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Brasil e Segurança na África: Desafios e Estratégias

Celso Amorim discute a política de defesa do Brasil em relação à venda de armas e cooperação com países africanos, enfatizando que o foco é a defesa de Estados soberanos e não a segurança interna. Ele expressa preocupação com o uso de armamentos e a pirataria no Golfo da Guiné, destacando a importância de manter laços e treinamentos com nações africanas. Amorim também menciona que a defesa do Brasil deve ser preparada para o futuro, sem descuidar de seus interesses e da segurança nacional.

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Brasil e Segurança na África: Desafios e Estratégias

Celso Amorim discute a política de defesa do Brasil em relação à venda de armas e cooperação com países africanos, enfatizando que o foco é a defesa de Estados soberanos e não a segurança interna. Ele expressa preocupação com o uso de armamentos e a pirataria no Golfo da Guiné, destacando a importância de manter laços e treinamentos com nações africanas. Amorim também menciona que a defesa do Brasil deve ser preparada para o futuro, sem descuidar de seus interesses e da segurança nacional.

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Celso Amorim

Não é uma cooperação voltada à segurança interna desses países,


é voltada à defesa de Estados soberanos, reconhecidos como tais
pelas Nações Unidas.
BBC Brasil: O governo não se preocupa com o risco de que armas
brasileiras vendidas a países africanos sejam usadas contra civis?
Celso Amorim: Temos muita preocupação, mas o tipo de
equipamento que vendemos é equipamento de defesa do Estado.
Vendemos Super Tucanos (aviões militares da Embraer) e, se
eventualmente chegarmos a vender navios-patrulha, isso não
é para usar contra população civil. O Brasil acompanha, segue
resoluções da ONU, tem muita preocupação com esses fatos. Mas a
nossa ótica não é necessariamente a de países desenvolvidos.
Vejo muitas situações em países específicos em que, às vezes,
a visão de países desenvolvidos, ricos, sobretudo ex-potências
coloniais, não é a mesma da nossa. Às vezes [eles] têm uma visão
muito particular da situação e querem expurgar as próprias culpas
descobrindo outros males.
BBC Brasil: Mas se, por exemplo, o Estado brasileiro financia
a construção de uma fábrica de armas na Argélia por empresas
brasileiras (conforme concorrência em curso naquele país
disputada pelas brasileiras Odebrecht e a Atech), o Brasil não fica
em situação próxima das ex-potências coloniais?
Celso Amorim: É uma relação de Estado, com um país soberano,
que não está sob sanções da ONU. Tenho uma certa experiência,
não sou muito ingênuo nessa situação. Pegue o drama da Síria:
um lado fornecendo armas para o governo, o outro, direta ou
indiretamente, fornecendo armas para os rebeldes. De violações
os dois lados são acusados, mas, quando convém, você salienta um
aspecto.

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Artigos e entrevistas
Pirataria e terrorismo na África podem afetar Brasil, diz Amorim

Não vou ficar aqui citando países. Mas verifique as guerras civis
na África e veja quem forneceu armamentos para grupos que não
respeitavam nem resoluções da ONU, nem o direito internacional.
Por cima do pano e por baixo do pano. Nós não queremos vender
por baixo do pano, não venderemos.
BBC Brasil: Quais os objetivos das manobras que a Marinha
brasileira tem realizado em países africanos?
Celso Amorim: Manobras, mesmo, eu diria [que se aplica] mais
ao que temos feito com a África do Sul. Mas aí não é só com África,
é um programa do Ibas (fórum que agrega Índia, Brasil e África do
Sul), um grupo de três países em desenvolvimento, democráticos,
plurirraciais.
Os outros, chamar de manobra talvez seja um pouco de exagero.
Quando temos uma embarcação militar, em vez de esses navios-
-patrulha fazerem sua viagem inaugural para portos de países
desenvolvidos, onde nós talvez não tenhamos muito a oferecer,
eles têm visitado portos africanos e realizado pequenos exercícios
para interceptar barcos piratas, exercícios ligados à ocupação de
barcos inimigos, que são muito apreciados.
O Brasil tem a maior costa atlântica do mundo. É mais do que
natural que tenhamos essa cooperação, que a gente amplie esses
treinamentos que já vêm recebendo alguns países.
Tudo depende do tamanho do país. Cabo Verde, por exemplo, é um
país arquipélago no meio do Atlântico. É do nosso interesse, além
do lado de solidariedade com um país africano em desenvolvimento
membro da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa),
evitar que haja problemas em uma região próxima do Brasil e parte
das nossas rotas marítimas.

361
Celso Amorim

BBC Brasil: O Brasil já foi instado por algum desses países a agir
de forma mais combativa, inclusive interceptando navios piratas,
como França ou EUA fazem frequentemente na costa africana?
Celso Amorim: Cada país tem suas doutrinas e nós teremos a
nossa. Em primeiro lugar, sempre respeitosa ao desejo do próprio
país e sempre analisando cada situação. Eu não excluo que uma
coisa dessas possa acontecer a pedido deles, mas também não creio
que seja muito imediata. Mas acho que estamos fortalecendo laços
que podem servir idealmente para habilitar o próprio país a fazer
sua defesa.
BBC Brasil: Ainda não houve pedidos?
Celso Amorim: Houve pedido para nós ajudarmos, mas não
muito claro se era com meios nossos ou ajudando os meios dos
países.
BBC Brasil: Alguns estudos recentes apontam a pirataria no
Golfo da Guiné, na costa ocidental da África, como um problema
crescente, enquanto a pirataria na costa da Somália, no Chifre
da África, tem diminuído. A pirataria no Golfo da Guiné pode
prejudicar o Brasil?
Celso Amorim: É claro. Boa parte do petróleo que importamos
vem do Golfo da Guiné ou imediações. Já temos conversado muito
com países como Angola e outros, África do Sul, Namíbia, sobre
possibilidades de exercícios conjuntos mais amplos.
Fomos convidados a participar como observadores de uma
reunião africana relativa à segurança do Golfo da Guiné. Mas a
responsabilidade primordial é dos países ribeirinhos.
Nós poderemos ajudar por dois motivos: solidariedade, que é
real na nossa política externa sobretudo em relação à África, mas

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Artigos e entrevistas
Pirataria e terrorismo na África podem afetar Brasil, diz Amorim

também por interesse nosso: rotas marítimas, petróleo, empresas


brasileiras.
BBC Brasil: O uso do Atlântico Sul para o transporte de drogas
tem se tornado mais visível e gerado crescente preocupação no
exterior. O que o Brasil faz para evitar que embarcações com drogas
partam daqui rumo à África?
Celso Amorim: Temos ações no nosso território, mas obviamente
existe essa preocupação, ela é uma das razões que nos movem.
Não é segredo para ninguém que há preocupação muito grande da
comunidade internacional com a situação na Guiné-Bissau.
Trabalhamos no passado com ideia de ajudar a reformar as Forças
Armadas da Guiné-Bissau, mas isso depende do próprio país.
A situação hoje não facilita essa cooperação, mas (estamos) na
expectativa de que o país se redemocratize rapidamente e resolva
ou encaminhe o problema que existe com relação ao narcotráfico.
BBC Brasil: O governo então condiciona seus acordos militares
na África à situação de cada país?
Celso Amorim: Não é que façamos distinção entre países, mas é
preciso que haja um processo. Não precisamos esperar que tudo
esteja perfeito. Se formos esperar que tudo esteja perfeito, você
não consegue talvez até melhorar a situação do próprio país, que é
o objetivo.
Esse foi um erro que se cometeu em relação à Guiné-Bissau no
passado. Há quatro, cinco anos, havia uma consciência clara do que
era preciso fazer, mas alguns países, sobretudo grandes doadores,
de quem se dependia para levar adiante os planos, ficaram a
dizer não. Acabou não se fazendo nada, e a situação se agravou
tremendamente. Mas também não posso de repente ceder, ainda
que seja uma lancha-patrulha, sem ter certeza de que ela não vai
parar na mão de narcotraficantes. A linha divisória é essa.

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Celso Amorim

BBC Brasil: Alguns analistas veem uma militarização no Atlântico


Sul. Eles citam o reforço militar da Grã-Bretanha nas ilhas Malvinas
(Falklands, para os britânicos), ações da Marinha da China para
assegurar seu comércio com a África e a reativação da Quarta Frota
americana. Esses movimentos preocupam o Brasil?
Celso Amorim: Não quero citar movimentos específicos, porque
não tenho preocupação com esse ou aquele país. Somos contra
uma militarização e, sobretudo, somos contra o desdobramento de
forças no Atlântico Sul que possam ser de ataque, que usem armas
de destruição em massa, nucleares ou outras.
O Brasil sempre tem combatido isso na diplomacia, e nós também
na Defesa temos essa política. O Brasil não é um país que tenha
inimigos, mas ele não pode descuidar de seus interesses e ninguém
pode descuidar da sua própria defesa.
O Atlântico Sul é uma área natural do nosso interesse,
independentemente de outros países estarem fazendo isso ou
aquilo. Queremos evoluir no Atlântico Sul, enfrentando problemas
como o da pirataria, mas sem transformá-lo em um apêndice do
Atlântico Norte.
BBC Brasil: Tem havido uma mudança no foco da Defesa brasileira
do Cone Sul para o Atlântico Sul?
Celso Amorim: Não gosto muito da expressão Cone Sul – a maior
parte do Brasil não é Cone Sul. Agora, por uma série de fatores –
maior política de integração, maior entendimento entre lideranças
políticas, maturidade das sociedades –, a América do Sul é hoje
uma área de paz.
Claro que tem que manter forças, porque existem grupos irre-
gulares, bandos armados, o Brasil tem uma fronteira extensíssima.
Mas, sendo a América do Sul uma zona de paz e havendo ameaças
novas e algumas das antigas também (no Atlântico Sul), até por

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Artigos e entrevistas
Pirataria e terrorismo na África podem afetar Brasil, diz Amorim

rivalidades entre terceiros, temos interesse em evitar eventuais


conflitos que não estamos prevendo hoje. Quando você prepara
defesa, não é para os próximos dois nem três anos, mas vinte,
trinta, quarenta anos. Temos que estar preparados para nos
defender e defender nossos interesses.
BBC Brasil: Existe algum cuidado especial com a defesa das
reservas do pré-sal?
Celso Amorim: Claro que existe. Essa é uma das explicações
para o programa forte da Marinha brasileira, no caso dos navios-
-patrulha, e outros de porte menor para defesa mais local, sendo
fabricados no Brasil.
O próprio submarino de propulsão nuclear, o objetivo principal
de termos esse submarino é termos capacidade ampla de
movimentação. Algumas dessas decisões antecedem as desco-
bertas do pré-sal, que acentuaram essa preocupação.
BBC Brasil: O senhor imagina um cenário em que o Brasil possa
ser chamado a intervir militarmente em um país africano? Para,
por exemplo, atuar na Guiné-Bissau de modo semelhante ao que a
França agiu recentemente na Costa do Marfim?
Celso Amorim: Intervir é uma palavra de que não gostamos, e
intervir militarmente menos ainda. Mas acho que podemos ajudar
se houver concordância de líderes democraticamente eleitos
na Guiné-Bissau, se houver concordância dos países da CDAO
(Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), se
houver um pedido da ONU.
BBC Brasil: Os desafios internos não são da área de Defesa, quem
cuida disso são a Polícia Federal e o Ministério da Justiça. Nós
ajudamos em fronteira e em situações excepcionais, mas essa não
é a missão primordial das Forças Armadas.

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Celso Amorim

Celso Amorim: Há uma porção de condicionantes prévias, como


[as que regem a presença de forças brasileiras] no Haiti. Mas não
consideramos nossa força no Haiti de intervenção: é uma força
de paz que está lá para garantir ordem enquanto se processa
estabilização não só política, mas social no país.
BBC Brasil: Quando ocorrerá a retirada total das tropas brasileiras
no Haiti?
Celso Amorim: Queremos que ela seja progressiva. A última
redução implicou do nosso lado em redução de quatrocentos
[militares]. Estamos levando o nível de nosso contingente para
aqueles quantitativos que prevaleciam antes do terremoto. Não
posso fazer um cronograma como se estivesse construindo uma
estrada. Não é assim.
BBC Brasil: O Brasil poderá enviar militares à República
Democrática do Congo agora que o comandante da força da ONU
no país será brasileiro, o General Carlos Alberto dos Santos Cruz?
Celso Amorim: Acho que o force commander (comandante da força),
por enquanto, está de bom tamanho. Ele não nos pediu nada.
BBC Brasil: Mas é possível?
Celso Amorim: Temos que estar presentes onde podemos fazer
diferença. No momento, temos engajamento muito forte no Haiti,
que ainda vai durar um tempo, embora não seja nossa intenção de
maneira alguma nos perpetuarmos.
Temos uma presença naval no Líbano muito importante. É a
primeira vez que o Brasil tem uma presença no Mediterrâneo, que
é um teatro tradicional militar, naval. Temos que analisar cada
solicitação com muito cuidado.

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Artigos e entrevistas
Pirataria e terrorismo na África podem afetar Brasil, diz Amorim

Agora, se o general precisar de algum apoio do Estado-Maior,


vamos fazer o possível para ajudar. Não estou falando de tropas,
estou falando de apoio, observadores etc.
BBC Brasil: O Brasil tem condições de manter suas Forças
Armadas em todas essas frentes externas – Haiti, Líbano, crescente
cooperação com países africanos e outros – tendo tantos desafios
internos na área de defesa?
Celso Amorim: Os desafios internos não são da área de Defesa,
são da área de segurança e quem cuida disso são a Polícia Federal e
o Ministério da Justiça. Nós ajudamos em fronteira e em situações
excepcionais, mas essa não é a missão primordial das Forças
Armadas. A missão primordial é a defesa do país.
Então não vejo que tenhamos de maneira alguma nos enfraquecido
por ter mandado tropas para o Haiti ou a fragata ao Líbano, até
porque essas missões também servem para colocar nossos militares
em situações reais. Isso tem papel muito positivo na formação, no
treinamento das nossas Forças Armadas.
BBC Brasil: O impasse quanto à compra de caças para a
Aeronáutica terá um desfecho em breve?
Celso Amorim: Espero que sim. É a única coisa que posso dizer.

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A atualidade de José Bonifácio
Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 8 de julho de 2013

A cidade de Santos prestou, no último dia 13 de junho, uma


bela homenagem aos 250 anos de nascimento do maior de seus
filhos, o patriarca da Independência José Bonifácio de Andrada
e Silva. A figura desse extraordinário brasileiro não admite
simplificações.
Havia nele um compromisso humanista com o fortalecimento
da justiça e das virtudes cívicas no Brasil. Considerava a escravidão
a raiz dos maus costumes e da ausência de uma ética do trabalho
no país. Ansiava pela conversão dos escravos em “cidadãos ativos”.
Em um Brasil que só hoje, quase dois séculos mais tarde,
erradica a miséria extrema, a inconformidade frente à desigualdade
social e às suas funestas consequências empresta ao legado de
José Bonifácio a força premente da atualidade. Suas inquietações
se estendiam à reforma agrária, à assimilação das populações
indígenas e ao uso racional dos recursos naturais. Integrava em
um coerente projeto nacional a abordagem dos desafios que se
apresentavam na hora histórica da construção do Estado.
Sem a sólida base de uma sociedade justa e desenvolvida,
não se poderia constituir um país verdadeiramente independente.
Para o patriarca, as políticas externa e de defesa tinham papéis

369
Celso Amorim

fundamentais, e inter-relacionados, a desempenhar no processo


de emancipação.
Em instruções que remeteu antes mesmo do Sete de
Setembro para o cônsul brasileiro em Buenos Aires (na verdade
enviado diplomático), já demonstrava o interesse em buscar
alianças na América do Sul. Afirmava: “O Brasil não pode deixar de
fraternizar-se sinceramente com seus vizinhos”. Concebia o país
como “potência transatlântica”, o que evoca sua projeção global
e prenuncia o estreitamento de seus contatos com os parceiros
africanos da outra margem do Atlântico Sul.
A assinatura de tratados desiguais entre o Brasil e as grandes
potências após a Independência, com prejuízo da soberania e
do bem-estar nacionais, dele mereceu sérias críticas. Dizia José
Bonifácio: “Que venham, pois, todos aqui comerciar; (...) porém
em pé de perfeita igualdade, sem outra proteção além do direito
das gentes e com a condição expressa de não se envolverem, seja
como for, em negócios do Império”. A advertência ainda é válida
para os dias que correm. Recordo essas palavras exemplares que
proferiu ainda em junho de 1822: “O Brasil é uma nação e tomará o
seu lugar como tal, sem esperar ou solicitar o reconhecimento das
outras potências”.
Contudo, uma sociedade díspar e fraturada não poderia se
proteger contra múltiplas ameaças externas. “Sem a emancipação
sucessiva dos atuais cativos”, dizia em 1823, o país “nunca formará,
como imperiosamente o deve, um Exército brioso e uma Marinha
florescente”. Esse nexo entre justiça social e defesa nacional segue
relevante. Um país democrático com as dimensões do Brasil,
que cresce, inclui socialmente e se projeta pacificamente na cena
mundial, não pode prescindir dos meios para a própria defesa.
Temos que estar prontos para defender nossos interesses
contra ameaças provenientes de qualquer quadrante, ou contra os

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