Capítulo I
Há muito tempo, sobre a região gélida de Ctés, havia um império com proporções
territoriais, riqueza e poderio militar jamais repetidos na história. Tratava-se do império
Artadâmia. Na época do seu apogeu Ctés era um deserto árido, conhecido como Aquesárdia.
O seu mais famoso imperador fora Zaraxes I, que possuía vários filhos com suas
concubinas, mas apenas um com a sua esposa Babira. O legítimo herdeiro do trono, Zaraxes II.
Zaraxes I era conhecido por sua bravura nos campos de batalha, bem como por seu
senso de retidão e justiça ao lidar com os problemas cotidianos de seu povo. Ele morrera numa
batalha contra os rodorsianos, liderando seu exército na defesa das muralhas de Artadâmia.
Após sua morte fora decretado 45 dias de luto oficial, ao final dos quais seu filho com Babira
seria nomeado o novo imperador.
Babira era uma mulher de grande beleza, que se mantivera sempre leal a seu falecido
marido e demasiadamente afetuosa para com seu filho.
Zaraxes II, diferentemente do pai, era um rapaz de grande inocência e frágil demais
para sua idade. Diziam que sua mãe fora superprotetora durante a sua criação, cobrindo-o de
mimos ao decorrer dos anos. Os boatos eram de que o sucessor do trono, ao invés de um
bravo guerreiro, se comportava como uma eterna criança, inconsequente nos seus atos e
covarde demais para entrar numa batalha.
O futuro imperador era visto por seus meio-irmãos com velado desprezo. Em sua
maioria apenas porque lhe invejavam a vida luxuosa que levava no palácio imperial. Mas no
caso do seu meio-irmão mais velho, Alosdiano, a inveja ocorria-lhe sobretudo porque almejava
roubar de Zaraxes II o direito à sucessão do trono. O que só poderia acontecer se o mesmo
morresse.
Capítulo II
Alosdiano, apesar de ser o primeiro filho do imperador, foi criado com poucos recursos
entre os plebeus. Sua mãe, Darisáti, era uma prostituta que se envolvera com Zaraxes I em sua
juventude. Ela sabia que devido a sua origem humilde e má reputação jamais poderia ter sido
coroada como imperatriz de Artadamia. Mas ela também sabia que se não houvesse nenhum
filho do imperador com sua esposa, Alosdiano mesmo sendo um bastardo, teria direito
legítimo ao trono.
O primogênito de Zaraxes I, era muito diferente de seu meio-irmão Zaraxes II. Pois ele,
além de ser fisicamente vigoroso como o pai, era temido entre os plebeus que já conheciam
sua fama de lutador impiedoso. Desde pequeno a inveja de seu meio-irmão o atormentava,
então Alosdiano apresentava esporadicamente explosões de raiva que o faziam partir para
briga sem pensar duas vezes, sempre que se sentia ofendido. Sua terrível fúria se mostrava
sobretudo quando alguém o menosprezava por ser filho de uma prostituta.
Darisáti, que assistia diariamente aos episódios de ira de seu filho, via toda aquela fúria
incontida como uma válvula de escape, mas temia que o pior pudesse acontecer. Ela sabia que
Alosdiano, se provocado de maneira extremada seria capaz até de tirar a vida do seu oponente.
E então ele provavelmente seria preso num calabouço, talvez pelo resto de sua existência, ela
lamentou.
Um dos clientes mais antigos de Darisáti, era o nobre Ecbágad, o conselheiro do
falecido imperador. Por frequentar há muito tempo a casa da prostituta, vira Alosdiano crescer.
O nobre não gostava do jeito rude do bastardo, pois conhecia o seu temperamento e temia que
um dia teria problemas com ele.
Certo dia em que Darisáti estava recebendo a visita de Ecbágad ocorrera algo terrível.
Alosdiano chegou em casa bêbado, com as vestes manchadas por um sangue que não era dele.
Ambos viram o bastardo entrando em casa e ficaram estupefatos com a cena. Alosdiano, com
um sorriso sádico no rosto, tinha em mãos a cabeça decepada de um homem. “Ninguém,
nunca mais, vai me chamar de filho de uma puta, mãe”, disse.
O casal ficou sem reação, petrificados de medo, apenas assistiram Alosdiano arrastar-
se para seu aposento e trancar a porta. Ecbágad quis partir dali o mais depressa o possível, mas
temia abandonar sua Darisáti sozinha naquela situação. Ainda atordoado pelo medo, o nobre
falou sussurrando.
– Será que ele vai sair do quarto e nos atacar também?
Mas dentro de alguns instantes escutaram o ronco alto de Alosdiano, que agora dormia
profundamente em seu leito.
Olharam para a cabeça jogada num canto da casa. Aquele era Persecã, um plebeu que
vivia se embebedando pelos bares e criava porcos para sobreviver. Atônita com aquela visão,
Darisáti, com o rosto banhado em lágrimas, sussurrou para seu cliente:
– O que vai acontecer com meu filho? Certamente vão mandar prendê-lo pelo que ele
fez.
– Na verdade não. – Disse Ecbágad. – Conheço bem as leis do império. O direito à
vingança para reparar a honra, entre homens de uma mesma classe social, é um costume
antigo do nosso povo. Seu filho tirou a vida de outro homem, mas como ambos são plebeus
não lhe ocorrerá nada, posso assegurar. Porém o mesmo eu não afirmo, se um dia ele vier a
subtrair a vida de um nobre como eu. Vou-me agora que ele dorme, amanhã retorno para ver
como estás.
Então Ecbágad saiu às pressas.
Darisáti estava aflita, mas sabia em seu coração que era a única pessoa a quem
Alosdiano respeitava. Ela não tinha dúvidas que apesar de perverso para com os demais, seu
filho nunca lhe faria mal. Por ela Alosdiano seria capaz de tudo, não apenas matar, como
também morrer. Então ela foi para o seu quarto e tentou acalmar-se.
Ela percebeu que Ecbágad esquecera o seu casaco. Foi guarda-lo e então, sob ele,
encontrou um caderno. Abriu-o e viu que se tratava de uma espécie de diário pessoal,
juntamente a algumas anotações de seus estudos em Direito. Teve a curiosidade de ler
algumas páginas a fim de saber se encontrava ali algum segredo do seu antigo cliente. Mas ao
fim de uma apressada leitura, ela julgara que não havia nada demais ali. Entretanto lhe
chamou a atenção um título numa das últimas páginas.
Estava escrito: “resumo do direito à vingança”. E por conseguinte: “Em Artadamia há
um antigo código de conduta, entre os homens de mesma classe, que assegura que se um
cavalheiro for ofendido por outro, ele poderá exigir-lhe um duelo em público no intuito de
restituir sua honra. No caso de o duelo terminar em morte, a mesma não será punida”. Isso foi
exatamente aquilo que Ecbágad dissera-lhe a pouco.
O texto continuava: “Se um nobre ofender um plebeu, o direito a vingança é nulo e
nada lhe ocorrerá. Mas se aquele assassinar a este, ele terá de pagar à família do plebeu uma
indenização. Se um plebeu ofender um nobre tal direito é igualmente nulo, contudo, aquele
terá sua liberdade subtraída. No caso do assassinato de um nobre, o plebeu será condenado a
morte”.
Ao final desta folha havia uma observação no canto da página em letras menores que
diziam: “Há uma brecha nesta lei, que se dá quando o nobre ofendido por um igual não está
em condições de lutar. Neste caso um plebeu pode vinga-lo em seu lugar, nunca outro nobre.”
Foi então que ocorreu a Darisáti uma ideia diabólica. Ciente da fama de ingênuo do
futuro imperador, a ardilosa prostituta pensou: “E se o oponente do meu filho fosse aquele
tolo, com toda certeza ele seria derrotado facilmente, poderia até morrer com um único golpe.
Se Zaraxes II, manipulável como dizem ser, viesse a zombar da memória de seu pai, o meu filho,
poderia enfrenta-lo em nome de Zaraxes I e matá-lo num duelo justo. Não havendo, portanto,
punição pelo assassinato do nobre”.
Então Darisáti teve um momento de súbita felicidade e sorriu, imaginando seu filho
tomando para si a coroa de imperador e ela sendo convidada para morar com ele no luxuoso
palácio. Seria o fim de sua vida na pobreza.
Capítulo III
No palácio imperial Babira ainda triste pela morte de seu marido, pediu que um de
seus serviçais chamassem seu filho ao seu aposento.
Em poucos minutos adentra correndo pela porta do seu quarto Xerxes II, que se lança
alegremente nos braços da mãe. Ela o abraça com afeição, mas respira fundo e diz-lhe:
– Meu filho, hoje quero confiar a ti algo muito importante.
– Vou ganhar um presente, mamãe?
– Sim, meu querido. Mas não é qualquer presente. É algo que pertence-lhe desde o
seu nascimento. E que já está na nossa família a gerações.
Então ela entrega-lhe uma caixa retangular com detalhes dourados. Nela estava
cravado: “Oxlaion, o grande, o vitorioso, o venerável.” Ele a abriu com cuidado e dentro viu
uma espada dourada.
Sua reação foi de decepção. Pois não gostava de armas. E também não sabia quem era
Oxlaion. Então fechou a caixa, sem conseguir esconder sua frustração e desinteresse pelo
objeto.
– Eu não queria uma espada, mamãe.
– Mas isso não é uma simples espada, querido. É um objeto mágico.
– Mágico?
– Sim. Ela concederá grande poder a quem a utilizar. E em breve você será o novo
imperador. Vai precisar do poder de Oxlaion consigo.
– Mas acho que nunca fomos apresentados, mamãe.
Ela riu da ingenuidade de seu filho. Chamou-o para seu leito e acariciando os seus
cabelos, disse-lhe:
– Deixe-me contar-lhe uma história. Há muito tempo atrás os homens podiam falar
com os deuses. Estes haviam criado tudo que há na natureza, mas deram ao homem a
capacidade da fala para que pudessem ser instruídos por eles a cuidarem da natureza no seu
lugar. Então surgiram os primeiros pastores e agricultores. Tudo ia bem até que alguns homens
mais fortes começaram a roubar o fruto do trabalho dos mais fracos. Então um destes homens
vitimizados resolveu pedir ajuda aos deuses. Eles resolveram o entregar esta espada mágica,
forjada pelo deus Tracman, o cuteleiro. Este homem se chamava Oxlaion. E com ela ele liderou
os homens de boa vontade e fundou a primeira civilização.
Babira notou que agora Zaraxes II dormia. E então apenas disse para si mesma:
– Oxlaion, foi seu tataravô.
Capítulo III
Os 45 dias estavam passando rapidamente. E agora faltavam pouco para o fim do luto
oficial e posse ao trono de Zaraxes II. Todos os cidadãos nobres, foram convidados para
comparecer dentro de 3 dias na área externa do palácio onde haveria a cerimônia de coroação.
Entretanto não havia uma imperatriz disponível, para governar ao lado de Zaraxes II.
Dada a fama de fraco e ingênuo que tinha o futuro imperador de Artadâmia, nenhuma das
filhas dos nobres, deste ou de outros impérios de Aquesárdia, demonstrou ao longo dos 42
dias interesse no casamento com o futuro imperador.
Ecbágad explicou a Babira que de acordo com os costumes de Artadâmia, se não
houvesse uma imperatriz disponível no dia da coroação, a cerimônia seria adiada por mais 45
dias. E dentro deste período os rodorsianos poderiam se reorganizar e tentar uma nova
invasão. E no caso de não haver um imperador para lidera-los na próxima batalha,
provavelmente o povo faria um motim. E de dentro do próprio império surgiria um ditador,
alguém que usurparia o trono e nos lideraria nesta guerra. Seria isso ou a morte pelas mãos
dos invasores rodorsianos.
Babira numa atitude desesperada resolveu que prepararia um baile na noite seguinte.
No qual seriam convidados tanto nobres como plebeus. Certamente as filhas dos nobres por já
terem muitos privilégios, não se interessam tanto pelo trono. Mas deveriam haver muitas
jovens plebeias que aceitariam se casar com seu filho.