Receitas e Despesas Públicas: Tipos e Princípios
Receitas e Despesas Públicas: Tipos e Princípios
1. As Receitas Públicas
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Pode ver-se também sobre esta matéria, Pereira (2009: 63 ss.), Fernandes
(201 O: 29 ss.) e Martins (2011: 37 ss.). 153
- Receitas patrimoniais; Imposto de taxa plana (jlat tax): imposto com taxa fixa, (v.g. 4%), com admissão
da progressividade nos escalões inferiores de rendimento e abandono de qualquer
- Receitas tributárias;
propósito de igualdade horizontal e de igualdade vertical (na medida e m que
- Receitas creditícias. pennitiria o abandono da planificação fisca l por parte dos contribuintes com
Como nos é explicado ainda por FRANCO (ob. cit.: 51 ), as receitas maior rendimento. Associadas à taxa plana temos algumas vantagens, como
patrimoniais são as "que resultam da administração do património sejam: ( 1) menos custos administrativos; (2) alargamento da base tributària;
(3) recurso as fonnas implícitas e imperceptívcis de cobrança; (4) tornaria
do Estado ou da disposição de elementos do seu ativo e que não desecessária a tributação das pessoas colectivas.
tenham caráter tributário". De entre as receitas patrimoniais, o mesmo
autor diferencia entre as rece itas do património e as receitas de Imposto negativo sobre o rendimento: representa um esquema tributário de
manutenção de rendimento das classes mais carenciadas. Baseia-se na criação
disposição patrimonial. As primeiras são as que resultam da normal de um crédi to de imposto, isto é, numa isenção de pagamento, que deixa de
administração do património, seja ela património imobiliário ou se verificar no caso de o sujei to passivo passar a receber rendimentos, em
mobiliário. As receitas de disposição patrimonial sãs as que resultam resultado da e ntrada no mercado de traba lho. Os defensores deste esquema
alegam que assim se combate a annadilha da pobreza. na medida em que se
da oneração ou alienação desse mesmo património.
cria um incentivo para as famílias mais carenciadas integrarem o mercado do
As receitas tributárias, por seu turno, são as receitas provenientes factor trabalho.
da cobrança de tributos (impostos, taxas e contribuições financeiras),
Imposto progressivo: imposto com várias taxas consoante as classes de
como melhor veremos no ponto seguinte.
contribuintes apresentadas. Este imposto segue os propósitos da igualdade vertical
Finalmente, aparecem as receitas creditícias. Estas são as receitas e horizontal próprias da capacidade de pagar, na medida cm que a taxa marginal
resultantes do crédito público e têm a particularidade de ser receitas (6 Rendimento/ tJ. Tributo) tem de ser superior à taxa méd ia (Rendimento
não efetivas (contrariamente a todas as demais). Assim acontece, Total/ Montante do Tributo), com um limite - o confisco. A progressividade
tem duas vantagens: ( 1) tira mais rendimento aos contribuintes mai s ricos; (2)
na medida em que as receitas creditícias, embora se trad uzam numa aproxima os rendimentos líquidos do imposto, em tennos de o último euro de
entrada de ativos monetários no património de tesouraria do Estado, imposto pago pelo contribuinte mais rico ter uma uti lidade inferior ao último
implicam o registo no passivo financeiro, de um valor exatamente igual curo pago pelo contribuinte mais pobre.
ao do da receita assim obtida. Mais adiante, voltaremos a estas receitas, Imposto proporcional: imposto com taxa fixa (v.g. 4%). Neste tipo de imposto,
quando tratarmos quer da qualificação dos saldos orçamentais, quer a taxa média (Rendimento Total/Montante do Tributo) é igual à taxa marginal
da dívida pública (Ponto 2, desta Parte 1). (tJ. Rendimento/ tJ. Tributo). Este imposto desconsidera a realidade dos rendimentos
líquidos aferidos em te rmos de utilidade margi nal própria dos impostos
progressivos.
1.2. Receitas tributárias
Imposto de soma fixa (/11mp sum taxes): são impostos que resultam do Seguindo ensinamento generalizado nesta matéria, podemos qualificar
estabelecimento de um montante uniforme, a ser pago por todos os contribuintes os tributos como prestações pecuniárias em favor do Estado (ou de
(v.g. Eur. 10,00). Não obsta nte a uniformidade do montante a taxa média
(Rendimento Total/Montante do Tributo) é regressiva, gerando alguns problemas outras entidades públicas), de natureza obrigatória e sem caráter
de injustiça na repartição dos encargos e a taxa marginal (6 Rendimento/ 6 sancionatório.
Tributo) é igual a zero. 155
154
A generalidade da doutrina fiscalista portuguesa tem, ao longo dos A distinção entre estas três figuras convoca pois o manuseamento
tempos, procurado identificar os critérios fundamentais de distinção de dois e lementos fundamentais, o pressuposto e a finalidade do
entre os tipos principais de receitas tributárias (veja-se, por ordem tributo (neste sentido, ainda Vasques, idem: 130 ss.). No caso dos
cronológica, Martinez, 1993: 34 ss., Sanches, 2002: 9 ss., Nabais, impostos - tributos unilaterais típicos - o pressuposto legal de cuja
10 ss. e Vasques, 2008: 95 ss.). A grande cisão é a que separa impostos verificação depende a formação da obrigação tributária mostra-se nele
de taxas: os primeiros constituem tributos unilaterais, no sentido alheio a qualquer relação entre o sujeito passivo e a administração. O
que o pagamento do imposto não envolve qualquer contraprestação pressuposto situa-se fora dessa relação e encontra-se nos rendimentos,
(pelo menos como tal percecionada); as segundas constituem tributos no património, no consumo, etc., ou seja, em factos reveladores da
bilaterais, no sentido de que o seu pagamento pressupõe uma determinada riqueza (da capacidade contributiva), que não a prestação administrativa.
contrapartida específica, tendencialmente direta e imediata (ainda Para além disso, impõe-se que este tenha por finalidade o financiamento
que, em certos casos, possa ser diferida no tempo). As taxas podem ser geral das despesas públicas não visando o financiamento de despesas
cobradas fundamentalmente numa de três situações: i) pela utilização públicas determinadas. No caso das taxas - tributo bilateral por
de bens de domínio público; ii) pela obtenção de um serviço público;
excelência -, o pressuposto é uma prestação administrativa de que
iii) pela remoção de um obstáculo jurídico ao exercício da atividade
o sujeito passivo seja efetivo causador ou beneficiário (um bem de
privada.
domínio público, um serviço público, a remoção de obstáculos jwídicos
Com a revisão constitucional de 1997, o legislador consagra
ao comportamento dos particulares). A sua finalidade consiste na
expressamente um tertium genus tributário, que denomina de
compensação dessa mesma prestação (finalidade compensatória): a
contribuições financeiras . Estas - repare-se antes de mais - não se
taxa não só é exigida por ocasião da prestação, mas sobretudo em função
confundem com as contribuições especiais (sejam de melhoria ou
dessa prestação. Finalmente, as contribuições têm por pressuposto uma
de especial desgaste), um tipo muito particular de impostos e que
prestação administrativa presumivelmente provocada ou aproveitada
apresentam, em nossa opinião, duas especificidades: por um lado,
são cobradas em virtude da ocorrência de externalidades positivas pelo sujeito passivo e têm ainda uma finalidade compensatória, que
ou negativas e visam portanto intemalizá-las; por outro lado, sendo deve ser confirmada pelo destino da receita cobrada (na verdade, a
impostos, traduzem uma aplicação hfürida dos princípios da capacidade consignação de receita que aqui tem lugar constitui uma dos elementos
contributiva e da equivalência (a que nos referiremos melhor no mais importantes no apuramento dessa mesma fina lidade).
ponto seguinte). As contribuições financeiras, contrariamente pois
às contribuições especiais, são uma categoria autónoma de tributo, A qualificação como imposto, taxa ou contribuição financeira
ainda que fiquem 'a meio caminho' entre as taxas e os impostos: tem relevância a nível do regime jurídico-constitucional aplicável.
o que as diferencia dos impostos é o facto de, ne las, haver lugar a Designadamente, quanto à aplicação do princípio da legalidade fiscal
uma contraprestação (são portanto de natureza bilateral); o que as (sobre este princípio leia-se Xavier ( 1978) e D ourado (2007)). Na
diferencia das taxas é o facto de a prestação ter uma natureza difusa verdade, desde a revisão constitucional de 1997 (alínea i) do n. 0 1
(ela pode ou não verificar-se no tempo). As contribuições para a do artigo 165.º) que é matéria de reserva (relativa) de lei da Assembleia
segurança social (mormente na parte que é paga pelo trabalhador) da Repúbl ica a "criação de impostos e sistema fiscal e regime geral
constituem, segundo doutrina importante, um exemplo, ainda que das taxas e demais contribuições fi nanceiras a favor de entidades
156 não o único, deste tipo de tributo (neste sentido, Vasques (2008)) . públ icas". Com esta previsão, o legislador criou uma cisão clara, no 157
plano da reserva de lei, entre os impostos, de um lado, e as taxas e - Os princípios e regras gerais relativos à competência para o
as contribuições financeiras, do outro. E consagrou, mesmo quanto às seu estabelecimento e à forma ou procedimento que neste
contribuições financeiras, urna reserva de lei (aparentemente) menos deve ser observado;
exigente, determinando que 'apenas' o regime geral respetivo conste - O(s) critério(s) a que deverá obedecer a fixação do respetivo
de lei. Assim, enquanto no que diz respeito aos impostos se exige montante e os elementos ou circunstâncias para tanto atendíveis
que o tipo fiscal e bem assim os respetivos elementos essenciais (talvez este seja o ponto nuclear);
(incidência, taxas, benefícios fiscais e garantias dos contribuintes) - Alguns aspetos mais relevantes do regime da relação jurídica e
sejam criados por lei (veja-se também, em articulação com a norma da obrigação tributárias.
do artigo 165.º da Constituição, o disposto no seu artigo 103.º, n.º 3), Seguindo Cabral (201 Oc: 1O1-103), resultam deste elenco as
já no que diz respeito às taxas e às contribuições financeiras, apenas se seguintes ilações. Assim, conquanto esta seja uma reserva de lei
impõe-se que da lei resulte a aprovação do respetivo regime geral. à partida menos exigente do que aquela que é reclamada para os
O 'tipo' em concreto de cada taxa ou contribuição financeira poderá impostos, não se trata ainda assim de uma mera formulação vaga e
então fazer-se por diploma legal não autorizado ou até, eventualmente, programática de princípios gerais, desprovidos de operatividade e
por diplomas de natureza infra legal. de efetividade jurídicas. Temos lá a parametrização de elementos
Costa (2006) procurou clarificar o que significa verdadeiramente a essenciais, fundamentalmente, critérios de determinação da incidência
aprovação de um 'regime geral'. Se a expressão comporta uma certa objetiva e subjetiva, critérios de definição do montante das taxas e
dose de indeterminação, caberá ao próprio legislador definir que princípios norteadores (v.g. equivalência jurídica e proporcionalidade)
aspetos devem integrar ou passar a integrar esse mesmo regime geral e preocupações com as garantias dos contribuintes. Trata-se pois
(a ideia em suma de preferência do Parlamento). Daq ui resulta, de um regime que é geral, não por haver uma qualquer degradação
finalmente e no que às taxas e contribuições financeiras respeita, da qualidade das matérias - que são ainda em última aná lise os
que podem existir não apenas um, mas vários regimes gerais, em elementos essenciais do tributo -, mas sim por outras (três) razões
função designadamente dos sectores da atividade pública a que fundamentais.
respeitem. Posto isto, Costa (idem) identifica alguns elementos que Primeira, é regime geral, porque geral é o seu objeto: enquanto no
em relação às taxas (e às contribuições financeiras, com as devidas caso dos impostos, os regimes respetivos são, por via de regra, regimes
adaptações) devem constar necessariamente do regime geral (a específicos de cada um dos impostos, no caso das taxas e das demais
ideia de 'conteúdo mínimo'), a saber: contribuições financeiras eles serão o regime que genericamente
- A própria noção de 'taxa' e a sua caracterização99 ; enquadrará um pluralidade de tributos (justamente por serem tributos
- As suas possíveis modalidades e a indicação típica dos plurais e proliferantes), tributos estes unidos por uma idêntica
domínios da sua incidência; fisionomia e funcionalidade. Nesta medida, o regime geral assumirá,
quanto a eles, o papel de denominador comum, fixando critérios
de determinação da incidência e das taxas e bem assim regras de
99
competência, de exigências forma is e procedimentais, que acabam
Note-se que não será a definição de uma certa e determinada taxa, mas da
taxa em sentido geral. Veja-se a este propósito o artigo 3.º do Regime Geral das por funcionar como verdadeiras garantias dos contribuintes e de
158 Taxas das Autarquias Locais (Lei n. 0 53-E/2006, de 29 de dezembro). segurança jurídica. 159
Segunda, o regime é geral porque, diversamente ao que sucede § 2. A Constituição fiscal portuguesa: referência breve à igualdade
com os códigos ou a legislação fiscal, não se trata, através dele, de tributária
criar desde logo a taxa ou a contribuição (o tipo fiscal): o regime
O ponto de partida da presente análise é, em nosso entender, a
geral limitar-se-á a fixar, como vimos, as regras de competência para
reabilitação doutrinal do princípio da capacidade contributiva ou
criação desses tributos e a determinar a forma como essa criação, na
económica 101 • Recentemente, tem-se destacado a importância da
prática e em concreto, se processará (o procedimento). E isto é explicado,
capacidade contributiva como medida de tributação e, inclusivamente,
em boa medida, novamente pelo tal caráter plural e proliferante dos
como critério de repartição de determinadas prestações públicas.
tributos que aqui estão em causa - a ideia de tipicidade tributária surge
O que, tem permitido a construção de um direito fundamental de
aqui de forma mais ténue. Por isso mesmo, o legislador entende que
contribuição, assente na ideia que os direitos fundamentais consistem
se a 'figura' tributária seguir os critérios e os princípios e, bem assim, as
em direitos públicos subjetivos que vinculam o legislador, e,
exigências formais e substantivas fixados no enquadramento geral,
consequentemente, a necessidade de realizar uma ponderação de bens
isso é suficiente para cumprir as exigências de legalidade, podendo
jurídicos (norteada pelo princípio da proporcionalidade) quando
o tipo depois ser criado, de facto, por outro instrumento que não a
estejam presentes fins que impliquem a restrição daquele direito 1º2•
lei (v.g. regulamentos) 100•
Terceira, o regime é geral, na medida em que, como dissemos,
este estabelece parâmetros ou critérios - que até podem ser bastante
especificados - relativamente aos elementos essenciais do tributo.
Ora, tal não significa ainda que estes elementos sejam desde logo 101
Assumimos aqui a igualdade conceptual destes conceitos. Contudo, no rigor
nele fixados, podendo ou devendo sê-lo quando criado, efetivamente, das coisas, poder-se-ia defender a separação entre a capacidade contributiva e a
capacidade económica, definição aliás irrelevante, por falta de qualquer sentido
o tributo em causa. Por exemplo, caberá ao ato criador dessa taxa
jurídico útil. Como, aliás, refere F. MoscHETTI ("La capacità contributiva - Profili
ou contribuição, a concretização dos sujeitos (maxime dos sujeitos Generali", in F. MoscHETTI et ai., La Capacità Contributiva, M ilano: CEDAM,
passivos) e bem assim dos montantes a pagar. 1993, pp. 25-26) a valoração da capacidade contributiva passa pela síntese dos
segu intes elementos: "a) o artigo 53.º (da Constituição Italiana) quer fixar um
critério de justiça em matéria tributária; b) o referido critério de justiça é distinto
A distinção entre os vários tipos de tributos, assente no critério do princípio da igualdade e dos cânones formais da mera racionalidade e coerência
da existência ou não de um sinalagma entre aquilo que é pago e o legislativa; c) o mesmo critério pressupõe, como condição necessária e não suficiente.
que é percebido em troca, pode ser explicada através dos princípios a capacidade económica do sujeito; d) a capacidade económica deve ser superior
a um certo mínimo e deve ser considerada com idónea na concorrência das despesas
fundamentais de tributação que estão subjacentes a cada um dos públicas em relação aos valores enunciados pela constituição; e) a menc ionada
tributos. Considera-se que nos tributos bilaterais, a tributação paridade pode portanto resultar na diversidade conceptual entre a capacidade
é legitimada pelo princípio da equivalência, ao passo que nos tributos contributiva e capacidade eocnómica". Nesse sentido, a capacidade contributiva
corresponde apenas ao modo de financiamento, podendo estar dotada de vários
unilaterais ela estriba-se (em regra) no princípio da capacidade graus consoante a capacidade económica demonstrada.
contributiva. 102 Sobre a questão da reabilitação do princípio da capacidade contributiva e
cedular, em que a um esquema de impostos parcelares se sobrepõe ou personalizantes que detêm a maior fatia dos mencionados desagravamentos
(53%), sendo seguidas pelas despesas de saúde ( 18,4%), pelos encargos com
uma tributação de segundo grau com carácter global. imóveis ( 17 ,5%) e pelas despesas de educação e formação (9 ,6%). Para mais
desenvolvimentos cfr. Reavaliação ... , op. cit., pp. 114-115.
112 Excluindo, por razões extrafiscais, os encargos com energias renováveis,
matrícula ou registo da viatura e na liquidação originária do imposto de 1O de Abril de 1954, estabeleceu as regras essenciais ao fixar que as taxas
sobre veículos garantem um controlo informático mais eficaz nesta sobre a produção e as transações fossem substituídas por uma só taxa sobre o
valor acrescentado, calculado sobre a diferença entre o preço de venda et o preço
matéria, com evidente redução de custos e burocracias, para além de compra. A taxa era de 20% e comportava majorações até 23% e 25%, como
188 de viabilizarem um conhecimento mais rigoroso do parque circulante, reduções entre os 10% e os 6%. Seguiu-se um longo processo de generalização da 189
maior parte dos países europeus, é um imposto de ti po consum o 141 , Não confundamos o referido dire ito à dedução com o conceito
baseado no sistema de "inputs/outputs" 142 e assente no s istema de de isenção. Não é correto reconduzir, em regra, as s ituações que
pagamentos fraccionados destinados a tributar o consumo final. A consubstanciem isenção tributária 143 em sede de IVA, a uma renúncia
dedução do imposto pago nas operações intermédias do circuito a receitas por parte do Estado e à consequente redução do quantum da
económico é, desta forma, indispensável ao funcionamento do obrigação tributária a que o contribuinte está sujeito, à semelhança do
mencionado sistema. que sucede com os impostos sobre o rendimento e sobre o património.
Pense-se no caso das isenções que não atribuam o direito à dedução
(isenções simples ou incompletas) 144 - na verdade, o estabelecimento
da isenção do estádio final do processo produtivo envolve o pagamento
de um imposto oculto, correspondente à soma do IVA entregue ao
tributação desde o gás e a eletricidade en 1951 , até às operações imobiliárias em Estado pe las empresas que p articiparam nos estád ios iniciais e
1963, e às vendas comerciais em geral em 1966 (pela Lei nº66-J Ode 6 de Janeiro intermédios, porquanto resulta impossível para a e nt idade em
de 1966, entrada em vigor a I de Janeiro de 1968). Em seguida, a mais importante desonerar-se da tributação suportada na aquisição dos bens e serviços
etapa de expansão do TVA resulta da Sexta diretiva IVA (n. 0 77/388/CEE) de 17
Maio de 1977 (publicado in JO, L 145, 13/6/1977, p. 1 e cujo texto consolidado
essenc ia is à prossecução da atividade económica.
podemos encontrar no sítio [Link] que procedeu a uma
harmonização das legislações nacionais europeias, clarificando o campo de aplicação Substancialmente, em sede de IVA, podemos estabe lecer uma
do IVA, definido sumariamente pelas l .ª e 2.ª diretivas IVA. Sobre o assunto
vide MAURICE LAURÉ, Au secours de la T. V.A., Paris: Presses Universitares de
relação entre o Estado e o Contribuinte com uma dupla vertente 145 :
France (PUF), 1957 e, sobre a evolução recente, R.ÉPUBLIQUE FRANCAISE - CouR
DE COMPTES (CoNSEIL DES l MPôTS), la Taxe Sur la Valeur Ajouree - XIXe Rappon
Au President De la Republique, 2001 (Junho), d isponível no sítio httn://www.
ccomptes. fr/organ ismes/conse i1-des-i mpots/rapports/.
1• 1 Dependendo da forma como são tratados os bens de investimento, são-nos 143 Seguimos de perto ALBERTO XAVLER (Manual ... , op. cit., pp. 28 1-282), que
apresentados três tipos de IVA: do tipo produto bruto, do tipo rend imento e d o refere: "A norma tributária material não se limita sempre, na sua hipótese, à previsão
tipo consumo. Assim: do facto tributário, isto é do facto consti tutivo da obrigação de imposto. Muitas
a) O IVA tipo produto bruto não permitiria a dedução do imposto relativo a vezes, na verdade, faz paralisar a efi cácia desse facto pela previsão de um outro
investimentos; cuja verificação impede a produção dos efeitos do primeiro: esse ouiro jàcto é a
b) O JVA tipo rendimento permitiria a dedução do imposto relativo aos isenção do imposto."
investimentos na medida da amortização anual; 1•• No IVA é freq uente a d istinção de dois tipos de isenções, por referência à
c) O IVA tipo consumo pemútiria a dedução relativamente a todos os investimentos. previsão do d ireito à dedução: as isenções simples ou incompletas e as isenções
Sobre o assunto cfr. ARLINDO CORREIA, Os !111posros sobre a Despesa, Évora: completas. E nquanto que nas isenções simples ou incompletas não há d ireito à
(polic.), 1990, p. 27. dedução do imposto suportado a montante, nas isenções completas é aoibwdo o direito à
142 De facto, se estabelecermos um resultado quantitativo do fluxo dos bens dedução do imposto suportado a montante. É nestas últimas que encontramos a
e serviços numa determinada economia entre a indústria e a procura fina l chegamos isenção taxa zero, pela criação de um d ireito à dedução da total idade do imposto
à concl usão que o nível de produção (ou1p11t) de cada sector define os factores suportado a montante na aquisição, sem que a venda por parte do produtor implique
de produção (inputs) aplicados nos outros sectores, falando-se, deste modo, no a aplicação de q ualquer taxa (podendo assim fa larmos em "esquema especial de
famoso =ig-=ag intersectorial de rendimento. Assi m o fizeram, re lativam ente isenção" na venda acompanhado de uma "desoneração especial'', pela dedução do
a França, FRANÇOIS QuESNAY (Tableau Economique, Versailles, 1758) e, para a investimento produzido - vide J. L. SALDANHA SANCHES, Manual. .. , op. cit., p. 272).
economia norte-americana, WASSILY W. LEONTIEF (The Structure o.f the American 145 De acordo com MARIO MANDó e GrANCARLO MANDó, Manuale dell 'Imposta
190 Economy, NewYork, 1951). sul Valore Aggiunto (20.3 ed.), Vicenza: IPSOA, 2001 , pp. 4 18-419. 19 1
a) Uma vertente passiva - como abrangendo todas as operações 1. Um limite quantitativo, já que a dedução só pode ser exercida
efectuadas pelo contribuinte, consistindo estas no fornecimento na medida do imposto suportado a montante;
de bens e prestação de serviços próprios da atividade empresarial; 11. Um limite qualitativo, por referência à verificação cumulativa
b) Uma vertente ativa - como abrangendo os imposto devidos dos seguintes requisitos:
ou pagos quer relativamente aos bens fornecidos e serviços 1 . O primeiro de natureza positiva, do qual resulta a inerência
prestados, quer relativamente aos bens importados, quer entre os bens e serviços adquiridos e a atividade empresarial
relativamente às situações previstas no artigo 17 .º, n.º 3 da prosseguida 148 ;
Sexta Diretiva. 2. O segundo de natureza negativa, do qual resulta a exclusão
É da diferença algébrica entre estas duas vertentes que resulta o dos bens e serviços adquiridos utilizados para fins diversos
montante do imposto devido ao Erário, no caso de a vertente passiva aos visados pela atividade empresarial concretamente sujeita
ser superior à vertente ativa, ou o montante do imposto a ser restituído, a tributação. O imposto suportado deve corresponder a certas
no caso inverso. operações 149 e subsiste mesmo quando o sujeito passivo
não tenha podido utilizar os bens ou serviços que deram
O direito à dedução do IVA surge no momento da exigibilidade origem à dedução.
do imposto 146- 147, sendo que o mesmo apenas se pode concretizar na O IVA repercutido corresponde, assim, à aquis ição de um bem
medida do imposto devido e dos bens e dos serviços empregados na ou serviço que se pretende utilizar para as necessidades da empresa, ou
atividade empresarial. Pelo que se toma necessário o estabelecimento seja, que fique afecto aos bens da empresa 150 . O que quer s ignificar
de uma correlação entre a aquisição dos bens e dos serviços e o seu
emprego. Desta correlação resultam dois tipos de limites:
18
' Deve existir uma relação d ireta e imediata entre uma determinada operação
a montante e uma ou várias operações a jusante com direito à dedução, para que
o direito à dedução do IVA a montante seja reconhecido ao sujeito passivo e para
determinar a extensão desse direito (o cumprim ento do princípio da neutral idade
146 O imposto suportado deve ser o IVA e não qualquer outro imposto, entendamos é assegurado desde que as atividades económicas, em si mesmas, estejam sujeitas
o IVA português, já que o procedimento de reembolso do imposto estrangeiro a imposto, o que conduz a que só excepcionalmente a Sexta Diretiva preveja o
suportado encontra-se previsto na Oitava Diretiva e foi transposto pelo DL 408/87, direito à dedução do fYA re lativo a bens e serviços uti lizados para operações
de 31112. isentas). Sobre o assunto cfr. PATRiCIA CUNHA, Manual de Estudo do IVA (polic.).
1' 7 Existem três princípios que regem o sistema da dedução e que são apontados Lisboa: Instituto Superior de Gestão, 2002, p. 146.
149
por B. J. M. TERRA e JuuE KAius (in A Cuide to the Sixth VAT Directive - Nesse sentido B. J. M. TERRA e JuuE [Link] (in A Cuide to .. ., op. cit., p. 877)
Commentary to the Value Added Tax of the European Community, Yol. Bl, referem que, de acordo com o memorando explanatório do artigo 18.º, n.º 1 da
Amsterdam: IBFD Publications, 1991, pp. 86 1-862): Sexta Diretiva, "it should be pointed out however that an invoice is no more than
a) O princípio da integralidade, no sentido que a total dedução do imposto é evidence of a right to deduct: there is thus no right to deduction in the absence of
permitida, desde que os bens e os serviços sejam adquiridos para concretização an actual transaction (supply of goods o r services)".
150
de propósitos não ligados ao consumo; A Sexta Diretiva apresenta "uma completa ruptura com a noção tradicional
b) O princípio da globalidade, que encerra a referência a todo o tipo de atividade de sujeito passivo de imposto" (J.L SALDANHA SANCHES, Manual... , op. cit., p. 267),
empresarial exercida pelo contribuinte; na medida em que define o sujeito passivo como abrangendo aquelas pessoas que
c) O princípio da dedução imediata, na medida em que a dedução só terá "praticam com carácter continuado operações tributáveis" (J.L SALDANHA SANCHES.
192 efeitos se respeitar ao mesmo período de tributação. Manual ..., op. cit., p. 267). 193
que é necessário para a dedução interna do imposto que este tenha sido dedução. Pelo contrário, as operações internas não conferem o direito
debitado em transação anterior devidamente documentada por meio de à dedução (é por essa razão que também são apelidadas de fa lsas
factura, nos termos exigidos pelo artigo 18.º da Sexta Diretiva 151 . isenções).
O sujeito passivo deve possuir um documento que justifique o É muito difícil porém, apurar da admissibilidade destas isenções
direito à dedução (artigos 19.º/2 do CIVA e 18.º/l a) da Sexta Diretiva), como derrogações à capacidade contributiva. Fundamentalmente, porque
alternativamente: decorrem de obrigações internacionalmente assumidas (referimo-nos
a. Uma factura expedida por quem efetua a transmissão de bens à Sexta Diretiva 154), que implicam necessariamente urna delimitação
ou a prestação serviços; da margem de liberdade atribuída aos Estados-membros da UE.
b. Um documento que contenha a liquidação do imposto, expedido
pelo sujeito passivo, no caso de inversão do sujeito passivo 152 ; Assim, temos:
e. Os Estados membros podem exigir aos sujeitos passivos a a) Isenções internas, identificadas nos artigo 13. 0 da Sexta
apresentação do original da factura para justificar o direito à Diretiva, que não conferem à dedução, excecionadas as situações
dedução, bem como de admitirem, quando o sujeito passivo constantes dos artigos 13.º, parte B), alínea a) e pontos 1 a 5 da
já não estivesse na posse do original, outros meios de prova alínea d) e 17.0 /3, alínea c). Por não constituírem verdadeiras
que demonstrassem que a transação que é objecto do pedido isenções, por desconsiderarem o carácter plurifásico do
de dedução existiu efetivamente. imposto e, consequentemente, tratarem o sujeito passivo como
consumidor final, são excluídas do âmbito de análise deste
Desta forma, limita-se a dedução ao imposto devido e devidamente trabalho.
documentado por meio de factura. Isto é, se não corresponder ao b) Isenções externas, identificadas nos artigos 14.º a 16.º da
montante do imposto legalmente devido deve ser regularizada (artigo Sexta Diretiva, e que conferem o direito à dedução, tal como
71.º do CIVA), mesmo que corresponda ao montante do imposto identificadas no quadro anexo.
mencionado numa factura ou num documento equivalente.
Quanto à questão da harmonização e consequente margem de
Ora, os benefícios fiscais surgem normalmente em sede de IVA, em liberdade dos Estados-membros na transposição da Sexta Diretiva
duas modalidades: isenções completas e incompletas 153 , conforme para a legislação interna, e tendo em conta o constante do artigo 28.º
viabilizem ou não o direito à dedução ou reembolso do IVA. Apenas as da Sexta Diretiva, que contém disposições transitórias, existem isenções
isenções aplicáveis a operações internacionais é que conferem o direito à não harmonizadas autorizadas e possibilidade de opção pela tributação
de factos que são consideradas isentos na Sexta Diretiva.
Quanto às isenções que os Estados membros estão autorizados
a manter, há que considerar que, nos termos do artigo 28.º/2, alínea
Ac. TJCE de 6/4/1995, DLP Group pie e/ Commissioners of Customs &
15 1
a) da Sexta Diretiva, só são permitidas a que tenham sido aplicáveis
Excise, proc. C-4/94, Colect., p. 983.
152 Cfr. os requisitos das facturas ou does. equivalentes no artigo 35.º do CIVA.
153 Cfr. a recente abordagem fe ita em Rui LAIRES, Apontamentos sobre
sendo que só se toma exigível o pagamento deste no momento da que não se integrem na rede dos entrepostos fiscais, consultar SÉRGIO VASQUES,
Impostos Especiais .. ., op. cit., pp. 242-252.
introdução no consumo 161 , de acordo com o artigo 7.º do CIEC. l6l SÉRGIO VASQUES, Impostos Especiais ... , op. cit., pp. 222-255.
164
Ver o artigo 24.0 do CIEC.
165
SÉRGIO VASQUES, Impostos Especiais .. ., op. cit., pp. 271 -273.
166
Ver os artigos 13.º e 14. 0 do CIEC. Consultar ainda outras situações, como
160 Ver artigos 4.º, 48.º, quanto ao álcool e as bebidas alcoólicas, 70.º, quanto as previstas nos artigos 12.º e 15.º do CIEC.
167
aos produtos petrolíferos e energéticos, e 8 Lº, quanto ao tabaco. . Reflexamente, os produtos introduzidos para consumo noutro Estado-membro,
161 Alternativamente, a exigibilidade do imposto pode ter lugar relativamente que sejam adquiridos para consumo em território nacional são tributados neste
198 a perdas, nos termos dos artigos 37 .ºe seguintes do CIEC. território, conforme resulta do artigo 16.º do CIEC. 199
carburante (matérias-primas) 168 . Na realidade, e como já se explicou sentido atual 170 , que a resolução dos problemas ambienta is tem
supra não há uma verdadeira introdução dos bens no consumo, demonstrado resultados mais eficazes 171 • Estudos da OCDE assim
pelo que se justifica desta maneira o desagravamento previsto. o demonstram: não só na Finlândia, no final dos anos 80 havia uma
Por outro lado, a diminuição de divergência entre o custo social capacidade de redução de mais de 90% da concentração de SOx 172,
e individual preconizada pela utilização colectiva dos veículos que como também na Noruega e em Itália a capacidade de redução da
utilizam os produtos petrolíferos e energéticos parece justificar um emissão dos mesmos gases excedia os 70% 173 . Para além disso, "parte-se
desagravamento, estes já fora do núcleo essencial do imposto. do princípio de que a decisão financeira se deve orientar no sentido de
Neste sentido, e como concretização desta política de promoção do assegurar que as gerações presentes tenham condições para desfrutar
aumento do bem estar (artigo 81.º, alínea a) da CRP) e do incremento do meio ambiente e de o transmitir às gerações futuras, em termos que
do investimento nacional (artigo 81.º, alínea c) da CRP) e do investimento permitam a estas um grau de gozo dos bens coletivos pelo menos
estrangeiro (artigo 87.º da CRP), temos a isenção total dos produtos idêntico àquele que atualmente é proporcionado" 174 . Desta forma o
petrolíferos e energéticos que sejam fornecidos tendo em vista o problema ambiental para além de ter uma dimensão intrageracional,
seu consumo na navegação aérea (artigo 71.º, n.º 1, alíneas b) e 1) assume contornos intergeracionais.
do CIEC), na navegação marítima costeira e navegação interior, Neste sentido, e como medidas de prossecução de uma política
incluindo a pesca (artigo 71. 0 , n.º 1, alíneas c), h) e l) do CIEC), no ambiental eficiente, falamos das isenções totais de ISP sobre produtos
autoconsumo do gás pelos transportes públicos (artigo 71.º, n.º 1, petrolíferos introduzidos no consumo para produção de Eletricidade
alínea e) do CIEC), pelos veículos de tração ferroviária (artigo 71.º, ou de eletricidade e calor (artigo 71.º, n.º 1, alínea d) do CIEC),
n.º 1, alínea i) do CIEC) e pelos equipamentos agrícolas (artigo 74.º, para processos eletrolíticos, m etalúrgicos e mineralógicos (artigo
n.ºs 1 e 3, alínea c) do CIEC).
Acrescentem-se ainda os benefícios decorrentes do constante do
170
artigo 66.º da CRP, na medida em que se assume cada vez mais a Hoje em dia, os tennos corporativismo ou neocorporativismo usam-se por
referência à tendência po lítica das administrações e dos legis ladores serem
necessidade de resolução do problema ambiental. O problema ambiental influenciadas por múltiplos interesses empresariais. A origem deste conceito deve-se,
podia, preferencialmente, resumir-se às exterioridades 169 . Porém, porém, à afirmação do Papa Leão Xlll proferida na Encíclica Rerum Novar11111
desenvolve-se num quadro de busca de renda (rente seeking), ( 189 1): "A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e
as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política
porquanto existem grupos de pressão interessados em canalizar as para a esfera vizinha da economia social. Efetivamente, os progressos incessantes
ditas exterioridades para si (no caso de se tratarem de exterioridades da indústria, os novos cam inhos em que entraram as artes, a alteração das relações
positivas) ou para terceiros (no caso de se tratarem de exterioridades entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos dum pequeno
número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que
negativas). Aliás, é num quadro de um Estado corporativista, no os operários fomrnm de si mesmos e a sua un ião mais compacta, tudo isto, sem
fa lar da corrupção dos costumes, deu em resultado fi nal um temível conflito".
171
H AROLD L. W! LENSKY, Rich Democracies - Política! Economy, Public Policy
and Pe1formance, Los Angeles: University of Califomia Press, 2002, pp. 54 1-545.
172
SOx representa o óxido sulfúric o, que é o pri ncipal componente das chuvas
16
~ Ver artigo 7 \.º, n.º l, alínea a) do ClEC. ácidas.
169
Para mais desenvolvimentos, consultar o nosso "As implicações financeiras da 173
Cfr. OCDE, The State ofthe Environmeni, Paris: OCDE, 1991.
política tributária ambiental", Revista Forum de Direito Tributário , n.º l 4 (Março), 174
EDUARDO P AZ F ERRELRA, Ensinar Finanças Públicas numa Faculdade de
200 Belo Horizonte, 2005, pp. 67-101. Direito, Coimbra: Almedina, 2005, p. 267. 201
71. 0 , n.º 1, alínea f) do CIEC), projetos piloto de desenvolvimento tomará, então, os seus contornos definitivos. É esta a solução
tecnológico de produtos menos poluentes (artigo 7 1.º, n.º 1, alínea j) preconizada pelo artigo 4.º do CISV e pelo artigo 1O.º do diploma
do CIEC), para utilização dos biocombustíveis (artigo 7 1.º-A do preambular.
CJEC) e aquecimento (artigo 74.º, n.ºs 1 e 4 do CIEC). Outro aspecto importante, em termos de impacto ambiental, que
não se descura é o relacionado com a necessidade de redução das
c.3) O Imposto sobre os Veícu los (ISV) emissões de partículas nos veículos com motores a gasóleo, atento
os efe itos nefastos que ocasionam ao nível da saúde pública. Neste
Nestes termos, o novo ISV leva muito mais além o já citado primeiro sentido, prevê-se a concessão de uma redução fiscal aos veículos
passo dado pelo Governo na Lei do Orçamento do Estado para 2006, que comprovadamente apresentem níveis de emissões reduzidos,
que ditou que a base tributável do imposto automóvel passaria a ser em consonância com as recomendações da Comissão Europeia e
constituída também pelos níveis de emissão de dióxido de carbono adotando, assim, a boa prática j á seguida por alguns Estados membros.
dos veículos tributáveis. A alteração da base tributável constitui, No que respeita à incidência objeti va - artigo 2.º do CISV -, o
assim, um ponto-chave da reforma que agora se empreende - artigo novo ISV aplica-se a automóveis ligeiros, mistos e de mercadorias
4.0 do CISV e artigo 10.º do diploma preambular. Não obstante a com peso bruto até 3500 kg - artigo 2. 0 , n.º 1, al. a), b) e c) do
c iência encontrar-se ainda numa fase experimental profunda neste CISV - mas traz como principal inovação o a largamento da base de
domínio, já é hoje seguro que a cilindrada não constitui o melhor incidência a veículos que até agora não estavam sujeitos ao imposto
indicador da capacidade poluidora de um veículo, devendo, por automóvel e cuja sujeição a imposto especial no momento da compra
isso, recorrer-se para esse efeito a elementos de natureza diversa, se justifica pelos custos ambienta is, viários e de s inistralidade que
nomeadamente o nível de emissão de dióxido de carbono (C02) ou sempre lhes estão associados. Assim sucede com os motociclos e
de partículas pesadas, tal como já foi acima referido. Na verdade, autocaravanas, integrados no âmbito de incidência do novo imposto,
os níveis de dióxido de carbono emitido por quilómetro já integram ainda que lhes sejam aplicáveis taxas de imposto menos elevadas,
obrigatoriamente a homologação dos automóveis ligeiros de passageiros pelo m enor custo ambiental e viário que produzem.
novos ao nível da Comun idade, constituindo, assim, um indicador
preciso e seguro da poluição atmosférica de que são causadores.
Já no tocante a outras categorias de automóveis, e nomeadamente 1.4. Receitas creditícias: a dívida pública
no tocante aos automóveis ligeiros de mercadorias, falta a recolha § 1. Conceito de d ívida pública e suas modalidades principais
sistemática desses dados no momento da homologação, pelo que
se revela, de imediato, impossível tributá-los em sede de imposto A dívida pública é a dív ida do Estado (acepção ampla). Como
sobre os veículos empregando como base tributável o dióxido de qualquer dívida, traduz um compromisso financeiro ou um conjunto
carbono. Prevê-se, contudo, que o Instituto da Mobilidade e dos de compromissos financeiros, vencíveis num determinado prazo' 75 .
Transportes Terrestres, I. P., passe a recolher essa informação da Nesta acepção, a noção de dívida pública confunde-se com o termo
generalidade dos veículos automóveis e que a partir de 1 de Janeiro de
2009 se tome possível sujeitá-los à mesma base tributável, composta
pela cilindrada e pelo dióxido de carbono, que se aplica ao comum m Definição da ln fopéd ia: [Link] [Link]/$divida-publi ca [acesso:
dos automóveis ligeiros de passageiros. O imposto sobre os veiculas 203
202 12. 11.07].
- hoje bastante mais convocado - de 'dívida soberana'. De qualquer Quanto às modalidades de dívida pública, propomos as seguintes
forma, quando se aborda hoje o problema da dívida soberana, classificações:
parece estar fundamentalmente em causa a dívida de longo prazo. A) Critério da fonte
A ser assim, o traço distintivo entre as duas noções estará no critério A dívida pública está geralmente associada à contração
temporal: enquanto a dívida pública tanto pode referir-se a dívida de empréstimos ou à emissão de dívida pública (de forma
de curto como de longo prazo, a dívida soberana respeitará apenas geralmente titulada). Esta é a dívida financeira do Estado.
a esta última. Concorrem para dívida pública, não apenas a dívida Mas o passivo do Estado pode também fazer-se de dívidas não
do Estado (stricto sensu), mas também a dívida das administraçõ~s financeiras: é o que, sucede, por exemplo, com as dívidas a
infra estaduais (v.g. administrações regionais e locais). Mesmo clara fornecedores e, em geral, àqueles a quem o Estado adquire bens e
é a inclusão, naquela, da dívida do sector empresaria l. Tendemos serviços. Embora esta dívida seja registada nas demonstrações
hoje a propender pela sua contabilização, até por força das regras financeiras do Estado (releva, nesta medida, das exigências de
de contabilidade aplicáveis aos Estados membros, no quadro do contabilidade pública) é a dívida financeira que se considera
SEC 95. quando se avalia o peso da dívida pública na sua relação com
A dívida pública traduz o conjunto de situações passivas de que o PIB.
Estado (lato sensu) seja titular, determinada, em primeira linha, B) Critério da moeda
pelo recurso ao crédito (falamos então em passivo financeiro) 176 . A dívida pública pode ser qualificada como dívida interna (ou
Como vimos anteriormente, as receitas do crédito público traduzem em moeda nacional), quando é denominado em moeda com
receitas não efetivas do Estado, tal como a amortização da dívida curso legal em Portugal (o euro) e como dívida externa (ou
configura uma despesa não efetiva. O recurso ao crédito, por sua em moeda estrangeira), quando é denominada em moeda que
vez, é explicado ou pela existência de défice orçamental (as receitas não tenha curso legal em Portugal (cf. alíneas e) e d) do artigo
efetivas são insuficientes para cobrir as despesas efetivas) ou pela 3.º da Lei n.º 7/98, de 3 de fevereiro).
existência de um stock prévio de dívida acumulado. Assim, pode C) Critério da evidência
dizer-se que o défice pré-determina e influencia o valor da dívida A dívida pública pode ter diferentes graus de evidência. Quando
pública. Mas, por outro lado, não é menos certo que a existência de a dívida pública resulta da contração de empréstimos ou da
dívida pública condiciona o desempenho orçamental, na medida emissão de dívida a sua evidência é imediata: diz-se por isso
em que a sua existência envolve o pagamento de j uros, despesa dívida expressa do Estado. Quando a dívida resulta da assunção
corrente, que concorre para o saldo global. O valor da(s) taxa(s) de de compromissos que, no imediato até podem trazer receitas para
juro aplicável(is) ao financiamento do Estado (e das suas empresas) o Estado, mas que, no futuro, redundarão certamente em despesa,
é, nesta medida, um elemento crucial da gestão orçamental. a sua evidência é diferida no tempo: podemos qualificá-la
como dívida implícita. É o que sucede, por exemplo, com os
compromissos assumidos com o pagamento de pensões pelo
sistema de segurança social. É o que sucede também com
176
A dívida pública de natureza financeira é, portanto, o correlato da contração contratos com privados e que implicam para o Estado obrigações
de empréstimos. Sobre a natureza jurídica dos empréstimos públicos, leia-se, por
204 todos, Ferreira (1995: 261 ss.) futuras (em especial, as parcerias público-privadas). Por fim, 205
quando a dívida tem uma evidência meramente difusa (podendo, § 2. Emissão e gestão da dívida pública direta
no limite, nem vir a concretizar-se), tratamo-la como dívida
Para além da sua relevância económ ica, a dívida pública tem -
condicional. O exemplo paradigmático, é o da concessão de
por causa disso mesmo - uma relevância j urídica muito evidente.
garantias pessoais por parte do Estado (avales e fianças): neste
O processo de emissão de dívida pública é regulado pela Constituição,
caso, a dívida só se tornará efetiva para o Estado, em caso de
pela LEO e pela lei ordinária (fundamentalmente, a Lei n.º 7/98, de
incumprimento por parte do devedor principal.
3 de fevereiro e suas alterações) e, dele resultam, precauções e
D) Critério do tipo de débito
limitações. Progressivamente, estas têm vindo a ser mais exigentes e
Este último exemplo permite-nos justamente contrapor as
mais abrangentes, tocando todos os setores do Estado e não apenas
situações em que o Estado é devedor principal - usamos então
a administração central (como vimos anteriormente).
a expressão dívida direta - e aquelas em que o Estado é devedor
Sobre o processo de emissão da dívida pública, veja-se funda-
subsidiário - usamos então a expressão dívida acessória do
mentalmente Ferreira (1995: 135-196) e Franco (l 996b: 100-1 05).
Estado.
A primeira limitação no processo de emissão da dívida pública resulta
E) Critério da maturidade
da necessidade de autorização parlamentar, mormente quando esteja
Atendendo à maturidade, podemos qualificar a dívida pública
em causa a emissão de dívida fundada (cf. alínea h) do artigo 161.º
como de curto prazo (se ela é inferior a um ano) ou dívida de
da Constituição). A necessidade desta autorização parlamentar decorre
longo prazo (se a maturidade é superior a um ano)
do princípio da democracia financeira e visa desde logo assegurar
F) Critério do exercício orçamental
que os representantes do povo exercem um controlo efetivo sobre a
Considera-se que a dívida é dívida flutuante se a amortização
geração de encargos futuros desse país (sua razão de ser, seus montantes,
ocorre no mesmo exercício orçamental em que a dívida foi
suas formas e condições de pagamento). Nesta medida, eles representam
contraída. Considera-se que a dívida é fundada se a amortização
não apenas as gerações do presente, mas implicitamente também as
ocorre em exercício diferente daquele em que haja sido contraída
gerações do futuro. Para além disso, como bem assinala FERREIRA
(cf. alíneas a) e b) do artigo 3. 0 da Lei n.º 7/98).
(1995: 141), essa autorização "constitui a melhor forma de assegurar
Repare-se que esta distinção não se confunde inteiramente com
aos credores que virão a receber satisfação efetiva dos seus créditos e
a anterior: se é certo que a dívida flutuante é sempre de curto prazo,
respetivas remunerações". Além de autorizar a emissão de dívida
já não é verdade (menos em tese) que a dívida fundada seja sempre
fundada, cabe à Assembleia da República, nos termos do mesmo
de longo prazo.
preceito constitucional, definir também as condições gerais dos
A distinção entre dívida flutuante e fundada é muito relevante,
empréstimos a emitir. Nos termos do n.º 1 do artigo 4.º da Lei n.º 7~98
do ponto de vista não apenas económico e financeiro (geralmente
constituem condições gerais dos empréstimos o montante respetivo
a dívida flutuante visa acorrer a problemas pontuais de tesouraria),
e bem assim os prazos de vencimento.
mas também do ponto de vista jurídico. O regime aplicável, nos
Ainda que nem a Constittúção, nem a Lei n. 0 7/98 sejam inequívocas
termos da Constituição (artigo 161.º alínea h)) e da Lei n.º 7/98 , é
quanto à identificação da lei parlamentar de onde haja de const~ a
assim diferente nestes dois casos, sendo de maior exigência, como
autorização para a contração de empréstimos e a definição das respetivas
se compreende, no caso da dívida fundada. Veremos isto já no ponto
condições gerais, a LEO, no seu artigo 31.º (cf. alíneas e) a g)), 207
206 seguinte.
concretiza que essa lei é a Lei do Orçamento. Logo, consequentemente, a sua dinâmica normal, singular ou globalmente". Por sua vez, logo
autorização parlamentar é anual. adianta o Insigne Professor (idem: 115), é possível contrapor as
Para além da definição de condições gerais e depois destas, há lugar situações de gestão normal às de gestão anormal da dívida. A primeira
à definição, em Conselho de Ministros, de condições complementares "corresponde ao conjunto de operações que, em virtude da contração
a que devem obedecer a emissão, negociação e contratação da dívida da dívida pública, se estabelecem entre os Estados e os credores"
(cf. n. 0 1 do artigo 5.0 da Lei n.º 7/98). Segue-se por fim a definição (exemplo: as amortizações periódicas e o reembolso final), ao passo
das condições esp ecíficas dos empréstimos a contrair, por parte da que a segunda "é o conjunto de operações através das quais o Estado
Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública - IGCP, E.P.E. pretende modificar a situação e composição da dívida pública (por
(anteriormente, Instituto de Gestão da Tesouraria e do Crédito exemplo, conversão e repúdio)".
Público). Seja como for, o papel do Ministro das Finanças é aqui, A gestão (normal) da dívida, a cardo como dissemos do IGCP, inclui
também, cada vez mais importante. Na verdade, o Ministro das a emissão de instrumentos de dívida para a obtenção de financiamento
Finanças tem o poder de definir linhas de orientação específicas a e a execução de outras operações (amortização antecipada, recompras,
serem seguidas pelo IGCP na execução da política de financiamento e operações de reporte e operações com derivados financeiros), com
na realização de outras transações relacionadas com a recompra de o objetivo de alterar a estrutura da carteira de dívida existente. Com
títulos e com a gestão ativa da carteira de dívida. As linhas de orientação o intuito de aj ustar o perfil de amortizações da dívida pública, a
permanentes do Ministro das Finanças (Normas Orientadoras para Lei inclui , no âmbito das operações de gestão da dívida pública, o
a Gestão da Dívida Pública) incluem a definição de uma estrutura reembolso antecipado e recompras de dívida existente, bem como
'benchmark' de longo prazo para a composição da carteira de dívida, a troca direta de títulos. A Lei inclui também, no âmbito da gestão
que reflete objetivos específicos quanto aos ri scos de taxa de juro, da dívida, a possibilidade de serem negociadas transações sobre derivados
taxa de câmbio e refinanciamento traduzidos em indicadores como financeiros, nomeadamente 'swaps' de taxa de juro, 'swaps' cambiais,
a duração, o perfil de reembolsos e o perfil de refixação de cupões. 'forwards', futuros e opções. Estas transações têm que servir uma
Este 'benchmark' é tomado como estrutura de referência para a estratégia de cobertura de riscos já existentes, requerendo-se que
avaliação do custo/performance da carteira de dívida e para a definição estejam associadas na cartei ra da dívida aos instrumentos que
de limites para o risco de taxa de j uro, risco cambia l e risco de originam os riscos a cobrir 178 .
refinanciamento em que a gestão da dívida pode incorrer177 .
O IGCP é hoje, para além disso, a entidade responsável principal de Na atualidade, no quadro da implementação do Programa de
gestão (normal) da dívida. Como nos é explicado por FRANCO (ob. Assistência Financeira, tem sido muito debatida, do ponto de vista
cit.: 115), "com a expressão gestão da dívida pretende-se abranger político, a hipótese da renegociação da dívida pública portuguesa.
a prática de todo um conjunto de operações financeiras decorrentes Esta traduz justamente uma forma de gestão anonnal da dívida,
da existência de uma relação jurídica de empréstimo e necessárias à tecnicamente qualificada antes de conversão. Seguindo ainda a lição
178
m Pode-se encontrar esta última informação no sítio do IGCP. Aqui: http:// Pode-se encontrar esta informação no sítio do IGCP. Aqui: [Link]
208 [Link]/gca/?id=S 1 [acesso: 12.11.07). [Link]/gca/?id=S I [acesso: 12. 11 .07]. 209
de Franco (idem: 119-120), a conversão consiste na alteração, por financeiro de direito público, com características, no entanto, mais
acordo ou pelo devedor, das condições contratuais em que foi próximas dos contratos de Direito Comercial, do que dos de Direito
celebrado o empréstimo público, no decurso da vigência deste: as Administrativo (Franco, 1996b: 114). A justificação para esta menor
alterações das cláusulas modificam o conteúdo da relação, nos seus carga juspublicística que se traduz na opção do Estado em abdicar
elementos essenciais ou acessórios. Depois, explica ainda Franco dos seus poderes de autoridade (típicos do Direito Administrativo),
(idem: 121-129), pode qualificar-se a conversão atendendo à existência para se colocar apenas na posição de uma entidade que se apresenta
ou não de consentimento por parte do credor e ela será, assim, de no mercado de capitais, esperando recolher a adesão voluntária dos
natureza voluntária ou forçada. No primeiro caso, estamos perante
detentores de poupanças (Ferreira, ob. cit.: 376), resulta do entendimento
uma forma legítima de conversão; no segundo caso, ela carece de
segundo o qual esta é a melhor via para prosseguir o interesse público
legitimidade, pelo que tende a ser proibida pelos ordenamentos - garantindo pois o correto funcionamento desses mercados.
jurídicos (tal como aliás sucede, em princípio também, com as
situações de repúdio da dívida).
Atendendo a que a emissão da dívida constitui um processo de
captação de poupanças de uma forma muito dissem inada e tão
§ 3. Instrumentos de dívida pública direta 179 generalizada quanto possível, as formas mais comuns consistem,
não tanto em contratualizar empréstimos individuais com cada credor,
Dos instrumentos de dívida pública direta, vamos aqui sumariamente mas sim em colocar no mercado títulos de dívida (que representam
indicar os seguintes, alguns deles referidos, desde logo, na Lei n.0 7/98 individualmente urna parte do empréstimo total), que se destinam
(artigolO.º). São eles: a ser subscritos pelo público em geral (com ou sem intermediação de
- Contrato; outras entidades, como por exemplo, as bolsas de valores, instituições
- Obrigações do Tesouro (OT); financeiras, etc.). Vejamos as principais fonnas de titulação de dívida.
- Bilhetes do Tesouro (BT); As Obrigações do Tesouro (01) constituem o principal instrun1ento
- Certificados de Aforro. utilizado pelo Estado português para satisfazer as suas necessidades
de financiamento. As OT são valores mobiliários de médio e longo
Os empréstimos têm tendencialmente uma natureza voluntária prazo, cuja emissão se efetua através de operações sindicadas, leilões
(embora seja concebível a existência dos chamados empréstimos ou por operações de subscrição limitada (tapping) e que podem ser
forçados). Daí que a forma 'convencional' de contração de empréstimos emitidas com: i) prazos entre 1 e 50 anos; ii) com ou sem cupão
por parte do Estado seja o contrato. A natureza jurídica deste contrato (cupão zero); iii) taxa de juro fixa; iv) amortizáveis no vencimento
não é clara, nem inequívoca. Autores, como Franco e Ferreira (obs. pelo seu valor nominal e; v) possibilidade de destaque de direitos
cits.), pronunciaram-se em favor da qualificação deste contrato (stripping).
como contrato de direito público e, particularmente, como contrato A política de gestão da dívida pública, seguida pelo IGCP, E.P.E.,
tem priv ilegiado duas formas de colocação das OT em mercado
primário: através de sindicatos bancários e pela realização de leilões.
119 Uma boa parte deste ponto baseia-se na informação disponibilizada pelo
A primeira modalidade tem sido utilizada na emissão inicial das novas
2 \O sítio do IGCP. Aqui: [Link] (acesso: l 2. l l .07). séries, já que permite assegurar o duplo objetivo de colocação de 211
um maior volume de títulos de uma só vez, ao preço de mercado e Finalmente, os certificados de aforro são instrumentos de dívida
uma elevada diversificação da base de investidores, quer a nível criados com o objetivo de captar a poupança das famílias. Têm como
geográfico, quer por tipo de investidor. A segunda modalidade é característica principal o serem distribuídos a retalho, isto é, serem
usada sobretudo no incremento do saldo das OT em curso de emissão colocados diretamente juntos dos aforradores e terem montantes
(on-the-run). Todas as séries de OT estão admitidas à negociação mínimos de subscrição reduzidos. Os certificados de aforro só podem
no Mercado Especial da Dívida Pública (MEDIP gerido pela MTS ser emitidos a favor de particulares e não são transmissíveis exceto em
Portugal, SGMR, S.A.). caso de falecimento do titular. A emissão de certificados de aforro
Em resultado da estratégia de financiamento orientada para o série C pode ser efetuada diretamente nos balcões das entidades
mercado, tem vindo a registar-se um alargamento e uma diversificação para o efeito contratadas pelo IGCP, E.P.E., os CTT, assim como
geográfica da base de investidores ativos no mercado das OT, que através da Internet.
assume hoje um cariz marcadamente internacional.
Os Bilhetes do Tesouro (BT) constituíram desde a sua criação
§ 4. A dívida pública condicional e acessória
em 1985 e até 1998 um importante instrumento de financiamento
do Estado e de intervenção monetária. A alteração das condições Como dissemos anteriormente, esta é uma dívida acessória pois
de definição e execução da política monetária resultante da criação não constitui dívida direta do Estado. Dificilmente é percecionada
da UEM em 1999 e a adoção de uma estratégia de financiamento como tal, mesmo do ponto de v ista orçamental, uma vez que nem
do Estado orientada prioritariamente no sentido de desenvolver um sempre chegar a ' materializar-se'. Por outro lado e por causa disto, ela
mercado de títulos de médio e longo prazo com dimensão europeia é também uma dívida condicional e subsidiária: o Estado só assume
e suficiente liquidez, levaram à suspensão da emissão de BT no verdadeiramente, como sua, a dívida, se e quando esta não for paga
início de 1999, situação que se manteve até 2003. O relançamento da pelo devedor principal. O regime jurídico da dívida acessória consta
emissão de BT enquadrou-se numa estratégia de criação de um de dois textos fundamentais. Em primeiro lugar, da Constituição
mercado líquido para estes títulos, de dimensão internacional, (artigo 161.º alínea h)). Em segundo lugar, da Lei n. 0 112/97, de 16 de
capaz de contribuir para o alargamento e diversificação da base de setembro, que aprovou o regime das garantias pessoais do Estado. Nos
investidores em dívida pública portuguesa. termos do 7. 0 da Lei, as garantias pessoais abrangem não apenas os
Os BT são valores mobiliários de curto prazo com um valor avales (previstos expressamente no artigo constitucional referido),
unitário de um euro, podendo ser emitidos com prazos até um ano, mas também as fianças 180 • Esta previsão legal (da Lei n.º 112/97)
colocados a desconto através de leilão ou subscrição limitada e aconselha uma interpretação extensiva e atualista da própria
reembolsáveis no vencimento pelo seu valor nominal. Constituição: onde se mencionam os avales, devem entender-se de
A colocação de BT em mercado primário é assegurada por um wn modo geral as garantias pessoais do Estado.
grupo de bancos reconhecidos pelo IGCP, E.P.E. como Especialistas
em Bilhetes do Tesouro (EBT). A colocação de BT é ainda efetuada
através da realização de leilões regulares de acordo com um calendário
previamente anunciado ao mercado.
180
2\2 Para urna distinção entre fianças e avales, leia-se Santos (2000: 11-12). 213
O regime das garantias é exigente. Conjugando o disposto na de capital). O conjunto de dispêndios abrange, como veremos os
Constituição e na Lei, retiramos os seguintes momentos cruciais no três comportamentos típicos do agente económico:
processo de concessão pelo Estado dessas garantias.
Em primeiro lugar, a fixação por lei da Assembleia da República • Consumo: aquisição presente de bens, tendo em v ista a
do limite máximo de garantias a conceder pelo Governo (cf alínea h) satisfação das necessidades a que um sujeito se propõe.
do artigo 16 l .º), sendo essa lei, por força do disposto no artigo 31 .º
da LEO, a lei orçamental e apenas esta. • Investimento: representa todo o capital fisico adicional adquirido
Em segundo lugar, no processo de concessão propriamente dito, pelo sector publico e privado ao fim de um detemúnado periodo
releva o seguinte: de tempo. Normalmente tem por base a aquisição de capital
- O pedido é dirigido ao Ministro das Finanças pela entidade financeiro, em resultado de uma renúncia ao consumo presente
solicitante do crédito ou pela beneficiária da operação financeira; em nome de obtenção de recursos futuros. O investimento
- O pedido deve ser devidamente instruído, mediante apresentação pode ser real, quando se reporte aos bens de capital empregues
de um conjunto de documentos que atestem não apenas o no processo produtivo, ou financeiro, por referência ao mútuo
cumprimento do requisito fundamental à concessão da garantia ou depósitos de fundos junto de mercados ou instituições
- a verificação de um manifesto interesse para a economia especializadas. O apuramento do nível de investimento, no
nacional (cf artigo 8.º da Lei) -, mas também o cumprimento mercado dos fundos mutuáveis, depende da relação que o sujeito
das condições suplementares previstas no artigo 9 .º (desde logo, faz da taxa de juro real com a taxa de desconto. Assim, o atunento
a viabilidade financeira do projeto e a solidez económico- das taxas de juro: (1) por um lado, reduz a probabilidade de lucro;
-financeira da empresa solicitante); (2) por outro lado, reduz o valor presente das remunerações
- Elaboração de pareceres que sejam eventualmente solicitados futuras (isto é, aumenta a taxa de desconto). Desta forma,
em apoio à decisão governamental; se o retomo do investimento adicional for superior à taxa
- Decisão final, pelo ministro das finanças, através de despacho, de juro valerá a pena investir (vide eficiência marginal do
no qual de forma fundamentada se demonstre que o projeto capital, que representa a taxa de desconto que faz igualar o
reúne as condições legais e é de manifesto interesse para a valor presente do fluxo de rendimentos anual advenientes do
economia nacional (cf. artigo 15.º) . investimento em capital fixo à oferta dos ativos respetivos).
2) Rendimento:
RI We + Wfp + SSc + R + J + L
Wc Salários pagos pelas empresas
Wfp - Salários pagos aos funcionários públicos
SSe - Contribuições para a Segurança Social feitas pelas empresas
R rendas
J - Juros
L Lucros
L Ld + Lnd
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