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Discurso de Despedida de Celso Amorim

Celso Amorim faz um discurso de despedida, agradecendo a diversos colaboradores e ressaltando conquistas das Forças Armadas brasileiras, como a participação em missões de paz e o desenvolvimento de projetos de defesa. Ele destaca a importância da cooperação regional e a necessidade de uma defesa robusta para garantir a segurança do Brasil. Amorim encerra refletindo sobre o aprendizado e a valorização do serviço à pátria ao longo de sua trajetória no Ministério da Defesa.

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Discurso de Despedida de Celso Amorim

Celso Amorim faz um discurso de despedida, agradecendo a diversos colaboradores e ressaltando conquistas das Forças Armadas brasileiras, como a participação em missões de paz e o desenvolvimento de projetos de defesa. Ele destaca a importância da cooperação regional e a necessidade de uma defesa robusta para garantir a segurança do Brasil. Amorim encerra refletindo sobre o aprendizado e a valorização do serviço à pátria ao longo de sua trajetória no Ministério da Defesa.

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Celso Amorim

foram de grande benefício e que demonstra a abertura e a largueza


intelectual do Comandante Enzo; e também o Comandante da
Aeronáutica, Juniti Saito, cuja afabilidade é proverbial, e cuja
paciência e pertinência é responsável, talvez, por uma das maiores
conquistas que tivemos nesse período, que foi a decisão sobre os
caças Gripen.
Nessa jornada, nessa travessia, lembrei-me frequentemente
de um outro poeta português, Fernando Pessoa, que dizia – mais
conhecido pela citação do Chico Buarque, obviamente – “navegar é
preciso, viver não é preciso”. Eu acho que nós navegamos – e para
usar aqui a metáfora sempre empregada nas transmissões de cargo
na Marinha, fizemos uma boa singradura, e chegamos a um bom
porto. Não quer dizer que tenhamos encerrado todos os problemas,
mas creio que eles estão devidamente localizados e devidamente
equacionados.
Quero muito especialmente, entre outros ministros, agra-
decer ao Ministro Elito, que combina a condição de ministro e de
militar, quem eu tive o prazer de conhecer, como tantos outros,
em missão no Haiti. Eu aproveito também essa referência para
fazer uma homenagem a todos os militares – homens e mulheres
– que participaram da missão no Haiti, e todos aqueles que hoje
também estão em outras missões, como aquela muito importante
que temos no Líbano.
Algo que talvez poucos saibam, poucos fora daqui da nossa
Casa – porque ainda me considero parte dela, pelo menos até
terminada essa cerimônia – é que o Brasil comanda a Força Naval
da Unifil, da Força das Nações Unidas no Líbano. Isso não é coisa
pequena. O Mediterrâneo oriental é, talvez, o teatro mais antigo
das batalhas navais. E ter um almirante brasileiro e uma fragata
brasileira comandando a força naval do Líbano é uma grande honra
e uma honra que tem sido maior ainda pela repetição dos comandos

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Discursos
Discurso de despedida

e, portanto, da satisfação das Nações Unidas e dos libaneses com o


nosso comando.
No Haiti, naturalmente, eu pude constatar, ao longo desses
dez anos, o progresso feito, muitas vezes com decisões difíceis.
O General Elito foi um dos que participou dessa missão – estou
mencionando ele porque está ao meu lado. Outro que participou
no Haiti foi o General Santos Cruz, que hoje comanda a maior e
mais robusta operação de paz das Nações Unidas, na República
Democrática do Congo. Quando eu digo a mais robusta, é aquela
que tem o direito de empregar a força para combater os insurgentes.
Esse meu contato, que naturalmente começou na minha
função anterior, encheu-me de admiração pelos militares
brasileiros, encheu-me de orgulho pelo profissionalismo com que
eles desempenham as suas funções. E esse orgulho e essa admiração
só fez aumentar depois que vim tratar com eles de maneira mais
próxima.
Quero cumprimentar, naturalmente, o nosso Chefe do EMCFA,
General De Nardi, meu assessor militar mais próximo. O General
De Nardi é hoje praticamente sinônimo de interoperabilidade. É a
pessoa responsável pela boa coordenação de operações complexas,
como foram as operações dos grandes eventos, a vinda do Papa, a
Copa das Confederações, a Copa do Mundo, mas também de outras
operações que talvez não cheguem tão claramente ao público, como
as Operações Ágata, realizadas na nossa fronteira.
É frequente ouvir a responsabilização do poder central pela
criminalidade nas cidades. E o que está sendo feito na fronteira?
Estão sendo feitas na fronteira operações que às vezes envolvem
simultaneamente trinta mil homens e mulheres. Essas operações
são coordenadas pelo Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas
e executadas pelas várias forças. O General De Nardi era também
uma espécie de grilo falante que não hesitava em me dar notas,

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Celso Amorim

nem sempre as melhores, pelo meu desempenho. Eu agradeço essa


franqueza.
Queria agradecer muito ao Secretário-Geral, hoje a mais alta
autoridade civil do Ministério da Defesa – fora o Ministro – de
nível hierárquico semelhante ao dos comandantes e do chefe do
Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas. O Dr. Ari Mattos
é responsável não só pela parte civil do Ministério, que é muito
grande, mas também pelo entrosamento entre essa parte civil e
o lado militar que tem a ver com essa parte civil. Por exemplo,
orçamento. Não é o único caso, mas é o caso talvez mais importante
e mais óbvio que todos percebem.
Eu vou me permitir fazer uma homenagem a um dos
secretários e, na pessoa dele, vou falar para os demais: o Secretário
Murilo Barbosa, porque ele é o mais antigo de todos os secretários,
creio eu. Não digo talvez de idade, mas mais antigo de Ministério.
Já passou por muitas funções, enfrentou adversidades, e é hoje
uma segurança do nosso trabalho na relação com a indústria.
Não sei se tem aqui alguns industriais, certamente haverá alguns
representantes. Um dos grandes passos que o Ministério deu
nesses quatro anos da Presidenta Dilma – dos quais me couberam
cerca de três anos e meio, um pouquinho menos – foi a consolidação
da nossa indústria. Passos pela legislação, através de uma nítida
preferência para a indústria nacional nas aquisições, mas também
através da parte tributária. E o Murilo, talvez mais do que nenhum
outro, encarna esse fato. Mas, por meio dele, cumprimento todos
os demais secretários do Ministério, todos pessoas de grande valor.
Quero fazer uma menção aos meus colaboradores mais diretos,
que foram meus chefes de gabinete – inicialmente Antônio Lessa
e depois Lívia Cardoso. Ambos compartilharam comigo talvez a
mais difícil de todas as tarefas que eu tive nessa travessia, que foi
a intermediação entre a corporação militar, entre os militares, o

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Discursos
Discurso de despedida

agrupamento militar – do qual, repito, muito nos orgulhamos – e


a Comissão da Verdade. E creio que executamos, no melhor dos
nossos esforços, o que era preciso fazer: dar acesso à verdade, dar
acesso às informações e permitir, dessa maneira, que o objetivo
fundamental da Comissão da Verdade, o conhecimento dos fatos,
na medida das possibilidades, fosse atingido. Muitos considerarão
insatisfatório, por um lado, outros considerarão injusto, por outro,
mas o trabalho feito com a colaboração sempre leal e correta dos
comandos militares, e intermediado pelos meus dois chefes de
gabinete, principalmente, foi um trabalho que mereceu, inclusive,
um elogio talvez exagerado e injusto do próprio presidente da
Comissão no dia da entrega do relatório.
Eu queria mencionar também rapidamente outros que
colaboraram comigo, como o Almirante Leal Ferreira, da Escola
Superior de Guerra, que lá está tratando de modernizar, arejar,
torná-la uma escola realmente moderna e tem disso bons dois
exemplos e dois símbolos. Um é o curso CAD-Sul, para a América
do Sul, porque nós sempre dizemos que a América do Sul é nossa
prioridade, mas a maior parte dos nossos oficiais ainda vai estudar
nos Estados Unidos. Então, nós temos que reforçar a América do
Sul. E reforçar a América do Sul começa pela própria Escola Superior
de Guerra, com esse curso para oficiais de todas as nacionalidades
da América do Sul. Outro símbolo foi a edição especial do livro com
as conferências de San Tiago Dantas, proferidas na ESG ao longo
dos anos 1950 e 1960. Isso pode parecer algo pequeno, mas não é.
San Tiago Dantas era um homem muito equilibrado, longíssimo
de ser um radical, mas foi ministro de João Goulart duas vezes.
E eu quero dizer que isso também é um símbolo de que estamos
avançando, que os preconceitos estão desabando e que com isso
nós estamos realmente consolidando a nossa visão democrática.
Eu deveria citar outros. O General Silva e Luna, não só como
secretário, porque ele é secretário há pouco tempo, mas pela

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Celso Amorim

intermediação constante que ele me ajudou a fazer com todas


as Forças Armadas, muito especialmente o Exército. Não que o
General Enzo precisasse disso, mas às vezes uma palavrinha de
alguém menos diretamente envolvido em uma decisão que tenha a
ver com a hierarquia facilita um pouco, e o General Silva e Luna foi
impecável nessa função.
Eu acho que tivemos alguns feitos e algumas vitórias. Não
vou relatá-los todos porque a Presidenta Dilma, no discurso que
pronunciou no almoço oferecido pelas Forças Armadas, desfiou
com clareza quais eram. Projetos como o submarino, que tem
não só um valor intrínseco, mas viabiliza de maneira muito real o
nosso programa nuclear independente. O Brasil é um dos seis ou
sete países do mundo que detém a tecnologia de enriquecimento
nuclear. Isso se deve essencialmente à nossa Marinha e a esse
projeto do submarino de propulsão nuclear.
Não vou mencionar novos projetos, mas é algo que eu não
posso deixar de dizer. O blindado Guarani, que é uma nova geração
de blindados do Exército Brasileiro, é um exemplo de que nós
não ficamos só nos lamuriando, como tantos ficam dizendo: “Ah,
houve um sucateamento. Onde estão os velhos Urutus?”. Temos
aqui um projeto novo, que contou com o apoio da Presidenta
Dilma, ajuda da Ministra Mirian Belchior, para que eles pudessem
chegar realmente ao nosso Exército. E já há mais de 140. Eu fui
lá receber o centésimo, mas me disseram que o centésimo na
realidade era apenas simbólico, porque já há 140. Fui também a
Cascavel, onde chegaram os primeiros Guaranis. A Aeronáutica
também foi contemplada com duas coisas muito importantes. Os
caças Gripen, nos quais haverá grande transferência de tecnologia,
e o KC-390, que é um projeto essencialmente brasileiro.
São projetos de grande importância, e eles têm muita
importância por mais de um sentido. Primeiro eles asseguram a

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Discursos
Discurso de despedida

nossa defesa. O Brasil não pode ser a sexta, a sétima ou, quem
sabe, a quinta economia do mundo, e não dispor de uma defesa
adequada. Nós não podemos contar com a sorte. Defesa é, mais
ou menos, como seguro de carro. O fato de você nunca ter batido
não significa que você não tenha que fazer o seguro. Você não sabe
que conflitos virão. Conflitos entre terceiros que pouco têm a ver
conosco, mas que podem repercutir sobre nós.
Na nossa região, a nossa maior força de dissuasão é a
cooperação. Com os nossos vizinhos, tanto de aquém quanto de
além-mar – e vejo aqui alguns representados – o nosso objetivo
é cooperar. Mas temos que estar preparados para eventualidade,
que nós não desejamos, de ter que nos defender e ter que dissuadir
alguma ação impensada.
Além desse aspecto, esses projetos têm ajudado muito a
desenvolver a indústria nacional. Em todos eles, a participação da
indústria tem sido intensa. Um dos fatores mais importantes que
nos levou a escolher o caça Gripen, da Suécia, foi a transferência
ampla de tecnologia, inclusive com cessão do código-fonte, que
permite fazer modificações e incorporar armamento brasileiro.
Temos muito a fazer pela frente, mas não vou discorrer
sobre isso. Sabemos, por exemplo, que o Plano de Articulação e
Equipamento de Defesa (PAED), logo que cheguei aqui, era uma
espécie de lista de desejos. Hoje ele tem um realismo maior, mas
alguma adaptação ainda terá que ser feita.
Do ponto de vista organizacional, já mencionei aqui o papel
do EMCFA, já mencionei o aspecto importante da Secretaria-
-Geral, mas queria referir também que ainda temos avanços a fazer.
Em termos de gênero e raça, o Ministério da Defesa, como todos os
outros órgãos brasileiros, ainda tem muito o que avançar – muito,
muito, muito o que avançar. Ficamos contentes de ter a primei-
ra oficial-general médica, mas queremos ver oficiais generais

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Celso Amorim

combatentes, e queremos ver também pessoas de outras funções


também poderem assumir funções de oficial-general. Eu admito
perfeitamente que quem não é combatente, quem não passou
pelas academias, não pode, talvez, ser chefe de Estado-Maior,
não pode integrar o Alto Comando. Mas de alguma maneira pode
também participar dentro da especialidade em que é formada – são
sugestões para o futuro, desculpe-me meu amigo Jaques Wagner.
Eu queria mencionar também, no capítulo das inovações na
área internacional, o esforço que fizemos para a criação de uma
Escola Sul-americana de Defesa. Isso é algo muito importante.
Hoje em dia a única escola do gênero é interamericana e fica
em Washington. Tudo bem, as pessoas devem continuar a ir a
Washington porque elas aprendem muito lá. Mas é fundamental
que nós tenhamos na nossa América do Sul, que é a nossa área,
uma escola sul-americana de Defesa.
Aproximando-me do fim, a noção de grande estratégia. É uma
noção que aparece na Estratégia Nacional de Defesa, feita durante
o Governo Lula pelo meu antecessor Nelson Jobim, com a ajuda
inestimável do Ministro Mangabeira Unger. Mas aparece en passant,
e eu acho que é muito importante desenvolvermos essa noção de
grande estratégia, não da maneira como ela no passado foi usada
por outros estrategistas, mas como a ideia de que é preciso que
os objetivos da Defesa e política externa andem unidos. Porque
uma política externa sem uma defesa robusta – por mais que ela
seja pacífica – não vai levar a lugar nenhum. E com uma política
de defesa robusta, nós podemos assegurar que o Brasil seja não só
pacífico, mas provedor de paz, que ele leve a paz a outras regiões, e
é o que temos que fazer.
Uma palavrinha rápida sobre defesa e segurança pública.
É um tema complexo, difícil, envolve aspectos jurídicos com-
plicados. E, para o povo, o que aparece é segurança pública.

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Discursos
Discurso de despedida

“O Exército fez isso, o Exército fez aquilo, a Marinha, ou as Forças


Armadas…” Na verdade, a missão principal das Forças Armadas é
defender o país. Na segurança pública, ela pode atuar, mas sempre
dentro dos princípios da transitoriedade e da excepcionalidade.
Do contrário, não é bom nem para as Forças Armadas, nem para
a população. Isso é algo muito importante, que eu deixaria como
experiência pessoal. Algo difícil, porque a cobrança sempre vem
por esse lado: “O Brasil felizmente vive em paz com seus vizinhos,
então por que nós vamos nos preocupar com a defesa da pátria?
Vamos nos preocupar com contrabandista”. Mas, evidentemente, é
fundamental que as Forças Armadas estejam capacitadas a impedir
aventuras contra o nosso país.
Finalmente, amigos, essa é uma despedida. E essa minha
despedida da Defesa – provavelmente, eu nunca posso dizer com
certeza, mas provavelmente – é a minha despedida também, não
digo da vida pública, porque pretendo continuar dando palpite aqui
e ali, escrevendo, falando, mas é uma despedida de cargos públicos.
E não poderia, talvez, ter uma despedida mais adequada, por tudo
o que eu aprendi aqui. Aprendi a conhecer melhor o Brasil. E ao
conhecê-lo mais, a amá-lo mais. Aprendi dos militares não só a
disciplina e a hierarquia, de que tantos falam, mas a lealdade, o
companheirismo, a gentileza, a correção, o sentido de missão com
que essas coisas todas são levadas adiante.
A disposição ao sacrifício da vida, se necessário for. E eu
acho que, para os jovens – fora, talvez, digamos, os píncaros do
amor ou as alegrias da maternidade ou da paternidade –, não há
nenhuma alegria tão grande quanto servir a pátria. Me permitirão
aqui os pernambucanos, e os baianos sobretudo, citar, de modo
meio trôpego, porque não consegui consultar o original, o verso de
João Cabral de Melo Neto que sempre procurou inspirar minhas
ações na vida pública. Diz ele que, “a respeito de todas as coisas, o

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homem é sempre a melhor medida. E a medida do homem não é a
morte, mas a vida”.
Muito obrigado a todos.
Artigos e entrevistas

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