Celso Amorim
de seus vizinhos da América Latina e Caribe, da África e do mundo
árabe.
Esse ímpeto, corroborado por sinais de uma redistribuição do
poder mundial em direção à multipolaridade, motivou os países
sul-americanos a criar um quadro institucional para debater e
perseguir seus interesses comuns. A criação da Unasul, em 2008,
sintetizou o avanço dos anos anteriores nas várias frentes de
integração e projetou as aspirações de progresso em outras tantas.
Sua agenda atual é multifacetada. Inclui temas como a
defesa da democracia, o comércio, o desenvolvimento social, a já
mencionada infraestrutura, a ciência e a tecnologia e o problema
mundial das drogas. Ao dialogarem sobre seus desafios comuns e
planejarem coletivamente sua prosperidade, os países da Unasul
fizeram da América do Sul uma realidade política que dá vida ao
que até então era um mero conceito geográfico.
Em uma região que deixou de ser objeto da história para
tornar-se sujeito ativo de seu devir, a integração não poderia
deixar de estender-se à área da defesa. Tradicionalmente, este
foi um campo cercado por sensibilidades. De um lado, diferendos
territoriais dificultavam (e por vezes ainda dificultam) a exploração
do potencial cooperativo. De outro, quando se tratava da
segurança nacional, a ideia das fronteiras como “obra de separação
e divergência” aplicava-se também aos limites que dividem o
Estado da sociedade no interior dos nossos países. A opacidade e a
desconfiança eram a regra de parte a parte.
A democratização transformou a relação entre cidadãos e
governantes pelo fortalecimento do princípio da transparência
no interior de nossas comunidades políticas. Embora os processos
políticos continuem a evoluir – e nem sempre de forma linear –, a
América do Sul é hoje um continente politicamente mais maduro,
no qual defesa e democracia se reforçam mutuamente.
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Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
Convido todos, a propósito, a examinarem o Livro Branco
de Defesa Nacional que o Governo da Presidenta Dilma Rousseff
acaba de apresentar ao Congresso Nacional. Iniciativas como essa,
já corriqueiras em nossa região, suscitam o acompanhamento
atento e crítico dos assuntos de Defesa pela sociedade civil,
fator imprescindível para políticas de defesa em sintonia com os
interesses nacionais.
Essa representatividade é exemplificada, no caso brasileiro,
pelo sólido vínculo entre a política de defesa e a política de
desenvolvimento que orienta a nossa Estratégia Nacional de
Defesa.
Ao mesmo tempo, estou convencido de que a integração sul-
-americana é o caminho a ser trilhado para que a relação entre
nossos países na área de defesa leve, cada vez mais, a marca da
convergência estratégica. Uma América do Sul que procura
superar desafios comuns e projetar-se coletivamente na política
internacional deve refletir maduramente sobre sua identidade em
matéria de defesa.
A condição básica dos Estados no tocante à sua segurança
é o exercício do direito soberano à sua própria defesa. Desde a
fundação das Nações Unidas, no pós-Segunda Guerra Mundial,
o emprego da violência pelos Estados em suas relações externas
ficou, ao menos em teoria, sujeito ao sistema de segurança coletiva
centrado no Conselho de Segurança.
Exceção feita à autodefesa, essa sempre indeclinável,
individual ou coletiva, prevista na Carta de São Francisco em
termos bastante estritos, o uso da força depende da autorização
daquele órgão, que detém a responsabilidade primária pela paz e a
segurança internacionais.
Com todas as suas imperfeições institucionais, que estão
a requerer inadiável esforço de reforma, o arcabouço jurídico da
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Celso Amorim
ONU fornece, ainda, o melhor quadro normativo para regular as
questões de paz e de guerra. É pelas Nações Unidas que poderemos
“multilateralizar a multipolaridade”, tornando esta nova ordem
mundial sinônimo de estabilidade e prosperidade para todos os
povos.
“Multilateralizar a multipolaridade”: não se trata, aqui, de
mero jogo de palavras. A multipolaridade, expressão de uma
distribuição de poder menos concentrada, embora benéfica, não
pode, por si mesma, garantir a paz e, muito menos, a justiça.
Sem o arcabouço normativo do multilateralismo, a
multipolaridade ensejará no máximo um equilíbrio de poderes,
a exemplo do sistema que vigorou na Europa, com algumas
interrupções, entre a Paz de Westfália e a Primeira Guerra Mundial,
isto é, entre meados do século XVII e os albores do século XX.
E, como todos sabem, esses quase três séculos de história
foram pontilhados por conflitos e tentativas de dominação, que,
por vezes, levaram à supressão de povos e nações. O final do largo
período das guerras mundiais do século XX assistiu à criação
de um sistema de normas, ao qual faltou, entretanto, uma base de
sustentação na realidade de poder.
À bipolaridade da Guerra Fria seguiu-se uma fase do que
poderíamos chamar de “unipolaridade consentida”, na qual o
multilateralismo frequentemente serviu de manto a atitudes
hegemônicas.
Temos, hoje, pela primeira vez na história moderna,
uma combinação entre a existência de normas internacionais,
portanto multilateralismo, e uma realidade que se aproxima da
multipolaridade: uma espécie de “equilíbrio de poder normatizado”,
no qual, além das regras que visam proteger a independência e
a soberania, estão presentes, ainda que de forma embrionária,
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Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
normas que dizem respeito à justiça, aos direitos humanos e à
preservação da natureza.
É esse multilateralismo assentado em realidades de poder
ou, se quisermos, é essa multipolaridade normatizada que poderá
garantir, na medida em que isso seja de todo possível, um futuro
de paz e de justiça.
Os países sul-americanos desejam dar sua contribuição a essa
causa. Mas no mundo em que vivemos – um mundo de estados-
-nação, marcado ainda por fortes assimetrias de poder – sermos
pacíficos não pode significar que sejamos indefesos.
Embora vivamos em uma região afastada dos principais
focos de tensão global, não podemos ser imprudentes quanto à
possibilidade de nos tornarmos vulneráveis a riscos ou ameaças
provenientes de cenários em princípio alheios ao nosso ambiente.
Não podemos, por exemplo, descartar hipóteses de conflito entre
terceiros países que afetem adversamente nossos interesses ou
mesmo que atinjam nosso patrimônio.
É preciso reconhecer que o arcabouço multilateral da ONU,
que regula o uso da força entre os Estados e que desejamos
prestigiar, tem sido repetidamente minado por ações armadas
unilaterais ou pela extrapolação dos objetivos de mandatos
conferidos pelo Conselho de Segurança – o que inevitavelmente
afeta a credibilidade do sistema.
A dissuasão liga-se à avaliação soberana dos riscos e ameaças a
que está submetido um país ou, nesse caso, uma região. Pressupõe
a capacidade de imposição de custos proibitivamente altos para
eventuais forças adversas, de modo a desincentivar ações hostis,
provenham de onde provierem.
Está superada a etapa histórica em que se tentou persuadir
nossos países de que sua segurança estava garantida por potências
de fora, cabendo às nossas Forças Armadas especializarem-se,
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Celso Amorim
total ou principalmente, em tarefas como o combate ao crime
organizado ou ao tráfico de drogas.
Os países sul-americanos têm o direito e o dever de proverem
sua própria defesa através de adequada capacidade dissuasória.
Mas não é óbvio que possam fazê-lo de forma isolada. A estratégia
global dissuasória conjuga-se com uma estratégia regional
cooperativa. A construção da América do Sul não estará completa
enquanto as fronteiras que apartam nossos países não forem, e
volto a usar as palavras de Rio Branco, “verdadeiras garantias de
segurança e paz” entre nações “cada vez mais prósperas e fortes”.
O chamado do Barão do Rio Branco por uma “inflexível
diretriz de concórdia eficaz e leal amizade entre todas as nações
sul-americanas” é atualíssimo e aplica-se muito especialmente à
área da defesa.
Se é verdade que o conflito segue sendo um fator de incidência
nas relações internacionais, não é menos verdadeiro que, em
certas regiões, sua manifestação é largamente mitigada – se não
eliminada de todo, mas quem sabe eliminada – graças, em parte,
ao desenvolvimento de instituições voltadas à paz e à cooperação.
A transformação da realidade política europeia nas últimas sete
décadas é um exemplo eloquente.
Temos na América do Sul alguns casos de “mudança pacífica”.
Gosto sempre de citar, a esse respeito, a superação das suspeitas e
rivalidades entre Brasil e Argentina. Nossos dois países souberam
desmontar uma estrutura de interação fundada na política de
poder e edificar uma parceria que é exemplo mundial de construção
de confiança. A Agência Brasileiro-Argentina de Contabilidade e
Controle de Materiais Nucleares, ABACC, é representativa da força
do projeto integrador, capaz de gerar uma visão compartilhada de
paz e entendimento em uma das áreas mais sensíveis da segurança,
a área nuclear. Ao mesmo tempo, a ABACC fortalece nossa posição
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Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
– tanto do Brasil, quanto da Argentina – nas discussões sobre
desarmamento e não proliferação em nível global.
Avanços como esse foram decisivos para que nossos países
abrissem, aqui na região, novo ciclo de inserção competitiva e de
desenvolvimento industrial. Pela cooperação, os países atingem
ganhos que não obteriam agindo separadamente.
No plano bilateral, operações de prevenção e repressão de
criminalidade fronteiriça, como as Operações Ágata, no Brasil,
ensejam, também, oportunidades de cooperação e criação de
confiança com nossos vizinhos. Seguindo as normas estabelecidas,
o Brasil notifica seus vizinhos da movimentação de Forças por
ocasião desse tipo de operação. Em muitos casos, temos tido
observadores desses países dentro das nossas Forças e, até mesmo
em alguns casos, operações simultâneas com nossos vizinhos
funcionando como espelho, o que garante a maior eficácia da
atividade.
Devemos continuar, no plano bilateral ou plurilateral, o
desenvolvimento de exercícios conjuntos, mais uma forma de
ampliar o conhecimento mútuo entre nossas Forças Armadas e
aperfeiçoar suas habilidades em ações conjuntas. Quero saudar,
nesse contexto, a grande iniciativa entre Argentina e Chile de
fundarem a Brigada Cruz Del Sur. O Brasil está estudando uma
maneira de participar, pelo menos em um primeiro momento,
como observador nesse esforço.
No plano multilateral regional, a Unasul passou a contar com
uma instância de consulta, cooperação e coordenação em matéria
de defesa: o Conselho de Defesa Sul-Americano, criado na reunião
extraordinária de Costa do Sauípe em dezembro de 2008.
A instituição do Conselho ocorreu menos de sete meses
após a assinatura do Tratado Constitutivo da Unasul, em maio do
mesmo ano. Em seu período ainda curto de existência, o Conselho
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Celso Amorim
já exibiu notável capacidade de equacionar questões surgidas
entre seus membros, dando contribuição efetiva à manutenção da
estabilidade regional e à causa da paz.
O atual plano de ação do Conselho de Defesa Sul-Americano
atesta a variedade de áreas em que a cooperação sul-americana
tem realizado ou realizará o potencial de ganhos conjuntos.
A coordenação de ações na missão de paz no Haiti é um exemplo
de contribuição competente e de forte conteúdo humano para
a reconstrução do país irmão. Outra área indicada no plano de
ação do CDS aberta a enormes benefícios pela cooperação é a de
indústria e tecnologia de defesa.
Uma das diretrizes da Estratégia Nacional de Defesa brasileira é
justamente o estímulo à integração sul-americana, e especialmente
o fomento à integração das bases industriais de defesa. Projetos
como o do avião cargueiro-reabastecedor KC-390, em que o Brasil
tem contado já com a parceria da Argentina, e ao qual poderão
juntar-se outros países, começam a dar concretude aos planos de
desenvolvimento industrial coletivo sul-americano.
Onde ainda não podemos desenvolver conjuntamente,
procuramos comprar produtos de defesa de nossos vizinhos.
É o caso de lancha fluvial blindada que estamos adquirindo da
Colômbia. Notem-se, também, os avanços na implementação dos
procedimentos de aplicação das medidas de fomento da confiança
e segurança, documento adotado pelo CDS.
Esse repertório de medidas aprofundará a identificação
estratégica entre as nações sul-americanas. São pilares do
documento a proscrição do uso da força e da ameaça do uso da
força, assim como o compromisso regional com o status da América
do Sul como zona livre de armas nucleares.
Todas essas frentes de cooperação ampliarão as capacidades
individuais e coletivas dos países sul-americanos. Uma América do
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Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
Sul que substitui a política de poder pela construção de confiança
poderá atingir aquilo que eu chamarei de “coordenação dissuasória”,
isto é, um nível de cooperação e integração que desestimula ações
hostis contra cada um dos países ou contra o conjunto da América
do Sul.
Uma identidade sul-americana em matéria de defesa não
será estabelecida de uma penada, mas tampouco surgirá se não
colocarmos nossas mentes para refletir em seus contornos.
A história – recente, mas vibrante – da construção da América do
Sul dá prova de que já temos uma trajetória bem definida a nos
orientar. Aspiramos à justiça social, ao desenvolvimento econômico
e a uma participação coesa nas relações internacionais do século
XXI. Compreendemos que democracia, soberania e integração são
vetores complementares na estratégia dissuasória e cooperativa de
defesa.
Infensos que somos a intentos hegemônicos ou de imposição
de um pensamento único, reconhecemos a pluralidade como
atributo básico do processo de pesquisa e formulação da identidade
sul-americana em defesa. A variedade de experiências e de
condições constitui riqueza a ser explorada. Ao mesmo tempo, é
preciso levar a sério os diferentes diagnósticos de risco e ameaças
feitas por cada um de nossos países. Não haverá integração em
defesa sem um diálogo franco e honesto, respeitoso da diversidade,
entre países que desejam se conhecer.
Estamos unidos por princípios comuns que emprestam
credibilidade a nossos esforços: a solução pacífica de controvérsias;
o respeito à soberania; a subordinação do poder militar à liderança
civil democrática; e a prevalência dos direitos humanos.
Como nos recorda o estatuto do CDS, impusemo-nos o
objetivo de consolidar a América do Sul como zona de paz, base
para a estabilidade democrática e o desenvolvimento integral
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Celso Amorim
de nossos povos. Mas, para alcançarmos uma identidade sul-
-americana em matéria de defesa, é imperioso desenvolver novos
modos de pensar a nossa realidade.
Isso envolve um certo grau de transição conceitual. Estamos
acostumados, muitas vezes, com teorias tradicionais a respeito dos
processos de paz e guerra no sistema internacional.
Abordagens inovadoras ou alternativas sobre conflito e
cooperação devem ser buscadas. Um exemplo é o poder explicativo
de um conceito que só recentemente tem ganhado espaço
nas análises de relações internacionais, o de “comunidade de
segurança”, proposto pelo cientista político Karl Deutsch nos anos
1950. Segundo Deutsch, forma-se uma comunidade de segurança
quando o sentido de coletividade, de confiança e de respeito mútuo
entre determinados países torna inconcebível a guerra como meio
de solução de controvérsias. Penso que o conceito guarda potencial
para conformar as relações de “leal amizade entre todas as nações
sul-americanas”, para socorrer-me mais uma vez das palavras do
patrono da diplomacia brasileira.
Outra parte do esforço de buscar novos modos de pensar sobre
a realidade da nossa região envolve uma atitude de cuidado frente a
análises e teorias marcadas por interesses de ordem geopolítica,
geoeconômica ou geoestratégica alheios aos nossos. Cumpre,
pois, cultivarmos e refinarmos o senso crítico, fundamento da
capacidade de julgar, em relação a esquemas conceituais nascidos
em outras realidades.
Em resumo, identificaremos nossos interesses comuns em
defesa mediante um longo processo construído pelo diálogo na
pluralidade e pela compreensão de princípios unificadores na
diversidade, mas também pela reflexão inovadora e crítica. O Curso
Avançado de Defesa que ora se inicia é um campo privilegiado
desse processo.
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Discursos
Por uma identidade sul-americana em defesa
Permitam-me terminar com uma citação literária. Comen-
tando certa vez uma visita à cidade de Colônia do Sacramento,
Jorge Luís Borges escreveu:
A guerra também andou por aqui. Escrevo também porque
a sentença pode ser aplicada a quase todos os lugares do
planeta. Que o homem mate ao homem é um dos hábitos
mais antigos de nossa singular espécie (...). Aqui sentimos
de maneira inequívoca a presença do tempo, tão rara nessas
latitudes. Nas muralhas e nas casas está o passado, sabor
que se agradece na América.
A grave sabedoria dessas palavras sobre a guerra na história
humana esconde um fato extraordinário: Colônia do Sacramento,
ou simplesmente Colônia, vive, enfim, uma paz centenária.
Na América do Sul, nosso passado de conflitos convive com
outro passado, mais jovem, de natureza totalmente diversa, um
passado de paz. Em uma terra agraciada com abundantes recursos
e habitada por povos que aspiram à concórdia e ao progresso, esse
outro passado é, também ele, um sabor que se agradece.
Muito obrigado.
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Brasil e Bolívia: cooperação
em defesa para o século XXI
Palavras por ocasião do ato de doação de helicópteros
da Força Aérea Brasileira para o Governo da Bolívia.
Santa Cruz de La Sierra, 3 de outubro de 2012
A transferência de quatro aeronaves H-1H à Bolívia, duas das
quais estamos entregando hoje, representa a contribuição direta
do Brasil para a ampliação da capacidade operacional das Forças
Armadas de nossa nação irmã.
O ato de que participamos hoje teve sua origem em uma
reunião histórica, eu diria, do Presidente Evo Morales com o então
Presidente Lula, na cúpula de Costa do Sauípe em dezembro de
2008. Naquela ocasião, foi a primeira vez em que os presidentes
da América Latina e do Caribe se reuniram sem nenhum tipo de
tutela externa.
Convencido da necessidade exposta pelo Presidente Evo
Morales de reforço desses meios aéreos, o Presidente Lula
determinou realização do estudo de viabilidade pela Força
Aérea Brasileira. Agora, obtida a aprovação de nosso Congresso,
a Presidenta Dilma Rousseff pôde sancionar a lei que autoriza a
doação dos helicópteros. O gesto que se concretiza hoje dá prova
cabal de que a cooperação com a Bolívia não resulta apenas de
iniciativas de um governo de meu país, senão também de um
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Celso Amorim
firme compromisso do Estado brasileiro. Dá prova, também, de
que a cooperação estende-se com naturalidade às áreas de defesa
e segurança.
Entre outras tarefas, os helicópteros possibilitarão à Bolívia
combater o narcotráfico com ainda maior eficácia e, também,
outros tantos ilícitos. Permitirão, ainda, ampliar a vigilância de
suas fronteiras.
Brasileiros e bolivianos compreendemos que a segurança e
a prosperidade de nossos países estão intimamente associadas.
A cooperação e a integração são hoje realidades que definem a
América do Sul. Emergimos na política mundial como uma região
cada vez mais coesa e como um polo de paz. Na Unasul, o Conselho
de Defesa Sul-Americano fortalece a confiança e a transparência
entre nossos países. Bom exemplo disso são as normas relativas a
exercícios militares em regiões próximas das fronteiras.
Sempre que realizamos operações de repressão e prevenção
à criminalidade em nossa faixa de fronteira, como as operações
Ágata, notificamos a vizinhança sobre a movimentação de
Forças. Observadores bolivianos e dos demais países vizinhos
são convidados a participar das operações. Quero aqui, mais uma
vez, convidar para que sejam enviados observadores bolivianos à
próxima operação, que se iniciará em breve. Ao fortalecer sua coesão
interna, a América do Sul reforça sua capacidade de coordenação
dissuasória.
Posso afirmar que a Política de Defesa do Brasil é de cooperação
para dentro e dissuasão para fora. A América Latina necessita de
uma “cooperação-dissuasória”, ou “dissuasão-cooperativa”, para
proteger seus vastos recursos. A Bolívia, um país tão rico, necessita
proteção, e a melhor maneira seria por meio da cooperação, sem
interferência, é claro, na sua soberania.
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