0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações23 páginas

Afroempreendedorismo e Identidade Negra

O documento apresenta uma pesquisa sobre o afroempreendedorismo feminino, focando no Coletivo Brechó das Pretas em Curitiba, que serve como um espaço de resistência e pertencimento para mulheres negras. A autora, Suelen Karini Almeida de Matos, explora como o coletivo vai além da venda de roupas, promovendo a construção de identidade e redes de apoio. A análise destaca a importância do espaço como um refúgio seguro e um ponto de encontro que resgata práticas ancestrais de sociabilidade e resistência.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações23 páginas

Afroempreendedorismo e Identidade Negra

O documento apresenta uma pesquisa sobre o afroempreendedorismo feminino, focando no Coletivo Brechó das Pretas em Curitiba, que serve como um espaço de resistência e pertencimento para mulheres negras. A autora, Suelen Karini Almeida de Matos, explora como o coletivo vai além da venda de roupas, promovendo a construção de identidade e redes de apoio. A análise destaca a importância do espaço como um refúgio seguro e um ponto de encontro que resgata práticas ancestrais de sociabilidade e resistência.
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

XV Reunião de Antropologia do Mercosul

04 a 08 de agosto de 2025, UFBA, Salvador, BA, Brasil


Grupo de Trabalho: GT 05 – Antropologia do Empreendedorismo: Startups,
sustentabilidade e Antropoceno

Criando o Próprio Espaço e Gerando Existência: relatos e reflexões sobre


afroempreendedorismo feminino em campo

Suelen Karini Almeida de Matos – Universidade Federal do Paraná

Resumo:

Minha trajetória nas questões étnico-raciais inicia-se no final da graduação em


Design de Moda, em um processo que também marcou meu reconhecimento enquanto
mulher negra. Inspirada por teóricas negras, desenvolvi meu Trabalho de Conclusão de
Curso (TCC) sobre moda afro-brasileira, onde tive meu primeiro contato com o
afroempreendedorismo feminino. Entre a graduação e o mestrado em Antropologia, atuei
como afroempreendedora, vivenciando os desafios enfrentados por mulheres negras no
mercado. No mestrado, realizei uma etnografia na Feira Afro da Zumbi (Curitiba), onde
aprofundei análises sobre o afroempreendedorismo como estratégia de resistência
econômica, fortalecimento identitário e construção de redes de apoio.

As narrativas de mulheres de diferentes gerações revelaram como o racismo


estrutural continua a impactar trajetórias, mesmo diante de avanços como as cotas raciais
e o PROUNI, políticas que também atravessam minha própria história. Atualmente, no
doutorado, investigo o Coletivo Brechó das Pretas, buscando compreender, sob a
perspectiva do feminismo negro, como o afroempreendedorismo ultrapassa a lógica
econômica, articulando trabalho, pertencimento, produção de subjetividades e resistência
coletiva.

Palavras-chave: Afroempreendedorismo; Economia; Feminismo negro; Identidade;


Pertencimento.

Introdução: Apresentando o Coletivo Brechó das Preta

O Coletivo Brechó das Pretas surgiu a partir da união de mulheres negras donas
de brechós que inicialmente vendiam online e passaram a ocupar a Rua São Francisco,

1
no centro de Curitiba, expondo suas peças na rua como forma de fortalecer o
afroempreendedorismo e criar redes de apoio. O projeto foi idealizado por Gabrielly
Dantas (Brechó Cabrochas) e contou, em sua formação, com Elza Bernardes e Gabriela
Reis (Se Garimpou Levou), Kaoane Schlukebier (Brechó Kaw Black), Patrícia e Karoline
Pessoa (Makeda Brechó). Após alguns meses, Kaoane deixou o coletivo para seguir sua
carreira na dança, o que gerou uma reorganização interna. O período na rua durou cerca
de seis meses, até que decidiram alugar um espaço fixo na mesma região. Com poucos
recursos, começaram com um contrato de três meses e, percebendo a viabilidade
financeira, permaneceram e foram reformando o local aos poucos. A pandemia trouxe
desafios, mas a atuação nas redes sociais foi essencial para manter o negócio.

A loja física possui dois andares, com araras, móveis reaproveitados, objetos de
decoração e uma curadoria cuidadosa das peças. O espaço também serve como ambiente
de cuidado, com espaço para os filhos das sócias e área para manutenção das roupas. Em
2021, abriram o espaço para outros afroempreendedores, realizando feiras e,
posteriormente, mantendo exposições fixas de marcas parceiras.

Minha aproximação com o coletivo começou em 2021, quando elaborava meu


projeto de doutorado. Já conhecia o brechó das redes e de eventos anteriores, e ao propor
a pesquisa, fui bem recebida, apesar de um início com certo distanciamento, algo comum
nos processos etnográficos, mesmo entre mulheres negras. Com o tempo, a convivência
se fortaleceu, compartilhando desde eventos profissionais até momentos pessoais, como
aniversários, mudanças e desafios cotidianos. Essa relação foi essencial para aprofundar
minha análise sobre como o coletivo se estrutura, não apenas como um negócio, mas
como espaço de construção de pertencimento, identidade e resistência. O nome Brechó
das Pretas carrega uma potência simbólica que afirma a negritude, gera orgulho para
quem faz parte e desconforto para quem se sente ameaçado por corpos e iniciativas negras
ocupando espaços de visibilidade.

[Link]ó das Preta, que nome forte, né?1

1
Essa frase foi dita por uma senhora branca que entrou na loja em um dos dias em que eu estava presente
a loja realizando as minhas observações. Chamou-me a atenção a forma como elogiou a loja, com os olhos
brilhando ao ver como era por dentro enquanto era recebida de forma muito receptiva pela Gabi.

2
Assim que você chega em frente à loja, não é difícil identificar que você chegou
ao Coletivo Brechó das Preta, afinal, tem uma placa bem grande informando o local. Ela
que chama tanto a atenção quanto ao nome. De certa forma, eu já imaginava a motivação
que levou as fundadoras a escolher esse nome na loja, mas, como boa pesquisadora que
sou, resolvi perguntar para Gabi como ele surgiu. A verdade é que não existe uma grande
história por trás, com certeza existe por trás da formação do coletivo, mas o nome foi
pensando por ser literalmente um coletivo de brechós de mulheres pretas, pensado
também para pertencer a outras pessoas pretas, sejam clientes ou empreendedores que
desejam expor no local.

É perceptível o quanto o sentimento de pertencimento permeia a loja. Durante


meus dias de observação, senti-me pertencente àquele espaço; vi vários clientes pretos
entrarem como se estivessem chegando em casa, confortáveis e acolhidos. Um dos
aspectos mais interessantes que contribuem para essa sensação é uma prática adotada
pelas sócias: elas realmente deixam os clientes à vontade, sem segui-los enquanto olham
as peças. Afinal, infelizmente, ainda é muito comum que nós, pessoas pretas, sejamos
perseguidas em lojas, mercados e outros espaços de consumo. Claro que já houve
situações em que foram roubadas, mas, na maioria das ocasiões, os responsáveis eram
pessoas brancas. As sócias tratam bem todos que entram ali, mas é nítido o desejo de
atrair mais pessoas pretas como clientes e tê-las presentes na loja com mais frequência.
Diante disso, quando pensa-se em ser “das preta” também envolve ser um espaço para
que outras pessoas pretas possam ocupar, e esse movimento de ocupação vai além da
venda de produtos. Trata-se, também, de um ponto de encontro, um espaço de
convivência e troca entre pessoas pretas.

Como mencionei anteriormente, a loja está localizada na Rua São Francisco, no


coração do centro histórico de Curitiba, entre a Rua Riachuelo e a Praça do Bolso do
Ciclista. Logo em frente, encontra-se outra praça, bem maior: a Praça Santos Andrade,
onde estão situados o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná e o famoso
Teatro Guaíra, além de diversos pontos de ônibus que levam pessoas para diferentes
regiões da cidade. Dessa forma, a loja está geograficamente inserida em um local de
grande circulação, conectando a ampla praça ao Largo da Ordem, o que garante um fluxo
constante de pessoas na área. Por isso, é comum que pessoas pretas conhecidas e amigas

3
das sócias passem por ali e as cumprimentem. Eu mesma já fiz isso várias vezes, mesmo
enquanto estava afastada do campo durante o processo de escrita.

Artistas pretos curitibanos também são frequentadores assíduos do brechó. Afinal,


um dos focos de trabalho das sócias é a produção de figurinos, mas isso será abordado no
segundo capítulo. O que gostaria de destacar agora é que alguns desses artistas costumam
se encontrar na loja para conversar e planejar ações que, muitas vezes, não têm relação
direta com o brechó. Um exemplo foi quando a cantora Rúbia Divino marcou um encontro
com a produtora cultural Brenda Maria para conversarem sobre uma festa que estavam
organizando juntas. Ou ainda, quando o ator Pedro Ramírez, amigo de Gabi, foi até a loja
ensaiar para uma peça que apresentaria nos dias seguintes na cidade. Ao presenciar essas
movimentações, comecei a refletir sobre o quanto aquele espaço físico, fundado com a
intenção de ser uma loja, ultrapassa esse limite e se transforma em um ponto de encontro
e construção de sociabilidade negra. A autora Maria Angélica dos Santos (2019), no livro
“O Lado Negro do Empreendedorismo: afroempreendedorismo e movimento black
Money”, destaca, com base em suas pesquisas e vivências, como o ato de empreender,
por parte da população preta, tem como uma de suas bases o processo de construção do
sentimento de pertencimento, tanto para quem empreende quanto para quem frequenta ou
consome aquele espaço ou serviço. Ela chama esse fenômeno de "unidade racial", no qual
se “(...) conforma um movimento político, de soerguimento racial e de rompimento com
práticas coloniais” (SANTOS, 2019, p. 40).

O pertencimento também diz respeito ao processo de identificação coletiva.


Começamos a compreender que a construção da negritude perpassa o estar inserido em
um coletivo. Essa identificação começa já pelo nome, algo que, segundo as próprias
sócias, sempre foi intencional, mas se estende também aos aspectos estéticos: entrar na
loja e ser recebida por mulheres pretas, observar a decoração repleta de elementos visuais
que remetem às nuances da cultura preta em diferentes contextos como Brasil, Estados
Unidos e África, e até mesmo na materialidade das peças. A forma como as pessoas pretas
se articulam dentro e com o coletivo do brechó me recorda um texto de bell hooks (2000),
no qual ela discute a importância do amor no contexto da formação da subjetividade preta.
A autora escreve:

E num contexto de pobreza, quando a luta pela sobrevivência se faz necessária,


é possível encontrar espaços para amar e brincar, para se expressar
criatividade, para se receber carinho e atenção. Aquele tipo de carinho que

4
alimenta corações, mentes e também estômagos. No nosso processo de
resistência coletiva é tão importante atender as necessidades emocionais
quanto materiais (hooks, 2000).

Essa perspectiva reforça a ideia de que espaços como o Brechó das Preta vão além
da comercialização de roupas; eles operam como territórios afetivos e políticos, nos quais
o afeto, o cuidado e a construção da subjetividade preta são tão centrais quanto a
independência financeira. O autor Carlos Gadea (2013) discute a construção da negritude
como um campo a ser descolonizado (2013, p. 23), e concordo com essa perspectiva em
parte. De fato, houve um período em que esse parecia ser o único caminho possível. No
entanto, o que percebemos atualmente é uma crescente tomada de consciência, sobretudo
por parte da juventude preta, no sentido de construir suas próprias negritudes, e faço
questão de usar o termo no plural, justamente para evitar a universalização das
experiências pretas. Hoje, em uma sociedade que ainda segrega e marginaliza a população
preta, emerge a necessidade de criação de espaços próprios e de formas de existência que
já nascem a partir de uma perspectiva descolonizada. Ou seja, se antes era preciso
"limpar" os resquícios da colonialidade para, então, afirmar uma identidade, agora vemos
o surgimento de experiências que já se constituem como projetos autônomos, conscientes
e politicamente posicionados como se o "terreno" já estivesse previamente cuidado para
que outras formas de existência florescessem.

Assim, o espaço da loja, como outros espaços pretos, constitui-se como um


refúgio seguro, onde pessoas negras podem projetar novas realidades de existência e de
vida, fora da lógica opressiva que ainda opera em nossa sociedade, dinâmica que remete
diretamente à experiência dos quilombos no período colonial brasileiro. Faço essa
afirmação com base também na minha pesquisa de mestrado, realizada em Curitiba,
durante a Feira Cultural e do Afroempreendedorismo na Praça Zumbi dos Palmares.
Naquela ocasião, observei como a ocupação do espaço público por mulheres
afroempreendedoras, por meio da feira, operava como uma forma de reivindicação e
construção de um modo de vida coletivo e alternativo para a população preta.

Abdias Nascimento, em sua obra Quilombismo (2019), destaca a herança deixada


pela organização política dos quilombos, e como essa memória reverbera nas formas
contemporâneas de vida dessa população. Diferentemente do que propaga o senso
comum, que tende a reduzir os quilombos a pequenos focos de fuga, trata-se de
sociedades complexas, com ampla estrutura política, econômica e simbólica, que

5
organizavam a vida de milhares de pessoas pretas de maneira autônoma. Nesse sentido,
o autor define o quilombismo como “(...) uma luta anti-imperialista, que se articula ao
pan-africanismo e sustenta uma solidariedade radical com todos os povos em luta contra
a exploração, a opressão, o racismo e as desigualdades motivadas por raça, cor, religião
ou ideologia” (NASCIMENTO, 2019, p. 284). Complementando essa perspectiva, a
autora Juliana Silva Chagas (2022) observa que:

“Os aspectos principais do quilombismo partem da produção de modos


de agir e de se relacionar no mundo sob uma perspectiva negra situada
social, política e geograficamente, inscrevendo-se a partir de regimes
de ancestralidade e de atualização dos modos de produção da pessoa
negra, segundo o que sugere Beatriz Nascimento (2005), para a qual
quilombismo é uma noção em movimento, isto é, que se estende para
além do período colonial e para além de um modelo societário,
acionando processos de subjetivação da experiência negra
contemporânea” (CHAGAS, 2022, p. 6).

Desse modo, ao pensarmos o Brechó das Preta, assim como a Feira na Praça
Zumbi, como espaços de sociabilidade e resistência, podemos compreendê-los como
atualizações contemporâneas do quilombismo. São territórios afetivos e políticos que
propõem modos de existir pretos, sustentados por princípios de solidariedade,
pertencimento, estética própria e autonomia coletiva.

O aspecto interseccional proposto pelo quilombismo é visível ao longo de toda a


trajetória das sócias. Ao longo desta tese, trarei diversas relações que elas estabelecem
com outros grupos, sejam elas de natureza econômica ou não, e que evidenciam o quanto
esse pensamento está presente na lógica de existência do coletivo. A socióloga nigeriana
Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (2021), em seu livro sobre a construção da categoria gênero em
comunidades de origem iorubá, destaca o papel central dos mercados na organização do
trabalho das mulheres. Segundo a autora: “(...) os mercados não eram apenas de
negociação; eles também foram pontos de encontro para as pessoas de todas as esferas da
vida” (OYĚWÙMÍ, 2021, p. 117). Ou seja, é possível afirmar que há, de fato, aspectos
ancestrais que sustentam essas dinâmicas de conexão entre pares em contextos de
identificação racial, ainda que essas conexões não se restrinjam exclusivamente à raça.

Além disso, esses fundamentos aparecem em outras dimensões da estrutura de


trabalho das sócias. O afroempreendedorismo, tal como elas o propõem, configura-se
como uma categoria de trabalho que mescla elementos discutidos na literatura sobre o

6
tema com dinâmicas específicas do contexto de mercado de brechó no qual estão
inseridas, um aspecto que será abordado com mais profundidade nos decorrer da tese.

Voltando à discussão em questão: ao mesmo tempo em que o nome do brechó


convida as pessoas, especialmente a população preta, a ocupar o espaço, ele também
provoca incômodos. Era meados de junho de 2024, e eu as acompanhava na produção de
figurinos projetados para a gravação do clipe do artista Rimon Guimarães. Estávamos em
um lavandário localizado dentro da Colônia Witmarsum, na cidade de Palmeira. Era uma
quinta-feira gelada, mas com muito sol. Eu e Patrícia estávamos do lado de fora do
celeiro, onde a equipe se concentrava antes do primeiro dia de gravações, enquanto Gabi
permanecia lá dentro, conversando com o artista, e namorado, Rimon. Enquanto
tomávamos um café, observando a bela paisagem, Pati me perguntou: "Su, você viu a
reportagem que saiu sobre a gente na semana passada?", respondi que sim e ainda as
parabenizei, pois percebi que a repercussão havia sido grande. Ela deu uma risada e
perguntou de novo: "Você viu os comentários no Facebook?" De fato, eu havia visto.
Perguntei como ela tinha recebido aquilo tudo. Ela respondeu que ficou brava, mas que,
ao mesmo tempo, não se surpreendia: “o que esperar de uma cidade tão racista como
Curitiba?”, desabafou2.

A questão do nome sempre gerou incômodos, mas fazia tempo que elas não
enfrentavam comentários e haters3 por conta disso. Perguntei se já tinham sofrido ofensas
pela internet antes. Ela disse que foi a primeira vez, as outras situações aconteceram
presencialmente: “Sabe, Su, eu não ligo. Falem bem ou falem mal, mas falem da gente!
Você acredita que teve gente que foi até a loja e disse que foi por causa da matéria e dos
comentários?”, contou Elza, rindo. Disse a matriarca, que hoje consegue rir da situação,
mas que, no dia, ficou bastante incomodada.

A matéria em questão foi uma reportagem publicada pelo jornal Bem Paraná
(2024), um portal de notícias bastante popular em Curitiba, especialmente entre o público

2
Na tese eu apresento alguns prints onde os comentários aparecem, mas por conta do tamanho desse
texto, os retirei. Esses são alguns dos conteúdos presentes: “se eu fizer brechó das branca vou ser
racista?”; “E se tiver brechó das branca?”; “Eles mesmos se segregam”; “Bonito é esse cabelo bombril”;
“Bom avisar que não passo nem perto”.
3
Hater é um palavra em inglês que significa “odiador”, é um termo muito comum utilizado nas redes
sociais para denominar pessoas e/ou grupos que fazem comentários maldosos, ofensas e até crimes
virtuais contra outras pessoas, sejam elas famosas ou não.

7
do Facebook. O texto era breve e apresentava um pouco da história do coletivo e sua
rotina, narrada majoritariamente pelas falas de Karol. Li rapidamente o conteúdo e, de
imediato, algo me chamou atenção: a maneira como a jornalista descreveu Karol.
Primeiro, seu nome foi grafado com a letra “C”, como Caroline, e não Karoline, como é
seu nome de fato. Em seguida, o texto a apresentava da seguinte forma:

“Uma moça de personalidade e com uma feição séria desce do Uber e


abre a loja. É Caroline Alves Pessoa, de 36 anos, uma das fundadoras
do brechó. Comento que fiquei encantada com os grafites presentes
tanto na loja quanto na porta, assim, Caroline desmancha sua seriedade
e abre um sorriso ao me explicar que foram todos produzidos pelo
grafiteiro Rimon Guimarães. As obras criam uma identidade única para
a loja, quase nos teletransportando para um episódio da série ‘Um
Maluco no Pedaço” (BEM PARANÁ, 2024).

Semanas depois, quando retornei ao campo, pude conversar com Karol sobre a
forma como foi descrita na reportagem. Ela me contou que ficou bastante incomodada
com a maneira como a jornalista, uma mulher branca, a retratou. Disse ainda que chorou
muito e chegou a considerar, junto com suas irmãs, a possibilidade de entrar com um
processo judicial. No entanto, Elza a desencorajou, argumentando que não valeria a pena
e que, no fim, elas acabariam ainda mais abaladas emocionalmente. Esse episódio me
levou a refletir sobre como nós, mulheres pretas, após passarmos por tantas violências
simbólicas, físicas e emocionais, muitas vezes acabamos por adotar um comportamento
mais reservado ou sério, como uma forma de autoproteção. É uma espécie de blindagem:
não sabemos o que nos espera, então nos protegemos como podemos. No entanto, a
branquitude, muitas vezes, interpreta essa postura por meio de estereótipos e a projeta
como frieza, hostilidade ou arrogância, reforçando imagens equivocadas sobre nossa
existência e aparência.

A antropóloga Lélia Gonzalez, em seus escritos sobre a condição da mulher negra,


aponta como historicamente fomos rotuladas com adjetivos que nos enquadram em
lugares de subalternidade, lugares que servem aos interesses de uma estrutura branca e
patriarcal. Esses estereótipos, longe de serem inofensivos, moldam expectativas,
restringem possibilidades e determinam como somos percebidas nos mais diversos
espaços. Enquanto conversava com Karol, refletia sobre o cotidiano exaustivo que ela e
suas irmãs enfrentam. Pensei também sobre como a jornalista havia idealizado que seria
recebida, como se fosse natural esperar sorrisos ou acolhimento imediato, mesmo
chegando em um ambiente de trabalho, no meio da semana, logo pela manhã. Essa

8
expectativa revela muito sobre como o racismo se inscreve em relações cotidianas,
inclusive nas mais sutis, como uma entrevista para uma matéria de jornal.

Quando as sócias nomeiam o coletivo como “das preta”, estão afirmando algo de
maneira direta para o outro, especialmente para o outro branco. Estão dizendo que
existem, que possuem algo, e que esse algo tem valor, sobretudo simbólico e de status.
Essa afirmação de identidade cria, como propõe Frantz Fanon (2008, p. 33), uma
“dimensão para-o-outro”, ou seja, um modo de existência que se constitui também na
relação e na tensão com a alteridade. Retomando minha leitura sobre a matéria publicada,
fui direto aos comentários na rede social da reportagem, e levei um grande susto com a
quantidade de pessoas destilando ódio contra o trabalho das sócias. Eram dezenas de
comentários, em sua maioria feitos por pessoas brancas, criticando a existência do
coletivo. E, embora os argumentos variassem, todos tinham uma raiz comum: o incômodo
com o nome Brechó das Preta.

São diversos os comentários acusatórios que evocam a ideia do chamado “racismo


reverso”, numa tentativa de argumentar uma suposta exclusão ou segregação da
população branca. Curiosamente, ao ler tais comentários, alguém que nunca tenha
frequentado o brechó poderia imaginar que se trata de um espaço frequentado
exclusivamente, ou majoritariamente, por pessoas pretas, o que não corresponde à
realidade. Ainda assim, há um incômodo visível e um questionamento sobre a presença
de pessoas brancas no estabelecimento, além de menções fictícias à ideia de um “Brechó
das Branca”.

O mais impressionante é como esse incômodo se expressa por meio de


questionamentos infundados, que deslegitimam a potência do nome e, de forma sutil (ou
nem tanto), a própria existência de um espaço comercial pertencente a pessoas pretas.
Isso evidencia como a branquitude ainda articula práticas sistemáticas para desqualificar
qualquer forma de produção preta, considerando-a inferior ou inadequada. Como bem
aponta Lélia Gonzalez (1988, p. 133), ao comentar a criação do Teatro Experimental do
Negro por Abdias do Nascimento, houve quem o acusasse de promover aquilo que ela
ironicamente chama de “racismo às avessas”, uma ideia sem fundamento, que apenas
reforça o incômodo da branquitude diante de iniciativas de protagonismo preto.

9
Construiu-se um imaginário no qual pessoas pretas e pardas teriam sido integradas
à sociedade brasileira de forma saudável, usufruindo dos mesmos acessos e direitos que
as pessoas brancas. Esse discurso ignora completamente o processo histórico de
dominação e opressão, transferindo para a população preta a responsabilidade individual
por sua condição social, tanto no período pós-abolição quanto na contemporaneidade. Ou
seja, a narrativa dominante desconsidera as violências estruturais e naturaliza a ideia de
que cabe à pessoa preta “se virar” para superar a exclusão social. Como ironiza Lélia
Gonzalez (1984),

Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano.


Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro acima de tudo,
graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a
gente tem. Tanto é que, quando se esforça, ele sobe na vida como
qualquer um. Conheço um que é médico; educadíssimo, culto, elegante
e com umas feições tão finas… Nem parece preto. Por aí se vê que o
barato é domesticar mesmo (GONZALEZ, 1984, p. 78):

Nos últimos anos, esse tipo de pensamento, que sempre existiu, mas permanecia,
por vezes, velado, ganhou ainda mais força com o avanço do conservadorismo no cenário
mundial, especialmente no Brasil durante a era do bolsonarismo. Desde antes da eleição
do então candidato Jair Bolsonaro, tal movimento já vinha sendo construído por meio de
discursos e práticas que legitimavam o ódio, o preconceito e a violência contra diversos
grupos sociais, em especial a população preta. Com sua ascensão à presidência, as falas
e atitudes de Bolsonaro passaram a servir como estímulo para que muitas pessoas se
sentissem autorizadas a expressar publicamente seus preconceitos, em um processo que
pode ser descrito como uma “saída do armário” da intolerância. Nas redes sociais, a
sensação era, e, em certa medida, ainda é, a de que o constrangimento social diante de
manifestações discriminatórias desapareceu. Multiplicaram-se discursos e mensagens de
ódio que incitavam a violência simbólica e física, como se observa nos comentários
ofensivos dirigidos às sócias do coletivo.

Nesse contexto, direitos historicamente conquistados pela população preta


passaram a ser questionados com mais intensidade, como é o caso das cotas raciais nas
universidades e concursos públicos. Esse questionamento era (e é) sustentado por uma
falsa premissa: a de que o Brasil seria um país livre de racismo. Com isso, a branquitude
passou a operar com ainda mais força dentro da lógica do chamado “racismo reverso”,
conceito que se sustenta na distorção da realidade social brasileira e na tentativa de
inverter os papéis históricos de opressão. Como afirma Fontoura (2021), “(...) promove-

10
se um entendimento equivalente do racismo não apenas na sua negação, mas sim na sua
inversão, colocando os sujeitos não-negros como alvo de ataques, discriminações e
preconceitos tendo por base a cor de sua pele” (FONTOURA, 2021, p. 58).

Essa forma de pensar e agir leva muitas pessoas brancas a questionarem, por
exemplo, a ausência de cotas raciais para brancos, ou a alegarem que pessoas pretas estão
"roubando" as vagas de seus filhos nas universidades públicas. Tais ideias, como a
provocação sobre por que não existiria um “brechó das brancas”, não possuem qualquer
fundamento lógico ou histórico. O que essas falas evidenciam é a recusa em reconhecer
que o racismo é parte de um processo estrutural de opressão, sustentado por relações de
poder profundamente enraizadas desde a colonização. Trata-se de um sistema baseado na
violência, verbal, física, simbólica e sexual, contra povos escravizados, o que resultou em
séculos de desumanização e exclusão social da população preta. Os efeitos dessa estrutura
ainda se fazem sentir por meio da colonialidade, que perpetua hierarquias raciais nas
esferas econômica, política e cultural.

É fundamental compreender que o racismo não diz respeito apenas à injúria


individual ou à antipatia pessoal, mas à manutenção de um sistema de poder. Por isso, é
incorreto, e perigoso, falar em “racismo reverso”. Como destaca Djamila Ribeiro (2014),
a população preta não detém poder institucional ou histórico que lhe permita oprimir a
população branca de forma sistêmica. O racismo é uma via de mão única quando se trata
da estrutura social: ele opera sempre do grupo dominante sobre o grupo subalternizado.
A negação desse fato apenas reforça a violência histórica sofrida pela população preta e
invisibiliza a necessidade de reparação e justiça social.

Um dia uma mulher branca entrou na loja e disse que era um absurdo o nome
do coletivo ser “brechó das preta”, então ela veio me perguntar o por que no
do nome, eu disse que era porque todas as sócias são pretas, e ela disse que
parecia que quem só podia comprar era pessoas pretas e isso gerava uma
sensação de exclusão dos brancos, aí eu não aguentei e ri na cara dela, ela virou
e foi embora” (Gabriela Reis, 2023)

O mito do racismo reverso é alimentado por um movimento que visa “defender e


perpetuar os interesses das elites alinhadas a uma postura ultraconservadora de
entendimento do mundo” (FONTOURA, 2021, p. 63). O problema é que esse tipo de
pensamento acaba sendo naturalizado, enraizando-se nas lógicas cotidianas de
determinados grupos sociais e se disseminando amplamente. Isso tem consequências
concretas: reverbera, por exemplo, na eleição de representantes políticos comprometidos

11
com o desmonte de políticas públicas voltadas ao acesso e aos direitos da população negra
no país. A pesquisadora Cida Bento, em sua obra “O Pacto da Branquitude” (2022), fruto
de sua tese de doutorado na área da Educação, descreve e problematiza os privilégios da
população branca, evidenciando como há estratégias políticas e simbólicas
profundamente enraizadas para que esses privilégios se mantenham. Segundo Bento, o
conservadorismo que ganhou força nos últimos anos fortaleceu o que Lourenço Cardoso
denomina de “branquitude acrítica”: uma categoria que se manifesta com força nas redes
sociais, muitas vezes expressa por supremacistas brancos, e que representa uma
identidade branca, individual ou coletiva, comprometida que corrobora na superioridade
branca” (BENTO, 2022, p. 64). Assim, o chamado pacto da branquitude opera ao negar
a existência e os impactos do racismo na vida da população preta, ao mesmo tempo em
que reconhece e protege seus próprios privilégios. Trata-se de um jogo perverso, descrito
por Lélia Gonzalez como um lugar de “descobrimento, alienação, esquecimento e até do
saber”, onde o discurso ideológico encontra terreno fértil para se instalar (GONZALEZ,
1984, p. 78). Um espaço que, tomado pelo conservadorismo, tende a apagar a memória
histórica e a perpetuar desigualdades estruturais.

Nesse sentido, observa-se um movimento sustentado por pensamentos e ações que


se materializam na forma como pessoas brancas, seja no contexto da matéria jornalística,
seja nas ocasiões em que comentários foram feitos na porta da loja, percebem o brechó a
partir do seu nome. O incômodo diante de um empreendimento liderado por mulheres
pretas revela uma desestabilização simbólica dos privilégios historicamente assegurados
pela branquitude. Essa reação evidencia o quanto a simples afirmação da presença preta
em espaços de protagonismo pode abalar os alicerces do pacto da branquitude.

Mesmo com o incômodo que permeia a visão da branquitude curitibana em


relação à existência do coletivo e à sua proposta de trabalho, o espaço tem se fortalecido
como um lugar que deveria estar inserido na linha preta da cidade. Afinal, ele ultrapassa
a ideia de uma simples loja ou ponto de encontro, tornando-se um centro de formação de
identidade e afetos pretos, sendo uma peça essencial na construção da história preta
curitibana contemporânea. Assim como a feira na praça Zumbi dos Palmares, o coletivo
também é um quilombo, localizado no centro histórico, um espaço onde, por muito tempo,
apenas uma história foi contada, mas que hoje luta para mudar essa lógica. Como bem
coloca a autora Conceição Evaristo em seu poema: “é tempo de formar novos quilombos,

12
em qualquer lugar que estejamos, e que venham os dias futuros, a mística quilombola
persiste afirmando: ‘a liberdade é uma luta constante’” (EVARISTO, 2020).

1.2.“Eu amo essa loucura, é um privilégio fazer o que ama” 4

Quando comecei a estudar o afroempreendedorismo ainda no mestrado, passei por


uma certa crise de identidade ao sentir que talvez estivesse abordando um tema que
representava o puro suco do capitalismo, reforçando uma perspectiva neoliberal sobre
essa prática de trabalho. Depois de muitas conversas com meu orientador e de me apoiar
na produção de outras pesquisadoras sobre o tema, acalmei meu coração e compreendi
que ser uma pessoa preta empreendedora está longe de representar uma dinâmica pela
qual centenas de brasileiros têm passado e adoecido.

A autora Maria Angélica dos Santos (2019) apresenta o afroempreendedorismo


em seu livro a partir de duas lógicas: a primeira refere-se ao ato de uma pessoa preta abrir
seu próprio negócio, que pode ser qualquer tipo de empreendimento, e ela nomeia essa
lógica como “ampla”. A segunda lógica representa um afroempreendedorismo que
considera todas as etapas da cadeia produtiva, com foco na participação de pessoas pretas,
categorizada por ela como “estreita”. Ambas as categorias presentes na literatura são
observadas quando começamos a entrar em contato com a realidade. No entanto, em
minha pesquisa de mestrado, compreendi que existem outras razões pelas quais uma
pessoa preta decide abrir seu próprio negócio e mantê-lo ativo no mercado.

Quando comecei a conviver com as mulheres pretas empreendedoras na feira da


praça Zumbi dos Palmares, percebi que algumas estavam ali por necessidade, já que o
desemprego é uma realidade que atinge muitas delas por diversos motivos. Outras, no
entanto, estavam presentes por militância. Essa última motivação era particularmente
interessante, pois se tratava de mulheres que tinham outros empregos ou eram
aposentadas, mas mantinham uma marca ou loja como forma de participar de eventos de
afroempreendedorismo e cultura preta. Participando desses eventos, formava-se um
grupo em que ocorriam trocas de experiências de vida e conhecimentos, o que contribuía
para o fortalecimento da percepção de identidade e da política preta. Muitas mulheres
passaram a frequentar a feira e, a partir dessas trocas, começaram a reconhecer situações

4
Fala de Gabi durante um dos garimpos que acompanhei em junho de 2025.

13
de racismo e machismo que vivenciaram ao longo da vida, mas que antes não tinham sido
nomeadas. Isso despertava nelas um forte senso de militância e empoderamento.

Obviamente, empreender não é algo fácil, e longe de mim romantizar esse


processo. Nem sempre as pessoas que iniciam seus próprios negócios conseguem, de fato,
viver deles. Contudo, é perceptível que existem aspectos emocionais trabalhados ao longo
dessa trajetória: seja na construção e fortalecimento da identidade, na formação de um
espaço de acolhimento para um coletivo, ou ainda em criar um ambiente onde se sinta
minimamente digno para exercer seu trabalho. Quando incorporamos outros marcadores
de existência nessa análise, o cenário se torna ainda mais complexo.

As mulheres pretas estão na camada mais baixa da pirâmide social, como o “outro
do outro”, conforme categorizado pela psicóloga Grada Kilomba (2019). Kilomba
aprofunda a compreensão da categoria “Outro” ao afirmar que as mulheres negras, por
não serem nem brancas nem homens, ocupam um lugar especialmente difícil na sociedade
supremacista branca (...) (RIBEIRO, 2019, p. 38). No contexto do mercado de trabalho,
essa lógica sempre relegou as mulheres pretas brasileiras a posições subalternas. “Mulher
negra, naturalmente, é cozinheira, faxineira, servente, trocadora de ônibus ou prostituta”
(GONZÁLEZ, 1984, p. 91).

O lugar da servidão é muito presente na realidade das mulheres pretas no Brasil.


Em diversos diálogos que tive e presenciei com as sócias, relatos sobre essa vivência se
repetem. Elza, por exemplo, antes de se mudar para Curitiba, quando vivia no Rio de
Janeiro e Gabi ainda era criança, trabalhou como doméstica em casas de família e
consultórios médicos. Ela chegava a trabalhar cerca de 12 horas por dia na casa de uma
mulher (que também possuía um consultório de estética no mesmo imóvel). Havia dias
em que ela não aguentava ficar em pé de tão cansada, mas mesmo assim seguia firme.
Hoje, Elza diz que ao limpar metade da casa já se cansa, mas lembra que já trabalhou em
muitas casas de família e nem sabe como suportava, era uma questão de necessidade,
afinal, tinha uma filha pequena para criar. Elza cuidou por muitos anos da filha sozinha,
e “(...) sabemos que a maternidade solo é uma realidade mais abrangente do que a
paternidade solo. “E isso faz com que a condição socioeconômica seja atravessada por
gênero e maternidade” (TEIXEIRA, 2021, p. 154-155). A maternidade é um eixo de
existência fundamental que permeia a vida das sócias, tanto no sentido real quanto
simbólico, tema que será abordado com mais profundidade no próximo subcapítulo.

14
Voltando ao passado laboral de Elza, quando saiu do trabalho doméstico em casas
de família, passou a trabalhar em consultórios médicos, desempenhando funções
semelhantes. Ela contou sobre um período em que trabalhava em um consultório como
zeladora e, após um tempo, foi promovida a secretária. No entanto, havia uma colega
branca que torcia contra ela e fez uma cara feia no seu primeiro dia na nova função. Elza
relata: “Quando cheguei no meu primeiro dia vestida com meu conjuntinho azul claro:
um colete e uma saia, até coloquei um salto. Aquela moça branca me olhou de cima a
baixo com uma cara feia. Eu não liguei, estava linda e feliz com meu novo cargo, mas eu
vi o que ela fez” (Elza Bernardes, 2024). Essa fala chamou minha atenção, pois revela
como a troca de uniforme impactou o olhar da mulher branca e o quanto isso representa
uma mobilidade dentro daquele contexto de trabalho, além de evidenciar como o racismo
também se manifesta pela ótica da vestimenta. A roupa, naquele contexto, simbolizava
para Elza uma mudança de status, o que provocava uma reação e uma mobilização do
lugar que a mulher branca ocupava ali.

É praticamente impossível abordar o contexto do mercado de trabalho brasileiro


focado nas mulheres pretas sem falar do trabalho doméstico. Assim como Elza, Pati, que
também é sócia do coletivo, possui essa mesma experiência, algo que ela aprendeu com
sua avó, que trabalhava em casas de família e a levava junto para aprender os ofícios. Ela
conta que, durante um bom tempo, trabalhou passando roupa em troca de salários baixos
e algumas peças de roupas de grife. Inclusive, hoje em dia, é ela quem fica responsável
por higienizar e passar todas as peças antes de irem para a venda. Esse trecho da história
de Pati demonstra o quanto existe uma dinâmica construída pela sociedade e pelo racismo,
que coloca e reforça o serviço doméstico como algo natural para as mulheres pretas,
afinal, trata-se de uma espécie de “conhecimento” naturalizado a ser atribuído a elas.

As estruturas condicionam possibilidades desiguais pautadas nas pertenças de


classe, raça e gênero. Relativamente a gênero, há alguns anos as primeiras
oportunidades de trabalho para as meninas seria o serviço doméstico, muitas
vezes herdado a função da mãe nas casas de família (TEIXEIRA, 2021, p. 154).

Mesmo assim, Pati queria mais; ela sentia que aquele lugar não era para ela. Foi
quando, aos 16 anos, começou a trabalhar como menor aprendiz em uma empresa de
carros, onde executava funções administrativas. Após concluir o ensino médio, ingressou
na faculdade e se formou em Contabilidade pela Universidade Camões. Perguntei se ela
gostou do curso, e a resposta foi: “Eu só fiz porque trabalhava com isso. Meu sonho
mesmo era fazer Design de Moda, mas pensamento de pobre, né? Fazer o que dá dinheiro.
15
Então, fui para a Contabilidade, mas não gosto, acho muito monótono” (Patrícia Pessoa,
2024).

“Pensamento de pobre”, essa frase me marcou profundamente, afinal, quantas


vezes as escolhas de mulheres pretas precisam ser pautadas por essa lógica? Acredito que,
na grande maioria das vezes, isso ocorre. Quando isso acontece, raça e status se tornam
parte da produção da classe social. Essa estrutura é incorporada na formação do
pensamento social e faz com que as pessoas pretas, diante da possibilidade de escolha,
acabem se direcionando para áreas de trabalho que aparentam oferecer maior facilidade
para conseguir um emprego futuro.

A autora, e uma das minhas interlocutoras na pesquisa de mestrado, Wilzeli


Rajane do Amaral (2013) descreveu sua experiência com alunos pretos dos cursos de
Eletromecânica e Edificações do Colégio Estadual do Paraná, onde identificou as
motivações que os levaram a escolher essas áreas profissionais. O resultado mostrou que
alguns vinham de uma tradição familiar de trabalho, com pais, tios, avós e irmãos atuando
nessas áreas, o que os levou a aprender o ofício, buscando a profissionalização para obter
um diploma e/ou para não serem demitidos. Outros enxergavam essas áreas como formas
de conseguir emprego e ganhar dinheiro mais rapidamente. Ou seja, eles já carregavam
um pensamento formado sobre o lugar social que ocupavam e, inconscientemente,
mantinham-se nesse lugar devido a uma estrutura que os posicionou ali, tornando
extremamente difícil sair dessa condição. A autora ainda aponta que, a partir da história
de formação do nosso país pautada no racismo,

(...) opções no âmbito da educação profissional sejam marcadas por uma espécie
de baixa autoestima conformando se que somente determinados cursos, como no
caso dos cursos oferecidos pelo Centro Estadual de Educação Profissional, sejam
dignos de suas escolhas (AMARAL, 2013, p. 08).

Esse processo está diretamente relacionado às “imagens de controle”, termo


criado pela socióloga Patrícia Hill Collins (2019), que se refere aos estereótipos
produzidos pela sociedade sobre as pessoas pretas. Lélia González também aborda esse
tema, especialmente em relação às mulheres pretas, como já mencionei anteriormente,
ressaltando o impacto desses estereótipos na percepção que esse grupo tem de si mesmo,
sobretudo no mercado de trabalho. O autor Israel Jairo Santos (2018), em sua dissertação
na área de psicologia social, destaca o quanto essas imagens interferem na formação
psicossocial das pessoas pretas, fazendo com que elas enxerguem um leque limitado de

16
opções ocupacionais atribuídas ao seu grupo social, o que as leva, consequentemente, a
escolher profissões de baixo status social (JAIRO SANTOS, 2018, p. 17). Esses aspectos
aparecem repetidamente nos relatos das sócias do coletivo, como no processo de escolha
da graduação de Patrícia, mencionado anteriormente.

Voltando a ela, depois de sua experiência na primeira empresa e da conclusão do


ensino superior, Pati decidiu mudar de emprego em busca de um lugar onde pudesse
crescer. Conseguiu uma vaga em uma empresa global do ramo alimentício, atuando na
área de contabilidade jurídica. Ela conta que o trabalho era desafiador, mas acreditava
que daria conta. Essa experiência transformou sua vida, pois foi contratada junto com
mais duas moças brancas que realizavam o mesmo trabalho que ela. No início, a
convivência era tranquila, mas, com o passar do tempo, Pati começou a se sentir excluída
pelas colegas e negligenciada pela empresa, até que foi desligada sem um motivo
plausível, enquanto suas colegas permaneceram.

Isso a devastou, afinal, era algo que ela não esperava. Ficou muito triste e pensou
em desistir de tudo, noto que seus olhos se enchem de lágrimas enquanto conta. Por muito
tempo, ficou pensando no que havia feito de errado, por que ninguém a chamou atenção
ou disse que seu trabalho estava ruim, enquanto as colegas que sempre eram repreendidas
continuavam na empresa. Ela havia trocado de emprego na esperança de ganhar mais,
mas foi demitida em apenas três meses, pouco depois de vencer o período de experiência,
ela achava que já tinha sido efetivada, mas não foi assim. Na época, pensou em buscar
outro emprego, mas resolveu ficar um tempo em casa. Pegou o acerto que recebeu e foi
tirar a carteira de motorista. Antes de ser demitida, já havia montado um brechó online,
motivada pelo sonho de realizar uma festa de casamento. Foi a um bazar de igreja com a
sogra, viu roupas baratas e pensou: “Por que não revender?”. Começou a levar as peças
para o trabalho e vendê-las às colegas, criando um perfil no Facebook para divulgar as
roupas. Quando entrou na última empresa, fez uma pausa nas vendas do brechó, mas
assim que foi despedida, pensou em voltar ao negócio, embora quisesse um tempo para
se recuperar do baque. Depois de dois anos em casa, voltou com o brechó. Pesquisando
eventos para participar, descobriu o coletivo, mandou mensagem e começou a expor suas
peças na rua. A amizade foi crescendo e, quando percebeu, já estava garimpando com
elas, saindo para passear, e assim a relação foi se construindo. Ela conta que nunca pensou

17
em voltar ao trabalho CLT, pois o brechó oferece um ambiente confortável, onde se sente
valorizada, algo que não sentia nas empresas.

Hoje, ela se dedica exclusivamente ao coletivo. Inclusive, o período em que esteve


grávida e os meses iniciais do filho só foram possíveis graças ao trabalho autônomo e à
rede de apoio que elas construíram. Ela acredita que grande parte da sua insatisfação
profissional anterior esteve relacionada a questões raciais. Apesar dos altos e baixos
financeiros do empreendedorismo, ela afirma que não trocaria esse trabalho por outro.

Assim como Pati e Elza, Karol também enfrentou situações difíceis em seus
empregos antes de se tornar afroempreendedora. Ela já trabalhou como vendedora em
lojas, atendente em lanchonete, secretária em consultórios odontológicos e escritórios de
advocacia, e, pouco antes do brechó, como hostess em casas noturnas da cidade. Começou
a trabalhar aos 13 anos, acompanhando a avó, que era diarista, para aprender o ofício,
embora não tenha seguido o mesmo caminho, ao contrário de Pati, que, como mencionei
anteriormente, chegou a trabalhar como doméstica por um tempo. Karol sempre
trabalhou, mesmo nos períodos mais difíceis da sua vida. Ela relata ter passado por
situações de racismo nos locais onde trabalhou, o que afetou seu emocional. Sonhava em
atuar ajudando pessoas, na área da saúde ou como assistente social. Começou a fazer um
curso técnico em radiologia na PUC, mas precisou interrompê-lo por questões
financeiras. Transferiu-se para a Faculdade Camões, onde, no mesmo período, Pati
estudava contabilidade, mas sempre se comparava aos primos que estudavam na UFPR.
Nos almoços de domingo, escutava perguntas como: “Nossa, Karol, quando você vai para
a federal?”, o que tornou difícil lidar com essa pressão, e acabou não concluindo o curso.
Em agosto de 2024, Karol concluiu o curso de produção de moda no SENAI, uma
formação de cerca de dois anos que, apesar dos altos e baixos, tem grande importância
para sua vida pessoal e trajetória como empreendedora, pois ela tem aplicado os
conhecimentos adquiridos em seu trabalho na loja.

Já as experiências profissionais de Gabi seguiram uma trajetória diferente da de


suas irmãs e de sua mãe. Antes de se tornar afroempreendedora, ela sempre trabalhou
como modelo. Conta que iniciou sua carreira ainda na adolescência, já que recebia muitos
elogios por sua aparência e por ser muito magra. Desde jovem fez cursos de modelo e
manequim, e não demorou para conseguir trabalhos, principalmente na área da
publicidade. Após concluir o ensino médio, já morando em Curitiba, ingressou na

18
Faculdade de Artes do Paraná, no curso de Artes Cênicas, atuando atualmente como atriz
em propagandas comerciais. A trajetória laboral de Gabi foi bastante distinta. Perguntei
sobre o racismo no mercado da moda, se ela já havia sofrido algum tipo de violência ou
pressão estética, e sua resposta foi

“Eu já senti bastante isso, mas tento não ligar muito. Comecei a ser modelo há
10 anos, fiz curso de modelo e manequim, foi nessa mesma época que passei
pela transição capilar, pois uma professora me deu a ideia, ela se chamava
Lucia, a mamis me apoiou muito, foi cortando aos poucos e deixando ele
natural. Sempre quis ser modelo de passarela, mas sou muito baixinha e com
curvas, isso me impediria se conseguir trabalhos, então eu fui para a área
comercial e de publicidade, mas sempre sendo a única modelo/ atriz negra.”
(Gabriela Reis, 2024).

Ela contou que sempre tentou deixar de lado as situações de racismo para
conseguir realizar os trabalhos, a ponto de, em determinado momento, sua mente
“desligar” como forma de proteção, para que essas experiências não a ferissem. Por ter
consciência de que sua trajetória, antes da loja, foi diferente da de suas irmãs, era comum
ouvi-la torcendo pelo crescimento do brechó, pelo aumento das vendas e pela conquista
de novos contratos na área de produção de moda. Gabi frequentemente dizia: “Preciso
ajudar as minhas irmãs5, pois sei que elas precisam muito!”

Nas falas de todas as sócias, encontrei a mesma intenção: investir suas energias
na construção do trabalho autônomo dentro do coletivo como uma estratégia para atuarem
em um ambiente minimamente seguro frente às violências que são comuns na vida de
mulheres pretas no contexto laboral. Olhar para as experiências do passado, marcadas
tanto pelo racismo estrutural quanto pelo institucional, faz com que desenvolvam
estratégias para não reviverem essas situações. O ato de empreender, para pessoas pretas,
especialmente para as mulheres, pode representar um movimento de fortalecimento da
identidade, empoderamento, valorização da força de trabalho e construção de uma rede
de apoio. Como bem coloca SANTOS (2019),

Poder-se-ia dizer que o afroempreendedorismo caracterizar-se-ia como uma


espécie de empreendedorismo curativo, voltado para reconstrução da
identidade e da saúde da população negra, na medida em que fortalece os
processos de integração social e autovalorização (SANTOS, 2019, p. 62).

5
Apenas Karol e Pati são irmãs de sangue, enquanto Gabi e Elza são mãe e filha biológicas. Ainda assim,
todas se tratam como irmãs, e Elza as considera como filhas. Em um dos capítulos da tese, aprofundo essa
organização de parentesco.

19
Os relatos de Pati, Karol e Elza refletem a inserção histórica das mulheres pretas
no mercado de trabalho brasileiro. Durante todo o período colonial, elas foram colocadas
no papel de cuidar do branco, mas não de si mesmas. Seus corpos foram vistos e utilizados
como ferramentas de servidão doméstica, para limpar casas, cozinhar, amamentar os
filhos dos senhores, satisfazer sexualmente seus patrões e reproduzir mais pessoas pretas
que seriam escravizadas. Com isso, mesmo após o fim da escravidão, as mulheres pretas
enfrentaram dificuldades para se inserir no mercado de trabalho formal. Lélia Gonzalez
(1982) destaca que a intersecção entre raça, sexo6 e classe constitui eixos de existência
que contribuíram fortemente para a construção do lugar ocupado por esse coletivo na
força de trabalho.

Assim como nos movimentos sociais pretos e feministas, os movimentos da classe


trabalhadora também apresentavam dificuldades em compreender a realidade específica
das mulheres pretas e suas diferenças em relação às trabalhadoras brancas. Suas forças de
trabalho eram, na maioria das vezes, direcionadas para setores como a indústria de
alimentos ou de roupas, onde elas se tornavam minoria. “Aqui também o processo de
seleção racial favorece muito mais a operária branca ou ‘morena’ do que a negra”
(GONZÁLEZ, 1982, p. 97). Esse processo contribui para a legitimação de quais funções
e capacidades são atribuídas às pessoas negras, neste caso, às mulheres, do ponto de vista
do capitalismo e do racismo.

Na década de 1950, essa problemática já se evidenciava: a tonalidade da pele preta


era levada em consideração no processo de alocação das trabalhadoras. Mesmo com o
avanço econômico e a ampliação das funções atribuídas às mulheres, as pretas ainda não
se encaixavam nesses novos espaços, seja pelo nível de escolaridade exigido, seja pelo já
conhecido critério da "boa aparência". Essa lógica se perpetua ao longo dos anos e
continua sendo uma questão central nas discussões sobre o mercado de trabalho. Estamos
em 2025 e, apesar dos avanços promovidos pelas ações afirmativas, que abriram portas
para milhares de pessoas pretas, ainda lidamos com um mercado de trabalho estruturado
pelo racismo e pelo machismo, pilares fundamentais para a manutenção do sistema
capitalista.

6
Até os anos 1980, o termo “sexo” era amplamente utilizado nas pesquisas para se referir ao que hoje
denominamos “gênero”.

20
Com isso, as mulheres pretas acabavam tendo dois caminhos: trabalhar como
domésticas ou recorrer a empregos com baixa remuneração e pouca dignidade, estando
constantemente expostas a violências psicológicas por parte de patrões e colegas de
trabalho. Nesse sentido, ao possuir o seu próprio negócio, a mulher preta assume a posição
de senhora do seu próprio destino, rompendo com a dinâmica geracional do trabalho
doméstico e abrindo espaço para a possibilidade de escolha, algo que por muitos anos
nunca lhe foi permitido. Embora o neoliberalismo tenha distorcido e esvaziado o sentido
de ser empreendedor, para a mulher preta esse contexto adquire um significado diferente.
Assim, empreender passa a se constituir como um novo caminho possível, com potencial
emancipatório.

Longe de mim apresentar o ato de empreender como um processo mágico ou como


a solução para problemas tão profundos. No entanto, o que busco evidenciar é que existem
fundamentos distintos quando estamos diante de um modelo de negócio pensado e gerido
por mulheres pretas. Suas motivações são outras, e as transformações, emocionais e
identitárias, são evidentes, ultrapassando os limites entre as sócias e alcançando também
aqueles que estão ao seu redor. O presente pode ser, e muitas vezes é, difícil, mas o
afroempreendedorismo carrega um viés futurista, pois projeta novas possibilidades por
meio do trabalho. Ele “(...) instala um novo paradigma a pautar a história do negro e sua
relação com o trabalho (...)” (SANTOS, 2019, p. 64). Ou seja, assim como a utopia
quilombista que sonha com um espaço seguro para a população negra, o
afroempreendedorismo atua como um movimento que busca repensar estratégias de
mobilidade social através do trabalho.

Ser uma mulher preta que pode escolher com o que vai trabalhar é romper com
estereótipos construídos historicamente e desestabilizar o lugar social que lhe foi
atribuído. E isso gera incômodo: mulheres pretas que possuem uma loja no centro de uma
capital, que carrega no nome o pertencimento, afinal, é o brechó delas, e se é delas, é
porque puderam escolher. E essa escolha incomoda muita gente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este texto integra uma pesquisa em andamento que ainda abordará outras nuances
sobre a vida e o trabalho das sócias analisadas. No entanto, já é possível identificar
aspectos relacionados à estruturação da prática afroempreendedora no contexto

21
apresentado. Durante o mestrado, foquei nas motivações que direcionaram aquelas
mulheres ao afroempreendedorismo, mas agora pude compreender também as motivações
para a continuidade do negócio, nas quais são os pilares que o mantêm vivo mesmo diante
das adversidades.

A construção de pertencimento se destaca como um dos pontos mais fortes na


trajetória das sócias. Ultrapassar as linhas do trabalho e projetar outra realidade de vida,
na qual a rede preta, seja familiar ou de amizades, se fortaleça, é de suma importância.
Elas buscam diariamente adaptar a prática capitalista de forma menos violenta para si e
para os seus, o que legitima a teoria de Maria Angélica Santos, que propõe o
distanciamento do afroempreendedorismo em relação ao empreendedorismo neoliberal.
Esse fator, em diálogo com as experiências laborais do passado, fortalece o que estão
realizando no presente e seus projetos de futuro no mercado de trabalho.

Além disso, em uma cidade tão branca quanto Curitiba, as sócias problematizam
a história única contada por esse território que, orgulhando-se do título de “Europa
Brasileira”, negligencia sistematicamente as influências dos povos pretos e indígenas na
formação local. Empretecer a cultura, a economia e o território curitibano tem sido sua
missão, e acredito que elas estão conseguindo alcançar esse objetivo com muita coragem.

REFERENCIAL BILBIOGRÁFICO

AMARAL. Wilzelei Rejane do. O Negro e o Ensino Profissional: Condicionantes das


escolhas profissionais de Alunos Negros e das Alunas Negras nos Cursos de
Eletromecânica e Edificações na Modalidade Subsequente no CEEP-Curitiba, Centro
Estadual de Ensino Profissional. In: Os Desafios da Escola Pública Paranaense na
Perspectiva do Professor PDE: produções didático pedagógicas. Curitiba. 2013.

BEM PARANÁ . Brechó das Preta: um lugar em Curitiba para se despir do preconceito
e vestir a inclusão. 2024. Disponível em:
[Link]
para-se-despir-do-preconceito-e-vestir-a-inclusao/ . Acesso em 19 de novembro de 2024.
BENTO. Cida. O Pacto da Branquitude. São Paulo. Companhia das Letras. 2022.
CHAGAS. Juliana Silva. Afroempreendedorismo em uma Loja Colaborativa,
Quilombismo e Sentidos da Economia. 2022. Disponível em:
[Link]
yI7czozNToiYToxOntzOjEwOiJJRF9BUlFVSVZPIjtzOjQ6IjI0NjgiO30iO3M6MToia
CI7czozMjoiOGQ4NTZkNDFlODU4NjZjZTBkOTBlZGQzNzhmNmMzN2QiO30%3
D

22
COLLINS. Patricia Hill. Pensamento Feminista Negro: conhecimento, consciência e
política do empoderamento. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. São Paulo. Boitempo.
2019.
EVARISTO. Conceição. Tempo de Nos Aquilombar. 2020. Disponível em:
[Link] . Acesso em 12 de março de 2025.
FANON: Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Tradução de Renato da Silveira.
Salvador. EDUFBA, 2008.
FONTOURA. Julian Silveira Diogo de Ávila. Racismo Reverso: o porquê da sua não-
existência.
GADEA, Carlos A. Negritude e Pós-africanidade: críticas das relações raciais
contemporâneas. Porto Alegre: Editora Sulina, 2013.
GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. 1984. In: GONZALEZ,
Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: Rio de Janeiro: Zahar, 2020, p. 75-93,
com adaptações.
GONZALEZ. Lélia. A Mulher Negra na Sociedade Brasileira. In: O Lugar da Mulher:
estudos sobre a condição feminina na sociedade atual. Org.: Madel T. Luz. Rio de Janeiro.
Edições Graal. 1982, p. 87-106.
GONZALEZ. Lélia. A Categoria Político-cultural de Amefricanidade.1988. In:
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: Rio de Janeiro: Zahar,
2020, p. 127-138, com adaptações.
hooks. bell. Vivendo de Amor. 2000. Disponível em
[Link]
f. Acesso em 28 de marços de 2025.
JAIRO SANTOS. Israel. A Ameaça do Estereótipo em Jovens Negros na Escolha
Profissional. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia
Social da Universidade Federal de Sergipe – PPGPSI - UFS como requisito parcial para
a obtenção do grau de mestre em Psicologia. Sergipe. 2018.
KILOMBA, Grada. Memórias de uma Plantação: episódios de racismo cotidiano.
Tradução de Jess Oliveira. 1. ed. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019.
NASCIMENTO, Abdias. O Quilombismo. São Paulo: Editora Perspectiva, 2019.
OYÊWÙMI. Oyèrónké. A Invenção das Mulheres: construindo um sentido africano para
os discursos ocidentais de gênero. Tradução wanderson flor do nacimento. Rio de Janeiro.
Bazar do Tempo. 2021.
RIBEIRO. Djamila. [Link]
acreditar-em-unicornios/. 2014.
RIBEIRO. Djamila. Lugar de Fala. São Paulo. Polén. 2019.

SANTOS. Maria Angélica dos. O Lado Negro do Empreendedorismos:


afroempreendedorismo em movimento black money. Belo Horizonte. Editora
Letramento. 2019.
TEIXEIRA. Juliana. Trabalho Doméstico. São Paulo. Jandaíra. 2021.

23

Você também pode gostar