UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
FACULDADE DE ADMINISTRAÇÃO E CIÊNCIAS
CONTÁBEIS - FACC
LUCAS CAMPOS LIMA
GERENCIAMENTO DAS CATEGORIAS DE BASE DO CLUBE
DE REGATAS DO FLAMENGO
RIO DE JANEIRO – RJ
2020
LUCAS CAMPOS LIMA
GERENCIAMENTO DAS CATEGORIAS DE BASE DO CLUBE
DE REGATAS DO FLAMENGO
Monografia apresentado à Faculdade de
Administração e Ciências Contábeis da
Universidade Federal do Rio de Janeiro
(FACC/UFRJ) como requisito parcial à
obtenção do grau de Bacharel em
Administração.
Orientador (a): Marcelo Almeida de Carvalho
RIO DE JANEIRO – RJ
2020
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO .............................................................................................................. 3
1.1. Formulação do Problema de Pesquisa ..................................................................... 6
1.2. Objetivos.................................................................................................................. 6
1.2.1. Objetivo Geral .............................................................................................. 6
2. REFERENCIAL TEÓRICO ........................................................................................... 7
2.1. Gestão profissional no futebol brasileiro ................................................................. 7
2.2. Estrutura das categorias de base ............................................................................ 10
3. METODOLOGIA......................................................................................................... 14
3.1. Tipo de pesquisa .................................................................................................... 14
3.2. Participante da pesquisa......................................................................................... 15
3.3. Método de análise de dados ................................................................................... 15
4. ANÁLISE DE RESULTADOS .................................................................................... 16
4.1. Inserção dos atletas nas categorias de base do CRF .............................................. 17
4.2. Retenção de talentos e estrutura do dia a dia ......................................................... 19
4.3. Desligamentos ou transição ao profissional .......................................................... 22
4.4. Aspectos a se desenvolver ..................................................................................... 25
5. CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................ 27
REFERÊNCIAS ........................................................................................................... 30
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1. INTRODUÇÃO
O futebol é uma paixão nacional no Brasil, considerado o “país do futebol” por
conta de seus memoráveis atletas que foram surgindo ao longo do tempo e dos títulos
expressivos da seleção brasileira de futebol, como as cinco conquistas de copas do mundo,
que faz do Brasil o país com mais títulos mundiais na história (HELAL, CABO e SILVA,
2010). O futebol nacional praticado pelos clubes também sempre fez muito sucesso, pelos
talentos que surgem ano após ano e que na maioria das vezes são transferidos para os
clubes do exterior com melhores condições financeiras que dificilmente encontram
dificuldade para adquiri-los (SANTAROSA e VENTURA, 2010).
Diante deste cenário, a profissão de dirigente de clube no Brasil acaba sendo uma
função de muita responsabilidade, não só na complexidade de questões internas,
envolvendo atletas e sócios dos clubes, mas por envolver uma relação de paixão na vida
dos torcedores daquele clube (LEONCINI e SILVA, 2005). Santos (2002) destaca que
durante anos, a gestão de clubes de futebol no Brasil foi extremamente amadora, porém
nos últimos anos isso vem mudando, com clubes profissionalizando cada vez mais sua
gestão, e já com resultados. Como exemplos de profissionalização recente, podemos citar
o Clube de Regatas do Flamengo em um âmbito de clube reconhecido nacionalmente,
com recordes de receitas (FLAMENGO, 2020), se fortalecendo e conquistando títulos, e
o Atlético – PR em um âmbito de clube mais regional e sem tanto poder aquisitivo, porém
seguindo linha de trabalho responsável e profissional, e tendo respostas
consequentemente no aumento contínuo das receitas e de títulos conquistados
(GONÇALO, 2017).
Segundo Suzuki (1999), o futebol é uma atividade cada vez mais científica,
tecnológica, planejada e mercadológica, envolvendo ampla estrutura e que precisa de
cuidados nos detalhes psicológicos e na adequação financeira, e para gerir toda essa
estrutura, é necessário gerenciar o clube como uma organização complexa e que exige
profissionais capacitados para cada atividade. Essa ideia não se aplica somente para a
categoria de futebol profissional, mas também no foco nas categorias de base dos clubes,
que é definido por Cardoso (2019) como local onde é realizada a prática esportiva por
crianças e adolescentes dentro de uma agremiação esportiva, ou seja, regularizada por um
clube, e possui o objetivo de formar e revelar novos jogadores.
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O objetivo principal de qualquer equipe esportiva são as vitórias e o sucesso
naquele esporte em termos de resultados, porém, Soriano (2010) destaca que, além dos
aspectos esportivos, as variáveis financeiras também não devem ser negligenciadas. Neste
sentido, considerando que os maiores ativos de um clube de futebol são seus atletas
(LOPES e DAVIS, 2006), os dirigentes devem se atentar aos recursos destinados no
tratamento desses atletas, e dar ênfase às categorias de base, onde podem formar seus
atletas desde crianças, podendo trazer resultados financeiros ou esportivos (LOPES e
DAVIS, 2006). Essa avaliação é de suma importância para a evolução profissional no
quesito administrativo e de gestão, agregando consequentemente de forma positiva para
o clube no longo prazo.
Recurso técnico fundamental para alguns, complementação de elenco para outros,
fonte de receita para quase todos; as categorias de base representam papel importante para
a formação de elencos no Brasil. Investimento e utilização na base são elementos
estratégicos dos pontos de vista técnico e financeiro para os clubes configurando-se como
uma grande vantagem competitiva de nosso futebol. (FERREIRA, VICTOR e
DARGHAM, 2020).
Em estudo feito por Ferreira, Victor e Dargham (2020) com 22 clubes do futebol
brasileiro, foi constatado que, em 2019, somados todos os minutos jogados pelos atletas
dessas equipes, 19,4% foram disputados por jogadores formados na base dos próprios
clubes, mostrando a importância da base para complementação dos elencos profissionais.
Mesmo antes da demanda por profissionalização nas gestões dos clubes no Brasil,
PEF (2001) já apontava essa importância e relevância das categorias de base quando
declarou: “Uma gestão profissional, com conhecimento em gestão, administração e
marketing nas categorias de base do futebol, pode ajudar a modificar o atual panorama
administrativo e financeiro dos clubes brasileiros.” Além disso, o entendimento das
etapas de formação de um atleta de futebol é fundamental para que se haja uma estrutura
capaz de maximizar o desenvolvimento dos atletas das categorias de base do clube (REIS,
2014). Deste modo, dirigentes e administradores podem explorar cada vez mais o real
potencial de seus clubes. Guterman (2009) destaca que a relação entre o futebol e o Brasil
é tão forte que é vista como parte da própria natureza do país, ou seja, os responsáveis
pelos clubes devem entender a relevância daquele clube dentro do espectro do futebol
brasileiro e saber que está diante um dos grandes entretenimentos para a sociedade em
5
geral, e que é preciso desenvolver seus atletas da melhor forma possível, e tudo se inicia
nas categorias de base.
Nas categorias de base os atletas têm as primeiras oportunidades para se
familiarizar com um nível de competição e exigência dos quais eles não estão
acostumados a enfrentar. Junto ao processo de formação esportiva, vem a necessidade e
a responsabilidade de formação do atleta como indivíduo, considerando que o futebol seja
um esporte coletivo, valorizando assim a arte da convivência em grupo, companheirismo,
o poder de liderança, a atitude colaborativa e principalmente compreender que nesse
esporte não se vence sozinho. Trata-se de um processo de formação que trará orientação
positiva, não somente para o campo, mas também para a vida. Por este motivo é tão
importante a valorização de projetos que incentivam o esporte para crianças e jovens que
possuem poucas oportunidades (SFNOTICIAS, 2020).
As categorias de base também são um excelente meio de obtenção de receita para
os clubes, visto que jogadores brasileiros têm sido vendidos antes mesmo de se tornarem
ou se consolidarem profissionais. Por esse motivo, os clubes passaram a encurtar os
trajetos dos jovens em suas preparações, muitas vezes mudando o foco de todo processo
de formação. Se antes o foco era aprendizado e aperfeiçoamento do atleta, agora esse
processo visa a receita pela venda do atleta.
O Flamengo, por exemplo, é um clube que sempre se destacou no cenário nacional
por revelar diversos bons jogadores. Essa prática levou, inclusive a formação do lema
“Craque o Flamengo faz em casa”, criado em 1979 (FLAMENGO, 2011). Nessa época,
o clube carioca era formado em sua maioria por atletas formados em suas categorias de
base e que conquistaram posteriormente o título mundial em 1981.
O Flamengo nos últimos anos vem sendo considerado um clube referência em
termos de base no Brasil, fazendo com que os investimentos nas categorias de base
tenham resultados tanto esportivos quanto financeiros, como por exemplo no ano de 2018,
em que foram vencidos 21 campeonatos pelo Flamengo na base, a níveis estadual,
nacional e até mesmo internacional (FREITAS, 2019). Freitas (2019) também destaca
que como consequência desses triunfos, uma série de jogadores também foram premiados
com convocações para defender o Brasil em categorias de base. Foram 23 atletas
convocados para seleções de base, no total.
6
O gerente de futebol de base do Flamengo em 2019 avalia os objetivos da base e
justifica esse sucesso da seguinte maneira: “O clube tem as suas diretrizes muito claras,
na forma e estilo de jogar. Todas as categorias seguem esse modelo. Claro, existem as
particularidades de cada treinador e suas competências, mas o jogar do Flamengo tem um
estilo próprio, pela identidade, história e cultura do clube. Esse jogar é baseado em
princípios que direcionam a questão aplicada nas categorias e isso facilita muito a subida
e a descida dos jogadores. Quando o atleta está em uma categoria e sobe à outra, ou
retorna, ele tem muito claro que suas funções estão encaixadas dentro desse modelo de
jogar do Flamengo”.
Diante desse contexto, esta pesquisa buscou analisar os principais componentes
que estruturam as categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo. Entender a
estrutura das categorias de base de um clube como o Flamengo é importante para
aprofundamento do conhecimento a respeito da gestão profissional do futebol. Neste
sentido, é possível encontrar diversas pesquisas que analisam a gestão profissional do
futebol sem, contudo, destacar grande atenção às categorias de base.
1.1. Formulação do Problema de Pesquisa
Levando em conta as especificidades da gestão esportiva, e a relevância das
categorias de base no futebol brasileiro, que conforme Ferreira e Paim (2011), vêm
ganhando destaque cada vez maior, sendo importante não só na conquista de títulos, mas
na arrecadação de recursos com negociações para o exterior, o problema de pesquisa foi
definido da seguinte forma: Como o Clube de Regatas do Flamengo gerencia suas
categorias de base de futebol?
1.2. Objetivos
1.2.1. Objetivo Geral
O objetivo geral da pesquisa é analisar a forma pela qual o Clube de Regatas do
Flamengo gerencia suas categorias de base por meio do mapeamento de suas principais
características.
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2. REFERENCIAL TEÓRICO
Este capítulo procura expor a literatura a respeito da profissionalização da gestão do
futebol, procurando evidenciar a composição das receitas dos clubes brasileiros nos
últimos anos e a evolução dos valores. O segundo tópico aborda o principal foco da
pesquisa que são as categorias de base, mostrando exemplos de estruturas e pensamentos
vigentes em alguns clubes do futebol brasileiro.
2.1. Gestão profissional no futebol
Leoncini e Silva (2005) destacam o futebol mundial como um grande negócio,
mas que no Brasil, por mais que movimente valores altíssimos, como por exemplo em
2019 onde 16 clubes movimentaram mais de 6,8 bilhões de reais (JUSTO, 2020), ainda
está longe de apresentar todo seu potencial, principalmente em comparação com outros
países do mundo. A exploração desse potencial está diretamente ligada à gestão dos
clubes de futebol aqui no Brasil que possuem diversas especificidades que, se estudadas
e investidas de maneira correta, têm grande chance de sucesso dentro da indústria
esportiva.
O profissionalismo no futebol brasileiro iniciou-se oficialmente no final de 1929,
como única saída possível para viabilização do esporte, quando começavam as evasões
de jogadores para o exterior. A necessidade de evitar que os principais jogadores
debandassem para o exterior foi determinante para que os grandes clubes, principalmente,
se engajassem na causa do profissionalismo. Nesse caso, o profissionalismo foi
responsável pela sobrevivência do futebol no Brasil (CALDAS, 1990). Contudo, o início
do processo de profissionalismo é anterior e objeto de grande polêmica entre os clubes
do futebol brasileiro, gerando, inclusive, disputas acirradas clubes que são conhecidos
como grandes, principalmente por questões raciais e elitistas. Na prática, é impossível
precisar a data, pois há inúmeros exemplos de jogadores, na época do amadorismo que
recebiam gratificações, “bichos” ou até mesmo salários mensais, como se fossem
funcionários (BORSARI, 1975; CALDAS, 1990; BETTI, 1997).
Já no âmbito administrativo houve avanços, mas a profissionalização ainda é um
processo em andamento. A primeira transformação real ocorreu na profissionalização dos
jogadores, processo que revolucionou as relações de trabalho, com os atletas deixando de
serem amadores, além do fato do futebol deixar de ser elitista para ser um fenômeno de
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massa e trazendo oportunidades de ascensão social para negros e pobres (SANTOS,
2002).
Gerir o futebol de um clube profissional é uma tarefa que exige diversas
competências, e segundo Correa (2006), os clubes estão ainda em um estágio inicial na
construção de qualidades administrativas para gestão esportiva. Dentre essas diversas
competências, as funções administrativas fundamentais para uma boa gestão são:
determinação de objetivos, planejamento, organização, comunicação, elaboração de
normas, direção, treinamentos de pessoas e controle (CHIAVENATO, 2000).
Deste modo, é relevante pensar que “para empresas e organizações, os melhores
exemplos de administração são considerados como exemplos de sucesso,
reconhecimento, sendo esses os objetivos de todas as organizações: crescimento e
prosperidade” (SPESSOTO, 2008). E nos casos dos clubes de futebol, o sucesso está
diretamente relacionado ao resultado esportivo, e o alcance desse resultado envolve não
apenas as questões técnicas de um jogo de futebol, mas também toda gestão
administrativa por dentro do clube. Bateman e Snell (1996) definiam que a gestão do
esporte é, em suma, semelhante às demais, trabalhar com pessoas e recursos objetivando
o cumprimento de metas das organizações esportivas, de maneira eficaz.
Leocini & Silva (2000, p. 4), ao analisar a gestão do clube, afirmam que o modelo
de gestão deve apresentar algumas características imprescindíveis como: modelo estável,
que opere há pelo menos cinco anos, no qual suas variáveis administrativas já estejam
consolidadas; um modelo que contemple a lucratividade e/ou o desempenho em campo
como metas ou resultados esperados; um modelo que possibilite facilidade ao acesso às
informações necessárias para tal análise.
Os maiores exemplos de gestão de futebol e desempenho vêm dos clubes
europeus, e Dimitropoulos (2011) esclarece que esse destaque acontece porque os clubes
europeus conseguem encontrar um equilíbrio entre resultados financeiros e esportivos sob
pena de exclusão em competições e associações da qual fazem parte. Já no Brasil, os
clubes buscam transformar seus processos e adequar seu modelo de gestão aos modelos
modernos que tem à disposição. Capelo (2020) compara o cenário dos clubes brasileiro
com os europeus, supondo que as regras de fair play financeiro europeu (método utilizado
para melhorar a transparência e credibilidade dos clubes nos gastos) fossem aplicados no
Brasil, e a situação dos clubes desportivos brasileiros seria muito deficitária, com mais da
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metade dos clubes sendo reprovados no fair play, sofrendo consequentemente inúmeras
punições.
Com isso, seria importante que os clubes brasileiros se desenvolvessem passando
a utilizar estratégias semelhantes aos moldes do futebol europeu, na medida do possível,
que aproveita todos os mecanismos de marketing esportivo, vendem bem seus produtos
e deixam seus ingressos valorizados (VALENTE e SERAFIM, 2006), e no quesito
financeiro, uma das estratégias utilizada é a diversidade das fontes de receita dos clubes,
pois, enquanto no Brasil a grande parte das receitas está na venda de jogadores, na Europa,
em clubes como Manchester United da Inglaterra, Juventus e Milan da Itália, outros itens
são mais relevantes como merchandising e patrocinadores, bilheteria e contratos de mídia,
ou seja, receitas mais relacionadas à proximidade com os clientes (SILVA e CAMPOS,
2006).
Porém, a comparação de fontes de receita do mercado europeu com o brasileiro
não é tão simples, pois o ideal seria levarmos em conta as características econômicas
gerais do continente europeu. A diversificação das fontes de receita dos clubes brasileiros
pode ocorrer, mas o potencial desse crescimento é condicionado pela economia em que o
futebol se insere. Ampliando essas fontes de receita, um possível tendência seria não só
aumentar a base geradora de caixa dos clubes, como seria importante para a continuidade
dos clubes como organizações esportivas, com o futebol brasileiro permanecendo com o
status de exportador de jogadores, mas devido à qualidade do futebol brasileiro em revelar
talentos, e não como resultado de uma má gestão (SANTOS, 2002).
Todo clube, assim como toda empresa, deve se organizar e controlar suas receitas
visando ao menos “sobreviver” em seus nichos de atuação. Com isso, analisando a
composição das receitas dos clubes de futebol do brasil através do quadro abaixo feito
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pelo Itaú BBA - Análise Econômico-Financeira dos Clubes Brasileiros de Futebol
(GRAFIETTI, 2020), podemos perceber o aumento das receitas dos clubes ano após anos,
e desde 2014 um aumento absoluto e percentual no quesito “Transação de Atletas” dentro
dessa composição, mostrando como é cada vez mais relevante a venda de atletas dentro
da gestão/planejamento na administração dos clubes.
Na tabela acima, por mais que haja uma diversidade na composição das receitas
de clubes brasileiros, há um predomínio muito grande dos valores nos direitos de TV, o
que acaba fazendo com que alguns clubes se tornem dependentes dessas receitas para
“sobreviver”, e para melhorar esse cenário, conforme destacado por Dimitropoulos
(2011), o ideal seria uma distribuição maior das receitas e um desenvolvimento maior de
receitas como publicidade e patrocínio.
Assim, considerando a atual distribuição de receitas, a venda de atletas ganha cada
vez mais relevância, e essas transações podem ser vendas de jogadores que já atuam na
categoria profissional do clube, neste caso podendo haver valorização ou desvalorização
no momento da transação, ou podem ser vendas de atletas ainda presentes nas categorias
de base no próprio clube, sendo ainda considerados promessas, com isso o valor de
mercado tende a ser baseado no potencial de performance daquele atleta. (SOARES,
2011). Por isso, a gestão profissional dos clubes deve ter especial atenção com o processo
de formação de atletas, já que podem se constituir como fontes de receitas em uma
transação futura.
Desta forma, resumindo de forma geral os aspectos ligados às categorias de base,
Aidar e Leoncini (2002) destacam que de um lado existe a evolução da prática,
representada pelos agentes ligados produção de espetáculos futebolísticos (clubes,
federações) e produtores e vendedores de serviços diretos (médicos, treinadores etc.), e
de outro lado existe o consumo, caracterizado pelos compradores de bens ou serviços
ligados ao futebol, mas que não participam da produção do espetáculo em si. É importante
os clubes se estruturarem a fim de maximizar ao máximo suas oportunidades.
2.2. Estrutura das categorias de base
Quase todo esportista tem sua carreira iniciada ainda quando jovem, não
necessariamente como profissional, mas sempre há um período de aprendizados e
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desenvolvimentos antes de se transformar em um esportista de alto nível. Segundo Friselli
e Montovani (1999), dentre os esportes coletivos, o futebol talvez seja o que mais
precocemente inicia seu processo formativo de forma sistemática e organizada, podendo
começar a se desenvolver com apenas 4 ou 5 anos de idade, e passando a evoluir, com 12
ou 13 anos de idade já podem ser considerados futuros talentos no esporte. (Atletasnow,
2019).
No Brasil, o processo de formação de jogadores, segundo Kunz (2003), teve seu
grande marco na década de 60. Após o insucesso da seleção brasileira na copa de 1966,
o futebol brasileiro percebeu a necessidade do surgimento de novos atletas e as categorias
de base surgiram neste período com o intuito de formar jogadores para os clubes
profissionais, fazendo uma renovação dos atletas (FERREIRA e PAIM, 2011).
Atualmente as categorias de base ou formativas ganham importância e destaque
na visão dos dirigentes futebolísticos, pois além da possibilidade de abastecer o time
profissional, evitando gasto com contratações de jogadores de outros clubes, os atletas de
base podem ser negociados com outros clubes por valores altos sem nem mesmo terem
atuado pelo profissional, gerando uma receita muitas vezes essencial no planejamento dos
clubes. O alto preço de contratação de futebolistas já consagrados, juntamente com uma
maior concorrência das equipes mais poderosas na busca de bons jogadores jovens e
desconhecidos, fez com que nos últimos anos os investimentos na formação do atleta de
futebol profissional aumentassem de forma significativa (FERREIRA e PAIM, 2011).
Silva e Campos (2006) destacaram essa relação, mostrando que a venda de
jogadores representa para muitos clubes uma solução de problemas financeiros de curto
prazo. Porém, se os clubes tivessem uma grande quantidade de bons jogadores vindos das
categorias de base, o desempenho da equipe seria menos prejudicado no caso da venda
de um ou dois jogadores para equilibrar seus balanços. Por isso, o investimento nas
categorias de base representa uma solução dentro do modelo de venda de jogadores, tanto
do ponto de vista financeiro, mas também para desempenho em campo, pois contribui
para formação de times competitivos no longo prazo.
Além da importância financeira que os atletas de base podem ter para o clube, é
preciso saber a melhor forma de formar e desenvolver esses atletas durante a base, e
alguns autores enfatizam a importância do processo de formação dos atletas. Coqueiro e
Honorato (2008) ressaltam que a opção pelo esporte ocorre de maneira precoce diante de
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diversas outras escolhas, assim como a formação do atleta vai acontecendo
simultaneamente com outras descobertas, com isso é sempre importante um
acompanhamento psicológico, concomitante ao trabalho estruturado nas categorias de
base, porém não são todos os clubes que prestam essa assistência psicológica aos jovens.
Além da assistência psicológica, outros profissionais também são importantes no
processo de formação dos atletas e tendo em vista todos os profissionais que trabalham
nos clubes de futebol atuando nas categorias de base diretamente com os jovens atletas,
é importante ressaltar alguns fatores que exercem influência sobre a manutenção e o
planejamento satisfatórios de uma estrutura de base (TOLEDO, 2002). Deste modo, é
possível destacar a atuação os próprios técnicos, auxiliares e preparadores físicos, além
do apoio de outros especialistas como psicólogos, nutricionistas, médicos e
fisioterapeutas na qualificação desses profissionais como. E nessa mesma linha, Toledo
(2002) também destaca as virtudes que os atletas desenvolvem nos centros de treinamento
através do aprendizado passado por esses profissionais, como disciplina, pontualidade,
capacidade de adaptação, técnica e preparação física.
É possível notar a organização e estruturação das categorias de base de alguns
exemplos no Brasil, como no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, que tem sua escolinha
de futebol e conta com crianças entre 6 e 16 anos separadas por categoria, porém essa
ainda não é a categoria de base do clube, pois esta contempla jovens de 12 a 20 anos, e já
são considerados atletas de formação do clube. Esses jovens chegam ao clube através de
várias formas: indicação, observados pelos funcionários do clube, empresários, ou por
conta própria, pelas peneiras. Dentro das categorias de base, visando desenvolver e
“cuidar” desses atletas, as equipes de base do Grêmio são formadas por treinadores,
supervisores, preparadores físicos e de goleiros, massagistas, roupeiros e estagiários, e
majoritariamente essas vagas são preenchidas por pessoas formadas em educação física.
(SILVA e MORAES, 2010).
No caso do Coritiba Foot-Ball Club, para ingressar nas categorias de base, as
formas de entrada são: testes coletivos ou indicações de olheiros do clube. O clube conta
com alojamento para 52 atletas que possuem transporte, alimentação e ajuda de custo
mensal, e os profissionais que dão suporte a esses atletas são treinadores, auxiliares,
preparadores físicos e de goleiros, roupeiros e estagiários. (PACHECO, ALMEIDA e
TEDESCO, 2013). Uma estratégia utilizada pelo Coritiba é a de investir nas categorias
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de base sem a necessidade de empregar diretamente capital no desenvolvimento integral
do atleta:
“O Coritiba FC tem várias categorias de base: mirim, pré-mirim,
infantil etc. Segundo os dirigentes, compra-se jogadores juniores
do interior do estado e do Brasil a preços baixos, o jogador vem
para o clube, entra para uma vitrine maior e se torna possível
vendê-lo por dez vezes o seu valor de compra. O processo de
comercialização de atletas é feito através de empresários ou
diretamente com os clubes, muitas vezes até por telefone.”
(PROHMANN, 2003).
Porém, para obter sucesso na estruturação das categorias de base, a seleção e o
desenvolvimento de jovens jogadores qualificados devem ser bem-feitos, pois são os
principais motivos da realização de investimentos nas categorias de base dos clubes de
futebol (BITENCOURT, 2010). Este investimento é considerado um projeto a longo
prazo, que requer alguns anos para gerar resultados satisfatórios, como a promoção de
atletas para a equipe profissional. No entanto, na maior parte dos clubes, há uma falta de
procedimentos e critérios para direcionar a seleção, a formação e a promoção de atletas
nas categorias de base, e quando existem falhas nesses processos, passa a ser questionável
a eficiência na formação dos jogadores e consequentemente se o investimento realizado
nas categorias de base é válido para o clube (PAOLI; SILVA; SOARES, 2013).
Após atingir a idade máxima para permanência nas categorias de base, existem
três possíveis destinos para os atletas: o primeiro é ser desligado do clube, ficando sem
clube, transferido para outro clube, e uma terceira opção, de ser incorporado ao
profissional, onde a visibilidade é relevância são muito maiores almejada por todo
jogador. Falk e Pereira (2010) argumentam que recrutar internamente, ou seja, buscar
dentro do clube os atletas com as características de que se necessita, apresenta vantagens
aos clubes, pois apresenta menor custo direto que, além de dispor do conhecimento prévio
do perfil de desempenho do atleta, também melhora a moral interna do grupo. Além disso,
essa iniciativa serve de estímulo à preparação para promoção, proporcionando medidas
especiais de treinamento e criando um clima sadio de progresso profissional, ao passo
que demonstra a valorização do pessoal que já compõe a equipe, indicando que o treinador
proporcionará chance de ascensão aos atletas condicionados.
Um ponto importante para levar em consideração ao analisar o processo de
transição ao profissional, é a visão que os clubes têm de suas categorias de base. Por
14
exemplo, em alguns clubes do RS, “[...] clubes desejam formar atletas para abastecer a
equipe profissional, mas dois deles focam a possibilidade de alguma venda futura,
contribuindo com as finanças da instituição.” (VERARDI e BURGOS, 2013). Dessa
forma, dependendo do real objetivo do clube com suas categorias de base, isso afeta a
estrutura e os investimentos feitos na base.
Em estudo de caso realizado com o São Paulo Futebol Clube, o clube indica focar
na formação dos atletas, atendendo cerca de 200 esportistas em suas categorias de base.
O desejo do clube é, no futuro, poder contar com grande parte do time formado em sua
base, havendo um número reduzido de transferências para outros clubes. O atleta é
formado para atender à demanda do time profissional e não para ser utilizado como
mercadoria para futuras transações (VERARDI e BURGOS, 2013). Porém, mesmo com
esse ideal, não significa que é simples ser promovido ao profissional a partir do momento
em que se encontra nas categorias de base, por exemplo, no Grêmio, no máximo 1% dos
atletas que iniciam nas escolinhas chegam ao profissional. (SILVA e MORAES, 2010).
Por fim, é importante destacar que esses atletas de base podem trazer não só
resultados financeiros em vendas futuras, mas também resultados esportivos, como o caso
de Robinho e Diego no Santos (Imortais do Futebol, 2012), essenciais na conquista do
título Brasileiro de 2002, Arthur e Luan no Grêmio, campeões da Libertadores em 2017,
entre outros casos semelhantes (Gazeta Esportiva, 2017).
3. METODOLOGIA
Este capítulo é destinado à explicação dos recursos metodológicos que serão
utilizados na confecção da monografia, destacando os critérios adotados para a realização
da pesquisa empírica.
[Link] de pesquisa
A pesquisa feita foi descritiva, pois buscou descrever as características das
categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo e analisar a fala do gestor deste
setor no clube acerca das etapas de formação de um atleta, estrutura, e a gestão esportiva
em geral, temas escolhidos por critério de importância interna de acordo com dirigentes
do CRF, além de serem temas com diversos artigos divulgados. Para efeitos de
comparações e, como explica Gil (2002), as pesquisas descritivas têm como objetivo
15
primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou,
então, estabelecimento de relações entre variáveis.
A técnica de pesquisa é qualitativa através de análise de documentos e aplicação
de entrevista estruturada com perguntas previamente roteirizadas. Segundo Bogdan &
Biklen (2003), uma pesquisa qualitativa envolve a obtenção de dados descritivos, obtidos
no contato direto do pesquisador com a situação estudada, enfatiza mais o processo do
que o produto e se preocupa em retratar a perspectiva dos participantes. Com isso, nessa
pesquisa, os dados foram coletados através de uma entrevista respondida de maneira
remota pelo Gerente das Categorias de Base do Clube de Regatas do Flamengo, além da
análise de documentos internos do clube que foram obtidos com aval da gerência de
categorias de base do CRF como organogramas, relatórios de contratações e
desligamentos de atletas de base, relatório de turnover, e descrição de cargos que se
relacionam com os atletas, e foram interpretados para discussão e posterior conclusão da
pesquisa.
3.2. Participante da pesquisa
O participante da pesquisa foi o Gerente das Categorias de Base do Clube de
Regatas do Flamengo, que respondeu uma entrevista através de áudios.
3.3. Método de análise de dados
Como instrumentos para a pesquisa foram utilizados a análise documental que
segundo Ludke e André (1986) consiste em uma técnica importante na pesquisa
qualitativa, seja complementando informações obtidas por outras técnicas, seja
desvelando aspectos novos de um tema ou problema. Laville e Dione (1999) acrescentam
que numa análise documental, o trabalho se inicia com a coleta dos materiais, e à medida
que as informações forem colhidas, o pesquisador elabora a percepção do fenômeno e se
deixa guiar pelas especificidades do material selecionado. Além da análise documental,
foi utilizada a aplicação de entrevista, definido por Gil (1999) como uma técnica
desenvolvida a partir de uma relação fixa de perguntas previamente definidas.
Os dados coletados foram analisados por meio de análise de conteúdo, explicada
por Bardin (2002) como um conjunto de técnicas de análise das comunicações que
consiste em três fases, pré-análise, sendo a fase de preparação do material a ser analisado,
a segunda etapa seria a exploração do material, definindo as categorias para pesquisa, e
16
por fim, o tratamento dos resultados, inferência e interpretação. Na pesquisa, essa análise
foi feita baseada nos áudios recebidos como resposta às questões referentes ao
gerenciamento das categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo diante diversos
cenários, desde a chegada dos jovens atletas ao clube, até a transição ao profissional ou
desligamento/transferência para outro clube.
As perguntas contidas na entrevista foram formuladas a partir de conversas com
membros da gerência de categorias de base do CRF, com critérios embasados em
importância do assunto e capacidade de responder, já que muitos temas podem trazer
confidencialidade e, portanto, não poderiam ser expostas na pesquisa. Com isso, os
tópicos da pesquisa foram sobre o gerenciamento das categorias de base e a opinião do
gestor a respeito de: (1) métodos de inserção dos atletas nas categorias de base, (2)
estratégias de retenção desses atletas, (3) cotidiano dos jogadores, (4) etapa final dos
atletas nas categorias de base transitando ao profissional ou sendo desligados, e por fim,
(5) aspectos a se desenvolver nas categorias de base em geral. Essas categorias orientaram
a entrevista, e foram utilizadas de forma segmentada na análise de resultados da pesquisa.
As respostas da entrevista foram obtidas através de áudios e a duração total das respostas
foi de 50 minutos. As respostas foram obtidas dessa forma em virtude da pandemia do
coronavírus, com isolamento social e sem possibilidade de contato presencial.
4. ANÁLISE DE RESULTADOS
O Flamengo quer ser o "maior celeiro de talentos do mundo", palavras do assessor
da presidência para assuntos da base em 2018, Luís Gustavo Nogueira
(MOREIRA,2018). Como estratégia, o clube aumentou o número de observadores atentos
a novos jogadores, passando de três para onze pessoas nessa função, com olheiros
espalhados pelo Brasil com a missão de buscar jogadores promissores. O orçamento
também aumentou, foi de R$ 12 milhões, para R$ 20 milhões em três anos (MOREIRA,
2018).
Além dessas mudanças, foram feitos investimentos no Centro de treinamento (CT)
do clube, com a criação de um novo módulo para o futebol profissional, enquanto o antigo
módulo do profissional passou a pertencer às categorias de base.
O Flamengo faturou nos últimos três anos mais de 500 milhões de reais com venda
de atletas formados na base que representaram cerca de 23% do faturamento total do clube
17
no período a um custo total médio de menos de 32 milhões de reais por ano com as
categorias de base do futebol, conforme dados divulgados no portal de transparência no
site oficial do clube (FLAMENGO, 2019), ou seja, é possível afirmar que a formação de
atletas é rentável para o clube em termos financeiros. Com isso, tendo em vista a
importância do futebol de base, neste capítulo serão apresentados os resultados da
pesquisa realizada além da análise de documentos internos oficiais do clube usados para
controle de indicativos.
Como explicado anteriormente, as perguntas do questionário foram formuladas a
partir de conversas com membros da gerência de categorias de base do CRF, com critérios
embasados em importância do assunto e capacidade de responder, já que muitos temas
podem trazer confidencialidade e, portanto, não poderiam ser expostas na pesquisa, e
foram separadas em quatro categorias, sendo eles: (1) Inserção dos atletas nas categorias
de base do CRF, (2) Estratégias de retenção dos talentos e estrutura no dia a dia, (3)
Desligamentos ou transição ao profissional, e (4) Aspectos a se desenvolver nas
categorias de base.
Lembrando que as análises estão considerando o papel tático da gestão de base na
estratégia organizacional do Flamengo, que não é o mesmo de outros clubes de mesma
importância e êxito esportivo, como, Grêmio, Santos, Cruzeiro, Corinthians etc. E menos ainda
em clubes de menores investimentos (Botafogo-SP, Coritiba, Madureira etc.) Dessa forma, os
processos descritos são analisados considerando o contexto e os objetivos estratégicos de um
clube considerado referência atualmente no Brasil, não só por conta dos resultados esportivos,
mas por conta do trabalho fora de campo.
4.1. Inserção dos atletas nas categorias de base do CRF.
Nesta primeira seção foram feitas perguntas em relação às formas de entrada dos
atletas às categorias de base, eficácia desses processos, número médio de atletas que são
admitidos nas categorias, e possíveis idades ideais para um atleta ser inserido em um
clube. Seguem abaixo as respostas para essa seção:
As formas de inserção de um atleta nas categorias de base do CRF são:
a. Peneiras, que são os processos seletivos de atletas de futebol, onde cada clube
faz sua própria peneira;
18
b. Avaliações feitas dentro dos elencos de atletas já federados pelo clube, atletas
esses que muitas vezes já tiveram passagens por outros clubes, contendo por isso, um
nível de entendimento técnico maior;
c. Indicação dos observadores técnicos que veem atletas em todos os nichos, em
quadras de futsal, em praças públicas (raros) e observando atletas de outros clubes
atuando nas competições;
d. Através do futsal (no Flamengo os atletas começam com 6 anos de idade) onde,
quando começam a se destacar, são chamados para fazer testes para as categorias de base
do clube onde se joga no campo.
Dessas formas de inserção, a mais recorrente e mais eficaz é através da indicação
dos observadores técnicos, por serem profissionais com experiência e que conseguem
reconhecer com maior facilidade um talento esportivo. Outro meio de inserção possível
seria por indicação de empresários, porém no CRF não é algo que acontece, por questões
morais e de meritocracia, já que não seria justo aprovar um atleta não pelo mérito
esportivo.
Essas formas de inserção são as mais comuns na maioria dos clubes brasileiros,
porém, alguns clubes de menores investimentos não possuem a melhor estrutura para
utilização de diversos observadores técnicos, dessa forma, as formas mais comuns
acabam sendo peneiras e indicação de empresários.
Analisando o controle de turnover de atletas do CRF, verificou-se que são feitas
aproximadamente 10 contratações mensais segundo o documento de controle de atletas
admitidos na base do CRF, e não há um período exato do ano em que são feitas mais
contratações, porém pode-se dizer que no primeiro trimestre do ano é um período
importante onde as categorias estão sendo estruturadas, e ao longo do ano as contratações
acabam sendo bem distribuídas, porém há casos em que acontecem competições com
prazos curtos de inscrição de atletas, e acabam acontecendo muitas contratações num
espaço curto de tempo, mas não há como precisar o mês específico em que uma
competição nesses moldes acontece.
Na última questão dessa seção, sobre a idade ideal para um atleta ser inserido em
um clube de futebol, segundo o gestor do CRF, é muito difícil definir uma idade ideal,
pois cada atleta tem seu período de evolução e esse período varia muito de atleta para
19
atleta, mas analisando de uma forma mais fria e desconsiderando contextos externos, a
idade entre 9 e 10 anos é uma idade excelente por questões de coordenação motora e
aprendizagem motora. Porém, um menino que já tenha um bom desenvolvimento dessas
questões motoras do corpo num âmbito geral, a idade de 12 e 13 anos também é uma
idade ótima para se inserir em um clube de futebol, onde o menino já tem uma percepção
cognitiva mais elaborada, já entende a questão de operações formais, e já consegue
entender a questão competitiva de uma forma um mais madura, e são exatamente essas
categorias (sub 12 e sub 13) que possuem o maior número médio de contratações anuais
segundo relatório de admissões de atletas de bolsa aprendizagem do CRF.
4.2. Retenção de talentos e estrutura do dia a dia.
Na segunda seção do questionário, as perguntas feitas foram relacionadas aos
profissionais que trabalham no dia a dia do clube e tem relações com os atletas e a
importância de cada um, as estratégias e dificuldades encontradas pelo clube na retenção
dos atletas nas categorias de base do clube, qual subcategoria da base tem a maior atenção
por parte do clube, e por fim, quais são as atividades dos atletas no cotidiano.
Começando com a descrição dos funcionários que têm relação com os atletas de
base no clube, no caso do CRF, são muitos profissionais e de diversas áreas (conforme
imagem 1), mas os profissionais fundamentais são os treinadores, tendo um destaque na
questão da liderança, e os membros da comissão técnica, com os supervisores tendo um
contato próximo tanto com os atletas como com as famílias desses jovens, e os pedagogos
por conta das questões escolares de aprendizado. Assistentes sociais e psicólogos também
tem relações muito próximas com os atletas diariamente, além de roupeiros e massagistas
na preparação dos treinos e pós treinos. Eventualmente médicos e fisioterapeutas também
tem contato direto, se o atleta tiver passagem pelo departamento médico. O contato com
a gerência também existe, mas é muito menor no dia a dia. A importância desses
profissionais é bem ampla, com maior destaque para o treinador, por representar um
exemplo e referência para os atletas. Já os assistentes sociais são muito importantes nas
relações com as famílias, e os preparadores físicos são essenciais na questão da
afetividade entre os atletas, que se unem, se fortalecendo quando algum tipo de problema
físico vem à tona. Fundamentalmente, todos os envolvidos têm uma responsabilidade
enorme com o cidadão que está sendo formado, então a referência, a boa conduta, um
bom diálogo, capacidade de ter empatia, todas essas características são fundamentais, e
20
também está atrelado a questão da performance, mas independente disso, está formando
caráter, ainda mais com atletas muito jovens, e quanto mais jovem, maior é a capacidade
de intervenção desses profissionais no desenvolvimento desses meninos como futuros
cidadãos e seus comportamentos em linhas gerais.
A presença de todo esse volume de profissionais dentro de um clube para
orientação aos atletas não é padrão em todos os clubes brasileiros, devido ao contexto que
cada clube se encontra, em relação a êxito esportivo e investimentos. Por exemplo no
Botafogo Futebol Clube de São Paulo, onde em geral sua estrutura organizacional ainda
é amadora, e o clube não conta com esse leque de opções de profissionais para auxiliar
em cada área do futebol (BRESSAN, LUCENTE e LOUZADA, 2014).
Analisando as estratégias de retenção de talentos, a afetividade acaba sendo o fator
fundamental das relações, seja ela dentro do campo, com outros atletas, treinadores e toda
comissão técnica envolvida, ou nas relações com os pais. A questão da remuneração
também é muito importante dependendo do nível do atleta se tratando de potencial futuro
para o clube. Bom relacionamento com o representando do atleta caso ele tenha ou com
os pais também é sempre importante nas negociações para manter o atleta no clube.
Esse tipo de análise é muito difícil de se comparar com outros clubes, pelos seus
contextos não só em termos de investimentos atualmente, mas em termos de relevância
esportiva, pois para um clube considerado médio ou pequeno conseguir reter um atleta,
21
às vezes nem sempre o fator afetividade e remuneração são capazes de convencê-lo, mas
sim, um projeto a longo prazo de atuação nos jogos que gere visibilidade em âmbito
maior, exatamente buscando uma transferência futura para times maiores.
Continuando as respostas sobre os relacionamentos com os atletas e seus
representantes, a maior dificuldade dos atletas ao ingressarem nas categorias de base do
CRF é a adaptação de uma forma geral, entender e conhecer o clube, criar relações com
os demais atletas e entender as relações com os membros da comissão técnica são os
principais desafios para os novatos.
Já na relação com os familiares, a maior dificuldade é a adequação de expectativas,
onde o clube entende que existe uma necessidade muito grande financeira por parte de
todos, e o futebol tem um apelo de ascensão social muito relevante, então é natural que
se crie uma expectativa muito relevante com os meninos independentemente da idade,
que alcance níveis altos de performance e resolva questões socioeconômicas da família,
porém é necessário apresentar para as famílias a verdadeira realidade daquele atleta para
adequar a expectativa e para se caminhar junto com metas possíveis e com uma trajetória
realista na formação daquele atleta.
No caso dos empresários, a questão do alinhamento de expectativas também é o
principal desafio e dificuldade na relação clube – empresário, mas neste caso o diálogo e
a expectativa são menos emocionais, mas é essencial a transparência do processo do clube
e o que é esperado daquele atleta. Além disso, o empresário sempre busca percentuais
econômicos para si e valores muitos altos, muitas vezes desproporcionais com a faixa
etária do atleta ou desproporcionais com a entrega daquele atleta ao clube, e as vezes é
uma negociação difícil com os empresários para chegar a um consenso. Nesse quesito
expectativa criada para o atleta, acaba sendo um tema difícil de se solucionar, muito por
conta da mídia que o esporte e os grandes jogadores têm atualmente, todo o glamour e
dinheiro que rodeiam os grandes atletas e acabam alimentando uma falsa esperança nas
famílias de que seus filhos, sobrinhos ou netos por estarem entrando na carreira de jogador
de futebol, terão essa vida de sonhos também.
Por fim, respondendo as últimas questões dessa seção, sobre as subcategorias do
CRF e o dia a dia dos atletas no clube, o gestor destacou as categorias sub 17 e sub 20
como as categorias em que o clube dá a maior atenção, por se tratar de categorias com
atletas mais velhos e com maior complexidade extracampo se tratando de empresários e
22
da própria vida social do atleta por conta da idade (entre 17 e 20 anos), e maior relevância
em termos de ativo para o clube, que de acordo com documento de controle interno do
CRF, as categorias sub 17 e 20 contém 67 atletas que custam atualmente 115% a mais do
que as outras categorias do clube juntas, mesmo com essas outras categorias contendo
184 atletas. Levando esses valores em consideração, chegamos à conclusão que em
média, um atleta sub 17 ou 20 custa 6 vezes mais que um atleta das categorias menores.
Essa preferência e maior atenção às categorias mais altas é padrão em
praticamente todos os clubes do Brasil, exatamente pelo fato de representarem ativos
maiores, e quanto maior a categoria do atleta, a partir do momento que o mesmo se destaca
em alguma competição, maior é seu valor de mercado. Já quando o atleta ainda é muito
jovem, com 12, 13 anos por exemplo, como representam incógnitas para o futuro ainda,
os clubes grandes acabam conseguindo atraí-los de maneira mais fácil e mais barata.
Essa diferença de custos e investimentos pode ser preocupante, dependendo da
atenção que é dada aos atletas mais jovens, pois, por mais que os atletas mais velhos
representem ativos mais representativos para o clube, os mais jovens estão passando por
um processo muito importante e definitivo de formação profissional e pessoal, e sem o
devido investimento e atenção por parte dos profissionais das diversas áreas de apoio do
clube, esse atleta pode não ter a melhor orientação e acabar se desorientando e não
conseguindo atingir seu potencial máximo no futuro.
A respeito do dia a dia desses atletas de base, numa rotina normal, eles ficam entre
3 horas a 3 horas e meia no clube, entre refeições (café da manhã e almoço na grande
maioria dos dias), considerando a chegada ao clube, pré treino, que é uma preparação para
o treino com avaliações feitas pelo departamento médico, o treino em si, reuniões /
conversas com membros da comissão técnica e/ou com funcionários da pedagogia,
psicologia ou serviço social eventualmente, banho, e finalizando o dia após o almoço.
4.3. Desligamentos ou transição ao profissional.
Nesta seção, foram abordadas perguntas em relação aos objetivos atuais do CRF
na formação dos atletas, categorias com maiores índices de turnover, idade ideal para se
completar o desenvolvimento nas categorias de base, percentual de atletas das categorias
de base que chegam ao time profissional principal, e por fim, que tipo de suporte o
Flamengo dá aos atletas após as rescisões de contratos.
23
Atualmente o Flamengo forma seus atletas nas categorias de base visando tanto a
atuação no time principal quanto o retorno financeiro com possíveis vendas para outros
clubes, pois nem todos os atletas podem ser absorvidos pelo futebol profissional e é
natural que o clube tenha que negociar atletas antes que eles sejam expostos ao
profissional. O objetivo principal do clube é primeiramente formar os atletas para que
continuem no clube atuando em alto nível, porém o clube já age atualmente pensando nos
dois possíveis cenários.
Essa decisão de olhar para ambos os cenários parece ser o cenário ideal para o
futebol brasileiro, ou seja, aproveitar a valorização de seus atletas de base para vendas
significativas para clubes de fora do país, mas ao mesmo tempo não deixando de lado a
absorção de atletas para suprir o time profissional.
Porém, se analisarmos times que se encontram em outro contexto de relevância e
com menos investimentos, o objetivo das categorias de base pode tender para outros
rumos, mais focados nas finanças do clube, neste caso, uma decisão por conta das
limitações do clube que ainda precisa priorizar as cifras em detrimento do lado esportivo.
Analisando clubes que estejam no topo no cenário nacional, clubes de serie A do
Campeonato Brasileiro e que brigam por títulos todo ano, o ideal sem dúvida seria olhar
para a base não somente visando vendas futuras, mas também suprir o time profissional
para conquista do êxito esportivo a médio/longo prazo.
Na pergunta sobre a idade ideal para um atleta finalizar sua preparação nas
categorias de base, não houve uma resposta conclusiva porque cada atleta tem suas
individualidades em termos de performance, alguns alcançam o ápice por volta dos 22 ou
23 anos, já atuando pelo profissional, enquanto outros atingem alto nível na base com 17,
18 anos, e em função de um contexto externo negativo (problemas familiares, problemas
de lesão, etc.) acabam não conseguindo seguir carreira de sucesso no profissional. Para o
gestor do CRF, um ciclo ideal para um atleta seria um ápice de performance na base entre
18 e 19 anos de idade, para começar a transição ao profissional com 19 anos, e com 20
anos ser efetivado de fato no time profissional, com isso, o atleta tende a ter uma
consistência maior de desempenho e mais regularidade em alto nível. Essa é uma pergunta
muito pessoal e opinativa, não havendo necessariamente uma resposta certa ou ideal, pois
há muitos fatores na vida de um atleta de base que vão muito além de simplesmente a
idade.
24
O tema de transição de atletas de base ao profissional e turnover nas categorias de
base é bem complexo uma análise mais completa é importante, primeiramente, entender
algumas regras e metas estipuladas pelo clube a respeito do tema. Por ano, a meta
estipulada pelo CRF é entregar 4 atletas ao profissional. Considerando que a última
categoria (sub 20) trabalha com cerca de 20 a 22 atletas, e o nível de exigência e
excelência da base do Flamengo, esse número de 4 atletas é um número considerado
adequado. Em percentual, seria em torno de 20% por geração (ano/categoria). Porém,
esse número de 20 a 22 atletas na categoria sub 20 são valores médios de atletas que estão
na categoria, mas não necessariamente são os mesmos atletas durante todo o ano, já que
há um turnover de atletas entre as competições, e analisando um relatório do CRF de
admissões e desligamentos de atletas de base em 2020, verificou-se que houve um
turnover de 40% de atletas, ou seja, uma rotatividade bem alta. Para entender melhor
como funciona o turnover de atletas nas categorias de base, precisamos explicar a política
do clube:
a) Até a categoria sub 16, os atletas têm até 1 ano para se firmarem no elenco ou
não, após esse período eles podem ser desligados do clube;
b) Na categoria sub 17, esse tempo cai para 6 meses;
c) Na categoria sub 20, esse prazo é ainda menor, de apenas 3 meses, pois nesta
categoria, a performance deve ser imediata pela expectativa e cobrança.
Diante o cenário exposto acima, naturalmente as categorias maiores (sub 20 e 17)
acabam tendo um turnover maior, mas a intenção do CRF é tentar regular melhor as
categorias, trabalhando com menos atletas e com maior constância, tendo assim um fluxo
de entradas e saídas semelhantes entre as categorias, e um turnover mais baixo também.
Neste caso, se o CRF conseguir de fato regular melhor as regras de cada categoria
e deixar algo mais homogêneo, isso com certeza irá fazer com que o trabalho seja mais
consistente tanto para os profissionais do clube, e para os atletas que terão um trabalho
mais “garantido” a longo prazo.
Encerrando esta seção, a última pergunta feita foi sobre o suporte do clube dado
aos atletas após essas rescisões de contrato, e atualmente não há políticas vigentes no
clube sobre suporte a esses atletas, porém é algo que já foi pensado pelo CRF, e alguns
clubes da Europa já têm feito isso com certos cuidados, mas no Flamengo ainda não há
25
um suporte bem definido, e o que é oferecido é um apoio psicológico através do serviço
social por algumas semanas após o atleta se desligar, mas ainda não é algo formalizado
dentro do clube.
Esse tema também é bem importante e deveria ser mais debatido pelos clubes de
futebol em geral, pois sem dúvida, o futuro desses jovens atletas que são dispensados
ainda na base deveria ser considerado de extrema importância, pois se não for para formar
grandes atletas, uma das funções das categorias de base deve ser formar cidadãos, já que
existem tantos profissionais que orientam esses jovens no dia a dia, não só em relação à
quesitos esportivos, mas em termos educacionais.
4.4. Aspectos a se desenvolver.
Nesta última seção, foram feitas perguntas a respeito da situação geral das
categorias de base em relação a estrutura, aspectos com potencial de desenvolvimento, e
prós e contras do setor no futebol brasileiro.
Primeiramente, o gestor explicou que a cada ano, os clubes têm investido mais nas
categorias de base, financeiramente e em termos de estrutura física. Os principais clubes
brasileiros e alguns clubes médios já fazem um trabalho com uma estrutura física e um
investimento relativamente alto, obviamente cada um inserido em sua realidade. A
necessidade atualmente não é aumentar o valor investido nas categorias de base, que já é
alto, mas sim investir de forma mais ampla, não focando prioritariamente apenas na parte
técnica e física dos atletas, mas investindo mais no desenvolvimento da inteligência do
atleta, do desenvolvimento cognitivo, das capacidades extracampo, que são
características que também estão inseridas nas avaliações de performances dos atletas.
Em segundo lugar, foram apontadas as áreas que deveriam receber maior atenção
por parte dos clubes, que seriam as áreas de suporte, como psicologia do esporte,
psicologia clínica que ainda é muito pouco valorizada no futebol de alto rendimento, áreas
como fisiologia, serviço social voltado para futebol e performance, pedagogia também
voltada para futebol e alto rendimento e não somente focado na questão escolar, com
ações de meditação que ajudem os atletas a manter a concentração de forma mais efetiva
no dia a dia, sabendo controlar questões emocionais de ansiedade e pressão. Todas essas
ações ajudariam na formação dos atletas.
26
Outro tipo de investimento que necessita ser feito é na capacitação de todos os
profissionais envolvidos nas categorias de base, como por exemplo, treinadores,
preparadores físicos e auxiliares técnicos, através de cursos teóricos e práticos. Além
dessas melhorias em termos de investimento, os clubes precisam analisar melhor a relação
número de atletas e número de profissionais ideal para cada área, por exemplo, uma
relação de 6 atletas para 1 profissional da comissão técnica seria a relação ideal,
individualizando mais o trabalho do dia a dia com os atletas e dando mais atenção com
acompanhamento mais de perto, tendo maior domínio e controle sobre todo o contexto
do atleta.
Finalizando o questionário, foram apresentados os principais prós e contras das
categorias de base no âmbito brasileiro:
a) Prós:
- Nível de matéria prima muito alta com oferta sempre de grandes atletas.
- Busca por aprimoramento de cada profissional envolvido no futebol, e nesse
quesito os profissionais do Brasil ainda estão bem atrasados em relação à Europa por
exemplo.
- Investimento em estrutura e condições de trabalho, em que o Brasil ainda está
atrasado, porém os investimentos estão em uma crescente nos últimos 10 anos e a
tendência é continuar melhorando.
b) Contras:
- Pouca preocupação por parte dos clubes para o entorno dos atletas, e dependendo
do contexto, o entorno do atleta pode representar até mais de 50% de sua performance, e
com isso os clubes acabam desperdiçando muitos talentos.
- Pela oferta ser muito grande de atletas no Brasil, os clubes acabam tendo pouca
paciência com jogadores muito qualificados que passam por momentos difíceis e acabam
muitas vezes sendo descartados.
Desta forma, podemos concluir que por mais que o brasil tenha inúmeros talentos
para o futebol, ainda é preciso evoluir em termos de estruturas e profissionais preparados
para suprir toda essa demanda e aproveitar o máximo possível desses jovens atletas,
27
porém há um caminho que está sendo trilhado pelos clubes para melhoria contínua dos
processos em geral e que no futuro possa ser referência e alcançar níveis mais altos de
efetividade.
5. CONCLUSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS
Após a análise das respostas obtidas e retratadas no item anterior, este tópico irá
finalizar a monografia com as conclusões gerais sobre as opiniões e conhecimentos do
gestor de Base do Flamengo acerca dos principais fatores que impactam as categorias de
base do próprio CRF e no cenário brasileiro em geral, considerando também os
documentos internos de controle do clube e as referências utilizadas durante a pesquisa.
Como exposto na pesquisa, as categorias de base do Flamengo vêm sendo rentável
nos últimos anos, tanto financeiramente, através de vendas para clubes europeus
(NICOLA, 2020), quanto esportivamente, com títulos estaduais, nacionais e continentais
(AGÊNCIA BRASIL, 2019). Com os resultados da pesquisa, pode-se perceber grande
controle interno do clube de a indicadores dos atletas, e uma busca constante de evolução
e melhoria nas relações dos profissionais com os atletas, porém não podemos afirmar se
o cenário atual já está perto ou não de algo ideal ou comparável com as principais
referências no mundo.
Contudo, não temos como confirmar se todos os profissionais envolvidos estão se
desenvolvendo e nem projetar melhoras significativas, pois os resultados mostram apenas
da consciência da necessidade de evolução e estrutura/ incentivo do clube para busca
dessa evolução profissional. Tendo em vista esse cenário dentro de um clube grande como
o Flamengo, atual campeão brasileiro (CBF, 2021), seria válido também avaliar o cenário
de outros clubes grandes do Brasil, e dos clubes menores também, para verificar ou não
alguma discrepância de visões e objetivos internos.
Os resultados também mostraram uma situação dúbia em relação à oferta de
talentos que há no Brasil. Ao mesmo tempo em que há uma oferta alta de jogadores jovens
com qualidade no país, os clubes não conseguem suprir toda demanda e com isso muitos
talentos são desperdiçados, provocando também alto turnover nas categorias de base, com
a concorrência cada vez mais acirrada, tornando os processos muito rígidos. Porém esse
“desperdício de talentos” acaba sendo um resultado necessário, devido ao número
limitado de vagas nos clubes. A abundância de talentos é por isso um elemento que joga
28
a favor do desperdício, como acontece em qualquer mercado com abundância de força de
trabalho qualificada, ou seja, o excesso de talentos é a base para o rápido descarte.
Além disso, a análise feita com os atletas muitas vezes foca apenas no lado físico
e técnico, e uma das conclusões da pesquisa é que também é preciso considerar mais o
lado externo e pessoal dos jogadores, que podem estar inseridos em contextos familiares
e de amigos que mais atrapalham do que ajudam no sucesso futuro daquele atleta.
Outra conclusão da pesquisa é em relação à importância que o clube dá às
categorias mais altas, com atletas mais velhos, por representarem ativos maiores. Essa
diferença de tratamento pode ser um problema, pois os atletas de categorias mais baixas,
mais jovens, estão em uma etapa de aprendizagem e formação muito decisiva e sensível,
e se não for dada a devida atenção e tratamento a esses jovens atletas, isso acaba tendo
consequências negativas para o atleta no futuro, talvez não conseguindo alcançar seu
máximo potencial.
Ainda sobre essa questão da preferência do clube em olhar para as categorias mais
altas, o turnover dessas categorias ainda é muito alto em comparação com as outras
categorias, e o próprio clube reconhece que isso é um problema e que busca com o tempo
corrigir isso e trabalhar com menos atletas e turnover menor e mais equilibrado com
outras categorias, por questões de continuidade do trabalho a longo prazo com os atletas.
Por fim, analisando os investimentos feitos pelo CRF, pode-se concluir que o
sucesso das categorias de base do clube não é apenas por força da marca Flamengo, mas
sim por conta de muitos investimentos feitos pelo clube, focando não somente no
departamento de futebol profissional, mas atendendo às necessidades da base. Uma das
características que alguns clubes têm em comum é a de não fazer o devido investimento
nas categorias de base e focar todas as atenções na categoria de futebol profissional
(CAPELO, 2020) e o Flamengo, por mais que tenha investido na base um valor que
representa menos de 20% do total investido no futebol, em números absolutos, o CRF é o
maior investidor dentre os clubes brasileiros, se empenhando a estruturar e atender às
necessidades das categorias de base e obtendo retornos positivos a partir desses
investimentos (TERRA, 2020). Porém, por mais que haja um investimento forte nas
categorias de base, ainda há um foco muito grande na estrutura física e no
condicionamento físico e técnico dos atletas, deixando de lado outras áreas também
29
importantes, mais relacionadas com o lado extracampo do atleta, portanto o ideal seria
diversificar mais esses investimentos.
Após as análises sobre o tema proposto, foram apresentados os principais pontos
da estrutura das categorias de base do Clube de Regatas do Flamengo, e este estudo pode
inclusive auxiliar outros clubes do Brasil em termos de gestão e objetivos de suas
categorias de base. Lembrando que essa análise levou em consideração um clube que está
muito avançado em termos de estrutura e capacidade de investimentos em relação à
grande maioria dos outros clubes brasileiros, ou seja, dificilmente todos os modelos
apresentados poderão ser comparados ou usados como espelho para times de menor
investimento e relevância esportiva.
Pensando em futuras pesquisas e estudos acerca do assunto, uma sugestão viável
e importante para os clubes seria fazer a mesma análise com a base de outros clubes de
futebol no Brasil, desde os maiores até os menores, para comparar visões, opiniões e
conhecimentos vindos de diferentes contextos de pressão e responsabilidades.
30
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