Septima aula: noções de topologı́a num espaço métrico
Seja (M, d) um espaço métrico, e U ⊆ M então:
1. O interior Ů de U é o maior aberto de (M, d) contido em U (Ů ⊆ U),
2. o fecho U de U é o menor fechado de (M, d) contendo U (U ⊆ U),
3. a fronteira ∂U de U é a interseção U ∩ M \ U ,
4. Seja m ∈ M, uma vizinhança de m é qualquer conjunto contendo um
aberto contendo m.
5. O ponto m ∈ M é exterior à U ⊆ M se existe um a vizinhança de m
interamente contida em M \ U
Percebam que em ningúm lugar utilizamos a métrica de M: as mesmas
definições valem para um espaço topológico (X, T ).
Porém, num espaço métrico (M, d) podemos dar definções más geométricas,
e assim dizer que:
1. m ∈ U ⊆ M é um ponto interior de U quando é centro de uma bola
aberta contida em U (i.e.: ∃r > 0 | B(m,r) ⊆ U, e o interior de U é o
conjunto dos pontos interiores de U,
2. m é um ponto da fronteira de U quando toda bola aberta centrada
em m contém pelo menos um ponto em U e um ponto em M \ U, e a
fronteira de U é o conjunto dos pontos de fronteira de U.
3. Um ponto m ∈ M diz-se isolado quando é uma bola aberta em M;
isso é, quando existe r > 0 tal que B(m,r) não contem ninhum outro
ponto de M,
4. Seja (M, d) um espaço métrico, dizemos que m ∈ M é um ponto de
accumulação / ponto limite de E ⊆ M quando toda vizinhança de
m contém pelo menos um ponto de E diferente de m.
Teorema 0.1. Seja (M, d) um espaço métrico, e U ⊆ M. As seguintes são
equivalentes:
1. U é aberto em (M, d),
2. cada ponto de U é um ponto interior de U,
3. U é uma vizinhança de cada ponto u ∈ U.
1
Teorema 0.2. Seja (M, d) um espaço métrico. e U ⊆ M. As seguintes são
equivalentes:
1. U é fechado,
2. U contem sua fronteira,
3. U contem todo seu ponto limite
Topologı́a induzida
Seja (M, d) um espaço métrico, e U ⊂ M. Então
d| : U × U → R
é uma métrica sobre U, a métrica induzida. Assim, (U, d| ) (que escrevemos
simplesmente (U, d) para não ser pessados) é um espaço métrico.
A ⊆ U é aberto em (U, d) se cada a ∈ A é o centro de uma bola aberta
B(a,r) de M tal que B(a,r) ∩ U ⊂ A.
Percebam que estas definições dependem do espaço métrico onde
estamos!
Exemplos:
1. O interior de (0, 1] em (R, dE ) é (0, 1), e a fronteira é {0, 1},
2. o interior de (0, 1] em (R2 , dE ) é vacı́o, e a fronteira é [0, 1].
3. O interval (0, 1] não é aberto em (R, dE ),
4. é aberto em ([0, 1], dE ), pois (0, 1] = (0, 2) ∩ [0, 1].
Exercı́cio:(pag 79 Elon métrico) Seja E ′ o conjunto dos pontos de accu-
mulação de E ⊂ M em (M, d). Então x ∈ E ′ ⇔ x ∈ E \ {x}.
0.0.1 Rn : celas encaixadas e o Teorema de Bolzano-Weierstrass
Uma cela aberta J de Rn é o producto Cartesiano de n intervalos abertos:
J = {x = (x1 , ..., xn ) ∈ Rn xi ∈ (ai , bi ), i ∈ [1, n]},
em quanto a cela fechada J é o producto Cartesiano de n intervalos fecha-
dos:
I = {x = (x1 , ..., xn ) ∈ Rn xi ∈ [ai , bi ], i ∈ [1, n]}.
2
Um subconjunto de Rn é limitado quando está contido em alguma cela.
Equivalentemente, numa bola da forma Br = {x ∈ Rn | |x| < r}.
Em R, toda sequência enxaixada de intervalos fechados tem um ponto
comun. Isso também é verdade em Rn :
Teorema 0.3. Seja (Ik ) uma sequência de celas fechadas não vacı́as
T e en-
n
caixadas: I1 ⊇ I2 ⊇ .... ⊇ Ik ⊇ .... Então R contem um ponto y ∈ k Ik .
Demonstração. Seja
Ik = {x = (x1 , ..., xn ) ∈ Rn xi ∈ [ak,i , bk,i ], i ∈ [1, n]}.
Então, em cada coordenadas i temos que [ak,i , bk,i ] é uma sequência encaixa-
das de intervalos fechados, assim que tem um ponto em comun:
\
yi [ak,i , bk,i ].
k
T
Assim, y = (y1 , .., yn ) ∈ k Ik .
Teorema 0.4. Bolzano-Weierstrass. Todo subconjunto de Rn limitado
e contenente infinitos pontos contem um ponto de accomulação.
Demonstração. Seja B ⊂ Rn limitado e contenente infinitos pontos. Já que
é limitado, está contido numa cela: seja
I1 = {x = (x1 , ..., xn ) ∈ Rn | xi ∈ [a1,i , b1,i ], i ∈ [1, n]}
a cela fechada que o contem. Divide I1 em 2n celas dividendo cada lado
[a1,i , b1,i ] em 2. Já que B contem infinitos pontos, pelo menos uma dessas
2n celas, seja I2 , contem infinitos pontos. Divide I2 em 2n celas dividendo
cada lado [a2,i , b2,i ] em 2. Já que B contem infinitos pontos, pelo menos
uma dessas 2n celas, seja I3 , contem infinitos pontos. Repetindo esse proce-
dimento obtemos uma sequência de celas fechadas T não vacı́as e encaixadas:
pelo teorema anterior existe y ∈ Rn tal que y ∈ k Ik .
Vemos agora que y é um ponto de accumulação de B. Isso é, queremos
ver que toda bola centrada em y contem um ponto de B diferente de y.
Como I1 = {x = (x1 , ..., xn ) ∈ Rn | xi ∈ [a1,i , b1,i ], i ∈ [1, n]}, seja l(I1 ) =
max{b1 −a1 , .., bn −an } > 0, o comprimento do lado maior de I1 , então temos
que o comprimento do lado maior de Ik é
(I1 )
l(Ik ) = > 0.
2k−1
3
Seja V uma vizinhança de y, então V contem uma bola aberta centrada em
E
y, assim existe r > 0 tal que B(y,r) ⊆ V . Se existir k grande bastante tal
E
que Ik ⊆ B(y,r) ⊆ V temos acabado, já que Ik contem infinitos pontos de B
e assim V contem pelo menos um ponto de B diferente de y. Este k existe,
já que se w ∈ Ik , então
p
dE (y, w) = (y1 − w1 )2 + .. + (yn − wn )2 ≤
X
≤ dS (y, w) = |yi − wi | ≤
i
n
≤ n ∗ maxi |yi − wi | ≤ n ∗ l(Ik ) = l(I1 ).
2k−1
n
Assim, por r > 2k−1
l(I1 ), isso é:
n n
2k−1 > l(I1 ) ⇔ k − 1 ≥ log2 ( l(I1 ))
r r
Ik ⊆ V .
0.0.2 Conjuntos compactos
Seja K um subconjunto de um espaço métrico (M, d).
1. Uma coberturaSde K é uma famı́lia C = (Ci )i∈I de subconjuntos de
M tal que K ⊂ i∈I Ci . (Isso é: para cada k ∈ K existe pelo menos
um Ci contendo k).
2. Uma cobertura (Ci )i∈I diz-se aberta quando todo Ci é aberto em
(M, d).
3. Uma cobertura (Ci )i∈I diz-se finita quando I é um conjunto finito.
4. Se existe I ′ ⊂ I tal que K ⊂ i∈I ′ Ci , então C = (Ci )i∈I ′ diz-se de
S
subcobertura.
Um espaço métrico (M, d) diz-se compacto quando toda cobertura aberta
admite uma subcobertura finita.
Um subconjunto K ⊂ M diz-se compacto quando toda cobertura aberta
(em M) possui uma subcobertura finita; em outras palavras, quando (K, d)
é um subespaço métrico compacto.
Exemplos:
4
1. Seja K = {x1 , .., xm } em (Rn , dE ). Então é claro que, se (Ci )i∈I é uma
cobertura aberta de K, então existe uma subcobertura de K contendo
como máximo m elementos.
2. Seja H = {x ∈ R |x S ≥ 0} em (R, dE ). Seja C = (Cn )n∈N , onde Cn =
(−1, n), então H ⊆ n∈N Cn . Seja Cn1 , .., Cnn uma colleção finita de
subconjuntos de C, e seja M = supi {ni }. Então temos que, para cada
ni , Cni ⊆ CM , então
n
[
(−1, M) = CM = Cni .
i=1
Agora, temos que M ∈ R más M ∈ / CM . Assim, não existe uma
subcobertura finita de C contendo H, e assim H não é compacto.
3. Similmente, R e Rn não são compactos.
1 1
4. Seja H = (0, 1) em (R, dS E ), define Cn = ( n , 1 − n ) para n > 2, e
C = (Cn )n>2 . Então H ⊂ n>2 Cn . Seja Cn1 , .., Cnn uma colleção finita
de subconjuntos de C, e seja M = supi {ni }. Então temos que, para
cada ni , Cni ⊆ CM , então
n
1 1 [
( , 1 − ) = CM = Cni .
M M i=1
Más M1 ∈
/ CM , assim não pode esistir uma união finita de conjuntos de
C contendo H, e então H não é compacto.
5. Seja I = [0, 1] em (R, dE ). Cada x ∈ I está contido em algum aberto
Ci , queremos ver que o intervalo está contido numa reunião finita de
′ ′ ′ ′′ ′ ′′ ′
abertos. Seja Bǫ = (−ǫ, ǫ), B(ǫ,ǫ ′ ) = (ǫ − ǫ , ǫ + ǫ ), B(ǫ′ ,ǫ′′ ) = (ǫ − ǫ , ǫ +
ǫ′′ ),..., B(ǫ
n
n−1 ,ǫn ) = (ǫ
n−1
− ǫn , ǫn−1 + ǫn ), então
n
[
[0, ǫn−1 ] ⊆ i
B(ǫ i−1 ,ǫi ) .
i=0
Assim, seja X o conjunto dos pontos x ∈ I tal que o intervalo [0, x]
esteja contido em alguma colleção finita de abertos C1 , ..., Cn , isso é:
n
[
X = {x ∈ I | ∃i ∈ [1, .., n] tal que [0, x] ⊆ Ci }.
i=1
5
Claramente X é S um intervalo, já que se x ∈ X e 0 ≤ y < x, então
[0, y] ⊂ [0, x] ⊆ ni=1 Ci e y ∈ X. Assim, temos que X = [0, x∗ ] ou
X = [0, x∗ ), onde x∗ = supX. Vamos ver agora que x∗ ∈ X e logo que
x∗ = 1. Já que x∗ ∈ I, existe um aberto C∗ contendolo, então tal que
(x∗ − ǫ, x∗ + ǫ) ∈ C∗ , então
n
[
∗ ∗
[0, x ] ⊂ [0, x + ǫ) ⊆ Ci ∪ C∗
i=1
e assim x∗ ∈ X. Temos que x∗ = 1 pois x∗ = maxX. De fato, se
x∗ 6= 1, definendo C ′ = (x∗ + ǫ − ǫ′′ , x∗ + ǫ + ǫ′′ ), então
n
[
∗ ∗ ′′
[0, x + ǫ] ⊂ [0, x + ǫ + ǫ ) ⊆ Ci ∪ C∗ ∪ C ′
i=1
e x∗ < x∗ + ǫ ∈ X. Más x∗ = maxX, contradição.
Vamos agora a demosntrar um Teorema muito importante:
Teorema 0.5. Heine-Borel. Um subconjunto de Rn é compacto se e só se
é fechado e limitado.
Demonstração. Començamos com ver que se K ⊂ Rn é compacto, então é
fechado. Assim queremos ver que, se x ∈ Rn \ K, então existe um conjunto
aberto U tal que x ∈ U ⊆ Rn \ K. Seja
1
Cn = {y ∈ Rn | |y − x| > , n ∈ N}
n
Cada Cn é aberto em (Rn , dE ), e percebe que
[
Cn = Rn \ {x}.
n∈N
S
Já que x ∈ / K, então K ⊂ n∈N Cn . Por outro lado, K é compacto, então
existe 1, ..., N tal que
N
[
K⊂ Cn = CN ,
n=1
já que C1 ⊂ C2 ⊂ ... ⊂ CN . Então
1
K ⊂ CN = {y ∈ Rn | |y − x| > },
N
6
que implica que
1
K ∩ U = {y ∈ Rn | |y − x| < } = ∅,
N
assim
U ⊆ Rn \ K,
é um aberto contendo x contido no complementar de K, e finalmente K é
fechado.
Provamos agora que se K ⊂ Rn é compacto, então é limitado. Para cada
n ∈ N, define
Hn = {x ∈ Rn | |x| < n},
então [
K ⊂ Rn ⊆ Hn ,
n∈N
e já que K é compacto, existe 1, ..., N tal que
N
[
K⊂ Hn = HN ,
n=1
assim que K é limitado.
Vamos ver agora que se K ⊂ Rn é fechado e limitado, então é compacto.
Já que K é limitado, está contido numa cela, seja
K ⊂ I1 = {(x1 , ..., xn ) | |xi | ≤ r, i ∈ [1, n], r > 0},
e não sendo compacto temos
[
K⊆ Ci ,
i∈I
más K não está contido em ninhuma colleção finita de Ci . Divide I1 em 2n
celas cortando cada lado de I1 na mitade. Então existe pelo menos uma cela,
seja I2 , tal que K ∩ I2 não está contida em ninhuma colleção finita de Ci (de
outra forma K compacto e já!). Repite o procedimento, então achamos uma
sequência (ITn ) de celas não vacı́as e encaixadas. Pelo teoremas anteriores,
existe y ∈ n In , e y é ponto limite de K, e então y ∈ K, pois K é fechado.
Existe i tal que y ∈ Ci , e já que Ci é aberto, temos que
E
∃ǫ > 0 tal que B(y,ǫ) ⊆ Ci .
7
r
O comprimento dos lados de In é 2n−1
, então, por
r
2n−1 > n ,
ǫ
temos
E
In ⊂ B(y,ǫ) ⊆ Ci
assim K é compacto, contradição.