A arma fatal
— Senhor? Senhor Rerdram? — Um velho homem, de cabelo grisalho e um monóculo
pendurado no bolso do terno, abordou o jovem que estava sentado em um banco na entrada
da cidade. Os respingos de água em suas roupas entregavam a previsão de um temporal.
Era um rapaz baixo, de cabelo preto, demasiadamente enrolados em mechas. Seu traje
havia sido delicadamente confeccionado: um terno de botões, tingido de marrom e cinza. Sua
pele era negra como o ébano ou como uma terra pura e fértil. Seu sotaque era estranho e
distinto, mas compreensível. Ele carregava consigo, em seu colo, uma grande maleta
amadeirada, que segurava com ambas as mãos e levava para onde fosse.
— Com sua licença, acredito que seja a senhor Rerdram, presumo. — Disse ele, ajeitando o
monóculo.
De caráter austero, ele o observou de cima a baixo e imitou sua fala:
— Acredito que seja o detetive Howard, presumo.
— Excelente... — disse o homem, até ser interrompido.
O rapaz se levantou e o cumprimentou solenemente, com um aperto de mãos “nada
agitado” — ou pelo menos era como dizia. Balançava os braços apressadamente, como se
tivesse um tique nervoso em que precisasse medir cada movimento durante o cumprimento.
— Rerdram, senhor. Apesar de sua demora, é um prazer conhecê-lo — disse ele, com a mão
esquerda, enquanto a direita permanecia segurando a alça da maleta. Ao terminar as
saudações, recolheu sua mala com as duas mãos, segurando-a de um só lado. — O senhor está
atrasado por dezessete minutos e quarenta e oito segundos, senhor Howard.
— Si… Sim, perdoe-me por tê-lo feito esperar. Houve um imprevisto, um vazamento de gás na
avenida principal que dá acesso à estação.
— Suponho que também sofreremos um atraso em nossa chegada, considerando o incidente.
— Precisamente... Digo, talvez... Nesse caso, é melhor irmos diretamente ao departamento.
Senhor, deixe-me levar a bagagem. — Disse ele logo atrás, seguindo os passos nada apressados
do garoto.
Um suave chuvisco começou a cair sob o ombro e o cabelo do garoto, fazendo-o olhar para as
nuvens. Estavam começando a se juntar no céu, escurecendo a paisagem.
— Não será necessário — levantou a maleta com toda a força de seus finos braços e a pôs no
banco da carroça, subindo em seguida.
— Cocheiro, prossiga. — Disse o detetive.
Vallendrea fazia parte de um conglomerado de sete cidades comandadas por uma
oligarquia. Além disso, a população local era composta, em sua maioria, pela elite e
pela nobreza, sendo sua economia majoritariamente consequente das forças militares e de
corporações pertencentes a esses senhores. Contudo, existia sim uma minoria de grupos
indigentes. Uma estrada de cascalho e areia se estendia até a cidade. Rerdram observava
fixamente a paisagem coberta de gramado alto verdejante, algodão e trigo; algumas árvores
estavam dispostas pelo campo, distantes umas das outras.
— Em sua cidade natal existem campos tão belos quanto estes, senhor? — O velho tentou
puxar assunto.
— Na verdade, Hiutan é uma região cheia de colinas e montanhas; há poucos campos por
lá. — O garoto manteve sua postura inclinada para a janela, evitando contato visual.
— Hm, entendo. Cocheiro, mude a rota; vamos pelas extremidades da cidade.
— Mas... — voltou-se para Howard, indignado.
— Pare de pensar um pouco no tempo! Apenas aproveite a viagem — elevou o tom de voz,
como se desse um sermão em si mesmo.
Pelo caminho, Rerdram observava de longe as moradias mais altas da cidade. No horizonte,
era visível o departamento criminal. A chuva piorava, invadindo as ranhuras da carroça. Eles
passaram reto pelo local, e o jovem não compreendeu o motivo.
— Sr. Howard, acredito que o cocheiro tenha errado a rota — disse Rerdram.
— Na verdade, senhor, este homem é o único inato que está ciente da localização do
departamento de homicídios, a não ser, claro, pelo governo de Draffey
O cocheiro olhou para trás, sorrindo para o garoto, como se sentisse especial por cumprir
tal tarefa.
— Mas eu não me inscrevi para a vaga de investigador no departamento de homicídios. —
O novato deu-se de ombros
— Eu sei... — sorriu com o canto da boca.
“O que ele quis dizer com ‘eu sei’?”
Em mais alguns minutos, finalmente alcançaram a construção austera. O local se
encontrava no alto de uma colina, escondido entre um vasto bosque. O descomunal portão
amadeirado oferecia, enfim, um pouco de abrigo contra a densa chuva. Com sua rugosa mão,
Howard bateu com os nós dos dedos, e o som oco reverberou pela noite, quase abafado pelo
ruído das gotas de chuva.
Rerdram tremia de frio enquanto olhava fixamente para as nuances da porta, bem
trabalhada nos detalhes, formando figuras semelhantes a aves se deleitando da carne de outras
criaturas. Passou a mão ligeiramente sob a superfície para sentir sua rispidez, quando, de
repente, escutaram rangidos de trincas se movendo. Vagarosamente, um dos lados da porta se
abriu para dentro, iluminando o rosto encharcado dos dois. Após um momento, um homem
alto e magro, de expressão severa e enrugada, apareceu na brecha, lançando um olhar crítico
aos visitantes.
— Senhores, creio que cometeram um equívoco. — O cavalheiro retirou um relógio de
bolso, que funcionava à base de magnetismo, e observou as horas. Atrás, havia um desenho de
um roedor bordado no metal escuro. Howard forçou uma tosse e se virou para o garoto.
“Ah, sim”, ele pensou.
Então, retirou um relógio prateado do bolso da calça. Apesar de estar bem molhado, ainda
funcionava perfeitamente. Virou-o, mostrando as costas do relógio. Dessa vez, era uma figura
de uma serpente, cujas presas reluziam no metal recém forjado.
— Seja bem-vindo, senhor. Perdoe-me pelo inconveniente. — O homem abriu as duas
portas por inteiro, mostrando uma boa parte da sala de estar.
“Droga... eu não deveria estar aqui.”, pensou Rerdram.
Parecia que a sala havia sido limpa há pouco tempo. Era vasta, com um teto alto sustentado
por vigas de carvalho esculpidas com intricados detalhes, representando cenários de batalhas,
pessoas importantes ou animais com características peculiares. No centro, ligada a um pilar
retangular que alcançava o teto e levava a uma chaminé, uma lareira monumental de pedra
dominava a parede. Acima dela, um escudo ornado com o emblema da associação estava
exibido. Parecia a figura de um temível Caça-Morte, uma ave rapinante no topo da cadeia
alimentar, pisoteando os outros animais que representavam os níveis da organização: Morinus,
um canídeo; Erivora, uma ave de caça; Glestríade, uma serpente branca; e, por fim, um pequeno
roedor.
O chão era coberto por tapetes luxuosos e espessos, tecidos à mão, em tons de vermelho,
dourado e marrom. Poltronas e sofás de couro escuro, com almofadas de veludo ricamente
bordadas, estavam dispostos de maneira estratégica ao redor da lareira, convidando ao
descanso e à conversa. À esquerda, imensas janelas com vitrais coloridos deixavam a luz natural
invadir o espaço, criando um jogo de luzes e sombras que dançavam pelo chão e paredes. A luz
do luar filtrada pelos vitrais pintava a sala com um espectro de cores suaves, dando um ar
quase etéreo ao ambiente. Cortinas de brocado pesado, decoradas com fios dourados, podiam
ser puxadas para bloquear a luz, mas naquela noite estavam abertas, permitindo que a chuva lá
fora fosse visível, transformando a janela em um quadro vivo de movimento e som.
— Sr. Rerdram, eu esperarei aqui na sala de estar, enquanto preenche sua documentação.
— Ce... certo — gaguejou, mantendo as mãos encolhidas sobre sua barriga.
Ele se dirigiu até a recepção e foi indicado para a coordenadoria do departamento. No
fundo da sala, subiu por uma escada em espiral de ferro forjado, que se erguia graciosamente
até uma varanda interna, visível do primeiro andar. Da varanda, era possível ver toda a sala de
estar e ouvir o murmúrio das conversas que ocorriam abaixo. Pequenos candelabros de prata
estavam estrategicamente colocados ao longo da escada e varanda, iluminando suavemente o
caminho com suas chamas.
Ele passou por um corredor próximo à escada. Ao se dirigir à coordenadoria, notou de
relance uma sala com uma estante maciça de madeira escura que abrigava livros antigos.
Encantado, voltou e deu uma rápida olhada nos títulos, que variavam de tratados de filosofia a
estratégias militares. Peças de arte antiga, incluindo tapeçarias e esculturas, decoravam as
paredes, cada uma contando uma história do passado glorioso da associação.
A sala exalava um leve aroma de incenso de eucalipto, que se misturava com o cheiro da
lenha queimando na lareira. Isso, junto com a melodia da chuva, fazia-o se sentir acolhido,
mesmo longe de casa.
— Muito interessante a coleção, não concorda?
Ele levou um susto e retrucou: — Eu... eu tenho permissão para estar aqui, certo?
— Não. — Sua voz saiu fria, fazendo o garoto esperar por uma bronca.
— Ah... eu... me desculpe.
— Só estou brincando, hehe — ele estendeu a mão — pode me chamar de Courton, é um
prazer.
— Pode me chamar de Rerdram — se aproximou da porta e o cumprimentou.
— A propósito, eu sou o diretor deste departamento. Me acompanhe, por favor.
Ele estremeceu, seu corpo congelou por um momento, mas prosseguiu. No corredor,
estavam a caminho da sala dele.
— Tome cuidado com esses olhos curiosos, não vai querer sair por aí abrindo qualquer
porta que encontrar. Entendeu? — seu olhar pesou.
— Ah, mas a porta já estava aberta.
— Você me entendeu? — repetiu rispidamente.
— Isso não irá se repetir, diretor — Por mais tenso que estivesse, precisava manter a
compostura naquele ambiente de trabalho. Afinal, não havia com o que se preocupar; era só
seguir as ordens.
Foram até a sala do diretor, e ele, educadamente, abriu a porta e a segurou para que
Rerdram passasse.
— Por favor, sente-se, senhor Rerdram. Esta é Helara, chefe de investigação, agente
penitenciária e, a partir de agora, sua superior. Ela será sua supervisora até que você suba de
patente. Compreendeu?
Ele respondeu balançando a cabeça.
— Você me compreendeu? — O homem enrijeceu a voz.
— Perfeitamente, diretor.
— Aqui estão os documentos. Assine-os abaixo desta linha — demonstrou com o indicador.
Rerdram respirou fundo, soltando a tensão que pesava em seus ombros. A presença
daquele homem era muito intimidadora para ele. O rapaz puxou os papéis para mais perto e
começou a ler. Para cada palavra lida, seu rosto demonstrava espanto, e, antes que ele falasse,
Helara tomou uma providência.
— Você não passou no exame... Na verdade, você nem poderia passar nele — explicou
Courton.
— O quê? — sua resposta saiu seca, como se não tivesse escutado a resposta do diretor.
— Foi exatamente o que Courton quis dizer, você não passou no exame. O que esperava
era que estivesse escrito "Aprovado no teste de admissão para investigador assistente", mas,
em vez disso, você foi aprovado para trabalhar no departamento de homicídios e combater
criminosos. Infelizmente, é a nossa única opção... — Helara se virou para a janela, observando o
horizonte, podendo testemunhar o brilho de cada chama presente nos postes de Vallendrea. —
Carregamos esse poder que eles insistem em chamar de fardo... Assine logo e venha comigo —
ela o olhou de forma sádica.
“A saliva rastejou seca por sua garganta. “Como assim não passei no teste? Eles cometeram
um equívoco? É alguma ironia?”
A postura de Courton se manteve devidamente rígida e íntegra. O rapaz temia confrontá-lo.
Antes de abrir a boca para falar qualquer coisa, ele o instigou.
— Assine logo. Você não tem outra escolha. Se desistir, será demitido de qualquer forma e
voltará para sua família com o peso da desonra nas costas. Não é um trabalho tão ruim assim.
Aliás, você teve uma ótima pontuação na área das ciências exatas. Impressionante —
argumentou Courton, tentando persuadir o garoto.
— Eu estudei e pratiquei tanto para tudo ser em vão... — Segurou a cabeça com as mãos. —
E se meu corpo paralisar durante uma luta?
— Relaxe. Antes que queira desistir, tente primeiro — a moça tocou em seu ombro. — Você
vai aprendendo aos poucos, ninguém nasce sabendo como dar uma chave de braço ou um
gancho direito.
— Argh, terei de lutar... logo lutar! — fechou os olhos e começou a pensar sobre o assunto.
— Hm, tudo bem, não tem muito o que fazer mesmo — até alguns minutos atrás ele parecia
desesperado, mas após abrir os olhos, pareceu decidido a aceitar seu destino. É como se não
houvesse para onde retornar, Rerdram estava ciente disso. Apesar de não ser o seu plano
inicial, ainda sim iria servir muito bem.
A beirada do papel borrou um pouco devido à sua mão úmida de suor. Sem contar que a
assinatura ficou um pouco torta, dado seu estado de nervosismo.
— Certo. Helara, instrua-o sobre o resto da documentação. Ah, e leve-o para conhecer a
instituição, terei de ir para a tesouraria continuar a resolução daquele processo — se dirigiu
apressadamente para a saída. — Argh, estou tão cheio de trabalho ultimamente — reclamou
antes de fechar a porta.
— Então...
— Ah, e quase ia me esquecendo, a audiência para a instrução do processo será amanhã,
você trouxe o diário? — Courton abriu a porta às pressas, assustando os dois.
— Perfeitamente como pediu, diretor.
— Ótimo. Aliás, precisará utilizar um sobrenome condescende ao testemunhar no tribunal.
Diga que pertence à casa Vorlanie, são um pessoal meio recluso aqui pelas redondezas de
Draffey — foi embora, batendo a porta com força.
Rerdram pôs a maleta que carregava consigo em cima da mesa do diretor, destrancando os
fechos de metal, um por um. A cada estalar que fazia, Helara sentia uma exaltação extasiante,
fazendo-a focar seu olhar totalmente naquele metal que tilintava. O garoto começou a levantar
o encaixe de madeira; os olhos da mulher arregalavam cadê vez mais. Além do diário, não havia
mais nada ali dentro.
Apesar da maleta ser grande, o compartimento para encaixar o diário era precisamente
feito para seu tamanho. A capa tinha sido inspecionada com couro de ianque; estava um pouco
sujo e surrado, mas a maior parte das páginas continuavam intactas e protegidas.
Ao abrir as primeiras páginas, a letra era um tanto desconhecida para Helara ou qualquer
cidadão daquela região, apesar de estar tipicamente legível e algumas palavras ainda
compactuarem com o idioma local. Isso representava um problema para Courton, mas com
Rerdram ao seu lado, nada o impediria de obter as informações do caderno. Não que esse
tenha sido o único requisito para que o garoto fosse contratado pelo departamento criminal.
Sua jogada já estava feita, agora era só esperar a vez do oponente.
— Então... essa será a nossa arma contra a elite de Vallendrea? — Helara ficou sem jeito ao
perceber o estado do caderno.
— Sim, posso lhe assegurar que o diário contém todas as informações necessárias para
desmascarar qualquer mentira proferida no tribunal. Além disso, temos outras provas como as
ruínas do Coliseu e as vítimas do desastre em Dealina que podem servir como testemunhas...
pode ficar tranquila, senhorita Helara, os Destadt perderão essa audiência.
Alguns dias após a admissão do novo membro do departamento criminal, o dia do processo
finalmente chegou. O salão era adornado com tapeçarias e detalhes em ouro, refletindo a
influência da família Destadt sobre a cidade de Vallendrea. São uma família influente e temida,
sendo herdeiros de antigos donos de grandes minas de ouro da região de Hiutan.
No centro, sobre uma mesa de mármore, repousava uma relíquia: uma antiga manopla
com inscrições anímicas, capaz de criar uma promessa inquebrável entre duas almas. Esta
promessa apenas cessaria caso uma das partes viesse a falecer ou quebrasse o contrato, o que
resultaria em terríveis consequências. Dois representantes estavam frente a frente, ambos com
uma presença marcante, mas de naturezas opostas.
Lorde Francis Destadt, de postura confiante, inclinou-se levemente para o conselheiro do
reino, o qual presidia a reunião.
— A manopla deve retornar à nossa família — afirmou com sua voz cheia de convicção —
Vann Destadt foi o último proprietário legítimo, e ela sempre pertenceu aos Destadt. É um
artefato que carrega nosso nome, nosso sangue.
Do outro lado, Courton, manteve-se firme e comedidamente cortês.
— Lorde Destadt, com o devido respeito, a manopla foi encontrada pela guarda e
reivindicada pelo reino. Sua utilidade vai além de linhagem. Ela é uma ferramenta que pode
servir à justiça, beneficiar a corte real e a estabilidade da cidade. Sob nossa custódia, será usada
para servir ao povo, não a interesses particulares.
O conselheiro olhou de um lado para o outro, ponderando. — Os Destadt têm um vínculo
antigo com este artefato — comentou — excelência, conforme disposto na cláusula
testamentária do contrato original, fica explicitamente estabelecido que qualquer bem ou
relíquia de valor histórico ou sentimental, uma vez identificado como parte da herança da
família, deve, obrigatoriamente, ser destinado aos descendentes diretos, visando preservar a
continuidade e a integridade do patrimônio familiar. Tal disposição assegura que o objeto
permaneça sob a posse dos herdeiros legítimos.
O Lorde sorriu, certo de que a decisão pendia a seu favor. Mas, nesse instante, um jovem
surgiu ao fundo do salão, segurando um diário antigo, com a capa desgastada pelo tempo. Se
aproximou da mesa central mantendo o olhar firme.
— Meritícimo, se não for incomodo, gostaria de chamar minha testemunha neste instante
— Courton sinalizou para Rerdram.
— Senhores, peço licença — todos voltaram seus olhares para ele, surpreendidos. O som de
seus passos se destacava pelo tribunal. — Meu nome é Rerdram Vorlanie, trabalho no
departamento penitenciário. Trago evidências capazes de mudar o rumo desta decisão.
O conselheiro fez um sinal para ela prosseguir, mas o juiz tentou o impedir.
— Senhor Vorlanie, este tribunal segue regras rígidas. O senhor deveria ter feito a
apresentação das provas antes, para passassem por uma análise crítica e…
— Não, Hugo, eu insisto! — Helara gritou da audiência, chamando desrespeitosamente a
atenção de todos. — Oh, onde eu estava com a cabeça, perdoem-me os modos — tentou se
esquivar dos olhares maldosos do público.
O juiz entrou em uma espécie de transe, identificável à olhos inábeis.
— Mas, existe uma abertura constitucional. Eu o permito. Prossiga, por favor.
Sussurros de dúvida cobriram o salão, mas ninguém ousou dizer nada contra o juiz, nem o
próprio Destadt, até porque já estava convicto dessa vitória.
“Ela o chamou pelo nome? Que falta de profissionalismo”, era o que diziam.
Então, Rerdram abriu o diário, revelando páginas amareladas cheias de anotações.
— Aqui estão registros pessoais de uma jovem chamada Laurient. Ela foi uma vítima do
escravagista e suposto homem intitulado de Vann Destadt. Em seu diário, ela relata encontrar
registros de como ele, na verdade, não pertence à linhagem da família Destadt; seu nome
verdadeiro era Ubran, e ele forjou sua identidade para infiltrar-se entre os nobres, décadas
atrás, e ganhar acesso a uma antiga estrutura que o mesmo chamara de “O Coliseu”.
Um murmúrio correu pelo salão. Lorde Destadt ficou pálido, tentando recompor-se
— Isso… isso é um absurdo! Onde encontrou este caderno?
— Além disso, ela acentua os crimes hediondos cometidos pelo Ubran, e que,
originalmente, a manopla não era de sua posse legítima, e sim de outro homem — respondeu
Helara, segura —, esse diário é prova suficiente de que a posse da manopla nunca foi
verdadeiramente dos Destadt.
— Por favor, sente-se, senhor Vorlanie — disse o conselheiro.
— Permita-me.
Ela leu as anotações principais do diário diante de todos que estavam presentes e
demonstrou argumentos convincentes, além de citar a existência de provas concretas além das
anotações.
— Tudo o que está escrito neste diário é a verdade. Fomos às ruínas do local nomeado de
“O Coliseu” e encontramos os resquícios de suas pesquisas, além de cadáveres e… outras coisas
grotescas. Está tudo abandonado e, em breve, confiscaremos todo o laboratório. Considerando
que os registros que há neste caderno foram encontrados e, logo, concretizados como fatos.
Então, não teria motivos para a autora mentir na revisão diária de suas anotações.
O salão do tribunal mergulhou em um silêncio sepulcral. As palavras lidas daquele diário
pareciam ecoar nas paredes, impregnando o ar com uma tensão espessa. Cada frase impactava
os ouvintes, expondo segredos que muitos ali jamais imaginariam. “Tudo o que está escrito
neste diário é a verdade”, a frase pesava na mente de cada pessoa presente, e a ideia de que o
sagrado nome dos Destadt havia sido maculado dessa forma deixava até os mais fervorosos
apoiadores em choque.
O público, antes inquieto, agora se mantinha imóvel, absorvendo a verdade que surgira de
maneira tão abrupta. Os murmúrios se espalhavam, mal contendo a surpresa e o escândalo.
Alguns rostos revelavam horror; outros, uma satisfação maquiavélica. Não era apenas uma
disputa pela posse de um artefato, era o colapso da reputação de uma das famílias mais
influentes da cidade.
Após alguns instantes, ouviu-se um ruído vindo da bancada da família Destadt. O próprio
Lorde Destadt tentava, em vão, manter a compostura. Seus olhos vagavam pelo salão como se
buscassem uma saída, uma palavra que pudesse desmentir as provas esmagadoras, mas ele
não encontrou nada. Levantou-se, limpando o suor da testa, e então finalmente quebrou o
silêncio:
— Isto… isto não prova nada. Quem garante que… que esses registros não foram forjados?
Esse diário pode muito bem ter sido… manipulado por aqueles que… que querem a queda de
minha família… — Pobre Destadt, nem ele acreditava nas próprias palavras.
“Como eles descobriram sobre o Coliseu? Dealina inteira foi subornada para manter sigilo
sobre a estrutura. Esse Ubran... condenou a todos nós. E agora... e agora?”, a mente do lorde
estava em declínio, ele não conseguia pensar em uma alternativa lógica para sair daquele
buraco em que se meteu. Ou pior... uma ravina profunda.
Sua defesa soava vazia, quase patética, em contraste com a robustez dos registros
apresentados. O público trocava olhares, alguns contendo sorrisos disfarçados. Parecia óbvio
que o destino do julgamento já estava selado, e a mera sugestão de uma fraude soava como
desespero.
Rerdram, que havia apresentado o diário, permaneceu em pé, com o olhar obstinado sobre
o juiz. O presidente do júri trocou um olhar significativo com os demais e, com um aceno,
confirmou a decisão. Ele bateu o martelo, selando o veredito:
— Ao avaliar as evidências apresentadas e a veracidade dos registros encontrados no diário,
o júri decide que a manopla deverá ser transferida à custódia dos militares, uma vez que a
família Destadt não possui o direito legítimo sobre ela. O falso vínculo que o senhor Vann
Destadt mantinha com este artefato está, por fim, exposto.
O murmúrio no salão se intensificou, desta vez acompanhado de sussurros de
incredulidade e satisfação. A decisão havia sido tomada, e os Destadt haviam perdido não só a
manopla, mas também a credibilidade que sustentava seu poder.
Após a decisão sobre a manopla, o presidente do júri se levantou, sua expressão assumindo
uma seriedade ainda mais rígida. Helara sai pelas portas da frente, confiante, de ombros bem-
postos e de postura ereta.
— Além disso, considerando a gravidade dos relatos e a autenticidade dos registros
apresentados, o juiz ordena a emissão imediata de um mandado de busca e apreensão. Este
mandado deve ser cumprido nas propriedades da família Destadt, para examinar documentos,
objetos e quaisquer evidências adicionais que comprovem o uso ilícito do Coliseu para
atividades criminosas.
Uma onda de murmúrios percorreu o público novamente, desta vez com tons de
preocupação. A ideia de revistar a casa de uma família tão poderosa era quase impensável, mas
os fatos que surgiram exigiam uma ação contundente.
— Além disso, este tribunal irá agendar uma nova sessão para deliberar exclusivamente
sobre as possíveis atividades ilegais cometidas pela família Destadt no chamado Coliseu. A
natureza das acusações requer uma investigação formal e um julgamento específico para
apurar a responsabilidade criminal dos envolvidos. Estamos tratando de questões que
envolvem integridade, abuso de poder e crimes que não podem ser ignorados. Este julgamento
será conduzido com a máxima seriedade, e todos os envolvidos devem estar preparados para
responder à justiça — o juiz comentou.
Durante julgamentos e eventos públicos, Helara sempre se mostrava uma mulher imparcial
e controlada, exatamente como seus superiores esperavam que se comportasse. Mas, naquela
noite, esse teatro de marionetes havia acabado. Ela ganhara, precisamente como havia
calculado. Era só questão de tempo para começar a segunda fase de seu plano.