CAMINHOS DE IPÊS, POEIRA E SONHOS
por Eder Samuel
Os ipês amarelos ao longo da estrada , contrastando com o azul do céu de
setembro , deveriam ser prenúncio de boas notícias . Mas , em meio às
dificuldades pela falta de meu avô e de meus tios que foram embora para
Goiás , vovó já não via mais poesia nos ipês .
Numa manhã , daquelas de ipês floridos de amarelos ardentes , vovó pediu
para meu pai , com dez anos , ir até Aguanil pedir nas ruas , nas casas e no
comércio qualquer coisa que servisse para comer . Papai foi caminhando em
estrada de poeira e sonhava acordado com o que faria quando crescesse .
Distraindo -se com a imponência dos lapachos amarelos , brancos e roxos ,
decidiu que seria militar . O rádio só falava deles , dos militares , da ditadura
e, longe de tudo , achou que seria o certo a fazer quando fosse homem feito .
Sabe -se lá por quê , ou talvez ele soubesse mesmo , o amarelo dos ipês
lembrava a bandeira nacional .
Pelo radinho de pilhas que sempre carregava consigo , ouvia falar de um
tal de Pelé , que àquela altura já ganhara duas Copas do Mundo com a
seleção , e sonhava em ser jogador , igual ao Pelé . Um pé de vento soprando
poeira , um redemoinho , o fez voltar à realidade . Seria o Saci querendo
brincar com o destino da criança ? Lembrou -se do que ia fazer em Aguanil ,
jogou seus sonhos ao pó e percebeu que a dura vida que vivia talvez fosse só
aquilo mesmo : poeira .
Na cidade , não teve coragem de pedir uma batata sequer ; coravam -lhe as
faces de vergonha por ter que pedir . Voltou para casa , sem nada .
— Cadê as coisas que eu te pedi , Antônio ? Voltou com a capanga vazia por
quê ? — perguntou minha avó .
— Ah , não tinha nada não , mãe ; um povo metido a rico , nem pedi nada ,
eles não iam dar mesmo . — respondeu meu pai , sentindo na cara uma
bofetada que o jogou ao chão . Vovó bateu -lhe tanto que ele foi se esvaindo
até perder os sentidos . Tia Maria deu um basta , segurando vovó , que
chorava .
Papai caiu estirado ao chão , pálido de susto e fome . Os pássaros
silenciaram -se , os ventos não sopraram as folhas dos paus -d’arco , atrasou -se
o sol em seu ocaso . Silêncio ! Ali estavam a fome , a miséria e o abandono , três
irmãos capazes de tirar para fora de nossa alma o que há de pior .
O menino crescia entre os ipês e a poeira ; os olhos famintos fitavam o
horizonte , onde seus sonhos flutuavam ... intocáveis ...sonhava .
Minha avozinha Isolina adoeceu de uma anemia muito forte que não
havia como tratar . Uma doença de fome , dessas que os antigos não gostam
de falar . Na agonia da morte , reuniu todas as forças para abrir seus olhos
azuis mais uma vez , olhou o crucifixo acima da cama de palha e, num
suspiro , lembrou -se de meu avô , Antônio :
— Oh , Antônio , oh , meu Deus ! — e expirou naquela casinha , depois de
uma vida inteira de lutas e batalhas que muito lhe feriram . Sonhos mortos ,
ipês “desfloridos ”, doloridos !
Quando papai tinha uns doze anos , suas irmãs resolveram ir embora do
Boticão , com o desejo incerto de fazer as coisas darem certo . Subiram em um
caminhão encomendado pelo Zé Alípio , cunhado de minha tia Maria , e
foram embora para Goiás .
Na estrada , com meu tio Gabriel , o menino Antônio viu o caminhão
abarrotado de gente desaparecer ao longe . Por que não o levaram ?
Na próxima viagem , meu tio Gabriel também se foi , deixando meu pai com
suas utopias na casinha de sapé , sonhando com o dia em que cresceria e
sairia dali também , para ser militar e mandar no Brasil ou jogador de
futebol .
Papai passou muita dificuldade desde então . Resolveu sair da casinha e foi
pedir emprego em troca de abrigo e comida . Roçava pasto , era retireiro ,
cuidava de porcos , bois no pasto e vacas paridas .
Menino abandonado , sofreu a solidão nas noites frias e, ao contemplar
estrelas , via subir para a escuridão da noite os sonhos que acalentava . Só
tinha dentro de si , criança que era , os sonhos com sua mãe e os sonhos de
roupas bonitas e sapatos lustrados . Sonhos de ipês “desfloridos ”.
Era o ano de 1971 ; um rapazinho de dezessete anos e olhos azuis se
destacava pela destreza nas pernas e força no chute , era artilheiro , dizem
que nada segurava sua bicuda . Recebeu a proposta de jogar com o time de
detrás da serra . A serra é um lugar entre o Boticão e Boa Esperança ; meu pai
aceitou o convite , quem sabe um sonho se tornando realidade ?
Depois , entre lavouras e futebol , aceitou o convite de jogar no Corinthians
de Aguanil . Com esse time ganhou todos os jogos que jogou ; levou a taça
regional daquele ano de 1971 .
Todo fim de semana , lá estava meu pai nos campos de várzea tentando ser
como Pelé . E foi assim até completar uns vinte e dois anos . Nenhum olheiro
achou que ele era bom o suficiente . Desistiu e parou de vez . Sonhos ao pó !
Quando fez 18 anos , em março de 1972 , no auge da ditadura , meu pai foi
para Três Pontas tentar ingressar na ESA. Vestiu sua melhor roupa , lustrou
bem sua botina . Barba bem feita , os longos cabelos bem penteados . Os olhos
mais azuis que antes , pois neles havia sonhos , esperança ! Pegou sua
capanga . Partiu .
Em Três Pontas , na honrada escola , desejava realizar mais que um sonho ,
senão cumprir seu dever de homem feito .
Na conversa com o sargento , bem mais fardado e alinhado que disposto a
dar uma chance ao jovem civil , ele fitou papai e, com voz grave :
— De onde você é, rapaz ?
— Vim do Boticão .
— E onde fica isso ? Meu Deus do céu ! — exclamou , passando a mão pelo
rosto bem afeitado .
— É município de Aguanil .
— Zona rural , não é? Olha , você não tem obrigação de servir se é da roça ,
entende ?
— Uai , eu quero mesmo ficar aqui , pra ser soldado .
— Ser soldado ?! — Admirou -se o sargento . — Você tem leitura ?
— Não tenho não , senhor . Muito pouca . — Respondeu papai , corando -se .
— Mas então não tem como estudar . Pra ficar aqui , tem que saber ler . Vou
assinar seu certificado de dispensa e você pode ir para casa , está bem ?
— Mas é que eu vim de tão longe , sargento . Eu queria mesmo ficar , sabe ?
Onde eu moro é tudo muito difícil . Eu sei que o Brasil agora é dominado
pelos “militares ”.
— O exército não é pra qualquer mudança , filho , é pra fazer o que precisa
ser feito . E esse negócio de exército dominar não vai pra frente não , escreve
o que eu estou te falando . — Dizia o sargento com o dedo em riste , como se
discordasse do regime .
Papai acreditou tanto que ficaria por lá que só tinha o dinheiro da
passagem e uns “quebradinhos ” para comer qualquer coisa . Comprou um
pastel de carne e um caldo de cana , deu uma volta para conhecer a cidade .
Deitou -se em um banco de praça , cobriu o rosto com seu chapéu de palha e
dormiu .
Na escuridão do sono , surpreendeu -se com uma mão firme em seu ombro .
Um homem desconhecido , com um olhar severo , mas não hostil .
— Você está pronto ? — Perguntou o homem fardado . Papai não entendeu
a pergunta .
— Eu disse , está na hora de fazer o que você veio aqui para fazer . —
Repetiu o homem , paramentado , com medalhas ao peito . Uma delas tinha
gravado “Medalha de Mérito , Heróis da Tomada de Monte Castelo ,
21.11.1945 ”. Um pracinha da FEB!
Sem entender , papai o seguiu . O homem o levou de volta à ESA. O portão
abriu -se diante deles , as luzes apagadas . Papai entrou seguindo o homem
pelos corredores escuros até uma sala iluminada .
— É aqui que começa ! — Exclamou o estranho , apontando para uma mesa
no meio da sala antes de desaparecer .
Papai viu uma farda nova dobrada sobre a mesa , com seu nome bordado
no peito , vestiu -a .
Olhou -se no espelho , não era mais o menino queOlhou -se no espelho , não
era mais o menino que fugia de sua própria vergonha . Ele era um soldado !
Quebrando o silêncio , um rádio , pela Itatiaia , noticiava rouco : — O colégio
eleitoral acaba de eleger presidente o mineiro Tancredo Neves , vitória da
nova república .
Papai acordou súbito , no banco da praça e a farda dobrada ao seu lado .
Um sonho ou uma viagem ao futuro ? Uma fenda no espaço -tempo ?
“Wormholes ”?
Pelas dezessete horas estava de volta em casa , deitado num colchão de
palha sobre um travesseiro de marcela e taboa , na sua casinha de sapé .
Trouxe consigo a farda de pracinha da FEB e a tem guardado até hoje .
Não tinha florada de ipê no caminho de volta , mas muitos sonhos jogados
às poeiras das estradas .
Casou -se , teve filhos e netos e enviuvou -se . Aprendeu que a esperança não
está na certeza de que tudo dará certo , mas na força de levantar -se cada dia
acreditando que o próximo sonho pode realizar -se . E ainda que o destino
seja injusto e incerto , o caminho continuará “enfloreado ” de ipê e calçado de
poeira e fé .
Publicado e disponível em Trema.
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