A Livraria de Segunda Mão no Fim do Mundo
O silêncio era a única coisa que prosperava no mundo. Elias costumava medir o tempo
pelo zumbido dos elétricos, pelo murmúrio das multidões, pelo ritmo constante da
vida urbana. Agora, media-o pela poeira que assentava nas capas dos livros e pela
lenta marcha da luz solar através das prateleiras poeirentas da "Livraria do
Pássaro Cantor".
A praga não fora violenta. Não havia zumbis ou monstros. Apenas uma tosse seca,
depois febre, depois silêncio. Elias sobrevivera por puro acaso, trancado no
armazém da livraria durante uma crise de alergia severa que everyone misinterpretou
como os sintomas iniciais. Quando saíra, uma semana depois, a cidade de Nova York
estava morta.
Isso foi há dois anos. A livraria tornara-se seu refúgio, sua fortaleza e sua
tumba. Era um labirinto de histórias, cheiro de papel velho e tinta, um universo
inteiro contido entre quatro paredes. Ele sobrevivia com comida enlatada de uma
mercearia próxima e água da chuva que recolhia no telhado. Os livros eram sua
companhia. Relia os clássicos, descobria autores obscuros, perdia-se em mundos que
ainda tinham pessoas.
A sua rotina era meticulosa. De manhã, verificar as armadilhas no telhado para
pombos. Ao meio-dia, organizar uma secção da livraria, um projeto interminável que
mantinha a loucura à distância. À tarde, ler. À noite, escrever o seu diário na luz
tremula de uma lanterna, documentando a sua solidão para uma audiência de ninguém.
Foi durante a sua reorganização da secção de ficção científica que a normalidade
desmoronou. Ele estava a realinhar os livros de Isaac Asimov quando viu um volume
fora do lugar: um exemplar antigo de "O Guia do Mochileiro das Galáxias" na
prateleira de Ray Bradbury. Ele pegou nele para o devolver ao seu lugar, e o livro
abriu-se numa página específica.
Ali, na margem, a lápis, estava uma frase escrita numa caligrafia que não era a
sua.
*"A resposta não é 42. É café. Mataria por um."*
Elias deixou cair o livro. O seu corção parou. O ar saiu-lhe dos pulmões num
suspiro. Ele olhou em volta, as expectativas, os ouvidos a strain para qualquer som
que não fosse o seu próprio sangue a correr. Nada. A livraria estava tão silenciosa
como sempre.
Ele pegou no livro com mãos trémulas. A nota era recente. A poeira na prateleira
tinha sido perturbada. Alguém estivera ali. Alguém *estava