Índice
Introdução.................................................................................................................................................1
Desenvolvimento.......................................................................................................................................2
CAPÍTULO I............................................................................................................................................2
Disposições gerais.....................................................................................................................................2
A participação e monitoria dos intervenientes no processo da delimitação comunitária.................5
A da delimitação utilizada.......................................................................................................................6
Parcerias....................................................................................................................................................8
Resultados alcançados..............................................................................................................................8
O impacto..................................................................................................................................................9
Comunidade local.....................................................................................................................................9
Lições aprendidas...................................................................................................................................10
Constrangimentos...................................................................................................................................11
Posição sobre o artigo 35, do Regulamento da Lei de Terras............................................................12
Conclusão................................................................................................................................................15
Referências Bibliográficas.....................................................................................................................16
Introdução
Este trabalho tem como objecto de abortar o seguinte tema como comportamento e perceção
sobre o uso e aproveitamento da terra. A nova lei de terra em Moçambique surgiu em 1997 e
desde então um número significativo de comunidades rurais reforçou o seu direito de uso e
aproveitamento da terra. Este é uma vitória, um marco social e histórico, digno de registo e
apreciação, jamais visto na história contemporânea, desde a Conferência de Berlim onde o
continente africano foi divido para melhor ocupar e governar.
Apesar deste progresso em Moçambique, o desenvolvimento rural não tem sido um processo
pacífico. O conceito actual, tem atribuído o papel de liderança ao sector privado que tem
ocupado lugares-chave na agricultura empresarial de escala, onde se apoia a economia rural.
Camponeses, comunidades locais e a população rural em geral são vistos como fornecedores
de mão-de-obra e parceiro para ter acesso à terra, recursos naturais e excedente da produção
agrícola. O trabalho está
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Desenvolvimento
LEI DE TERRAS Lei no 19/97 De 1 de Outubro
Como meio universal de criação de riqueza e do bem estar social, o uso e aproveitamento da
terra é direito de todo o povo moçambicano.
O desafio que o país enfrenta para o desenolvimento, bem como a experiência na aplicação da
Lei 6/79, de 3 de Julho, Lei de Terras, mostram a necessidade da sua revisão, de forma a
adequá-la à nova conjuntura política, económica e social e garantir o acesso e a segurança de
posse de terra, tanto dos camponeses moçambicanos, como dos investidores nacionais e
estrangeiros.
Pretende-se, assim, incentivar o uso e aproveitamento da terra, de modo a que esse recurso, o
mais importante de que o país dispõe, seja valorizado e contribua para o desenvolvimento da
economia nacional.
Nestes termos e ao abrigo do preceituado no no 1 do artigo 135 da Constituição, a Assembleia
da República determina:
CAPÍTULO I
Disposições gerais
ARTIGO 1
(Definições)
Para efeitos da presente Lei, entende-se por:
1. Comunidade local: agrupamento de famílias e indivíduos, vivendo numa circunscriação
territorial de nível de localidade ou inferior, que visa a salvaguarda de interesses comuns
através da protecção de áreas habitacionais, áreas agrícolas, sejam cultivadas ou em pousio,
florestas, sítios de importância cultural, pastagens, fontes de água e áreas de expansão.
2. Direito de uso aproveitamento da terra: direito que as pessoas singulares ou colectivas e
as comunidades locais adquirem sobre a terra, com as exigências e limitações da presente
Lei.
3. Domínio público: áreas destinadas à satisfação do inetresse público.
4. Exploração florestal: actividade de exploração da terra visando responder às necessidades
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do agregado familiar, utlizando predominantemente a capacidade de trabalho do mesmo.
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5. Licença especial: documento que autoriza a realização de quaisquer atividades
económicas nas zonas de protecção otal ou parcial.
6. Mapa de uso da terra: carta que mostra toda a ocupação da terra, incluindo a localização
da actividade humana e os recursos naturais existentes numa determinada área.
7. Ocupação: forma de aquisição de direito de uso e aproveitamento da terra por pessoas
singulares nacionais que, de boa fé, estejam a utilizar a terra há pelo menos dez anos, ou
pelas comunidades locais.
8. Pessoa colectiva nacional: qualquer sociedade ou instituição constituída e registada nos
termos da legislação moçambicana com sede na República de Moçambique, cujo capital
social pertença, pelo menos em cinquenta por cento a cidadãos nacionais, sociedadese ou
instituições moçambicanas, privadas ou públicas.
9. Pessoa colectiva estrangeira: qualquer sociedade ou instituição constituída nos termos de
legislação moçambicana ou estrangeira, cujo capital social seja detido em mais de
cinquenta por cento por cidadãos, sociedades ou instituições estrangeiras.
10. Pessoa singular nacional: qualquer cidadão de nacionalidade moçambicana.
11. Pessoa singular estrangeira: qualquer pessoa singular cuja nacionalidade não seja
moçambicana.
12. Plano de exploração: documento apresentado pelo requerente do pedido de uso e
aproveitamento da terra, descrevendo o conjunto das actividades, trabalhos e construções
que se compromete a realizar, de acordo com determinadocalendário.
13. Plano de uso da terra: documento aprovado pelo Conselho de Ministros, que visa
fornecer, de modo integrado, orientações para o desenvolvimento geral e sectorial de
determinada área geográfica.
14. Plano de urbanização: documento que estabelece a organização de perímetros urbanos, a
sua concepção e forma, parâmentros de ocupação, destino das construções, valores
patrimoniais a proteger, locais destinados à instalação de equipamento, espaços livres e o
traço esquemático da rede viária e das infra-estruturas principais.
15. Propriedade da terra: direito exclusivo do Estado, consagrado na constituição da
República de Moçambique, integrando, para além de todos os direitos do proprietário, a
faculdade de determinar as condições do uso e aproveitamento por pessoas singulares ou
colectivas.
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16. Requerente: pessoa singular ou colectiva que solicita, por escrito, autorização para uso e
aproveitamento da terra ao abrigo da presente Lei.
17. Titular: pessoa singular ou colectiva que o direito de uso e aproveitamento da terra.
ORAM é uma organização de carácter associativo que congrega camponeses e pessoas
comprometidas com a causa camponesa, cuja razão de ser é a defesa dos direitos e
interesses dos mesmos, cujo seu objectivo geral é Fortalecer o protagonismo dos
camponeses e a sua capacidade de promover estratégias de posse e uso sustentáveis da
terra e dos recursos naturais e a missão se define em Defender os direitos e interesses dos
camponeses, contribuindo para o desenvolvimento associativo e comunitário, com vista a
assegurar a posse e o uso.
O processo de titulação do direito de uso e aproveitamento da terra inclui parecer das
autoridades administrativas locais, precedido de consultas às comunidades, para efeitos
de confirmação de que a área está livre e não tem ocupantes. Lei de Terras 19/97, Cap. II,
Artigo 13, Nr. 3.2.
Áreas de intervenção e da Sensibilização
sobre os direitos das comunidades locais definidos na legislação da terra, florestas e fauna
bravia e ambiente e sobre a importância das delimitações/demarcações no Cadastro
Nacional de Terras;
Lobby e advocacia;
Delimitação/demarcação das áreas comunitárias;
Elaboração de plano de uso de terras e recursos naturais comunitários (está é uma nova área
temática de intervenção);
Mediação de conflitos de terra e recursos naturais;
Promoção do associativismo e de cooperativas de camponeses.
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A participação e monitoria dos intervenientes no processo da delimitação comunitária Os
pedida das delimitações comunitárias é manifestada pelas próprias comunidades às autoridades
governamentais e a delimitação comunitária efetuada, de acordo com o Anexo Técnico do
Regulamento da Lei de Terras que orienta o processo das delimitações comunitárias. Este é um
processo complexo que exige rigor na participação, controlo e monitoria de todos os
intervenientes nomeadamente, as comunidades locais (líderes tradicionais, religiosos, autoridades
governamentais locais, redes de trabalho existentes, instituições consuetudinárias e outros
actores). Todos devem estar envolvidos na identificação e na tomada da decisão sobre a
prioridade das acções a serem levadas a cabo Desde o início do processo da delimitação, as
comunidades locais, autoridades governamentais, redes de trabalho existentes, instituições
consuetudinárias e outros actores têm estado fortemente envolvidos nas sessões de planeamento,
na definição e decisão de meios prioritários/ou recursos a serem envolvidos nas actividades a
serem levadas a cabo. E isto oferece uma grande oportunidade a todos os actores para
desempenharem um papel importante na troca de experiências, discussão dos assuntos, definição
de prioridades, negociações e tomada de decisão nos acordos com todos os intervenientes.
O método utilizado pela ORAM nas delimitações das terras comunitárias, baseado no Manual de
delimitação de terras comunitárias, aprovado pelo Ministério da Agricultura e Desenvolvimento
Rural em 1999, encoraja a participação de todos os grupos das comunidades locais e os
programas de trabalho são concebidos de modo a focalizar o aumento da consciência das
mulheres nas questões relacionadas com os seus direitos à terra e recursos naturais. Na
constituição dos G9s, a representação feminina mínima é de 30%, o que dá maior espaço às
mulheres na discussão e tomada de decisões sobre a integração dos seus interesses relacionados à
terra e recursos naturais nos planos de desenvolvimento comunitários.
Depois das sessões de planeamento, os dados de monitoria e as informações são avaliadas e o
feedback é regularmente dado a todos os intervenientes e beneficiários do projecto. E também se
usa um método participativo onde os membros das comunidades, autoridades locais, redes e
outros intervenientes no processo contribuem com as suas opiniões sobre o progresso do projecto
(realizações, lições aprendidas, constrangimentos e desafios).
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A da delimitação utilizada
Desde a introdução da actual Lei de Terra em Moçambique a ORAM desenvolveu, testou e
implementou uma metodologia de trabalho com as comunidades locais que consiste na
sensibilização sobre os direitos das comunidades locais definidos na legislação da terra, florestas
e fauna bravia e ambiente e sobre a importância das delimitações/demarcações no Cadastro
Nacional de Terras.
A sensibilização é um tipo de educação cívica sobre os direitos dos camponeses do sector
familiar sobre terra e recursos naturais é parte inicial do processo da delimitação que envolve a
participação activa dos líderes comunitários, residentes das comunidades-alvo e comunidades
vizinhas na identificação e descrição dos limites das áreas, onde eles residem ou ocupam há mais
de 10 anos, e são fonte de produção e sobrevivência. Além dos direitos das comunidades locais
sobre a terra, a sensibilização tem também focalizado o impacto da prática do cultivo
insustentável tais como derrube de árvores, queimadas descontroladas, desflorestamento e a
exploração descontrolada dos recursos naturais.
Depois da sensibilização segue-se a fase do mapeamento do perímetro da comunidade, em
consulta com os residentes mais antigos, comunidades vizinhas e autoridades locais. De seguida
faz-se a constituição e aprovação ou reconhecimento oficial da estrutura da comunidade que é
constituída por nove membros (G9s) compostos por mulheres e homens, entre “anciãos” e
jovens, que assinam em nome da comunidade local. Este órgão também serve como ponto focal
de diálogo e disseminação de aspectos de uso da terra e dos recursos naturais dentro da
comunidade e de contacto com o governo, concessionários e outros actores de desenvolvimento.
Terminada a fase de sensibilização, segue-se para a fase de diagnóstico rural participativo (DPR).
Aqui são também registadas as potencialidades da comunidade em termos de recursos naturais
disponíveis e as formas de utilização e gestão, o historial e a organização social. Todos os
membros da comunidade são envolvidos neste exercício; eles são formados em grupos de
mulheres, homens e jovens. Cada grupo esboça o mapa da comunidade procurando reflectir na
medida do possível todas as características da sua área. Os mapas dos grupos são discutidos e
traduzidos num único mapa da comunidade com os interesses dos seus membros e características
reflectidas. A seguir faz-se o registo das coordenadas com ajuda do GPS. Disputas de limites de
comunidades e de interesse podem e levantam-se em forma de conflitos e são resolvidas.
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certificados de Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT) seja entregue à comunidade
Depois das actividades de campo, a ORAM prepara o dossier completo de pedido da delimitação
formulado pela comunidade e encaminha-o para os Serviços Provinciais de Geografia e Cadastro
(SPGC) para ser autorizado. Dependendo da dimensão da área da comunidade e sobretudo com a
alteração do Artigo 35 do Regulamento da Lei de Terra, o pedido pode ser autorizado pelo
Governador da Província ou pelo Ministro de Agricultura ou ainda pelo Conselho de Ministros.
Uma vez autorizado o pedido, é emitido o respectivo certificado de (DUAT) que é de seguida
entregue à Comunidade numa cerimónia na qual tomam parte SPCG, governo do distrito,
autoridades locais, a ORAM, parceiros, líderes e membros da comunidade em causa.
As comunidades rurais, reconhecem e definem o processo de sensibilização e delimitação de
terras comunitárias, como uma nova forma de libertação e gestão própria dos seus recursos com
o olhar fito no desenvolvimento local usando os seus próprios recursos.
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CAPÍTULO III
(Direito de uso e aproveitamento da terra)
ARTIGO 10
(Sujeitos nacionais)
1. Podem ser sujeitos do direito de uso e aproveitamento da terra as pessoas
nacionais, colectivas e singulares, homens e mulheres, bem como as comunidades locais.
2. As pessoas singulares ou colectivas nacionais podem obter o direito de uso e
aproveitamento da terra, individualmente ou em conjunto com outras pessoas singulares
ou colectivas, sob a forma de co-titularidade.
3. O direito de uso e aproveitamento da terra das comunidades locais obedece aos
princípios de co-titularidade, parar todos os efeitos desta Lei
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no Cadastro Nacional de Terra, mas algumas ainda não estão registadas, por causa da
alteração do Artigo 35 do Regulamento da Lei de Terra.
A extensão das áreas comunitárias para a delimitação das mesmas é definida de acordo com o
número 1 do artigo 1, capítulo 1 da legislação sobre terras. Qualquer outra interpretação
ou de certificados de Direito de Uso e Aproveitamento da Terra (DUAT) seja entregue à
comunidade.
Comunidade local
agrupamento de famílias e indivíduos, vivendo numa circunscrição territorial de nível de
localidade ou inferior, que visa a salvaguarda de interesses comuns através da protecção
de áreas habitacionais, áreas agrícolas, sejam cultivadas ou em pousio, florestais, sítios de
importância cultural, pastagens, fontes de água e áreas de expansão.
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ARTIGO 24
(Comunidades locais)
1. Nas áreas rurais, as comunidades locais participam:
a) na gestão dos recursos naturais;
b) na resolução dos conflitos;
c) no processo de titulação, conforme o estabelecido no no 3 do artigo 13 da
presente Lei;
d) No exercício das competências referidas nas alíneas a) e b) do no 1 do presente
artigo, as comunidades locais utilizam, entre outras, as normas e práticas
costumeiras.
Lições aprendidas
Quando as comunidades locais assumem como donos de um processo de desenvolvimento
local, elas identificam-se com ele, participam activamente e responsabilizam-se pela
execução dos projectos concernentes.
As sensibilizações comunitárias e a delimitação das suas áreas fazem parte do processo de
desenvolvimento comunitário e, portanto, abrem espaços para o aumento das capacidades
dos camponeses do sector familiar sobre os seus direitos definidos na legislação da terra e
recursos naturais, criando condições de parcerias em seu benefício.
Para assegurar a gestão mais activa e participativa no processo de desenvolvimento
comunitário local, os projectos precisam de ser levados a cabo colocando as comunidades
rurais a apropriarem- se deles e a assumirem como donos e condutores do processo.
Quanto mais aumenta a consciência das autoridades governamentais sobre a defesa dos
direitos dos camponeses definidos na legislação, aumentará mais o seu cometimento e
compromisso no registo das áreas comunitárias, na monitoria e acompanhamento do
processo de desenvolvimento rural.
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Precisamos de explorar na sua plenitude a legislação sobre terras, pois esta ainda oferece
alternativas viáveis e inclusivas para o desenvolvimento rural, além de que cria um amplo campo
de parceria entre os investidores e comunidades rurais.
Mas, infelizmente, ainda alguns membros do governo se mostram menos receptivos a este
processo, enquanto outros compartilham com os esforços da ORAM e de outros parceiros no
reforço da segurança do direito da posse, uso e aproveitamento da terra e recursos costumeiros.
Constrangimentos
Desde a alteração do Artigo 35 do Regulamento da Lei de Terra em outubro de 2007, o processo
de delimitação das comunidades locais encontra-se estagnado com muitas comunidades à espera
de certificados oficiosos de direito de uso e aproveitamento da terra. Por outras palavras,
nenhuma comunidade local recebeu certificado de uso e aproveitamento da terra, desde a
alteração do Artigo
35. Esta situação não só retardou o processo das delimitações comunitárias, como também está a
pôr em causa a sustentabilidade do direito legal das comunidades locais e a comprometer o
crescimento económico das comunidades rurais. Neste contexto, também está a pôr em causa as
metas especificas de cada projecto o que complica o relacionamento e o cumprimento a prazo
entre as ONGs e os financiadores, pois o certificado é a prova viva das metas alcançadas (o
processo final).
Como constrangimento neste processo, nota-se um novo tipo de conflitos como o de Tensão no
relacionamento entre a comunidade representada pelo Conselho de gestão dos RN e os privados
resultante das consultas mal conduzidas pois são restringidas a um grupo específico que giram a
volta da pessoa do régulo ou do governo local.
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Posição sobre o artigo 35, do Regulamento da Lei de Terras
Com a entrada em vigor da Lei de Terras, a Lei no 19/97, de 1 de outubro, as Comunidades
Locais passaram a ser tratadas como entidades jurídicas a quem lhes foi reconhecido o direito
“natural” que elas têm sobre as terras comunitárias. Com efeito, sendo a comunidade local um
dado sociológico anterior ao surgimento do Estado, era lógico que a elas lhe fosse reconhecido o
direito que elas ocupam enquanto um aglomerado de pessoas que, de forma homogênea,
apresentam interesses comuns sobre a respectiva terra comunitária.
É assim que a Lei de Terras determina que as comunidades locais adquirem o direito de uso e
aproveitamento da terra (DUAT) por ocupação. O significado jurídico da aquisição do DUAT
por ocupação é que a atribuição deste direito às comunidades locais é feita directamente por lei e
não por via de intermediação de nenhum acto administrativo a praticar pela Administração
Pública.
Portanto, com a aprovação da Lei de Terras em 1997, as comunidades locais adquiriram
automaticamente e por via legislativa o DUAT, ou seja, e seguindo de perto o pensamento do
Prof. José Oliveira Ascensão, o DUAT das comunidades locais sobre a terra é uma posição
jurídica absoluta, na medida em que ela independemente de qualquer relação jurídica; resultando
tal posição de simples aplicação directa da lei aos pressupostos de facto nela fixados com a
consequente combinação legal de reconhecimento do DUAT comunitário.
Com o objectivo fundamental de evitar conflitos de terra e de facilitar a própria administração da
terra, bem como o desenvolvimento local, a Lei criou a figura de Delimitação das Áreas
Comunitárias, que culmina com a emissão e o registo do título do DUAT das comunidades
locais. Juridicamente, a Delimitação das Áreas Comunitárias é um processo declarativo de um
direito já existente. Por outras palavras, quando a Administração Pública delimita uma área
comunitária não está a atribuir nenhum direito à comunidade local, pois este direito já foi
atribuído por lei. Limita- se a administração a declarar para todos os efeitos jurídicos a existência
do DUAT sobre uma determinada área, ou conforme escreve Maria Conceição Quadros, “O
despacho do Governador da Província não é de autorização, mas apenas de reconhecimento do
direito, já que este é adquirido por efeito da ocupação”.
É por isso que, no meu entender, a alteração feita ao artigo 35 do Regulamento da Lei de Terras,
bem como a Circular no 009/DNTF/09, de 16 de Outubro de 2007, restringem o direito
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comunitário atribuído por acto normativo de valor superior, violando desse modo o princípio da
hierarquia das leis.
Com efeito a exigência de que as comunidades locais devem passar a requerer a delimitação das
áreas comunitárias, instruindo o seu pedido acompanhado de um “documento contendo os
objectivos para os quais as comunidades locais pretendem com tais áreas” é manifestamente
ilegal, na medida é que os objectivos para que existe uma comunidade local já se encontram
estabelecidos pela Lei de Terras, no artigo 1. “a comunidade local...visa a salvaguarda dos
interesses comuns através da protecção das áreas habitacionais, áreas agrícolas, sejam cultivadas
ou em pousio, florestas, sítios de importância cultural, pastagens, fontes de água e áreas de
expansão”.
Por isso, a lei já fixou os objectivos visados pela comunidade local e a delimitação da terra
comunitária não pode exigir a existência de um documento que indique os objectivos da
comunidade, pois ela não pode ter outros senões os definidos por lei. E mais, a sujeição do
processo de delimitação das áreas comunitárias ao formalismo processual semelhante ao da
autorização, quanto à matéria de competências, em resultado da al. d) do artigo 35 do
Regulamento da Lei de Terras, em função extensão das áreas onera e torna mais difícil o
exercício do direito de delimitação das terras comunitárias. Na verdade, dizer que a comunidade
local deve apresentar documento contendo objectivos, está-se a exigir um plano de exploração da
terra comunitária e daí pode inferir-se que se a comunidade não cumprir tal plano corre o risco de
perder a terra comunitária. E isso é um contrassenso.
O procedimento de delimitação das terras comunitárias é um mecanismo criado para fortalecer a
segurança jurídica das terras comunitárias, bem como facilitar o formalismo processual de
titulação das terras comunitárias. Com a revisão do artigo 35 da Lei de Terras, ao qual se
acrescentou a al. d), passou a ser mais difícil às comunidades locais procederem ao
reconhecimento das áreas comunitárias. Em termos práticos, passou-se a dizer que na maioria
dos casos, o pedido de delimitação da terra comunitária de uma comunidade no interior do país
deve passar a ser decidido pelo Conselho de Ministros, sabido quão carregada é a agenda deste
órgão governativo.
É prova disso o facto de que antes da entrada em vigor daquela alteração, estatisticamente a
ORAM conseguia delimitar várias terras comunitárias e após a entrada em vigor da al. d) do
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artigo 35 do Regulamento da Lei de Terras não foram delimitadas. Estes dados mostram como as
opções legais
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mais recentes põem em causa o dever de colaboração da Administração com os particulares, a
que se refere o artigo 8 do Decreto no 30/2001, de 15 de outubro.
Conforme o Conselho Constitucional já teve ocasião de pronunciar-se, a actividade
regulamentadora não pode inovar, introduzir aspectos não contidos no instrumento jurídico
regulamentado ou mesmo trazer conteúdos que restringem os direitos estabelecidos no
instrumento a regulamentar.
No caso em apreço, o artigo 35 da Lei de Terras, com a sua nova redacção, e sobretudo a
Circular no 009/DNTF/2007, de 27 de Outubro, contrariam o espírito da Lei de Terras, por tornar
mais difícil o exercício do direito de delimitação, bem como por tornar mais periclitante a
situação jurídica das comunidades locais, violando desse modo o princípio da legalidade das
normas jurídicas
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Conclusão
Chegando este conclusão, conclui-se que um dos maiores obstáculo criado pela alteração do
Artigo 35 do Regulamento da Lei da terra, a ORAM em parceria com os Serviços Provinciais de
Florestas e Fauna Bravia e Cadastro, tem estado a tentar desenvolver uma metodologia de
preparação de planos de uso de terras comunitárias orientando as comunidades locais a
desenharem os mapas indicando áreas para habitação, infra-estruturas, machambas,
reflorestamento e outros projectos de investimento, etc. É importante salientar que os planos de
Uso de terra não devem ser condição para a obtenção do certificado de uso e aproveitamento da
terra, mas sim como um complemento depois da delimitação comunitária por forma a dar
contributo ao Estado na gestão de terras comunitárias.
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Referências Bibliográficas
LEI DE TERRAS Lei no 19/97 De 1 de Outubro
Documento de apresentação na reunião nacional sobre delimitação de terras comunitárias
Maputo, março de 2010
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