Introdução
O texto Formações Econômicas Pré-Capitalistas, extraído dos Grundrisse de Karl Marx, analisa as
estruturas econômicas e sociais que precedem o capitalismo, com foco na relação entre o trabalho, a
propriedade da terra e a comunidade. Marx examina diferentes formas de organização social
(asiática, antiga (greco-romana) e germânica), destacando como a propriedade da terra e a
comunidade moldam as condições de produção e reprodução social. O texto enfatiza que, nessas
formações, o objetivo principal não é a acumulação de riqueza, mas a subsistência e a manutenção
da comunidade, contrastando com a lógica capitalista baseada no trabalho assalariado e na
valorização do capital.
Pressupostos do Capitalismo
Marx inicia o texto delineando os pressupostos históricos do capitalismo, particularmente a
emergência do trabalho assalariado. Ele aponta que o trabalho livre, separado das condições
objetivas de sua realização (meios de produção e terra), é essencial para o capital. Essa separação
implica a dissolução de formas de propriedade anteriores, como a pequena propriedade livre e a
propriedade comunal baseada na comuna oriental. Nessas formas pré-capitalistas, o trabalhador se
relaciona com a terra como proprietário, seja individualmente ou como parte de uma comunidade, o
que lhe confere uma existência objetiva independente do trabalho. Essa relação contrasta com o
capitalismo, onde o trabalhador, desprovido de propriedade, torna-se dependente do capital.
Formas de Propriedade Pré-capitalistas
Marx identifica três formas principais de propriedade da terra nas sociedades pré-capitalistas, cada
uma com características distintas:
1. Forma Asiática
Na forma asiática, a propriedade comunal predomina, com a terra sendo apropriada coletivamente
pela comunidade tribal. O indivíduo não é proprietário independente, mas um possuidor mediado
pela comunidade. A unidade superior (como o déspota ou o Estado) é frequentemente considerada o
proprietário supremo, enquanto as comunidades menores são possuidoras hereditárias. O trabalho
excedente é apropriado pela unidade superior, seja na forma de tributo ou trabalho comunal, muitas
vezes associado à glorificação do déspota ou da divindade tribal.
As comunidades asiáticas são frequentemente autossuficientes, combinando manufatura e
agricultura. A apropriação da terra ocorre sem a mediação do trabalho, sendo vista como uma
condição natural ou divina. Sistemas como irrigação, essenciais em regiões asiáticas, são obras da
unidade superior, reforçando o caráter despótico do governo. As cidades, quando existem, surgem
em pontos de comércio ou como centros administrativos onde o excedente é trocado por trabalho.
2. Forma Antiga (Greco-romana)
Na forma greco-romana, a comunidade é centrada na cidade, que funciona como núcleo político,
econômico e militar. A terra é dividida entre o ager publicus (terra comum) e propriedades privadas,
mas a propriedade individual é mediada pela pertença à comunidade. O indivíduo é proprietário
privado apenas enquanto cidadão, e a comunidade, como Estado, garante a propriedade da terra. A
agricultura predomina, com a manufatura sendo secundária (geralmente trabalho doméstico).
A comunidade é organizada militarmente, e a guerra é uma tarefa comunal essencial para a
ocupação e proteção da terra. A propriedade da terra é a base para a reprodução do indivíduo como
camponês autossuficiente, cujo objetivo é a subsistência, não a acumulação de riqueza. O trabalho
excedente é direcionado à comunidade, frequentemente na forma de serviço militar. Marx cita
Niebuhr para ilustrar como legisladores antigos, como Numa e Moisés, baseavam a estabilidade
social na propriedade da terra para o maior número de cidadãos.
3. Forma Germânica
Na forma germânica, a propriedade individual é predominante, e a comunidade existe apenas nas
relações mútuas entre proprietários independentes. Diferentemente da forma greco-romana, a
comunidade não se concentra na cidade, mas em estabelecimentos familiares isolados nas florestas.
A terra comum (ager publicus) existe como um suplemento (pastagens, florestas de caça), mas não
como um bem econômico separado do Estado, como em Roma.
O agricultor germânico não é um cidadão no sentido clássico, mas um proprietário independente
cuja relação com a terra não é mediada pela comunidade. A comunidade surge apenas em momentos
de associação, como assembleias para fins bélicos, religiosos ou jurídicos. A propriedade comunal é
secundária, existindo para fins específicos, como a defesa contra tribos hostis, e não como uma
unidade econômica central.
Elementos Comuns às Formas Pré-capitalistas
Marx sintetiza dois elementos fundamentais presentes em todas essas formações:
1. Apropriação da Terra como Condição Natural: A terra é vista como o “laboratório
natural” do trabalho, apropriada sem ser produto do trabalho, mas como uma condição
prévia à atividade produtiva. O indivíduo considera a terra como parte de sua subjetividade,
um meio objetivo de sua reprodução.
2. Relação do Indivíduo com a Comunidade: O trabalhador não é apenas um “indivíduo que
trabalha”, mas um proprietário ou possuidor da terra, cuja relação com ela é mediada pela
comunidade. Essa pertença à comunidade define sua existência objetiva e sua capacidade de
apropriação da terra.
Contrastes com o Capitalismo
Marx destaca que, nas formações pré-capitalistas, o objetivo do trabalho é a produção de valores de
uso para a subsistência do indivíduo e da comunidade, não há criação de valor ou riqueza abstrata,
como no capitalismo. A propriedade da terra é a base da ordem econômica, e a comunidade
desempenha um papel central na mediação dessa relação. No capitalismo, a separação do
trabalhador da terra e dos meios de produção cria a dependência do trabalho assalariado, rompendo
com a unidade orgânica entre o indivíduo, a terra e a comunidade característica das formações pré-
capitalistas.
Conclusão
O texto de Marx oferece uma análise profunda das formações econômicas pré-capitalistas,
destacando a centralidade da propriedade da terra e da comunidade na organização social e
econômica. Cada forma (asiática, greco-romana e germânica), apresenta variações na relação entre
indivíduo, comunidade e terra, mas todas compartilham a apropriação da terra como uma condição
natural e a mediação da comunidade na definição da propriedade. Esse estudo é essencial para
compreender os pressupostos históricos do capitalismo, que rompe com essas estruturas ao
desvincular o trabalhador das condições objetivas de produção, instaurando o trabalho assalariado
como base da economia.