Você era jovem demais para compreender o peso dos mitos.
Para você, até então, histórias eram apenas histórias, e ruínas eram apenas pedras
gastas pelo tempo. Acreditava que o passado era distante, intocável, condenado ao
pó. Mas o passado não estava morto. Ele apenas esperava. E você, sem saber, seria a
fagulha que abriria a porta errada.
Tudo começou com uma sensação estranha, como se o ar à sua volta estivesse mais
pesado. Como se as paredes de sua própria realidade respirassem junto com você. Um
lampejo, um estalo, uma fissura. E então, um portal.
Não houve lógica. Não houve ritual calculado. Foi mais como um sonho que tomou
corpo, como se um abismo antigo tivesse escolhido se revelar apenas a você. E, ao
atravessar, você deixou para trás o conforto daquilo que conhecia.
O que viu não era deste mundo.
Uma civilização inteira se erguia diante dos seus olhos: muralhas de pedra e ouro,
chamas eternas acesas em altares que não se apagavam, cânticos ressoando no próprio
ar como se o vento fosse uma orquestra viva. Os homens que ali viviam pareciam
maiores, mais nobres, e os símbolos em seus templos falavam de feitos grandiosos,
de guerras travadas contra forças que a humanidade sequer ousaria nomear.
Era um mundo de titãs, de construtores e destruidores. Um mundo que, por um
instante, você acreditou eterno.
Mas nenhum paraíso dura para sempre.
A ruína veio como um trovão sem aviso. Primeiro, as muralhas tremeram. Depois, o
céu se abriu em rachaduras de trevas, e delas jorrou um fogo que não era fogo —
chamas negras que não aqueciam, apenas devoravam.
Você viu homens em armaduras reluzentes tombarem como folhas secas, templos
despedaçados, crianças arrastadas pelo nada. Os cânticos transformaram-se em
gritos, e os deuses que antes erguiam aquela civilização caíam em silêncio.
Você não era parte daquele mundo, mas sentiu sua dor como se fosse sua. Era como
assistir ao fim de uma canção eterna sendo rasgada no meio.
E então, no auge do colapso, alguém o viu.
Um dos últimos guerreiros daquela civilização agonizava diante de você. Seu corpo
estava partido, seus olhos queimavam em brasas de desespero e esperança. E, mesmo
em cinzas, ele estendeu algo.
Um machado colossal. Desproporcional para suas mãos. Uma arma que não parecia
feita, mas forjada com essência viva — como se tivesse dentro dela o coração
pulsante do próprio fogo.
Você hesitou, mas sua juventude não permitiu recusa. Suas mãos se estenderam, e
quando tocaram o cabo, a realidade inteira se partiu.
Foi como se o universo gritasse.
Sua pele queimou, sua mente foi inundada de imagens que não eram suas: batalhas,
deuses caindo, cidades erguidas e despedaçadas. O machado o aceitou não como dono,
mas como prisioneiro. Você não o carregava; era ele que agora carregava você.
De repente, tudo ruiu.
O portal se fechou atrás de si como uma boca faminta, cuspindo-o de volta ao mundo
comum. Você caiu de joelhos, arfando, o corpo em chamas que ninguém via. O machado
estava lá, frio como pedra, mas latejando como carne. Você ouviu sussurros,
cânticos, preces. E gritos. Sempre os gritos da cidade em ruína.
Não demorou para que a Ordem o encontrasse.
Um garoto trêmulo, com as mãos queimadas, arrastando uma arma impossível. Eles o
cercaram, armas apontadas, olhares desconfiados. Você não resistiu — não tinha
forças. Mas sabia: não podiam entender o que havia acontecido. Você não tinha
roubado apenas uma arma. Você tinha arrancado o último presente de uma civilização
morta, um fogo que não pertencia mais a este mundo.
A prisão foi inevitável.
Trancado em corredores gelados, interrogado por vozes firmes, você aprendeu que
havia uma diferença entre estar vivo e ser livre. Eles o chamavam de inconsequente,
de perigoso, de criança brincando com fogo. E talvez estivessem certos. Mas, no
fundo, você sabia: não tinha sido apenas um erro. Havia algo naquele machado que
queria estar aqui. Algo que precisava ser lembrado.
Hoje, você caminha com o peso dele às costas.
A cada missão imposta pela Ordem, você sente a mesma dor que Prometeu sentiu quando
o abutre lhe devorava o fígado dia após dia. Mas, como o titã acorrentado, você
guarda a chama que não pode mais ser apagada.
Um machado colossal, pesado demais para um jovem, mas carregado mesmo assim. Um
presente e uma maldição. Uma lembrança viva de que até os deuses podem cair, e que
até os mortais podem roubar seu fogo.
E, nos seus sonhos, você retorna sempre ao mesmo lugar:
A cidade em ruínas.
As muralhas caídas.
E o último olhar daquele guerreiro moribundo, que ainda ecoa dentro de você como
uma promessa quebrada:
"Seja a chama que sobrevive à noite."