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Comentário Bíblico: Rute e História de Israel

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C o m e n t á r io B íb l ic o

Ex p o s it iv o

Antigo Testamento
Volume II — Histórico

W arren W. W iersbe

T r a d u z id o p o r
S u sa n a E. K la ssen

Ia Edição
5a Impressão

Geográfica
Santo André, SP - Brasil
2010
S u m á r io

Jo su é ................................................................................................................ 0 7

J u íz e s ................................................................................................................8 9

R u t e ............................................................................................................ 1 72

1 S a m u e l ...................................................................................................... 1 9 9

2 S am uel / 1 C r ô n ic a s ............................................................................2 9 3

1 Reis............................................................................................................. 391

2 R eis / 2 C r ô n ic a s .................................................................................. 491

E s d r a s ........................................................................................................ 5 8 6

N eem ia s ......................................................................................................6 1 4

Es t e r , 689
R ute

ESBOÇO III. SUBMISSÃO: RUTE ESPERA - 3


1. Rute se apresenta a Boaz - 3:1-7
Tema-chave: Em sua providência, Deus con­ 2. Rute é aceita por Boaz - 3:8-15
duz e abençoa aqueles que 3. Rute espera Boaz agir - 3:16-18
nele confiam.
Versículo-chave: Rute 2:12 IV. SATISFAÇÃO: RUTE SE CASA - 4
1. Boaz resgata Rute - 4:1-10
I. TRISTEZA: RUTE CHORA - 1 2. O povo abençoa Rute - 4:11, 12
1. Noemi tenta fugir de seus problemas - 3. Deus dá um filho a Rute e Boaz - 4:1 3-22
1:1-5
2. Noemi tenta encobrir seus erros - CONTEÚDO
1:6-18 1. E impossível fugir
3. Noemi fica amargurada com Deus - (Rt 1J........................................................ 171
1:19-22 2. O maior destes
(Rt 2)......................................................18C
II. SERVIÇO: RUTE TRABALHA - 2 3. Encontro à meia-noite
1. Um novo começo - fé - 2:1-3 (Rt 3)........................................................18o
2. Um novo amigo - amor - 2:4-16 4. O amor encontra uma solução
3. Uma nova atitude - esperança - (Rt 4)........................................................192
2:17-23 Interlúdio: Reflexões sobre Rute................ 197
reto" (Jz 17:6; ver também 18:11; 19:1;
1 21:25). O Livro de Juizes é a história de Is­
rael em um de seus pontos mais baixos na
A
história: é um registro de divisão, de cruelda­
E I m p o ss ív e l F u g ir de, de apostasia, de guerra civil e de vergo­
nha nacional. Em termos espirituais, nossa
R ute 1 vida se parece com alguns elementos do
Livro de Juizes, pois não há rei em Israel e
continuará não havendo até que Jesus vol­
te. Assim como Israel no passado, muitos
do povo de Deus, hoje em dia, levam uma
vida de incredulidade e de desobediência e
L ma família toma uma decisão errada e não desfrutam as bênçãos de Deus.
ca escassez de alimento p o r três funerais.) E incrível como uma história de amor tão
bela pode se passar num período tão cala­
i4 S~^\ s esforços que fazemos para esca- mitoso da história de Israel, mas não é o que
par de nosso destino só servem acontece hoje em dia? Vivemos tempos con­
w a nos conduzir até ele." Essas palavras turbados em nível nacional e internacional,
ião do ensaísta norte-am ericano Ralph de declínio moral, em meio a dificuldades
Aaldo Emerson em seu livro The Conduct de todo tipo e, no entanto, Deus ama este
ai Life e são tão verdadeiras hoje quanto na mundo perdido e está em busca de uma
h ca em que o livro foi publicado em 1860. noiva. Apesar do temor que emana das man­
-eio fato de Deus ter nos dado liberdade de chetes de notícias e dos perigos nas ruas,
ü 'r>lha, podem os ignorar a vontade de podemos estar certos de que Deus ainda
Deus, discutir com ela, desobedecer-lhe e ama o mundo e deseja salvar os pecadores.
aié mesmo lutar contra ela. Mas. no final, a Por mais difíceis que sejam os tempos, ao
.c itade de Deus prevalece, pois: "O conse- conhecer Jesus Cristo como Salvador e Se­
fro do S e n h o r dura para sempre" (SI 33:11) nhor, passamos a fazer parte de uma linda
Segundo a sua vontade, ele opera com o história de amor.
exército do céu e os moradores da terra" Porém, o Livro de Rute não apenas é
Dn 4:35). uma história de amor, mas também uma his­
Jó, o patriarca, perguntou: "Quem por- tória de colheita. Durante essa época som­
■ ou com ele e teve paz?" (jó 9:4). Jó sabia a bria da história de Israel, Deus procurava uma
-£>oosta, como nós também sabemos: nin- noiva e também ceifava. Sem dúvida Israel
ci j/n. Se obedecermos à vontade de Deus, estava colhendo os frutos de sua desobe­
■Li Jo na vida terá coesão; mas se desobede­ diência (Gl 6:7), mas Deus estava produzin­
cemos, tudo se desintegra. Não há outra do os frutos do Espírito na vida de Rute e de
rarte da Bíblia em que essa verdade encon- Noemi. Em nosso tempo, o Senhor está bus­
-L-se ilustrada de modo mais claro do que cando uma ceifa e nos chama a participar
■as experiências de Elimeleque e de sua como seus ceifeiros (lo 4:34-38). Hoje, os
e; oosa, Noemi. campos estão brancos para a ceifa, mas ain­
Vemos neste capítulo três erros que de­ da há poucos ceifeiros (Lc 10:2).
vi mos evitar ao tratar dos problemas e pro- O lugar. Que coisa mais estranha haver
»i ções da vida. escassez de alimentos em Belém, cidade
cujo nome significa "casa do pão"! No Anti­
1. In c re d u lid a d e : a te n ta tiv a de f u g ir go Testamento, muitas vezes a fome era evi­
DE NOSSOS PROBLEMAS (R t 1:1-5) dência da disciplina de Deus por seu povo
A época. A vida não era fácil naquela épo­ haver pecado contra ele ÍLv 26:18-20; Dt
ca, pois: "Naqueles dias não havia rei em 28:15, 23, 24). No tempo dos juizes, Israel
-:ael; cada qual fazia o que achava mais afastou-se repetidamente de Deus e adorou
174 RUTE 1

os ídolos das nações pagãs a seu redor, e fé" (Hc 2:4; Rm 1:1 7; C l 3:11; Hb 10:38; 2 Co
Deus teve de disciplinar seu povo (Jz 2:10- 5:7), e quando nos recusamos a confiar nele,
19). Até mesmo em Belém, os que eram te­ estamos chamando Deus de mentiroso e
mentes a Deus tiveram de sofrer por causa desonrando o Senhor.
dos ímpios. Existe a sabedoria deste mundo que con­
A decisão. Quando os problemas sur­ duz à loucura e à tristeza, e existe a sabe­
gem em nossa vida, podem os fazer uma doria de Deus que parece loucura para o
destas três coisas: suportá-los, fugir deles mundo, mas que conduz às bênçãos (1 Co
ou usá-los em nosso favor. Se apenas su­ 3:18-20; Tg 3:13-18).
portarmos nossas provações, elas passam "Ai dos que são sábios a seus próprios
a nos dominar, e a tendência é nos tornar­ olhos e prudentes em seu próprio concei­
mos endurecidos e amargurados. Se ten­ to!" (Is 5:21)
tarmos escapar de nossas provações, é bem Ele se concentrou nas necessidades fí­
provável que deixemos passar os propósi­ sicas e não nas espirituais. Sem dúvida, o
tos que Deus deseja cumprir em nossa vida. desejo de um marido e pai é prover para a
Porém, se aprendermos a usar as provações esposa e a família, mas não deve fazer isso
em nosso favor, elas nos servem e benefi­ de m odo a perder as bênçãos de Deus.
ciam, e Deus faz com que todas as coisas Quando Satanás encontrou Jesus no deser­
cooperem para o nosso bem e para sua gló­ to, sua primeira tentação foi sugerir que Cris­
ria (Rm 8:28). to saciasse sua fome em vez de agradar o
Elimeleque tomou a decisão errada quan­ Pai (Mt 4:1-4; ver Jo 4:34). Uma das menti­
do decidiu deixar o lar. O que tornou essa ras prediletas do diabo é: "Afinal de con­
decisão tão errada? tas, você precisa sobreviver!" Porém, é em
Ele viveu pelas aparências e não pela Deus que "vivemos, e nos movemos, e exis­
fé. Abraão cometeu o mesmo erro quando timos" (At 17:28), e ele é capaz de cuidar
se deparou com a escassez de alimentos de nós.
na Terra Prometida (C n 12:1 Oss). Em vez Vale a pena refletir sobre o testemunho
de esperar que Deus lhe dissesse o que fa­ de Davi: "Fui moço e já, agora, sou velho
zer em seguida, fugiu para o Egito e se porém jamais vi o justo desamparado, nem
meteu numa enrascada. Não importa quão a sua descendência a mendigar o pão" 15'
difíceis sejam as circunstâncias, o lugar 37:25). Ao ver-se diante de um futuro amea­
melhor e mais seguro é dentro da vontade çador, o apóstolo Paulo testemunhou: "Po­
de Deus. É fácil dizer como Davi: "Quem rém em nada considero a vida preciosa para
me dera asas como de pomba! Voaria e mim mesmo" (At 20:24). Em tempos de difi­
acharia pouso" (SI 55:6). Porém o mais sá­ culdade, se morrermos para nós mesmos e
bio é apropriar-se das promessas de Isaías colocarmos em primeiro lugar a vontade de
40:31 e esperar no Senhor, que nos dará Deus (Mt 6:33), estejamos certos de que ou
"asas como águias" e, pela fé, elevar-se bem ele nos retirará das dificuldades, ou nos
acima das tempestades da vida. É impossí­ acompanhará até o final, enquanto passar
vel fugir de seus problemas. mos por elas.
Com o viver pela fé? Apropriando-nos das Ele honrou o inimigo e não o Senhor.
promessas de Deus e obedecendo à Pala­ Ao se deslocar oitenta quilômetros para der-
vra de Deus, apesar de tudo o que vemos e tro de Moabe, o território vizinho, Elimeleque
sentimos e apesar daquilo que pode acon­ e sua família abandonaram a terra e o po\
tecer. Viver pela fé é entregar-se ao Senhor de Deus em troca da terra e do povo do
e confiar plenamente que irá suprir todas as inimigo. O s moabitas eram descendentes de
nossas necessidades. N ossa vida pela fé Ló, fruto de sua união incestuosa com suó
glorifica a Deus, testemunha a um mundo filha mais velha (Cn 19:30-38), e eram inirr
perdido e constrói em nós o caráter cristão. gos dos israelitas por causa da forma conr i
Deus ordenou que "O justo viverá pela sua haviam tratado Israel durante a jornada do
RUTE 1 175

' ■/o do Egito para Canaã (Dt 23:3-6; Nm 2 . D is s im u la ç ã o : a te n ta tiv a de


22 - 25). Moabe havia invadido Israel e go- ESCONDER NOSSOS ERROS ( R t 1 :6 -1 8 )
je^nado sobre seu povo durante dezoito E importante considerar os três testemunhos
anos (Jz 3:12-14); então, por que Elimeleque que encontramos nesta seção.
«o buscar a ajuda dos moabitas? Um povo O testemunho de N oem i (vv. 6-15).
: rgulhoso (Is 16:6), a quem Deus despre- Deus visitou seu povo fiel em Belém, mas
zr.a. "Moabe, porém, é a minha bacia de não sua filha desobediente em M oabe.
a .ar" (SI 60:8), um retrato de uma nação Noemi ficou sabendo que a escassez de ali­
-umilhada lavando os pés dos soldados con­ mentos havia acabado, e quando ouviu essa
quistadores. boa notícia, decidiu voltar para casa. Quan­
As conseqüências. O nome Elimeleque do estamos dentro da vontade do Pai, há
$ gnifica "meu Deus é rei". Porém, o Senhor sempre "pão com fartura" (Lc 15:17). Com o
r.ão era rei na vida de Elimeleque, pois dei­ é triste quando as pessoas apenas ouvem
xou Deus inteiramente de fora de suas deci­ falar das bênçãos de Deus, mas nunca as
sões. Fez uma escolha fora da vontade de experimentam, pois não se encontram no
Deus quando foi morar em Moabe, o que o lugar onde Deus pode abençoá-las.
evou a outro equívoco, quando seus dois Muitos anos atrás, estava numa reunião
filhos se casaram com mulheres moabitas. de oração com vários líderes do ministério
Malom se casou com Rute (Rt 4:10), e Mocidade para Cristo, inclusive Jacob Stam,
Quiliom, com Orfa. O s israelitas eram proi­ irmão de John Stam, que juntamente com a
bidos de se casar com mulheres gentias, es- esposa, Betty, foi martirizado na China em
^cialm ente de Amom e Moabe (Dt 7:1-11; 1934. Estávamos pedindo que Deus aben­
23:3-6; Ne 13:1-3; Ed 9:1-4). Foram as mu­ çoasse um ministério aqui e um projeto ali
lheres moabitas que, no tempo de Moisés, e creio que a palavra "abençoar" foi usada
seduziram os homens israelitas e os con­ uma porção de vezes enquanto orávamos.
duziram à imoralidade e à idolatria, o que Então, Jacob Stam orou: "Senhor, pedimos
resultou na morte de vinte e quatro mil pes­ a ti que abençoasse todas essas coisas, mas
soas (Nm 25). por favor, Senhor, faze com que sejamos
Elimeleque e sua família haviam fugido abençoáveis". Se Noemi estivesse naquela
para Moabe a fim de escapar da fome, mas reunião, teria de confessar: "Senhor, não sou
ainda assim os três homens acabaram mor­ abençoável".
an d o naquela terra. A família havia planeja­ Sempre que desobedecem os ao Senhor
do apenas uma estada tem p orária em e saímos de sua vontade, devemos confes­
Moabe, mas ficaram lá dez anos (Rt 1:4). sar nosso pecado e voltar para o lugar de
No final dessa década de desobediência, bênção. Abraão teve de sair do Egito e vol­
tudo o que sobrou foram três viúvas solitá- tar para o altar que havia abandonado (Cn
-ias e três túmulos israelitas numa terra pagã. 13:1-4), e Jacó teve de voltar para Betei
Nada mais (1:21). Essas são as tristes conse­ (35:1). O s profetas suplicaram repetidamen­
qüências da incredulidade. te ao povo de Deus que deixasse seus pe­
É impossível fugir dos problemas. Não cados e voltasse para o Senhor. "Deixe o
há como evitar de levar conosco a causa perverso o seu caminho, o iníquo, os seus
fundamental da maioria de nossos proble­ pensamentos; converta-se ao S e n h o r , que
mas: um coração incrédulo e desobediente. se com padecerá dele, e volte-se para o
Nas palavras de Oswald Chambers: "Quase nosso Deus, porque é rico em perdoar" (Is
todos começamos com os problemas exter­ 55:7).
nos maiores e nos esquecemos dos proble­ Noemi tomou a decisão certa, mas com
mas internos. Um homem deve descobrir a m otivação errada. Ainda estava interes­
qual é 'o grande mal de seu coração' antes sada, primeiramente, no alimento e não na
de ser capaz de resolver suas dificuldades" comunhão com Deus. Não a vemos confes­
The Shadow of an Agony, p. 76). sando seu pecado a Deus e pedindo que
176 RUTE 1

ele a perdoasse. Voltava para sua terra, mas mais o Senhor tem reservado para mim?" Se
não para o seu Senhor. Noemi estivesse cam inhando com Deus,
Havia ainda outra coisa errada na forma poderia ter ganho Orfa para sua fé e levado
de Noemi lidar com essa decisão: não que­ para sua casa, em Belém, dois troféus da
ria que as duas noras a acompanhassem. Se graça divina.
era certo Noemi voltar a Belém, onde o ver­ O testemunho de Orfa (vv. 11-14). As
dadeiro Deus vivo era adorado, então era duas noras partiram com Noemi (v. 7), mas
certo Orfa e Rute irem com ela. Noemi de­ ela as deteve e insistiu para que não a acom­
veria ter dito às noras o que Moisés disse ao panhassem. Chegou até a orar por elas (vv.
sogro: "Vem conosco, e te faremos bem, 8, 9), para que o Senhor fosse bom com elas
porque o S e n h o r prometeu boas coisas a e lhes desse outros maridos e descanso de­
Israel" (Nm 10:29). Em vez disso, Noemi ten­ pois de todo seu sofrimento. Porém, de que
tou influenciar as duas mulheres a voltarem adiantariam as orações de uma apóstata (SI
para suas famílias e para seus falsos deuses. 66:18)? Noemi repetiu três vezes seu pedi­
Por que uma israelita temente a Deus, do para que Rute e Orfa voltassem (Rt 1:8,
uma filha de Abraão, incentivaria duas mu­ 1 1 , 1 2 ).
lheres pagãs a adorar falsos deuses? Posso Quando viu que hesitavam, começou a
estar errado, mas tenho a impressão de que arrazoar com elas: "Estou velha demais para
Noemi não queria levar Orfa e Rute a Belém, me casar outra vez e ter outra família", disse
pois as duas eram prova irrefutável de que Noemi. "E mesmo que pudesse ter mais fi­
ela e o marido haviam permitido que os dois lhos, vocês iriam querer desperdiçar os pró­
filhos se casassem com mulheres que não per­ ximos anos esperando por eles? Poderiam
tenciam à nação da aliança. Em outras pala­ estar na casa de sua mãe, com sua família,
vras, Noemi estava tentando encobrir sua aproveitando a vida".
desobediência. Se voltasse a Belém sozinha, Orfa era a mais fraca das duas noras. Par­
ninguém ficaria sabendo que sua família ha­ tiu para Belém com Noemi, beijou-a, cho­
via transgredido a lei de Moisés. rou com ela e, no entanto, não ficou com
"O que encobre as suas transgressões ela. Não estava "longe do reino de Deus"
jamais prosperará; mas o que as confessa e (Mc 12:34), mas tomou a decisão errada e
deixa alcançará m isericórdia" (Pv 28:13). voltou. O rfa beijou a sogra, mas nos per­
Quando tentamos encobrir nossos pecados, guntamos se foi um gesto sincero, pois sua
isso mostra que, na verdade, não os encara­ decisão mostrou que seu coração, na ver­
mos com honestidade nem os julgamos de dade, estava em sua terra natal, onde espe­
acordo com a Palavra de Deus. O verdadei­ rava encontrar um marido. Orfa saiu de cena
ro arrependimento implica em uma confis­ e nunca mais foi mencionada nas Escrituras.
são honesta e um quebrantamento interior. O testem unho de Rute (vv. 15-18).
"Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito Noemi estava tentando acobertar seus atos"
quebrantado; coração compungido e con­ Orfa havia resolvido desistir, mas Rute es­
trito, não o desprezarás, ó Deus" (SI 51:1 7). tava preparada para perseverar! Ela se re­
Em vez de estar quebrantada, Noemi sentia- cusou a ouvir as súplicas da sogra para que
se [Link]. O mais triste é que Noemi seguisse o péssimo exemplo da cunhada.
não apresentou o Deus de Israel de manei­ Rute teve essa atitude porque creu no Deu i
ra positiva. Em Rute 1:13, ela dá a entender de Israel (2:12). Havia passado por prova­
que Deus era o responsável pela tristeza e ções e decepções, mas em vez de culpar a
dor que as três mulheres haviam passado: Deus, creu nele e não se envergonhou de
"Porque, por vossa causa, a mim me amar­ confessar sua fé. Apesar do exemplo negat -
ga o ter o S e n h o r descarregado contra mim vo da família desobediente do marido, Rute
a sua mão" (v. 13). Em outras palavras: "Eu conheceu o verdadeiro Deus vivo, e seu de­
sou a culpada de todas as provações, então sejo era ficar com o povo de Deus e habitar
por que ficar comigo? Quem sabe o que na terra do Senhor.
RUTE 1 177

\ conversão de Rute é prova da graça na assembléia do S e n h o r; nem ainda a sua


«toerana de Deus, pois os pecadores só po- décima geração entrará na assembléia do
ÍB T ' ser salvos pela graça (Ef 2:8-10). Tudo S e n h o r, eternamente" (Dt 23 :3). Isso significa­
fc rr-o dela e a seu redor representava uma va exclusão permanente. De que maneira,
mne de obstáculos para a fé, e, no entanto, então, Rute poderia participar da congrega­
tfa ce u no Deus de Israel. Suas origens es- ção do Senhor? Ao confiar na graça de Deus
^ * - f i contra ela, pois Rute era de Moabe, e entregar-se inteiramente a sua misericór­
«■úe o povo adorava o deus Quem os (Nm dia. A lei nos exclui da família de Deus, mas
•11-29; 1 Rs 11:7, 33), culto que aceitava se depositarmos nossa fé em Cristo, a graça
:ios humanos (2 Rs 3:26, 27) e incen- nos inclui.
t i i . a a imoralidade (Nm 25). Suas circuns- Ao ler a genealogia de Jesus Cristo em
^ u a s estavam contra ela e poderiam tê-la Mateus 1, encontramos o nome de cinco
feao amargurar-se contra o Deus de Israel. mulheres, sendo que quatro delas apresen­
*iro, o sogro morreu; depois, o marido tam credenciais duvidosas: Tamar cometeu
• « cunhado; ficou viúva e sem qualquer incesto com o sogro (Gn 38:3); Raabe era
■Blerito. Por que seguir um Deus que trata uma prostituta gentia (Js 2:5); Rute era uma
• u d ovo dessa maneira? gentia moabita desterrada (Rt 1:5); e a "mu­
R Lite amava profundamente a sogra, mas lher de Urias" era uma adúltera (2 Sm 11:6).
me mesmo Noemi estava contra ela, pois Com o essas mulheres chegaram a fazer par­
taUuu Rute a voltar para a família e para seus te da família do Messias? Pela graça e mise­
em Moabe. Uma vez que Elimeleque ricórdia soberanas de Deus! Esse Deus "é
.m estavam mortos, teoricamente Rute longânim o para convosco, não querendo
•■kiDntrava-se sob a guarda de Noem i e que nenhum pereça, senão que todos che­
d g .i ia ter seguido o conselho da sogra. No guem ao arrependimento" (2 Pe 3:9). (A
^ tsn to , Deus interveio e, em sua graça, sal- quinta mulher da genealogia é Maria e foi
«du Rute apesar de todos esses obstáculos. incluída pela graça de Deus e por sua fé.
■"Kão por obras de justiça praticadas por nós, Ver Lc 1:26-56.)
« k segundo sua misericórdia, ele nos sal-
*«ju" (Tt 3:5). Deus tem prazer em mostrar 3 . A m a r g u r a : c u lp a r a D e u s p o r
-•sericórdia (Mq 7:18) e, com freqüência, n o ssa s p ro v a ç õ e s (R t 1:19-22)
•ienonstra essa misericórdia às pessoas mais É provável que as duas viúvas tenham visita­
■-rrováveis nos lugares mais inesperados, do os três túmulos de seus entes queridos
b s a e a graça soberana do Deus que "dese- pela última vez antes de deixar Moabe. C o ­
p aue todos os homens sejam salvos e che- locaram-se nas mãos do Senhor e partiram
e .f" t ao pleno conhecimento da verdade" para começar uma nova vida. Seria interes­
■r Tm 2:4). sante saber sobre o que Rute e Noemi con­
A declaração de Rute em 1:16,1 7 é uma versaram ao viajar de Moabe para Belém.
éts confissões mais magníficas das Escritu- Será que Noemi deu à nora algumas instru­
« s. Em primeiro lugar, confessou seu amor ções básicas sobre a lei de Moisés? Será que
por Noemi e seu desejo de ficar com a so­ Rute fez perguntas sobre a fé dos israelitas,
pra até a morte. Em seguida, confessou sua o povo de Israel e seu novo lar em Belém?
te no verdadeiro Deus vivo e sua decisão Ficamos imaginando quais foram as respos­
adorar somente a ele. Estava disposta a tas de Noemi, uma vez que era uma mulher
^ eo ar pai e mãe (2:11), a fim de apegar-se amargurada e com uma fé vacilante no Deus
a Noemi e ao Deus de seu povo. Rute esta­ de Israel.
ca firmemente "resolvida" a acom panhar Noemi havia passado dez anos longe de
V « t í (1:18) e a viver em Belém com o povo sua terra, e as mulheres da cidade ficaram
t i aiiança de Deus. espantadas quando a viram. Sua pergunta:
No entanto, havia uma lei divina que di- "Não é esta Noemi?" indica tanto surpresa
Nenhum amonita ou moabita entrará quanto confusão. O nome Noemi significa
178 RUTE 1

"agradável", mas ela não estava fazendo jus confiam os que conhecem o teu nome, por­
a ele. Não era a mesma Noemi de uma dé­ que tu, S e n h o r, não desamparas os que te
cada antes que o povo da cidade conhecia. buscam" (SI 9:10). Noemi conhecia o nome
Seus dez anos de dificuldades em Moabe e de Deus, mas não exercitava sua fé.
as tristezas que haviam lhe causado deixa­ Mas será que Noemi era mesmo pobre
ram marcas na aparência e na personalida­ e vazia ou estava apenas exagerando a situa­
de de Noemi. Em vez de aperfeiçoá-la, as ção, pois seu corpo estava cansado, e sua
provações da vida a haviam deixado amar­ alma, amargurada? Pense nos recursos que
ga, sendo esse o sentido da palavra mara. possuía e que deveriam ter lhe dado ânimo.
Não podemos controlar as circunstân­ Em primeiro lugar, tinha a vida, o que,
cias da vida, mas podemos controlar nossa em si, já é uma dádiva preciosa de Deus -
reação a elas. Essa é a essência da fé: crer uma dádiva que muitas vezes não recebe o
que Deus está trabalhando a fim de que tudo devido valor. Noemi deixou três sepulturas
coopere para o nosso bem, mesmo quando em Moabe, mas Deus, em sua bondade, pre­
não sentimos nem vemos isso acontecen­ servou a vida dela e a conduziu de volta a
do. "Em tudo dai graças" (1 Ts 5:18) trata-se Belém. "Não tema que sua vida chegará ao
de uma instrução que nem sempre é fácil fim", disse John Henry Newman, "mas sim,
de seguir, mas obedecer a essa ordem é o que nunca terá um começo". Noemi acre­
melhor antídoto para um espírito amargura­ ditava que sua vida havia acabado, mas, na
do e crítico. Nas palavras do pregador esco­ verdade, suas provações eram um recome­
cês George H. Morrison: "Nove décimos de ço. A fé e a esperança de Noemi estavam
nossa infelicidade se devem ao egoísmo e prestes a sucumbir, mas Deus tinha outros
são um insulto lançado à face de Deus". planos para ela!
Noemi estava amargurada contra Deus, pois Noemi não apenas tinha vida, mas tam­
era prisioneira de seu próprio egoísmo. bém tinha oportunidade. Estava cercada de
Em primeiro lugar, acusou o Senhor de amigos, sendo que todos desejavam o me­
causar-lhe amargura (Rt 1:20). Havia deixa­ lhor para ela. A princípio, sua tristeza e amar­
do Belém com o marido e os dois filhos e gura isolaram-na da comunidade, mas, aos
voltado para casa sem eles. Partira para poucos, isso foi mudando. Em vez de passar
Moabe com suas necessidades mais bási­ o dia deprimida, olhando para a parede, fi­
cas supridas, mas voltara sem coisa alguma. nalmente decidiu olhar pela janela, levantar-
Era uma mulher com as mãos vazias, um lar se e abrir a porta! Na mais escura noite, se
vazio e um coração vazio. Por não ter se olharmos para cima, ainda conseguiremos
entregado ao Senhor nem aceitado sua dis­ ver as estrelas.
ciplina amorosa, não experimentou o "fruto Um dos recursos mais precio so s de
pacífico [...] de justiça" (Hb 12:11). Noemi era sua nora, Rute. Na verdade, foi
Não apenas D eus havia lhe causado Rute quem Deus usou e abençoou ao lon­
amargura, como também testemunhara con­ go do restante do livro, pois Rute era uma
tra ela nessas aflições (Rt 1:21). É possível mulher que confiava em Deus e estava intei­
que essas palavras sejam a confissão de ramente comprometida com ele. Noemi não
Noemi de seus pecados, seu modo de ad­ tardou a descobrir que a mão de Deus, com
mitir que ela e a família haviam pecado ao ir suas bênçãos, estava sobre essa jovem e que
para Moabe? Está dando a entender que ele realizaria grandes coisas por intermédio
mereciam tudo o que sofreram? Em duas de sua obediência.
ocasiões, Noemi chamou Deus de "Todo- Porém, acim a de tudo, N oem i tinha
Poderoso", o nome hebraico El-Shadai (vv. jeová, o Deus de Israel. O Senhor é men­
20, 21). Uma coisa é conhecer o nome de cionado cerca de vinte e cinco vezes neste
Deus e outra bem diferente é confiar nesse livro curto, mas quer Noemi tivesse cons­
nome e permitir que Deus trabalhe em meio ciência disso quer não, Deus é o Ator Prin­
às situações difíceis da vida. "Em ti, pois, cipal desse drama. "Creio firmemente na
RUTE 1 179

- rovidência D ivina", disse o Presidente primavera, tempo de nova vida e de novos


V*,oodrow Wilson. "Sem ela, iria à loucura. começos. Alexander Whyte costumava di­
Sem Deus, o mundo seria um labirinto sem zer, acertadamente, a sua congregação em
íada." Quando tememos a Deus, não pre­ Edinburgh que a vida cristã vitoriosa "é uma
cisamos temer qualquer outra coisa. Em seu série de recomeços". Com Deus, nunca é
eito de morte, John Wesley declarou: "E o tarde demais para recomeçar, e era o que
melhor é que Deus está conosco!" Deus não Noemi estava prestes a fazer.
iDenas está conosco, mas também é por nós Ao recomeçar sua vida, você está colo­
e Se Deus é por nós, quem será contra cando sua fé em Deus? Afinal, com ele a
sos?" (Rm 8:31). seu lado, seus recursos são muito maiores
Q u an d o as duas viúvas chegaram a que seus fardos.
5e ém, era o tempo da colheita da cevada, Não fique mais olhando para as paredes.
cDoca em que a comunidade expressava ale- Levante-se e, pela fé, abra a porta para um
pia e louvores a Deus por sua bondade. Era novo amanhã.
1. D e v e m o s v iv e r p e la fé n o S enho r
2 (Rt 2:1-3)
D iz o provérbio que "Deus ajuda a quem
cedo madruga". Uma vez que Rute não era
O M a io r D estes o tipo de mulher que ficava ociosa, pediu
permissão a Noemi para respigar nos cam­
R ute 2 pos, a fim de conseguir alimento para elas.
Essa decisão foi um passo de fé da parte de
Rute, tomando por base o mandamento de
Deus em sua lei (Lv 19:9, 10; 23:22; Dt
24:19-22). Sempre que realizava a ceifa, o
povo de Deus deveria pensar nos pobres e
(Boaz é surpreendido pelo amor deixar respigas para eles. Afinal, era Deus
e Rute é sobrepujada quem dava as colheitas e, assim, tinha todo
pela graça.) o direito de lhes dizer como usá-la.
A existência dessa lei era prova da preo­

A
ntes de mudar as circunstâncias em que cupação de Deus com os pobres dentre seu
nos encontramos, Deus deseja trans­ povo. Israel foi instruído a tratar os pobres
formar nosso coração. Se nossa situação com justiça (Êx 23:3, 6; Lv 19:15; Pv 22:22
mudar para melhor, mas continuarmos os 23) e com generosidade (Lv 19:9, 10). Deus
mesmos, na verdade nos tornaremos piores. também se preocupava com as viúvas, sen­
O propósito de Deus em sua providência do que muitas delas eram, pobres, e orde­
não é nos deixar confortáveis, mas sim nos nou a seu povo que cuidasse delas (Êx 22:22-
tornar "conformes à imagem de seu Filho" 24; ver Is 10:1, 2). Rute não era apenas uma
(Rm 8:29). O que Deus deseja para cada viúva pobre, mas também uma estrangeira,
um de seus filhos é que tenham um caráter de modo que tinha todo o direito de buscar
semelhante ao de Cristo. a ajuda e a provisão de Deus. Ele é o Deus
Noemi estava amargurada com Deus, "que faz justiça ao órfão e à viúva e ama o
mas Rute estava disposta a deixar Deus tra­ estrangeiro, dando-lhe pão e vestes" (Dt
balhar em sua vida. Assim, Deus começou 10:18).
a operar por sua graça na vida de Rute. Ela Viver pela fé significa crer na Palavra de
influenciaria Noem i e, em seguida, o Se­ Deus e agir em função disso, pois "a fé se n
nhor realizaria uma obra maravilhosa que, obras é morta" (Tg 2:20). Uma vez que Rute
a seu tempo, traria ao mundo o Filho de acreditava que Deus a amava e que iria suprir
Deus. Rute e Noemi não faziam idéia de suas necessidades, foi procurar um campo
que eram parte de um plano eterno, o qual para respigar. Foi um ato da mais completa
cumpriria as promessas de Deus a Abraão, fé, pois, sendo estrangeira, Rute não conhe­
garantindo que sua d escendência fosse cia os proprietários dos campos. Cada pro­
bênção para o mundo todo (C n 12:1-3). A priedade possuía marcos de delimitação,
história de Rute com eça com a morte do mas não havia cercas nem placas com os
marido, mas terminará com o nascimento nomes das famílias como vemos nas proprie­
de um bebê. Suas lágrimas serão transfor­ dades rurais de hoje em dia. Além disso,
madas em vitória. como mulher e estrangeira, encontrava-se
Se querem os que D eus trabalhe em numa posição especialmente vulnerável e
nossa vida e em nossas circunstâncias de precisava tomar cuidado com o lugar onde
modo a cumprir, pela graça, seus propósitos, ia trabalhar.
há certos requisitos que devem os preen­ É nesse momento que entra na história
cher. Vem os a ilustração desses requisitos um homem chamado Boaz (Rt 2:1, 3), paren­
nas experiências de Rute relatadas no ca­ te de Elimeleque e "senhor de muitos bens1
pítulo 2. em sua com unidade. Seu nome significa
RUTE 2 181

" e e há força". Pela providência de Deus, Assim que Boaz havia cumprimentado
fe*-‘e respigou nas terras de Boaz. De acor­ seus trabalhadores, percebeu a presença de
do com a narrativa, "por casualidade" Rute uma desconhecida em seu cam po; aliás,
e^Tou na parte do campo que pertencia a uma bela desconhecida. Tenho a impressão
fkiaz, mas sem dúvida não foi obra do aca­ de que foi um caso de amor à primeira vis­
so. Seus passos foram guiados pelo Senhor. ta, pois, daquele momento em diante, Boaz
'Estando no caminho, o S e n h o r me guiou" voltou seu interesse para Rute e não para a
Gn 24:27). colheita. Apesar de ser estrangeira, Rute era
A operação providencial de Deus em uma mulher livre e desimpedida que, sem
“ossa vida é, ao mesmo tempo, um prazer dúvida, havia sido notada pelos rapazes da
e jm mistério. Deus está sempre trabalhan­ cidade (Rt 3:10). Rute 2:11 dá a entender
do conosco (Mc 16:20), em nós (Fp 2:12, que Boaz já havia ouvido falar de Rute, mas
13i e por nós (Rm 8:28) e realizando os pro- estava prestes a conhecê-la pessoalmente.
eositos de sua graça. Oramos, buscamos sua Mais uma vez, maravilhamo-nos com a
■■cntade e tomamos decisões (por vezes tam­ providência soberana de Deus. O Senhor
bém cometemos erros), mas é Deus quem conduziu Rute ao campo de Boaz e, em se­
•wdena os acontecim entos e que conduz guida, levou Boaz a visitar o campo enquan­
^ u s filhos obedientes. Numa visão espeta- to Rute estava lá. Poderia ter acontecido de
_i'ar, o profeta Ezequiel viu as obras da pro- Rute estar descansando na casa que Boaz
wnência divina retratadas num "firmamento" havia providenciado como abrigo para seus
G j e se movia por toda parte, com rodas trabalhadores ou de ter ficado exausta e vol­
'cujo aspecto e estrutura eram como se es- tado para casa onde Noem i a esperava.
s-jera uma roda dentro da outra" (Ez 1). Não Quando entregamos a vida ao Senhor, aquilo
è algo que podemos explicar, mas, graças a que nos acontece não é acidental, mas sim
Deus, é algo em que podemos crer e confiar! determinado por Deus. Rute ainda era uma
viúva pobre e uma estrangeira, mas Deus
2 . D evem os v iv e r pela g r a ç a de D e u s estava prestes a criar um novo relacionamen­
|R t 2 :4 -1 6 ) to que transformaria suas circunstâncias.
O ran d o Rute saiu naquela manhã para Alguns estudiosos vêem em Boaz um re­
-espigar nos campos, estava procurando al­ trato de Jesus Cristo em seu relacionamento
guém que lhe mostrasse graça (Rt 2:2, ver com sua noiva, a Igreja. Assim como Rute,
çambém vv. 10 e 13). A graça é o favor con­ o pecador encontra-se fora da família de
cedido a alguém que não o merece e que Deus, falido e sem direito algum de reivindi­
- io tem como obtê-lo por seu esforço. Co- car a misericórdia divina. Mas Deus tomou
-io mulher, viúva pobre e estrangeira, Rute a iniciativa e proveu uma forma de entrar
-ão poderia reivindicar coisa alguma a quem em sua família pela fé em Jesus Cristo (ver Ef
:uer que fosse. Ocupava a posição mais in­ 2:10-22). Falaremos mais sobre esse relacio­
ferior da sociedade. namento quando tratarmos do "parente
O canal dessa graça foi Boaz. Que con­ resgatador" no capítulo seguinte.
solo saber que Deus tem pessoas boas viven­ Observemos, agora, as evidências da gra­
do em tempos ruins! Se você só soubesse ça de Deus na forma de Boaz relacionar-se
do que se encontra registrado no Livro de com Rute.
i-ízes, poderia concluir que os justos ha- (1) Boaz tomou a iniciativa (v. 8). Gra­
. ,am desaparecido da terra (SI 12:1, 2; Is ça significa que Deus dá o primeiro passo a
57:1; 1 Rs 19:10; Mq 7:2). No entanto, ain- fim de nos socorrer, não porque mereçamos,
3a havia pessoas como Boaz que conhe- mas porque ele nos ama e nos quer para si.
c im o Senhor e que desejavam obedecer à "Nós amamos porque ele nos amou primei­
E^a vontade. Boaz se preocupava com seus ro" (1 Jo 4:19). Na salvação, Deus tomou a
-abalhadores e queria que desfrutassem as iniciativa quando nos encontrávamos espi­
bênçãos do Senhor (Rt 2:4). ritualmente mortos (Ef 2:1-10), sem forças
182 RUTE 2

(Rm 5:6), quando éramos pecadores (Rm sua Palavra de sabedoria e conduz nossa
5:8) e seus inimigos (Rm 5:10). A salvação vida cada dia. Com o "Senhor da ceifa", ele
não foi algo que Deus improvisou, mas sim nos dá um lugar determinado em seu campo.
aquilo que planejou desde a eternidade. (3) Boaz prometeu proteger Rute e su­
Tudo indica que Boaz amou Rute e, portan­ prir suas necessidades (vv. 9, 14-16). Boaz
to, deu os primeiros passos para suprir suas chamou Rute de "filha minha", pois ela era
necessidades. mais jovem do que ele (ver 3:10), mas esse
(2) Boaz falou com Rute (v. 8). Foi ele também era um tratamento carinhoso. Ele ú
quem se dirigiu a ela primeiro, pois Rute trataria como parte da família (como Dav
não teria ousado falar com um homem, es­ fez por Mefibosete; ver 2 Sm 9). Boaz ins­
pecialmente um desconhecido e que era o truiu os rapazes para que a protegessem e
"senhor da ceifa". Q ue direito uma viúva e as moças para que trabalhassem com ela.
estrangeira tinha de se dirigir a um homem Rute deveria ficar junto com as servas que
importante como Boaz? E, no entanto, ele passavam logo depois dos segadores. E r 1
interrompeu a conversa com seu capataz outras palavras, poderia colher o melhor da',
para conversar com uma pobre desconhe­ respigas! Boaz chegou até a instruir seuii
cida respigando em seu campo. servos a permitir que ela respigasse no meii i
Muitos anos atrás, minha esposa, minha dos feixes de espigas e disse-lhes para dei­
filha mais nova e eu fomos à Grã-Bretanha. xar cair propositadam ente uma parte da
Estávamos em Lichfield quando descobrimos colheita para que Rute pudesse apanhá-la
que a rainha Elizabeth iria visitar a cidade, Caso tivesse fome ou sede, poderia descar-
a fim de inaugurar uma escola nova para sar e reanimar-se junto com os servos de
crianças excepcionais. Interrompemos nos­ Boaz. Na verdade, Boaz comeu com ela e
sos planos e ficamos na rua aguardando, pa­ serviu-a pessoalmente! (2:14).
cientemente, no meio-fio a chegada de sua Q ue retrato maravilhoso da graça de
comitiva. A rainha passou a uns três metros Deus! O mestre tornou-se como os servos
de nós, juntamente com sua dama de com­ para que pudesse mostrar seu amor por uma
panhia, acenando para a multidão com aque­ estrangeira. Rute não fazia idéia de que Boaz
le seu jeito característico. havia ordenado a seus trabalhadores que fos­
Agora, imagine se ela tivesse aberto o sem generosos para com ela, mas creu na
vidro do carro e gritado: "O i Warren, Betty palavra dele e teve suas necessidades supr
e Judy! Vou dizer a meus guardas para to­ das. Jesus Cristo veio ao mundo como ser-
marem conta de vocês!" Se isso tivesse acon­ vo (Fp 2:1-11) para que pudesse nos salvar e
tecido, todos teriam ficado impressionados nos tornar parte de sua família. Partilhoj
com nossa importância e talvez até pedido conosco as riquezas de sua misericórdia e
nosso autógrafo. Já pensou? Três cidadãos amor (Ef 2:4), as riquezas de sua graça (v. 7
dos Estados Unidos aos quais a rainha se as riquezas de sua sabedoria e conhecimen­
dirige pessoalmente! to (Rm 11:33), as riquezas de sua glória (Fp
A rainha Elizabeth nunca falou e, prova­ 4:19) e, além de tudo isso, suas "insondáve s
velmente, nunca falará comigo, mas o Deus riquezas" (Ef 3:8). Nós, "estrangeiros" indig­
Todo-Poderoso falou comigo por meio de nos, somos membros da família de Deus e
Jesus Cristo e de sua Palavra! "Deus [...] nes­ temos toda sua herança a nossa disposiçãi
tes últimos dias, nos falou pelo Filho" (Hb (4) Boaz animou Rute (vv. 10-13). A rea­
1:1, 2). Apesar de tudo o que um mundo ção de Rute a Boaz foi de humildade e de
inteiro de pecadores fez ao Senhor, em sua gratidão. Reconheceu que não merecia c
graça, ele ainda fala conosco. Não apenas que estava recebendo e aceitou sua graça
nos dá a palavra de salvação, mas também Creu nas promessas dele e se alegrou coti
nos oferece a orientação de que precisamos elas. Rute não precisava preocupar-se, pos
para nossa vida diária. Assim com o Boaz o rico senhor da ceifa cuidaria dela e de
instruiu Rute, o Senhor compartilha conosco Noemi. Com o sabia que cuidaria dela? Boaz
RUTE 2 183

,_e deu sua palavra, e Rute sabia que ele era A palavra traduzida por "respondeu", em
confiável. Rute 2:11, significa, literalmente, "levantou
Rute não olhou para trás, para seu passa- a voz". Boaz estava se empolgando! Queria
ar trágico, nem olhou para si mesma, pen­ que todos ouvissem o que pensava de Rute
sando sobre sua triste situação. Lançou-se aos e não teve vergonha de ser identificado com
cés do senhor e sujeitou-se a ele. Afastou o ela. Rute havia confiado em Jeová e prova­
itJhar de sua pobreza e voltou-o para as rique­ do sua fé ao apegar-se à sogra e tornar-se
zas dele. Esqueceu seus medos e descansou parte do povo de Israel em Belém. As pala­
-.as promessas dele. Que excelente exem­ vras de Rute: "falaste ao coração'de tua ser­
plo a ser seguido pelo povo de Deus hoje! va", no versículo 13, lembram-nos de que a
Vejo muita gente infeliz porque não obe- Palavra de Deus vem do coração de Deus
nece à adm oestação de H ebreus 12:2: (SI 33:11) e fala ao coração de seu povo (Mt
'olhando firmemente para [...] Jesus". Pas­ 23:18-23), dando ânimo e esperança (Rm
sam tanto tempo olhando para si mesmas, 1 5:4). Se ele ouvir as vozes do mundo, fica­
cara as circunstâncias e para as pessoas que rá desanimado, mas se ouvir a voz de Deus,
aeixam de fazer como Rute, a saber, de con­ que vem de sua Palavra, seu coração será
centrar toda a atenção no Senhor. Em vez encorajado.
ap descansar na perfeição do Senhor, vol- A Palavra de Deus e o Filho de Deus
n-se para as próprias imperfeições. Em vez podem saciar inteiramente o coração do cris­
de ver as riquezas espirituais de Deus, quei- tão. Quando buscamos satisfação em outras
iim -se de sua pobreza. Vão à igreja para coisas, acabamos desobedientes e insatisfei­
' sjprir suas necessidades", em vez de ado- tos. O mundo perdido labuta por aquilo que
■ar o Deus que é maior do que qualquer não traz saciedade (Is 55:2), mas o cristão
■ecessidade. Pessoas assim precisam ouvir encontra a plena satisfação em função da
o jonselho de um versinho que me foi en­ graça do Senhor Jesus Cristo (SI 36:7-9; 63:5;
fado anos atrás por um ouvinte de meu pro- 65:4; 103:5; 107:9).
n m a de rádio: C om o diz o hino escrito por Clara T.
Williams:
Olhe para si mesmo e ficará angustiado.
Olhe para os outros e ficará deprimido. Fonte eterna, sempre a jorrar,
Olhe para Jesus e será abençoado! Pão da vida, precioso e abundante,
Riqueza infalível sem par,
5i Boaz providenciou para que Rute se far­ E meu Redentor, a cada instante.
tasse (vv. 14, 18). Tudo isso aconteceu a Aleluia! Encontrei o Senhor.
Ri_te como conseqüência de sua fé no Deus Pelo qual minh'alma ansiou!
ae Israel. Boaz conhecia bem a história de Jesus satisfaz do meu desejo o ardor
Rute, pois as notícias não demoravam a se Pois, pelo seu sangue, me salvou.
">!'oalhar numa cidade pequena como Belém.
Sabia que Rute havia deixado sua terra natal Devemos viver pela fé e devemos depender
e seus deuses e depositado sua fé em Jeová. da graça de Deus. Mas há ainda um terceiro
Havia se refugiado "sob suas asas". Trata-se requisito a ser preenchido.
de uma imagem que, por vezes, refere-se à
z, !inha protegendo os pintinhos (SI 91:4; Mt 3 . D evem os v iv e r n a esperança
2 i:3 7), mas também pode ser uma referên­ ( R t 2 :1 7 -2 3 )
cia aos querubins no Santo dos Santos (SI Rute trabalhou o dia todo com o coração
311:7; 61:4). Rute não era mais uma estran- alegre e cheio de esperança. Não precisou
Eeira e uma desconhecida. Não apenas foi preocupar-se com o fato de algum homem
aceita pelo Deus de Israel, como também perturbá-la nem de outros trabalhadores a
estava habitando com ele no Santo dos San- impedirem de fazer sua colheita. Recebeu
’os! Iver Ef 2:11-22.) comida quando teve fome, bebida quando
184 RUTE 2

teve sede e um lugar para se refazer quan­ Nós, os que cremos em Jesus Cristo, não
do ficou cansada. O s cereais que respigou devemos nos alegrar na esperança? Quan­
equivaliam a cerca de 18 litros, comida sufi­ do pensamos em quem ele é, no que ele
ciente para as duas mulheres para quase uma fez e naquilo que diz em sua Palavra, não
semana. Além disso, guardou uma porção há motivo algum para nos entregarmos ao
que sobrou do almoço (v. 18). Rute não ape­ desespero. Jesus Cristo é o Filho de Deus.
nas era uma trabalhadora diligente como Ele morreu por nós e, agora, intercede por
também cuidava para não desperdiçar nada nós no céu. Em sua Palavra, ele nos deu "pre­
daquilo que o Senhor havia lhe dado. ciosas e mui grandes promessas" (2 Pe 1:4;
Qual seria a reação de Noemi a tudo o que nunca falham. Não importa como você
que havia acontecido com Rute? A última esteja se sentindo hoje, não importa quãu
vez que vimos Noemi, ela estava dividindo difícil seja sua situação, ainda pode se
sua amargura com as mulheres de Belém e regojizar na esperança, se depositar toda sua
culpando Deus por sua infelicidade e pobre­ fé em Jesus Cristo.
za. Quando Rute havia pedido permissão O conferencista agnóstico norte-ameri­
para respigar nos campos, Noemi apenas cano, Robert G. Ingersoll, chamou a espe­
disse: "Vai, minha filha!" (Rt 2:2). Não deu à rança de "única mentirosa universal que
nora palavra alguma de ânimo, nem mesmo nunca perde a reputação de ser verdade -
prometeu orar por ela. ra". Porém, o falecido Normam Cousins
Agora, ouvimos uma palavra nova dos editor da revista The Saturday Review, que
lábios de Noemi: "Bendito" (2:19, 20). Ela não sobreviveu de modo miraculoso a uma doer-
apenas abençoou o benfeitor de Rute como ça quase incurável e a um ataque cardíac
também bendisse ao Senhor! Passou da con­ fulminante, discorda inequivocam ente de
dição de amargurada para a condição de Ingersoll. "O corpo humano sofre grande
abençoada. Quando Noemi viu a cevada, atração em direção à esperança", escrevej
abençoou o homem que permitiu que Rute Cousins. "Por isso, a esperança do pacienU;
trabalhasse em seu campo; e quando ficou é a arma secreta do médico. E o ingrediente
sabendo que esse homem era Boaz, Noemi escondido na fórmula de qualquer remédio.
bendisse ao Senhor. Que grande mudança Em seu trabalho com pacientes da Escola
no coração dessa viúva aflita! Isso aconteceu de Medicina da Universidade da Califórnia
em decorrência de uma nova esperança, e Cousins provou como a esperança tem >
quem lhe deu essa nova esperança foi Boaz. poder de mudar a vida das pessoas.
A esperança de Noemi era decorrente Para o cristão, a esperança não é um sen­
c/e quem Boaz era: um parente resgatador e timento superficial decorrente de fantasias
também um homem rico e influente. Com o otimistas, do tipo "espero que tudo dê cer­
veremos, o parente resgatador poderia sal­ to". Antes, é uma segurança interior cheia
var os familiares da pobreza e dar-lhes um de regozijo e de confiança, ao crermos nas
recomeço (Lv 25:25-34). Porém, sua espe­ promessas de Deus e encararmos o future
rança também veio daquilo que Boaz fez: com a ajuda do Senhor. Essa esperança é a
demonstrou bondade para com Rute e inte­ dádiva de Deus a seus filhos por intermédio
resse pessoal por sua situação. Quando Rute do Espírito Santo, que nos faz lembrar das
contou a Noemi o que Boaz havia dito, a promessas de Deus contidas em sua Palavra
esperança de Noem i se fortaleceu ainda (Rm 15:13).
mais, pois as palavras de Boaz revelaram seu O efa de cevada de Rute constituiu as
amor por Rute e seu desejo de fazê-la feliz. "primícias" de tudo o que Boaz ainda faria
Para Noemi, o fato de Boaz insistir para que no futuro, assim como o Espírito Santo den­
Rute ficasse perto dos servos dele no cam­ tro de nós constitui as "primícias" de tudo o
po era prova de que o parente do marido que Deus prometeu (Rm 8:23). Enquanto
estava fazendo planos dos quais ela e a nora o suprimento de cevada colhida por Rute
eram parte. acabaria em uma semana, o testemunho do
RUTE 2 185

Espírito dentro de nós permanecerá até que "irmão do marido". O autor do Livro de Rute
■■r;3sas esperanças sejam realizadas quando não explica qual era a relação de Malom,
rmos Jesus Cristo. marido de Rute (4:10), com a propriedade
Essa nova esperança empolgante que to­ do pai, de modo que Rute devesse ser in­
nou conta das duas viúvas girava em torno cluída na compra das terras. Não se sabe ao
m uma pessoa, Boaz, assim como o centro certo quando e por que os israelitas passa­
f c nossa esperança é o Filho de Deus. Me- ram a associar a lei do parente resgatador
► cr dizendo, Jesus Cristo é nossa esperança rom a lei do casamento de levirato, mas esse
•I T ti 1:1; 1 Ts 1:3; Cl 1:27). Pela fé em Cristo, era o costume no tempo de Rute.
■ascemos de novo para uma "viva esperan­ Noemi advertiu Rute a obedecer às or­
ça ' 1 Pe 1:3), e pelo fato de essa esperança dens de Boaz e a ficar perto dos servos dele
»er .iva, ela se fortalece a cada dia e produz ao respigar no campo. A colheita da cevada
~_tos. As esperanças às quais o mundo se ocorria durante os meses de março e abril,
loega são vazias, mas nossa esperança é e a do trigo nos meses de junho e julho.
M a , pois está firmada no Cristo vivo. Enquanto isso, Rute ocupou-se de juntar
tm seguida, Noemi explicou a Rute a lei comida suficiente para si mesma e para a
■:e'ca do "parente resgatador" (Lv 25:47- sogra. Porém, seu trabalho passou a ser mo­
55 1. A segurança de Noemi não se baseou tivado por uma esperança m aravilhosa:
^>enas na bondade e no amor que Boaz aguardava com alegria o dia da redenção!
aemonstrou por Rute, pois esses sentimen­ (ver Rm 8:23 e Ef 4:30).
tos maravilhosos podem mudar de um dia E animador ver as mudanças ocorridas
para outro. Foi o princípio da redenção que em Noemi por causa daquilo que Rute fez.
Deus havia escrito em sua Palavra que deu Deus usou Rute para converter a amargura
■ Noemi a certeza de que Boaz as resgata­ de Noemi em gratidão, sua incredulidade
da. Com o parente próximo, Boaz poderia em fé e seu desespero em esperança. Uma
redim ir a p ro p rie d a d e da fa m ília que pessoa que confia no Senhor e segue sua
Bl ■neleque havia hipotecado ao levar Noemi vontade pode transformar uma situação de
e os filhos para Moabe. Noemi não tinha derrota em vitória.
•tcursos suficientes para resgatar sua pro- Rute foi conduzida ao campo de Boaz
; - :edade, mas Boaz poderia com prar as por sua fé na Palavra de Deus. O amor de
j-a s de volta e mantê-las na família. No en- Boaz por Rute o compeliu a derramar sobre
■j-to, esse procedim ento envolvia outra ela sua graça e a suprir todas as suas neces­
;jestão: a esposa do falecido era incluída sidades (a graça é o amor que paga o preço
;rm a propriedade. Assim, o parente res- para ajudar alguém que não merece). Ao
tstador deveria casar-se com ela e criar os experimentar essa graça, Rute encheu-se de
'O S com o nome do falecido. Seriam her­ nova esperança, enquanto aguardava as pro­
deiros das propriedades e do nome da fa- vidências de seu parente resgatador.
—dia, bem com o as posses continuariam "Agora, pois, permanecem a fé, a espe­
■ ?do deles. Essa prática é conhecida como rança e o amor'' (1 C o 13:13), e continuam
"irasamento de levirato" (ver Dt 25:5-10). conosco ao permanecermos e crermos em
Levir é um termo do latim que significa Jesus Cristo.
Rute, registrados no capítulo 3, vemos os
3 passos que o povo de Deus deve dar a fir
de desenvolver um relacionamento mais prc
fundo com o Senhor. Assim como Rute, não
En co n tro à M eia - n o it e devemos nos contentar em viver apenas de
restos (2:2) nem de receb er presentes
R ute 3 (2:14,16). D evem os ansiar som ente peh>
Senhor; pois é assim que nos tornamos part-
dpantes de tudo o que ele tem. Não busc?
mos as dádivas, mas sim o Doador.

1. R u te preparou-se para e n co n tra r-se


(Um simples ato de fé faz nascer um co m B o a z (R t 3:1-5)
novo dia.) Havia outros homens que não teriam hesita­
do em se casar com Rute (v. 10), mas este'
partir do momento em que Boaz entrou não poderiam tê-la redimido. Somente uri
A na vida de Rute, Noemi se transformou
numa pessoa diferente, Sua preocupação
parente resgatador poderia fazer isso, e Boac
era esse parente. Uma vez que Noemi sabi.i
deixou de ser consigo mesma e com sua que Boaz estaria usando a eira naquela no -
tristeza, voltando-se para Rute e seu futuro. te e que ficaria lá para guardar os cerear
Quando servimos a outros, experimentamos instruiu Rute a se preparar para encontrar-s«
a maior alergia e satisfação. De acordo com com ele. A preparação de Rute antes de aprc-
Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão mar­ sentar-se a Boaz teve cinco partes.
tirizado, Jesus Cristo foi "um homem dedi­ Em primeiro lugar, e/a se lavou (v. 3a)
cado aos outros", uma definição bastante Todos os dias, os norte-americanos gastar
apropriada. "Nada façais por partidarismo ou quase dois trilhões de litros de água em sua;
vangloria, mas por humildade, consideran­ casas, nas fábricas e no campo. No Oriente
do cada um os outros superiores a si mes­ o calor e a poeira tornavam necessário que
mo. Não tenha cada um em vista o que é as pessoas se lavassem com freqüência, mas
propriamente seu, senão também cada qual nem sempre havia água em abundância. Para
o que é dos outros" (Fp 2:3, 4). os israelitas, a lei de Moisés exigia que as
Q u an d o as duas viúvas chegaram a pessoas realizassem lavagens cerimonias
Belém, seu plano era que Rute tomasse con­ que se banhassem e que trocassem de rou­
ta de Noemi, e as duas sobrevivessem da pa antes de ocasiões especiais (Gn 35:1-3).
melhor maneira possível. Mas agora, o pla­ Na verdade, Noemi estava dizendo a Rute
no de Noemi era outro: Rute se casaria com que deveria fazer como uma noiva se pre­
Boaz e todos eles poderiam viver felizes para parando para o casamento (Ez 16:9-12).
sempre. Pelo relato de Rute, Noemi sabia Se desejarmos aprofundar nosso relacio­
que Boaz se mostraria favorável a esse pla­ namento com o Senhor, é preciso que nos
no e, assim, colocou suas idéias em prática. purifiquemos "de toda impureza, tanto da
Naquele tempo, os casamentos eram arran­ carne com o do espírito, aperfeiçoando a
jados pelos pais, de modo que Noemi esta­ nossa santidade no temor de Deus" (2 Co
va agindo de acordo com os costumes de 7:1). Sempre que pecarmos, devemos orar
sua época. pedindo: "Lava-me" (SI 51:2, 7); porém, al­
Lembre-se de que o Livro de Rute é mui­ gum as vezes D eus nos d iz: "Lavai-vos
to mais do que o relato do casamento de purificai-vos" (Is 1:16). Quando buscamos
uma estrangeira rejeitada com um israelita o perdão, Deus nos purifica inteiramente
respeitado. Também é um retrato do relacio­ (1 Jo 1:9). No entanto, Deus não faz aquilo
namento de Cristo com aqueles que crêem que é de nossa responsabilidade. Somente
nele e que lhe pertencem. Nos passos de nós mesmos podemos tirar de nossa vida as
RUTE 3 187

•cosas que nos contaminam, e sabemos quais nós! Temos a ousadia de orar apenas pelo
bío essas coisas. Isso pode significar que poder da carne quando o Espírito está pre­
«■■emos limpar nossa biblioteca (At 19:18- sente para nos ajudar (Rm 8:26; Ef 2:18)?
nossa coleção de fitas e de C D s, a es- Tentamos testemunhar de Cristo sem pedir
tarte de revistas ou talvez, ainda, exija uma o auxílio do Espírito (At 1:8)? Podemos ter
— -dança nos programas a que assistimos com unhão com o Senhor em sua Palavra
■a TV. Devemos nos separar de tudo o que sem o ministério do Espírito de Deus (Ef 1:1 5-
- í í contamina e que entristece o Pai (2 C o 23 e 3:14-21)?
f c i 4 - 7:1; Tg 4:7, 8). No terceiro passo da preparação de Rute,
Se os sacerdotes do Antigo Testamento ela trocou de roupas (v. 3c). Deveria tirar
•■irassem na presença de Deus contamina­ as vestes de viúva triste e vestir-se para um
dos. correriam o risco de ser mortos (Êx casamento (ver Is 61:1-3). E provável que
J O : 'T-21). O povo israelita sabia que a san­ Rute não tivesse muitas roupas, mas prova­
tidade era necessária na adoração a Deus velmente possuía um traje especial para oca­
S "5: 24:1-6), e, no entanto, os cristãos de siões festivas. Noemi estava crente que, em
fcote se apressam a entrar na presença de breve, Rute estaria indo a um casamento!
E>r_5 sem purificar-se dos pecados que ti- As roupas têm um significado espiritual
Bn< deles as bênçãos do Senhor. É de se nas Escrituras. Depois de pecarem contra
■iTiirar que nossos cultos, muitas vezes, Deus, Adão e Eva tentaram cobrir-se, mas
« H m uma rotina vazia e que o poder de somente o Senhor poderia perdoá-los e vesti-
3 t j s não se manifeste em nossas reuniões? los de modo aceitável; para isso, foi preciso
Em seguida, Rute se ungiu (v. 3b). O s derramar o sangue de um animal (Gn 3:1-8,
^ o w js do Oriente usavam óleos perfumados 21). O s sacerdotes de Israel usavam vestes
para proteger e curar o corpo e também para especiais e exclusivas (Êx 28). A salvação é
«fr-nar-se agradáveis a outros. Uma noiva retratada como trocar de roupas (Lc 15:22;
atenção especial ao uso de perfumes Is 61:10), e ter vida cristã significa despir-se
:*-a ficar aprazível (ver Ct 1:3, 12-14; 4:11-16). das "roupas da morte" da vida velha e ves­
O óleo da unção refere-se à presença e tir-se de "roupas da graça' da nova vida (Cl
s D-peração do Espírito Santo em nossa vida. 3:1-1 7; ver Jo 11:44).
"ic-flos os cristãos receberam a unção do Es- Não podem os chegar à presença de
j r ‘o Santo (1 Jo 2:20, 27) e, pctanto, de- Deus com nossa própria justiça, pois "todas
« m ser o "bom perfume de Cristo" para o as nossas justiças, [são] como trapo da imun­
h . celestial (2 Co 2:15). Quanto mais nos dícia" (Is 64:6). Só seremos capazes de nos
«»-namos semelhantes a Jesus Cristo em ca- aproximar de Deus pela justiça de Cristo
i ‘cr e em conduta, mais aguardamos nos- (2 Co 5:21), pois a graça nos foi concedida
Bo Pai e mais ele pode nos abençoar e nos "gratuitam ente no A m ado " (Ef 1:6). Se
esar para sua glória. obedercemos à vontade de Deus e desejar­
Certa vez, ouvi o Dr. A. W. Tozer dizer: mos agradar-lhe, nossas vestes serão res­
*5t Deus tirasse o Espírito Santo deste mun­ plandecentes (Ap 19:8); mas se pecarmos,
do muito daquilo que a Igreja está fazendo deveremos confessar nossos pecados e bus­
rã< mudaria e ninguém perceberia a dife- car a purificação no Senhor (Z c 3). Se você
ttnça". O s recursos humanos que temos à deseja ter um relacionamento mais profun­
fc-posição na Igreja hoje em dia são tantos do com o Senhor, então: "Em todo tempo
a_e conseguimos "servir ao Senhor" sem a sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o
■ K ã o do Espírito Santo operando em nossa óleo sobre a tua cabeça" (Ec 9:8).
■da. Mas será que é isso o que Deus quer? A fim de se preparar para seu encontro
Enquanto estava aqui na terra, Jesus vi- com Boaz, Rute aprendeu como se apre­
« i* e trabalhou pela unção do Espírito San­ sentar a e/e (vv. 3, 4). Não havia nada de
ai Lc 4:16-19). Se o Filho perfeito de Deus inapropriado nesse procedimento, pois era
■■»cisava do poder do Espírito, quanto mais a única maneira de Rute oferecer-se ao
188 RUTE 3

parente resgatador. Deveria colocar-se aos apenas uma ouvinte da Palavra, mas tam­
pés de seu senhor, e ele faria o resto. bém praticante. A disposição de obedece:
Suponham os que, a cam inho da eira, ao Senhor é o segredo de saber o que elt
Rute tivesse decidido usar outra abordagem. deseja que façamos e de ser abençoados,
Por que se deitar aos pés do homem com quando o fazemos. "Se alguém quiser faz€
quem desejava se casar? Por que descobrir a vontade dele, conhecerá a respeito d j
os pés dele e pedir que colocasse um canto doutrina" (Jo 7:1 7). A vontade de Deus nau
de sua capa sobre ela? Sem dúvida, deveria é um buffet de restaurante em que po de
haver um modo melhor de fazer isso! Se ti­ mos escolher aquilo que queremos. D e is
vesse usado outra abordagem, Boaz teria fi­ espera que aceitemos todos os seus planos
cado confuso, e o plano todo não teria dado para nós e que lhe obedeçamos em tud<
certo. Aproximar-se de Deus com os próprios inte­
O s sacerdotes do Antigo Testamento sa­ resses e reservas no coração só nos levará a
biam aproximar-se de Deus, pois ele lhes dera entristecer o Espírito e a perder o que De;, i
as instruções na lei. O s cristãos do Novo Tes­ tem de melhor para nós.
tamento sabem aproximar-se de Deus. pois
em sua Palavra, ele nos diz como proceder. 2 . R u te su jeito u-se a B o a z ( R t 3 :6 -9 )
Quer seja em nossa comunhão particular A época da colheita era um tempo especiaj-
com o Senhor, quer no culto público, não mente alegre para os israelitas (Is 9:3; 16:10|.
temos direito algum de alterar os princípios como Deus desejava que fosse. "O Sen ho
estabelecidos por Deus para nos aproximar­ teu Deus, há de abençoar-te em toda a ti.d
mos dele. colheita e em toda obra das tuas mãos, pe'
Durante a semana que passamos minis­ que de todo te alegrarás" (Dt 16:15). Ho :
trando em Springfield, Illinois, minha esposa em dia, a maioria das pessoas vive separai i
e eu resolvemos visitar a casa de Abraham das fontes de seu pão de cada dia e não se
Lincoln. Para entrar ali, cada pessoa precisa­ dá conta de todo o processo envolvido na
va adquirir um ingresso que só poderia ser produção dos alimentos. Talvez nossas o r -
comprado em determinado local. Tivemos ções à mesa fossem mais cheias de alegr i
de seguir um guia e não podíamos nos sepa­ e de gratidão se tivéssemos consciência de
rar do grupo durante o tour. Por fim, porem tudo o que um agricultor precisa fazer para
nao menos importante, tivemos de jogar fora oferecer nosso sustento.
os chicletes que estávamos mascando antes A ceifa e a debulha dos cereais eram tra­
de entrar na casa! Se queríamos ver a casa balhos cooperativos. O s homens da vila se
de Lincoln, precisávamos obedecer às regras. revezavam no uso da eira, que normalmen­
Assim como o filho pródigo (Lc 15:11-24), te consistia numa plataforma elevada, co n
os pecadores podem chegar-se ao Senhor freqüência no alto de uma colina, onde pc
exatamente como estão, e ele os receberá deria pegar a brisa da noite. O s feixes eran
e os transformará. Porém, os filhos de Deus colocados no chão e os grãos eram separ?-
devem "seguir as regras", se desejam ter dos dos talos ao ser pisados por bois (Dr
comunhão com seu Pai (Hb 10:19-25). Quan­ 25:4) ou batidos (ver Rt 2:1 7). Uma vez quj
do nós, o povo de Deus, nos reunimos para os grãos haviam sido separados, os tra­
adorar, devemos ter o cuidado de adorá-lo balhadores os lançavam para o alto, e a bri­
"em espírito e em verdade" (Jo 4:24), seguin­ sa levava embora o palhiço, enquanto os
do os princípios apresentados nas Escrituras. grãos caíam no chão. Em seguida, esses
Em se tratando de adorar a Deus, muitas grãos eram juntados em montes a fim de
^ezes as pessoas fazem o que lhes parece ser transportados para o comércio ou para
mais certo e colocam invenções humanas locais de armazenagem. Era comum os h<
no lugar de instruções divinas. mens trabalharem à noite, quando a brisi
Por fim, Rute prometeu obedecer (v. 5). era mais forte, e dormirem no chão da eira
"Tudo quanto me disseres farei." Ela não era para proteger a colheita.
RUTE 3 189

Este capítulo faz menção dos pés em qua- 3. R u te deu o u v id o s a B o a z


* k jcasiões (3:4, 7, 8, 14). Rute havia se (R t 3:10-14)
tançdiio aos pés de Boaz em resposta a suas Na resposta de Boaz a Rute, vemos como o
ras bondosas (2:10), mas dessa vez se Senhor nos responde quando buscam os
«Dfcxava aos pés dele para propor que se uma comunhão mais profunda com ele. As­
a s a s se com ela. Estava lhe pedindo que obe- sim como Boaz falou com Rute, Deus tam­
tihcesse à lei do parente resgatador e que a bém nos fala por sua Palavra.
•n-^sse como esposa. F/e nos aceita (vv. 8-10). Boaz poderia
O que nos leva à pergunta: "Por que Rute ter se recusado a desenvolver uma relação
•àn esperou que Boaz a pedisse em casa- com Rute. No entanto, ele a aceitou, pois a
•*»ro?" As palavras dele em 3:10 indicam o amava. Chegou a chamá-la de "filha minha"
»»^•eiro motivo: ele estava certo de que ela (ver Rt 2:8) e a proferir uma bênção para ela
« casaria com algum dos homens solteiros (ver Ef 1:3). Nosso Pai celestial e Redentor
jovens de Belém. Boaz era um homem bu sca um re lacio n am e n to mais íntim o
velho, e Rute ainda era moça (4:12). conosco e não devemos ter medo de nos
fcxdtntemente, ele concluiu que estava fora aproximar e de compartilhar de seu amor
ti> páreo. Porém, o motivo mais importante (Jo 14:21-24; Tg 4:7, 8). Se ao menos conse­
é âDresentado no versículo 12: havia um pa- guíssemos compreender uma parte ínfima
«■'íte resgatador mais próximo que tinha prio- do grande amor que nosso Resgatador tem
« ò J.e em relação a Rute e à propriedade, e por nós, deixaríamos tudo e nos dedicaría­
estava esperando que ele tomasse uma mos a ter comunhão com ele.
«fuòe. Rute havia trazido a questão à tona, Ele nos dá segurança (vv. 11-13). Na es­
tir modo que Boaz poderia abordar esse curidão da meia-noite, Rute não conseguia
aarente e cobrar dele uma definição. ver o rosto de Boaz, mas podia ouvir sua
C om o dizia um cachorro famoso das voz enquanto ele a tranqüilizava: "Não te­
^ J^ ria s em quadrinhos: "A vida é cheia de nhas receio". Nossa segurança não vem de
^çoertares abruptos!", e mais de um perso- nossos sentimentos ou circunstâncias, mas da
aaeem da Bíblia concordaria com ele. Adão Palavra de Deus.
•bc^-rieceu e, quando acordou, descobriu
•«je havia sofrido uma cirurgia e que era um Que firme alicerce, ó santos do Senhor,
•onem casado. Jacó despertou e descobriu Foi lançado para vossa fé na Palavra de
estava casado com a mulher errada! amor.
f c d r acordou à meia-noite e encontrou uma
«*;;her deitada a seus pés. Durante a Rebelião Boxer, quando os obrei­
Quando perguntou quem era ela, Rute ros da China Inland Mission [Missão para o
tie respondeu, mas não usou a designação Interior da China] esperavam que houvesse
“i -íoabita". Havia se tornado "serva" de grande sofrimento, o fundador da missão,
% o í 7 Estava recomeçando. Neste pequeno James Hudson Taylor, na época com quase
•***:■ das doze vezes em que o nome de 80 anos de idade, disse a alguns de seus
é m encionado especificam ente, em colegas: "Não consigo ler, não consigo pen­
• k c ocasiões ela é identificada como sen­ sar, não consigo sequer orar, mas sou capaz
tis. re Moabe (1:22; 2:2, 21; 4:5, 10). de confiar". "E, assim, a fé vem pela prega­
Estender a capa sobre uma pessoa signi- ção, e a pregação, pela palavra de Cristo"
fc » . a reivindicar essa pessoa para si (Ez 16:8; (Rm 10:17).
f Rs 19:19), especialmente pelo casamen- "Não temas." Essas são as palavras tran-
« -N palavra traduzida por "capa" também qüilizadoras que o Senhor falou a vários de
• e stica "asa". Rute havia se abrigado sob seus servos: Abraão (Gn 15:1), Isaque (Gn
» asas do Deus Jeová (2:12) e logo estaria 26:24), Jacó (Gn 46:3), Moisés e a nação de
m as asas de Boaz, seu esposo amado. Que Israel (Êx 14:13), Josué (Js 8:1; 10:8), o rei
* * e e m mais bonita do casamento! Josafá (2 Cr 20:1 7), o remanescente de Judá
190 RUTE 3

que voltou a sua terra (Is 41:10, 13,14; 43:1, que ela seguisse os ceifeiros; eles a haviar1
5; 44:2), o profeta Ezequiel (Ez 3:9), o profe­ protegido de qualquer mal e deixado ca ■
ta Daniel (Dn 10:12, 19), José (Mt 1:20), de propósito alguns feixes para que ela os
Zacarias (Lc 1:13), Maria (Mt 1:30), os pasto­ recolhesse. Boaz havia partilhado de seu al­
res ÍMt 2:10), Paulo (At 27:24) e o apóstolo m oço com Rute, dando-lhe pessoalmente
João (Ap 1:1 7). "O Senhor é o meu auxílio, uma porção de grãos tostados (Rt 2:14
não temerei" (Hb 13:6). Naquele primeiro dia de respiga, Rute hav«a
Boaz não apenas acalmou as apreensões voltado para casa com pouco mais de ur
de Rute, como também lhe fez uma promes­ efa de cereal, mas, dessa vez, Boaz enche*,
sa sobre o futuro: "tudo quanto disseste, eu o manto de Rute com seis medidas de cev. ■
te farei" (Rt 3:11). Tudo o que Deus come­ da, o que equivalia a suprimento suficient ■
ça. ele termina, e tudo o que ele faz, é com para mais de duas semanas.
excelência (Fp 1:6; Mc 7:37). Rute nao ti­ Boaz não apenas tranqüilizou Rute dt1
nha a obrigação de fazer por si mesma aqui­ suas apreensões como também supriu sua
lo que só Boaz poderia fazer. necessidades presentes com bondade e
Aquilo que, para Noemi, pareceu um pro­ generosidade. Apesar de ela não lhe havt
cedimento simples transformou-se em algo pedido coisa alguma, ele lhe deu aquele ce •
um tanto mais complicado, pois havia um real, pois a amava. Estava prestes a se case
homem em Belém que era parente mais pró­ com ela e não queria que sua futura noiv,
ximo. Boaz não escondeu esse problema de precisasse respigar os campos como um
Rute, pois não quena que ela voltasse para pobre trabalhadora.
casa com o coração cheio de falsas espe­ A pergunta em 3:16: "Com o se te passa­
ranças. A alegria e a paz que se baseiam na ram as coisas, filha minha?" é um enigm-
ignorância dos fatos não passam de uma para tradutores e intérpretes, pois, em algL ■
ilusão que só causa decepções. A grande mas versões, o texto é traduzido do hebra ■
preocupação de Boaz era que Rute fosse co por: "Quem és tu, minha filha?". Por que
redimida, mesmo que outro parente tivesse a própria sogra perguntaria quem ela era? É
de fazê-lo. possível que, em outras palavras, Noemi es­
Ao considerar esse relato como um re­ tivesse perguntando: "Você ainda é Rute, a
gistro de nossa redenção em Jesus Cristo, é moabita, ou é a tutura esposa de BoazV
impressionante como, ao eretuar nossa sal­ Rute lembrou-se das palavras de Boaz
vação em Cristo, Deus obedeceu à sua pró­ como havia feito anteriormente (Rt 2:19-21
pria lei. A lei de Deus dizia: "A alma que e contou a Noemi tudo o que Boaz havi. i
pecar, essa morrerá" (Ez 18:4), e Deus não prometido. Em seguida, Rute mostrou à so­
procurou alguma forma de contornar esse gra o presente generoso que Boaz havia lhe-
fato. "Aquele que não poupou o seu pró­ dado. Sem dúvida, um homem que mand
prio Filho, antes, por todos nós o entregou" algo assim para a futura sogra tem grand
(Rm 8:32). É claro que não havia nenhum potencial de ser um bom marido!
outro "parente" que pudesse resgatar o Noemi não poderia mais dizer que tinha
mundo perdido. "E não há salvação em as mãos vazias (1:21). Agora, estavam cheias
nenhum outro; porque abaixo do céu não por causa da graça do parente resgatador
existe nenhum outro nome, dado entre os A fé e a obediência de Rute haviam realiza­
homens, pelo qual importa que sejamos sal­ do uma transformação completa na vida da i
vos" (At 4:12). duas; agora, viviam pela graça.

4 . R u t e r e c e b e u p r e se n t e s d e B o a z 5 . R ute B o a z f a z ia
espero u e n q u a n t o
( R t 3 :1 5 - 1 7 ) ( R t 3 :1 8 )
a pa rte d e le
Durante o tempo em que Rute havia trabalha­ É "pela fé e pela longanimidade" que herd ■
do respigando, Boaz a havia tratado com ge­ mos as promessas (Hb 6:12; 10:36). Urr i
nerosidade. Seus servos haviam permitido vez que Rute e Noemi acreditavam que Boa ;
RUTE 3 191

■ ra o que havia prometido, esperaram pa- travessia do mar. Há um tempo para esperar
Temente até receber as boas novas de e um tempo para marchar, e devemos estar
a.e Rute iria se casar. "Entrega o teu cami- alertas para aquilo que Deus deseja que
i H a o S e n h o r , confia nele, e o mais ele fará" façamos.
t : 7:5). " Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus"
Confesso que, para mim, esperar é uma (SI 46:10) - esse é um antídoto maravilhoso
IB S ~.oisas mais difíceis de fazer, seja esperar para o espírito inquieto. A palavra hebraica
p v uma mesa num restaurante, seja espe- tradurida por "aquietai-vos" significa, "solte,
. . vôo atrasado partir. Sou uma pessoa relaxe". É muito fácil ficarmos impacientes
•[Link] ativa e gosto de ver tudo acon- com o Senhor e começarmos a nos intro­
na hora combinada. Talvez por isso, meter em questões que não são de nossa
m .-' _; vezes, o Senhor faz as coisas de tal alçada. Ele é Deus, e suas mãos podem fa­
•OO'- que eu precise esperar. Nesses mo- zer o impossível. Nossas mãos acabam atra­
• e ^ n s , há três passagens das Escrituras que palhando e piorando as coisas.
~ ■ _re me anim am : "Espera" (Rt 3:18), Boaz estava ocupado, trabalhando para
*acJetai-vos" (Êx 14:13) e, mais uma vez: cumprir o que havia prometido a Rute, e
"ao-iietai-vos e sabei que eu sou Deus" (SI Noemi estava certa de que ele não descan­
*■- 10 ). saria até que a questão estivesse resolvida.
“Espera, minha filha" - esse foi o con- "Estou plenamente certo de que aquele que
sábio de Noemi para sua nora. Rute começou boa obra em vós há de completá-
- teria conseguido coisa alguma se tivesse la até ao Dia de Cristo Jesus" (Fp 1:6). Para
«r«,jido Boaz até Belém, tentando ajudá-lo mim, é um grande ânimo saber que Jesus
• :_mprir suas promessas (Is 30:15). Nossa Cristo está trabalhando incessantem ente
■■Lre za humana fica agitada e quer ajudar por seu povo enquanto intercede no céu
Deui. mas quando tentamos fazer isso, só (Hb 8:34) e que trabalha dentro de nós, pro­
^ o a m o s as coisas. curando nos tornar conformes a sua vonta­
*Aquietai-vos" - essa foi a ordem de Moi- de perfeita (Hb 13:20, 21; Fp 2:12, 13).
’ ara o povo de Israel quando estavam Você já se colocou aos pés do Senhor
wtrüi, perseguidos pelo exército egípcio. da Ceifa e confia que ele cumprirá suas pro­
V ir precisavam entrar em pânico, pois Deus messas?
^ a no controle da situação. Então, o Uma prova de sua confiança é sua dis­
^?-"or ordenou ao seu povo: "marchem" posição de aquietar-se e de deixar que ele
4» ’ 4:15), e os conduziu em segurança na faça como lhe aprouver.
O significado do resgate. A palavra res­
4 gatar significa "libertar pelo pagamento de
um preço". No caso de Rute e de Noemi, a
propriedade de Elimeleque havia sido ven­
O A m or E n co n tra dida ou estava, de algum modo, hipoteca­
da, e os direitos sobre essas terras haviarr
U ma S o lu ç ã o
sido transferidos para Malom, marido de
R ute 4 Rute, quando Elimeleque morreu. Isso expli­
ca o fato de Rute estar envolvida na transa­
ção. No entanto, ela era pobre demais para
resgatar a terra.
Em se tratando do resgate espiritual, to­
(Boaz e Rute se casam. O coração vazio de das as pessoas encontram-se sob a escra­
Noemi se enche de alegria e suas mãos vidão do pecado e de Satanás (Ef 2:1-3; Jo
vazias ocupam-se com um menino.) 8:33, 34) e não são capazes de se libertar.
Jesus Cristo deu sua vida como resgate pe­

O Livro de Rute começa com três fune­


rais, mas termina com um casamento.
O primeiro capítulo registra um bocado de
los pecadores (Mc 10:45; Ap 5:9, 10), e a fé
em Cristo é que liberta o cativo.
Cada vez que entro numa livraria, pro­
choro, mas o último traz superabundância curo observar qual é o assunto de maior de-
de alegria na pequena cidade de Belém. "Ao taque no momento; e, nos últimos anos, é i
anoitecer, pode vir o choro, mas a alegria tema libertação. Vejo prateleiras de livro*
vem pela manhã" (SI 30:5). Nem todas as his­ sobre vícios, co-dependência e como encon­
tórias da vida têm esse tipo de final feliz, mas trar a liberdade disso tudo. Em um munt
a narrativa de Rute nos lembra que, para os que desfruta mais liberdade política do q - f
cristãos, ainda é Deus quem escreve o último em qualquer outra época da história, milhóeí
capítulo. Não precisamos temer o futuro. de pessoas estão sob o jugo da comida, an
O capítulo 4 concentra-se em três pes­ sexo, das drogas, do álcool, dos jogos de
soas: um noivo, uma noiva e um bebê. azar, do trabalho e de vários outros "senht-
res". Apesar de sermos gratos a Deus pe*
1. O n o iv o (R t 4:1-10) ajuda de conselheiros e de terapeutas, s»
A lei do parente resgatador é apresentada mente Jesus é capaz de libertar aqueles q^i
em Levítico 25:23-34, e a lei que governava se encontram escravizados. "Se, pois, o Filha
o casam ento de levirato encontra-se em vos libertar, verdadeiramente sereis livr-~*
Deuteronômio 25:5-10. O propósito dessas (Jo 8:36).
leis era preservar o nome e proteger a pro­ As características do resgatador. N e ti
priedade das famílias em Israel. A terra per­ todos poderiam cumprir os deveres de
tencia a Deus, e ele não queria que ela fosse parente resgatador. Em primeiro lugar, pre­
explorada por ricos que se aproveitassem cisava ser um parente próximo (Lv 25:25.
dos pobres e das viúvas. Quando seguidas, Esse era o principal obstáculo que Boaz
essas leis garantiam que o nome da família ria de superar, pois havia outro homem e «
do falecido não morreria com ele e que sua Belém que era um parente mais proxi To
propriedade não seria vendida para alguém de Rute do que ele (Rt 3:12, 13). Ao .w
de fora da tribo ou do clã. Infelizmente, os nessa imagem um tipo de Jesus Cristo, eia,
governantes israelitas não seguiram sempre nos lembra de que ele teve de aproximar-se
essa lei, e os profetas tiveram de repreen- de nós antes de poder nos resgatar. Ele \ e «
dê-los por roubar terras dos desamparados em carne e osso para que pudesse m unw
(1 Rs 21; Is 5:8-10; Hc 2:9-12). Uma das cau­ por nós na cruz (Hb 2:14,15). Quando ^
sas do cativeiro foi o abuso da terra pelo ceu neste mundo em forma humana, torrx/»
povo de Israel (2 Cr 36:21). se nosso "parente próximo", e continuaoi
RUTE 4 193

omo tal por toda a eternidade. Que amor que Rute fazia parte da transação. De acor­
jalavel! do com a explicação dele, ao se casar com
A fim de se qualificar com o parente Rute colocaria em risco a própria herança.
«! matador, também era preciso ter os recur- Se tivesse um filho com Rute e esse filho
w. oara pagar o resgate. Rute e Noemi eram fosse seu único herdeiro vivo, então a pro­
■obres demais para resgatar a si mesmas, priedade de Malom e parte da propriedade
--aí Boaz possuía os recursos necessários desse parente iriam para a família de Elime-
u rr. libertá-las. Em se tratando da redenção leque. E possível que o fato de Rute ser
A ecadores não há outro senão Jesus Cris- moabita também fosse problemático para
i i c o o suficiente para pagar esse preço. ele. (Tanto Malom como Quiliom casaram-
I c Jgamento em dinheiro não pode jamais se com mulheres moabitas e morreram!)
J^ertar pecadores; o resgate foi teito pelo Sem dúvida, Boaz ficou aliviado quando
W" mamento do sangue precioso de Cristo seu parente retirou-se da transação e abriu
°e 1:18, 19; ver SI 49:5-9). Somos resgata- caminho para que Rute se tornasse sua es­
■es ielo sangue de Cristo (Ef 1:7), pois ele a posa. Vale a pena observar que o parente
p »"esmo se entregou (Tt 2:14) e pagou por mais próximo tentou proteger seu nome e
■os o preço do resgate eterno (Hb 9:12). sua herança, mas nem sequer sabemos seu
Havia ainda uma terceira qualificação: o nome ou o que foi feito de sua família! Boaz
; a"ente resgata dor deveria estar disposto a assumiu os riscos do amor e da obediência,
M-3gar o resgate. Com o veremos neste capí- e seu nome encontra-se registrado nas Es­
uo o parente mais próximo não se mostrou crituras e é lembrado com honra."Aquele,
■ sc osto a resgatar Rute, de modo que Boaz porém, que faz a vontade de Deus perma­
_-se livre para comprar a propriedade e, nece eternamente" (1 Jo 2:17). Isso tambem
n n ela, adquirir uma esposa. O parente explica por que o nome de Orfa não apare­
—■ai, próximo tinha o dinheiro, mas não a ce em Rute 4:9-10.
■ itivação: tinha medo de colocar em risco E provável que o costume de tirar a san­
i própria herança da família. dália esteja relacionado à ordem divina de
O método de resgãte. Na Antiguidade, caminhar sobre a terra e de apropriar-se dela
1Di _ta da cidade era o fórum oficial, onde (Cn 13:17; Dt 11:24; Js 1:3). Em anos vin­
■e 'ealizavam transações judiciais na presen- douros, as dez testemunhas poderiam ates­
U dos anciãos (Dt 21:18-21; 2 Sm 15:2; Jó tar que a transação havia sido completada,
2 ~ss). Ao chegar à porta de Belém, Boaz pois viram o parente entregar sua sandália a
ipnt ju dez homens para servirem de teste- Boaz. Com esse gesto, o parente indicou
—-„nhãs da transação. Foi então que o pa- que estava abrindo mão de seu direito de
m ~:te mais próximo passou por lá - outra posse sobre aquelas terras. Boaz havia ad­
CDva da providência de Deus - e que Boaz quirido as terras... e Rute!
i chamou. Estava tudo pronto para a grande Mencionei anteriormente que Boaz é um
ra rsa ção que, no final, implicaria a vinda retrato de Jesus Cristo, nosso Parente Res-
Filho de Deus ao mundo. gatador. Assim como Boaz, Jesus não se
O tema-chave deste capítulo é resgate. preocupou se estava colocando em risco a
Os termos "resgatar", "comprar" e "redimir" própria herança; antes, ele nos incluiu nes­
ião usados pelo menos quinze vezes neste sa herança, a fim de que participássemos
c a D Ítu lo . Não pode haver resgate sem que dela (Ef 1:11,18). Com o Boaz, Jesus fez seus
h&a oago um preço. Do nosso ponto de vis- planos em âmbito particular, mas pagou o
o. a salvação é gratuita a "todo aquele que preço em público, e, da mesma forma que
i car o nome do Senhor" (At 2:21): mas Boaz, Jesus fez o que fez por amor a sua
para Deus, foi preciso pagar um alto preço noiva.
peio resgate. Existem, porém, alguns contrastes entre
O outro parente estava disposto a comprar Boaz e o Senhor Jesus Cristo. Boaz adqui­
i terra, mas desistiu quando ficou sabendo riu Rute ao entregar parte de sua riqueza,
194 RUTE 4

enquanto Jesus comprou sua noiva entre­ vivos. Em outra parte, matamos essas crian­
gando a si mesmo na cruz. Boaz não teve ças. O que Deus dirá disso tudo?
de sofrer nem de morrer para conseguir sua Era importante que as esposas israelitas
noiva. Boaz tinha um concorrente - o outro tivessem filhos, não apenas para perpetuar
resgatador - enquanto, no caso de Jesus a nação, mas também porque seria por in­
Cristo, não havia concorrente algum para termédio de Israel que D eus enviaria ao
desafiá-lo. Boaz tomou Rute para si a fim de mundo o Messias. O s israelitas abominavam
suscitar o nome do falecido Malom (Rt 4:10), tanto o aborto quanto o abandono de crian­
mas nós, cristãos, glorificamos o nome do ças à própria sorte para morrer - práticas
Cristo vivo. Havia testemunhas na terra para comuns em outras nações. Lia e Raquel, as
atestar que Rute pertencia a Boaz (vv. 9, 10), duas esposas de Jacó, deram-lhe oito filhos
mas o povo de Deus tem testemunhas no que "edificaram" a nação ao fundar as prin­
céu: o Espírito e a Palavra (1 Jo 5:9-13). cipais tribos de Israel (Gn 29:31 - 30:24;
Em Rute 4:1, 2, encontramos, em cinco 35:18). O uso do nome Efrata em Rute 4:11
ocasiões, as pessoas assentadas. Quando é significativo, pois o termo hebraico quer
Jesus Cristo terminou de comprar sua noi­ dizer "fértil". O povo queria que Rute fosse
va, assentou-se no céu (Hb 1:3; Mc 16:19), tértil e ilustre e que trouxesse honra à pe­
pois a transação havia se completado. "Está quena cidade. Raquel foi sepultada em
consum ado!" Belém (Gn 35:19), porém, mais importante
ainda, a cidade se tornaria conhecida como
2. A n o iv a (Rr 4:11, 12) o lugar onde Jesus Cristo nasceu.
É maravilhoso quando a com unidade da O povo da cidade também desejava que
aliança alegra-se sinceramente com a noiva a casa de Boaz fosse como a de Perez (Rt
e o noivo, pois aquilo que estão fazendo é 4:12; ver Mt 1:3). A família de Perez havia
a vontade de Deus. Em meu ministério pas­ se assentado em Belém (1 Cr 2:5, 50-54), e
toral, participei de alguns casamentos que Boaz era um descendente dele (vv. 18-20).
foram qualquer coisa menos alegres. Nossa Tamar, a mãe de Perez, não foi uma mulher
vontade era chorar em vez de comemorar. piedosa, mas seu nome encontra-se na
O conhecido artista George Jessel definiu o genealogia de Jesus (Mt 1:3).
casamento como "um erro que todo homem Q ue mudanças maravilhosas ocorreram
deve cometer", mas o último lugar a se co­ na vida de Rute pelo fato de ela haver con­
meter um erro é no altar do matrimônio. Ao fiado em Boaz e deixado que ele trabalhas­
contrário do que algumas pessoas pensam, se por ela! Rute passou da solidão ao amor,
o casamento não é um "assunto particular". da labuta ao descanso, da pobreza à rique­
Essa união sagrada inclui Deus e o povo de za, da preocupação à segurança e do de­
Deus, e todo noivo e noiva devem desejar sespero à esperança. Não era mais "Rute, a
as bênçãos de Deus e do povo de Deus moabita", pois seu passado havia ficado para
sobre seu casamento. O povo orou para que trás, e ela estava recomeçando. A partir de
Rute fosse fértil e gerasse filhos, uma vez então, passou a ser "Rute, a esposa de Boaz
que, em Israel, os filhos eram considerados nome que usou com orgulho.
uma bênção e não um fardo (SI 127:3-5). Um a das várias imagens da Igreja na
Infelizmente, essa não é a atitude da socie­ Bíblia é aquela de "noiva de Cristo". Em Efé-
dade nos dias de hoje. Nos Estados Unidos, sios 5:22-33, a ênfase recai sobre o amor de
a cada ano, um milhão e meio de bebês são Cristo, conforme este é visto em seus ministé­
legalmente mortos ainda no ventre, e seus rios: ele morreu pela Igreja (passado), purií -
pedaços são removidos como se fossem tu­ ca e sustenta a Igreja pela Palavra (presentei
mores cancerosos. Uma enfermeira cristã e um dia apresentará a Igreja em glória (fir
comentou comigo certa vez: turo). Cristo está preparando um lindo lar
— Numa parte de nosso hospital trabalha­ para sua noiva e, um dia, celebrará seu ca­
mos dia e noite para manter os bebezinhos samento (Ap 19:1-10; 21, 22).
RUTE 4 195

S. O BEBÊ (R t 4:13-22) Obede também seria uma bênção para


Deus havia sido bondoso para com Rute em Noemi de outra forma: um dia cuidaria da
Moabe, dando-lhe fé para crer nele e ser salva. família que o havia colocado no mundo,
h g'aça do Senhor continuou quando ela se inclusive da avó, Noemi. Boaz havia resga­
~*_dou para Belém, pois ele a conduziu para tado a herança da família, e O bede daria
i campo de Boaz, onde este apaixonou-se continuidade à linhagem da família, prote­
por ela. Sua graça se manifestou, ainda, na geria sua herança e a usaria para sustentar
■■□'ta da cidade, onde o parente mais próxi­ Noemi. Faria jus a seu nome e seria um "ser­
mo rejeitou Rute, e Boaz a adquiriu para si. vo" para Noemi, sua "mãe’de criação".
C e D o is do casamento, Deus derramou sua Esse ministério não seria garantido pela
waça sobre Boaz e Rute ao permitir que ela lei da terra, mas pelo amor de Rute por sua
□Díicebesse (Gn 29:31; 30:1, 2; 33:5) e que, sogra. O bede aprenderia desde cedo a amar
m "»iodo seguro, desse à luz um menino, Noemi como Rute a amava. O bede era fi­
B je o casal chamou de O bede ("servo"). lho único, mas seu amor pela mãe e pela
Deus usaria esse bebê como fonte de avó seria igual à afeição de sete filhos.
'■"%.ãos para muitos. Obede traria bênçãos a Belém. Ele traria
Obede foi uma bênção para Boaz e fama tanto ao nome de sua família quanto
f a le .Aquele não era um bebê qualquer, pois ao nome de sua cidade natal. O nome de
i 'esentava uma dádiva especial de Deus Elimeleque quase desapareceu de Israel,
■ az e Rute. E que bênção O bede foi para mas O bede tornaria esse nome conhecido
■ seu lar! Porém, todo bebê é um presente e traria glória a Belém. E evidente que isso
fc_:ecial de Deus e deve ser tratado dessa ocorreu pela vida e o ministério do rei Davi
■sn-_'ia. Todo bebê merece um lar cheio de (v. 22) e de Jesus Cristo, o Filho magnífico
an o r e pais atenciosos que desejam educá- de Davi. Noemi teria o consolo de saber que
■ ia disciplina e na admoestação do Se- o nome da família não pereceria; antes, se
n o r " (Ef 6:4). Q ue grande privilégio trazer tornaria ainda mais conhecido.
m- inundo uma nova vida e, depois, condu- Obede traria bênçãos a Israel. O bede
3" essa vida de modo que amadureça e que foi avô do rei Davi, um dos maiores gover­
k torne tudo o que Deus planejou! nantes de Israel. Quando o nome de Davi é
Obede também foi uma bênção para m encionado, normalmente pensamos em
V w n i. Sua avó o "adotou" informalmente Golias ou em Bate-Seba. Sem dúvida Davi
ctn-io seu filho e tornou-se sua mãe de cria- cometeu um grande pecado, mas também
çàci As mulheres de Belém compartilharam foi um grande homem de fé usado por Deus
ê i egria de Noemi dizendo: "Seja o S e n h o r para edificar o reino de Israel. Conduziu o
fce^xiito, que não deixou, hoje, de te dar um povo em vitória sobre os inimigos, na ex­
|«rti que será teu resgatador" (Rt 4:14). Tra- pansão de sua herança e, acima de tudo,
B-se de uma referência a O bede e não a no culto a seu Deus. Escreveu cânticos de
adoração para os levitas e criou instrumen­
Para Noemi, O bede foi um "restaurador tos musicais para eles ministrarem. Passou a
4* ida". Todos os avós podem atestar que vida toda juntando riquezas para a constru­
m netos são melhores do que a Fonte da ção do templo, e Deus lhe deu o projeto
[Link] tude, pois "voltamos a ser jovens" quan- desse santuário, de modo que Salomão pu­
5 -ossos netos vêm nos visitar. Não há me- desse executar a obra. Tivesse ele na mão
>■* maneira de recobrar o vigor da vida do uma funda ou uma espada, uma harpa ou
começar a dar de si mesmo para a gera- um hinário, Davi foi um grande servo de Deus
çãc mais jovem. Todo bebê nascido neste que trouxe bênçãos incontáveis a Israel.
• t i-d o é um voto em favor do futuro, e os Obede traria bênçãos ao mundo todo.
■i-ó. devem se concentrar nesse futuro, não A maior coisa que Deus fez por Davi não
« c lassado. Ao segurar um bebê, segura-se foi lhe dar vitória sobre os inimigos nem
: -_-uro nos braços. riquezas para construir o templo. O maior
196 RUTE 4

privilégio que Deus lhe deu foi ser o ante­ 16:6-1 3).1 Da próxima vez que contemplar
passado do Messias. Davi queria construir um bebê ou uma criança, lembre-se de qut
uma casa para Deus, mas o Senhor disse Deus pode ter um grande futuro planejado
que construiria uma casa (família) para Davi para esse pequenino. O professor medievc
(2 Sm 7). Davi sabia que o Messias viria da que sempre tirava o chapéu para seus alu­
tribo real de Judá (Cn 49:8-10), mas ninguém nos estava certo, pois era possível que, nc
sabia qual família em Judá seria escolhida. meio deles, houvesse um futuro general ou
Deus escolheu a família de Davi, e o Reden­ imperador.
tor seria conhecido como "filho de Davi" O s moabitas não deveriam entrar para
(Mt 1:1). a congregação do Senhor "nem ainda a su£-
O s belem itas sequer im aginavam os décima geração" (Dt 23:3). Mas o peque­
grandes planos que Deus havia reservado no Livro de Rute encerra com uma genea­
para aquele menino! O bede teria um filho logia de dez gerações, que chega ao ápice
chamado Jessé, e este teria oito filhos, sen­ com Davi! Jamais subestime o poder da
do que o mais novo seria Davi, o rei (1 Sm graça de Deus.

1. Em 1 Crônicas 2:13-15, o escritor afirma que Jessé teve sete filhos, mas não se trata de erro nem de contradição. É possível que
o fiTho cujo nome não é cííado tivesse morrido antes de se casar ou não tivesse deixado cíescendentes, cie modo que seu
nome foi removido da genealogia oficial.
coloca-se aos pés de Boaz e crê nas pro­
messas dele. O resultado é registrado no
capítulo 4: Rute não é mais uma pobre
respigadora, pois agora tem Boaz e tudo o
I n t e r l ú d io que ele possuí também pertence a e/a.
Muitos do povo de Deus contentam-se
R eflexõ es S o b r e R ute em viver no capítulo 2, ajuntando os restos
e fazendo o melhor que podem em sua
situação difícil. Querem as dádivas de Deus,
mas não uma comunhão mais profunda com
ele. C om o seria diferente caso se entre­
gassem ao Senhor e se concentrassem no

O propósito fundamental do Livro de


Rute é histórico. Ele explica a linhagem
ie Davi e constrói uma ponte entre o tem-
Doador, não nas dádivas! Medite em João
14:21-24.
O Livro de Rute nos lembra de que Deus
p dos juizes e o período em que Deus deu está trabalhando em nosso mundo, buscan­
rei a Israel. do uma noiva e ceifando uma colheita, e
S o entanto, a Bíblia é mais do que um devemos encontrar nosso lugar em seu pla­
►■ ■( histórico. Há várias lições práticas a no para ganhar os perdidos. O s aconteci­
K ren d er desses acontecimentos, as quais mentos do Livro de Rute ocorreram durante
B-c-dem nos dar ânimo em nossa caminhada o período dos juizes, um tempo não muito
«Diritual. O Livro de Rute não é exceção. diferente de nossos dias. Quem concentra
Sem dúvida, esse livro curto revela a pro- a atenção apenas nos males destes tempos
■-nência de Deus na maneira de conduzir torna-se cínico e pessimista, mas quem per­
*_te e Noemi. Para mim, é animador saber gunta a Deus qual é o campo no qual ele
• je Deus ainda cuida de nós, mesmo quan­ deseja que trabalhe para lhe servir fielmente
do ficamos amargurados contra ele, como experimentará a graça, o amor e a alegria
ii» d caso de Noemi. Deus dirigiu Rute, uma do Senhor.
"■■ecém-convertida", e usou sua fé e obe- Juizes é o livro em que "não havia rei"
□ércia para transformar a derrota em vitó- (Jz 17:6; 18:1; 19:1; 21:25). 1 Samuel é o
Deus se preocupa com os detalhes de livro do rei escolhido pelos homens, quando
«jssa vida, e esse fato deve nos dar cora­ Deus deu Saul a Israel, pois o povo pediu
is '- ' e alegria ao procurarmos viver cada dia por ele. Um dia, as coisas em nosso mundo
« "iodo a lhe agradar. ficarão tão críticas que as nações clamarão
O Livro de Rute é um belo retrato da por um rei para alimentá-las e protegê-las.
«br, de salvação de Deus. A história come- Esse rei virá, e o chamaremos de Anticristo.
com Rute, uma forasteira, uma estrangei- Porém, 1 Samuel não é o fim da história,
■ l ~ias termina com Rute, parte integrante pois 2 Samuel é o livro do rei escolhido por
comunidade, pois se casou com Boaz, Deus! Davi entrou em cena e estabeleceu
S i parente resgatador. Ele pagou o preço o reino em nome do Senhor. Semelhante­
^ r,~ que ela fosse resgatada. mente, o Rei de Deus virá, julgará o mundo
Porém, o livro também ilustra a relação perverso, dará fim à injustiça e estabelecerá
dependência do cristão com o Senhor, seu reino glorioso.
v japítulo 1, Rute nem sequer sabia da Enquanto isso, apesar de vivermos tem­
» ■^ ên cia de Boaz. No capítulo 2, Rute é pos de grande perversidade, como os dias
i r . - pobre trabalhadora respigando no cam­ dos juizes, quando não havia rei em Israel,
p e □e Boaz e recebendo presentes dele. Para ainda assim, podemos buscar em primeiro
A . Boaz é apenas um homem poderoso e lugar o reino de Deus e ser súditos fiéis do
cue se mostra bondoso para com ela. Rei dos reis (Mt 6:33). O nome Elimeleque
V co 1'to crítico é o capítulo 3, em que Rute significa "meu Deus é rei", mas Elimeleque
198 RUTE

não fez jus a seu nome, pois duvidou de Foi o compromisso de Rute que fez a
Deus e lhe desobedeceu. Apesar de não diferença em sua vida e na das pessoas a
haver rei em Israel e de tudo parecer estar quem amava.
se desintegrando a nosso redor, pode ha­ Você já se colocou aos pés do Senhor
ver um Rei em nossa vida, reinando em da ceifa? Até que o faça, é impossível Deus
nosso coração. ser, para você, tudo o que deseja ser.

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