O Arquivo Onírico
O sonho era sempre o mesmo. Não uma imagem, mas uma sensação: o calor do sol na
pele, o cheiro de terra molhada depois da chuva, o gosto salgado de lágrimas que
não eram de tristeza, mas de êxtase. E depois, a queda. Elara acordava com um
sobressalto, o coração batendo forte contra as costelas, o corpo imerso na fria
esterilidade de seu cubículo.
Era o único momento do dia em que se sentia verdadeiramente viva. O resto do tempo,
ela era uma Sonharquista, uma arquivista de sonhos. No vasto complexo da OniriCorp,
ela revisava, catalogava e indexava as experiências oníricas colhidas dos cidadãos,
preparando-as para serem empacotadas e vendidas como entretenimento para aqueles
cujos próprios sonhos eram insossos e controlados.
A sociedade fora "Pacificada" um século antes. Uma série de tratamentos
neuroquímicos garantia contentamento, harmonia e uma notável falta de emoções
fortes ou criativas desordem. Os sonhos naturais tornaram-se raros, daí o lucrativo
mercado dos sonhos dos outros. Sonhos de aventura, de amor proibido, até mesmo de
medo controlado, eram os produtos mais consumidos.
Elara era boa no seu trabalho. Ela conseguia identificar um sonho de ansiedade pré-
histórica de um de fobia moderna, categorizar a paleta de cores de uma fantasia e
rotular a intensidade emocional com precisão decimal. Era um trabalho monótono, e
ela preferia assim. A monotonia não desencadeava as perguntas que a assombravam ao
acordar.
Até aquele dia. Ela estava revisando uma série de sonhos de um "doador" da classe
baixa, sonhos monótonos sobre linhas de montagem, quando um arquivo corrompido
apareceu em sua estação. O log de identificação estava em branco. Curiosa, ela o
executou.
E foi transportada.
Era o *seu* sonho. Mas mais vívido, mais real. Ela não só sentia o sol, como via as
folhas das árvores dançando contra um céu de um azul impossível. Ouviu uma voz a
rir, uma voz que fez seu peito doer de saudade. E viu uma mão a estender-se para a
sua, não em queda, mas em convite. O arquivo terminou abruptamente, deixando-a
ofegante, com os olhos cheios de lágrimas que a Pacificação devia ter eliminado.
Ela tentou reencontrar o arquivo. Desaparecera. Foi então que percebeu: o log de
identificação não estava em branco. Estava codificado. E o código era o seu próprio
número de identificação de funcionária.
O mundo cuidadosamente construído de Elara começou a desmoronar. Se aquele era o
*seu* sonho, uma memória real, de onde vinha? Ela fora criada no sistema estatal,
uma órfã da Pacificação. Nunca conhecera o sol real, vivia sob a abóboda cinzenta
da cidade-domo. Nunca sentira terra de verdade. E aquela voz... quem era?
A sua busca discreta por respostas nos arquivos centrais da OniriCorp revelou nada.
A sua história oficial era imaculada, e vazia. Quanto mais procurava, mais se
convencia de que a sua vida tinha sido apagada. Ela começou a notar coisas: os
olhares vazios dos seus colegas, a ausência de qualquer história de vida antes dos
10 anos para a maioria das pessoas, os "Assistentes de Bem-Estar" que pareciam
aparecer sempre que alguém mostrava um pico de emoção não sancionada.
A paranoia instalou-se. Ela sabia que estava a ser observada. Cada tentativa
falhada de aceder a arquivos restritos era certamente registada. O sonho tornou-se
a sua única âncora à realidade, uma realidade que sentia ser mais verdadeira do que
o mundo acordado.
A queda veio de onde menos esperava. Um homem novo foi transferido para a estação
ao lado dela. Ele nunca falava, apenas trabalhava. Mas uma vez, quando ela voltava
de um intervalo, viu-o na sua terminal, os dedos a voar sobre o teclado. Ela
recuou, assustada. Ele olhou para ela, e nos seus olhos não havia o vazio
pacificado dos outros. Havia intensidade, urgência.
"Estás perto", sussurrou ele, antes de se virar de volta para o seu ecrã. "Mas eles
sabem. O relógio está a contar."
Naquela noite, os Assistentes de Bem-Estar vieram buscá-la ao seu cubículo. Eles
eram educados, sorridentes, e os seus olhos eram de aço. Elara não resistiu. Sabia
que era inútil. Enquanto era levada pelos corredores brancos, o homem do trabalho
passou por ela. Os seus olhos encontraram-se, e ele fez um pequeno aceno com a
cabeça para uma porta de serviço entreaberta.
Era agora ou nunca. Com uma força que não sabia ter, Elara empurrou o assistente
mais próximo contra a parede e correu. Ouviu os gritos atrás de si, o som de
alarmes a disparar. Ela entrou na porta de serviço e desceu uma escada de metal que
levava às profundezas não monitorizadas do complexo.
No fundo, uma única porta aguardava. Ela entrou. A sala estava às escuras,
iluminada apenas por ecrãs que mostravam feeds de vídeo não oficiais: imagens do
mundo exterior, do sol verdadeiro, de florestas, de pessoas a viver, a amar, a
sofrer, a *sentir*. Um grupo de pessoas estava voltado para ela. E entre elas, o
homem do trabalho.
"Bem-vinda de volta, Elara", disse uma mulher idosa. "Há muito que esperamos por
ti. O teu sonho não era uma memória. Era uma mensagem. Uma mensagem de quem tu
costumavas ser, antes de te apagarem. É hora de te relembrares. É hora de lutar."
Elara olhou para os ecrãs, para as faces cheias de vida, e pela primeira vez, o
fragmento de sonho fez sentido. Não era uma queda. Era um salto. Um salto de fé
para a verdade. E ela estava pronta para saltar.