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Não há nenhuma cultura conhecida no mundo que não tenha alguma
forma de música, e alguns dos artefatos humanos mais antigos são
instrumentos musicais (por exemplo, tambores e flautas feitas de ossos).
De fato, o ato de fazer música antecede a agricultura nos registros
arqueológicos. (LEVITIN, 2003, p. 25)
Considerando que temos a tendência de dicotomizar, normalmente quando
falamos e teorizamos sobre os diferentes sentidos (tato, olfato, paladar, visão e
audição) pensamos neles de forma separada. Contudo, na experiência existencial, ou
seja, no ato de viver, um sentido perpassa pelo outro. O olfato tem relação direta com o
paladar; o aroma, quando agradável, intensifica os sabores. O tato possibilita à
intelectualidade a percepção das texturas. Essas informações são gravadas, refutadas
e/ou confirmadas também pela visão. Os diferentes objetos, através da vibração de
seus corpos, produzem sons; esses sons específicos são associados visualmente aos
objetos que os produzem. Da mesma forma, muitos sons específicos nos fazem lembrar
imagens específicas; assim como determinadas imagens nos fazem lembrar de
determinados sons.
Enfrentando a problemática sobre as relações entre o sonoro e o visual e seus
aspectos históricos e estéticos – Yara Caznok, pesquisadora na área da percepção
musical, identifica uma corrente estético-filosófica denominada “estética referencialista”,
a qual acredita que:
a música tenha seu significado assentado sobre a possibilidade de o
mundo sonoro remeter o ouvinte a um outro conteúdo que não o
musical: ele se torna meio para atingir algo que está além dele.
Expressar, descrever, simbolizar ou imitar essas referências
extramusicais – relações cosmológicas ou numerológicas, fenômenos da
natureza, conteúdos narrativos e afetivos, entre outras possibilidades –
seriam a razão de ser de um discurso musical. (CAZNOK, 2003, p. 23)
Nesse sentido, a música não está restrita apenas à condição sonora, mas se torna uma
ponte para conduzir o ouvinte ao encontro de outros estados perceptivos. Para essa
corrente estético-filosófica a razão de ser da música justifica-se na capacidade que ela
tem de relacionar o ouvinte aos mais diversos conteúdos.
Ora, nessa perspectiva, a experiência musical (considerando também a memória
e a imaginação) pode ser – além de uma experiência transcendental – também uma
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experiência visual, olfativa, gustativa ou táctil. Daí, provavelmente, a ideia tão comum
entre músicos da associação do timbre do instrumento com a “cor” do som que ele
produz. Sendo que a própria ideia de cor, segundo diversos músicos, é uma das formas
mais fáceis de se explicar o que é o timbre de um instrumento. Nesse sentido:
No âmbito musical, a associação dos timbres dos instrumentos às cores,
por exemplo, não desperta mais nenhuma polêmica. [...] Entre todas as
formas de relacionamento audiovisual, a correspondência entre os sons
e as cores é a mais antiga e comum, e geralmente refere-se aos timbres
ou às alturas (frequências). Muitos termos integrantes do vocabulário
cotidiano dos músicos explicitam a relação entre sons e cores: tom,
tonalidade, cromatismo, color, coloratura, entre outros. (CAZNOK, 2003,
p. 27)
O ritmo, outro dos aspectos específicos da música, também não é restrito
somente ao universo musical, podendo ser facilmente identificado nas dinâmicas das
temporalidades sociais e individuais. O ritmo faz parte da pulsação da vida, desde a
batida do coração ao caminhar. Desde o ler e escrever ao fazer amor. Os diferentes
ritmos de vida se revelam sob os diferentes espaços: do campo à cidade, da agitada
vida noturna aos calmos passeios matinais. Ritmo indica uma certa regularidade
temporal. Ninguém vive completamente ausente dessa regularidade, as sociedades
primitivas se regulavam pelo sol e pelas estações do ano; necessitavam, para sua
sobrevivência, saber as épocas certas de plantar e colher. O entendimento das
temporalidades traduz-se no conhecimento abstrato da invenção do calendário, que é
uma forma de calcular o tempo através das estações do ano, das horas do dia, dos
acontecimentos que se repetem. De acordo com os diferentes calendários – por
exemplo: Cristão (solar), Islâmico (lunar) ou Hebreu (lunissolar) – têm-se diferentes
temporalidades, diferentes dias festivos e feriados, diferentes ritmos no que tange o
mundo da cultura. Ora, se podemos identificar ritmos específicos nas temporalidades
sociais, é de se supor que também podemos identificar temporalidades sociais
específicas nos diferentes ritmos musicais.
Por exemplo, desde a invenção do relógio mecânico na Idade Média, novos
ritmos invadem a vida cotidiana. No início do século XV começa a difusão dos relógios
portáteis, ou de bolso. Eles são dotados de mecanismos de molas e considerados
25
objetos de prestígio na época. Em 1577 Jost Bürgi, relojoeiro, matemático e astrônomo,
nascido na atual Suíça, introduz nos relógios o ponteiro dos minutos. O uso do relógio
relaciona-se a aspectos socioculturais e econômicos, sendo imprescindível para as
novas configurações características das Revoluções Industriais nos séculos XVIII e XIX.
Sociedades modernas e pós-modernas necessitam do tempo do relógio: as escolas, os
escritórios, as indústrias e as empresas têm seus ritmos próprios. Por outro lado, as
pequenas cidades, o campo, os espaços amazônicos ribeirinhos e indígenas possuem
ritmos que contrastam aos ritmos impostos pelos espaços urbano-capitalista-industriais.
Essas particularidades rítmicas e sonoras estarão impressas, de uma forma ou de
outra, nas produções musicais.
1.1 SONS VISUAIS, IMAGENS SONORAS: MÚLTIPLAS POSSIBILIDADES MUSICAIS
De modo geral, considerando o senso comum, sentimos muito mais a música do
que a pensamos, ou, falando de outra forma, vivenciamos muito mais a música do que
refletimos sobre seus aspectos psíquicos e sociais. Música foi feita para ser sentida,
ouvida, vivenciada. Contudo, essa apreciação puramente sensível da música nos
conduz à uma conclusão apressada de que a música é simplesmente relacionada à
dimensão sonora. Ou em outras palavras, se nos for pedido uma resposta rápida do
que é música, provavelmente diremos: música é som! Acontece que, considerando a
música enquanto fenômeno, ou seja, a experiência musical, a resposta a essa pergunta
deverá ser bem mais ampla. Quando ouvimos música, diversos elementos cognitivos e
emocionais entram em ação. Os diferentes timbres, alturas e ritmos, as letras e os
diversos sons que podem se apresentar nas músicas (como barulhos de água, canto de
pássaros, buzinas de carro, etc.) despertam a nossa memória trazendo ao presente
imagens e sensações pretéritas, lembranças. Esse é um poder da memória, trazer ao
presente o que estava ausente. A inteligibilidade e emotividade, embaladas pelo estado
de ânimo, organizarão esse mosaico de ideias configurando uma percepção específica
ou uma sequência de percepções proporcionadas por essa experiência musical.
Enquanto a memória revive o pretérito, a imaginação faz prospectivas de futuro. Mas
toda essa construção (no sentido de experiência) não se processa no ser considerando-
26
se apenas o elemento “som”. Através da música formam-se imagens. É o que afirma
Caznok:
...reparou-se que a participação da visão num domínio tido como
eminentemente auditivo é uma ocorrência muito comum e que
independe de gênero, estilo ou período histórico. Não só a música vocal
– pela sugestão imagética trazida pelo texto – propiciaria o
comparecimento da visão na audição, mas também a música
instrumental teria laços com conteúdos visuais. (2003, p. 20)
Partindo da ideia de sinestesia e apoiada na fenomenologia de Merleau-Ponty,
Caznok demonstra que a experiência musical é muito mais do que “simplesmente” ouvir
sons. Inteligibilidade e emotividade misturam-se no ouvir música. Em outras palavras,
razão e emoção, sob diferentes níveis, interagem na experiência musical. Essa
experiência é uma experiência do ser; do ser que ouve, sente, imagina e se projeta
mentalmente. Ora, a essência da música, portanto, não pode escapar à essência do
ser. Trazemos em nós, desde o nascimento, algo que é musical; e esse musical irá se
apresentar sob miríades de aspectos no decorrer de nossas vidas. “Há muitas
evidências sugerindo que, ao nascer, os bebês já estão predispostos a prestar atenção
aos elementos musicais da fala e dos padrões sonoros. [...] Teoricamente, a música e a
linguagem poderiam interagir de diversas maneiras no desenvolvimento infantil.” (ILARI,
2006, p. 276)
Contemporaneamente o estudo da música é creditado a diversas áreas do
conhecimento. Abordagens filosóficas, psicológicas, sociológicas e antropológicas são
comuns. De modo geral, todas as áreas do saber que estudam sobre o humano têm em
seus subcampos trabalhos investigando o fenômeno musical. A própria teoria da
música, hoje, vale-se de abordagens não musicais para fazer muitos de seus
desdobramentos. A musicologia e a musicoterapia, por exemplo, estudam a música sob
diversos prismas: desde o pedagógico e estético ao terapêutico. Há, portanto, um
resgate do som como sentido. A música não acontece dissociada do fato social, pelo
contrário, está totalmente imbrincada a ele. Podemos dizer que a música é portadora de
características psicossociais poderosas, interagindo na dinâmica em que os seres
humanos habitam o planeta.
27
1.2 MOUSIKÉ: AS MUSAS, FILHAS DA MEMÓRIA...
Ao considerar a proposta de refletir sobre um conceito de música mais
abrangente do que os indicados pelos tradicionais manuais, observaremos como o
conceito “música” foi pensado e desenvolvido a partir da filosofia grega antiga, mais
especificamente a escola pitagórica. Isso será interessante para que possamos
ultrapassar alguns limitantes de nossa própria visão cultural e, assim, refletir de forma
mais aberta sobre outras possibilidades e significados que possam existir na música.
Nesse sentido, as bases que constituem a essência musical também fazem parte
da própria experiência do ser no mundo; e essas bases (ou em outras palavras, a
música) podem possibilitar uma conexão com o mundo e uma compreensão mais
organizada dele. Segundo Schafer:
A música existe porque nos eleva, transportando-nos de um estado
vegetativo para uma vida vibrante. Algumas pessoas (seguindo filósofos
como Schopenhauer e Langer) acreditam que música é uma expressão
idealizada das energias vitais e do próprio Universo [...] A música existe
para que possamos sentir o eco do Universo, vibrando através de nós.
(2011, p. 283)
Essa ideia, da música compreendida como algo mais abrangente, capaz de nos
conectar com o cosmo não é nova, podendo ser encontrada nas raízes da filosofia
grega, desde alguns dos pré-socráticos. Segundo Tomás:
O que se pode dizer em linhas gerais é que o pensamento musical
grego concebe o fenômeno musical de um modo complexo e multiforme,
visto que entre os gregos a música mantinha vínculos muito íntimos com
a medicina, a astronomia, a religião, a filosofia, a poesia, a métrica, a
dança e a pedagogia. (2002, p. 28)
Entramos aqui em uma questão conceitual. Os conceitos também possuem
historicidade, ou seja, possuem diferentes significados e valores de acordo com os seus
tempos e lugares. Isso acontece também com o conceito de música oriundo da filosofia
grega antiga, mais especificamente falando o conceito de mousiké dos pitagóricos.
Através desse conceito a música é mais do que simples organização dos sons. Ela,
28
além de estar ligada com as técnicas musicais em si, vai além e relaciona-se com os
macro-conceitos de harmonia, cosmos e logos.
Observando as representações míticas que envolvem o termo, a musa que teria
dado nome a essa arte seria Mnemosine, filha da recordação (memória). Aqui vemos a
relação que a ideia de música possui com a capacidade cognitiva da memória e
inteligência, algo imprescindível para a fama dos poetas e intelectuais gregos.
Etimologicamente, portanto, mousiké significa: “arte das Musas”. Esta, “desdobra-se no
mundo grego de maneira sofisticada e poliédrica, doando aos homens a inspiração
poética e o conhecimento; como concretude das filhas da Memória” (TOMÁS, 2002, p.
50).
Para os pitagóricos, a fonte da música, ou seja, o som, só poderia advir de algo
maior e transcendental, o universo. A música seria, de certa forma, um tipo específico
de percepção do som universal. Logo, essa percepção sonora traz em si as
características essenciais do próprio universo. Esse assunto foi tratado pelos
pitagóricos e a professora de estética musical e história da música, Lia Tomás,
desenvolve esse tema de forma muito interessante em seu livro “Ouvir o logos: música
e filosofia”. Segundo a autora:
É reconhecido que os pitagóricos foram responsáveis por alguns
avanços no campo das ciências matemáticas, porém é necessário
salientar que a compreensão deles sobre essa área era um pouco
diferente da nossa [possuíam uma visão simultaneamente religiosa-
espiritual e científico-filosófica] [...] Para eles, os números eram uma
realidade independente responsável pela harmonia, o princípio que
governa a estrutura do mundo, e simbolizavam ainda qualidades morais
e outras abstrações. (2002, p. 92)
Ou seja, para os pitagóricos tudo é número, e os números são os modelos essenciais
das coisas sem os quais não poderíamos tornar o mundo inteligível. Essa relação dos
números enquanto essência abstrata possibilitadora do inteligível nos remete ao lógos,
à capacidade de significação, de transmissão do conhecimento através de palavras.
Lembremos que os números (e além deles a própria notação musical) na língua grega
são escritos através de letras ou pontos; sendo, portanto, números, letras e notação
musical elementos facilmente intercambiáveis.
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A filosofia grega antiga, ou mais especificamente o período pré-socrático ou
cosmológico, tem por pressuposto o conhecimento da natureza e o exercício
argumentativo, e parte do princípio de que o mundo tem uma certa ordem e, portanto,
pode ser compreendido e explicado. O que possibilita esse entendimento e essa
explicação é justamente o logos. É através do logos (que é uma palavra polissêmica,
significando simultaneamente: pensamento, palavra, estudo e razão) que podemos
pensando o mundo, descrevê-lo com palavras, estudá-lo e torná-lo inteligível (razão3).
Portanto, é somente através do logos que podemos descobrir a ordenação do mundo. E
essa é, justamente, a ideia do conceito grego de kósmos, “mundo ordenado” (CHAUÍ,
2011).
Sobre esse tema o Dicionário de Filosofia Nicola Abbagnano pode nos trazer
algumas informações interessantes. Duas definições principais são dadas à música: a
primeira a considera como uma realidade privilegiada e divina revelada ao ser humano;
já a segunda, como um conjunto de técnicas relacionadas à sintaxe dos sons. Ainda de
acordo com o dicionário, na primeira definição podem ser distinguidas duas fases:
a) para a primeira, o objeto da música é a harmonia como característica
divina do universo; portanto, considera a música como uma das ciências
supremas; b) para a segunda, o objeto da música é o princípio cósmico
(Deus, Razão Autoconsciente ou Vontade Infinita, etc), e a música é a
auto-revelação desse princípio na forma de sentimento. [...] [e ainda,
considerando os pitagóricos] A função e os caracteres da harmonia
musical são idênticos à função e aos caracteres da harmonia cósmica: a
música é, portanto, o meio direto para elevar-se ao conhecimento dessa
harmonia. (2007, p. 689)
Sobre a harmonia, Estobeu, transcrevendo uma sequência de passagens atribuídas ao
filósofo pitagórico Filolau acrescenta:
Ora, as coisas semelhantes e homogêneas não tinham necessidade
alguma de uma harmonia; mas as coisas dessemelhantes, não-
3
É importante lembrar que a palavra razão, no sentido da filosofia grega antiga, não possui exatamente o
mesmo significado que a palavra razão considerando o Iluminismo e consequentemente a modernidade.
Enquanto a razão moderna tem seus princípios pautados no reificado, ou seja, apenas naquilo que pode
ser provado objetivamente; a razão na filosofia grega antiga traduz-se pelo princípio de não contrariedade
e pela busca da verdade através da argumentação e da inteligência, mas é muito mais flexível no que
tange à necessidade de comprovações exclusivamente objetivas; tratando, portanto, de diversas
questões abstratas, denominadas por alguns de metafísicas.