Afroempreendedorismo e Identidade Negra
Afroempreendedorismo e Identidade Negra
Resumo:
O Coletivo Brechó das Pretas surgiu a partir da união de mulheres negras donas
de brechós que inicialmente vendiam online e passaram a ocupar a Rua São Francisco,
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no centro de Curitiba, expondo suas peças na rua como forma de fortalecer o
afroempreendedorismo e criar redes de apoio. O projeto foi idealizado por Gabrielly
Dantas (Brechó Cabrochas) e contou, em sua formação, com Elza Bernardes e Gabriela
Reis (Se Garimpou Levou), Kaoane Schlukebier (Brechó Kaw Black), Patrícia e Karoline
Pessoa (Makeda Brechó). Após alguns meses, Kaoane deixou o coletivo para seguir sua
carreira na dança, o que gerou uma reorganização interna. O período na rua durou cerca
de seis meses, até que decidiram alugar um espaço fixo na mesma região. Com poucos
recursos, começaram com um contrato de três meses e, percebendo a viabilidade
financeira, permaneceram e foram reformando o local aos poucos. A pandemia trouxe
desafios, mas a atuação nas redes sociais foi essencial para manter o negócio.
A loja física possui dois andares, com araras, móveis reaproveitados, objetos de
decoração e uma curadoria cuidadosa das peças. O espaço também serve como ambiente
de cuidado, com espaço para os filhos das sócias e área para manutenção das roupas. Em
2021, abriram o espaço para outros afroempreendedores, realizando feiras e,
posteriormente, mantendo exposições fixas de marcas parceiras.
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Essa frase foi dita por uma senhora branca que entrou na loja em um dos dias em que eu estava presente
a loja realizando as minhas observações. Chamou-me a atenção a forma como elogiou a loja, com os olhos
brilhando ao ver como era por dentro enquanto era recebida de forma muito receptiva pela Gabi.
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Assim que você chega em frente à loja, não é difícil identificar que você chegou
ao Coletivo Brechó das Preta, afinal, tem uma placa bem grande informando o local. Ela
que chama tanto a atenção quanto ao nome. De certa forma, eu já imaginava a motivação
que levou as fundadoras a escolher esse nome na loja, mas, como boa pesquisadora que
sou, resolvi perguntar para Gabi como ele surgiu. A verdade é que não existe uma grande
história por trás, com certeza existe por trás da formação do coletivo, mas o nome foi
pensando por ser literalmente um coletivo de brechós de mulheres pretas, pensado
também para pertencer a outras pessoas pretas, sejam clientes ou empreendedores que
desejam expor no local.
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das sócias passem por ali e as cumprimentem. Eu mesma já fiz isso várias vezes, mesmo
enquanto estava afastada do campo durante o processo de escrita.
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alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de
resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais
quanto materiais (hooks, 2000).
Essa perspectiva reforça a ideia de que espaços como o Brechó das Preta vão além
da comercialização de roupas; eles operam como territórios afetivos e políticos, nos quais
o afeto, o cuidado e a construção da subjetividade preta são tão centrais quanto a
independência financeira. O autor Carlos Gadea (2013) discute a construção da negritude
como um campo a ser descolonizado (2013, p. 23), e concordo com essa perspectiva em
parte. De fato, houve um período em que esse parecia ser o único caminho possível. No
entanto, o que percebemos atualmente é uma crescente tomada de consciência, sobretudo
por parte da juventude preta, no sentido de construir suas próprias negritudes, e faço
questão de usar o termo no plural, justamente para evitar a universalização das
experiências pretas. Hoje, em uma sociedade que ainda segrega e marginaliza a população
preta, emerge a necessidade de criação de espaços próprios e de formas de existência que
já nascem a partir de uma perspectiva descolonizada. Ou seja, se antes era preciso
"limpar" os resquícios da colonialidade para, então, afirmar uma identidade, agora vemos
o surgimento de experiências que já se constituem como projetos autônomos, conscientes
e politicamente posicionados como se o "terreno" já estivesse previamente cuidado para
que outras formas de existência florescessem.
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organizavam a vida de milhares de pessoas pretas de maneira autônoma. Nesse sentido,
o autor define o quilombismo como “(...) uma luta anti-imperialista, que se articula ao
pan-africanismo e sustenta uma solidariedade radical com todos os povos em luta contra
a exploração, a opressão, o racismo e as desigualdades motivadas por raça, cor, religião
ou ideologia” (NASCIMENTO, 2019, p. 284). Complementando essa perspectiva, a
autora Juliana Silva Chagas (2022) observa que:
Desse modo, ao pensarmos o Brechó das Preta, assim como a Feira na Praça
Zumbi, como espaços de sociabilidade e resistência, podemos compreendê-los como
atualizações contemporâneas do quilombismo. São territórios afetivos e políticos que
propõem modos de existir pretos, sustentados por princípios de solidariedade,
pertencimento, estética própria e autonomia coletiva.
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tema com dinâmicas específicas do contexto de mercado de brechó no qual estão
inseridas, um aspecto que será abordado com mais profundidade nos decorrer da tese.
A questão do nome sempre gerou incômodos, mas fazia tempo que elas não
enfrentavam comentários e haters3 por conta disso. Perguntei se já tinham sofrido ofensas
pela internet antes. Ela disse que foi a primeira vez, as outras situações aconteceram
presencialmente: “Sabe, Su, eu não ligo. Falem bem ou falem mal, mas falem da gente!
Você acredita que teve gente que foi até a loja e disse que foi por causa da matéria e dos
comentários?”, contou Elza, rindo. Disse a matriarca, que hoje consegue rir da situação,
mas que, no dia, ficou bastante incomodada.
A matéria em questão foi uma reportagem publicada pelo jornal Bem Paraná
(2024), um portal de notícias bastante popular em Curitiba, especialmente entre o público
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Na tese eu apresento alguns prints onde os comentários aparecem, mas por conta do tamanho desse
texto, os retirei. Esses são alguns dos conteúdos presentes: “se eu fizer brechó das branca vou ser
racista?”; “E se tiver brechó das branca?”; “Eles mesmos se segregam”; “Bonito é esse cabelo bombril”;
“Bom avisar que não passo nem perto”.
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Hater é um palavra em inglês que significa “odiador”, é um termo muito comum utilizado nas redes
sociais para denominar pessoas e/ou grupos que fazem comentários maldosos, ofensas e até crimes
virtuais contra outras pessoas, sejam elas famosas ou não.
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do Facebook. O texto era breve e apresentava um pouco da história do coletivo e sua
rotina, narrada majoritariamente pelas falas de Karol. Li rapidamente o conteúdo e, de
imediato, algo me chamou atenção: a maneira como a jornalista descreveu Karol.
Primeiro, seu nome foi grafado com a letra “C”, como Caroline, e não Karoline, como é
seu nome de fato. Em seguida, o texto a apresentava da seguinte forma:
Semanas depois, quando retornei ao campo, pude conversar com Karol sobre a
forma como foi descrita na reportagem. Ela me contou que ficou bastante incomodada
com a maneira como a jornalista, uma mulher branca, a retratou. Disse ainda que chorou
muito e chegou a considerar, junto com suas irmãs, a possibilidade de entrar com um
processo judicial. No entanto, Elza a desencorajou, argumentando que não valeria a pena
e que, no fim, elas acabariam ainda mais abaladas emocionalmente. Esse episódio me
levou a refletir sobre como nós, mulheres pretas, após passarmos por tantas violências
simbólicas, físicas e emocionais, muitas vezes acabamos por adotar um comportamento
mais reservado ou sério, como uma forma de autoproteção. É uma espécie de blindagem:
não sabemos o que nos espera, então nos protegemos como podemos. No entanto, a
branquitude, muitas vezes, interpreta essa postura por meio de estereótipos e a projeta
como frieza, hostilidade ou arrogância, reforçando imagens equivocadas sobre nossa
existência e aparência.
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expectativa revela muito sobre como o racismo se inscreve em relações cotidianas,
inclusive nas mais sutis, como uma entrevista para uma matéria de jornal.
Quando as sócias nomeiam o coletivo como “das preta”, estão afirmando algo de
maneira direta para o outro, especialmente para o outro branco. Estão dizendo que
existem, que possuem algo, e que esse algo tem valor, sobretudo simbólico e de status.
Essa afirmação de identidade cria, como propõe Frantz Fanon (2008, p. 33), uma
“dimensão para-o-outro”, ou seja, um modo de existência que se constitui também na
relação e na tensão com a alteridade. Retomando minha leitura sobre a matéria publicada,
fui direto aos comentários na rede social da reportagem, e levei um grande susto com a
quantidade de pessoas destilando ódio contra o trabalho das sócias. Eram dezenas de
comentários, em sua maioria feitos por pessoas brancas, criticando a existência do
coletivo. E, embora os argumentos variassem, todos tinham uma raiz comum: o incômodo
com o nome Brechó das Preta.
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Construiu-se um imaginário no qual pessoas pretas e pardas teriam sido integradas
à sociedade brasileira de forma saudável, usufruindo dos mesmos acessos e direitos que
as pessoas brancas. Esse discurso ignora completamente o processo histórico de
dominação e opressão, transferindo para a população preta a responsabilidade individual
por sua condição social, tanto no período pós-abolição quanto na contemporaneidade. Ou
seja, a narrativa dominante desconsidera as violências estruturais e naturaliza a ideia de
que cabe à pessoa preta “se virar” para superar a exclusão social. Como ironiza Lélia
Gonzalez (1984),
Nos últimos anos, esse tipo de pensamento, que sempre existiu, mas permanecia,
por vezes, velado, ganhou ainda mais força com o avanço do conservadorismo no cenário
mundial, especialmente no Brasil durante a era do bolsonarismo. Desde antes da eleição
do então candidato Jair Bolsonaro, tal movimento já vinha sendo construído por meio de
discursos e práticas que legitimavam o ódio, o preconceito e a violência contra diversos
grupos sociais, em especial a população preta. Com sua ascensão à presidência, as falas
e atitudes de Bolsonaro passaram a servir como estímulo para que muitas pessoas se
sentissem autorizadas a expressar publicamente seus preconceitos, em um processo que
pode ser descrito como uma “saída do armário” da intolerância. Nas redes sociais, a
sensação era, e, em certa medida, ainda é, a de que o constrangimento social diante de
manifestações discriminatórias desapareceu. Multiplicaram-se discursos e mensagens de
ódio que incitavam a violência simbólica e física, como se observa nos comentários
ofensivos dirigidos às sócias do coletivo.
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se um entendimento equivalente do racismo não apenas na sua negação, mas sim na sua
inversão, colocando os sujeitos não-negros como alvo de ataques, discriminações e
preconceitos tendo por base a cor de sua pele” (FONTOURA, 2021, p. 58).
Essa forma de pensar e agir leva muitas pessoas brancas a questionarem, por
exemplo, a ausência de cotas raciais para brancos, ou a alegarem que pessoas pretas estão
"roubando" as vagas de seus filhos nas universidades públicas. Tais ideias, como a
provocação sobre por que não existiria um “brechó das brancas”, não possuem qualquer
fundamento lógico ou histórico. O que essas falas evidenciam é a recusa em reconhecer
que o racismo é parte de um processo estrutural de opressão, sustentado por relações de
poder profundamente enraizadas desde a colonização. Trata-se de um sistema baseado na
violência, verbal, física, simbólica e sexual, contra povos escravizados, o que resultou em
séculos de desumanização e exclusão social da população preta. Os efeitos dessa estrutura
ainda se fazem sentir por meio da colonialidade, que perpetua hierarquias raciais nas
esferas econômica, política e cultural.
Um dia uma mulher branca entrou na loja e disse que era um absurdo o nome
do coletivo ser “brechó das preta”, então ela veio me perguntar o por que no
do nome, eu disse que era porque todas as sócias são pretas, e ela disse que
parecia que quem só podia comprar era pessoas pretas e isso gerava uma
sensação de exclusão dos brancos, aí eu não aguentei e ri na cara dela, ela virou
e foi embora” (Gabriela Reis, 2023)
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com o desmonte de políticas públicas voltadas ao acesso e aos direitos da população negra
no país. A pesquisadora Cida Bento, em sua obra “O Pacto da Branquitude” (2022), fruto
de sua tese de doutorado na área da Educação, descreve e problematiza os privilégios da
população branca, evidenciando como há estratégias políticas e simbólicas
profundamente enraizadas para que esses privilégios se mantenham. Segundo Bento, o
conservadorismo que ganhou força nos últimos anos fortaleceu o que Lourenço Cardoso
denomina de “branquitude acrítica”: uma categoria que se manifesta com força nas redes
sociais, muitas vezes expressa por supremacistas brancos, e que representa uma
identidade branca, individual ou coletiva, comprometida que corrobora na superioridade
branca” (BENTO, 2022, p. 64). Assim, o chamado pacto da branquitude opera ao negar
a existência e os impactos do racismo na vida da população preta, ao mesmo tempo em
que reconhece e protege seus próprios privilégios. Trata-se de um jogo perverso, descrito
por Lélia Gonzalez como um lugar de “descobrimento, alienação, esquecimento e até do
saber”, onde o discurso ideológico encontra terreno fértil para se instalar (GONZALEZ,
1984, p. 78). Um espaço que, tomado pelo conservadorismo, tende a apagar a memória
histórica e a perpetuar desigualdades estruturais.
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em qualquer lugar que estejamos, e que venham os dias futuros, a mística quilombola
persiste afirmando: ‘a liberdade é uma luta constante’” (EVARISTO, 2020).
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Fala de Gabi durante um dos garimpos que acompanhei em junho de 2025.
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de racismo e machismo que vivenciaram ao longo da vida, mas que antes não tinham sido
nomeadas. Isso despertava nelas um forte senso de militância e empoderamento.
As mulheres pretas estão na camada mais baixa da pirâmide social, como o “outro
do outro”, conforme categorizado pela psicóloga Grada Kilomba (2019). Kilomba
aprofunda a compreensão da categoria “Outro” ao afirmar que as mulheres negras, por
não serem nem brancas nem homens, ocupam um lugar especialmente difícil na sociedade
supremacista branca (...) (RIBEIRO, 2019, p. 38). No contexto do mercado de trabalho,
essa lógica sempre relegou as mulheres pretas brasileiras a posições subalternas. “Mulher
negra, naturalmente, é cozinheira, faxineira, servente, trocadora de ônibus ou prostituta”
(GONZÁLEZ, 1984, p. 91).
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Voltando ao passado laboral de Elza, quando saiu do trabalho doméstico em casas
de família, passou a trabalhar em consultórios médicos, desempenhando funções
semelhantes. Ela contou sobre um período em que trabalhava em um consultório como
zeladora e, após um tempo, foi promovida a secretária. No entanto, havia uma colega
branca que torcia contra ela e fez uma cara feia no seu primeiro dia na nova função. Elza
relata: “Quando cheguei no meu primeiro dia vestida com meu conjuntinho azul claro:
um colete e uma saia, até coloquei um salto. Aquela moça branca me olhou de cima a
baixo com uma cara feia. Eu não liguei, estava linda e feliz com meu novo cargo, mas eu
vi o que ela fez” (Elza Bernardes, 2024). Essa fala chamou minha atenção, pois revela
como a troca de uniforme impactou o olhar da mulher branca e o quanto isso representa
uma mobilidade dentro daquele contexto de trabalho, além de evidenciar como o racismo
também se manifesta pela ótica da vestimenta. A roupa, naquele contexto, simbolizava
para Elza uma mudança de status, o que provocava uma reação e uma mobilização do
lugar que a mulher branca ocupava ali.
Mesmo assim, Pati queria mais; ela sentia que aquele lugar não era para ela. Foi
quando, aos 16 anos, começou a trabalhar como menor aprendiz em uma empresa de
carros, onde executava funções administrativas. Após concluir o ensino médio, ingressou
na faculdade e se formou em Contabilidade pela Universidade Camões. Perguntei se ela
gostou do curso, e a resposta foi: “Eu só fiz porque trabalhava com isso. Meu sonho
mesmo era fazer Design de Moda, mas pensamento de pobre, né? Fazer o que dá dinheiro.
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Então, fui para a Contabilidade, mas não gosto, acho muito monótono” (Patrícia Pessoa,
2024).
(...) opções no âmbito da educação profissional sejam marcadas por uma espécie
de baixa autoestima conformando se que somente determinados cursos, como no
caso dos cursos oferecidos pelo Centro Estadual de Educação Profissional, sejam
dignos de suas escolhas (AMARAL, 2013, p. 08).
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opções ocupacionais atribuídas ao seu grupo social, o que as leva, consequentemente, a
escolher profissões de baixo status social (JAIRO SANTOS, 2018, p. 17). Esses aspectos
aparecem repetidamente nos relatos das sócias do coletivo, como no processo de escolha
da graduação de Patrícia, mencionado anteriormente.
Isso a devastou, afinal, era algo que ela não esperava. Ficou muito triste e pensou
em desistir de tudo, noto que seus olhos se enchem de lágrimas enquanto conta. Por muito
tempo, ficou pensando no que havia feito de errado, por que ninguém a chamou atenção
ou disse que seu trabalho estava ruim, enquanto as colegas que sempre eram repreendidas
continuavam na empresa. Ela havia trocado de emprego na esperança de ganhar mais,
mas foi demitida em apenas três meses, pouco depois de vencer o período de experiência,
ela achava que já tinha sido efetivada, mas não foi assim. Na época, pensou em buscar
outro emprego, mas resolveu ficar um tempo em casa. Pegou o acerto que recebeu e foi
tirar a carteira de motorista. Antes de ser demitida, já havia montado um brechó online,
motivada pelo sonho de realizar uma festa de casamento. Foi a um bazar de igreja com a
sogra, viu roupas baratas e pensou: “Por que não revender?”. Começou a levar as peças
para o trabalho e vendê-las às colegas, criando um perfil no Facebook para divulgar as
roupas. Quando entrou na última empresa, fez uma pausa nas vendas do brechó, mas
assim que foi despedida, pensou em voltar ao negócio, embora quisesse um tempo para
se recuperar do baque. Depois de dois anos em casa, voltou com o brechó. Pesquisando
eventos para participar, descobriu o coletivo, mandou mensagem e começou a expor suas
peças na rua. A amizade foi crescendo e, quando percebeu, já estava garimpando com
elas, saindo para passear, e assim a relação foi se construindo. Ela conta que nunca pensou
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em voltar ao trabalho CLT, pois o brechó oferece um ambiente confortável, onde se sente
valorizada, algo que não sentia nas empresas.
Assim como Pati e Elza, Karol também enfrentou situações difíceis em seus
empregos antes de se tornar afroempreendedora. Ela já trabalhou como vendedora em
lojas, atendente em lanchonete, secretária em consultórios odontológicos e escritórios de
advocacia, e, pouco antes do brechó, como hostess em casas noturnas da cidade. Começou
a trabalhar aos 13 anos, acompanhando a avó, que era diarista, para aprender o ofício,
embora não tenha seguido o mesmo caminho, ao contrário de Pati, que, como mencionei
anteriormente, chegou a trabalhar como doméstica por um tempo. Karol sempre
trabalhou, mesmo nos períodos mais difíceis da sua vida. Ela relata ter passado por
situações de racismo nos locais onde trabalhou, o que afetou seu emocional. Sonhava em
atuar ajudando pessoas, na área da saúde ou como assistente social. Começou a fazer um
curso técnico em radiologia na PUC, mas precisou interrompê-lo por questões
financeiras. Transferiu-se para a Faculdade Camões, onde, no mesmo período, Pati
estudava contabilidade, mas sempre se comparava aos primos que estudavam na UFPR.
Nos almoços de domingo, escutava perguntas como: “Nossa, Karol, quando você vai para
a federal?”, o que tornou difícil lidar com essa pressão, e acabou não concluindo o curso.
Em agosto de 2024, Karol concluiu o curso de produção de moda no SENAI, uma
formação de cerca de dois anos que, apesar dos altos e baixos, tem grande importância
para sua vida pessoal e trajetória como empreendedora, pois ela tem aplicado os
conhecimentos adquiridos em seu trabalho na loja.
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Faculdade de Artes do Paraná, no curso de Artes Cênicas, atuando atualmente como atriz
em propagandas comerciais. A trajetória laboral de Gabi foi bastante distinta. Perguntei
sobre o racismo no mercado da moda, se ela já havia sofrido algum tipo de violência ou
pressão estética, e sua resposta foi
“Eu já senti bastante isso, mas tento não ligar muito. Comecei a ser modelo há
10 anos, fiz curso de modelo e manequim, foi nessa mesma época que passei
pela transição capilar, pois uma professora me deu a ideia, ela se chamava
Lucia, a mamis me apoiou muito, foi cortando aos poucos e deixando ele
natural. Sempre quis ser modelo de passarela, mas sou muito baixinha e com
curvas, isso me impediria se conseguir trabalhos, então eu fui para a área
comercial e de publicidade, mas sempre sendo a única modelo/ atriz negra.”
(Gabriela Reis, 2024).
Ela contou que sempre tentou deixar de lado as situações de racismo para
conseguir realizar os trabalhos, a ponto de, em determinado momento, sua mente
“desligar” como forma de proteção, para que essas experiências não a ferissem. Por ter
consciência de que sua trajetória, antes da loja, foi diferente da de suas irmãs, era comum
ouvi-la torcendo pelo crescimento do brechó, pelo aumento das vendas e pela conquista
de novos contratos na área de produção de moda. Gabi frequentemente dizia: “Preciso
ajudar as minhas irmãs5, pois sei que elas precisam muito!”
Nas falas de todas as sócias, encontrei a mesma intenção: investir suas energias
na construção do trabalho autônomo dentro do coletivo como uma estratégia para atuarem
em um ambiente minimamente seguro frente às violências que são comuns na vida de
mulheres pretas no contexto laboral. Olhar para as experiências do passado, marcadas
tanto pelo racismo estrutural quanto pelo institucional, faz com que desenvolvam
estratégias para não reviverem essas situações. O ato de empreender, para pessoas pretas,
especialmente para as mulheres, pode representar um movimento de fortalecimento da
identidade, empoderamento, valorização da força de trabalho e construção de uma rede
de apoio. Como bem coloca SANTOS (2019),
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Apenas Karol e Pati são irmãs de sangue, enquanto Gabi e Elza são mãe e filha biológicas. Ainda assim,
todas se tratam como irmãs, e Elza as considera como filhas. Em um dos capítulos da tese, aprofundo essa
organização de parentesco.
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Os relatos de Pati, Karol e Elza refletem a inserção histórica das mulheres pretas
no mercado de trabalho brasileiro. Durante todo o período colonial, elas foram colocadas
no papel de cuidar do branco, mas não de si mesmas. Seus corpos foram vistos e utilizados
como ferramentas de servidão doméstica, para limpar casas, cozinhar, amamentar os
filhos dos senhores, satisfazer sexualmente seus patrões e reproduzir mais pessoas pretas
que seriam escravizadas. Com isso, mesmo após o fim da escravidão, as mulheres pretas
enfrentaram dificuldades para se inserir no mercado de trabalho formal. Lélia Gonzalez
(1982) destaca que a intersecção entre raça, sexo6 e classe constitui eixos de existência
que contribuíram fortemente para a construção do lugar ocupado por esse coletivo na
força de trabalho.
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Até os anos 1980, o termo “sexo” era amplamente utilizado nas pesquisas para se referir ao que hoje
denominamos “gênero”.
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Com isso, as mulheres pretas acabavam tendo dois caminhos: trabalhar como
domésticas ou recorrer a empregos com baixa remuneração e pouca dignidade, estando
constantemente expostas a violências psicológicas por parte de patrões e colegas de
trabalho. Nesse sentido, ao possuir o seu próprio negócio, a mulher preta assume a posição
de senhora do seu próprio destino, rompendo com a dinâmica geracional do trabalho
doméstico e abrindo espaço para a possibilidade de escolha, algo que por muitos anos
nunca lhe foi permitido. Embora o neoliberalismo tenha distorcido e esvaziado o sentido
de ser empreendedor, para a mulher preta esse contexto adquire um significado diferente.
Assim, empreender passa a se constituir como um novo caminho possível, com potencial
emancipatório.
Ser uma mulher preta que pode escolher com o que vai trabalhar é romper com
estereótipos construídos historicamente e desestabilizar o lugar social que lhe foi
atribuído. E isso gera incômodo: mulheres pretas que possuem uma loja no centro de uma
capital, que carrega no nome o pertencimento, afinal, é o brechó delas, e se é delas, é
porque puderam escolher. E essa escolha incomoda muita gente.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este texto integra uma pesquisa em andamento que ainda abordará outras nuances
sobre a vida e o trabalho das sócias analisadas. No entanto, já é possível identificar
aspectos relacionados à estruturação da prática afroempreendedora no contexto
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apresentado. Durante o mestrado, foquei nas motivações que direcionaram aquelas
mulheres ao afroempreendedorismo, mas agora pude compreender também as motivações
para a continuidade do negócio, nas quais são os pilares que o mantêm vivo mesmo diante
das adversidades.
Além disso, em uma cidade tão branca quanto Curitiba, as sócias problematizam
a história única contada por esse território que, orgulhando-se do título de “Europa
Brasileira”, negligencia sistematicamente as influências dos povos pretos e indígenas na
formação local. Empretecer a cultura, a economia e o território curitibano tem sido sua
missão, e acredito que elas estão conseguindo alcançar esse objetivo com muita coragem.
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