêncio tão bruscamente que ela se assustou.
— Carrie Maitland. E você?
- Damon, Damon Courtney. Você disse que está mais ou menos em
férias... Que quis dizer com isso?
__ Não é da sua conta! — respondeu, irritada. Logo, porém, percebeu
que ele talvez pudesse lhe dar alguma informação. Parecia ser daqueles que
conhecem muita gente. — Mas se está mesmo interessado, estou procurando
uma pessoa. Talvez a conheça; tem um nome meio estranho... Zelah
Cunningham... deve ser fácil lembrar.
Ele contraiu o rosto.
— Ah, sim, eu me lembro — disse ele, compenetrado.
Havia um tom de desgosto em sua voz, mas Carrie não percebeu. Pelo menos,
havia encontrado alguém que conhecia sua mãe. Antes tivesse se lembrado
de perguntar logo da primeira vez que o encontrou. Teria evitado todos
aqueles problemas.
— Mas Você está perdendo seu tempo. Ela não está mais na Irlanda e duvido
que volte. Que queria com ela?
Carrie ficou desapontada. Havia se animado com a possibilidade de encontrar
Zelah, mas, pelo visto, não seria tão fácil.
— Não é nada importante. Se é que ela já foi embora... — Mas logo sentiu
uma ponta de esperança. — Você, por acaso, não saberia onde ela está
agora?
— Zelah nunca foi de ficar muito tempo num lugar. Você já deve ter notado,
se é que sabe alguma coisa sobre a vida dela. Mas ainda não respondeu a
minha pergunta. Por que quer encontrá-la?
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Ela encolheu os ombros.


— Não é nada importante.
__ Acho que deve ser, sim — insistiu ele. — Se a trouxe até aqui. De
onde você vem... da Inglaterra? Aposto como é parente dela.
— Por que diz isso? — perguntou Carrie, curiosa.
— Acho que você deve saber. Mas prefiro não falar mais dela, se não se
importa. Esse assunto não me agrada muito.
— Você a conheceu pessoalmente? — perguntou Carrie, insistente.
— Ah, sim.
Pelo seu tom de voz, Carrie deduziu que Zelah era uma pessoa de quem ele
não gostava. Teria havido algum envolvimento entre eles? Talvez, pois
deveriam ter a mesma idade. Que coincidência ter se encontrado com alguém
que a conhecia de fato!
— Como é ela? — perguntou, curiosa, quase sem perceber.
— Capaz de tudo... como todas as mulheres. A água está fervendo. Enquanto
preparava o café, Carrie decidiu não tocar mais no assunto.
Mais tarde voltaria a perguntar de sua mãe. Não iria deixar a casa sem
descobrir alguma coisa sobre ela.
Pelo visto, ele não gostava muito de Zelah e Carrie sentiu-se magoada. Ele
havia destruído a imagem que ela fizera da mãe. Mas, afinal de contas, Zelah
era sua própria carne, seu sangue. Provavelmente ele tinha algum problema
em''relação às mulheres.
Damon pegou a terceira xícara e a levou para um outro aposento, retornando
instantes depois. Carrie havia se sentado à mesa e esperava que ele fizesse o
mesmo. Em vez disso, ele pegou sua xícara e se encostou na porta,
observando-a atentamente.
— Se está pensando em como voltar para casa sem dinheiro, não se
preocupe. Tenho uma viagem marcada para a Inglaterra na semana que vem,
mas posso muito bem ir amanhã mesmo.
Ele estava se aproveitando da situação e Carrie não gostou, mesmo sabendo
que, a seu modo, ele tentava ajudá-la.
— Mas... e meu carro? Não posso ir embora sem tentar encontrá-lo.
— Deixe comigo. Se for localizado, eu o mandarei para você.
— É muita bondade sua — retrucou Carrie, com ironia. — Acho que seria
capaz de tudo, só para se ver livre de mim, não?
— Não se trata disso — respondeu ele, contrariado. — De que adianta ficar
por aqui, se você sabe. que sua busca é inútil? Pensei que gostaria de uma
carona até sua casa. Poucas pessoas, na sua situação, teriam tanta sorte.
— Não acredito que esteja fazendo isso por mera bondade!
— E não estou, mesmo, mas não vejo outra saída. Ou aceita minha ajuda ou
arca com as consequências. Ainda que consiga localizar o carro, duvido que
encontre sua bolsa. Sem ela, que poderia fazer?
— Posso telefonar para meus pais e pedir-lhes que me transfiram algum
dinheiro de minha conta bancária.
— Amanhã é domingo. Ainda que o banco providencie tudo na
segunda, você só poderá sacar o dinheiro na terça-feira. Veja que são quatro
dias que terá que passar sem um tostão no bolso.
Era inútil discutir; ele estava certo. Ela não poderia ficar ali por mais tempo.
Sua única desculpa era que a Irlanda era um lindo país e gostaria de ficar
alguns dias passeando para conhecê-lo. Era uma pena ter feito aquela viagem
e voltar sem sequer conhecer a ilha. Mas, sem dinheiro, que poderia fazer?
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— Acho que você tem razão — concordou ela afinal, terminando de tomar o
café
Ele não esperou mais nada. Afastou-se da porta e concordou satisfeito,
balançando a cabeça.
— Se já está pronta, mostrarei seu quarto. Não é lá grande coisa, mas não
esperávamos visitas.
Conduziu-a por uma escadinha até uma porta. Não havia luz e Carrie, atrás
dele, tropeçou na escuridão. A atmosfera da casa era sombria e inquietante.
Damon Courtney abriu a porta e ela o acompanhou até o interior do aposento,
esperando que acendesse as luzes.
— Sinto muito, mas não há luz. Por enquanto, só os cómodos
principais têm instalação elétrica — explicou ele. Dirigiu-se até a janela e
tentou limpar as vidraças, esfregando-as com os dedos. — A lua ainda está
brilhando. Acho que a luz é suficiente para você se acomodar.
Antes que ela pudesse protestar, ele saiu. Seus passos ecoaram pelos
degraus. Carrie estava assustada. Como saberia se a cama estava limpa? Não
conseguia enxergar nada. Forçou o trinco da janela, até conseguir abri-la.
Com o luar entrando diretamente no quarto, pôde observar melhor o recinto.
A cama estava arrumada e parecia limpa. Talvez não devesse se preocupar...
Mesmo assim, preferiu não tirar a roupa; entrou sob as cobertas vestida como
estava.
Pensou que dormiria logo, já que havia dormido mal nas noites anteriores.
Mas, ficou muito tempo pensando em Damon Courtney. Apesar da arrogância,
havia algo nele que a fascinava. Era completamente diferente de todos os
outros homens que havia conhecido. Era o oposto de John. Só então percebeu
que quase havia se esquecido de seu noivo. Pobre John! Ficaria surpreso e
satisfeito ao vê-la de volta, no dia seguinte.
Quando o sono a dominou, a última imagem que seus olhos guardaram foi o
rosto perturbador de Damon Courtney. Imaginou mais uma vez a sensação de
ser beijada por ele. Que sentiria com aqueles lábios grossos comprimindo-se
contra os dela, aqueles braços fortes envolvendo-a com paixão, em vez de
ódio?
Assim que se deu conta dessas fantasias, sentiu-se tremendamente culpada.
Onde já se viu ficar pensando naquelas coisas? Como podia se esquecer de
John daquela maneira?

CAPITULO III

Quando acordou, Carrie não conseguiu reconhecer o quarto. Olhou para as


paredes e não se lembrou de onde estava. O papel de parede, num tom
delicado de rosa, com ramos de flores silvestres, estava coberto de manchas
de umidade. O teto já não era branco; tinha um tom acinzentado. O
revestimento, meio lascado, esfarelava-se. Não havia cortinas e uma das
janelas estava aberta. De repente, ela se lembrou do que acontecera na noite
passada.
Apesar do aspecto um tanto maltratado, o quarto estava limpo. Um tapete
velho e surrado cobria o assoalho. Havia uma mesa com tampo de mármore
e, sobre ela, uma jarra de água e uma bacia. Sobre o encosto de uma cadeira,
uma toalha caprichosamente dobrada. A cama, assim como os lençóis e
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cobertas, era nova e destoava-se naquele ambiente antigo e sombrio.


Levantando-se, lavou as mãos e o rosto; tentou pentear o cabelo, usando
os dedos, e alisou o vestido de algodão, que estava todo
amarrotado. Antes o tivesse tirado, pensou ela. Se soubesse que a cama
estava tão limpa e arrumada, não teria hesitado.
Seu relógio estava parado. Não tinha a menor ideia das horas, mas, ao descer
a escada, ouviu passos na cozinha. Alguém estava ali.
Seria Damon Courtney? Ou seria sua esposa? Talvez os dois... Quando abriu a
porta, viu que não era nenhum deles. Um homem, muito admirado, voltou-se
para olhá-la. Deveria ter uns sessenta anos, talvez mais. Tinha os mesmos
traços fortes de Damon Courtney, o mesmo olhar de falcão. Seus olhos eram
de um azul penetrante e seus cabelos tinham um tom metálico, por causa das
mechas brancas. Era tão alto quanto Damon, tinha a mesma imponência. Só
poderia ser seu pai.
O velho empalideceu e se agarrou à mesa, como se fosse cair.
— Quem é você? — perguntou ele, com voz rouca. — Que está fazendo aqui?
— Desculpe-me se o assustei — disse ela. — Meu nome é Carrie Maitland.
Seu filho não lhe falou de mim? Meu carro foi roubado ontem à noite e ele me
ofereceu alojamento aqui.
— Ah, sim — disse o velho, distraído. — Ele me falou que havia convidado
alguém. Não sei por quê, pensei que se tratasse de um homem.
Carrie ouviu a explicação e duvidou que Damon tivesse dito daquela forma.
Convidado! Não era bem um convite... era uma esmola o que ele havia feito.
— Perdoe-me se me assustei — continuou o sr. Courtney. — Mas você... você
me lembrou uma pessoa.
Carrie concordou, balançando a cabeça.
— Zelah? É, começo a desconfiar que devo me parecer um pouco com ela.
Desculpe-me, não sei até que ponto a conheceu, mas, pelo que seu filho
disse, ela não deixou uma boa impressão, não é?
— Para ele, não — respondeu o velho, cheio de tristeza. Suas faces estavam
coradas de novo e ele já havia recuperado o autocontrole. — Perdoe-me se fui
grosseiro. Acho que você quer tomar o café da manhã. Agora mesmo ia
preparar uns ovos com presunto, que tal?
— Ótimo — concordou Carrie imediatamente. Não havia se
alimentado muito bem no dia anterior e, de repente, percebeu que estava
faminta.
— Posso ajudá-lo?
— Sente-se e converse comigo. Não é todo dia que temos uma moça como
companhia nesta casa. Você é como uma brisa de primavera aqui dentro.
Carrie não pôde deixar de perguntar:
— Damon é casado?
— Ele odeia mulheres, se é que não percebeu — respondeu o pai. — A bem
da verdade, estou surpreso por ele tê-la trazido até aqui.
— Eu também — confirmou Carrie. — Mas acho que ele só fez isso por uma
espécie de dever moral.
— É exatamente assim o meu filho — garantiu ele. Colocou duas fatias de
presunto numa grande frigideira de ferro. — Ele pode não gostar de mulheres,
mas nunca nega ajuda a alguém que esteja em situação difícil. Seu carro foi
roubado, não foi? Que azar! Como aconteceu?
— Na verdade, foi por minha culpa. Deixei as chaves na ignição. Não é do
meu feitio cometer essas burrices, mas... bem, eu estava meio desanimada
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e acho que me distraí. Meu dinheiro também estava no carro; Damon lhe
disse?
O velho sacudiu a cabeça.
— Você realmente está em maus lençóis; mas tenho certeza de que tudo se
resolverá. — Vendo-a com o vestido amarrotado, continuou. — Há algumas
roupas lá em cima, caso queira se trocar. Eram... de minha esposa, mas
devem servir para você.
— Obrigada, sr. Courtney. Haveria um pente ou uma escova que eu pudesse
usar? Devo estar horrível.
— Que é isso, mocinha? Nem que quisesse você conseguiria ficar feia. E, por
favor, me chame de Charles. Vamos dispensar as cerimonias. Se quiser se
trocar agora, enquanto preparo o café... Damon saiu; ninguém irá incomodá-
la.
Carrie concordou, satisfeita.
— Se puder me dizer onde estão as roupas... Estava escuro, quando cheguei,
onte à noite.
— Deve ter tido uma péssima impressão da casa, não? Aos poucos vamos
colocar tudo em ordem. Você terá que nos desculpar; não deve estar muito
acostumada com essas coisas.
— Nada disso — reagiu Carrie. Não queria que o velho ficasse
constrangido. — É que Damon não se lembrou de me mostrar. Ele me levou
até aquele quarto... e fiquei pensando que...
— Entendo — interrompeu ele. — Estranhei vê-la saindo daquele quarto.
Acho que meu filho lhe pregou uma peça. Essa parte da casa ainda não foi
reformada. Deixamos uma cama sempre pronta para qualquer
emergência, mas não havia necessidade de Damon instalá-la ali. Conversarei
com ele quando voltar.
— Não faça isso — pediu Carrie. —- Se ele pensar que estive me queixando...
bem, ele já não tem uma opinião muito boa a meu respeito e não quero que
as coisas piorem. Ele ficou de me levar de volta para a Inglaterra hoje.
Charles concordou, tentando mostrar-se compreensivo, mas era
evidente que não havia entendido nada. Ele agitou a frigideira para que o"
presunto não queimasse e a chamou.
— Venha comigo. Vou lhe mostrar como a casa deverá ficar depois das
reformas. É uma pena que ela tenha ficado abandonada por tanto tempo. Mal
posso esperar para vê-la toda restaurada.
Saíram pela mesma porta por onde Damon havia levado o café, na noite
anterior. Seguiram por um corredor belíssimo, todo ladrilhado com mármore
italiano. No fundo, havia um lance de escadas forradas de carpete vermelho
escuro e encimadas por um grande patamar.
— Este era o quarto de minha esposa — disse Charles. — Tome um banho, se
quiser. Acho que encontrará tudo o que for necessário.
Quando se viu sozinha, Carne hesitou. Não lhe agradava a ideia de vestir as
roupas de uma morta. Mas, quando abriu o armário e viu tantos vestidos
bonitos, não teve dúvidas. As roupas eram novas e bem feitas, bem do seu
gosto. Ficou confusa... A esposa de Charles devia ser bem mais jovem que
ele.
O banheiro era um sonho: todo decorado em rosa e dourado. Sentiu-se
tentada a tomar um longo banho com sais e espuma, mas preferiu uma
ducha. Vendo que havia um secador, aproveitou para lavar os cabelos. Em
meia hora já estava pronta para descer. O vestido que escolheu era de jérsei
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azul-claro, com um corte reto e justo, que se moldava à sua silhueta,


realçando-a.
Charles gostou de vê-la com o vestido, mas procurou ser discreto.
—. Obrigada — disse Carrie. — Estou me sentindo muito melhor.
A mesa estava posta. Sentaram-se e Charles serviu o café.
— Fale-me de você — disse ele. — Que está fazendo sozinha na Irlanda?
— Estou em férias. Esperava poder viajar pela Irlanda, mas acho que não vai
ser possível. É muita bondade de seu filho levar-me de volta para casa. Não
sei o que teria feito sem dinheiro, sem nada
Carrie achou melhor não falar de Zelah. Poderia descobrir tudo o que queria
na viagem, com Damon.
— Hum... — murmurou Charles, pensativo. — Por que preferiu viajar sozinha?
Não tem parentes ou amigos que pudessem vir com você? Acho estranho que
uma moça tão bonita não tenha companhia.
— Eu não queria companhia. John, meu noivo, queria vir comigo, mas não
deixei. E meus pais... bem, eles sabiam que eu queria vir sozinha.
— Aproveitando a vida antes de casar, hein? — sorriu ele. — Mais ou menos
— concordou ela.
— Em que você trabalha? É modelo? Você tem o... — procurou a palavra
adequada, tentando se expressar com um movimento das mãos.
Carrie riu.
— Trabalho num escritório. Faço um pouco de tudo: taquigrafia,
datilografia, contabilidade, sabe como é.
— Sim, entendo. E você gosta do seu trabalho? Não vai se importar de deixá-
lo, quando casar?
Carrie ficou pensativa. Casar-se com John! De repente, tudo parecia tão
estranho! Estava na Irlanda há três dias, mas parecia uma vida. O passado
parecia distante e esquecido. Olhava para Charles e via nele os traços do
filho. Via o próprio Damon, com seus cabelos pretos e seus olhos inquietos.
Ela deveria estar ansiosa para voltar para casa, mas não estava. Queria ficar
mais algum tempo naquela casa; queria saber mais sobre Damon. Ele tinha
um fascínio que a atraía profundamente, embora a tratasse tão mal.
— Ei, acorde, mocinha! Você está parada aí me olhando há uns cinco
minutos. Ainda não respondeu minha pergunta.
— Desculpe-me — sorriu ela. — Acho que me distraí. Não, acho que não me
importarei de deixar o trabalho. Gosto muito do que faço, mas não consigo
me ver como uma profissional de carreira.
— Vejo que você não usa aliança. Você e seu noivo ainda não se decidiram?
— Achamos que seria um desperdício gastar dinheiro com alianças.
Preferimos empregar o dinheiro numa casa. — Na verdade, a sugestão havia
partido de John, mas ela não se importava. Estava, isso sim, encabulada
com o questionário de Charles.
— Que acha de trabalhar para mim? Deixe-me explicar — disse ele, rindo ao
vê-la assustada com a pergunta. — Estou tentando escrever a história desta
casa. Ela sempre pertenceu à nossa família, mas Damon e eu nem tínhamos
conhecimento de sua existência. Alguns anos atrás é que descobrimos que
havíamos herdado Hawksmoor. Morávamos na Inglaterra, nessa
época, e sequer desconfiávamos de que tínhamos ancestrais
irlandeses. Você ficará sabendo de toda a história, se concordar em me
ajudar. E um trabalho fascinante.
— E o que eu teria que fazer? — perguntou Carrie, ainda assustada.
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— Todo o trabalho de datilografia e organização. Fico meio perdido com


minha papelada. Meu escritório está uma desordem. Você teria que colocá-lo
mais ou menos em ordem e datilografar os textos. Tenho certeza de que logo
estaria tão apaixonada pelo trabalho quanto eu.
Ele estava tão entusiasmado que Carrie acabou se contagiando.
— Aceito — disse ela, decidindo-se rapidamente. — Será um prazer ajudá-lo.
Muito obrigada, Charles.
Anne e David, certamente, ficariam contrariados com essa notícia. No fundo,
ela não queria admitir que Damon e seu fascínio haviam influenciado em sua
decisão. Mas, quando Charles se aproximou para lhe dar um beijo na testa,
ela não hesitou em retribuir seu carinho, beijando-o no rosto. Ele era tão
gentil e adorável...
Damon não poderia ter escolhido pior hora para entrar. A porta se abriu no
exato momento em que Carrie beijava Charles, e Damon, que havia entrado
sorridente, deteve-se, com uma expressão transtornada. Num gesto
repentino, fechou a porta com um chute. O som ecoou por toda a cozinha.
O pai encarou-o, ligeiramente surpreso. Foi Damon quem falou primeiro:
— Bom dia, pai. Vejo que você e a sita. Maitland já... travaram
conhecimento. Não esperava que ela tentasse seduzi-lo.
— Que quer dizer com isso? — indagou Charles, confuso. — Esta moça e eu
estamos travando apenas uma amizade.
— Isso é evidente — zombou Damon. — Você não acha que está se
adiantando? E muita cordialidade para um conhecimento tão recente. Talvez
eu deva avisá-lo enquanto é tempo. Precisa saber exatamente que tipo de
pessoa é a sita. Maitland.
Damon atravessou a cozinha, indo sentar-se do outro lado da mesa, com os
olhos fixos em Carrie.
— Acho melhor o senhor tomar cuidado com o que diz — advertiu-o Carrie,
cheia de dignidade. — Posso processá-lo por difamação.
— Você não faria isso — disse Damon com um sorriso irónico. — Seria a sua
palavra contra a minha e nós dois sabemos quem acabaria ganhando.
— Damon! — repreendeu o pai. — Não sei exatamente o que está
acontecendo, mas não vou admitir que trate dessa maneira uma hóspede de
nossa casa. Pensei que a tivesse conhecido ontem. Que fez ela para ser
agredida desse modo?
— Nada — respondeu Carrie. — Ele meteu na cabeça que eu sou um certo
tipo de pessoa e não há quem o faça mudar de ideia. Seu filho é uma pessoa
muito desconfiada.
— Tenho meus motivos — retrucou Damon. — Pai, talvez você abra os olhos
se eu lhe contar que ontem não foi a primeira vez que me encontrei com
Carrie. Nas duas ocasiões em que a vi, estava envolvida com rapazes. Da
primeira, vez, tentando se livrar do garoto, quase bateu em meu carro. Na
segunda, tentava fugir de uma orgia na praia. Percebe agora quem é ela?
Carrie já ia revidar, quando Charles a deteve com um movimento de mão.
— Damon, por que você nunca espera as explicações? Tenho certeza de que
a srta. Maitland deve ter razões para justificar seus atos.
Damon contraía o rosto, tentando controlar sua fúria.
— Vai defendê-la, pai? Nós sabemos de tudo, mas ela não. Por que você não
lhe conta?
— Não há necessidade — respondeu Charles. — Agora, não; talvez mais
tarde.
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Sem entender muito bem a discussão, Carrie olhava para os dois, sem saber o
que dizer.
— Mais tarde não será possível. Vou levar Carrie de volta para a Inglaterra
ainda hoje. Passei a manhã acertando detalhes para que meu avião esteja
pronto.
— Isso não é mais necessário, meu filho — disse Charles, piscando
disfarçadamente para ela. — Carrie vai ficar por aqui.
— Quanto tempo? — perguntou ele. — Meu Deus, ela não perde tempo!
Damon olhou para Carrie, furioso. Ela estremeceu, assustada com
tamanha demonstração de ódio. Voltou-se para Charles implorando ajuda.
— Está tudo bem — disse Charles, batendo-lhe de leve na mão.
Esse gesto acabou de enfurecer Damon, que se levantou bruscamente da
mesa.
— Pelo amor de Deus, pai, você também?
— Meu filho, você não está entendendo. Carrie vai me ajudar a escrever
o livro. Você sabe... eu sempre quis uma secretária; agora, já tenho uma.
Damon olhou para Carrie, cheio de desprezo. Ela tentou ignorá-lo e ergueu a
cabeça.
— Não é maravilhoso? — disse ela, tentando demonstrar alegria. — Agora
você não precisa mais se preocupar comigo. Terei meu próprio salário e
poderei voltar para casa sem a sua ajuda.
— Você está louco, pai, completamente louco. Pensa que não sei o que se
passa em sua cabeça?
— Pode me chamar de velho tolo, se quiser — sorriu Charles. — Mas acho
que sei o que estou fazendo. Não tire conclusões precipitadas. O tempo dirá
quem está certo.
Damon retirou-se da cozinha e Carrie respirou, aliviada. Estava perplexa. Não
havia entendido muito bem a discussão, mas dava graças a Deus por ter
terminado. A tensão havia sido tão grande que se sentia como uma bomba-
relógio, prestes a explodir. Um movimento em falso e tudo teria ido pelos
ares.
— Sinto muito por tudo isso, Charles.
Ele também parecia mais aliviado quando se sentou novamente.
— Por favor, não se incomode com Damon. Costumo confiar nas pessoas e,
para mim, você é uma moça encantadora. Vou gostar de trabalhar com você.
— Fico satisfeita, mas você acha que é o certo? Estou muito animada com o
trabalho, mas acho que Damon pode dificultar as coisas para mim. Talvez eu
devesse ir embora; não quero causar mais problemas em sua casa.
— Nada disso. Eu sei lidar com Damon. Assim que terminarmos o café, você
telefona para sua família. E com seus pais que deve se preocupar. Acha que
vão se opor à sua decisão?
Eles, com certeza, não iriam gostar muito. Mas não poderiam fazer nada.
— São pessoas sensatas — disse ela. — Acho que compreenderão. John
certamente desaprovaria, e não podia culpá-lo por isso. Ela nem havia se
dado ao trabalho de lhe enviar um cartão. Esperava que Anne e David
tivessem conversado com ele.
Quando terminaram o café, Carrie se ofereceu para lavar a louça, mas Charles
não permitiu. Fez questão que ela telefonasse para seus pais; enquanto isso,
ele mesmo arrumaria a cozinha.
Foi Anne quem atendeu o telefone. Quase gritou de surpresa quando ouviu a
voz de Carrie.
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— Onde você está, querida? Estávamos preocupados. Você


encontrou... quem procurava?
— Não — respondeu Carrie. Anne suspirou, aliviada. — Mas,
mamãe, tem outra coisa. Arranjei um emprego aqui.
Anne custou a responder. -Que tipo de emprego?
— Uma espécie de secretária — Carrie não sabia exatamente como explicar.
— Mas onde você vai morar? — perguntou Anne. — Tem certeza de que sabe
o que está fazendo?
— Vou trabalhar e morar no próprio emprego. Conheci um homem que está
escrevendo um livro e quer que eu o ajude.
— Um homem? — perguntou Anne, desconfiada.
— Não precisa se preocupar — riu Carrie. — Ele tem uns sessenta anos e é
um amor de pessoa. Você avisa o sr. Higgins e explica que não vou voltar? Ah,
mamãe, diga a John que vou escrever para ele.
— Você sabe que ele não vai gostar disso. Ele esteve se queixando de que
você não dava notícias. Você não está sendo muito justa com ele, Carrie. Não
sei o que está acontecendo com você... Por que não volta para casa? Vamos
discutir tudo isso direitinho...
— Não há o que discutir — insistiu Carrie. — Sei o que estou fazendo. Você
fala com John, por favor?
Já ia desligar, quando Charles apareceu.
— Deixe-me falar com ela — disse ele, pegando o fone. Fez um gesto para
que ela fosse até a cozinha e o deixasse conversar com Anne.
Da cozinha, Carrie ouvia apenas uns murmúrios, sem entender o que
conversavam. Quando o velho voltou, estava sorrindo, satisfeito.
— Acho que a convenci de que você está em boas mãos.
— Obrigada — disse ela, aliviada. — Ela falou alguma coisa de John?
— Ah, sim. Falou bastante de seu noivo. Então, eu disse que se ele quisesse
vir aqui ver como você está, seria muito bem recebido.
— Oh! — Carrie sabia que era injusto dizer que não queria que ele viesse,
mas a verdade é que não queria. Era como se John pertencesse a um outro
mundo e não devesse entrar naquele novo capítulo de sua vida, prestes a
começar. É claro que ela ainda o amava e ia se casar com ele, mas preferia
que ele não viesse. Mas agora não havia mais o que fazer. Assim, tentou
parecer contente e disse:
— Será ótimo, obrigada.
— Então está tudo resolvido — disse Charles, animado, esfregando as mãos.
— Sabe, eu não devia dizer isso, mas foi uma sorte terem roubado seu carro.
Caso contrário, Damon nunca teria trazido você aqui e eu não teria
encontrado quem me ajudasse com o livro.
— Ainda bem que o roubo serviu para alguma coisa — concordou Carrie,
sorrindo. — Mas espero que o carro seja encontrado. Vou precisar dele
quando voltar para casa.
— Tenho certeza de que será localizado. E agora, que faremos? Gostaria de
conhecer a casa? Vou lhe mostrar meu escritório e seu quarto. Você vai ficar
num dos quartos que dão para o campo. Você vai gostar, aposto.
Ele era um homem jovial e animado para a sua idade. Carne voltou a
compará-lo com o filho. Eram personalidades totalmente diferentes.
Damon era dominador, agressivo e cruel e Charles era gentil, doce e paciente.
Mas era o filho que a cativava. Apesar da arrogância, ela se sentia cada vez
mais atraída por ele. Não era apenas por seus atributos físicos, pois seu
Julia Florzinha nº 98

magnetismo e charme eram impossíveis de ignorar. Mas era inútil se iludir;


ele não fazia segredo de seus sentimentos. Damon a odiava.

CAPITULO IV

— Este é meu escritório — disse Charles, indicando uma porta embaixo


da escada. — Você terá que desculpar a bagunça. Espero que consiga pôr
tudo em ordem.
A desordem era total. Encostada à janela, havia uma grande escrivaninha,
com uma máquina de escrever praticamente coberta por uma pilha de mapas
e papéis. As estantes, ocupando duas paredes, exibiam uma miscelânea de
livros desarrumados. No chão, pilhas de livros também em desordem. Uma
poltrona e uma mesinha ocupavam um canto da sala. Sobre a mesinha, um
prato com restos de um sanduíche e uma xícara de chá coberto por uma
camada de pó.
— Nunca me lembro de levar essas coisas de volta para a cozinha — disse
Charles, tentando se desculpar. — As vezes, fico tão absorvido que me
esqueço até de comer.
Carrie estava resolvida a não deixar mais aquilo acontecer. Ele teria que
tomar refeições adequadas e nas horas certas, ainda que ela mesma tivesse
de cozinhar. Não se importava; no fundo, encarava como um desafio a tarefa
de cuidar da casa para os Courtney. Um deles, pelo menos, ficaria satisfeito;
quanto ao outro, não tinha certeza.
Havia apenas um cómodo habitável no andar inferior da casa. Era uma sala
de estar ampla e confortável, com uma magnífica lareira, toda entalhada.
Num canto, perto dela, havia madeira empilhada, pronta para ser queimada.
Assim como na escada, o carpete era vermelho, com frisos dourados, que
enfeitavam também as longas cortinas de veludo. Um sofá forrado de
brocado, num suave tom dourado, ocupava o centro da sala, juntamente com
duas poltronas no mesmo estilo. Encostado à parede, havia uma espécie de
armário com garrafas de bebida e um maravilhoso balcão de mogno
entalhado. Duas mesas laterais, também ricamente esculpidas, formando
figuras de pássaros e folhas, completavam o ambiente. Era uma decoração
elegante, embora um tanto incomum.
— É bonita — disse Carrie para Charles, que observava seu interesse, cheio
de satisfação.
— Espero poder restaurar os outros cómodos nesse mesmo estilo — | disse
ele. — Toda a mobília está lá, coberta e protegida. Mas leva tempo.
Preferimos adiantar o trabalho externo, enquanto o tempo está bom.
Vamos subir agora.
— Este é o meu quarto — disse ele, abrindo uma porta ao lado do quarto de
vestir que ela havia usado. Carrie pôde perceber a cama desfeita e as roupas
espalhadas pelas cadeiras.
— Não sou muito organizado — desculpou-se ele. — Só arrumo tudo quando
não consigo encontrar alguma coisa.
— Deve sentir falta de sua esposa — disse Carrie.
— Só Deus sabe como...
— Se quiser, posso arrumá-lo para você, caso não se importe que eu entre
em seu quarto.
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— Ah, não. Isso não faz parte do seu serviço. Não se sinta obrigada a fazer
nada além de me ajudar com o livro.
— Mas eu gostaria — insistiu ela. — Não me importo em fazer o serviço da
casa, juro que não. Adoro cozinhar. Se puder ajudar em alguma coisa...
Charles observou-a com uma expressão curiosa.
— Você parece um anjo caído do céu — disse ele. — De vez em quando
deixarei que ajude. Mas só de vez em quando. Se perceber que você está
trabalhando demais, vou ficar muito bravo.
Carrie tentou imaginá-lo nervoso, zangado com ela, mas era impossível. Ele
era totalmente diferente do filho. Provavelmente Damon havia herdado seu
temperamento da mãe. Como seria essa mulher, a dona do vestido que ela
usava? Pensou em perguntar a Charles, mas preferiu esperar. Seu
relacionamento era muito recente e Charles não lhe contaria detalhes de sua
vida.
É este o quarto de que falei. Acho que vai gostar.
Charles abriu uma porta e Carrie arregalou os olhos. Era lindo! O dourado
aparecia de novo na decoração, mas agora, combinado com azul. Um espesso
carpete azul-turquesa, com estampas em bege e dourado; uma cama imensa,
coberta por uma colcha de seda dourada, com finíssimos bordados azuis,
formando uma espécie de falcão; um armário de mogno e uma cómoda toda
entalhada, com figuras grotescas.
— Esses entalhes são típicos do mobiliário irlandês. Espero que goste disse
Charles.
- São engraçados — disse ela. Pelo menos davam um toque todo especial à
decoração do quarto.
Dirigiu-se então às janelas, ricamente enfeitadas com enormes cortinas de
brocado azul. A paisagem a deixou deslumbrada. Do quarto onde havia
dormido na noite anterior só podia ver alguns pinheiros muito altos, que
encobriam todo o resto da paisagem que dali se descortinava em toda a sua
beleza.
A caminhada da noite anterior os havia conduzido à nascente de um vale. De
onde se encontrava, Carrie podia observar esse vale em toda a sua extensão:
desde as longínquas montanhas, envolvidas pela névoa, até os declives
arborizados, próximos da casa. Os tons de verde se alternavam pelo campo.
Não muito longe, a água de um lago meio escondido brilhava sob o sol.
Pinheiros verdejantes emolduravam a paisagem. O cenário era fantástico,
deslumbrante. Carrie poderia ficar ali eternamente, sem nunca se cansar de
admirar aquele vale. Haveria sempre uma novidade, um detalhe diferente.
Logo que chegou à Irlanda, ela havia sentido um carinho, um amor
instantâneo pelo país. Agora esse sentimento se aprofundava, criando laços
que nunca a separariam daquela pequena ilha e de seu povo.
Seus olhos estavam úmidos quando se voltou e olhou para Charles. Era
desnecessário falar. Ele compreendeu perfeitamente seus sentimentos.
Certamente ele havia sentido as mesmas emoções ao conhecei Hawksmoor.
Que sorte a dele! Que herança maravilhosa!
— Fale-me de Hawksmoor — disse ela. — De onde vem esse nome?
— Vamos lá fora, enquanto vou lhe contando — respondeu ele,
conduzindo-a gentilmente pelo braço.
Só então Carrie pôde perceber que, na noite anterior, havia entrado pelos
fundos da casa. A porta da frente era imensa, de carvalho maciço Pararam
alguns instantes no pórtico, olhando o vale, e logo desceram para os jardins.
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— Esta região é conhecida como o Vale do Falcão, ou Hawksmoor, em inglês


— explicou Charles. — Pelo que consegui descobrir, o primeiro
proprietário desta casa dedicava-se à criação de falcões, treinando-
os para localizar as presas, em suas caçadas. Vem daí o nome do vale.
Infelizmente, esse esporte acabou matando os animais selvagens da região.
Hoje existem pouquíssimos em todo o vale.
— Isso explica o falcão entalhado na cabeceira de minha cama — deduziu
Carrie.
— Exatamente. Não creio que a peça seja tão antiga quanto a história dos
falcões; alguém da família deve tê-la encomendado. Achei que seria um
desrespeito não aproveitá-la na decoração.
— Gosto dela. E como um emblema pessoal. Você descobriu mais
referências ao falcão na história da família?
— Sim, nas muretas do portão de entrada há dois falcões de pedra e, numa
das salas que ainda vão ser decoradas, há falcões entalhados na lareira, além
de um brasão que Damon mandou restaurar.
Voltando-se para observar a casa, Carrie pôde admirar todo o seu porte e
imponência. Havia um bloco central, ladeado por duas alas dispostas em
ângulo. As janelas do andar inferior eram enfeitadas por peças de mármore
esculpido. A construção era majestosa, apesar de estar um pouco descuidada.
O orgulho de Charles por sua herança era perfeitamente compreensível.
Carrie estava curiosa; queria saber logo a história daquela família.
Os jardins que cercavam a casa eram simétricos e bem cuidados, com um
imenso gramado, cuidadosamente aparado, e canteiros cobertos de roseiras.
Mais adiante, porém, os canteiros desapareciam, absorvidos pela vegetação
do vale. Touceiras de arbustos cresciam livremente, sufocando as flores, que
lutavam para se desembaraçar das ervas daninhas. A beleza, ali, era
selvagem e abandonada, mas em vez de prejudicar, realçava o esplendor da
propriedade.
— Estamos tentando ser auto-suficientes — explicou Charles. —
Temos vacas, carneiros, algumas galinhas e porcos e uma horta lá
adiante. Damon cuida de tudo; dificilmente aparece alguém que o ajude. Já
tentei lhe dizer que não se sacrifique tanto, mas ele não me ouve. Ele meteu
na cabeça que não precisamos da ajuda de ninguém e não quer nem que eu
arranje uma mulher para me ajudar no serviço doméstico.
Carrie lembrou-se de que Damon havia dito que não tinham
empregados porque eles não paravam muito tempo no serviço. Por que teria
mentido?
— Ele odeia mulheres, não é? — perguntou ela. — Talvez seja por isso.
— É, deve ser — concordou Charles. — Ainda não consegui entender como
ele a trouxe até aqui.
— Ainda bem que me trouxe — admitiu ela, com franqueza. — Não seria
nada agradável passar a noite debaixo de uma ponte.
Charles riu.
— Alguma outra pessoa a teria ajudado. Ninguém, em sã consciência,
deixaria uma moça tão bonita em apuros.
Voltando para a casa, Carrie se ofereceu para fazer o almoço. Como era
domingo, Charles não havia permitido que ela começasse a trabalhar com o
livro.
Ele tentou recusar a oferta também, mas acabou desistindo. Carrie conseguiu
dobrá-lo, com seu sorriso encantador. Era uma tática muito empregada.
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Costumava usá-la quando John queria fazer algo que ela não queria, como ir a
um jogo de futebol, por exemplo. Ele adorava esse esporte, mas ela detestava
e sempre se recusava a ir. Geralmente, com a ajuda de seu sorriso, ela
acabava convencendo-o a ir a um cinema ou a caminhar pelo parque. Essa
tática dificilmente funcionaria com Damon, pensou. Ele a detestava tanto que
um simples sorrizinho não seria suficiente para dobrá-lo.
É como uma rocha, concluiu. Charles havia subido para o quarto, a pretexto
de arrumar a cama.
— Duro e intransponível. Duvido que alguém consiga amansá-lo — disse
Carrie em voz alta.
A torneira estava aberta, enchendo uma vasilha onde iria descascar batatas.
Ela não ouviu a porta se abrir, nem percebeu que Damon estava bem atrás
dela.
— Você está falando de mim? — perguntou ele.
Ela se voltou rapidamente, o coração batendo descompassado. Aqueles olhos
cinzentos e indagadores a observavam novamente, cheios de crueldade.
Apesar disso, a proximidade de Damon provocou-lhe uma infinidade de
emoções. Ela já não conseguia entender suas reações. Sentia-se uma idiota,
parada ali, de boca aberta, com os olhos fixos nele. Logo, porém, recobrou o
autocontrole.
— Estava — disse ela, tentando parecer calma.
— Interessa-lhe saber a resposta, não? Para sua informação, ainda não
encontrei uma mulher capaz de, como direi, amolecer este meu coração de
pedra. E não vai ser com esse seu sorrizinho enganador que vai | conseguir.
Ele pode funcionar com meu pai, mas comigo, não.
— Engano seu pensar que estou interessada em você — replicou ela, com
sarcasmo. No fundo, sabia que era mentira.
— Então deve ser em meu pai. Coitado! Deixando-se enganar por seu
rostinho angelical! Bem diz o ditado: quanto mais velho, mais tolo. Mas não
pensei que um homem dessa idade pudesse atraí-la. Que houve? Cansou-se
de perseguir garotos?
— Você é desprezível — acusou-o, dando-lhe as costas. — Estou trabalhando
para seu pai e pronto. Se vê algo além disso, o pervertido é você!
— Se você soubesse o que sei, talvez não pensasse assim— disse ele. — Mas
não é disso que quero falar. Que está fazendo com esse vestido? É um tanto
velho para você, não acha?
— Só podia ser... era de sua mãe. — Pegou a faca e começou a| descascar
uma batata. — Depois de você ter me instalado naquele quarto horrível e eu
ter de dormir vestida, não havia outra saída. Queria que eu tirasse meu
vestido para lavar e ficasse circulando por aí seminua? Oh, droga! — Cortou o
dedo com a faca e se voltou, tentando estancar o sangue. — Então, que diz?
Ele ignorou a pergunta e respondeu com voz rouca:
— Esse vestido não era de minha mãe.
— Talvez você não a tenha visto com ele, mas é dela. Charles me disse que
escolhesse um no armário dela.
Damon ficou ainda mais irritado vendo que ela tratava o velho pelo primeiro
nome.
— Então ele deve ter esquecido de dizer que ela é minha madrasta. Deus me
livre de ser filho dela — acrescentou ele, em tom amargo. — Eu a odeio.
Deixe-me dizer-lhe quem é ela. Basta dizer que é capaz de dormir com
qualquer um que a procure. Meu pai sabia disso, mas estava tão enfeitiçado
Julia Florzinha nº 98

pela beleza e elegância dela que perdoou tudo. Tudo, entende? Pobre tolo!
Carrie empalideceu. Pobre Charles... Mas, se ele havia sido feliz com ela,
Damon não tinha o direito de criticar.
— Acho que você não tem o direito de se intrometer. Se seu pai se apaixonou
por ela, isso é o que importa.
— Sim, ele era feliz... quando ela estava aqui. — O rosto de Damon estava
tenso; seus olhos brilhavam a ponto de assustar Carrie. — Quer saber o nome
dessa... prostituta? — Ele estendeu as mãos, segurando-a pelos ombros. —
Zelah Cunningham... ou melhor, Zelah Courtney! — As palavras soaram como
um grito.
— Não acredito! — gritou ela. —Você está mentindo. Disse isso para me
humilhar. — Ela não queria acreditar, mas, no fundo, sabia que era verdade.
Ela havia desconfiado disso desde o primeiro dia. Suspeitou que Zelah fosse
totalmente diferente do que havia imaginado. Mas... era terrível demais!
Cobriu o rosto com as mãos, tentando sufocar o choro.
Quando percebeu que a havia magoado o bastante, Damon a soltou. Afastou-
se um pouco e ficou observando-a, de braços cruzados.
— Pelo visto, a notícia a abalou. Devo ter destruído suas ilusões. É uma pena,
mas a vida é assim mesmo... cheia de golpes e desilusões.
— Você não precisava ser tão cruel.
— E por que deveria ser mais delicado? É a verdade. Só sinto que não haja
divórcio na Irlanda. Não sei por que ela não desaparece de uma vez. Acaba
sempre aparecendo por aqui, quando lhe dá na telha. Desta vez ela está
demorando; já faz uns seis meses que não aparece. Talvez tenha encontrado
outro homem; algum milionário que se perdeu de amores por ela.
Carrie tentava se recuperar do choque. Sua voz tremia.
— Ele deve ter se casado consciente de tudo isso.
— Pode ter sido paixão, ilusão, o que quiser, menos amor. Duvido que ela
também o tenha amado. Aquela mulher é incapaz de amar alguém, a não ser
a si mesma. E ao dinheiro, é claro. — Fez uma pausa e perguntou: — Por
que a está procurando?
Carrie não estava disposta a contar. Estava arrasada com a revelação. Queria
ficar sozinha.
—- Cuide da sua vida! — gritou, saindo da cozinha. Correu para o quarto e se
atirou na cama, em prantos.
Era terrível pensar que sua mãe pudesse ser uma mulher fácil. Talvez tivesse
ficado assim depois do nascimento de Carrie. Quantas outras crianças
rejeitadas ela teria tido? Ou, quem sabe, o susto do primeiro erro a havia
ensinado a ter mais cuidado? Carrie pedia a Deus que sim. Não desejava que
ninguém mais se sentisse tão triste e abandonada como ela.
De repente, o vestido que usava lhe pareceu sujo. Trémula e nervosa, ela o
tirou e o jogou no chão. Olhando-o cheia de desgosto, começou a chutá-lo e o
atirou longe A porta se abriu nesse exato momento e o tecido roçou de leve o
rosto de Charles Courtney.
— Oh, desculpe-me — gritou ela, apressada. — Não queria fazer isso. Não
podia imaginar que... Meu Deus, o que você vai pensar?
— Não se preocupe — disse ele, balançando a cabeça. — Você discutiu com
Damon? Ouvi vozes e depois você correr para o quarto. Que houve, menina?
Você parece um fantasma.
Carrie fitou Charles longamente. Seus lábios tremeram e seus olhos se
turvaram. Nem se deu conta de que estava apenas de calcinha e sutiã.
Julia Florzinha nº 98

— Sente-se e enrole-se com isto — disse ele, cheio de bondade, puxando a


colcha azul que cobria a cama.
Ela se envolveu com a colcha e sentou-se na beira da cama, sentindo as
pernas trémulas. Teria que contar toda a verdade a Charles Courtney, pois,
mais cedo ou mais tarde, Damon poderia lhe dizer. Mas, por onde começar?
Como explicar tudo sem magoá-lo? Se o que Damon havia dito era verdade,
se Charles ainda amava Zelah, ela precisaria ter muito cuidado para não feri-
lo. Mas seria difícil falar de Zelah sem criticar seu comportamento. Aquela
discussão a havia deixado desiludida, amargurada. Arrependia-se
profundamente de ter tentado encontrar sua mãe.
— Acho que já sei do que se trata — disse ele, percebendo que ela não
conseguia tocar no assunto. — Ele não gostou de vê-la com o vestido?
Carrie sacudiu a cabeça, satisfeita por ele ter compreendido sua hesitação.
Assim seria mais fácil continuar a conversa.
— Ele me contou quem é a dona do vestido. Não imaginei que você fosse
casado em segundas núpcias. Lamento que ela o tenha deixado.
Ele deu um sorriso desajeitado, mas não se mostrou muito constrangido.
Puxou uma cadeira que estava perto da porta e sentou-se de frente para ela,
segurando-lhe uma das mãos, já que com a outra ela segurava a colcha em
volta do corpo.
— Acabei me acostumando com essas idas e vindas. Não importa o que meu
filho lhe disse; a meu modo, eu ainda a amo. Ela é muito bonita e, como já
deve ter percebido, gosto de estar cercado por coisas bonitas. Não me custa
muito ignorar as... indiscrições de Zelah. Quando está comigo, ela é tudo o
que eu poderia esperar de uma esposa. Que mais posso desejar, na minha
idade? Fico contente por ela ter se sentido atraída por mim.
Carrie se entristeceu e apertou aquela mão enorme que segurava a sua.
— Deus o abençoe, Charles, por pensar assim. Acho que ela nem merece
isso, mas me alegro em saber que ela lhe traz um pouco de felicidade. — Fez
uma pausa, tentando encontrar as melhores palavras.
— Há uma coisa que você precisa saber... a verdadeira razão de minha
viagem até a Irlanda.
— Tem algo a ver com Zelah? — indagou ele, fitando Carrie. Não havia
tristeza em seus olhos, e sim esperança e Carrie achou isso estranho.
— Exatamente — disse ela. — Descobri há uma semana que ela... ela é...
— Sua mãe? — concluiu Charles. — Anne me contou, pelo telefone, que você
veio procurá-la. Desde o primeiro momento em que a vi, supus que houvesse
alguma relação. Você se parece tanto com ela, minha querida! — Ele sorriu.
— A única diferença é que você tem uma ingenuidade que Zelah nunca teve.
Não perca nunca essa inocência, minha filha.
Ele a puxou para perto de si. Carrie percebeu que, assim como ela, ele estava
a ponto de chorar.
— Não foi por isso que me ofereceu o emprego, foi? — indagou ela, com voz
trémula.
— Não, não, claro que não. O emprego não tem nada a ver com o resto...
pelo menos, não muito — acrescentou, com honestidade. — Carrie, você
entende o que isso significa para mim? Você é a filha que eu sempre quis.
Estou tão feliz. — As lágrimas agora rolavam-lhe livremente pelo rosto. Carrie
as enxugou e o beijou carinhosamente.
— Agora precisamos encontrar alguma coisa para você vestir — disse ele,
animado. — No armário há alguns vestidos que Zelah nunca usou. Amanhã
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Damon poderá levá-la a Wicklow. Zelah tem uma conta nas lojas da cidade;
compre o que precisar.
— Nunca! — respondeu Carrie, irritada com a ideia de gastar dinheiro alheio.
Todo um guarda-roupa novo ficaria muito caro.
— Tolice — replicou Charles. — Você não tem escolha. Ele tinha razão.
— Está bem, mas só se você me deixar cobrir as despesas assim que meu
dinheiro seja transferido.
Charles encolheu os ombros.
— Está bem. Vamos dizer que é um empréstimo. Mas não precisa ter pressa.
Você poderá precisar desse dinheiro. Não vá se prejudicar por minha causa.
Carrie não gostou da ideia. Muito menos lhe agradava o fato de Damon levá-la
a Wicklow. Mas, sem o carro, não tinha outra alternativa. Pedia a Deus que
seu carro fosse localizado logo. Precisava perguntar a Damon se a polícia
havia sido avisada.
O vestido que escolheu, de algodão verde-musgo, justo na cintura e de saia
franzida, realçava ainda mais os contornos de sua silhueta perfeita. O decote
redondo deixava entrever a alvura e a maciez de sua pele.
Mesmo sabendo que Zelah nunca havia usado aquele vestido, não conseguia
tirar da cabeça que, de qualquer forma, pertencia a ela. Carrie sabia que,
enquanto não tivesse suas próprias roupas, não ficaria sossegada.
Talvez devesse pedir a Anne que lhe enviasse algumas peças. Mas logo
pensou nas despesas e dificuldades. Além disso, teria que explicar que o carro
havia sido roubado e Anne ficaria ainda mais preocupada. Seria melhor não
dizer nada e se satisfazer com as poucas roupas que iria comprar no dia
seguinte.
De volta à cozinha, encontrou Charles terminando de preparar o almoço.
Carrie insistiu em ajudar. Decidiu fazer uma torta de maçãs.
— Você vai nos deixar mal acostumados — riu Charles. — Não comemos
essas iguarias desde que minha esposa... hum... faz muito tempo.
— Então já está na hora de experimentar de novo — disse ela meio séria,
satisfeita por Charles não mencionar o nome de sua mãe. Pegou um grande
avental que estava pendurado atrás da porta e o vestiu. — Diga-me onde
estão os ingredientes e logo tudo estará pronto.
Uma atmosfera alegre e jovial pairava na cozinha, até que Damon chegou,
pouco antes do almoço. Carrie, então, parou de conversar, ocupando-se com
o preparo do creme, mas consciente da tensão que aquela presença
provocava. Ele lavou as mãos na pia e disse ao pai que uma das vacas estava
doente e que iria chamar o veterinário. Saiu em seguida.
Carrie e Charles arrumaram a mesa e serviram o almoço. Damon apareceu
no exato momento, quando estava tudo pronto. Não vestia mais o jeans com
que trabalhava. Usava agora uma calça preta, mais justa, e uma malha de
gola olímpica, também preta. Tinha um aspecto meio diabólico, mas
atraente, pensou Carrie, tentando ignorar os disparos de seu coração diante
da presença dele. Seus fartos cabelos negros, ainda úmidos depois do banho,
enrolavam-se na nuca. Seus olhos inquietos e observadores a acompanhavam
até que ela se sentou. Logo sentaram-se todos.
Almoçaram em silêncio até que Charles se manifestou.
— Damon, você poderia levar Carrie até Wicklow, amanhã? Ela precisa
comprar umas roupas. Você sabe onde levá-la?
Damon balançou a cabeça, dizendo que sim. Fitou Carrie com olhos
acusadores.
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— Espero que você não seja tão extravagante quanto minha madrasta. Papai,
coitado, levava sempre um choque quando recebia a conta.
— Não é essa a minha intenção — respondeu Carrie rispidamente. — Para
sua informação, trata-se de um empréstimo. Pretendo pagar cada centavo
que gastar. Não quero receber favores de ninguém.
— Carrie, não dê atenção a meu filho. Ele está sendo muito grosseiro, se bem
que deve estar fazendo isso apenas para irritá-la. Pena que, às vezes, sem
perceber, ele chega a ser muito cruel.
— Você acha, pai? — perguntou Damon. — Você não me entendeu muito
bem. Não gosto de vê-lo explorado. Foi exatamente o que eu quis dizer.
— Tenho certeza de que Carrie nunca faria isso — disse Charles, em tom
desaprovador.
— Veremos — respondeu Damon. Daí por diante, procurou fugir assunto,
preferindo comentar os progressos de seu trabalho na reforma da casa.
Saboreou a torta de maçãs com avidez, mas não fez comentários, deixando a
sala assim que terminou a refeição.
Carrie sentiu-se aliviada quando ele saiu. Sua presença dominava a cozinha.
Impossível ignorar sua vitalidade! Pena que tivesse aquele problema em
relação às mulheres. Seria certamente um companheiro fantástico. Carrie
ficou vermelha com esse seu pensamento inesperado. Baixou a cabeça
enquanto juntava os pratos e os colocava na máquina de lavar louça. Não
queria que Charles percebesse ou fizesse perguntas.
O resto do dia transcorreu em tranquilidade. Carrie não voltou a ver Damon e
o pai praticamente não falou nele. Ela procurou não fazer perguntas para não
despertar a curiosidade de Charles.
Dormiu bem naquela enorme cama azul. Quando acordou, estava
preocupada. Damon a levaria a Wicklow e ela estaria à mercê de suas
agressões.
Quando se dirigia para o quarto de vestir de Zelah, olhou ansiosa para a porta
ao lado da sua, desejando que Damon não aparecesse, pois estava com um
penhoar transparente. Charles havia apenas mostrado a porta do quarto de
Damon, sem ousar invadi-lo. Certamente deveria ser uma espécie de
santuário, onde ninguém entraria sem ser convidado.
Lavou-se apressada e vestiu o mesmo vestido verde. Escovou os cabelos
sedosos e sentiu falta de algum cosmético; mas por nada no mundo tocaria
nos inúmeros potes, vidros e tubos que Zelah havia deixado. Depois do que
Damon havia dito sobre a personalidade de Zelah, Carrie sentia um estranho
estremecimento cada vez que pensava nela. Parecia-lhe uma crueldade do
destino ser filha de uma pessoa tão desprezível. Preferia, de agora em diante,
não pensar nela como sua mãe.
Pelo menos, a revelação fez com que admirasse Anne e David ainda mais.
Sabia que Anne ficaria muito feliz quando voltasse para casa. Talvez Anne
soubesse da vida que Zelah levava e por isso tentou dissuadi-la da viagem.
Pelo menos Anne não teria mais que se preocupar com o futuro. Carrie nunca
mais os abandonaria. Quando voltasse e se casasse com John, tudo voltaria a
ser como antes. Todo aquele episódio seria esquecido.
Mas já não tinha tanta certeza. Talvez não quisesse mais se casar com John.
Pela primeira vez essa dúvida a invadia. Foi inevitável comparar John e
Damon: a diferença entre os dois era óbvia. John era gentil, bondoso e
simpático; na verdade, era um homem comum que a amava e seria um ótimo
marido. Damon, por outro lado, era alto e atraente, capaz de chamar a
Julia Florzinha nº 98

atenção de qualquer mulher. Mas aquele ódio que ele sentia pelas mulheres
estragava tudo. Ele era rude, amargurado; seus olhos grandes, emoldurados
por espessos cílios negros, pareciam frios e penetrantes. Apesar de tudo isso,
havia nele uma coisa especial que a atraía, que a impelia para ele.
A viagem a Wicklow talvez fosse um tanto perigosa. Tudo dependeria da
atitude de Damon. Se ele insistisse em sua grosseria, seriam péssimas
aquelas horas que teriam que passar juntos.
Quando descia a escada, Carrie voltou a sentir o pulsar descompassado de
seu coração. Com muita força de vontade e autocontrole, conseguiu manter o
sorriso quando entrou na cozinha, mas logo se viu atingida pela insolência e
frieza de Damon.
— Veja lá, sita. Maitland, não vá gastar demais. Eu estarei observando tudo
como um falcão.

CAPITULO V

A insolência de Damon a irritou, mas disfarçou sua raiva e sorriu, educada.


— Não será necessário. Pretendo comprar apenas o mínimo
indispensável. — Sentou-se numa cadeira de frente para ele. — Sei o que
deve estar pensando, mas gostaria que soubesse que foi seu pai quem
insistiu nessas compras.
— Não acredito — retrucou ele. — Ele não lhe disse para usar as roupas de
Zelah?
Não querendo admitir que ele tinha razão, Carrie balançou a cabeça
apressadamente.
— Digamos que tenho certos escrúpulos em usar essas roupas.
— Ou contou a ele o que eu lhe disse e o meu paizinho, coitado, lhe ofereceu
roupas novas? Você poderia muito bem ter recusado.
— Sim, poderia — retrucou ela. — Mas Charles ficaria magoado. — Colocou
uma fatia de pão na torradeira e serviu-se de chá.
— Essa é boa — zombou ele. — Desde quando uma mulher como você se
preocupa com os sentimentos dos outros?
Carrie cerrou os dentes. Se fosse discutir com Damon, a viagem se tornaria
insuportável. Ele era arrogante e sarcástico demais. Discutir com ele durante
a viagem toda seria desgastante e intolerável.
— Sinto muito que tenha essa opinião a meu respeito, sr. Courtney. Garanto-
lhe que farei o possível para não ofendê-lo ou envergonhá-lo. — Passou
manteiga e geléia em sua torrada e a mordeu, observando-o atentamente. —
Poderia ao menos me conceder o benefício da dúvida.
— Só quando me provar o contrário — retrucou ele, secamente. — De
qualquer forma, poderemos tentar, srta. Maitland. Como já chama meu pai de
Charles, poderia também me chamar de Damon.
— Como quiser — respondeu ela, encolhendo os ombros. Em seus
pensamentos ele já era Damon há muito tempo. Acabou de saborear sua
torrada com o chá, sentindo que ele a observava. Era como se tentasse defini-
la ou quisesse ter certeza de que estava certo em suas suposições.
— Posso saber a que conclusão chegou? — perguntou ela, com
petulância.
Ele franziu as sobrancelhas, sem entender exatamente a que ela se referia.
Julia Florzinha nº 98

— Você estava me observando atentamente — explicou ela, com um sorriso.


— Senti-me no direito de saber o que se passava em sua cabeça.
Ele riu.
— Você não acreditaria — disse ele, se levantando. — Espero você lá fora.
Não querendo ser motivo de atraso, Carrie se apressou e terminou o café da
manhã. O dia estava quente e ensolarado. Alegrou-se por não precisar vestir
um dos casacos de Zelah.
O Rolls Royce estava em frente da casa, com o motor já ligado. Carrie entrou
no carro e se instalou no banco confortável. O estofamento cheirava a couro e
ela aspirou com prazer aquele aroma. Que luxo!
Damon praticamente não olhou para ela, Dirigiu calmamente pela alameda de
acesso a casa. Mais uma vez a proximidade dele lhe provocava uma certa
ansiedade. Felizmente Damon não podia perceber sua agitação interior. Seria
muito humilhante se ele descobrisse que tinha esse poder sobre ela. Veria
suas suspeitas confirmadas e a enquadraria no padrão que havia estabelecido
para todas as mulheres.
Carrie estava intrigada com suas reações.. Da maneira como ele a tratava, ela
deveria ignorá-lo, desprezá-lo. Mas sua personalidade dominadora a
perturbava. Era forte, explosivo e viril. Perto dele, sentia-se fraca, impotente.
Olhou furtivamente para o perfil de Damon. O nariz era ligeiramente aquilino
e a fronte, larga. Os cabelos fartos e negros caíam displicentemente pela
testa. Sentiu vontade de correr os dedos por entre aqueles fios grossos,
acariciar aquele rosto perturbador.
Ele estava visivelmente irritado por ter que levá-la a Wicklow e isso era
compreensível. Damon dava muito mais importância ao trabalho que deixava
por fazer em Hawksmoor. Onde já se viu ter que comprar roupas para aquela
moça que havia perdido tudo o que tinha por causa de sua própria estupidez!
Carrie umedeceu os lábios, ansiosa.
— Desculpe se estou lhe causando problemas. — Sua voz não passava de um
sussurro. Como ele não respondeu, repetiu mais alto.
— Damon, realmente, sinto muito. Se preferir, podemos voltar para casa.
Darei um jeito de usar outras roupas.
-— Não se faça de mártir — respondeu ele secamente, encarando-a por um
instante. Seus olhos não demonstravam delicadeza e compreensão, mas não
deixavam de ser bonitos. Deveria ser fascinante vê-los um dia cheios de
admiração ou carinho.
— Falei isso por causa do seu trabalho — disse ela, em voz baixa. — Aquela
vaca doente não vai precisar dos seus cuidados?
— Logo estará boa. Era febre puerperal.
— Que é isso? — perguntou, percebendo que o assunto agradava. Ele parecia
mais calmo e delicado. Interessava-se mais pela vaca do que por ela... Carrie
não sabia se devia rir ou se revoltar com o fato.
— A vaca teve um bezerro há poucos dias e adoeceu em seguida. O
veterinário aplicou-lhe uma injeção e ela já está melhor; mas terei que ficar
de olho nela mais alguns dias.
-Posso ver o bezerro? — perguntou Carrie.
Esses problemas eram uma novidade para ela, que, tendo sempre morado na
cidade, não estava acostumada a lidar com animais.
— Claro — respondeu ele, surpreso, - desde que não interfira no meu
trabalho, talvez pudesse até me dar uma [Link] vezes preciso muito.
Esse era seu primeiro gesto de simpatia. Carrie adoraria ajudar, mas tinha seu
Julia Florzinha nº 98

compromisso com Charles.


— Sinto muito, tenho que trabalhar — disse ela e acrescentou
imediatamente: — Mas adoraria ajudá-lo em minhas horas de folga.
A pequena mostra de calor humano desapareceu por completo.
— Ah, meu pai... tinha me esquecido — disse ele com frieza. — Talvez seja
melhor assim... acho que você acabaria atrapalhando.
Quando Carrie abriu a boca para protestar, ele se adiantou, dizendo:
— Não se esqueça de que já me deu provas de sua estupidez. Não posso
correr riscos, quando se trata de meus animais.
-— Errar é humano — replicou Carrie com veemência. — Até quando vai me
acusar disso?
-— Até que tenha motivos para mudar de opinião. Por enquanto, a única
informação a seu favor é que sabe cozinhar. Zelah era um transtorno nos
trabalhos domésticos. Pelo menos nesse ponto você é diferente dela.
Carrie calou-se. Temia que Damon tivesse descoberto o parentesco entre
Zelah e ela. Mas isso era impossível; se soubesse, já a estaria agredindo com
isso. Parece que ele sentia um grande prazer em deixá-la humilhada ou
constrangida.
— Que houve? — perguntou ele, quando se deu conta do silêncio. — Não
gosta que eu fale em Zelah? Já desistiu de procurá-la? Ou será que meu pai,
por enquanto, a desviou de seus objetivos?
Era evidente que ele não se referia ao trabalho como secretária. Havia metido
na cabeça que ela queria conquistar o velho e isso a desgostava
profundamente.
— Você é nojento! Como pode pensar uma coisa dessas? Ele tem idade para
ser meu avô!
— Exatamente! — A voz de Damon se elevou a ponto de quase assustá-la. —
Então, por que não volta para a Inglaterra e esquece toda essa encenação?
— Encenação! — repetiu Carrie. — Você não sabe do que está falando.
Charles e eu nos entendemos; coisa que não acontece com você. Não sei de
onde tirou essa ideia de que sou tão ruim quanto minha mã... quanto Zelah —
terminou a frase às pressas^ culpando-se pelo deslize. Pediu a Deus que
Damon não tivesse notado.
Mas ele havia percebido.
— O que você ia dizendo antes de se corrigir? — perguntou ele. franzindo as
sobrancelhas.
Ele sabia! Devia saber! Queria apenas se divertir um pouco e arrancar dela a
informação.
— Por que quer saber? Não é da sua conta.
— É, sim. — Desviou a atenção por um instante, para contornar uma curva
perigosa. — Acho que você tem algo a me dizer, mocinha. Algo que interessa
a nós dois.
Carrie encolheu os ombros. De que adiantava adiar? Se ele já não soubesse,
mais cedo ou mais tarde descobriria, ou Charles lhe contaria.
— Zelah é minha mãe —- disse ela bruscamente, evitando encará-lo. Preferiu
olhar para a estrada que se estendia em curvas que se perdiam a distância.
Damon assobiou e parou o carro.
— Então é isso! Pensei que fossem irmãs, por isso eu... mas mãe e filha...
nem posso acreditar. Acho que ela era bem novinha quando você nasceu!
— Tinha dezesseis anos... Sou filha ilegítima — acrescentou em tom
desafiador.
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— Faz sentido — disse ele. — Imagino quantos outros filhos ela deve ter
posto no mundo... rejeitados, mal-amados.
Carrie estremeceu diante de tamanha crueldade. O mesmo pensamento lhe
havia ocorrido, mas, por alguma razão obscura, sentia-se obrigada a defender
sua mãe.
— São necessárias duas pessoas para conceber um filho — retrucou ela. — E
com o mundo cheio de homens prontos para tirar proveito, que mais se
poderia esperar?
— Quando uma mulher se oferece como Zelah, nenhum homem e capaz de
recusar.
— E por isso você a toma por base e considera todas as mulheres da mesma
forma? Talvez minha mãe seja... — Carrie relutou. — Uma mulher fácil, mas
isso não significa que qualquer outra também seja.
— Para mim são todas iguais — afirmou ele, categórico. — Ainda não
encontrei uma que não concordasse em ir para a cama logo no primeiro
encontro.
Não era de se estranhar, pensou Carrie, com tanta virilidade e beleza. Até ela
se sentia atraída, apesar de odiá-lo!
— Então você conheceu o tipo errado de mulher — afirmou, olhando para a
janela, sem coragem de encará-lo.
Como não o estava olhando, o gesto de Damon a surpreendeu. Ele a pegou
pelo queixo e a fez virar o rosto para ele.
— Está querendo dizer que você é diferente? — indagou ele com ironia. —
Quer que eu acredite que você é diferente de sua mãe?
Carrie recuou, ofendida com o tom malicioso de sua voz. Quando fitou
aqueles olhos frios e distantes, seu rosto empalideceu. Ele a censurava, em
silêncio, com o olhar, como se ela tivesse cometido um crime. Finalmente ela
conseguiu juntar forças para dizer:
— Como ousa me insultar se não sabe nada a meu respeito?
— Nem preciso saber — retrucou ele. — Basta olhar para esses cabelos
tingidos.
Então ele não havia acreditado que a cor de seus cabelos era natural. Não
valia a pena discutir. Desanimada, Carrie encolheu os ombros num gesto de
derrota.
— Pelo que vejo, você já formou uma opinião a meu respeito. Talvez o tempo
o ajude a perceber seu engano.
— Você não ficará por aqui tanto tempo assim — retrucou ele com
veemência. — Farei todo o possível para apressar sua partida. Pretendo
conversar direitinho com meu pai. Ele é meio bobo quando se trata de
mulheres, mas desta vez quero ter certeza de que não sairá magoado.
Carrie tentou se acalmar. Se a conversa continuasse naquele rumo, ela
acabaria se descontrolando. Damon insistia em pensar que ela estava
querendo alguma coisa com Charles; será que ele não percebia que isso era
absurdo? O silêncio era a melhor resposta. Era melhor calar-se e deixá-lo
pensar o que quisesse.
— Que houve? — zombou ele. — Não tem mais nada a dizer a seu favor?
Concorda que é inútil discutir e que eu estou com a razão? Pobrezinha da
Carrie, meteu-se numa boa enrascada, não?
Carrie ia esbofeteá-lo, mas novamente ele foi mais rápido. Soltando-lhe o
queixo, segurou-lhe o pulso, prendendo-o contra o peito. Estendeu o l outro
braço e puxou-a para junto de seu corpo. Seus olhos brilhavam.
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Quando a beijou, Carrie não conseguiu reagir, pois essa era a última coisa que
podia esperar dele. Aos poucos, o espanto passou e ela tomou consciência
das sensações desconhecidas que o beijo lhe despertava. Sentia-se como
uma rosa desabrochando. Suas emoções afluíram lenta e deliciosamente.
Cada gesto de Damon provocava uma onda de calor que inundava seu corpo
de prazer. Finalmente, todas as sensações se liberaram.
O beijo de Damon era diferente de tudo o que havia experimentado. Era como
um furacão que a destruía por dentro. John jamais havia provocado essa
sensação... Suas carícias a deixavam mais ou menos satisfeita, mas nunca
havia sentido aquele desejo, aquela vontade de continuar. Tinha necessidade
de sentir seu corpo junto ao dele, de ser possuída por aquele homem que
tanto odiava.
Enrubesceu ao pensar nisso. Tentou se soltar e Damon, ao mesmo tempo,
afastou-se com uma expressão de nojo.
— Você não é melhor que ela — disse com crueldade. — Você se entregaria a
qualquer homem. E não tente negar: a prova está aí.
Carrie se ajeitou no banco do carro, sentindo-se confusa e desiludida. Damon
estaria falando a verdade? Se fosse como Zelah, suas reações não seriam as
mesmas com John ou com qualquer outro que a tivesse beijado? Damon é que
era diferente. Seus atributos físicos virariam a cabeça de qualquer mulher; ele
mesmo havia dito isso.
Antes tivesse tido forças para resistir, para não corresponder a seus beijos tão
suaves. Que contradição! Imaginava que Damon amasse com a mesma
selvageria com que tratava as pessoas... Mas não... a não ser que tivesse
agido suavemente de propósito, consciente da atração que exercia. Sim, essa
era a resposta. Sabendo que poderia despertar o amor de qualquer mulher,
havia usado essa arma para confirmar suas suposições.
Carrie olhou firmemente para ele. Com um sorriso de satisfação, Damon se
preparava para ligar o carro.
— Você pensa que é muito esperto, sr. Courtney... Como eu gostaria de vê-lo
humilhado pelo menos uma vez!
— Acho muito difícil você conseguir isso — disse ele, satisfeito. — Não é
qualquer mulherzinha que vai me lograr. Podemos continuar a viagem?
Estamos perdendo um tempo precioso...
— Ora, vá para o inferno!
— Não deve ser um lugar muito agradável — disse ele. — Mas acho que
alguns de-nós sempre vão parar lá.
— Acho que você deve saber isso melhor do que eu — respondeu ela com
voz suave, disposta a ignorá-lo durante o resto da viagem.
Mas isso não foi possível. Embora certo de que Carrie era uma garota fácil,
Damon passou a tratá-la com civilidade. Fez inúmeros comentários sobre a
paisagem.
— A maioria das casas irlandesas usa a turfa para acender a lareira —
informou ele. — O fogo produz um aroma adocicado inconfundível.
Quem diria! Damon com ares de sentimental! Era inacreditável.
— Aquelas pilhas — disse ele, apontando para montes de turfa
cuidadosamente alinhados à beira de um pântano — têm nomes
diferentes, conforme o tamanho ou formato.
— Como isso é feito? — perguntou Carrie, interessada no assunto e
esquecendo-se de sua irritação. — Não é perigoso? Não há risco de alguém se
afogar?
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— O corte é feito em abril ou maio, que são os meses mais secos.


Naqueles montes eles depositam as aparas. É por ali que transitam com seus
carrinhos, transportando a turfa retirada dos pântanos.
Ele continuou a falar, explicando os diferentes métodos de corte, mas era
muito complicado para que ela entendesse. De qualquer forma, estava
satisfeita por ele se dar ao trabalho de lhe dar todas aquelas informações.
— Logo toda esta área estará coberta de algodão selvagem. No outono, tudo
ficará meio alaranjado e até vermelho. Esses pântanos às vezes ficam muito
bonitos, principalmente se os observarmos na hora do crepúsculo ou da
alvorada quando os raios de sol dão à terra um brilho suave e prateado.
Essa faceta da personalidade de Damon, Carrie ainda não conhecia. Ficou
maravilhada. Ele não era agressivo sempre.
A estrada para Wicklow oferecia lindas paisagens, mas Damon não parou
mais o carro. Talvez estivesse arrependido daquele lapso momentâneo de
civilidade.
Wicklow era uma cidadezinha antiga e simpática, com suas ruas estreitas e
sinuosas. A loja para onde Damon a levou parecia ser muito careira. Carrie
estava arrependida por ter aceitado o empréstimo de Charles. Como iria
pagá-lo? Precisaria controlar-se nas compras; limitar-se ao mínimo necessário.
Quando tivesse seu próprio dinheiro compraria mais alguma coisa, roupas
mais baratas.
Damon era bem conhecido na cidade e era tratado com respeito e reverência.
Foram conduzidos à seção de confecções e ele se sentou numa cadeira
dourada, pronto para observá-la. Carrie sabia que ele estava cumprindo o que
havia prometido de manhã. Mas não era preciso vigiá-la. Estava decidida a
gastar muito pouco.
Quando ele ordenou que ela desfilasse com cada vestido que experimentava,
Carrie teve vontade de expulsá-lo dali. Era ela quem iria usar os vestidos, não
ele. Mas, por educação, e percebendo que a atitude dele não causava
estranheza às vendedoras, acabou cedendo.
Experimentou pelo menos uma dúzia de vestidos; cada um mais lindo que o
outro. Carrie estava animada e indecisa. Não sabia quais escolher. Damon
decidiu:
— Vamos levar o vestido branco, o azul, o rosa e aquele listrado. Carrie
tentou protestar, mas acabou desistindo. Ela não saberia escolher
mesmo. O que a irritava era o fato de ele se sentir no direito de tomar a
decisão.
Na seção de lingerie, ele a deixou escolher, bem como os sapatos e os
cosméticos. Quando Carrie disse que já havia terminado as compras, ele
disse:
— Faltam algumas coisas. Roupas de praia, por exemplo. Acho que meu pai
não vai fazê-la trabalhar sem descanso. Você certamente terá suas folgas...
— Acho que sim — concordou ela. — Mas ainda não combinamos um horário.
Acabaram gastando muito mais do que Carrie havia planejado. E Damon
havia concordado com tudo. No carro, olhando para os pacotes empilhados no
banco traseiro, ela disse:
— Compramos um bocado de coisas. Acho que não vou usar nem metade
dessas roupas.
— Nisso você não se parece com sua mãe — disse ele, fitando-a desconfiado.
— Ela não hesitaria um minuto em comprar dúzias de vestidos e dezenas de
pares de sapatos.
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Diante disso, Carrie chegou a pensar que suas compras haviam sido
modestas. Não era de admirar que Damon a tivesse avisado para não gastar
muito, já que pensava que ela fosse igual a Zelah.
Carrie supunha que, depois das compras, eles voltariam direto para casa; mas
não foi o que aconteceu. Damon sugeriu que visitassem um lugar chamado
Powerscourt.
— É um dos jardins mais lindos da Irlanda — explicou ele. — Quero que
Hawksmoor, um dia, tenha o mesmo aspecto.
Sem dúvida, o lugar era magnífico. Havia uma linda casa de madeira cercada
de jardins que se multiplicavam em plataformas. Ao fundo, atrás de um vale
coberto de bosques, erguiam-se os montes Wicklow, cujo ponto mais alto era
o pico Sugar Loaf.
Caminharam pelo primeiro canteiro e desceram alguns degraus que davam
para um imenso gramado. Ali ficava o centro do jardim: amplos degraus em
espiral, calçados com pedras brancas e pretas, em formas geométricas. O
corrimão, de ferro fundido, formava desenhos incomuns e um pedestal
sustentava estranhas figuras em bronze.
— Não é bonito? — perguntou Damon. — Certamente o jardim deve existir há
anos, mas eu também tenho meus planos. Hawksmoor ainda terá essa
mesma beleza, quando eu terminar as reformas.
Ele falava cheio de orgulho e Carrie sabia que ele acabaria conseguindo; daria
muito trabalho, mas ele conseguiria. Naquele momento, sentindo-o quase
amigo, ela desejou ajudá-lo na realização daquele sonho. Mas isso seria
impossível; ela não ficaria ali por muito tempo. A restauração de Hawksmoor
levaria anos e anos de trabalho constante. Nem chegaria a ver os trabalhos
concluídos! Isso a entristeceu.
— Tenho certeza de que realizará todos os seus planos — disse ela.
Ele sorriu e Carrie ficou fascinada pela mudança que o sorriso produziu. Sua
expressão suavizou-se e seus olhos, embora ainda não a aceitassem, haviam
perdido um pouco da crueldade costumeira. Talvez ainda viessem a ser
amigos... Não, era impossível! A raiva que Damon sentia por Zelah a incluía
também. Ele acreditava firmemente que ela herdara o caráter de sua mãe.
Talvez, com o tempo, ela conseguisse provar que era diferente. Mas haveria
tempo suficiente? Ele estava decidido a se livrar dela o mais rápido possível; e
Damon não era homem de não cumprir o que prometia. O apoio e a amizade
de Charles eram sua única esperança.
Caminharam por outros terraços e canteiros e chegaram à fonte.
— É a fonte de Tristão — disse Damon. — Antigamente chamava-se tanque
de Juggy, mas prefiro o nome atual. É mais bonito, você não acha?
Carrie concordou, fitando admirada o lençol de água onde se refletiam os
pinheiros. Havia uma estátua de Pégaso; as inúmeras trilhas enveredavam
pelo bosque. Tudo era tão perfeito que dispensava comentários. A única coisa
a fazer era deter-se e olhar.
— Você está fascinada, não? — perguntou Damon, notando seu
encantamento. — O clima irlandês, ameno no inverno e úmido no verão, é
excelente para a vegetação. Pode-se cultivar aqui plantas exóticas e
delicadas que nunca sobreviveriam na Inglaterra. Só nesta região
encontram-se dragoeiros e eucaliptos.
— É tudo muito bonito — murmurou Carrie.
— Há muitas outras coisas para se ver ainda, mas não podemos nos demorar.
O trabalho me espera em casa.
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Ele poderia muito bem ter evitado aquela frase. Carrie sentiu-se culpada;
apressou-se para acompanhá-lo. Ele havia estragado todo o encanto e beleza
daquele dia. Logo, porém, seu bom humor voltou. Passaram por uma alameda
que Damon chamou de avenida dos Pinheiros. De ambos os lados cresciam
lindos pinheiros, simétricos e aparados, magníficos em seu verdor e
imponência. Ela nunca havia visto nada semelhante.
Logo adiante, contrastando com a formalidade do jardim, chegaram a uma
cascata. Com força descomunal, a água despencava da borda de um
precipício de centenas de metros de altura. Parecia um lençol muito branco e
brilhante que mergulhava num profundo poço escuro, formando nuvens de
borrifos e vapor.
— A força dessa água pode matar um homem — disse Damon. — Às vezes o
vento aqui sopra com tanta violência que não se consegue ficar em pé.
Carrie ficou muito impressionada. A beleza e potência da natureza a
deixavam sem ar. Ofegante, ela olhou para Damon. Gotinhas minúsculas
pousavam em seus lábios e seus olhos se iluminaram. Ele sustentou o olhar
por alguns instantes, mas logo quebrou a magia daquele momento dizendo
secamente:
— É hora de irmos. — E pôs-se a caminho, com passadas largas, sem sequer
esperá-la.
Carrie adoraria saber o que havia se passado na cabeça de Damon naqueles
instantes emocionantes. Teria a cachoeira produzido nele o mesmo efeito que
nela? Toda aquela beleza e força natural, de alguma forma, a haviam
excitado, fazendo-a desejar Damon com toda a intensidade. Queria ter
segurado a mão dele, para admirarem juntos aquele fascinante prodígio da
natureza.
Carrie tinha certeza de que ele também havia sentido algo diferente, por isso
decidiu que deveriam ir embora. Olhava-o agora, caminhando à sua frente. O
pulsar de seu coração confirmava suas suspeitas: sua atração por aquele
homem crescia a cada minuto.

CAPITULO VI

Carrie ficou contente por estar de novo em Hawksmoor. A viagem de volta


havia sido um tanto constrangedora. Damon voltou a ser agressivo; prometeu
que faria tudo para convencer o pai a não empregá-la.
Carrie preferiu ficar em silêncio. Uma discussão poderia deixá-lo ainda mais
irritado e inflexível; além disso, ela tentava causar-lhe boa impressão, ajudá-
lo a mudar de opinião.
A conversa com Charles, contudo, teve que ser adiada. Assim que chegaram,
Damon teve de atender a uma emergência, no estábulo. Não pôde sequer
provar o almoço que seu pai havia preparado.
— Que tal a viagem? — indagou Charles, quando se sentavam à mesa. —
Comprou tudo o que pecisava?
—- Sim, obrigada — respondeu Carrie. Mas sua resposta não foi tão animada
quanto Charles esperava.
— Damon ainda não quer que você trabalhe para mim? — perguntou ele.
O velho era muito observador. Não lhe escapava nada do que acontecesse na
casa.
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— Ele vai conversar com você. Não se deixe convencer — pediu Carrie,
quase sem perceber. — Estou tão empolgada com esse trabalho!
Charles sorriu. Seus olhos azuis irradiavam ternura.
— Eu também, minha filha, eu também.
Ela tinha certeza de que os dois acabariam discutindo. No fim, venceria o
mais forte. Damon estava firmemente decidido e, nessas ocasiões, conseguia
ser cruel ao extremo. Charles, por outro lado, parecia ser bom, compreensivo.
Talvez, no fundo, Damon fosse diferente, mais flexível. Carrie confiava nisso.
Tentou se convencer de que a única razão para sua permanência ali era o
trabalho com o livro; uma atividade diferente da rotina a que estava
acostumada. Não queria admitir que Damon a atraía, embora isso sempre lhe
passasse pela cabeça.
Só à tardezinha Damon apareceu. Quando entrou na cozinha, Carrie
terminava de preparar o jantar.
— Onde está meu pai? — perguntou ele bruscamente, enquanto lavava as
mãos.
— Acho que está no escritório. — A hora da decisão havia chegado. Ela
tentou apelar para o bom senso.
— Damon, você precisa mesmo fazer isso? Não vê que posso ajudar seu pai?
Ele quer terminar o livro, mas a casa o ocupa o dia todo. Você mesmo me
disse que queria arranjar alguém que o ajudasse... por que não me deixa
ficar? É a melhor solução.
— Melhor para quem? — perguntou ele com ironia. — Para você? Não, já
estou decidido. Se meu pai quer mesmo uma secretária, arranjarei outra
pessoa mais adequada para a função.
A indireta magoou-a profundamente. Carrie entendeu perfeitamente o que ele
quis dizer; ele não lhe dava chance de provar o contrário.
— Como pode ser tão teimoso? — gritou ela. — Você nunca deixa as pessoas
se defenderem?
Ele a encarou friamente, os olhos cinzentos carregados de ódio.
— Pessoas como você, não. — E saiu, batendo violentamente a porta. Agora,
a única esperança era Charles. Numa atitude infantil, Carrie
cruzou os dedos, pedindo a Deus que o pai convencesse Damon a contratá-
la para o serviço.
Mesmo não querendo ouvir, percebeu as vozes alteradas que ecoavam pelo
corredor. Todos os seus músculos estavam tensos. Esforçou-se para entender
o que diziam. Qualquer um, nessas circunstâncias, faria o mesmo,
pensou ela. Além disso, as vozes estavam muito altas; não havia como não
ouvir.
— Você está enganado — gritou Charles. — A moça é diferente; basta olhar
para perceber que...
— Que ela é igualzinha à mãe — completou Damon. — Não se pode ter
certeza de que não acabará agindo igual à mãe. Não quero que se magoe
outra vez, pai. É para o seu próprio bem, não vê?
Houve um silêncio; Charles disse algo em voz baixa. Damon retrucou.
— Como podemos saber? Não podemos correr o risco! Você já está meio
caído por ela. Mais algum tempo e ela tomará conta de tudo... dominando-o
como Zelah fazia.
— Agora chega!
Carrie nunca havia ouvido Charles falar em tom tão autoritário. Suas
esperanças aumentaram.
Julia Florzinha nº 98

— Acontece que ainda amo Zelah, apesar de tudo o que ela fez. Ela não é tão
egoísta assim. E quando quiser voltar, eu a receberei de braços abertos.
-Você é um velho tolo! — Damon estava furioso. — Não vê que ela está
apenas se divertindo? Está torrando seu dinheiro... explorando-o... e você não
percebe. Por Deus, pai, como posso abrir seus olhos?
— Não é o meu futuro que queremos discutir! — A voz de Charles ainda
soava forte e poderosa. — É aquela moça, lá fora. Ouça-me, você está
enganado. Ela nunca viu a mãe. Como pode se parecer com ela? Carrie foi
criada por um casal carinhoso e sensível que a ama como se fosse filha
legítima. Com a boa formação que teve, não há como sair da linha. Com Zelah
era diferente. Ela foi abandonada muito cedo, entregue à sua própria sorte.
Seus pais não se preocuparam com ela; só queriam ver-se livres dela. Percebe
agora por que acho que devemos dar-lhe uma chance? Não se pode acusar
ninguém sem ter provas, Damon, ninguém! Espero que você não volte a tocar
nesse assunto.
Não era difícil imaginar a reação de Damon diante dessas palavras:
descrença, ódio e uma profunda discordância. Sua resposta foi dita em tom
muito baixo; Carrie não conseguiu ouvir. Logo a porta se abriu e seus passos
ecoaram pelo corredor.
Temendo ser surpreendida em flagrante, correu para a pia e começou a lavar
as mãos. Quando a porta da cozinha se abriu, ela perguntou, sem se voltar:
— Então, Damon, qual é o veredicto? Fico ou saio?
Mas a resposta veio de uma voz mais grave e profunda. Era Charles.
— Você fica, minha filha. Eu lhe disse que não haveria problemas. Carrie
sentiu um grande alívio e o abraçou.
— Estou tão feliz! Nunca pensei que conseguisse. Ele a beijou na testa.
— Você me subestimou. Quando estou decidido, ninguém me faz mudar de
ideia. Nem mesmo esse meu filho teimoso.
A porta se abriu, mas Carrie, animada, não percebeu.
— Adoro você, Charles, do fundo do coração.
— Era isso que você queria, pai? — A voz acusadora de Damon ecoou pela
cozinha. — Que tolice a minha! Não devia ter me deixado convencer.
Ele se voltou e saiu antes que os dois pudessem dizer qualquer coisa. Carrie
ficou trémula; teve que se apoiar no braço de Charles. Com os olhos úmidos,
fitou-o, cheia de tristeza.
— Desculpe se estou causando problemas — murmurou ela. — Talvez seja
melhor que eu vá embora.
— Não, senhora — afirmou Charles autoritário. — Isso passa.
Carrie estava preocupada. Embora quisesse ficar, não queria ser motivo de
discórdia entre pai e filho. E, pelo visto, era isso o que estava acontecendo.
Charles e ela sentaram-se à mesa a começaram a jantar.
— Vou guardar a comida de Damon no forno — disse Charles. — Quando
estiver de bom humor, ele aparecerá por aqui para matar a fome.
— Ele não se alimenta regularmente? — perguntou Carrie, temendo que
fosse por sua causa.
— Ele não tem hora para comer — respondeu o pai. — Mas nunca fica sem se
alimentar.
Quando Carrie foi dormir, às dez e meia, Damon ainda não havia voltado para
casa. Sentiu-se culpada. Por sua causa ele havia saído tão irritado. Talvez
fosse melhor procurá-lo, ou fazer uns sanduíches. O jantar, guardado no
forno, já não estaria tão apetitoso. Mas, com medo da recusa que certamente
Julia Florzinha nº 98

ouviria, desistiu da ideia. Damon era adulto e sabia cuidar de si. Se quisesse
passar fome, problema dele.
Na manhã seguinte, logo depois do café, Charles propôs que começassem a
trabalhar com o livro. Entrando no escritório, Carrie percebeu que ele havia
tentado ajeitar as coisas. A escrivaninha onde ficava a máquina de escrever
estava limpa e desocupada. Os livros continuavam no chão e as estantes
precisavam ser organizadas. A poltrona não estava mais lá; em seu lugar
apareceu uma outra escrivaninha. Ele apontou para a escrivaninha que ficava
perto da janela.
— Sente-se ali. Tentei esvaziar um pouco a sala. — Pegou um pacote de
papéis. — Estas são minhas primeiras anotações. Se quiser começar com
elas... Acho que se você datilografar esses rascunhos, será mais fácil colocar
depois tudo em ordem cronológica.
A máquina de escrever era moderna e estava em perfeitas condições, para
satisfação de Carrie.
— Você escreve à máquina? — perguntou a Charles. Todas as
anotações eram manuscritas, numa caligrafia rebuscada.
Ele sacudiu a cabeça, dizendo que não.
— Damon a usa de vez em quando, mas a máquina foi comprada
especialmente para quando eu tivesse uma secretária.
— Entendo — concordou Carrie, satisfeita, tentando visualizar Damon
sentado numa máquina de escrever. Mas era muito difícil. Colocou o papel na
máquina e começou a datilografar, sendo logo absorvida pela história da
família que retrocedia a séculos.
O avô de Charles era um dos 0'Donovan que haviam se mudado para a
Irlanda, vindos da Escócia, em 1608. Estabeleceram-se no condado de Antrim,
mas mudaram-se para o sul, anos mais tarde. Hawksmoor foi construída em
1728, projetada por um certo sir Edward Lovett Pearce, um dos mais
importantes arquitetos palacianos da época.
Os O'Donovan não eram uma família numerosa, mas conseguiram ampliar a
propriedade até se tornarem um dos maiores latifundiários da região. Um dos
filhos emigrou para a América, onde se estabeleceu e se casou; mas,
insatisfeito com a América, voltou para a Inglaterra, onde se fixou. A mãe de
Charles nascera pouco antes do início do século.
O último 0'Donovan, na Irlanda, havia falecido uns dez anos atrás; mas muito
tempo se passou até que identificassem Charles Courtney e seu filho como os
únicos parentes vivos.
— Temos retratos de nossos antepassados, mas estão todos guardados.
Quando a reforma terminar, eles serão pendurados — disse Charles, quando
ela indagou sobre a árvore genealógica da família. — Eu os mostrarei um dia.
Todos têm alguns traços semelhantes, característicos da família.
A letra de Charles era complicada e Carrie ficou satisfeita em ter um
descanso, na hora do almoço.
— Damon vai almoçar conosco? — perguntou ela enquanto cortava o pão,
Charles havia preferido fazer uma refeição fria, com queijo, pão e picles.
— Só Deus sabe — respondeu ele, cheio de tristeza, provavelmente magoado
com a discussão.
— Acho que vou procurá-lo — disse ela, quando o almoço foi servido e
Damon não deu sinal de vida.
Charles encolheu os ombros.
— Em seu lugar, eu não me preocuparia com meu filho. Mas, se é isso que
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quer, vá em frente. Ele deve estar no estábulo.


Carrie não estava preocupada por Damon deixar de almoçar. Ele havia
tomado o café logo cedo. Ainda havia restos sobre a mesa quando ela se
levantou. O que não lhe agradava era aquela teimosia. Charles estava
magoado com a atitude do filho; por isso ela queria conversar com Damon.
Tentou ensaiar algumas frases, mas esqueceu-as por completo quando abriu
a porta e se deparou com aquele rosto indagador voltado para ela. Ele não
puxou conversa, mas ela, meio hesitante, decidiu que teria que insistir.
Fechou a porta e caminhou até ele.
__ Que quer aqui? — perguntou ele secamente. — Não acredito que
meu pai tenha lhe dado folga!
— Está na hora do almoço — disse ela, tentando ignorar a grosseria.
— Não estou com fome — replicou ele. — Se é por isso que veio, perdeu seu
tempo.
__ Não, não foi por isso. — Ela viu o bezerro, recém-nascido,
tentando se pôr de pé. Ignorando a hostilidade de Damon, ajoelhou-se. — Não
é uma belezinha? Nunca tinha visto um bezerro recém-nascido... Ele é
encantador!
O animal a olhou com olhos grandes e melancólicos. Carrie o abraçou,
esquecendo-se por instantes de Damon e da razão que a trouxera até ali.
Foi Damon quem interrompeu essa mostra de carinho.
— Então por que veio? Não tenho tempo a perder. Um bezerro não é
novidade; temos dúzias deles todos os anos.
Carrie afastou-se do animalzinho trémulo e se pôs de pé. Estava irritada com
a insensibilidade de Damon.
— Por causa de seu pai — disse ela bruscamente.
— Ele está doente? — perguntou Damon, ansioso.
__ Não, não — respondeu ela. — Mas acho que você não está sendo
muito justo com ele. Sei que é por minha causa e esteja à vontade para me
dizer o que quiser... não me importo. Mas não gosto de ver Charles tão
abatido.
— Ele disse alguma coisa? — indagou Damon, desconfiado,
erguendo-se num pulo.
Carrie sentia-se mais à vontade enquanto ele esteve sentado. Tinha mais
controle da situação. Agora estava em desvantagem, tendo que olhar para
cima para falar com ele. Mas manteve-se firme e continuou.
— Ele não disse nada. Você sabe como ele é. Mas sei que está magoado.
Evita falar em você e, quando fala, seu rosto se enche de tristeza.
Damon encolheu os ombros como se não se importasse.
— Ele é um velho tolo e teimoso; logo se acostuma.
— Se acostuma com o quê? — perguntou Carrie impaciente. — Se você não
tenta esquecer a discussão... Tudo bem, seu pai ganhou, mas por que voltar-
se contra ele? Qual é o problema? Você não gosta de perder? Custa muito
admitir que seu pai é quem decide as coisas por aqui? Ele não é tão velho,
você não acha?
Cheio de desprezo, Damon ironizou:
— Ainda serve para ser um bom parceiro, é isso que quer dizer? Carrie
recuou, chocada.
— Como ousa? — gritou ela, empalidecendo.
— Como ousa o quê? — perguntou ele calmamente. — Dizer a verdade? Ou,
mais corretamente, o que fatalmente vai acontecer? Você se esquece de que
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eu o conheço melhor que você.


A insinuação encheu-lhe os olhos de lágrimas. Foi inútil tentar contê-las: elas
rolaram, quentes e doloridas. Charles nunca faria tal coisa. Ele era gentil,
honrado e a considerava como filha.
— Talvez você deva conversar com seu pai — sugeriu ela. — Pergunte-
lhe o que ele sente por mim. Você vai ficar surpreso.
— Ah, ele não me diria. Acho que ele nem sabe direito ainda. Ele só vê o lado
bom das pessoas... esse é o problema. Meu pai é muito ingénuo.
— Talvez você devesse seguir o exemplo dele — disse ela. — Pelo menos ele
confia em mim. Não sei como você pode julgar uma pessoa comparando-a
com outra.
— Você está se defendendo? — ironizou ele, com um olhar insolente. — Está
tentando me convencer de que não é igual à sua mãe? — Ele se aproximou.
— Comigo isso não funciona e você sabe muito bem.
Ele a puxou pelo queixo, obrigando-a a encará-lo e disse cm tom ameaçador:
— Posso possuí-la quando eu bem entender e você sabe disso. A única
diferença entre Zelah e você é que ela se oferecia.
— Seu mentiroso! — Em vão Carrie tentava se soltar. — Você está
inventando essas coisas. Não acredito! — Mas no fundo havia uma dúvida.
Talvez ele estivesse dizendo a verdade. Mas pensar que ela fosse igual a
Zelah! Era absurdo! Era por causa daquele beijo que ele a acusava. Antes
tivesse reagido. Por que não havia lutado, em vez de deixar que ele a
beijasse? Mas ela sabia a resposta: tinha sido uma experiência nova e
agradável, não podia negar. Mas isso não significava que ela fosse capaz de
se oferecer a qualquer homem que encontrasse. Com o olhar cheio de ódio,
ela esmurrou o peito de Damon, que não esboçou a menor reação.
Ele riu e a segurou pelos pulsos. Com a outra mão, afastou uma mecha de
cabelo que caía pelo rosto de Carrie.
Ela se contraiu quando ele deslizou os dedos por seu rosto.
Damon a olhava com sarcasmo, como se a desafiasse a afirmar que não
reagia àquele contato. Na penumbra do estábulo, os olhos dele pareciam mais
escuros e seu rosto tinha uma expressão mais branda. Ou ela estaria vendo
coisas? Talvez o pulso acelerado e a respiração ofegante tivessem alterado
seus sentidos... Era esse o Damon que ela queria? Um homem menos cruel,
que a desejava?
— Não! — gritou ela, sacudindo a cabeça. Não era assim que ela o queria. Ele
era odioso, detestável; ela precisava se soltar.
— Não, o quê? — perguntou ele em tom ameaçador. — Você não quer que eu
a toque ou não quer admitir que eu lhe provoco desejo? — Ele pousou a
mão no ombro de Carrie; seu polegar acariciava-lhe suavemente a nuca.
Carrie protestou, num grito abafado.
— Seu porco, solte-me!
Em resposta, ele riu e apertou os dedos em torno dos pulsos dela. Puxou-a
para perto de si, fazendo com que seus corpos se encontrassem. Ela sentia a
força de Damon, seus músculos rígidos e poderosos. De que adiantava lutar?
Que queria ele afinal? Outra vitória? Estaria querendo provar mais uma vez
que ela era exatamente o que ele pensava?
Mesmo hesitando, o corpo de Carrie a traía. O simples contato com as coxas
daquele homem era suficiente para despertar um calor, uma agitação que
punha em risco todo o seu autocontrole.
Ela fechou os olhos. Precisava apagar de sua mente aquela imagem, aquele
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homem que ameaçava sua paz de espírito.


Quando ele deslizou os dedos ávidos pelo decote da blusa, procurando seus
seios, Carrie indignou-se. Abaixando a cabeça, cravou os dentes no pulso de
Damon, mordendo-o com força. Só o soltou quando percebeu que ele se
contorcia de dor.
— Sua cadelinha! — gritou ele. — Você me paga!
Empurrou-a com força, fazendo-a deitar-se na palha que forrava o chão. O
bezerro se assustou a aconchegou-se perto da mãe, que mugia, como se
protestasse contra aquela confusão em seu estábulo. Como um selvagem, ele
se atirou sobre ela, prendendo-lhe os braços e beijando-a com força.
Carrie sabia que, se relaxasse, acabaria cedendo... Teria que lutar contra seu
próprio corpo e contra Damon! Usando toda a sua força, ela sacudiu a cabeça,
tentando fugir daqueles beijos. Ele teve que soltar os pulsos de Carrie, para
poder segurar-lhe o rosto.
Ela sentia que Damon estava possuído pelo desejo. Tentou reagir, mas sua
respiração tornou-se ofegante; seus músculos se relaxavam, enfraquecidos
pela emoção que a dominava. O contato com o corpo de Damon lhe
agradava; era como se os dois se fundissem numa só pessoa. Se não se
controlasse, acabaria envolvendo-o num abraço, acariciando aqueles cabelos
negros.
Ele tentava excitá-la: sua boca se comprimia contra a dela, em movimentos
suaves e sensuais. Um profundo entorpecimento percorria seu corpo e ela mal
conseguia manter-se indiferente. Tentava fingir que as carícias de Damon não
a excitavam. Na verdade, queria parar de resistir, queria se entregar ao
prazer daquele contato.
Os beijos de Damon eram diferentes de tudo o que ela havia experimentado:
eram intensos, apaixonados, experientes, tentando arrancar, a todo custo,
uma reação. Ela tinha que contrair o corpo, lutar com tenacidade para não
ceder. Mas estava inundada de desejo. Damon Courtney podia ter mil
defeitos, mas era um parceiro perfeito. Sabia ser carinhoso como ninguém!
Carrie não entendia como, já que ele odiava tanto as mulheres!
Uma profunda fraqueza dominava-lhe os músculos, pondo em risco toda a sua
resistência. Ela precisou de muita força de vontade para não corresponder.
Quando ele se afastou, pondo-se logo de pé, ela não conseguia se mover.
Sentia-se esgotada, sem forças para se levantar.
Carrie sabia que ele a observava, mas não conseguia vê-lo direito. Seus olhos
estavam embaçados de lágrimas. Sentia-se envergonhada por saber que
havia se excitado com Damon a ponto de quase se entregar. Seu único
consolo era o fato de ter resistido. Mas isso não a tranquilizava: ele a havia
humilhado. Carrie chegou mesmo a pensar que talvez tivesse puxado um
pouco a sua mãe.
Talvez tivesse; mas nunca havia experimentado aquelas sensações antes,
nem com John, nem com ninguém. Era Damon quem despertava aquelas
emoções até então ignoradas. A habilidade dele havia provocado um desejo
físico que ela desconhecia. Algo agradável, mas assustador. Sentia-se
constrangida em pensar que poderia ter se entregado a um homem tão
desprezível. Felizmente, havia resistido... A humilhação seria insuportável, se
tivesse cedido.
— Vai ficar deitada aí o dia inteiro? — perguntou ele, afinal. — Está querendo
mais ou meus beijos a enfraqueceram?
A pergunta tinha um fundo de verdade e provocou o efeito desejado. Carrie
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levantou-se rapidamente. Seu rosto estava vermelho e seus olhos brilhavam


intensamente.
— Espero que esteja satisfeito — disse ela. — Pena que não conseguiu o que
queria.
— Mas consegui descobrir muitas coisas — disse ele, sorrindo. — Descobri,
por exemplo, que você não é tão indiferente como tentou demonstrar. Com
um pouco mais de insistência você teria sido minha.
— Nem em mil anos! — retrucou ela. — Moça nenhuma, em sã consciência,
se deixaria possuir por um animal como você. — Ela ajeitou a saia. — Vou
voltar para a casa. Seu pai deve estar preocupado.
— Que vai lhe dizer? — perguntou ele. — A verdade? Que o filho dele tentou
violá-la no estábulo? Ou vai inventar uma mentirinha qualquer para não
magoá-lo?
— Seria bem feito para você, se eu contasse a verdade — replicou ela. — Mas
acho que não vou fazer isso. Vou poupá-lo dessa humilhação.
— Eu não me importaria — disse ele, observando-a atentamente. — Você
está querendo salvar as aparências. Acho bom tirar essa palha que está em
seu cabelo. Seria difícil explicar como ela foi parar aí.
Ignorando o sarcasmo, Carrie tirou a palha, correndo os dedos pelo cabelo.
— Ainda ficou uma — disse ele. — Quer que eu tire? — E deu um passo em
sua direção como se fosse tocá-la, mas Carrie se afastou.
— Eu mesma tiro — disse ela, agressiva. A proximidade dele poderia ser
fatal. Apesar de tudo, ela ainda se sentia atraída por ele e a mera recordação
das sensações experimentadas momentos antes fazia com que seu coração
disparasse mais uma vez.
— Não ponha mais as mãos em mim... nunca mais — disse ela e saiu do
estábulo, correndo em direção a casa.

CAPÍTULO VII

Charles olhou-a de modo estranho, mas não disse nada. Depois do almoço,
passaram a tarde inteira no escritório. Carne se envolveu tanto com o
trabalho que não queria parar quando Charles resolveu encerrar o dia.
— Vou preparar o jantar — disse ele. — Vá passear e tomar um pouco de ar
fresco.
— Preferia ajudá-lo — pediu ela. Sabia que se sentiria culpada, se o deixasse
trabalhando sozinho. Além disso, os dois haviam trabalhado bastante no
escritório.
Mas Charles insistiu e Carrie acabou saindo um pouco. Preferiu não se
aproximar do estábulo, pois Damon deveria estar por perto. Caminhou até um
lago, cujas águas calmas brilhavam, refletindo os últimos raios de sol. O
caminho escolhido passava por campos e por um bosque de carvalhos, que se
abria de repente para abrigar o lago. Sua superfície parecia um imenso
espelho onde os castanheiros e pinheiros se refletiam, tendo como fundo o
azul do céu. Um pássaro sobrevoava o lago e parecia vigiá-la.
Seria um falcão? perguntou-se, lembrando dos 0'Donovan que haviam dado
esse nome ao vale. Damon, de certa forma, parecia um falcão: cheio de
orgulho e com aquele nariz ligeiramente aquilino; e a presa era ela, embora
ele ainda não a tivesse agarrado. A princípio, ele havia tentado levá-la de
volta, mas não havia conseguido. O que ele tentaria fazer agora?
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Talvez tentasse atormentá-la tanto, tornar sua vida tão insuportável, que ela
se veria obrigada a voltar para a Inglaterra. Devia ser essa a razão daquela
cena de amor no estábulo. Talvez, de agora em diante, ele tentasse possuí-la
todas as vezes que se vissem a sós. Provavelmente seria esse o seu novo
método de ataque: assim, se ela cedesse, ele confirmaria suas suposições;
caso contrário, insistiria até que ela, cansada e humilhada, resolvesse partir...
Mas ela decidiu que não cederia um milímetro. Tentaria controlar suas
emoções e não permitiria que ele se aproximasse muito.
Quando ela voltava para casa, Damon chegou, como se tivesse pressentido os
planos de Carrie e viesse pô-los à prova. A princípio ela pensou em enganá-lo,
fingindo que não o havia visto. Mas logo entendeu que isso não daria certo.
Damon era muito perspicaz e tiraria outras conclusões de seu gesto; deveria
sentir-se vitorioso, certo de que conseguia perturbá-la. Assim, esboçando um
sorriso, caminhou decidida até ele.
— Você me surpreende — disse ele. — Por que não está preparando o jantar?
— Não sabia que isso fazia parte do meu trabalho. Pelo que sei, sou paga
para ajudar seu pai a escrever o livro. — Não adiantava dizer-lhe que Charles
havia recusado sua ajuda; ele não acreditaria.
— Então você deixa meu pai trabalhar em dobro, enquanto você descansa
e passeia pelo vale? Zelah também era assim, sabia? Achava que o trabalho
doméstico era indigno, humilhante. Queria ser uma dama... Coitada! Isso ela
não seria nem em um milhão de anos.
Mais uma vez Damon falava mal de Zelah; isso magoava Carrie.
— Não acho que você esteja sendo justo. Tenho certeza de que Zelah não era
tão má. Ela deve ter algo de bom, senão Charles não a amaria.
— Meu pai está velho, tenho que perdoá-lo; mas a você, não. Não gosto de
vê-lo explorado.
— Quem o está explorando? — perguntou Carrie, fingindo
ingenuidade.
— Ele a contratou por ter um coração mole — retrucou ele. — Você podia ao
menos ajudá-lo com o trabalho doméstico.
— Por que você não o ajuda?
— Passo o dia todo ocupado com a propriedade e você sabe disso. Se meu
pai vai trabalhar oito horas por dia naquele livro, não quero que acabe
cuidando da casa sozinho, entendido?
— Perfeitamente — respondeu Carrie em tom educado e frio. — Mas se tenho
de preparar as refeições, espero que você chegue na hora. Não gosto de
desperdiçar comida.
— Está tentando me dar ordens? — perguntou ele, com um brilho estranho
nos olhos.
Carrie prosseguiu, sem dar atenção ao seu tom ameaçador.
— Entenda como quiser. Acho que devemos nos alimentar em horas certas.
Seu pai não se cuida muito; se comermos todos juntos, será melhor para ele.
Felizmente essa referência a Charles abrandou a irritação de Damon.
— Talvez você tenha razão. Tentarei ser pontual. Mas às vezes não posso me
afastar do trabalho. Espero que compreenda.
— Agradeço — respondeu ela, cheia de dignidade. — Agora, se me der
licença, vou ver se Charles precisa de ajuda.
Damon deveria estar se sentindo vitorioso, afinal pensava que ele tivesse
influenciado essa mudança de comportamento. Carrie tentou não dar
importância ao que ele pudesse estar pensando. Só não gostava de ser
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sempre comparada com sua mãe.


Pedia a Deus que não se parecessem muito. Senão, seria difícil que um dia
Damon viesse a gostar dela, ou melhor, amá-la, como ela o amava! Pela
primeira vez, Carrie admitiu essa verdade, esquecendo-se de John. Enquanto
caminhava de volta a casa, ouvia os passos de Damon sobre as folhas. Não
havia dúvida: ela o amava. Mas, provavelmente, ele nunca sentiria o mesmo
por ela.
Carrie parou até que ele a alcançasse.
— Vai para casa também? Ele concordou:
— Já terminei por hoje. Quero jogar uma partida de xadrez com meu pai. Faz
tempo que não jogamos.
Ela entendeu perfeitamente aquela mudança de atitude. Queria ocupar as
noites do pai, não o deixando sozinho com ela. Tentava assim destruir o
relacionamento dos dois; mal sabia ele que não havia nada de mais naquela
amizade. Eles se amavam como pai e filha.
— Nunca joguei xadrez — disse Carrie, esperando que ele se
propusesse a ensiná-la.
— É uma pena — respondeu ele. — Mas tenho certeza de que encontrará
um passatempo. Talvez possa trabalhar mais um pouco com o livro; quanto
mais cedo terminar, melhor. Assim irá embora logo.
— E isso o que você quer, não é? Mas, pelo visto, vai levar muito tempo. As
anotações estão dispersas. Precisam ser selecionadas e analisadas, e
então redigidas e datilografadas. Não é trabalho para uma ou duas semanas;
vai levar meses, talvez um ano.
— Não acredito — replicou Damon, com um ar desconfiado. — Meu pai
trabalha com isso há anos. Tem certeza de que não está atrasando o serviço
para ficar por aqui? Acho melhor desistir dessa ideia.
Carrie olhou para ele com o canto dos olhos.
— Por que não? Seria bom para você. Eu cuidaria da casa e você ficaria livre
para tratar de outras coisas, não acha?
— Não, prefiro dar conta de tudo sozinho. — Não disse mais nada, mas a
seriedade de seu rosto denunciava sua preocupação. Não estava satisfeito
com o rumo que a situação estava tomando.
Entraram pelo fundo da casa. Carrie cantarolava baixinho. Charles estava na
cozinha e sorriu, afetuoso.
— Gostou da caminhada, querida? Você voltou mais cedo do que eu
esperava.
— Ela veio ajudar — disse Damon, entrando na cozinha. — Não acho justo ela
descansar enquanto você trabalha sozinho.
— A ideia foi minha — explicou Charles calmamente. — Ela quis me ajudar,
mas não deixei. Mas não faz mal, Carrie, já que está aqui, você poderia
preparar o creme. O seu sai bem melhor que o meu.
Carrie sorriu e pegou o leite na geladeira. Sabia que Damon estava
observando, confuso com a situação, mas não lhe deu atenção.
Depois do jantar, os dois foram jogar xadrez na sala de estar e ela ficou
lavando a louça. De certa forma, estava satisfeita por Damon ter se
reaproximado do pai, embora os motivos não fossem apreciáveis.
Charles, contudo, não percebeu as intenções do filho. Sabia que Damon era
contra a permanência de Carrie, mas não avaliava até que ponto ia essa
aversão. Provavelmente, ele ficaria irritado se soubesse. Diria a Damon que
sua atitude não se justificava; o fato de ela ser filha de Zelah não bastava.
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Charles e Damon eram muito parecidos, mas apenas fisicamente. No resto,


eles eram completamente diferentes. Por que então Damon não poderia
admitir que Carrie fosse diferente da mãe? Seria tão bom se ele entendesse
isso. Ela não havia feito nada que desse motivo para aquela descrença. A não
ser por aqueles incidentes, quando se conheceram. Mas ela já os havia
esquecido; foram acontecimentos banais, nada que lhe permitisse fazer as
acusações que fazia.
Carrie estava trémula quando terminou de arrumar a cozinha. A amizade de
Damon era importante para ela, mesmo sabendo que um envolvimento seria
perigoso.
Além disso, havia John. Sentia-se culpada quando se dava conta de que
praticamente o havia esquecido. Damon ocupava todos os seus pensamentos.
E isso era surpreendente, já que ele a tratava tão mal! Mas o amor é assim
mesmo, pensou ela, surge nos momentos mais inesperados e nas situações
mais estranhas.
Percebia agora que o que sentia por John não era amor. Ela gostava muito
dele, como amigo, mas não passava disso. Os beijos de John não tinham
aquele calor, não lhe despertavam o desejo que uma simples carícia de
Damon despertava. De fato, bastava que Damon a encarasse para que seu
coração batesse descompassado. Só de pensar nele, naquele momento, ela já
se excitava e, sem perceber, tocava os lábios que algumas horas atrás tinham
sido beijados por ele.
Mas a atração não se limitava ao físico; havia outras qualidades em Damon
que lhe agradavam: ele era leal, daria um excelente companheiro, além de
ser um amante de primeira.
Eram qualidades irresistíveis. Seria difícil convencê-lo de que ela não era a
mulher que ele imaginava; mas valia a pena tentar. Dependeria dela
demonstrar sua inocência. Não deveria dizer ou fazer nada que o fizesse
acreditar que não fosse pura... e isso ela era; só que Damon não estava
preparado para admitir isso.
Quando terminou de arrumar a cozinha, foi para junto deles na sala de estar.
Sentou-se numa poltrona de brocado dourado, de onde podia acompanhar o
jogo sem incomodá-los. Mas seus olhos se dirigiam para Damon, esquecendo
as peças de xadrez. Ele estava concentrado, alheio à presença dela. Embora
não entendesse as regras, ela percebeu que os dois eram bons jogadores.
De perfil, era mais fácil constatar a semelhança entre pai e filho. Ambos
tinham o mesmo nariz ligeiramente aquilino e a testa larga. Mesmo os lábios
tinham os mesmos contornos e o ar compenetrado lhes acentuava os traços
rígidos. Carrie amava os dois, mas por razões diferentes.
— Empatamos — anunciou Charles afinal, quebrando o profundo
silêncio que pairava na sala. Damon riu.
— Outra partida? Aposto que desta vez eu ganho! Mas Charles sacudiu a
cabeça.
— Precisamos entreter nossa hóspede. Ela está muito abandonada. Sabe
jogar, Carrie?
Ela balançou a cabeça, dizendo que não. Talvez Damon queira ensiná-la —
disse ele.
— Acho que eu não gostaria — disse ela, antes que Damon se recusasse.
— Prefiro jogos mais movimentados. Gosto de ténis.
— Vai ser difícil você jogar ténis aqui — disse Damon. — Se é o que gosta,
não será nesta parte da Irlanda que poderá praticar.
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— Não foi isso que eu quis dizer — protestou Carrie. — Só disse que gosto de
ténis; há algum mal nisso?
Charles interveio, antes que começassem a discutir.
— Acho que Damon não a entendeu bem. Quer um drinque? Aceita uísque
irlandês ou acha muito forte?
— Nunca experimentei — disse ela. — Aceito um pouquinho, com água, por
favor.
Damon recolheu o tabuleiro e as peças do xadrez, enquanto Charles servia a
bebida. Quando se sentaram, o velho disse:
— É muito bom estarmos os três juntos assim. Há muito tempo não temos
companhia tão encantadora, não acha, Damon?
Damon fitou-a longamente, antes de responder.
— Você tem a sua opinião, pai. Prefiro não fazer comentários.
Carrie ficou vermelha. Ele não precisava ser tão rude na frente de Charles. O
velho contraiu o rosto.
— Pensei que tivesse mudado de ideia. É absurdo! Carrie para se ver sua
inocência. Você está sendo Damon. Por que não admite?
— Será que estou, pai? Que provas você tem?
— Nenhuma; apenas minha intuição. — Charles olhou para ela,
Basta olhar para injusto com ela,
percebendo sua angústia. — Olhe o que está fazendo... veja como está aflita!
Que vergonha, Damon!
— Sinto muito — disse ele com a voz cheia de falsidade. — Queira me
perdoar.
isso tranquilizou o pai, mas ela sabia que não eram desculpas sinceras. Ficou
imaginando o que teria que fazer para provar que não era como ele pensava.
Levaria muito tempo; talvez nem conseguisse convencê-lo durante sua
permanência naquela casa. Teria que tentar, de qualquer modo e, para
começar, deveria fazê-lo entender que sua agressividade não a atingia.
Assim, fingindo aceitar suas desculpas, disse:
— Não faz mal, Damon. Você tem o direito de pensar o que quiser. Espero
que mude de opinião antes que eu volte para casa.
— Por quê, você se preocupa com minha opinião?
— E por que deveria? Trabalho para seu pai, não para você. Pouco me
importa a sua opinião. — Ela não pretendia dizer aquilo, mas a atitude de
Damon desvirtuou suas intenções. Ele se considerava tão superior, tão
perfeito, mas na verdade suas falhas eram tão graves quanto as que atribuía
a ela. Era um erro ele pensar daquela forma, sem ter motivos concretos e isso
a magoava tanto que chegou a pensar de novo em desistir de tudo e voltar
para casa. Mas não faria isso, é claro. Fugir não resolveria o problema.
— É bom saber disso — disse ele. — Mesmo porque não faz a mínima
diferença. Quando crio uma imagem de uma pessoa, raramente mudo; a não
ser que tenha provas em contrário e, nesse caso, peço desculpas.
— Talvez acabe fazendo isso muito mais cedo do que pensa — disse Charles.
— Não costumo discordar de você, filho, mas neste caso estou totalmente a
favor de Carrie.
— Obrigada, Charles — disse ela, sorrindo afetuosamente. — Você é um
amor.
— E eu, sou um monstro? — perguntou Damon, irritado com aquela mostra
de carinho.
— Você está agindo como se fosse um — disse Charles. — Nunca o vi assim;
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não sei o que está acontecendo.


— Você sabe, porém se recusa a aceitar. Mas, mesmo discordando, consigo
compreender seus motivos. Por favor, não se preocupe por minha causa.
— É Carrie quem me preocupa — disse Charles, fitando-a cheio de ternura. —
Ela não merece tanta grosseria. Por que não a aceita? Pelo menos não a
maltrate. Não quero que leve más recordações de nossa casa.
Para surpresa de Carrie, Damon concordou.
— Está bem, pai. Se é isso o que quer.
Charles não disse mais nada; ficou satisfeito. Mas Carrie duvidava que Damon
fosse manter a palavra.
Nos dias seguintes, percebeu que ele se esforçava. Chegava pontualmente
para as refeições e, quando se reuniam à noite, não se mostrava mais
agressivo, tratando-a quase como uma irmã.
Não era exatamente isso o que Carne desejava, mas era melhor que ter de
discutir com ele a toda hora. Damon chegou a se oferecer para ensiná-la a
jogar xadrez, mas depois de algumas partidas, ela desistiu. O jogo era muito
lento e exigia muita concentração.
Às vezes caminhavam pelo vale e, nessas ocasiões, Carrie percebia quanto
ele a dominava. Sentia-se terrivelmente atraída por Damon e a imagem de
John ia desaparecendo de seu cérebro, enquanto a dele tomava seu lugar. E
já não se sentia mais culpada: parecia-lhe natural.
Desde que Damon a havia beijado no estábulo, ele não havia mais tentado se
aproximar. Não ousava sequer segurar-lhe a mão durante as longas
caminhadas que faziam, embora, às vezes, ela o surpreendesse fitando-a com
um olhar incompreensível.
Numa dessas caminhadas, ela ousou tocar no assunto. Estavam à beira do
lago e a calma do crepúsculo os envolvia, como se tivesse poderes mágicos.
Carrie então perguntou:
— Damon, você... ainda tem a mesma opinião a meu respeito?
Ele se encostou ao tronco de uma árvore. As sombras praticamente o
encobriram.
— Há algum motivo para que eu tenha mudado? — perguntou ele.
— Estes últimos dias — insistiu ela — não significaram nada? Não bastam
para provar que nãò sou o que você pensa? — Ela se aproximou dele,
sentindo o coração acelerar.
Ele a encarou. Seus olhos penetrantes, indagadores a fizeram estremecer.
— Você se portou exatamente como eu esperava: como se quisesse provar
que não é o que é.
— Mas você está enganado — disse Carrie, desesperada. — Na verdade,
essa sou eu. Não sou o que você pensa, juro que não.
— É que ainda não teve oportunidade de se revelar. Trancada aqui comigo e
meu pai, você não tem a quem se exibir.
— Às vezes chego a odiá-lo. Você diz coisas tão absurdas! Se alguém aqui
está representando, é você. Tem sido gentil e agradável, mas é tudo uma
farsa. Nada mudou. Você pensa exatamente como no primeiro dia em que nos
encontramos.
Ela havia cruzado os braços e virado o rosto.
— Pensei que soubesse — disse ele ironicamente. — Estou fazendo isso por
meu pai, não por você.
— E eu pensei que as coisas estavam melhorando.
— Pobre Carrie! Isso a perturba? Será que pessoas como você se preocupam
Julia Florzinha nº 98

com alguma coisa? Acho que, no fundo, está irritada por ver que não me sinto
atraído por você...
Carrie teve vontade de chorar. Tudo não passava de uma farsa. Que inocência
a sua acreditar que Damon estava mudando! Ela devia ter desconfiado. Ele
havia dito ao pai que seria gentil apenas para agradá-lo. Mas, de alguma
forma, na sua ingenuidade, ela havia pensado que talvez não fosse apenas
por obrigação. Quanta estupidez a sua!
— Não adianta dizer nada — admitiu ela. — Você não acredita em mim. Foi
tolice minha pensar que você havia mudado de opinião. Esqueça o que eu
disse.
Ela virou o rosto, decidida a não deixar que ele visse as lágrimas que lhe
corriam pelo rosto. Mas ele a segurou pelos ombros.
— Espere, deve haver uma razão para sua pergunta e quero saber. Porque eu
o amo, pensou ela, mas não teve coragem de dizer. Seria
ridículo! Ele a desprezava e jamais acreditaria.
— Não sou obrigada a dizer — respondeu ela.
— Realmente, não é, mas acho que sei o motivo. Você está aborrecida
porque não lhe dou muita atenção, não é?
Carrie suspirou profundamente, antes de responder.
— Eu nem esperava que me desse mais atenção. Você não faz segredo de
seus sentimentos; sei que me despreza. Esperava apenas que tivesse mudado
de opinião.
— Isso é tão importante para você? Não pensou que eu poderia ser grosseiro
na resposta?
— Já me acostumei com isso; não me importo mais.
— Então, por que está tremendo, se não está com medo?
Essa pergunta não podia ser respondida. Teria de confessar seus sentimentos.
Mas como explicar que, apesar dele detestá-la, suas carícias despeitavam
uma avalanche de emoções,- um desejo de ser abraçada e beijada por ele? A
situação de fato era cómica, mas ela não tinha vontade de rir. Queria chorar,
libertar as lágrimas que tentava conter.
Ele a segurou pelo queixo.
— Carrie... — seu rosto se contraiu quando a viu chorando. — Você tem medo
sim, a não ser que essas lágrimas sejam falsas. Quer que eu sinta piedade? É
uma pena! Desconheço esse sentimento. — Ele a sacudiu com violência. —
Você não me comove, sua vagabunda! Sente-se frustrada, não é? Passou
uma semana inteira comigo e eu não cedi aos seus encantos. Você precisa de
um homem que admire sua beleza, que a envolva? Você terá — disse ele,
segurando-a pela cintura. — É bonita demais para não virar a cabeça de um
homem.
Seus lábios buscaram os dela, apesar de seu protesto. Seu beijo foi selvagem,
como um castigo. Mas despertou nela um desejo incontido. Ela não conseguiu
se controlar. Abraçou-o, comprimindo seu corpo contra o dele.
— É isso que você quer? — perguntou ele, afastando-a um pouco. Seus olhos
cinzentos faiscavam. — Era isso que estava querendo com todo aquele
rodeio? Por que não falou logo, eu não me recusaria! — Ele estava ofegante.
Sua respiração era ruidosa e irregular. Acariciava o corpo de Carrie e a beijava
com fúria.
Ela queria afastar-se daquelas mãos, livrar-se daqueles lábios excitantes, mas
algo mais forte, dentro dela, a impedia. Correspondeu às carícias num
abandono total, entregando-se ao prazer daquele momento.
Julia Florzinha nº 98

CAPÍTULO VIII

Se Damon não tivesse se afastado, Carrie não sabia o que poderia ter
acontecido. Ela havia sido dominada por um profundo desejo de ser possuída
por ele. A experiência foi irresistível, deixando bem claro que ela amava
Damon e tudo o que desejava era ser amada por ele. Pusera de lado todo o
seu orgulho e não se sentia envergonhada por tê-lo abraçado e beijado com
avidez.
Quando Damon a soltou, ela tentou se afastar, mas suas pernas estavam tão
trémulas que acabou caindo no gramado, tomada por uma espécie de
entorpecimento.
— De outra vez não serei tão delicado — disse ele. — Odeio mulheres
desavergonhadas. Como pode negar sua semelhança com Zelah? Você se
entrega a mim exatamente como ela!
Carrie se levantou num pulo, com os olhos brilhando e a dignidade ferida. O
prazer daqueles momentos desapareceu como por encanto, diante daquelas
palavras.
— Não é verdade! Você diz isso só para me agredir.
— Claro que é verdade. Ela não se contentava só com meu pai.
Precisava de um homem mais forte, mais viril, que satisfizesse seu desejo
insaciável.
— Se você se dispunha, não é muito melhor que ela. Mas não admito que
fique me comparando com ela! Não há o que comparar. Ainda não percebeu?
Não pedi que me beijasse. Foi você quem começou; por que joga a culpa em
mim?
— Você poderia ter me impedido — disse ele. — Essa deveria ser a sua
resposta, se não queria que eu a tocasse. Mas não, você me queria... tanto
quanto eu a desejava. — A surpresa de Carrie o fez parar por um instante. —
Sim, eu a desejo; você é atraente demais para eu me controlar.
— Então é essa a razão. Por isso quer que eu vá embora? — concluiu Carrie
rapidamente. — É em si mesmo que não confia.
— Não confunda as coisas. Eu consigo me controlar. Preocupo-me com meu
pai. Você fica trancada com ele no escritório o dia todo. Quem sabe o que
pode acontecer? Ele também é de carne e osso, como eu; nenhum homem,
qualquer que seja sua idade, deixa de apreciar uma mulher bonita.
Carrie teve mais uma vez vontade de esbofeteá-lo.
— Você é desprezível! Não sei por que lhe dou ouvidos. Parece que não sabe
fazer outra coisa que não seja me humilhar e me agredir.
— Sua consciência está incomodando? — ironizou ele. — Você me
surpreende. Pensei que gente como você não tivesse sentimentos.
— Lá vem você outra vez! Você não consegue me ver como uma mulher
comum e decente que até agora levou uma vida comum e decente?
— Jura? Então devo ser um grande descrente, pois não acredito numa só
palavra sua.
Ela levantou a cabeça e disse, cheia de dignidade:
— Tenho pena de você, Damon. Deve ser muito triste ter uma
mentalidade tão fechada quanto a sua.
Ela se afastou e, desta vez, ele não a seguiu.
Carrie foi direto para seu quarto. Felizmente, Charles não estava por perto. A
batalha a havia deixado exausta, física e mentalmente. Atirou-se na cama,
Julia Florzinha nº 98

chorando desesperada.
Por que teve de se apaixonar por alguém tão odioso como Damon? Não havia
comparação entre John e ele.
Só então se lembrou de que precisava escrever para John. Precisava explicar
o que se passava com ela e dizer-lhe que não havia necessidade dele vir até a
Irlanda. Seria uma carta difícil, mas talvez fosse mais fácil escrevê-la naquele
momento. Pelo menos, não correria o risco de confessar seus sentimentos por
Damon.
Pobre John! Levaria um tremendo choque, mas ela não podia continuar a iludi-
lo.
Foi até o escritório e começou a carta. Não conseguia encontrar as palavras.
Já havia tentado diversas vezes, quando a porta se abriu e Damon entrou.
Ele estranhou vê-la sozinha.
— Qual o problema? Pensou que eu estaria aqui com seu pai?
Esperava que eu estivesse chorando no ombro dele, queixando-me de sua
atitude?
— Não me surpreenderia nem um pouco se estivesse. Que está
fazendo, com certeza...
— Estou escrevendo para John, embora não veja por que quer saber.
— Ah, o noivo abandonado! — disse ele com ironia. — Acaso nosso idílio
pesou em sua consciência? Pelo visto, trata-se de uma carta difícil
— deduziu ele, olhando para a cesta de papéis. Antes que ela pudesse
impedi-lo, ele pegou um dos rascunhos.
— Devolva-me! É particular! Você não tem o direito... — Mas ele já havia
alisado o papel e corria os olhos pelas frases reveladoras.
Olhou-a com curiosidade.
— Uma mudança nos seus sentimentos? Por quê?
— Não tem nada a ver com Charles, se é o que está pensando — defendeu-se
ela. — Estive pensando numa série de coisas, é só isso. Não sei por que estou
me justificando. Não é da sua conta.
— Se tem alguma coisa a ver com sua vinda, então é da minha conta, sim. —
Ele dobrou cuidadosamente o papel e devolveu-o. — Tenho que me preocupar
com o que você diz, senão ele pode vir correndo para cá para ver o que está
acontecendo.
— De um jeito ou de outro, ele vem — disse ela. — Seu pai o convidou. Ele
não lhe disse? Estava escrevendo para que John não viesse.
— Não vai adiantar, se é que ele sente alguma coisa por você. Talvez seja
bom que ele venha mesmo; pelo menos vai pô-la nos eixos.
— Não acho que tenha saído da linha — argumentou Carrie.
— Não? — O olhar desdenhoso deixava bem claro o que ele pensava.
— Você me surpreende. Se fosse você, eu pensaria melhor nisso. Mas vou
deixá-la com sua carta. Boa noite, Carrie.
Ela não respondeu. Era inútil.
Após essa interrupção, ficou ainda mais difícil redigir a carta. Acabou
desistindo e foi dormir. Mas não conseguia conciliar o sono; os beijos de
Damon deixaram-na agitada, embora não quisesse admitir. Preocupava-se
com o que poderia acontecer no futuro.
Tinha que se repetir constantemente que estava ali por Charles. Ele precisava
dela e ela, dele. A confiança e a bondade do velho eram um conforto;
compensavam a crueldade do filho. Se não fosse por Charles, ela não estaria
mais naquela casa.
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Nos dias seguintes, Carrie tentou evitar Damon. Passava horas e horas
trabalhando no livro de Charles. Geralmente, à noite, enquanto os dois
jogavam xadrez ou conversavam na sala de estar, ela se trancava no
escritório para adiantar o trabalho.
Diversas vezes Charles tentou tirá-la de lá, mas ela se recusava
veementemente. Damon sequer se preocupava com isso. Já era de se esperar
que agisse assim, mas, apesar de tudo, ela se magoava. Doía-lhe pensar que
ele não lhe dava a menor importância.
Ela havia conseguido escrever a John e aguardava sua resposta. Tentava
imaginar qual seria sua reação. Temia que, como Damon havia dito, ele fosse
a seu encontro. Talvez esperasse a volta dela para resolver a situação...
talvez escrevesse pedindo que ela voltasse para casa; não, ele não era de
fazer isso. Sempre lhe dava a liberdade de decidir. Mas desta vez era
diferente; tudo dependia dele desconfiar ou não de que havia outro homem
envolvido na história. Ela não havia mencionado Damon na carta; dissera
apenas que estava trabalhando para Charles e que havia pensado melhor e
decidido que o casamento não daria certo. Esperava que ele compreendesse.
Quando ela terminasse seu trabalho e voltasse para Walsall, eles discutiriam a
questão.
Com Charles não havia problemas. Davam-se bem e havia laços profundos
entre eles. Ele a considerava uma filha; tratava-a com carinho e dedicação.
Ela o amava e respeitava, embora não se esquecesse de Anne e David, que a
haviam criado com tanto amor. Escrevia-lhes sempre.
Não mencionava Zelah em suas cartas e Anne era discreta demais para
perguntar. Devia estar satisfeita, pensando que Carrie havia desistido de
procurá-la. Na verdade, Carrie já não pensava muito em Zelah.
Alguns dias depois, quando ia tomar o café, Carrie deu pela falta de Charles.
Geralmente, faziam as refeições juntos. Ela estranhou que ele não estivesse
na cozinha, preparando o café da manhã. Talvez estivesse dormindo, pensou,
e começou a preparar a refeição. Mas, vendo que já eram nove e meia e ele
não dava sinal de vida, ela decidiu subir até seu quarto e verificar o que
estaria acontecendo.
Era ela quem arrumava a cama de Charles e ajeitava o quarto. A princípio, ele
havia se recusado, mas logo aceitou a ajuda, satisfeito. Ela bateu levemente à
porta e, não recebendo resposta, entrou. Charles estava se levantando, os
olhos inchados de sono.
— Oh, Carrie, desculpe-me. Acho que dormi demais. Carrie riu, satisfeita por
ver que tudo estava bem.
— Estava preocupada com você. Pensei que estivesse doente, ou algo
parecido.
— Foi só uma dor de cabeça — disse ele. — Acordei muito cedo e tomei uma
aspirina. Devo ter caído no sono outra vez. Não é do meu feitio dormir até
tarde, você sabe.
Ele estava meio pálido e Carrie sugeriu:
— Tem certeza de que está se sentindo bem? Você não está com uma
aparência muito boa. Por que não fica na cama mais um pouco? Vou lhe
trazer o café, já está pronto.
Charles hesitou.
— Talvez fosse bom. Faz tempo que não descanso um pouco, mas...
— Então está resolvido — interrompeu ela. — Volto num instante.
Ela saiu do quarto rapidamente e preparou a bandeja com carinho. Ele havia
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se deitado novamente. Não devia estar se sentindo muito bem, pensou Carrie,
pois raramente ficava na cama até tarde.
Charles comeu os ovos com presunto com apetite e tomou uma xícara de
café. Carrie sentou-se a seu lado e falou sobre o livro:
— Há muito trabalho que posso fazer sozinha — disse ela. — Não tenha
remorsos; fique deitado aí que lhe fará bem.
Ela lavou a louça, foi para o escritório e começou a datilografar. A letra de
Charles era difícil de entender. Meia hora depois, teve dificuldade em decifrar
um trecho das anotações e foi procurá-lo.
— Desculpe incomodá-lo — disse ela, entrando no quarto. — Estou com um
problema.
Como sempre, Charles a recebeu cheio de carinho e disse que logo se
levantaria. O problema foi facilmente resolvido. Carrie saiu do quarto rindo de
sua própria dificuldade em entender o texto.
Damom estava no corredor, com uma expressão carrancuda.
— Que é que está aprontando agora? — perguntou ele. — Que estava
fazendo no quarto de meu pai?
— Vim lhe perguntar uma coisa sobre o livro — disse ela, mostrando os
manuscritos que trazia.
— É uma boa desculpa. Foi tolice minha deixá-la aqui sozinha com ele o dia
inteiro. Faz tempo que esse caso começou?
Carne encarou-o, espantada.
— Que caso? Não vá me dizer que ainda pensa que nós... que Charles e eu
somos... Não, é tão ridículo que nem sei como dizer!
— Não acho — disse ele. — Desconfiei desde o começo, mas preferi esperar
até ter certeza. Não pensei que fosse descarada a ponto de fazer isso debaixo
do meu nariz.
Carrie ergueu a cabeça, confusa com tantas acusações. —- Pergunte a seu
pai; ele lhe contará a verdade.
— Não a verdade; a desculpinha que vocês devem ter inventado. Ele está
enfeitiçado por você e sem coragem de me contar, por saber o que penso.
— Seu pai não está bem — disse ela, tentando se acalmar. — Vai ficar na
cama esta manhã. Se eu não viesse lhe perguntar esta dúvida, não poderia
continuar meu trabalho.
Damon mudou de expressão, por um instante.
— Que tem ele? Por que não mandou me chamar?
— Era apenas uma dor de cabeça; seria desnecessário incomodá-lo.
— Mas era uma excelente desculpa para ficar com ele em seu quarto. Se
pudesse, eu a expulsaria desta casa agora mesmo!
— Então foi uma sorte eu ter sido contratada por Charles e não por, você! —
gritou ela, afastando-se. Caminhou em direção às escadas, mas ele a seguiu.
— Ainda não terminei com você — disse ele, segurando-a pelos ombros. —
Quero sua palavra de que vai parar de importunar meu pai. Ele já tem muitos
problemas com Zelah, não vá piorar as coisas para ele.
Carrie voltou a encará-lo, furiosa.
— Como ousa insinuar tal coisa? Estou dizendo que Charles está doente, por
isso fui procurá-lo em seu quarto. Vá ver você mesmo se não acredita em
mim.
Uma porta se abriu e os dois se voltaram, olhando para o patamar. Charles
estava lá, de roupa trocada, e com um aspecto muito saudável.
— Que houve? Por que estão discutindo?
Julia Florzinha nº 98

Ninguém respondeu. Carrie não esperava que ele se levantasse tão depressa.
Estava satisfeita por ele ter aparecido. Poderia convencer o filho de que era
absurdo imaginar tantas coisas.
— Charles! — Carrie dirigiu-se a ele, estendendo-lhe a mão. — Você não
devia ter-se levantado; mas, já que está aqui, diga a Damon que é ridículo...
Ela se calou. Damon havia desaparecido. Charles segurou-lhe a mão, confuso.
— Carrie, minha filha, que está acontecendo? Que houve com Damon? Ela
balançou a cabeça com tristeza, tentando esquecer o acontecido.
— Não tem importância. Não se preocupe.
E Charles, muito discreto, não fez mais perguntas.
O resto do dia transcorreu normalmente. Carrie pensava já ter esquecido a
cena desagradável com Damon. Mais tarde, porém, quando estava sozinha no
quarto, antes do jantar, as imagens lhe voltaram à mente.
O que lhe desagradava era o olhar de desprezo de Damon. Como ele a
odiava! Suas esperanças estavam irremediavelmente perdidas. Damon nunca
se interessaria por ela, e não fazia segredo de sua opinião. O aparecimento de
Charles foi a última prova que procurava. Ele estava enganado, mas nada no
mundo o faria mudar de ideia.
Carrie tomou banho e vestiu o vestido listrado. Não estava preocupada com
sua aparência; nem percebeu que estava abatida, com profundas olheiras.
Foi uma surpresa encontrar Damon pronto para o jantar. Havia muito tempo
que ele não lhes fazia companhia. Provavelmente havia aparecido para
agradar ao pai. Surpresa maior ainda foi ele convidá-la para um passeio.
— Por quê? — perguntou ela, ignorando o espanto que sua pergunta
provocou em Charles.
— Acho que você sabe o porquê — replicou Damon. — Não preciso explicar
nada.
— Mas eu não sei — intrometeu-se o pai. — Também não sei por que
estavam discutindo hoje de manhã. Alguém poderia me explicar o que está
acontecendo?
— Meu problema é com Carrie — disse Damon. — Tenho umas coisinhas para
discutir com ela, mas em particular.
O velho, porém, não se deixou enganar.
— Se é a meu respeito, tenho o direito de participar da discussão. Damon
encarou o pai, sério.
— De onde tirou essa ideia?
— Juntando os fatos — retrucou Charles. — Não foi tão difícil perceber.
Damon olhou para Carrie.
— Foi você? Foi correndo contar-lhe? Chorou no ombro dele, porque esse
moço mal-educado gritou com você?
Carrie tremeu por dentro. Quanta crueldade! Será que ele não percebia o
quanto a magoava? Disfarçando seus sentimentos, ergueu a cabeça e disse
em tom desafiador:
— Não sou nenhuma criança, Damon. Sei resolver meus problemas. Diga e
pense o que quiser, pois para mim não faz a menor diferença.
— Acho seu comportamento deplorável, Damon. Não consigo
entendê-lo. O que você tem contra essa moça?
— Contra Carrie, nada. Mas contra suas atitudes, tudo. Você me espanta,
pai. Como pode ser tão cego? Se eu não tentasse resolver as coisas, só Deus
sabe em que enrascada você estaria envolvido!
Charles perdeu a paciência e se levantou da mesa.
Julia Florzinha nº 98

— Você está pegando o bonde errado, filho. Amo Carrie, mas como uma filha.
Você não percebe? Não sou tão tolo quanto pensa.
— E Carrie, como o considera? — acusou Damon. — Da mesma forma?
Duvido. Tenho observado vocês dois. Não é uma desculpinha dessas que vai
me enganar. E melhor procurarem outra.
Carrie olhou para Charles, preocupada com sua reação. Mas, para sua
surpresa, ele se retirou da cozinha. Talvez não quisesse explodir com o filho
na frente dela. Conversaria com ele mais tarde. Mesmo sem entendê-lo,
Carrie apoiava Charles e odiava Damon por fazê-lo sofrer.
— Como pôde fazer isso? — perguntou, irritada. — É seu próprio pai, como
pode tratá-lo assim? Ele não significa nada para você? Não vê que o magoou?
— Pensa que eu não sofro com isso?,— replicou ele. — Acha que não me
preocupo? Só Deus sabe como me arrependo de tê-la trazido para cá. Eu
deveria ter imaginado que você só causaria dor de cabeça!
Por um instante Carrie teve pena dele, mas sabia que Damon não merecia.
Era cruel e impiedoso; não tentava compreender as pessoas.
— Quem causa dor de cabeça é você mesmo — disse ela secamente. — Com
essa mania de achar que sou igual a Zelah. Será que não enxerga um palmo
adiante do nariz? Talvez devêssemos nos encontrar, Zelah e eu, então você
veria a diferença.
— Prefiro confiar em meu julgamento — disse ele calmamente.
— Ou em sua memória — replicou ela. — Você teve tempo para deturpar
suas recordações. Só se lembra dos aspectos negativos de Zelah. Tenho
certeza de que ela deve ter algo de bom, senão Charles nunca teria se casado
com ela. Damon riu.
— Ela chegava a ser encantadora, quando queria. Não digo que não. O que
não aceito é essa sua capacidade de devorar os homens!
— Não me lembro de ter feito isso — retrucou Carrie.
— Talvez não perceba, mas deve ter feito. Gente como você age
inconscientemente. É um instinto, está no sangue.
Tentando não chorar, Carrie respondeu:
— Alguma vez tentei conquistá-lo? Se é verdade o que diz, eu já deveria ter
tentado. Você é jovem, atraente e rico. É o alvo perfeito para uma mulher que
esteja à caça de um parceiro.
Seus olhos se encontraram por alguns instantes com os de Damon. Carrie
logo desviou-os, sentindo o coração acelerar.
— Se eu tivesse dado uma oportunidade, certamente você estaria me
assediando, como faz com meu pai.
Ignorando o final da frase, Carrie retrucou, furiosa:
— Pensa que eu me sentiria atraída por você? Quanta presunção! Você é o
homem mais insolente, desprezível e irritante que já vi.
Ele a olhou demoradamente.
— Está querendo dizer que conseguiria resistir aos meus carinhos? Ora, tente
de novo, Carrie. Eu a conheço mais do que pensa.
— Você pensa que me conhece, mas não sabe do que sou capaz.
— Devo acreditar, então, que meus beijos não a afetam? Nesse caso, gostaria
de vê-la excitada por alguém. Talvez eu deva tentar. Imagino o que
aconteceria se eu tentasse vencer-lhe a resistência. Será que você é tão
insensível aos meus carinhos como quer parecer?
A conversa estava se tornando desagradável. Carrie levantou-se da mesa
sem tocar na comida.
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— Onde pensa que vai? — perguntou ele bruscamente. -----É da sua conta?
— Acho que sim. A conversa não lhe agradou. Talvez queira
desabafar com meu pai, — Ele se levantou e impediu que ela saísse da
cozinha. — O convite ainda está de pé. Podemos sair agora. Não precisa levar
agasalho, a noite está quente. Caso sinta frio, meu carro tem um excelente
aquecedor.
Ele a pegou pelo braço e a levou para fora. O Rolls Royce estava na porta,
revelando assim que ele havia planejado o passeio. Empurrou-a para dentro
do carro e sentou-se na direção, dando a partida.
Carrie olhava pela janela, tentando não lhe dar atenção. A estrada, a
princípio, era estreita, ladeada de pinheiros. Mais adiante, árvores mais altas
formavam uma espécie de túnel verde, por onde a luz penetrava, salpicando
o chão de pontos luminosos. Um rebanho de carneiros apareceu de repente,
cercando o carro com seus balidos estridentes. Logo haviam atingido uma
rodovia e Damon acelerou. A paisagem era muito bonita. Carrie quase
esqueceu seus problemas.
Às vezes cruzavam com vagabundos, que vagavam pela estrada com sua
trouxa às costas. Geralmente, acenavam para o carro, com um sorriso
estampado no rosto abatido.
— Onde eles dormem? — perguntou Carrie curiosa, voltando-se para olhar as
figuras que desapareciam a distância.
-— Em qualquer lugar. Arrumam uma cama de folhas secas ou dormem ao
relento, à beira da estrada.
— E como se alimentam?
— Qualquer coisa serve. Às vezes ganham comida, às vezes roubam. Fazem
fogo com gravetos e esquentam a comida. Se chegar bem perto de um deles,
sentirá o cheiro da fumaça impregnado em suas roupas. Raramente
tomam banho ou lavam a roupa, mas são muito saudáveis. Parece que
gostam desse tipo de vida.
Carrie franziu o nariz.
— A mim não agradaria essa vida.
— Cada um escolhe o tipo de vida que quer levar.
Alguma coisa na voz de Damon fez com que Carrie pensasse que ele
estivesse se referindo a Zelah e indiretamente a ela. Olhou-o depressa, pronta
para revidar, mas não havia qualquer expressão de maldade em seu rosto.
Ele olhava para a frente, dirigindo com cuidado.
— Qualquer dia desses vou levá-la a Waterford. Há lindos trabalhos em vidro
por lá.
— Seria interessante. Minha mãe... Anne... tem um vaso de cristal de
Waterford que sempre admirei.
— Talvez eu lhe compre um de presente de casamento.
— Não se preocupe com isso — disse ela. — Escrevi a John
desmanchando o noivado.
— Então você está livre e desimpedida?
— Pode-se dizer que sim.
— Então nada mais me impede de... assediá-la?
A pergunta surpreendeu Carrie.
— Acho que nada o impedia, antes mesmo do rompimento.
— Claro que impedia — retrucou ele, sorrindo. — Eu sabia que estava
invadindo propriedade alheia.
— Você está me desrespeitando — disse ela. — Não acho nada divertido.
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Antes que ela pudesse reagir, Damon estacionou o carro e estendeu o braço,
puxando-a para perto de si.
Carrie arregalou os olhos, surpresa, e tentou se afastar.
— Que está querendo fazer?
— Quero provar que não estava brincando — respondeu ele e a segurou
pelo .queixo. — Você é muito bonita. Tem um ar de pureza que não combina
com a situação, mas a deixa muito atraente. Quantas vezes quis beijá-la,
mas...
— Lembrava-se do meu compromisso com John! — completou ela. — Conte
outra, que essa não me convence! O que quer me dizer é que sempre me
desejou, mas que se controlava por causa do que pensava a meu respeito.
Não foi por ética coisa nenhuma.
— Não vamos discutir agora — disse ele, aproximando-se para
beijá-la. Ela tentou empurrá-lo, mas Damon a puxou para perto,
imobilizando-a.
— Exijo que você me solte! — gritou ela.
— Assim que terminar — respondeu ele com insolência.
Quando sentiu os lábios dele deslizando por seu pescoço, Carrie se viu
invadida por uma onda de calor que percorreu todo o seu corpo. Ficou
profundamente excitada,- mas não poderia corresponder àquelas carícias.
Seria fatal! Precisava provar a Damon que era capaz de resistir, convencê-lo
de que Zelah e ela eram totalmente diferentes.
Seu coração batia descompassado. Damon parecia cada vez mais excitado.
Ele não se importava com mais nada; estava decidido a ir até o fim, sem
pensar se estava certo ou errado.
Quando ele procurou seus lábios, Carrie sentiu que sua resistência diminuía e
gemeu baixinho, quando ele acariciou seu corpo com avidez.
Era impossível fugir da realidade: ela o desejava desesperadamente. Num
esforço sobre-humano, Carrie deixou de corresponder às carícias de Damon;
tentou ocultar o que estava sentindo, mantendo-se fria e passiva. O único erro
foi ter deixado escapar aquele gemido.
Damon só parou quando saciou seu desejo. Sentindo uma ligeira tontura, ela
se segurou nele, com mil ideias lhe passando pela cabeça.
Embora tivesse resistido bravamente, tentando camuflar seus sentimentos,
ele deveria ter percebido. Provavelmente também acabaria se gabando do
fascínio que exercia sobre ela.
— Foi um esforço e tanto, mas não chegou a me convencer.
— De que adianta convencer um maníaco como você de que sou indiferente?
Ele sorriu.
— Que mudança inesperada! Desistiu de representar a mulher fatal? Admite
sua derrota?
— Quem mudou foi você! Não vivia afirmando que odiava as
mulheres? O derrotado foi você.
— Para um homem, esse tipo de derrota não faz diferença —
argumentou. — Ele pode se satisfazer com qualquer garota. Qualquer uma vai
para a cama com ele.
— Qualquer garota? Você devia pensar melhor antes de fazer
afirmações como essa.
— Foi exatamente o que quis dizer. Com jeitinho, qualquer garota acaba
cedendo.
Carrie sacudiu a cabeça, furiosa.
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— Esta conversa não vai levar a nada. Por favor, leve-me para casa.
— Calma, calma — disse ele com um sorriso de satisfação. — Ainda não
terminei o que tenho a dizer para você.
Ela ficou vermelha e em seguida empalideceu.
— Que mais você quer, pelo amor de Deus? Já não me humilhou o bastante?
— Não foi essa a minha intenção. Acho que devemos fazer as pazes. Não
consegui me livrar de você, por isso, não adianta continuar
maltratando-a.
Carrie olhou para ele, boquiaberta. Não conseguia acreditar no que ouvia.
~ Não acredito. Por trás disso, você deve estar querendo alguma coisa. -— Ela
queria acreditar, mas como poderia?
— E por que eu deveria estar querendo alguma coisa? — perguntou ele.
— Porque até agora você não fez segredo de que não me suportava.
— Um momento, eu nunca disse isso. Pelo contrário, sempre a achei muito
atraente. — Tentou acariciar-lhe o rosto, mas Carrie afastou sua mão. Ele
continuou imperturbável. — E acho que está na hora de resolvermos essa
situação.
A ideia de ter a amizade de Damon, talvez seu amor, a deixou excitada.
Queria saber a razão daquela mudança. De nada adiantaria, se ele não
estivesse sendo sincero. Aparentemente, não havia motivo para que ele
mudasse de opinião.
Quando ele a beijou novamente, todas aquelas dúvidas desapareceram. Ela
fechou os olhos e se, entregou àquele prazer inesperado. Mais tarde pensaria
nas razões que tinham levado Damon a mudar de atitude.

CAPÍTULO IX

A vida de Carrie mudou completamente depois daquela noite. Damon lhe


dava mais atenção e quase sempre saíam à noite, para jantar ou passear.
Ele, às vezes, interferia no trabalho de Carrie e Charles, não permitindo que
ela se desgastasse demais. Já não se dedicava tanto à propriedade. Carrie
chegava a pensar que ele quisesse vigiá-la, não a deixando muito tempo
sozinha com Charles. Só podia ser isso, não havia outra explicação. De
qualquer forma, estava satisfeita com a mudança de Damon. Preferia mil
vezes que ele a vigiasse, em vez de agredi-la, como fazia antes. Mas isso
estragava um pouco o prazer da amizade.
Quando saíam, ela quase tinha certeza de que tudo não passava de uma
farsa. Não a convidava por sentir ciúmes, isso era evidente. Só poderia ser por
temer que o pai acabasse se envolvendo com ela. Tolice dele pensar isso, pois
era a última coisa que poderia acontecer. Mas havia metido na cabeça que
havia alguma coisa entre Charles e ela e, dessa forma, tentava evitar que os
dois ficassem sozinhos.
Uma noite, quando Carrie já não conseguia afastar da cabeça essa ideia, ela o
interrogou. Haviam ido a Dublin e, após o jantar, resolveram ir a um clube.
Deslizavam pela pista de dança ao som de uma valsa encantadora; quem os
visse pensaria que eram namorados. Carrie descansava a cabeça no ombro
de Damon e ele a segurava bem junto de seu corpo. Ela deveria estar
exultante, mas se sentia constrangida e tentava se esquecer dele.
— Vamos sentar — pediu-lhe. — Acho que não quero mais dançar.
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— Como quiser — concordou ele gentilmente e a levou de volta à mesa. —


Qual o problema? Você parece preocupada.
— Quero saber por que está se incomodando em me tratar bem — disse ela
bruscamente, liberando todas as emoções que havia tentado ocultar nos dias
anteriores.
Os olhos de Damon brilharam.
— Estou tirando proveito da situação. Seria loucura não aproveitar a
companhia de uma moça tão bonita, hospedada em minha casa.
— Não acredito — disse ela, respirando fundo antes de continuar. — Acho
que é por causa de Charles. Você está tentando me manter longe dele. — Ela
olhou para ele, ansiosa, desejando que ele não percebesse a fraqueza que
sua proximidade lhe provocava.
Damon franziu o cenho.
— Está querendo dizer que sente falta dele, que prefere estar com ele, a
estar comigo?
— Nada disso — negou ela, nervosa.
— É um insulto! — disse ele, irritado. — Será que sou tão incómodo, a ponto
de você preferir a companhia de um homem que tem três vezes a sua idade?
Carrie suspirou.
— Já disse que não é isso. Estou apenas ajudando Charles a escrever o livro.
É só isso.
— Nesse caso, não deve fazer diferença se você passa seu tempo com ele ou
comigo.
— Não, eu não me importo de estar com você. Gosto de sua
companhia. O que me preocupa é por que você estaria fazendo isso.
— Não há motivo para se preocupar. Acho que você nunca se
preocupou com as razões que levariam um homem a convidá-la para sair.
— As circunstâncias são um pouco diferentes. No começo, você nunca negou
que me odiava. Por que essa mudança tão repentina?
Damon sorriu.
— Não vejo razão para você esquentar sua linda cabecinha com os porquês
do nosso relacionamento. Acho melhor, por enquanto, aceitar o que tem e
pronto, não acha?
— Se está se oferecendo, pode desistir. Você não faz o meu tipo. Ele
continuou sorrindo.
— Ah, esqueci. Foi o pobre e querido John quem ganhou seu coração, não foi?
Ou será um velho rico, o trouxa que você escolheu?
Se não estivesse em público, Carrie o teria esbofeteado.
— Você é louco! Sua mente é pervertida! Eu não devia nem ter perguntado.
— Ótimo — disse ele, satisfeito. — Podemos dar a conversa por encerrada?
Sugiro que voltemos a dançar.
— Não quero que ponha as mãos em mim. Não gosto dessa sua encenação
— disse Carrie.
— E eu não gosto das suas insinuações. Vamos embora. — Ele se levantou,
Carrie pegou a bolsa e ambos se dirigiram para o carro.
Ela manteve-se em silêncio até entrarem no carro e se porem a caminho. Já
na estrada, voltou-se para ele e disse:
— Espero que possamos dar por encerrada essa farsa que você
montou.
— Longe disso — retrucou ele. — Continuarei a sair com você sempre que
tiver vontade.
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— E se eu me recusar?
— Você não poderá recusar.
— Está muito enganado se pensa que vai mandar em mim. Faço o que quero.
— E eu faço o que quero — disse ele. — Pelo visto, vamos ter de nos
confrontar; que vença o mais forte. Imagino quem sairá ganhando.
Carrie preferiu não responder. Continuou olhando para a frente. No fundo, não
se perdoava. Por que fora se apaixonar por aquele homem? Sentia que a
trégua havia terminado e se culpava por isso. Se não tivesse feito perguntas,
nada teria acontecido. Agora, certamente, o relacionamento voltaria a ser
agressivo como antes.
Era cedo ainda quando chegaram a Hawksmoor. Havia um carro estacionado
em frente a casa. Deveria ser alguma visita para Charles ou Damon e Carrie
decidiu ir direto para a cama. Não estava disposta a fazer sala para estranhos,
pois se sentia muito deprimida.
Mal entrou no quarto, Damon abriu a porta e entrou.
— Que quer aqui? — perguntou ela, temendo que ele quisesse
continuar a discussão.
— Seu noivo chegou — disse ele calmamente. — Eu não disse que ele viria?
A primeira reação de Carrie foi de tristeza. Não queria que John viesse, por
isso havia enviado a carta. Mas logo percebeu que ele seria a solução para
seus problemas. Damon não teria que se preocupar com Charles e a deixaria
em paz.
— Diga-lhe que descerei num minuto. Quero pentear o cabelo. — Na verdade,
não queria descer com Damon. Preferia ficar a sós com o noivo. Tinham muito
o que conversar e John, certamente, não estaria de bom humor.
— Você me surpreende — disse Damon. — Pensei que fosse correndo
encontrá-lo.
— Você se esquece de que rompi o noivado — disse ela com frieza.
— De sua parte pode estar tudo acabado, mas o moço lá embaixo parece
decidido. Acho bom você se preparar. — Dirigiu-se para a porta e completou:
— Essa vai ser outra batalha. Quero ver qual dos dois vencerá.
Num gesto infantil, Carrie mostrou-lhe a língua. Logo, porém, se esqueceu da
ironia de Damon e desceu para o confronto com John.
Ele estava na sala de estar, sentado no sofá dourado. Parecia preocupado e
constrangido. Damon estava em pé, de costas para a lareira, e Charles
ocupava uma das poltronas.
— Ah, Carrie, querida —- disse o velho. — Estava tentando entreter seu
noivo. Que pena que ele tenha chegado e não a tenha encontrado em casa!
Agora vamos deixá-los a sós. Devem ter muito o que conversar.
Dizendo isso, pai e filho saíram.
Quando a porta se fechou, John se levantou e caminhou até Carrie. Ela estava
em pé, hesitante, parada perto da porta. Ele olhava para ela com uma
expressão estranha. Parecia triste, ofendido e ao mesmo tempo nervoso,
como se tentasse controlar sua irritação.
— Espero que possa me explicar o que está acontecendo — disse ele com
voz firme.
Carrie fez que sim com a cabeça e mordeu o lábio, ansiosa.
— Vamos nos sentar. Aconteceram tantas coisas que nem sei por onde
começar.
Ele voltou para o sofá e ela se sentou a seu lado. Foi John quem falou
primeiro.
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—- Não gosto de ser enganado, Carrie. Nunca pensei que você fosse capaz
disso. Por quê?
— Por que o quê? — perguntou ela, tentando não demonstrar que sabia. Era
a Damon que ele se referia. Ela não havia tocado no nome dele, em sua carta,
dando a entender que morava apenas com Charles Courtney.
— Você sabe. Esse sujeito... Damon. Quem é ele? Por que não me falou dele?
Há alguma coisa entre vocês? Foi por isso que rompeu o noivado?
— Claro que não — respondeu Carrie. — Ele não significa nada para mim.
Trabalho para o pai dele e pronto. Eu lhe falei isso na carta.
— O que me preocupa é o que você não falou. Você está apaixonada por ele?
— Nunca! — protestou ela. — Nós nos odiamos. John ainda parecia
desconfiado.
— Então por que saiu com ele?
— E por que não deveria? Você não precisa estar apaixonado para sair com
uma pessoa.
— Mas precisa haver pelo menos simpatia — disse ele. — Você está me
escondendo alguma coisa e vou descobrir.
— John, por favor, não faça isso. Acredite em mim. Não há nada entre Damon
e eu.
Ele pegou a mão de Carrie e a segurou entre as suas.
— Gostaria de poder fazer isso, mas as evidências não me permitem. Quando
soube que você estava trabalhando para Charles Courtney, morando
na mesma casa, já não fiquei muito satisfeito. Mas se soubesse que ainda
havia um outro homem... Esse sujeito ficou me olhando o tempo todo, como
se eu fosse uma peça rara. Bem, Carrie, o que esperava que eu pensasse?
Se eu soubesse disso, teria vindo aqui muito antes. Você não devia ter
tentado me enganar.
— Sinto muito, John — disse ela. — Sei que agi mal e sabia que você reagiria
assim. Mas, acredite-me, não há nada de errado. Não precisa se preocupar.
Ele se levantou.
— Como não há nada de errado? íamos nos casar quando você voltasse
dessa viagem ridícula. Eu não devia ter deixado você vir sozinha... Acho que
foi tudo culpa minha.
— Não, não foi, John. Talvez eu nunca o tenha amado de verdade e só fui
perceber isso nesta viagem. Foi melhor ter descoberto agora, antes do
casamento, não acha?
— Ainda acho que esse tal de Damon tem alguma coisa a ver. Por que afinal
você resolveu ficar por aqui, Carrie? Desistiu de procurar sua mãe?
— Minha busca me trouxe até aqui — respondeu ela, meio abatida. — Sente-
se e lhe explicarei tudo.
Ele pareceu surpreso, mas concordou e Carrie continuou:
— Minha mãe é casada com Charles Courtney.
— Então você a encontrou! — exclamou ele. — Por que não nos contou?
Anne não quis perguntar, pensando que você não tivesse
conseguido encontrá-la. Como é ela? Vocês se dão bem?
— Calma, John! Não é tão simples assim. Zelah não é... bem, vamos dizer que
ela não é muito direita. Ela abandonou Charles por uns tempos, mas deverá
voltar quando estiver disposta. Charles, apesar disso, a ama muito, mas
Damon não quer nem ouvir o nome dela.
John sacudiu a cabeça, tentando entender.
— Foi por isso que você resolveu ficar por qui? Espera que sua mãe volte
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para vê-la?
— Não exatamente — confessou Carrie. — Não contei a Anne porque não
queria preocupá-la, mas meu carro foi roubado. Damon, com pena de mim,
trouxe-me para cá. Foi assim que tudo começou. Foi por mera coincidência
que descobri que minha mãe era casada com Charles.
— Acho que agora estou entendendo — disse John. — Damon não se dá com
você porque você e sua mãe são parecidas, é isso? Ele não gosta de você,
assim como não gosta dela.
Foi um alívio contar a John toda a verdade. Carrie sentiu-se mais à vontade e
sorriu.
— Exatamente. Como vê, Damon não teve nada a ver com minha decisão.
— Então ainda posso ter esperanças? — Ele se aproximou dela. — Oh, Carrie,
você não sabe como senti sua falta! Foi um inferno, pois não sabia o que
estava acontecendo.
Ela desviou-se quando ele quis beijá-la.
— Não, John, aqui não. Pode entrar alguém.
— E daí? É exatamente o que esperam que façamos, principalmente o velho.
— Ele ainda não sabe que rompemos o noivado. Sinto muito, John, não mudei
de ideia só porque você está aqui. É triste, mas é a verdade.
Ela não quis dizer que não sentia mais nada por ele; não queria magoá-lo.
John ficou vermelho e irritado.
— Você não está sendo justa, Carrie. Você me amava antes e voltará a amar.
É tudo uma questão de tempo. Foi esse afastamento que a deixou assim, mas
juro que isso não acontecerá nunca mais. Passaremos o dia todo juntos,
querida, todos os dias.
— Oh, John! — Carrie olhou para ele com compaixão. — Não vai adiantar, eu
sei que não vai.
— Você ainda não tentou — replicou ele. — Veja, Charles Courtney me
convidou para passar uns dias aqui. Vamos ver como as coisas se
desenrolam.
Carrie suspirou.
— Como quiser, mas acho que não vai adiantar.
— Vai sim, eu sei que vai — garantiu ele, cheio de confiança. Mais uma vez
ele se aproximou, tentando beijá-la.
Desta vez Carrie não se opôs. Tentou não demonstrar que não sentia nada
por ele. John devia ter sofrido muito e ela não queria magoá-lo, naqueles dias
em que estariam juntos. Assim, quando ele partisse, aceitaria a decisão ou,
pelo menos, estaria preparado para isso.

CAPITULO X

Como Carrie já imaginava, Charles não permitiu que ela trabalhasse enquanto
John estivesse ali. Queria que eles passassem a maior parte do tempo juntos.
Não se viam há muito tempo, tinham que aproveitar. Ela não teve coragem de
lhe dizer que as coisas haviam mudado.
— Quanto tempo pretende ficar aqui? — perguntou ela a John na noite do seu
segundo dia em Hawksmoor. Haviam terminado o jantar e estavam na sala de
estar. Charles, sempre que possível, procurava deixá-los a sós e Damon quase
não aparecia. Estava trabalhando arduamente; Carrie supôs que ele queria
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compensar o tempo perdido.


— Está querendo se livrar de mim? — perguntou John, que já não estava tão
passivo e delicado quanto costumava ser. Carrie tentou acalmá-lo.
— Claro que não, querido. Estava pensando no livro de Charles. É muita
bondade dele me dispensar do trabalho, mas não vou receber um tostão por
esses dias de folga.
— Ah, quer dizer que minha companhia não a desagrada, afinal? — Puxou-a,
então, para perto de si. — Eu sabia que acabaria vencendo! Carrie, querida,
desculpe-me pelo que disse, mas estava com ciúmes de
Damon. Agora vejo que estava enganado... posso esperar. Você verá; logo
tudo voltará a ser como antes.
Ele a beijou com carinho, mas não como Damon o fazia. Carrie sentiu-se
culpada por estar comparando os dois, mas não conseguia evitar. Tentou,
contudo, esquecer-se de Damon. Concentrou-se em John, tentando
corresponder a seu beijo.
Nenhum dos dois ouviu quando a porta se abriu. Assustaram-se quando uma
voz irónica disse:
__ Desculpem-me pela intromissão. Devo voltar mais tarde, num
momento mais adequado?
Carrie ficou vermelha e ajeitou o cabelo rapidamente.
— Não seja ridículo! A casa é sua. Você entra e sai quando quiser.
— Desculpe-nos, Courtney, mas é que... Acho que você me entende.
__ Claro — concordou Damon, cheio de cerimónia. John não percebeu
o sarcasmo em sua voz.
__ Você não tem de pedir desculpas, John! — disse ela,
mal-humorada. Encarou Damon irritada quando ele entrou na sala e sentou-se
numa poltrona.
— Tenho boas notícias para você — disse ele. — Seu carro foi encontrado,
sem a bolsa, é claro.
— Mas é maravilhoso! Onde ele está?
— Perto daqui, mas não fique muito animada.
— Por quê? — perguntou, meio confusa.
— Está todo arrebentado. Talvez tenha sido roubado por aquele bando de
garotos com quem você se meteu. Até parece piada, não?
__ Bando? — perguntou John imediatamente. — Que é isso, Carrie?
Você não me falou nada a respeito.
— Não lhe dê ouvidos — disse ela. — Ele está exagerando. Damon ergueu as
sobrancelhas e olhou para John.
__ Talvez seja hora de lhe contar algumas verdades sobre sua...
namorada. Ela não é tão inocente quanto parece. Por duas vezes a encontrei
envolvida em encrencas com rapazes. Acho que puxou à mãe. Ela lhe falou de
Zelah?
John concordou com um gesto de cabeça. Parecia confuso.
— Quero saber disso direitinho, quando estivermos a sós, Carrie — disse ele,
irritado.
Damon levantou-se, satisfeito.
__ Vou me retirar, para que os dois pom; inhos possam conversar.
Desculpem se entornei o caldo, mas achei que você, John, tinha o direito de
saber o que aconteceu em sua ausência.
— Eu o odeio — disse Carrie, baixinho.
— Era o que eu esperava que dissesse. Mas tenho certeza, mocinha, de que
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conseguirá convencê-lo de sua inocência; aliás, como sempre. Não se


esqueça de me contar o resultado, estarei esperando — disse Damon,
sorrindo.
Assim que a porta se fechou, John a encarou. Carrie não se lembrava de tê-lo
visto tão furioso.
— Parece que cheguei no momento exato. Quer me explicar o que se passa?
Carrie levantou-se e deu alguns passos antes de se voltar para ele.
— Você não confia em mim, John? Vai se deixar levar pelas palavras daquele
cretino?
— Ele não me parece ser homem de mentiras.
— E não é — disse Carrie. — Mas ele distorce a verdade e isso é muito pior.
John cruzou os braços. Estava nervoso ainda, mas tentava se controlar.
— Talvez você queira me contar a sua versão e eu decidirei em qual das duas
devo acreditar.
— Não vejo razão para isso — disse ela. — Além disso, está tudo acabado
entre nós. Que importância teria a história para você?
— Muita importância — respondeu ele, depressa. — Não vou desistir de você
tão facilmente, Carrie, e se não existe outro homem, acho que em pouco
tempo voltaremos ao que éramos antes.
— Deixe-me dizer-lhe uma coisa, John Marshall. Você está muito decidido e
isso me surpreende. Nunca pensei que apareceria por aqui. A bem da
verdade, achei que minha carta fosse suficiente para você entender que
não existe mais nada entre nós. Mas Damon tinha razão, afinal.
— Damon? Que tem ele a ver com isso? Que interesse pode ter em nossa
vida particular?
— Ele sabia da carta. Entrou por acaso no escritório quando eu estava
escrevendo e... bom, de repente comecei a lhe falar de você. Ele disse que
você viria correndo para cá. Eu discordei.
— Mas não entendo por que tinha que falar de mim e justo para ele.
Desconfio que você não me contou toda a história.
— Por Deus, John, eu não suporto esse homem! Acho que qualquer cego
perceberia.
John ficou pensativo.
— Hum, acho que... E esses rapazes com quem esteve? Parece que você se
divertiu muito na minha ausência.
Carrie sentou-se numa poltrona, suspirando profundamente.
— Não tem nada de mais. Tentei obter informações sobre Zelah com um dos
rapazes. Acabamos conversando e ele me convidou para uma festa na praia.
É só isso.
— Não foi o que Damon insinuou. Até que horas foi a festa?
— Não tenho ideia. Saí antes que terminasse.
— Por quê? A situação estava se complicando? — perguntou ele, intrigado.
— Acho que foi o que aconteceu. Estou surpreso com você, Carrie. Nunca
pensei que fosse assim.
— Mas eu não sou, pelo amor de Deus! Por que os homens sempre pensam o
pior?
— E tem outra coisa — acusou ele. — Você não disse que seu carro havia sido
roubado. É mais uma mentira sua. Começo agora a imaginar o que é verdade
e o que não é.
Carrie se pôs em pé num pulo.
— Pode pensar o que quiser. Estou farta desse interrogatório. Se quiser saber
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de mais alguma coisa, pergunte a Damon. Ele tem respostas para tudo.
John tentou detê-la, mas ela se desviou dele, correndo para o quarto. Sentou-
se diante do espelho e viu que seu rosto estava vermelho, o cabelo
despenteado e os olhos brilhando de ódio.
— Detesto os homens! — disse para si mesma. — Só criam
problemas, menos Charles, é claro. — Acalmou-se um pouco ao pensar no pai
de Damon e sentiu vontade de conversar com ele. Ele certamente a
tranquilizaria.
Sem sequer escovar os cabelos, foi procurar Charles. Encontrou-o no quarto.
Bateu à porta e ele respondeu imediatamente. Estava sentado perto da
janela, lendo. Assim que a viu, deixou de lado o livro.
— Carrie, querida, que bom que veio me ver! Queria lhe dizer que gostei
muito de John... Fico contente por você. Fez uma boa escolha.
Carrie sentou-se na beira da cama, com um ar preocupado.
— Está tudo acabado entre nós, Charles. Foi por isso que ele veio. Escrevi
uma carta desmanchando o noivado. O problema é que ele não aceita um não
como resposta.
Charles ficou meio confuso e Carrie arrependeu-se de ter contado. Não tinha o
direito de envolvê-lo em seus problemas.
— Sinto muito, Carrie — disse ele. — Não havia percebido. Foi por isso que
veio aqui? Quer conversar comigo?
— Sc não se importa... Não tendo ninguém com quem me abrir. Ele sorriu,
cheio de ternura.
— Desabafe minha querida. Voce sabe que a quero como uma filha.
— John acha que andei agindo mal por aqui e está furioso. Damon lhe contou
sobre aqueles rapazes...Você sabe, naquela noite em que ele me trouxe para
cá. Também nãolhe .havia contado que meu carro foi roubado E agora
ele acha que menti para ele. Disse que não sabe em quem acreditar.
Ela estava tão abatida que charles se levantou e, aproximando-se dela, tocou-
lhe o ombro com uma da mãos.
— Sabe, o amor é assim mesmo.
— Mas eu não o amo! Pensei que o amasse, mas agora sei que não amo...-
Ela falou, pois por pouco ia confessando seus sentimentos por Damon.
— Eu sei -— disse Charles. — Você ama meu filho.
Por um instante, Carrie fitou Charles, incapaz de dizer uma palavra.
— Co-como descobriu? — perguntou ela, afinal.
— Não sou cego — disse ele, sorrindo. — Percebo tudo o que se passa.
— Mas é tão evidente assim? Acha que Damon sabe? Charles sacudiu a
cabeça, tentando tranquilizá-la.
— Damon tem essa mania de achar que todas as mulheres não
prestam. Sinto muito.
— Você não tem culpa. Não tem nada a ver com você. Charles sentou-se a
seu lado.
— De certa forma, tem. Sabe, minha primeira esposa também me
abandonou. Damon devia ter uns quatorze anos. Ela já morreu, não nos
divorciamos, mas... bem, Damon ficou profundamente abalado. Ele
estava se recuperando quando conheci Zelah.
Ele se calou por um instante, como se estivesse pensando no passado. Carrie
não quis interromper seus pensamentos. Logo ele continuou:
— Ele teve muitas namoradas, mas nenhum envolvimento sério. É muito
inseguro, não confia em ninguém. E tudo por causa do que aconteceu
Julia Florzinha nº 98

comigo. Acho que não tenho sorte, não sei. Há tantas mulheres maravilhosas
no mundo... Você, por exemplo, querida. Gostaria muito de vê-la casada com
Damon. É um sonho que alimento desde que você chegou.
— Foi por isso que me ofereceu o emprego? — perguntou ela, desconfiada.
Ele sorriu.
— Em parte, sim, mas realmente precisava de alguém que me
ajudasse. E você me pareceu perfeita.
— Muito obrigada por me contar tudo. Sinto muito que não tenha tido sorte
em seus casamentos, mas isso explica muitas coisas. Você acha que um dia
Damon pode mudar de opinião?
— Só o tempo dirá. Ele é um tolo; pensa que o tolo sou eu, mas eu sabia da
vida de Zelah quando me casei com ela. O amor é cego, não é?
Carrie, mais que ninguém, podia concordar com ele.
— Mas o que faço com John? — perguntou ela, acariciando ternamente a mão
do velho. — Disse-lhe que odeio Damon, mas acho que ele começa a duvidar
disso.
— Você precisa ter certeza de que ama meu filho o bastante para esperar.
Esperar muito tempo, talvez anos, até que ele perceba que você não é o que
ele pensa.
Os olhos de Carrie brilharam.
— Eu esperaria a vida inteira, se tivesse certeza de que ele poderia mudar.
Você acha possível, Charles?
Ele sorriu ao vê-la tão ansiosa. Beijou-lhe a mão e respondeu:
— Deus a abençoe, minha filha. Com tanto amor e dedicação, como ele
poderia não mudar? Mas você precisa contar a verdade a John. Não adianta
tentar fugir disso.
Ela suspirou.
— É, acho que sim... mas não será fácil. Ele verá que menti outra vez.
— E daí? — disse Charles. — Isso tem importância? Você não pode iludi-lo,
isso sim. Portanto é melhor deixar tudo bem claro. Gostaria também que você
escrevesse a seus pais, contando toda a verdade. Eles têm o direito de saber.
— É o que vou fazer. — Ela se levantou, meio pensativa. —
Resolverei tudo amanhã.
A conversa com Charles lhe fez bem. Sentia-se melhor. Ele era mesmo um
amor. Graças ao que tinha contado ela conseguia agora compreender melhor
o comportamento de Damon. Tudo estava explicado. Chegou a sorrir quando
saía do quarto.
Mas seu sorriso logo desapareceu, quando quase deu de encontro com
Damon. Pelo visto, ele também queria conversar com Charles.

AQUI FALTA UMA PÁGINA Nº 105 E 106

essa chance existe? — perguntou, ansioso. — Se ele não


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corresponde a seu amor, não adianta ficar se iludindo.


— Mas preciso correr o risco. Sinto muito, John. Ia lhe contar tudo amanhã de
manhã. Mesmo não tendo o amor de Damon, não vejo sentido em nos
casarmos. Eu não seria uma boa esposa.
— Talvez você esteja enganada. Éramos felizes antes de você viajar para a
Irlanda. Por que não poderíamos voltar a ser como antes? Com o tempo, você
se esquecerá dele. Serei paciente.
Imaginando as decepções que poderia ter no futuro, Carne chegou a pensar
em concordar. Mas, no fundo, sabia que não daria certo. Talvez conseguisse
esquecer Damon, mas não conseguiria ser feliz. Nunca teria certeza de ter
agido certo se desistisse. Seu emprego com Charles devia durar um ano,
talvez mais. Damon poderia mudar de ideia, conhecê-la melhor. Ela precisava
ficar e esperar; não havia outra solução.
— Sinto muito, John. Não vai adiantar, tenho certeza. Meu amor por Damon é
tão profundo que chega a ser insuportável. Você consegue entender?
— Você nunca me amou assim — ele estava cheio de tristeza. — Tem razão,
não daria certo. Gostaria que fosse eu o felizardo.
Ela o abraçou.
— Obrigada por compreender. Perdoe-me se o magoei. Ele estendeu o braço
e a segurou pelo ombro.
— Lembre-se, Carrie, se um dia precisar de mim, estarei sempre pronto.
Eu também não vou amar ninguém corno a amo. Desejo-lhe boa sorte.
Os olhos de Carrie encheram-se de lágrimas. John era um homem
maravilhoso; não merecia aquela decepção.
— Ei, que é isto? — perguntou ele, ao vê-la chorar. Segurou-a pelo queixo e
fitou-a nos olhos. — Não são para mim, são?
Ela disse que sim com um gesto de cabeça.
— Estou muito triste... Você é tão bom, gentil, e veja o que estou lhe fazendo.
— E a vida — disse ele, resignado. — Não se pode ganhar sempre. Quer que
eu vá logo para dentro ou prefere que fique aqui com você um pouquinho?
— Você fica? Não estou pedindo muito? Se quiser entrar, não se prenda por
mim, mas gostaria que ficasse comigo.
— Acho que sou mais forte que você — disse ele, abraçando-a com
delicadeza. — Vou ficar mais uns dias aqui. Tenho umas férias vencidas. Não
vai haver problemas.
Ele aceitara a situação com coragem e resignação. Carrie sentia-se deprimida,
ao vê-lo tão gentil e compreensivo.
Ficaram ali mais uma hora. Às vezes conversavam, às vezes não. A presença
de John agora lhe inspirava segurança. Ele serviria como uma espécie de
proteção e Carrie lhe era grata por isso.
Quando voltaram para a casa, Damon estava no hall. Seus olhos brilharam
quando encarou Carrie com insolência.
— Que sorte a sua... dois num único dia.
Percebendo que John queria defendê-la, Carrie segurou-o pelo braço.
— Não perca seu tempo. É assim que ele se diverte... sendo cruel comigo.
Mas não lhe dou atenção, não me importo mais. Não vale a pena.
Seus olhos, porém, estavam cheios de lágrimas. Felizmente John a levou para
dentro. Ela não olhou para trás, mas sabia que Damon a estava observando e
censurando. Sua tristeza era tão grande, que chegou a pensar em ir embora
dali.
— Não abaixe a cabeça — sussurrou John em seu ouvido. —
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Lembre-se: no fim, é você quem vai vencer.

CAPITULO XI

Assim que se levantou, de manhã, Carrie escreveu para Anne e David.


Explicou-lhes que havia rompido o noivado com John, mas que continuavam
bons amigos e que ele ficaria ali por mais alguns dias.
Não conseguiu falar de Damon. Era difícil explicar-lhes. Anne não entenderia
nada. Como Carrie podia ter se apaixonado por um homem que não a amava?
Além disso, John era excelente pessoa e Anne ia ficar magoada por ela ter
desmanchado o noivado com ele.
Depois do café, Carrie disse a John:
— Você não se importa de passear sozinho hoje? Gostaria de trabalhar com
Charles no livro. Além de me sentir culpada por abandoná-lo desse jeito, acho
que o trabalho me ajudará a esquecer certas coisas.
John concordou, entendendo-a perfeitamente.
— Vá em frente, não se preocupe comigo. Vou sair e dar uma
caminhada pelo campo.
Carrie sabia que ele iria gostar. Era um de seus passatempos prediletos.
— Vou preparar uns sanduíches para você. Fico tão tentada a
acompanhá-lo... A Irlanda tem belas paisagens, você não acha? Os vales, as
montanhas, tudo é lindo demais! Acabei me apaixonando pelo país.
— Agora entendo — disse ele, baixinho. — Eu não tinha como ganhar.
Perdi você para o homem e para o país. Imagino o que Anne e David vão dizer
se você decidir ficar morando aqui. Acho que não vão gostar.
— Também acho. Escrevi para eles, agora há pouco, e contei que rompemos
o noivado. Não consegui falar de Damon. Você fala com eles, quando voltar?
— Só se você voltar comigo — brincou ele. — Ainda não desisti da luta.
Charles entrou nesse momento e Carne, por sorte, não precisou
responder a John. O velho os cumprimentou, animado, e quis saber se des já
haviam conversado.
— Sim, Charles — respondeu ela. — Já conversei com John. Está tudo
resolvido. Mas ele vai ficar aqui mais uns dias, se você não se importar.
— Claro que não! Fique o tempo que quiser, meu jovem. É bom ter
companhia. Você joga xadrez?
— Não; não sei jogar — respondeu John. — Mas gostaria de aprender.
— Assim é que se fala — disse Charles. — Podemos marcar a primeira
aula para hoje à noite. Damon tentou ensinar Carrie, mas não conseguiu.
Acho que ela é incapaz de se concentrar no jogo.
— Você não está sendo muito justo comigo. Mas tenho boas notícias. Vou
voltar a trabalhar hoje. John vai sair para uma longa caminhada.
— Se é isso o que querem, fico satisfeito. Mal posso esperar para continuar o
trabalho.
Carrie pensava que o trabalho fosse distraí-la, mas não foi o que aconteceu.
Por três vezes, escreveu Damon em vez de David. Tirou o papel da máquina e
o atirou na cesta, irritada.
Charles a observava, admirado por vê-la nervosa.
— Que houve? Algum problema?
— Meus dedos não me obedecem. Esta é a terceira vez que escrevo Damon,
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no lugar do nome de seu bisavô.


—Você não pára de pensar nele, não? — perguntou Charles. — Gostaria de
poder ajudá-la, mas é melhor eu não interferir. Damon me mandaria cuidar da
própria vida.
— É, eu sei. Começo a duvidar que vá adiantar alguma coisa. Talvez fosse
melhor eu esquecê-lo e voltar para a Inglaterra.
— Não vai resolver nada. Já estou velho, mas sei como é o amor. Se aceita
um conselho, não desista. Se não houvesse esperança, eu seria o primeiro a
lhe dizer. Mas acho que, mais cedo ou mais tarde, Damon vai acabar
mudando de ideia. Você o ama o bastante para esperar?
— Você sabe que sim.
— Então, por que esse desânimo? Sorria e continue lutando. Sei que não
posso falar muito, com dois casamentos fracassados, mas acredito,
sinceramente, que você e Damon foram feitos um para o outro. Você ainda
vai ser minha nora.
— Não sei o que seria de mim sem você. Sou-lhe muito grata, Charles.
Você não imagina quanto.
— Que é isso, minha filha? Não precisa agradecer, quero a sua felicidade.
Tente agora continuar com a datilografia. Logo vai chegar a hora do almoço e
você ainda não conseguiu fazer nada.
— Posso considerar isso uma repreensão? — Ela riu e voltou-se para a
máquina para recomeçar o trabalho.
O tempo passou depressa depois daquela conversa. Embora não parasse de
pensar em Damon, Carrie conseguiu concentrar-se no trabalho e compensar o
atraso.
Estranhou que John não voltasse para o jantar; ele não era de se atrasar. Justo
na ausência de John, Damon resolveu aparecer. Ele não estava se
alimentando nos horários certos, mas, naquela noite, sabe Deus por quê,
resolveu aparecer para jantar com os outros.
— Onde está seu namorado? — perguntou ele, quando viu que havia apenas
três à mesa.
— Saiu para passear. Deve ter se esquecido da hora.
— Foi sozinho? Sem você? — indagou com sarcasmo.
— Exatamente — respondeu ela, com frieza. — Não precisamos estar o dia
todo juntos. Além disso, estive trabalhando no livro de seu pai.
— Dividindo seu tempo com os dois? Quanta generosidade!
— Acho que já chega — disse Charles. — Por que você é tão insolente,
Damon? O que Carrie lhe fez para você tratá-la dessa maneira?
— A mim? Nada — respondeu. — Não gosto é do que ela faz com você. Você
é cego, pai? Por que não a manda embora junto com esse tal de John? Estava
tudo tão bem antes dela chegar!
— Foi você quem me trouxe — protestou Carrie. — Por que não assume sua
responsabilidade?
— Foi tolice minha, devo admitir. Mas como não se pode fazer o tempo voltar,
a única alternativa é me livrar de você. E quanto mais cedo, melhor.
— Mas não é o que eu quero — disse Charles. — Carrie pode ficar aqui o
tempo que quiser, para mim está ótimo. Desta vez, Damon, você não pode
fazer nada.
— Quero conversar com você, pai — disse Damon com o rosto contraído.
— Não vai adiantar nada. Você já tentou isso antes, lembra-se? Mas talvez
seja bom esclarecermos certas coisas. Falo com você no escritório, depois do
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jantar. Agora vamos mudar de assunto. Carrie deve estar muito aborrecida.
Ela sorriu para o velho, tentando disfarçar. Desconfiava que Charles poderia
acabar contando toda a verdade a Damon. Tentaria conversar com ele antes
que fosse falar com o filho. Não queria que Charles a defendesse.
Mas, no fim do jantar, os dois praticamente desapareceram. Carrie ficou na
cozinha, lavando a louça. Imaginava que estivessem discutindo o destino dela
e estava preocupada. Desta vez, porém, não conseguiu ouvir nada. Todas as
portas estavam fechadas.
Quando o telefone tocou, pensou que fosse John, pedindo desculpas pelo
atraso. Mas não era ele.
Um homem com ligeiro sotaque irlandês perguntou por ela. Ele se identificou
e informou-lhe que John havia sofrido um acidente e estava no hospital.
Carrie ficou atordoada.
— Como está ele? Está bem?
— Ele vai ficar bom — garantiu o homem. — Mas quer vê-la.
— Vou já para aí — disse ela, anotando o endereço do hospital. — Diga-lhe
que estou a caminho.
Quando desligou o telefone, Carrie deu-se conta de que deveria ter feito mais
perguntas. Não sabia o que havia acontecido, nem qual o estado de John. Só
sabia que devia ir vê-lo imediatamente.
Pensou em chamar um táxi, mas iria demorar muito. Teria que pedir o Rolls
Royce a Damon. A ideia não lhe agradava, mas não tinha tempo a perder.
Vestiu um casaco, pegou a bolsa e correu para o escritório, sem sequer bater
à porta.
— John sofreu um acidente — disse ela. — Pode me emprestar o carro,
Damon? Ele está no hospital em Dublin. Preciso ir para lá.
— Eu a levo — respondeu ele secamente. — Não quero que me arrebente o
carro, com toda essa pressa para ir ver seu amado.
Preocupada como estava, Carrie não lhe deu atenção. Sabia que John queria
vê-la e não queria fazê-lo esperar.
A caminho do hospital, nenhum dos dois falou. Damon apenas perguntou o
que havia acontecido e ela não soube explicar com detalhes. Estava muito
nervosa e, pela primeira vez, não se preocupou com ele. Todos os seus
pensamentos estavam voltados para John. De certa forma, sentia-se culpada.
Se não tivesse escrito, ele nunca teria vindo e nada teria acontecido.
Quando chegaram ao hospital, ansiosa e preocupada, ela nem percebeu que
Damon a segurava pelo braço. Foi ele quem pediu informações e a levou à
enfermaria onde John estava.
Ela ficou chocada ao vê-lo. Tinha a cabeça envolvida em bandagens e o rosto
muito pálido. Havia marcas de arranhões na face e um hematoma bem perto
de um dos olhos. A enfermeira-chefe chamou-o delicadamente.
— Sr. Marshall, o senhor tem visitas.
John abriu os olhos lentamente e sorriu ao ver Carrie. Umedeceu os lábios e
disse com voz rouca:
— Querida, é você mesmo?
Carrie encheu-se de compaixão. Ele estava muito machucado e tudo por culpa
dela.
— Õh, John — gemeu ela, curvando-se para acariciá-lo. — Vim o mais rápido
que pude. Como aconteceu?
— Um carro me pegou por trás — disse ele. — Não ouvi nada. Estava
pensando em você e você sabe como essas estradas são tranquilas. Tentei
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desviar e depois só me lembro de ter acordado aqui no hospital. Você vai ficar
comigo, não vai?
Carrie sentiu que seus olhos se enchiam de lágrimas.
— Sabe que sim, querido. Enquanto precisar de mim...
Ele tentou abraçá-la, mas estava muito fraco. O esforço o deixou exausto.
Deitou-se de novo, de olhos fechados e respirando com dificuldade.
Damon havia desaparecido. Carrie sentou-se e segurou a mão de John,
conversando com ele. Disse-lhe que logo ficaria bom e que ela lhe faria
companhia o tempo todo. Logo a enfermeira-chefe apareceu dizendo que o
horário de visitas havia terminado.
— Ele está dormindo agora — disse a Carrie. — Você não pode fazer nada,
por enquanto. Agora ele vai ficar mais tranquilo. Pode voltar para casa.
— Quanto tempo ele vai ficar internado? — perguntou Carrie. — O ferimento
da cabeça é grave?
— Foi um corte muito profundo — respondeu a enfermeira. — Talvez tenha
sofrido fratura interna. Estamos esperando o resultado do raio X.
— Tem certeza de que não houve nada de grave? — insistiu Carrie.
— Não posso lhe garantir nada — respondeu a enfermeira. — Mas ele está
em boas mãos. E seu noivo, não? Ele a ama muito. Quando passou o efeito da
anestesia, ele não parava de chamá-la. Você é uma moça de sorte por ter um
noivo que a ama tanto.
Carrie concordou. De nada adiantaria contar-lhe a verdade.
Logo Damon se aproximou. Segurou-a pelo braço, levando-a para fora.
— Sinto muito por John — disse ele, dentro do carro, quando deixavam
o hospital. — Você está muito abatida, mas acho que não deve se preocupar.
Logo ele estará bom.
As palavras foram consoladoras, mas não eram sinceras. Ele sorria com
sarcasmo. Naquele momento, Carrie precisava de alguém que a
tranquilizasse. Precisava se esquecer do acidente, pois continuava a se sentir
culpada pelo que havia acontecido a John.
— Espero que sim — disse ela. — Tomara que não seja nada grave.
— Conversei com o médico. O raio X não revelou nada. Logo ele terá alta.
Carrie sentiu-se aliviada.
— Ainda bem. Você não imagina como me alegro em ouvir isso.
— Acho que sim — respondeu bruscamente.
Ela não conseguia entender a razão do mau humor, mas preferiu não tocar no
assunto. Não estava disposta a uma nova discussão. A viagem de volta
transcorreu em silêncio. Nenhum dos dois puxou conversa. Havia um clima de
tensão entre eles e Carrie sentiu-se aliviada ao chegar a Hawksmoor.
Charles estava esperando, ansioso por saber notícias. Damon desapareceu
assim que entrou na casa. Carrie e Charles ficaram na cozinha, onde tomaram
um chá.
Ela o informou de tudo.
— Damon estava muito estranho. Não sei o que houve. Ele não seria capaz
de desejar que John... não... — Ela se interrompeu, nervosa por pensar tal
coisa. — É ridículo. Ele pode não gostar de John, mas não lhe desejaria nada
de mal.
Charles estava pensativo.
— Já pensou que ele pode estar com ciúmes?
— De quem? — perguntou Carrie, admirada.
— De você. Você foi correndo para John, como se ele fosse sua única
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preocupação.
— E é, de certa forma — disse ela. — Apesar de tudo, eu o considero meu
amigo.
— Acho que sua atitude deu a entender que ainda sente algo por ele — disse
Charles. — Justamente quando achei que havia convencido meu filho de que...
— Ele se calou, embaraçado.
— Convenceu-o de quê? — perguntou Carrie, desconfiada. — Espero que
você não tenha falado a meu respeito, Charles. Tudo o que lhe falei foi
confiando na sua discrição.
Charles segurou-lhe a mão e a encarou com um olhar compreensivo.
— Foi para o seu bem. Se alguém não interferisse, vocês nunca iriam se
entender.
Carrie ficou vermelha.
— Meu Deus! Charles, como pôde fazer isso? O que Damon vai pensar? Ele
não vai acreditar que o amo. Ainda que acreditasse, de que adiantaria? Ele
nunca vai mudar de ideia.
— Você não quer saber como ele reagiu?
— Que importância tem? Ele não vai mudar. Deve ter achado muito divertido.
Antes você não tivesse contado, Charles. E agora?
— Ele não riu, não — disse ele. — Ficou surpreso, é verdade, mas me ouviu
com muita atenção.
— E daí? — perguntou Carrie. — Agora ele sabe dos meus
sentimentos. Não vejo vantagem nenhuma; só vai me deixar constrangida.
— Ele a ama também.
Carrie ficou atordoada; não conseguia falar. Olhou admirada para
Charles, sentindo o sangue lhe fugir do rosto e o coração bater acelerado.
— Não brinque comigo — sussurrou ela. — Não tem graça. — Damon
apaixonado por ela? Era ridículo! Ninguém que estivesse apaixonado
se comportaria daquela forma.
— É verdade — confirmou ele. — Ele havia acabado de confessar quando
você irrompeu pela sala, dizendo que John estava no hospital.
— E agora ele pensa que... que é a John que amo? Só isso explica sua atitude.
Oh, Charles, que vou fazer?
Ele deu um sorriso compreensivo.
— A única saída é você explicar-lhe o que sente. Fale de John, não esconda
nada. Se é que conheço Damon, ele logo virá me dizer que vocês já marcaram
a data do casamento.
— Eu não conseguiria — disse ela, apavorada. — E se ele disser que não me
ama? Vou ficar com cara de idiota.
— Você precisa tentar, minha filha. Disso depende a sua felicidade. Você tem
de correr o risco!
Ela concordou, sacudindo a cabeça, angustiada.
— Então vá agora, antes que mude de ideia. Acho que ele deve estar na sala.
Carrie levantou-se, hesitante. Era muito difícil fazer aquilo. Mas, se não
fizesse, estaria jogando fora sua última chance de ser feliz. Teria que fazer!
Era a última esperança.
— Boa sorte! — desejou-lhe Charles, quando ela abriu a porta.
Iria precisar, pensou, caminhando lentamente pelo corredor. Charles parecia
confiante, mas ela não tinha tanta certeza. Não conseguia imaginar Damon
dizendo que a amava. Tudo o que ele dizia vinha carregado de crueldade. Ele
nunca havia sequer mencionado a palavra amor. Nem a amizade dele ela
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havia conquistado. Que teria que dizer para fazê-lo mudar de opinião?
Ficou parada diante da porta, sem coragem para girar a maçaneta. De
repente, a porta se abriu e ela se viu face a face com Damon.
— Vai a algum lugar? — Foi o que conseguiu dizer.
— Vou dormir — respondeu ele. — Queria alguma coisa? Ele estava nervoso e
ela murmurou:
— Sim..., quer dizer, não... não é nada importante. Amanhã eu falo. — Se
estiver de bom humor, pensou. Tentar dizer a um homem
carrancudo que o amava era tão impossível como conversar com alguém que
não falasse a mesma língua. Por que havia deixado que Charles a
convencesse?
Quando ele a segurou pelos ombros e a empurrou para dentro da sala, ela
gritou, angustiada:
— Que está fazendo? Eu disse que esperava. Não é nada importante.
— Não é importante, mas você veio me procurar — disse ele. — Pode abrir o
jogo! — Ele se sentou numa das cadeiras, passando uma das pernas por sobre
o braço. Parecia divertir-se com a situação.
Carrie sentiu que suas pernas enfraqueciam. Não conseguiria continuar com
aquilo.
— Eu... eu... — gaguejou, sentando-se rapidamente. Era terrível. Não sabia
por onde começar.
— Você esteve conversando com meu pai — disse ele, irritado. — Talvez
tenham falado sobre mim... e você.
Ela concordou, aliviada.
— Sinto muito, foi Charles quem sugeriu que eu viesse aqui. Eu sabia que era
perda de tempo. Já vou sair, esqueça que vim aqui. Boa noite, Damon.
Carrie nem havia se levantado e ele pulou da poltrona e impediu que ela o
fizesse. Olhou-a de um modo estranho, como se quisesse hipnotizá-la.
— Meu pai está certo, temos de conversar. Acho que veio me dizer que... que
ainda ama John, não é? Imagino que tenha contado tudo a meu pai e ele lhe
disse a verdade. A intenção foi boa, ele não tem culpa. Só sinto que ele tenha
contado a você o que sinto. Agora vamos ficar meio constrangidos.
— Então é verdade que você... que você... me ama? — Ela mal pôde terminar
a frase.
Ele concordou, balançando a cabeça, com um ar sério.
-— Como vê, sou mais idiota do que pensava; mas sou homem o bastante
para admitir uma derrota. Portanto, desejo a vocês toda a felicidade do
mundo.
Ele estendeu a mão e Carrie a segurou. Levantou-se para encará-lo.
— Damon, você entendeu mal. Não amo John... eu amo... você. Carrie sentiu-
o estremecer. Ficou olhando para ela, em silêncio, como
se tentasse acreditar em suas palavras. Então, puxou-a com força para junto
de seu corpo e beijou-a demoradamente. Mas em seguida se afastou e disse:
— Mas eu a vi com John. Ele ainda a ama, ele precisa de você... mais do que
eu. Acho melhor não me envolver com você. Posso me arrepender depois. É
melhor que você saia agora, antes que se arrependa também.
Ele se voltou, esperando que ela saísse. Mas Carrie não podia retroceder
agora. Damon a amava! Não precisava saber mais nada.
— John sabe o que sinto por você — disse ela, sem coragem de tocá-lo. — É
verdade, ele me ama; mas, justamente por isso, quer que eu seja feliz, ainda
que não seja ao lado dele.
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— Ele disse isso? — Damon encarou-a com uma leve esperança no olhar.
Carrie sorriu.
— Tivemos uma longa conversa ontem à noite. Ele pediu para ficar mais
alguns dias; queria me proteger de você. Eu já não aguentava mais suas
insinuações.
— Meu Deus, querida, como a fiz sofrer! — Damon abraçou-a e beijou-a
como se nunca mais fosse parar. — Perdoe-me — disse entre os beijos. —
Sinto muito, fui um tolo. Meu pai me avisou muitas vezes, mas só ontem
acreditei no que ele dizia. Ia falar com você, explicar tudo. Mas você entrou
dizendo que John havia sofrido um acidente. Parecia desesperada.
Pensei que você o amasse. Não queria levá-la ao hospital; era como se a
levasse para o meu próprio funeral. Mas não podia deixá-la dirigir naquele
estado. Então, vi você falar com ele... e me convenci. Tive vontade de me
matar. Carrie, Carrie querida, perdoe-me por ser tão estúpido. Que posso
fazer para compensar o sofrimento que lhe causei?
— Diga apenas que me ama — murmurou ela. — Não precisa dizer mais
nada. O passado já está esquecido.
Ele fez mais que isso. Pediu-a em casamento.
Isso deixou Carrie muito feliz, mas havia uma coisa que a preocupava.
— Quero me casar com você, mais que qualquer outra coisa. Mas... e Zelah?
Não tem medo que eu acabe agindo como ela?
Ele negou enfaticamente.
— Fui um tolo. Deveria ter percebido a diferença desde o começo. Mas estava
tão certo de que duas pessoas parecidas acabam agindo da mesma forma,
que me recusava a acreditar em você. Meu pai tentou me abrir os olhos, mas
eu não lhe dava ouvidos. Ainda odeio Zelah, espero que me perdoe por isso,
querida. Mas, por você e por meu pai, prometo que tentarei não demonstrar
nada, caso ela apareça por aqui.
— Acho que também não quero vê-la — confessou Carrie. — Se bem que foi
por causa dela que nos conhecemos. Se eu não tivesse tentado encontrá-la...
— Você já estaria casada com John — completou ele. — E vocês seriam muito
felizes, tenho certeza.
— Acho que sim. Eu não pensava que pudesse existir um outro tipo de amor.
Ele e eu seríamos bons amigos e viveríamos bem. Mas com você é diferente!
— Como assim?
— Seremos amigos e amantes.
— Tem certeza de que é isso que quer?
— Absoluta. Eu pertenço a você, de corpo e alma. Nunca senti por ninguém o
que sinto por você, Damon. Não sabia sequer que esse sentimento existia.
— Nem eu. Tivemos sorte em nos conhecer. — Ele a abraçou
novamente. — Carrie, querida, acho que devemos contar a meu pai. Mas
tenho medo de sair daqui e descobrir que tudo não passa de um sonho.
Ela levantou a cabeça, procurando-lhe os lábios.
-Não é sonho. De hoje em diante estarei a seu lado até o fim de nossas vidas.

FIM

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