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Educação Financeira no Ensino Médio

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Ministério da Educação

Secretaria de educação Profissional e Tecnológica


Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco
ESPECIALIZAÇÃO EM MATEMÁTICA COMERCIAL, CONTÁBIL, ECONOMICA,
ATUARIAL E FINANCEIRA

Paulo César Victor Holanda

A NECESSIDADE DA IMPLANTAÇÃO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO


CURRÍCULO OBRIGATÓRIO DO ENSINO MÉDIO

Recife
2025
Paulo César Victor Holanda

A NECESSIDADE DA IMPLANTAÇÃO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO


CURRÍCULO OBRIGATÓRIO DO ENSINO MÉDIO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado à Coordenação do curso de
Matemática Comercial, Contábil,
Econômica, Atuarial e Financeira do
Instituto Federal de Pernambuco, campus
Recife, como requisito parcial à obtenção
do título de Especialista em Matematica
Comercial, Contábil, Econômica, Atuarial e
Financeira.

Orientador(a): Prof. Alandeives de


Almeida Souto, MSc.

Recife

2025
Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Danielle Castro da Silva CRB4/1457

H722n
2025 Holanda, Paulo César Victor

A necessidade da implantação da educação financeira no Currículo obrigatório


do ensino médio / Paulo César Victor Holanda. --- Recife: O autor, 2025.

40f. il. Color.

Trabalho de Conclusão (Especialização em Matemática Comercial, Contábil,


Econômica, Atuarial e Financeira) – Instituto Federal de Pernambuco, Recife, 2025.

Inclui Referências.

Orientador: Prof. Me. Alandeives de Almeida Souto.

1. Educação financeira. 2. Ensino Médio. 3. BNCC. 4. Políticas Públicas I.


Título. II. Souto, Alandeives de Almeida (orientador). III. Instituto Federal de
Pernambuco.

CDD 332
Paulo César Victor Holanda

A NECESSIDADE DA IMPLANTAÇÃO DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA NO


CURRÍCULO OBRIGATÓRIO DO ENSINO MÉDIO

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado a Coordenação do curso de
Matemática Comercial, Contábil,
Econômica, Atuarial e Financeira do
Instituto Federal de Pernambuco, campus
Recife, como requisito parcial à obtenção
do título de Especialista em Matematica
Comercial, Contábil, Econômica, Atuarial e
Financeira.

Aprovado em: / / .

BANCA EXAMINADORA

Orientador: Prof. Me. Alandeives de Almeida Souto.


IFPE – Campus Recife

Prof. Me. Eli André de Barros Filho


IFPE – Campus Recife

Prof. Dra. Renata Cristine de Sá Pedrosa Dantas,


IFPE – Campus Recife

Recife
2025
Dedico este trabalho ao meu amado filho, Daniel,
cuja existência ilumina meus dias e dá sentido à
minha jornada. Que o esforço aqui empregado
sirva como inspiração para você buscar sempre o
conhecimento e acreditar que todos os sonhos
podem se tornar realidade. A você, que mesmo
sem entender plenamente este momento, me
ensinou o valor da resiliência, da paciência e do
amor incondicional. Obrigado por ser minha
maior motivação e alegria.
AGRADECIMENTOS

Manifesto minha sincera gratidão a todos que, direta ou indiretamente, contribuíram


para a concretização deste trabalho. Em primeiro lugar, agradeço a Deus por ter-me concedido
saúde, sabedoria e perseverança ao longo desta jornada acadêmica. À minha esposa, Hellen,
expresso especial reconhecimento e apreço. Sua presença constante, seu apoio incondicional e
sua compreensão diante dos desafios enfrentados foram fundamentais para a superação dos
obstáculos e a conclusão deste trabalho. Seu incentivo nos momentos de incerteza e sua
dedicação silenciosa representaram um alicerce sólido durante todo o percurso. Ao professor e
orientador Alandeives, agradeço pela orientação criteriosa, pelas contribuições valiosas e pela
disponibilidade durante todo o processo de elaboração deste Trabalho de Conclusão de Curso.
À Professora Doutora Renata, expresso profunda gratidão pela leitura atenta, pelas sugestões
rigorosas e pela dedicação incansável na análise deste trabalho, cuja versão final foi
significativamente enriquecida por suas contribuições.
"A educação financeira deve ser considerada uma habilidade essencial para a vida, assim
como a leitura e a escrita."
(Annamaria Lusardi)
RESUMO

O presente trabalho analisa e justifica a importância da inclusão da educação financeira no


currículo obrigatório do Ensino Médio, com o objetivo de preparar os estudantes para lidar de
forma consciente e responsável com questões financeiras ao longo de suas vidas. A pesquisa
aborda a relação do Brasil com a OCDE, a inclusão da Educação Financeira na Base Nacional
Comum Curricular (BNCC), os impactos da ausência dessa disciplina na vida dos jovens, o
problema dos jogos de apostas, e exemplos de políticas públicas em outros países. Os
resultados indicam que, embora iniciativas como a Estratégia Nacional de Educação
Financeira (ENEF) e o reconhecimento da Educação Financeira como política pública de
Estado representem avanços importantes, sua aplicação ainda é incipiente, com resultados
limitados nas escolas brasileiras. O estudo, com base em análises teóricas, sugere
investigações futuras sobre os impactos práticos dessa disciplina na vida dos jovens e seus
efeitos em diferentes contextos socioeconômicos. Conclui-se que a inclusão da educação
financeira no currículo escolar é essencial para formar cidadãos conscientes, contribuindo
para uma sociedade mais equilibrada e sustentável financeiramente.

Palavras-chave: educação financeira; ensino médio; BNCC; políticas públicas.


ABSTRACT

This study analyzes and justifies the importance of including financial education in the
mandatory curriculum of high school, aiming to prepare students to deal consciously and
responsibly with financial matters throughout their lives. The research discusses Brazil's
relationship with the OECD, the inclusion of Financial Education in the National Common
Curricular Base (BNCC), the impacts of its absence on young people's lives, the problem of
gambling, and examples of public policies in other countries. The results indicate that,
although initiatives such as the National Financial Education Strategy (ENEF) and the
recognition of Financial Education as a state public policy represent significant progress, their
implementation remains incipient, with limited outcomes in Brazilian schools. Based on
theoretical analyses, the study suggests future research on the practical impacts of this
discipline on young people's lives and its effects in different socioeconomic contexts. It
concludes that including financial education in the school curriculum is essential to shape
conscious citizens, contributing to a more balanced and financially sustainable society.

Keywords: financial education; high school; BNCC; public policies.


LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1: NÚMERO DE PESSOAS INADIMPLENTES POR FAIXA ETÁRIA E


SEXO/ESTIMATIVA DE INADIMPLENTES POR FAIXA ETÁRIA..................................18

FIGURA 2: PARTICIPAÇÃO NOS CICLOS DE AVALIAÇÃO DE LITERACIA


FINANCEIRA DO PISA ENTRE OS PAÍSES E ECONOMIAS PARTICIPANTES NA
AVALIAÇÃO DE LITERACIA FINANCEIRA DO PISA 2022............................................26

FIGURA 3: COMPARAÇÃO DO DESEMPENHO MÉDIO DOS PAÍSES E DAS


ECONOMIAS EM TERMOS DE LITERACIA
FINANCEIRA..........................................................................................................................28

FIGURA 4: PROPOSTA PEDAGÓGICA DA ENEF..............................................................33

FIGURA 5: LINHA DO TEMPO DA ENEF E FASES DA POLÍTICA DE EDUCAÇÃO


FINANCEIRA NO BRASIL....................................................................................................35
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CONEF Comitê Nacional de Educação Financeira

ENEF Estratégia Nacional de Educação Financeira

OCDE Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico

BNCC Base Nacional Comum Curricular

PISA Programa Internacional de Avaliação de Estudantes


(Program International Student Assessment)

HCI Interação humano-computador


(Human-Computer Interaction)

EBF Federação Bancária Europeia


(European Banking Federation)

FGB Formação Geral Básica


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 12

2 OBJETIVOS .................................................................................................................. 13

2.1 OBJETIVO GERAL ....................................................................................................... 13

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS.......................................................................................... 13

3 REFERENCIAL TEÓRICO .......................................................................................... 14

3.1 A RELAÇÃO DO BRASIL COM A OCDE..................................................................15

3.2 A EDUCAÇÃO FINANCEIRA NA BNCC.................................................................16

3.3 O IMPACTO DA AUSÊNCIA DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA NA VIDA DOS


JOVENS................................................................................................................................17

3.4 O PROBLEMA DOS JOGOS DE APOSTAS NA VIDA FINACEIRA DOS JOVENS


BRASILEIROS.....................................................................................................................19

3.5 A EDUCAÇÃO FINANCEIRA COMO OBRIGATÓRIDADE NAS ESCOLAS DE


ENSINO MÉDIO NOS PAÍSES PELO MUNDO................................................................21

3.6 RESULTADOS DO PISA 2022...................................................................................25

3.7 POLÍTICAS PÚBLICAS E RECOMENDAÇÕES......................................................29

4. CONCLUSÂO..............................................................................................................36

REFERÊNCIAS.................................................................................................................... 39
12

1. INTRODUÇÃO
De acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico
(OCDE, 2024), a educação financeira tem se consolidado como um tema central nas
discussões sobre a formação de cidadãos mais conscientes e aptos a enfrentar os desafios
econômicos da vida adulta. No Brasil, o Decreto nº 10.393, de 9 de junho de 2020,
representou um avanço significativo ao instituir a Estratégia Nacional de Educação Financeira
(ENEF), estabelecendo diretrizes para promover a educação financeira de maneira integrada e
abrangente, desde a educação básica (BRASIL, 2020).
Complementando os esforços normativos, a 11ª Semana Nacional de Educação
Financeira (Semana ENEF), realizada de 13 a 19 de maio de 2024 pelo Fórum Brasileiro de
Educação Financeira (FBEF), reuniu representantes do Banco Central, Ministério da
Educação (MEC), Comissão de Valores Mobiliários (CVM), Superintendência de Seguros
Privados (SUSEP), entre outras instituições públicas e privadas, além de especialistas da área.
O evento promoveu debates e iniciativas voltadas à ampliação da educação financeira no
cotidiano escolar, destacando a importância de sua inclusão efetiva no currículo do Ensino
Médio como componente estruturante para o desenvolvimento das competências gerais dos
estudantes (FBEF, 2024).
O panorama atual revela que, apesar dos avanços e das iniciativas institucionais,
muitas escolas ainda enfrentam dificuldades para integrar a educação financeira de forma
efetiva em seus currículos. Lacunas na formação de professores, escassez de recursos
didáticos e ausência de uma abordagem pedagógica estruturada estão entre os principais
obstáculos (BUFALO; PINTO, 2023; FREITAS et al., 2017). Além disso, a falta desse
conhecimento desde os primeiros anos escolares contribui para consequências tangíveis na
vida dos jovens, como endividamento precoce, inadimplência e ausência de planejamento
financeiro (KLAPPER; LUSARDI; OUDHEUSDEN, 2015; SANTOS; NETTO, 2020).
Diante desse cenário, este Trabalho de Conclusão de Curso tem como objetivo
analisar a necessidade e os benefícios da inserção da educação financeira como disciplina
obrigatória no currículo do Ensino Médio no Brasil. A partir de uma revisão abrangente da
literatura especializada, busca-se identificar boas práticas, os desafios enfrentados e as
estratégias recomendadas para a inclusão eficaz dessa disciplina nas escolas. Com isso,
pretende-se contribuir para a formação de uma geração mais consciente, autônoma e
preparada para tomar decisões financeiras responsáveis e sustentáveis ao longo da vida.
13

2. OBJETIVOS

A educação financeira tem se consolidado como uma competência essencial para a


formação de cidadãos conscientes e capazes de tomar decisões informadas sobre o uso de
recursos financeiros ao longo da vida. No Brasil, o alto índice de inadimplência entre a
população evidencia a fragilidade na formação relacionada à gestão financeira básica. Esse
cenário reforça a necessidade urgente de incluir a educação financeira no currículo obrigatório
do Ensino Médio, como forma de capacitar os jovens a administrar suas finanças de maneira
eficiente, prevenindo o endividamento e promovendo maior estabilidade econômica futura.

2.1 OBJETIVO GERAL

Analisar e justificar a importância da inclusão da educação financeira no currículo


obrigatório do Ensino Médio, com o intuito de preparar os estudantes para lidar, de forma
consciente e responsável, com questões financeiras ao longo de suas vidas.

2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

1. Investigar o panorama atual da educação financeira nas escolas de Ensino Médio no


Brasil, por meio da revisão da literatura acadêmica e de relatórios institucionais,
identificando lacunas e desafios na abordagem do tema.
2. Analisar os impactos da ausência de educação financeira entre os jovens, com ênfase
em aspectos como endividamento, inadimplência e falta de planejamento financeiro,
com base em dados empíricos e estudos disponíveis.
3. Examinar experiências bem-sucedidas de inclusão da educação financeira no currículo
escolar em outros países, identificando lições e práticas relevantes que possam ser
adaptadas ao contexto brasileiro.
4. Refletir sobre recomendações de políticas públicas e ações governamentais que
contribuam para a efetiva inclusão da educação financeira no currículo obrigatório do
Ensino Médio, com base nas conclusões obtidas por meio da revisão bibliográfica.
14

3. REFERENCIAL TEÓRICO

3.1 A RELAÇÃO DO BRASIL COM A OCDE

A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é uma


instituição internacional composta por 38 países-membros, criada em 1961, com o objetivo de
promover políticas que contribuam para o bem-estar econômico e social em escala global.
Atua como um fórum de cooperação e diálogo, no qual os governos compartilham
experiências, analisam desafios comuns e desenvolvem soluções para promover o
desenvolvimento sustentável e inclusivo (OCDE, 2024).
A relação do Brasil com a OCDE teve início em 1994, quando o país passou a integrar
o Centro de Desenvolvimento da organização. Desde então, o Brasil tem ampliado sua
participação em comitês e iniciativas da entidade, buscando o alinhamento de suas políticas
públicas aos padrões internacionais recomendados. Em 2022, foi oficialmente convidado a
iniciar o processo de adesão formal, representando um marco importante para a consolidação
de sua integração econômica, institucional e social no cenário global (OCDE, 2022).
Entre os campos de destaque dessa cooperação está a educação financeira. A OCDE é
reconhecida internacionalmente como uma referência na formulação de diretrizes para
políticas educacionais voltadas ao letramento financeiro, recomendando sua inserção nos
currículos escolares como estratégia para o desenvolvimento de competências essenciais para
a vida cidadã. No contexto brasileiro, essa influência é perceptível na criação da Estratégia
Nacional de Educação Financeira (ENEF), lançada em 2010, por meio do Decreto nº
7.397/2010. Coordenada pelo Comitê Nacional de Educação Financeira (CONEF), a ENEF
reúne representantes de órgãos governamentais, entidades do setor financeiro e organizações
da sociedade civil com o propósito de fomentar a cultura do planejamento financeiro, da
poupança e da gestão consciente dos recursos pessoais (BRASIL, 2010).
15

3.2 A EDUCAÇÃO FINANCEIRA NA BNCC

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento normativo que orienta os


currículos da educação básica no Brasil, reconhece a educação financeira como um tema
contemporâneo, a ser abordado de forma transversal e interdisciplinar. Segundo o documento:

Cabe aos sistemas e redes de ensino, assim como às escolas, em suas


respectivas esferas de autonomia e competência, incorporar aos currículos e às
propostas pedagógicas a abordagem de temas contemporâneos que afetam a vida
humana em escala local, regional e global, preferencialmente de forma transversal e
integradora. Entre esses temas, destacam-se: vida familiar e social, educação para o
consumo, educação financeira e fiscal (BRASIL, 2018, p. 19–20).

Apesar desse reconhecimento, a abordagem conferida à educação financeira na BNCC


revela-se limitada. O tema costuma ser tratado de forma secundária, diluído entre áreas como
Matemática e Ciências Humanas, o que dificulta uma compreensão mais aprofundada e
sistemática do conteúdo. Essa situação compromete o desenvolvimento de competências
essenciais ao exercício da cidadania econômica.
Embora a educação financeira esteja mencionada em algumas competências gerais e
componentes curriculares, a ausência de uma diretriz clara e obrigatória na Formação Geral
Básica (FGB) impede que o tema seja trabalhado de maneira regular e consistente em todas as
instituições de ensino. Isso compromete a equidade no acesso ao conhecimento financeiro,
pois muitos professores não recebem formação adequada para abordar o tema, e as escolas,
por sua vez, enfrentam dificuldades para integrá-lo de forma prática e efetiva ao currículo.
Como resultado, a abordagem tende a ser superficial e pontual.
Em um país marcado por elevados índices de endividamento e por uma baixa cultura
de poupança, a inexistência da educação financeira como componente estruturado da
formação básica compromete a preparação dos estudantes para a vida adulta. Esse déficit
limita a formação de uma geração economicamente consciente, capaz de tomar decisões
financeiras fundamentadas e responsáveis.
16

3.3 O IMPACTO DA AUSÊNCIA DA EDUCAÇÃO FINANCEIRA NA VIDA DOS


JOVENS

Com a aprovação da Lei nº 12.852, de 2013, que institui o Estatuto da Juventude e


orienta as políticas públicas voltadas a esse grupo, foi estabelecido o intervalo etário de 15 a
29 anos para a caracterização da população jovem brasileira. Essa fase da vida é marcada por
aspectos físicos, psicológicos, biológicos e comportamentais significativos (BRASIL, 2013).
Segundo Pais (1990, apud MARQUES, E. V. et al., 2020), a juventude representa um período
em que os indivíduos estão particularmente suscetíveis às influências sociais, por se tratar de
uma etapa de descobertas e incertezas, frequentemente permeada por desafios como a
inserção no mercado de trabalho.
Destaca-se que esse grupo é especialmente vulnerável às diversas ofertas de crédito,
cada vez mais sedutoras por parte das instituições financeiras. Com propostas atrativas, essas
organizações facilitam o acesso ao crédito, disponibilizando cartões, empréstimos,
financiamentos e outros produtos. Nesse contexto, os jovens passam a ser vistos como um
público-alvo estratégico. Para captar sua atenção, as campanhas publicitárias costumam
adotar uma linguagem adaptada ao universo juvenil, utilizando gírias, expressões populares e
apelos emocionais (TEIXEIRA, 2012, apud MARQUES, E. V. et al., 2020).
Na sociedade capitalista contemporânea, os desejos são frequentemente satisfeitos de
forma imediata, o que incentiva hábitos de consumo impulsivos entre os jovens (PELICIOLI,
2011, apud MARQUES et al., 2020). Essa realidade, associada à ausência de planejamento
financeiro e à falta de uma educação financeira estruturada, contribui significativamente para
o aumento do endividamento nesse público. Conforme demonstra a Figura 1, dados da
Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito
(SPC Brasil) indicam que, em 2025, 20,55% dos jovens entre 18 e 29 anos estavam
inadimplentes, totalizando aproximadamente 14,13 milhões de pessoas. Além disso, Pelicioli
(2011, apud MARQUES et al., 2020) ressalta que, mesmo após o ingresso no ensino superior,
muitos jovens demonstram pouca preocupação com o futuro financeiro, o que reflete uma
desatualização econômica e a persistência do analfabetismo financeiro.
Uma pesquisa conduzida pelo Ibope Inteligência, a pedido do C6 Bank, revelou que
apenas 21% dos 2.000 entrevistados tiveram contato com educação financeira na infância.
Para a maioria, esse aprendizado ocorreu de maneira tardia, ao longo da vida adulta (FLACH,
2020). Esse dado evidencia a importância de promover a educação financeira desde os
17

primeiros anos da formação escolar.


A educação financeira desempenha papel fundamental na melhoria das condições e da
saúde financeira dos indivíduos. Sua ausência aumenta significativamente o risco de
endividamento e inadimplência (SANTOS; NETTO, 2020, apud MARQUES, E. V. et al.,
2020). Trata-se de uma ferramenta social que capacita os cidadãos a participarem de forma
mais ativa, crítica e consciente no ambiente econômico em que estão inseridos. Além de
contemplar o funcionamento de instrumentos financeiros, a educação financeira também
aborda aspectos relacionados à tomada de decisão e ao consumo consciente (CAMPOS, 2013,
apud MARQUES, E. V. et al., 2020).
É essencial que a população tenha acesso a essa formação, considerando a
complexidade do mercado e de seus mecanismos. A compreensão dos conceitos financeiros
permite decisões mais informadas e evita prejuízos pessoais e coletivos. No entanto, no
Brasil, o ensino da educação financeira ainda não é obrigatório nas escolas, e as universidades
tampouco cumprem papel consistente nesse processo (SAVOIA; SAITO; SANTANA, 2007,
apud MARQUES, E. V. et al., 2020). Promover a educação financeira, portanto, é uma ação
essencial para possibilitar aos jovens maior estabilidade e bem-estar econômico ao longo da
vida.
18

Figura 1:
19

3.4 O PROBLEMA DOS JOGOS DE APOSTAS NA VIDA FINACEIRA DOS JOVENS


BRASILEIROS

O avanço das tecnologias digitais e o acesso facilitado a plataformas online de apostas


têm promovido mudanças significativas nos padrões de comportamento dos jovens. A
crescente presença dos jogos de aposta nos ambientes digitais, somada ao apelo emocional e à
intensa publicidade, tem influenciado diretamente o modo como os jovens se relacionam com
o dinheiro, o risco e a tomada de decisão. Esses elementos não apenas potencializam
comportamentos impulsivos e irracionais, mas também revelam um cenário preocupante de
vulnerabilidade psíquica e financeira (MARQUES et al., 2020).
Segundo Silva (2023), os sistemas digitais de apostas são desenvolvidos com
estratégias específicas de manipulação afetiva e comportamental, projetadas para gerar
condicionamento e engajamento contínuo do usuário. A autora argumenta que, ao interagir
com esses sistemas, o indivíduo é exposto a uma dinâmica que reforça comportamentos de
risco por meio da recompensa emocional imediata, dificultando o controle racional sobre o
consumo e a repetição da experiência.

A própria psicologia ainda ampara a ideia de que um meio pode sim causar um
efeito de ação e reação sobre um indivíduo ao ponto de fazer as suas atitudes se
alterarem baseadas na interação feita e na consequência gerada após tal ação. Ao que
podemos afirmar então que de uma forma paralela os estudos em HCI conseguiram
igualmente migrar este tipo de visão para o meio digital, alegando que sob um
dedicado desenvolvimento podemos, com base no afeto, gerir um sistema digital
que, tão naturalmente quanto o meio real, seria capaz de gerar este mesmo elo de
ações e respostas que afetam o usuário, forçando-o a condicionar o seu
comportamento e, subsequentemente, a sua cognição e os seus pensamentos, ao
longo de que a própria imersão também não falhe em manter o seu foco contido
dentro desta inter-relação artificial.
(SILVA, 2023, p. 47)

Esse processo de imersão e manipulação afeta diretamente a capacidade dos jovens de


refletirem criticamente sobre seus comportamentos de consumo. Em muitos casos, a ausência
de educação financeira contribui para a fragilidade desse julgamento, dificultando a
identificação dos riscos econômicos envolvidos. A promessa de ganhos rápidos, combinada à
repetição automática de apostas como tentativa de recuperar perdas, configura um ciclo
vicioso de endividamento, perda de controle e, em casos mais graves, vício.
Silva (2023) alerta que os jogos de apostas digitais não são neutros: eles incorporam
mecanismos que exploram a vulnerabilidade afetiva dos usuários, especialmente daqueles que
ainda estão em processo de formação cognitiva e emocional. Para os jovens, cuja identidade
20

ainda está em desenvolvimento e que enfrentam pressões sociais e econômicas significativas,


essa realidade torna-se ainda mais perigosa.
Diante desse cenário, a educação financeira se apresenta como uma ferramenta crucial
de proteção e orientação. Ao desenvolver competências relacionadas à gestão de finanças
pessoais, ao consumo consciente e à análise crítica de riscos, a educação financeira permite
que os jovens compreendam os mecanismos por trás das plataformas de apostas e resistam às
armadilhas comportamentais que elas impõem. Incorporar esses temas no currículo escolar, de
forma estruturada e sistemática, é um passo essencial para formar indivíduos mais
conscientes, autônomos e preparados para lidar com os desafios econômicos da vida adulta
(FBEF, 2024).
21

3.5 A EDUCAÇÃO FINANCEIRA COMO OBRIGATÓRIDADE NAS ESCOLAS DE


ENSINO MÉDIO NOS PAÍSES PELO MUNDO

Segundo ROMÃO E AMBONI (2024), há uma tendência mundial em desenvolver a


educação financeira como uma política pública nos diferentes níveis, etapas e modalidades de
ensino, para promover uma educação financeira capaz de reeducar o comportamento dos
indivíduos na busca de escolhas mais conscientes em relação ao uso do dinheiro. Conclui-se
que as diferentes maneiras experienciadas nos diversos países podem servir como referenciais
e como fonte de reflexão na condução da educação financeira brasileira, o aprimoramento do
conhecimento financeiro e desenvolver o senso crítico e reflexivo dos indivíduos em relação
as suas finanças na busca de um futuro sustentável. Destacam-se como exemplos favoráveis a
obrigatoriedade da educação financeira no ensino médio:

I. República Tcheca: Na República Checa existe uma estratégia nacional de educação


financeira, sendo o país um dos primeiros a incluir a educação financeira como parte
do currículo do sistema escolar público, desde 2010. O Ministério das Finanças em
cooperação com o Ministério da Educação é responsável pela estratégia de educação
financeira. Desde 2009, a educação financeira é uma disciplina obrigatória nas escolas
secundárias checas e, desde 2013, para as escolas primárias.
II. Croácia : Na Croácia, também existe uma estratégia nacional de educação financeira.
A educação financeira é uma disciplina obrigatória nas escolas até os 18 anos, sendo
integrada a muitas matérias, como matemática, história, educação cidadã ou aulas de
informática (EBF, 2020, apud ROMÃO E AMBONI, 2024 ).
III. Dinamarca : Na Dinamarca não existe uma estratégia nacional para a educação
financeira sendo o Ministério da Educação encarregado de desenvolvê-la. No país, a
educação financeira é uma disciplina obrigatória nas escolas secundárias dos 13 aos 16
anos. Nota-se, também, que a maioria dos alunos do ensino médio tem um emprego de
meio período e as habilidades de finanças pessoais são, portanto, diretamente
aplicáveis aos seus rendimentos iniciais (EBF, 2020, apud ROMÃO E AMBONI,
2024).
IV. Finlândia : Na Finlândia, o Banco da Finlândia é a entidade pública nacional
responsável pela educação financeira desde 2020. O banco é o principal autor da
proposta de estratégia nacional e autor do relatório nacional sobre a promoção da
22

educação financeira. Mesmo com os esforços, a estratégia nacional de educação


financeira, ainda não foi implementada. Nas escolas, o Ministério da Educação e a
Agência Nacional Finlandesa
para a Educação são os responsáveis pela educação financeira, que é obrigatória e
integrada a outras disciplinas, como estudos sociais, economia doméstica e
matemática. Currículos e materiais de estudo são oferecidos pelo estado para crianças
desde a escola primária até os 18 anos de idade (EBF, 2020, apud ROMÃO E
AMBONI, 2024).
V. Hungria : Na Hungria, o Ministério das Capacidades Humanas é responsável pela
educação financeira e o Ministério das Finanças iniciou e coordena a estratégia
nacional no país. A educação financeira é obrigatória apenas nas escolas secundárias
técnicas, dando ênfase ao conhecimento financeiro para os jovens.
VI. Islândia : Na Islândia não existe uma estratégia nacional para a educação financeira.
Administrada pelo Ministério da Educação, a educação financeira é uma disciplina
obrigatória nas escolas secundárias dos 13 aos 15 anos e a maioria das escolas ensina
por meio de outras disciplinas.
VII. Holanda : Na Holanda existe uma estratégia nacional de educação financeira, mas o
tema ainda não é obrigatório nas escolas sendo apenas uma disciplina voluntária que
inclui o ensino de finanças pessoais em diversas disciplinas como Economia,
Matemática e Estudos Sociais. Uma proposta recente que inclui a educação financeira
para o currículo escolar está atualmente em discussão no Parlamento holandês. Espera-
se que as competências financeiras sejam obrigatórias nas novas metas de Matemática,
Literacia Digital e Economia do ano letivo 2023-2024 (EBF, 2020, apud ROMÃO E
AMBONI, 2024).
VIII. Noruega : Na Noruega não existe uma estratégia nacional para a educação financeira,
no entanto, o país europeu é um dos mais avançados no assunto, onde o nível de
confiança e cooperação entre todas as partes interessadas é exemplar. No ano letivo de
2020/2021, a educação financeira tornou-se uma disciplina obrigatória nas escolas
primárias e secundárias (até aos 18 anos), sendo incluída nas aulas de Matemática e
Ciências Sociais (EBF, 2020, apud ROMÃO E AMBONI, 2024).
IX. Polonia : Na Polonia existe uma estratégia nacional de educação financeira e os bancos
estão envolvidos na educação financeira através de programas conjuntos, criando seus
próprios projetos ou financiando projetos implementados por outras entidades. No país
23

a educação financeira é uma disciplina obrigatória nas escolas secundárias e ensinada


na disciplina de “Fundamentos do Empreendedorismo” (EBF, 2020, apud ROMÃO E
AMBONI, 2024).
X. Portugal : Em Portugal existe uma estratégia nacional de educação financeira e em
nível nacional, o Ministério da Educação desempenha um papel ativo na educação
financeira que é uma disciplina obrigatória na escola. O Plano Nacional de Educação
Financeira é a estratégia nacional de educação financeira, impulsionada pelo Conselho
Nacional de Supervisores Financeiros, envolvendo diferentes partes interessadas
(EBF, 2020, apud ROMÃO E AMBONI, 2024).
XI. Suécia : Na Suécia existe uma estratégia nacional de educação financeira e o tema é
obrigatório nas escolas integrado a outras disciplinas. A Swedish Financial
Supervisory Authority (Finansinspektionen) é o órgão público nacional responsável
pela educação financeira, já o currículo escolar é decidido pela Agência Nacional
Sueca para a Educação. A educação financeira é uma disciplina obrigatória na escola
até os 18 anos e ensinada nas aulas de “artes domésticas” (Ciências Domésticas,
Economia Doméstica), matemática e educação cívica (EBF, 2020, apud ROMÃO E
AMBONI, 2024).
XII. Bulgária : Na Bulgária novos currículos foram aprovados para todas as disciplinas do
ensino geral e entraram em vigor no ano letivo de 2016/2017 do 1º ao 12º ano. Lá a
construção de conhecimentos, habilidades e competências financeiras faz parte de
quatro disciplinas: Tecnologia e Empreendedorismo, Matemática, Geografia e
Economia e Educação Cívica (OCDE, 2021, apud ROMÃO E AMBONI, 2024).
XIII. Romênia : Na Romênia, elementos de educação financeira também foram integrados
no currículo nacional da Romênia, no ano letivo de 2020/2021, onde a educação
financeira é uma disciplina obrigatória no oitavo ano. Ela é ensinada como um assunto
autônomo por uma hora por semana e seu currículo abrange temas como
consumidores, dinheiro e orçamento na família, relação entre consumidores e
instituições financeiras, incluindo direitos e obrigações dos consumidores, elementos
de educação econômica, empresarial e de cidadania econômica, elementos
relacionados com risco, seguros e investimentos (OCDE, 2021, apud ROMÃO E
AMBONI, 2024).
XIV. Estados Unidos : Nos Estados Unidos, a educação financeira tem uma história tão
antiga quanto o próprio país. No entanto, no início o tema foi tratado de forma
24

informal, já que não era ofertado pelas escolas. Ao longo do século 20, a educação
financeira avançou e hoje é ensinada em escolas de ensino médio e faculdades de todo
o país (Rose, 2022, apud ROMÃO E AMBONI, 2024). Os programas de Educação
Financeira no país já acontecem desde a década de 80 do século 20. Em 1984 foi
lançado o Fundo Nacional para a Educação Financeira (National Endowment for
Financial Education/NEFE), um programa de planejamento financeiro para alunos da
High School. Antes do programa, os alunos já contavam com a
disciplina de Economia Doméstica que contava com informações sobre finanças
pessoais(Mundy, 2008, apud ROMÃO E AMBONI 2024). Quarenta e cinco estados
americanos incluem a educação financeira em seus padrões curriculares do jardim de
infância até o 12º ano. Nova Jersey, um dos cinquenta estados americanos tornou a
educação financeira um requisito e, a partir de 2019/2020, a lei estadual está exigindo
que a instrução de educação financeira faça parte do currículo.
XV. China : Na China uma estratégia nacional foi desenvolvida pelo Banco Popular da
China. A educação financeira está inserida no currículo nacional chinês em disciplinas
como Ética e Sociedade, Ideologia e Ética, História e Sociedade e Ideologia e Política
ou História. A educação financeira inclui conhecimentos sobre o sistema econômico
(socialista), orçamento e gestão de dinheiro, serviços financeiros básicos e riscos e
benefícios dos produtos financeiros (Gao, 2014; OCDE, 2014; Messy; Monticone,
2016; OCDE, 2019, apud ROMÃO E AMBONI, 2024).
XVI. Singapura : Em Singapura, o programa nacional de educação financeira foi lançado em
2003, no entanto, a educação financeira já era ensinada desde a década de 1960, sendo
o Ministério da Educação o responsável pelo currículo nacional. O Ministério
reconhece que a educação financeira deve começar desde cedo, fomentando o hábito
de poupar valores de prudência nos alunos (OCDE, 2019, apud ROMÃO E AMBONI,
2024).

XVII. Rússia : Na Rússia, a Estratégia Nacional de Educação Financeira é coordenada pelo


Ministério das Finanças da Federação Russa e pelo Banco da Rússia, sendo
desenvolvida como parte do Projeto Nacional e aprovada pelo governo em setembro
de 2017. Atualmente, a Rússia está trabalhando para introduzir a educação financeira
em suas escolas (OCDE, 2019, apud ROMÃO E AMBONI, 2024).
25

3.6 RESULTADOS DO PISA 2022

O Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA) examina a preparação


de jovens de 15 anos para enfrentar desafios além do ensino obrigatório, coletando dados
sobre seus conhecimentos, habilidades e o ambiente em que vivem e aprendem. Esses dados
fornecem insights valiosos, permitindo análises comparativas entre países, essenciais para
decisões fundamentadas em evidências por formuladores de políticas e outros interessados.
No âmbito da educação financeira, o PISA oferece informações relevantes, como o grau de
familiaridade dos jovens com serviços financeiros digitais e as diferenças entre aqueles que
dominam conceitos financeiros e os que têm dificuldades para tomar decisões informadas.
A avaliação em literacia financeira mede a capacidade dos estudantes de aplicar
conhecimentos e habilidades financeiras adquiridos dentro e fora da escola. A estrutura
metodológica do PISA garante a validade, confiabilidade e utilidade dos dados coletados,
como detalhado no relatório de 2023.
A edição de 2022 foi a quarta avaliação de letramento financeiro, sucedendo estudos
realizados em 2012, 2015 e 2018. Nessa edição, participaram 20 países, sendo 14 membros da
OCDE (como Canadá, Dinamarca, Espanha e Portugal) e 6 parceiros (como Brasil e Peru).
Alguns países, como Itália, Polônia e Estados Unidos, participaram de todas as avaliações
anteriores, enquanto outros, como Brasil e Bulgária, retornaram após edições anteriores. Além
disso, nove países integraram a avaliação pela primeira vez, destacando a crescente adesão à
análise da educação financeira [Link] visto na Figura 1:
26

Figura 2: Participação nos ciclos de avaliação de literacia financeira do PISA


Entre os países e economias participantes na avaliação de literacia financeira do PISA 2022

Fonte: OCDE (2024), Resultados do PISA 2022 (Volume IV)


27

Em 2022, a pontuação média em educação financeira nos 14 países e economias


membros da OCDE participantes do PISA foi de 498 pontos. Quando considerados os 20
países e economias que participaram da avaliação, a média geral foi um pouco menor, de 475
pontos. A Figura 2 apresenta as médias por país ou economia e identifica as diferenças
estatisticamente significativas entre elas. Na comparação internacional, apenas essas
diferenças significativas devem ser levadas em conta para evitar conclusões incorretas. Por
exemplo, o desempenho médio dos estudantes na comunidade flamenga da Bélgica foi
estatisticamente equivalente ao da Dinamarca e dos Países Baixos, enquanto o desempenho
médio na Noruega mostrou equivalência estatística com Hungria, Itália, Portugal e Espanha.
28

Figura 3 :

Fonte:: OCDE (2024), Resultados do PISA 2022 (Volume IV)


Além disso, a tabela classifica os países em três grupos principais: aqueles com
29

pontuações estatisticamente próximas da média da OCDE (em branco), acima da média (em
azul) e abaixo da média (em cinza). Essas divisões facilitam a interpretação dos resultados e a
identificação de tendências gerais de desempenho em educação financeira entre os países
participantes.
A alfabetização financeira é um objetivo para toda a vida e, embora as descobertas
do PISA possam ajudar os formuladores de políticas a identificar áreas onde a
alfabetização financeira de estudantes de 15 anos pode precisar ser reforçada, é
importante ter uma imagem holística dos níveis de alfabetização financeira das
populações dos países e economias como um todo. Vários dos países que
participaram da avaliação de alfabetização financeira do PISA 2022 também
avaliaram os níveis de alfabetização financeira de sua população adulta em
2022/2023 como parte de um exercício coordenado de coleta de dados conduzido
pela Rede Internacional de Educação Financeira da OCDE (OCDE/INFE). Os
resultados de ambos os exercícios podem ser analisados em conjunto ao identificar
prioridades de alfabetização financeira para cada país e economia.
(OCDE; PISA 2022 Results How Financially Smart Are Students? Publication,
volume IV, 2024, p.50)

Esses resultados são fundamentais para entender e fortalecer a educação financeira ao


redor do mundo, apoiando estratégias educacionais e políticas públicas baseadas em
evidências.
30

3.7 POLÍTICAS PÚBLICAS E RECOMENDAÇÕES

A compreensão da relação entre Estado, educação e políticas públicas é fundamental


para entender como a educação financeira é incorporada como política pública no Brasil. De
acordo com Pinto, Xavier e Mota (2018, apud BUFALO, D. C. L.; PINTO, R. A. B.,2023), o
conceito de Estado está associado à formação da sociedade civil, entendida como um grupo de
indivíduos organizados que convivem em um território definido, sob a autoridade de um
poder, seguindo regras e normas estabelecidas. As leis, elaboradas pelo e para o Estado, estão
intrinsecamente ligadas à sociedade e às dinâmicas sociais, devendo atender às necessidades
dessa coletividade.
O poder estatal se legitima por meio das políticas públicas que, conforme os mesmos
autores representam “respostas dos governantes a demandas ou problemas que possuem
relevância pública”. Essas políticas são moldadas e influenciadas pelos valores, tradições e
ideias que sustentam a relação entre Estado e sociedade, além de refletirem o contexto
histórico e social do país onde são adotadas.
No contexto das políticas educacionais, especialmente ao considerar a dualidade entre
“política de Estado” e “política de governo”, Ganzeli (2013, p. 46, apud BUFALO, D. C. L.;
PINTO, R. A. B., 2023) explica que os defensores da política de Estado priorizam a criação
de normas institucionalizadas. Essas normas têm como objetivo definir, de forma consensual,
as responsabilidades de cada ente federativo para assegurar o direito à educação. Por outro
lado, os apoiadores da política de governo valorizam a elaboração de agendas governamentais
voltadas para atender às demandas da área educacional.
O papel do Estado na perpetuação de seu poder por meio da educação e das políticas
educacionais é uma constante. Morrow e Torres (2004, p. 32, apud BUFALO, D. C. L.;
PINTO, R. A. B., 2023) destacam essa dinâmica ao afirmar que “[...] os sistemas organizados
de educação funcionam sob a direção de um Estado-nação, que exerce controle,
regulamentação, coordenação, comando, financiamento e certificação do processo de ensino e
aprendizagem”. Essa atuação evidencia o papel do Estado, que pode ser tanto sutil quanto
explícito, na intervenção sobre a escolarização e na definição do tipo de conhecimento a ser
disponibilizado para a sociedade.
Klapper, Lusardi e Oudheusden (2015, apud FREITAS, M. L. G.; RIBEIRO, V. V.;
SOUZA, A. A., 2017) afirmam que o propósito do conhecimento financeiro é promover o
bem-estar e a felicidade dos cidadãos. Por isso, tanto instituições públicas quanto privadas
31

vêm reconhecendo, cada vez mais, a relevância de oferecer educação financeira à população.
Nesse contexto, Silva e Powell sugerem a criação de um currículo voltado para a educação
financeira, destacando a importância de abordar o tema nas escolas. Eles defendem que os
conceitos matemáticos sejam aplicados nas decisões do dia a dia e integrem a formação dos
estudantes, atribuindo maior significado ao aprendizado no cotidiano:

A educação financeira escolar constitui-se de um conjunto de informações


através do qual os estudantes são introduzidos no universo do dinheiro e estimulados
a produzir uma compreensão sobre finanças e economia, através de um processo de
ensino, que os torne aptos a analisar, fazer julgamentos fundamentados, tomar
decisões e ter posições críticas sobre questões financeiras que envolvam sua vida
pessoal, familiar e da sociedade em que vivem.
(SILVA; POWELL, 2013, p. 13, , apud BUFALO, D. C. L.; PINTO, R. A. B.,
2023).

De acordo com esta definição, a educação financeira escolar deve ser crítica e cidadã,
a serviço tanto da melhoria da qualidade de vida individual quanto do bem-estar social. Para
que isso se consolide, no entanto, o conhecimento e desenvolvimento do letramento
financeiro se fazem importantes (BUFALO; PINTO, 2023).
No contexto da globalização e do neoliberalismo, Dourado (2002, apud BUFALO, D.
C. L.; PINTO, R. A. B., 2023) ressalta que as políticas educacionais no Brasil passam a ser
influenciadas por mudanças, com destaque para transformações jurídico-institucionais.
Durante a década de 1990, as políticas públicas foram reestruturadas, impulsionadas, entre
outros fatores, pela reforma do Estado, o que provocou alterações significativas nos modelos
de intervenção governamental. Esse movimento direciona tanto os mecanismos quanto as
formas de gestão, afetando diretamente as políticas públicas, inclusive as educacionais, que
passam a se alinhar aos padrões e diretrizes de organismos multilaterais, como a OCDE.
A ENEF surgiu como uma política pública governamental, com o objetivo de capacitar
cidadãos para compreenderem o impacto de suas decisões financeiras individuais no contexto
de uma sociedade global. De acordo com a classificação de Rua (1998, apud BUFALO, D. C.
L.; PINTO, R. A. B., 2023), trata-se de uma iniciativa com características regulatórias e
constitutivas, marcada por uma progressão centralizada e uma execução descentralizada.
Contudo, com o passar do tempo, a ENEF evolui e se estabelece como uma política pública
de Estado. Inicialmente, o público-alvo do programa são jovens e crianças. Depois,
considerando um critério de vulnerabilidade e urgência, foram inseridos os adultos, divididos
em mulheres assistidas pela Bolsa Família e aposentados, esses últimos extremamente
suscetíveis ao superendividamento (ENEF, 2013, p. 15). Assim como ocorre com toda
32

política pública de caráter permanente, que precisa se adaptar às demandas e à realidade da


população, a ENEF foi lançada a um redirecionamento estratégico nos anos de 2017 e 2018.
Esse período também marcou sua inclusão como tema transversal na Base Nacional Comum
Curricular (BNCC) da educação básica no Brasil.
A BNCC, que foi incluída na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional pela Lei
nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, ressalta que:

Há hoje mais espaço para o empreendedorismo individual, em todas as


classes sociais, e cresce a importância da educação financeira e da compreensão do
sistema monetário contemporâneo nacional e mundial, imprescindíveis para uma
inserção crítica e consciente no mundo atual. Diante desse cenário, impõem-se
novos desafios às Ciências Humanas, incluindo a compreensão dos impactos das
inovações tecnológicas nas relações de produção, trabalho e consumo.
(BRASIL, 2018, p. 568).

A BNCC estabelece como áreas de conhecimento obrigatórias, mas cabe aos estados e
municípios determinar como o tema será incorporado à matriz curricular de seus sistemas de
ensino. A educação financeira, por sua vez, deve ser trabalhada de forma transversal,
integrada às demais disciplinas, reforçando o caráter constitutivo dessa política pública. Para
fundamentar essa conquista e disponibilizar materiais para professores e multiplicadores, o
governo federal publicou, em 2019, uma proposta pedagógica da ENEF, que aborda o tema
sob as dimensões espacial (DE) e temporal (DT). Na dimensão espacial, os conceitos de
educação financeira são baseados no impacto das ações individuais no contexto social,
refletindo a relação entre as partes e o todo, e vice-versa. Essa dimensão abrange níveis que
vão do indivíduo ao global, organizados de maneira inclusiva. Já na dimensão temporal, a
abordagem destaca como as decisões tomadas no presente podem influenciar o futuro,
conectando passado, presente e futuro em uma cadeia interligada de eventos. A figura 5,
retirado do site oficial da Estratégia, sintetiza essa abordagem proposta.
33

Figura 4: Proposta Pedagógica da ENEF

Fonte: BUFALO; PINTO, 2023.

Após dez anos de implementação, em 2020, a ENEF passou por uma reestruturação,
passando a ser regulamentada pelo Decreto Presidencial nº 10.393, de 9 de junho de 2020.
Com a publicação desse decreto, foi criada a nova Estratégia Nacional de Educação
Financeira e instituído o Fórum Brasileiro de Educação Financeira (FBEF). De acordo com o
Decreto nº 10.393/2020, as atribuições do FBEF são as seguintes:
34

a) programar e estabelecer os princípios da ENEF;


b) divulgar as ações de educação financeira, securitária, previdenciária e fiscal
propostas por seus membros, por outros órgãos e entidades públicas ou por
instituições privadas;
c) compartilhar as informações sobre as ações de educação financeira, securitária,
previdenciária e fiscal produzidas pelos órgãos e entidades representados, para
identificar as oportunidades de articulação;
d) promover a interlocução entre os órgãos ou as entidades públicas e as instituições
privadas para estimular e, sempre que possível, integrar as ações de educação
financeira, securitária, previdenciária e fiscal.
(BRASIL, 2020).

Na nova versão da ENEF, a principal alteração consiste na inclusão explícita dos


setores que compõem a estratégia nacional, com ênfase em questões especializadas, como
seguro e previdência. Essas áreas reforçam a relevância da educação financeira para a
estabilidade dos sistemas financeiros e previdenciários. A importância dessas temáticas
tornou-se ainda mais evidente após a crise financeira de 2008, que revelou a carência de
letramento financeiro entre a população brasileira.
Como uma política pública de Estado, de caráter permanente, tornou-se necessário
avaliar se os objetivos da ENEF estão sendo alcançados, além de sugerir melhorias e ações
que visem a resultados concretos. Com esse propósito, foi criada, em 2011, a Associação de
Educação Financeira no Brasil (AEF-Brasil), com a missão de apoiar o desenvolvimento da
cultura de planejamento, prevenção, poupança, investimento e consumo consciente. Trata-se
de uma organização sem fins lucrativos, dedicada à promoção do desenvolvimento social e
econômico por meio da difusão da educação financeira no país. A instituição passou a
coordenar o Programa Educação Financeira nas Escolas, ação integrante da ENEF (CONEF,
2013).
Traçando uma linha do tempo da ENEF e levando-se em consideração sua
estruturação como política pública, a figura a seguir busca situar as fases dessa política no
Brasil.
35

Figura 5: Linha do tempo da ENEF e Fases da Política de Educação Financeira no


Brasil

Fonte: BUFALO; PINTO, 2023.

Apesar das mudanças ao longo dos anos desde sua instituição, observa-se que a ENEF,
enquanto política pública concentrou esforços no desenvolvimento de programas e projetos
voltados para a educação básica. No entanto, esse foco não se reflete com a mesma
intensidade na educação superior. Ao contrário da educação básica, onde a BNCC incorpora a
educação financeira como conteúdo curricular transversal, na educação superior, as Diretrizes
Curriculares Nacionais de cada curso de graduação não tornam esse conteúdo obrigatório,
nem mesmo nos cursos diretamente relacionados à área de finanças, por exemplo.
Na educação superior, outro exemplo da atuação limitada da ENEF na população
adulta é que, desde 2019, a Estratégia Nacional prevê a criação de pólos para apoiar ações de
formação acadêmica, com o objetivo de capacitar professores para disseminar conteúdos
relacionados à educação financeira. Cada pólo deve estabelecer parcerias com universidades,
Institutos Federais de Ensino Superior, secretarias estaduais e municipais de educação, e
fundações de apoio à pesquisa, a fim de desenvolver um curso que atenda às necessidades
regionais, além de possibilitar o avanço na carreira e na certificação (AEF-BRASIL, 2019,
apud BUFALO; PINTO, 2023). No entanto, após quatro anos de vigência, apenas quatro
universidades federais, localizadas no Tocantins, Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul,
participam efetivamente do projeto, o que evidencia a restrição de acesso e a fragilidade do
36

tema na educação superior.


Por fim, acredita-se que a consolidação da educação financeira como política pública
educacional exige esforços contínuos e sistemáticos, tanto do governo quanto da sociedade.
Embora os resultados possam não ser imediatos, as iniciativas devem ser permanentes,
focando no aprimoramento de comportamentos e atitudes adequadas, fundamentadas no
conhecimento financeiro. Dessa forma, em um país profundamente desigual como o Brasil,
será possível observar o impacto transformador dessa política pública, impulsionando a
mobilidade social, melhorando o nível de poupança, reduzindo o endividamento e
promovendo a realização de sonhos individuais e coletivos.
37

4. CONCLUSÃO

Este trabalho teve como objetivo geral analisar a importância da implantação da


educação financeira como política pública no currículo do Ensino Médio, considerando sua
relevância para o exercício da cidadania econômica. Com base nos dados, estudos e
documentos analisados, conclui-se que os objetivos propostos foram plenamente alcançados,
oferecendo subsídios teóricos e práticos que reforçam a necessidade de consolidar essa
política educacional em caráter permanente, equitativo e estruturado.
A análise da presença da educação financeira nas diretrizes curriculares e nas políticas
públicas brasileiras permitiu compreender como o tema vem sendo inserido de forma gradual
e, muitas vezes, desigual entre os diferentes níveis de ensino. A abordagem da BNCC e das
estratégias como a ENEF demonstrou avanços, mas também revelou lacunas na efetivação
dessa política, especialmente no que se refere à obrigatoriedade e à formação docente. Ao
investigar a importância da educação financeira no contexto da cidadania econômica, o estudo
evidenciou como o letramento financeiro contribui para o desenvolvimento de competências
essenciais para a tomada de decisões conscientes no cotidiano dos estudantes, promovendo
autonomia, pensamento crítico e responsabilidade.
A comparação entre a realidade brasileira e as experiências internacionais permitiu
identificar práticas exitosas adotadas em diversos países, nos quais a educação financeira é
tratada como disciplina obrigatória desde os anos iniciais da educação básica até o ensino
médio. Esses exemplos serviram como parâmetro para refletir sobre os caminhos possíveis e
desejáveis para o fortalecimento da política brasileira. Além disso, o estudo abordou a relação
entre juventude e consumo, destacando a vulnerabilidade dos jovens frente ao crédito fácil, à
ausência de planejamento e à falta de conhecimento sobre finanças pessoais — fatores que
agravam o risco de endividamento e inadimplência.
Ao discutir a educação financeira como política pública, foi possível compreender sua
evolução no Brasil, desde sua origem como estratégia governamental até seu atual status de
política de Estado. A partir da análise de documentos legais, programas e iniciativas,
observou-se que, embora haja avanços normativos e institucionais, ainda existem desafios
significativos quanto à execução prática e à ampliação do alcance, especialmente no Ensino
Superior. Nesse sentido, a consolidação dessa política exige planejamento contínuo, avaliação
constante e articulação entre os entes federativos, instituições de ensino, setor financeiro e
sociedade civil.
38

Por fim, reafirma-se a importância de garantir o acesso à educação financeira de forma


sistemática e permanente, considerando o cenário de desigualdade social, os riscos associados
ao analfabetismo financeiro e as exigências de uma sociedade cada vez mais complexa e
digitalizada. A educação financeira, quando integrada ao currículo escolar com
intencionalidade pedagógica e compromisso social, revela-se como uma ferramenta
transformadora capaz de promover a cidadania econômica, ampliar as oportunidades
individuais e coletivas, reduzir a vulnerabilidade financeira e contribuir para a formação de
uma sociedade mais consciente, crítica e justa.
39

REFERÊNCIAS

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BRASIL. Decreto nº 10.393, de 9 de junho de 2020. Institui a nova Estratégia Nacional de


Educação Financeira - ENEF. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 157, n. 109,
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Em Teia: Revista de Educação Matemática e Tecnológica Iberoamericana, Pernambuco, v.
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