A ALIMENTAÇÃO EM ROMA
Filomena Barata
Nota: Grande parte das imagens aqui usadas, embora
estando disponíveis na internet, têm direitos de autor.
DAS FONTES ESCRITAS
Lucius Junius Moderatus Columella, (Inícios da Era Cristã - 60 e 70 d. C).
Ver: De arboribus e Res rustica
Virgílio (70 a. C. – 21 A 19 a. C., As Geórgicas
Marcus Gavius Apicius (25 a.C. – 37 d.C.). De Re Coquinaria
Ovídio (43 a.C. —17 ou 18 d.C.) Arte de Amar
A ALIMENTAÇÃO EM ROMA
A imagem de luxúria alimentar em Roma é
muito exagerada.
Até ao Século II a.C., a base alimentar dos
grupos sociais pouco diferia, e só após a
Expansão do Império se verifica uma
grande diferenciação.
Na Roma Antiga, o ideal da
culinária tradicional era uma dieta de base
vegetariana: os cereais, legumes,
hortaliças, leite e ovos faziam parte da
dieta elementar.
Os frutos mais comuns eram os figos, as
1 - Natureza Morta. Pompeia (63-79 d. C.)
romãs, as laranjas, as peras, as maçãs e as Museu Nacional de Nápoles.
2 - Fresco com representação de ovos e tordos. Villa Julia Felix. Século I. Pompeia
uvas.
A ALIMENTAÇÃO EM ROMA
As papas (puls) de cereais torrados ou em
farinha (elaseram), apenas cozidas ou
enriquecidas, era o prato mais típico dos
Romanos mais pobres.
Tratava-se de uma mistura ou papa de água,
cevada, aveia, ou trigo, a puls, podendo juntar-se,
na versão mais enriquecida, vinho e miolos de
animais e ser acompanhada com azeitonas, feijão,
figos, queijo ou mesmo porco, tornando-a mais
rica.
Existiam algumas outras variantes da puls: a puls
fabata (feita com favas) e a puls punica (que
continha queijo, mel e uma gema de ovo) ou
a puls iuliano, que continha ostras fervidas e
vinho ou ainda com hortaliças e lentilhas. 1 - Pão e figos. Fresco de Pompeia
2 - Mosaico com representação de Puls
O PÃO
Na sua origem o pão era fabricado pelas mulheres
em casa, situação que com o crescimento das
cidades e do Império se alterou.
Foi com os Gregos que os Romanos aprenderam a
fabricar pão e, durante o Império, os padeiros eram
geralmente Gregos.
O pão era tão importante para os gregos que
honravam os seus deuses e mortos com flores
feitas de massa de pão.
Consta que, por volta de 100 a.C., Roma possuía
mais de 200 padarias comerciais.
O pão mais comum em Roma era um pão redondo,
feito de Emmer, um cereal da família do trigo.
Com o tempo, melhoraram o processo de moagem,
e começaram a produzir pão branco, em vez de
pães escuros, de grãos integrais.
O PÃO
A grande expansão do pão em Roma originou o nascimento da primeira
associação oficial de panificadores, no século I.
Os seus membros gozavam de um estatuto muito privilegiado: eram
livres de alguns deveres sociais e isentos de muitos impostos.
A panificação tornou-se tão prestigiada durante o Império Romano, que
era considerada ao nível de outras artes, como escultura, arquitectura
ou literatura.
Uma escola para padeiros foi criada pelos romanos no século I.
Plínio, no século I, informa-nos que na Hispânia o trigo se guarda em
silos e que «assim, senão penetra qualquer ar no trigo, é seguro que não
haverá qual quer dano». Plínio, NH. XVIII,306-307.
1 – Mó. Ruínas Romanas de Tróia.
2 - Escravos servindo um banquete. Proveniente de Cartago. Século III.A
partir de:[Link]
•
Panis quadratus - Pese o nome, este pão não é quadrado, mas circular. O nome deve-se às barras no topo do pão que a divide em quartos.
O PÃO Panis mustaceus - Pão-comumente cozido em um anel com uma coroa de louros no topo. Cato dá-nos uma lista de ingredientes: 660g. gordura, 330g. queijo fresco, 8,7 litros
Farinha, anis, cominho. (Cat. RR CXXI). Este pão era comumente consumidos no casamento e festas, daí as quantidades maiores de ingredientes.
Panis farreus - pão feito de farinha de espelta grossa para ser quebrado e partilhado por uma noiva e noivo na noite de núpcias.
Panis adipatus - Uma espécie de pizza ou pão achatado, que continha uma boa quantidade de bacon e gordura de bacon.
Panis militaris - pão usado pelos soldados.
Casternsis: Pão usado nos acampamentos militares.
Mundus: Pão de marcha. Ambos foram um tipo de biscoito seco duro que teve que ser embebidos antes de comer. (N.H. Pliny. XVIII-68)
Panis nauticus - Muito parecido com o pão soldado. Conhecido como biscoitos navio. (XXII-Pliny. N.H.)
Panis Picentino- Outro tipo de pão duro que exigia a imersão, geralmente no leite ou mulsum antes de se comer.
Picentino era um pão de luxo feito de alica, encharcado nove dias e depois amassado com uvae passae (o sumo doce de uvas secas ou sumo de uva). Era moldado com um
rolo de comprimento, colocada num vaso de argila e cozido no forno até a ruptura do pote. (Pliny.N.H. XVIII)
Panis boletos - Pão que aparenta a forma de um cogumelo. Era coberto com sementes de papoila. Este pão era da cor do queijo defumado.
Panis alexandrinus - pão popular, frequentemente mencionada em receitas e textos. Continha cominho egípcio e foi importado de Alexandria, daí o nome.
Panis cappadocianus - Um pão estilo 'turco' que foi produzido com massa de farinha e leite. A isto era adicionada uma grande quantidade de sal. Era cozido em forno muito
quente durante um curto período de tempo e tinha uma crosta suave.
Panis secundarius - Um tipo comum de pão branco. Durante a República, comer pão branco era considerado um luxo, pois era caro. No auge da Época Imperial, o pão branco
tornou-se comum e, portanto, conhecido como uma segunda escolha ou secundus. Com o imperador Augusto, veio a popularidade do pão integral, usando produtos menos
refinados e pães mais pesados foram de novo confeccionados.
Pane sordidus – pão de má qualidade.
Orindes - pão, feito de farinha de arroz
Baseado em: Cibo e alimentazione nella Roma antica
[Link]
• :
PÃO COM QUEIJO E ESPECIARIAS
Cybus Cube - pão feito em forma com
anis, queijo de ovelha fresco e azeite de
oliva.
Cribana - Pão-feito com queijo coalho.
Tinha uma forma a assemelhar-se peito
de uma mulher.
Panis mustaceus - pão comumente
cozido em forma de anel com uma
coroa de louros no topo. Catão dá-nos
uma lista de ingredientes: 660g.
gordura, 330g. queijo fresco, 8,7 litros
farinha, anis, cominho. (Cat. RR CXXI).
Este pão era comumente consumido em
casamentos, festas, daí as quantidades
maiores de ingredientes.
«PÃO E CIRCO»
A expressão «panem et circenses» ,“Pão e Circo”, foi
usada pela primeira vez pelo poeta satírico Juvenal,
na sua obra Sátira (Iuv. Sat. 10, 81), por volta do ano
100 d.C.
Assim política do «pão e circo» como ficou
conhecida é a maneira como os governantes de
Roma lidavam com a população para conquistar o
seu apoio e mantê-la sempre satisfeita, com o
provimento de comida e diversão gratuita, ou a
preços baixos, ao povo os ludi circenses.
A Annona era uma taxa ou tributo pago em géneros
que ajudava a suster os exércitos e dava-se o mesmo
nome à repartição do trigo entre os pobres.
Durante a maior parte do Período republicano , o
fornecimento de cereais (cura annonae) era
garantido pelo edil.
Os soldados eram, muitas vezes, recompensados em
trigo. Ceres sentada. Museo Nacional de Arte Romano, Mérida
OS CEREAIS
A importância dos cereais era tão
grande que a Annona foi
personificada por uma deusa e era
distribuído a partir do templo de
Ceres.
Os Ludi Cereales eram os festivais
em honra de Ceres, por altura do
Solstício, trajando todos de branco.
Homenageava-se também o
regresso de Prosérpina, o
momento em que a Natureza
renasce.
Os moinhos de cereais
e os fornos de pão
Pormenor do Mosaico Do calendário rústico" de Saint-Romain-en-Gal. Museud‘
Fotografia a partir de: [Link] Archeologie National de Saint Germain-enn-Laye. A cozedura do pão corresponde a
uma das actividades do Inverno.
A ALIMENTAÇÃO EM ROMA
Gradualmente inicia-se um crescente
consumo de carne, de peixe fresco e de pão,
pois a circulação de artigos de todo o
Império o permite.
A carne usada era geralmente de carneiro,
burro, porco, ganso, pato ou pombo.
Sabe-se que existiam talhantes ou
carniceiros em Roma e muitas outras
cidades, a exemplo de Óstia, como se pode
ver neste relevo.
O queijo e o mel passa a ser consumido de
forma regular e entra em uso a alimentação 1 - Mosaico com representação de alimentos. Século II. Museu do Vaticano.
2 - Relevo encontrado em Óstia, datado do século II d.C..
sofisticada e acri-doce. 3 - Mosaico com representação de peixes. Pompeia. Museu Arqueológico de Nápoles.
AS REFEIÇÕES EM ROMA
Jentaculum -A primeira refeição do dia. Fazia-se
logo que se levantavam, sendo composta por pão,
queijos, ovos e leite de cabra ou ovelha, nas
casas mais abastadas. O pão era embebido em
vinho ou regado a azeite, e o leite era o de cabra
ou de ovelha.
Durante o período imperial, devido a preceitos
médicos, o jentaculum caiu em desuso e esta
refeição era constituída apenas por pão e água.
Prandium - Por volta do meio-dia, tomava-se uma
refeição mais substancial, geralmente em pé (sine
mesa).
Os alimentos eram as sobras da caena do dia
anterior, carnes frias, peixe, queijos e frutas e,
para bebida, o chamado mulsum, um vinho 1 - Mosaico com representação de refeição. Século IV .Uzitta,
Henchir El Machceba, Tunísia. Detalhe: um escravo serve um
misturado com mel, pois ela era consumida visitante.
2 - Pão proveniente de Pompeia
durante as horas de trabalho.
AS REFEIÇÕES EM ROMA
A caena era a principal refeição do dia e iniciava-se entre a
nova e a décima hora, no Inverno, o que corresponde às
três/quatro horas da tarde, como nos informa Plínio (Ep. III,
1) e Cícero ( Fam. IX 26), prolongando-se até de noite,
após o trabalho e uma ida aos balneários.
Juvenal refere que tomar a ceia mais cedo era considerado
vício (cf.: I, 49).
Era normalmente para esta refeição que os mais ricos
convidavam os amigos e clientes e algumas transformavam-
se, em dias festivos, em verdadeiros banquetes.
A cena dividia-se em três
partes: gustatio (ou gustus ou promulsio), prima
mensa e secunda mensa.
O gustatio era composto por aperitivos, como cogumelos, Pintura de Pompeia com representação de um banquete em família, Museo
Archeologico Nazionale (Nápoles).
saladas, rábanos, couve, ovos, trufas, atum, ostras e queijo. my [Link] painter before 79 AD - Theodore H. Feder, Great Treasures of Pompeii
and Herculaneum (Abbeville, 1978) pp. 24-25
COMER E BEBER: AS TABERNAE
A maioria dos habitantes das
cidades viviam em apartamentos, as
insulae, desprovidos de fogões e
havia lojas que ofereciam, entre
tantos produtos, alimentos quentes
para levar, salsichas, caldo de
ervilhas e variedades de salgados.
Imagens:
1 - [Link]
2 - Fotografia a partir de: [Link]
[Link]
3 - Tentativa de reconstituição:
Historia y Roma antigua
COMER E BEBER
Era comum consumir alimentos fora de
casa, pelo que existem vários tipos de
locais onde se vendiam, a exemplo
das cuppediae, frequentadas por clientes
mais ricos.
As popinae eram as mais populares, onde
Termopolium e Taberna de Pompeia se podia comer ou comprar para levar.
Similares às popinae, eram
as cauponae, onde se vendia vinho e
se podia também pernoitar .
E ainda havia as "tascas", normalmente
mal afamadas, onde se podia comer e
beber vinho, thermopolia.
As tabernae eram lojas onde se podiam
comprar todos os tipos de produtos.
As Tabernae
A palabra Tabernae designa as lojas
onde se podiam comprar todos os tipos
de produtos :
sutoria, vinaria, argentaria, libraria, car
naria.
Quando era um quiosque desmontável
denominava-se tentorium, nome que
também se dava a às tendas de
campanha militares.
Tabernarius é o homem que se dedica
ao pequeno comércio, Tenuis
Mercatura,
enquanto a Magna Mercatura é o
Imagens a partir de: [Link]
grande comércio. [Link]/m/page/Housing+in+Ancient+Rome
AS TABERNAE e os Taberneiros
1 - Baixo relevo de uma sepultura com representação de carro puxado
a bois, para venda de vinho.
Museu Romano de Augsburgo
2 - Placa emeritende conservada no MNAR de Mérida. Representa
uma taberna ou Termopolium e uma taberneira que enche um jarro
de vinho num tonel (certamente alusão a profissão da defunta).
No frontão está a dedicatória aos Manes. Debaixo, gravou-se a cartela.
Inscrição funerária de Sentia Amarantis
Inscripción: D(is) M(anibus) S(acrum)
/ Sent(iae) Amarantis /ann(orum) XLV Sent(ius) /
Victor uxori / carissimaef(aciendum)
c(uravit) cun cua vix(it) ann(os) XVII
Tradução: Consagrado aos Deuses Manes, Sencio Victor mandou
fazer para sua querida mulher Sencia Amarantis de 45 anos com a
qual viveu 17 anos.
Transporte e venda de vinho –
Taberna vinaria
1 – Relevo com cena de Taberna e transporte de barris. Detalhe de um monumento funerário. Saint Maximin, França. Século II.
Treviri Museum. Imagem a partir de: [Link]
2 - Baixo relevo de embarcação transportando barris. Século I. Rome, Museo della Civiltà Romana
Macellum, o Mercado
Gradualmente foram-se
desenvolvendo os grandes
Mercados, onde se podia
comprar os produtos que os
camponeses traziam às cidades,
bem como carne e peixe.
Localizavam-se junto do fórum,
para facilitar o seu acesso.
1 - Fotografia a partir de:
[Link]
[Link]
2 - Macellum, ou mercado de Pompeia
A LUXÚRIA ALIMENTAR:
As Fontes Escritas e Arqueológicas
«O prato seguinte foi pastéis de queijo frios, com uma
cobertura de mel quente, regado por um vinho hispânico de
excelente qualidade. Em boa verdade, aos pastéis nem os
provei, mas de mel até me besuntei. À volta havia grãos-de-
bico, tremoços, nozes descascadas à discrição e uma maçã
para cada pessoa. Mesmo assim, eu agarrei em duas e tenho-
as aqui escondidas no guardanapo; é que se não levo algum
presente ao meu escravito, tenho logo algazarra. Mas em boa
hora a minha patroa mo recorda: puseram à nossa disposição
uns nacos de carne de urso; sem pensar, Cintila provou-a e
esteve quase a ponto de vomitar as próprias entranhas. Eu,
pelo contrário, despachei mais de uma libra, pois tinha o
mesmo sabor que o javali. No que me toca é assim: se o urso
devora o pobre do homem, muito mais deve o pobre do
homem devorar o urso! No final, tivemos queijo fresco, vinho
recozido, um caracol por pessoa, tripas aos bocados, fígado no
prato, ovos embarretados, rábanos, mostarda e um prato
cheio de merda — e pára, Palamedes! Circularam ainda, numa
tina, azeitonas picantes, das quais alguns descarados sacaram
umas boas três punhadas. Ao presunto, deixámo-lo ir em
liberdade.»
Petrónio, Satíricon, Edições Europa América. Livros de Bolso Fresco com cena de Banquete. C. 50 a. C. Herculano.
OS ALIMENTOS DOS ROMANOS
DE CONDIÇÕES ELEVADAS
Para nos apercebermos bem do
que era a alimentação dos
romanos de condições elevadas,
valerá a pena ver com atenção
alguns mosaicos, que são como
que um espelho do que era
considerada uma "mesa farta“,
como é o exemplo do Mosaico
de um Triclinium da villa da
época de Adriano no Aventino.
Costuma denominar-se este
tema como “chão sem varrer”.
Mosaico de Triclinium da villa de Adriano, Aventino
OS ACEPIPES
Aos acepipes e iguarias pertenciam
muitos pratos conhecidos, muitos
deles através do gastrónomo
Apício, sabendo-se que os
Romanos alimentavam os porcos
com figos para que sua carne
ficasse perfumada e criavam-se os
gansos de maneira especial para
com eles preparar patês.
Faziam o mesmo com os frangos,
alimentando-os com anis e outras
especiarias. Fresco proveniente de Herculano
A ALIMENTAÇÃO EM ROMA
Para a maioria dos romanos, nem sempre
era possível consumir alimentos frescos,
pelo que os mesmos eram fumados,
salgados, secos ou conservados em
vinagre.
O célebre molho que se misturava em
praticamente todos os alimentos, o garum,
bem como os condimentos e ervas,
ajudavam a disfarçar o sabor que os
menos frescos pudessem ter.
Em território actualmente português são
conhecidas inúmeras unidades fabris de
conserva de peixe e de produção de
garum, a exemplo de Lisboa, Setúbal,
Tróia, Ilha do Pessegueiro e muitas do
Algarve.
ALGUNS ALIMENTOS
Em Apício, na sua obra De Re Coquinaria, são
referidas inúmeras receitas com porco,
centrando-se aliás a maioria delas neste
alimento. Poderíamos ainda referir o faustoso
banquete de Petrónio, na sua obra Satyricon,
onde o porco recheado tem marcada a sua
presença.
Em contrapartida, os legumes eram utilizados
nos pratos vulgares, tal como as couves. Em
grande parte eram cultivadas nos jardins,
sendo apenas minoritariamente adquiridas nos
mercados. Mas a couve era usada com fins
digestivos.
Também a abóbora era muito consumida e só
Apício refere 9 receitas.
1 - Porca alimentando os filhos. Proveniente da colina do Viminale em Roma. Museu Vaticano.
Fotografia obtida de: [Link]
Romana/151487124895824
2 – Mosaico de homem com leitão na mão. Museu Monográfico de Conímbriga.
ALGUNS ALIMENTOS
“Apanhe os caracóis, limpe-os com uma
esponja e retire-lhes a membrana para
poderem sair. Deite-os num recipiente
com leite e sal durante um dia, apenas
leite nos dias seguintes, e limpe de hora
a hora a sujidade. Quando estiverem
gordos de modo a não entrarem na
concha (…) frite-os em azeite. Junte
garum de vinho. Podem ser igualmente
engordados com papas.”
In Livro de Cozinha de Apício – Um breviário do
gosto imperial romano, Inês de Ornellas e Castro.
Relógio d'Água, 2015
Detalhe de mosaico paleocristão, século IV d.C., Basílica Patriarcal de Aquileia, Itália.
Fotografia: [Link]
ALGUNS ALIMENTOS: Abóbora
ALGUMAS RECEITAS DE APICIUS
Numa das suas receitas, SALA
CATTABIA, assim é referido por Apicius:
“pimenta, hortelã, aipo, poejo seco,
queijo, pinhões, mel, vinagre,
liquamen, gemas de ovo, água fresca.
Escorra o pão demolhado em água
avinagrada, ponha numa panela com
queijo de vaca e pepinos, alternando
com pinhões. Deite alcaparras bem
cortadinhas com fígados de galinha.
Regue com o molho, coloque sobre um
recipiente com água fria e sirva assim”
ALGUNS ALIMENTOS: O QUEIJO
O fabrico do queijo é muito anterior à Época
Romana, havendo indícios do seu fabrico já há
8.000 anos.
Inicialmente era fabricado apenas a partir de leite
de cabra e de ovelha, mas, em Época Romana,
passa a ser usado o leite de vaca.
Era já utilizando o cardo como coalho que produz
a primeira etapa de formação do queijo, a
coagulação.
Os Gregos eram muito apreciadores desta iguaria
que era dada a comer em banquetes, a classes
privilegiadas e aos desportistas.
Foram os pioneiros da introdução de ervas
aromáticas nos queijos.
Os Romanos foram os responsáveis pela sua
difusão pelo Império, fabricando inúmeras
variedades.
Existem muitas referências latinas ao queijo, 1 – Fresco pompeiano representando a coalhada feita com
salientando que Plínio-o-Velho menciona o queijo
proveniente da Grécia, dos Alpes e da Gália. moldes de junco.
2 – Fresco de Villa Adriana, Pompeia, com representação de
queijos e espargos Museu Arqueológico de Nápoles.
ALGUNS ALIMENTOS:
O QUEIJO
O queijo era usado na alimentação dos
soldados e atletas, mas também
transformado em iguaria indispensável
nos grandes banquetes imperiais.
Era ainda usado como sobremesa e
misturado com pão.
Em Portugal, na Villa Romana do Rabaçal
foram encontrados vestígios
arqueológicos que indiciam o fabrico de
queijo desde remotas alturas.
ALGUNS ALIMENTOS: O QUEIJO
No célebre banquete descrito por
Petrónio na sua obra Satíricon,
escrita no século I da nossa Era, é
referido o uso do queijo
confeccionado de diferentes
formas: prensado à mão, bem
como em «pastéis de queijo frios,
com uma cobertura de mel
quente, regado por um vinho
hispânico de excelente qualidade 2 - Mosaico com representação de Escravos servindo um banquete.
Proveniente de Cartago. Século III.
(...).» e ainda queijo fresco. A partir de:
[Link]
ALGUNS ALIMENTOS: O QUEIJO E OUTRAS ESPECIARIAS
Os Romanos costumavam acrescentar sumo de
figo e nozes para aromatizar os queijos.
Columela, autor de Res rustica, no século I d. C.;
descreveu que se colocavam as nozes picadas
no balde de ordenha da vaca, enquanto outros
trituravam as nozes e misturavam com o leite
fresco antes de colocar o coalho.
Descreveu também o processo usado para a
fabricação do queijo prensado a mão (‘caseus
manu pressus’).
Quando a massa estava coagulada deixava
descansar sendo depois cortada em fatias
(‘rescinditur’) e colocada em água quente.
As fatias eram retiradas da água e moldados à
mão e prensadas.
1 - Cesto com figos. Pintura parital. Oplontis, Século I d.C. Torre Annunziata, Nápoles.
2 - Mosaico com representação de noz e rato. Villa Adriano. Museu do Vaticano
ALGUNS ALIMENTOS: O QUEIJO
Mas a maioria das referências ao queijo são do gastrónomo
Apício (25 a. C - 37 d. C.) :
BVBVLVS CASEVS, ou seja o queijo de leite bovino;
CASEUS CAPRINUS, queijo de cabra
LIBUM, era como um cheesecake, a primera torta de
queijo, elaboraba com farinha, queijo, ovos e mel.
OXYGALA: Coalhada. Queijo aromatizado com ervas;
PLACENTA: Um tipo de bolo de queijo.
SCRIBILITA: Pastelaria, ou um tipo de panqueca, muito
quente. Pastel de queijo. Torta de queijo;
TORTA ALBA: bolo de queijo.
Também é referido o seu uso em pratos de peixe como
TYROTARICVS, feito de queijo, sal, peixe, ovos, temperos.
MORETVM: Moreto, iguaria feita de ervas, alho, queijo e
vinho.
ALGUNS ALIMENTOS: O QUEIJO
Típico era um prato para os dias de casamento,
mesmo entre a plebe: o chamado Moretum,
cujos principais ingredientes eram queijo de
ovelha, aipo, cebola e vinho.
Este prato mereceu um célebre poema com o
mesmo nome.
Atribuído precariamente a Virgílio, como um dos
poemas de sua juventude, o Moretum é a
narrativa de um camponês que, ao levantar-se
pela manhã, prepara, com sua escrava africana,
a própria refeição. Trata-se de um pão chato,
sem fermento, sobre o qual são espalhados
queijo seco, alho, ervas diversas e azeite.
Requeijão. Pintura Mural Templo de Ísis. Pompeia
UM POEMA: Moretum
[Símulo] «tinha adentrado a horta; e em primeiro lugar, afundando quatro dedos na terra revolta, retira com
leveza uns alhos e suas fibras espessas. Daí, com uma linha fina, arranca os pequenos ramos do aipo, a arruda
molhada e o coentro que treme. No lugar onde os colheu, sentou-se alegre ao fogo e pediu com voz clara um
pilão à escrava. Então retira uma a uma as folhas de seus ramos, despe as vagens de suas cascas, e as
abandona espalhando os restos ali pelo chão, lava no tanque de pedra os bulbos selecionados, deixando
escorrer, através de uma abertura, a água pela relva; salpica a porção com uma pitada de sal, que se
acrescenta também ao queijo rústico e acaba sobre ditas ervas, e enquanto com a mão esquerda segura sua
veste sob a perna de pelos eriçados, a direita mói com o soquete, primeiro outras ervas, depois mói tudo por
igual na mesma seiva. A mão mantém o giro: aos poucos a mistura perde as próprias características, e dentre
todas resulta uma só cor, nem verde de todo, pois as porções de queijo não o permitem, nem brilhante como
o leite, porque já muito modificada pelas ervas. Às vezes o odor amargo alcança-lhe as narinas e este
condena sua refeição com uma careta, às vezes esfrega com a mão os olhos lacrimejantes e, furioso, insulta o
odor inocente. O trabalho avançava (…) Então finalmente circunda todo o prato com dois dedos e junta as
partes distantes ao conjunto, para que o resultado obtenha a aparência e o nome de moretum (v. 85-116).
Atribuído a Virgílio
ALGUNS ALIMENTOS: O QUEIJO
Muitos escritores da Época Romana deram a
conhecer vários tipos de queijo ou de pratos
confecionados com queijo.
Catão, (234 a.C. - 149 a.C.), que escreveu um
tratado, uma espécie de manual chamado De
Agri Cultura no qual se podem encontrar
orientações para os cuidados médicos que
deviam ser adotados para os escravos e para o
gado. Ficamos a conhecer muitos dos hábitos
alimentares romanos.
Varrão ( 116 a.C. – 27 a.C.), autor de De re
rustica;
Columela, autor de Res rustica, no século I d.
C.;
Ovídio (séculos I a.C. – I d. C), na sua obra
Geórgicas;
Plínio, Velho (23–79 d.C.), na sua História Marco Pórcio Catão, (234 a.C. - 149
Natural. a.C.),
AS BOLACHAS DE QUEIJO E MEL
Os pastéis romanos, assim como
as bolachas, costumavam conter
queijo e mel como adoçante e
adquirem o nome de placenta.
A palavra placenta vem do latim e
significa ‘pastel folhado’.
Placenta era também uma torta
redonda, constituída com vários
discos de massa, recheados de
queijo, mel, ervas ou frutas.
1 - Mosaico procedente de Cartago
O VINHO E A VINHA:
das fontes escritas
70 BC, Virgilio (70 a. C. – 21 A 19 a. C.
Ovídio (43 a.C. —17 ou 18 d.C.)
«Arte de Amar»
ALGUNS ALIMENTOS:
as fontes escritas e arqueológicas
Na sua obra, Apício dá-nos também
conta do uso do vinho como tempero
em múltiplas receitas, lembrando que
se confeccionavam omoletes, entre as
quais destacamos uma feita com
espargos, vinho, alho, pimenta, azeite
e liquamen.
Mas podemos ainda ver uma receita
levando pêssegos, pimenta, cominho,
menta, aipo, coentro, poejo, tâmara,
mel, vinho, liquamen, azeite e vinagre.
Mosaico com representação de espargos
Mosaico de Lod (Lida), Israel. Detalhe. Família de (Museums Rome-Lácio )
perdizes. Mosaico com representação de pato . III sec.
Mosaico com representação de perdizes. Carrenque, d.C. Dall'area del Monte della Giustizia in
Córdova. Museo Arqueológico National de Madrid. Piazza della Stazione Termini, Roma.
O VINHO E A VINHA:
das fontes escritas
Os antigos romanos tiveram o seu próprio
conhecimento sobre o emprego medicinal
dos vegetais que chegou até nós graças às
obras de diversos autores da época,
principalmente de médicos e
enciclopedistas, como Catão, O Censor, (234
a.C. — 149 a.C.), também conhecido
como Catão, o Velho (Túsculo 234 a.C. —
Roma 149 a.C.; Plínio, O Velho, Celso,
Dioscórides ( c.40 – 90 a.C.) e Galeno
(Pérgamo, 130-Roma 200/216),.
O vinho, para além das suas características
desinfectantes, era usado em muitas outras
funções.
O VINHO:
as fontes escritas (Políbio)
Passum - É um vinho de passas (Vinho de
Uva-Passa), muito doce, supostamente
originário de Cartago, e foi usado pelos
Romanos como molho adoçante nos seus
alimentos.
O autor grego Políbio referia-se-lhe do
seguinte modo: "entre os romanos as
mulheres estão proibidas de beber vinho, e
podem beber o que é chamado passum ".
(Políbio, Histórias , Fragmentos, 4.6.2)
Copo. Vidro. Época Romana, século I d.C.
Necrópole da Rua da Lavoura, Beja. Fotografia: Miguel Serra
O VINHO:
as fontes escritas (Apício) e arqueológicas
Vindima e prensa das uvas. Mosaico da Igreja de Santa Constança, Roma. Século IV
O VINHO:
as fontes escritas (Apício) e
arqueológicas
Ânfora bética Haltern 70 de Cerro da Vila
O VINHO: Fontes Arqueológicas
Erotes, aqui representados como mercadores de vinho, ilustram Erotes procedendo à degustação do vinho, garantindo desse
a fase final da produção do vinho, verificando se se encontra em modo a qualidade do produto.
condições de ser vendido. Casa de Vettii, Pompeia. Casa de Vettii, Pompeia
A ALIMENTAÇÃO: Fontes Arqueológicas e escritas
“Todos os montanheses são frugais:
bebem só água, dormem no chão….”
“Os montanheses durante dois terços
do ano alimentam-se de lande de
carvalho. Secam-nas, trituram-nas,
moem-nas e fazem com elas pão que
pode guardar-se durante muito
tempo. Bebem também cerveja.
Vinho, Têm falta dele, e o pouco que
logram, rapidamente o consomem
nos banquetes…”
“Em vez de azeite, usam
manteiga.” (ESTRABÃO, III, 3, 6-7)
Sítula de bronze decorada com Erotes vindimando.
Procede da antiga Nertobriga (Fregenal de la Sierra,
Badajoz).
Museo Arqueológico Provincial de Badajoz.
Fotografia José Manuel Jérez Linde
ALGUNS ALIMENTOS: o azeite
O azeite era um produto fundamental em Roma,
com muitos e diferenciados usos: iluminacão,
cosméticos, rituais, unguentos, alimentação.
Na Alimentação é de uso corrente, tanto em casas
ricas como pobres, e havia zeite de muitas
qualidades.
Sobre o azeite existem inúmeras referências em
Virgílio, Macróbio, Columela e Plínio o Velho que
nos indicam que haveria, pelo menos, vinte tipos
de azeitonas diferentes.
«Há também azeitonas muito doces que se secam
por si, mais doces que uvas passas; são bastante
raras e produzem-se na África e próximo de
Emérita, na Lusitânia» Plínio, NH, XV, 17.
Este autor latino refere que a Bética obtinha as
suas mais ricas colheitas das oliveiras e que o solo
cascalhoso era muito apto para plantar olivais.
1 - Fresco com representação de azeitonas. Museo Arqueológico
Nacionalde Nápoles
2 - Cantharos com ramas de oliveira e azeitonas. Pompeya.
Fotografias a partir de: [Link]
[Link]
ALGUNS ALIMENTOS: o azeite
1 - Trapetum ou mó de azeite Museo de Boscoreale Mosaico com representação de prensa da azeitona. Saint-
2 - Trapetum" - Servia para transformar a azeitona em amurca Romain-en-Gal, Roman, Século III d. C.. Musee des
que, por sua vez, era transportada para as ceiras ou, em latim, Antiquites Nationales, St. Germain-en-Laye, France
fiscinae. Estas eram, depois de cheias, colocadas no lagar
onde se fazia a prensagem.
Imagem: Trapetum. Pompeia.
Fotografía: Heinz-Josef Lücking
ALGUNS ALIMENTOS: o mel
O mel também é citado em inúmeras fontes
clássicas, e era usado para fins medicinais, como
condimento, ou mesmo comido ao natural.
Segundo Plínio (Plínio NH XI), as abelhas fazem
cera com as flores das plantas, excepto algumas;
«é erróneo exceptuar o esparto, pois na
Hispânia há muitos meles que procedem de
espartos e têm gosto a esta planta. Julgo
igualmente engano esquecer a oliveira, porque é
certo que a abundância de oliveiras favorece a
multiplicação dos enxames», Plínio, N.H., XI e
XXI, 74.
Estrabão diz-nos que «Da Turdetânia exporta-se
trigo, muito vinho e azeite; este, para mais, não
só em quantidade, como de qualidade
insuperável», bem como «cera, mel, pez». Estr.
III, 2, 6.
Segundo a mitologia, o mel é considerado como
um dos presentes que Flora ofertou aos
homens, tal como as sementes das flores.
O VINHO e o serviço de mesa
1 - Vasilhame para vinho, Museu Nacional de Arte Romano, Mérida
A CERÂMICA DOMÉSTICA E AS ÂNFORAS
Os romanos fabricavam objectos em
cerâmica com várias utilidades: havia a
cerâmica comum de mesa, cozinha e
despensa destinada a servir, cozinhar,
armazenar e transportar, como pratos,
vasos, taças e garrafas
No Forno romano da Quinta do Rouxinol
foi possível identificar o fabrico de pratos,
tigelas, jarros, potes, tachos, muito
possivelmente destinados às populações
locais, para a preparação, consumo e
acondicionamento de alimentos.
Por sua vez, as ânforas destinavam-se a
ser enchidas com conservas de peixe,
vinho e azeite.
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Pubblicato: Venerdì, 21 Aprile 2017 10:12
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Roma; a história dos alimentos consumidos no império romano
Publicado em 3 de julho de 2018
Mauricio Barufaldi
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