A Última Mensagem da *Estrela Cadente*
O espaço é vasto, mas a humanidade é meticulosa. Cada nave, cada satélite, cada
lixo deixado para trás é catalogado e rastreado. Por isso, quando o blip apareceu
nos sensores de longo alcance da estação Ceres, causou um rebuliço instantâneo. A
assinatura era antiga, um design de reactor de classe G-42, fora de servição há
meio século. E o sinal de identificação era inconfundível: CSS-07 *Estrela
Cadente*.
A *Estrela Cadente* era uma lenda. Uma nave de carga que desaparecera no seu
trajecto de rotina entre Marte e Júpiter, com toda a sua tripulação de oito
pessoas. Nenhum sinal de distress, nenhum destroço. Apenas... gone. As teorias iam
de motim a buraco negro passageiro.
E agora, aqui estava ela, à deriva silenciosamente na cintura de asteroides, como
se o tempo não tivesse passado.
A equipa de resgate da nave *Recovery* abordou-a com cautela extrema. O Comandante
Eva Rostova liderou a equipa através da câmara de acoplagem selada. O ar dentro da
*Estrela Cadente* era frio e estagnado, mas respirável. As luzes de emergência
lançavam um brilho fantasmagórico azul nos corredores.
"Alguém aqui?" a voz de Eva ecoou no vazio. Apenas o sibilar do seu rádio e o
rangido metálico da velha nave responderam.
O que encontraram foi mais arrepiante do que destroços. A nave estava perfeitamente
intacta. Imaculada. A messe tinha tabuleiros de comida ainda com restos de uma
refeição, agora mumificados. O café numa caneca estava seco, mas a caneca não se
tinha partido. Nos aposentos, diários abertos, fotos de familiares, roupas
dobradas. Era como se a tripulação tivesse simplesmente... evaporizado no meio das
suas tarefas.
Não havia sinais de luta, de fuga, de qualquer dano. Apenas uma ausência profunda e
inexplicável.
"Comandante, deve ver isto", a voz do seu engenheiro, Kaito, veio pelo rádio. Ele
estava na ponte.
A ponte era a peça central do mistério. Os ecrãs estavam escuros, os consoles
desligados. Exceto um. O gravador de log de voz estava ativo. A luz vermelha de
"gravar" piscava suavemente, alimentado por uma fonte de energia de reserva que
milagrosamente ainda funcionava após 50 anos.
Eva premio o botão de reproduzir.
A estática encheu a ponte silenciosa, depois uma voz. Era a voz do Capitão Aris
Thorne, calma, medida, como se lesse um relatório meteorológico.
*"...repito, as coordenadas são definitivas. Alfa-Nine-Seven-Gamma, perpendicular
ao plano da eclíptica. A maré gravitacional confirma. É lindo. Nunca vi nada assim.
O vazio... não está vazio. Eles estavam à espera. Estão todos aqui. Vamos a
caminho. Esta é a última transmissão da CSS Estrela Cadente. Que Deus... ou o que
quer que esteja lá fora... tenha piedade de nós."*
A gravação terminou com um clique suave.
A equipa ficou em silêncio. As coordenadas que o capitão dera não levavam a lugar
nenhum. Era um ponto no espaço vazio, a anos-luz de distância, muito além da
capacidade de propulsão da *Estrela Cadente*.
"Ele estava delirante", murmurou Kaito. "Hipóxia, talvez. Perdeu a cabeça."
Eva não tinha tanta certeza. A voz soara perfeitamente sã. Resoluta, até.
A sua ordem seguinte foi procurar o log de navegação