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Roteiro "Dos Homens e Sua Sorte"

O roteiro cinematográfico 'Dos Homens e Sua Sorte' narra a vida de Mauro, um homem solitário que abate suas vacas e lida com a presença de Moêma, sua empregada. A história explora temas de solidão, violência e a relação entre o homem e a natureza, culminando em eventos estranhos e perturbadores que afetam Mauro e seu ambiente. O clima de tensão e mistério se intensifica à medida que Mauro enfrenta suas próprias demônios e a realidade de sua vida isolada.
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Roteiro "Dos Homens e Sua Sorte"

O roteiro cinematográfico 'Dos Homens e Sua Sorte' narra a vida de Mauro, um homem solitário que abate suas vacas e lida com a presença de Moêma, sua empregada. A história explora temas de solidão, violência e a relação entre o homem e a natureza, culminando em eventos estranhos e perturbadores que afetam Mauro e seu ambiente. O clima de tensão e mistério se intensifica à medida que Mauro enfrenta suas próprias demônios e a realidade de sua vida isolada.
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DOS HOMENS E SUA SORTE

ROTEIRO CINEMATOGRÁFICO

Escrito por Maurélio Toscano

7º Tratamento

AGOSTO de 2013
CENA 1 – EXT. - CURRAL - TARDE
MAURO, um homem de aproximadamente 45 anos, de estatura média,
entra no curral com um machado. No curral haviam apenas duas
vacas. Encosta o lado mais pesado do instrumento na testa da
vaca, e,após um longo silêncio, desfere o golpe na cabeça do
animal.

CENA 2 – INT. - CASA DE MAURO – COZINHA - DIA


MOÊMA, uma mulher de 25 anos, morena, está na cozinha
separando pedaços inteiros da vaca. Ela deposita os pedaços
dentro de uma vasilha que está sobre a mesa principal do
cômodo. Limpa o sangue fresco presente em seus dedos no
avental, retira-o, vai até uma prateleira, pega uma bandeja
com café da manhã e vai em direção a sala.

CENA 3 - INT. – CASA DE MAURO – SALA - DIA

Moêma coloca a bandeja sobre um móvel pequeno. Ao redor do


móvel, estão duas poltronas, em uma delas está MAURO, patrão
da moça.
Ele está lixando uma peça de madeira e ignora a presença de
Moêma. Após servir o desjejum, Moêma senta-se na poltrona
vaga, abaixa a cabeça e encara o velho. Nenhuma palavra é
dita, até que Moêma rompe o Silêncio, perguntando:

MOÊMA:
Seu Mauro, já separei a carne...A bacia ta em cima da mesa do
mesmo jeito das outras.

Sem resposta alguma, a moça ainda insiste:

MOÊMA:
Vai ficar tudo bem?

Ele ignora as palavras da doméstica. Para somente um instante


para dar algum dinheiro a Moêma. De fronte ao silêncio e a
atitude estranha do patrão, MOÊMA levanta, pega duas malas
localizadas próximo à porta e sai da casa.

CENA 4 - EXT.- CURRAL - DIA


Moêma passa a mão carinhosamente na madeira do curral e
observa a última vaca. Recupera o foco, pega as malas do chão
e as entrega para um senhor ao lado de uma carroça. Da carroça
Moêma vê a fazenda, um lugar rodeado pelo mato, de aspecto
rústico, se distanciando.

CENA 5 - EXT.- CASA DE MAURO - QUARTO - NOITE


DETALHE da parte de fora da casa de Mauro: uma porta se
movimenta com o vento, O cachorro de Mauro rosna para o mato,
duas esculturas no formato de um pé e um boi.

CENA 6 - INT.- CASA DE MAURO - SALA - NOITE


Mauro sai do banheiro e passa pela escultura de uma mulher
enquanto enxuga o corpo.

CENA 7 - INT.- CASA DE MAURO - QUARTO - NOITE


Mauro retira a toalha e veste-se. Vai até uma das gavetas do
criado mudo, pega uma faca, e coloca debaixo de seu
travesseiro e deita na cama.

CENA 8 - INT. - CASA DE MAURO - COZINHA - DIA


Mauro entra pela porta da cozinha e vai até a vasilha com
carne. Espanta algumas moscas, retira o pano da vasilha e
sente o mal cheiro de carne dormida.
Se dirige à parede da cozinha onde havia um "contador de
animais": 30 riscos verticais cortados por 28 horizontais. Ele
desfere mais um risco horizontal com uma peça de carvão
sinalizando mais um animal abatido.

CENA 9 - EXT. - CURRAL - TARDE


Mauro entra no curral e para de frente sua última vaca. Ele
acaricia o animal. Observa a mata. Senta no cocho e passa as
mãos nos espaços vazios.
RUÍDOS de gravetos partindo-se ao meio e movimentação na mata.
SOM da vaca mugindo.

Mauro vai até a vaca e aperta-lhe a boca.

MAURO:
Shhhhh!

Procura pela fonte do barulho. O lugar está deserto. Sai do


curral ainda procurando algo.

CENA 10 - EXT. - EUCALIPTOS - FINAL DE TARDE


Mauro está carregando a vasilha com carne e tem o berrante em
suas costas. Ele olha ao seu redor como se algo o espreitasse.
Chega em um lugar com rochas e mata,e ,cuidadosamente, deixa a
vasilha no chão. Retira o berrante das costas, ensaia tocá-lo,
porém desiste. Vai para uma segunda tentativa e consegue.
DETALHE dos lugares onde som do berrante propaga.
RUÍDO de movimentação na mata
Mauro busca a fonte sonora com os olhos
RUÍDO ainda mais intenso de movimentação na mata.
Ele apavora-se e sai apressado.

CENA 11 - INT. - CASA DE MAURO - SALA E OUTROS CÔMODOS - NOITE


Mauro chega em casa, olha uma última vez para trás, tranca a
porta e reforça com cadeado. Está ofegante. Verifica todas
portas e janelas da casa
Vai para o quarto, pega uma moringa e bebe água, e, ainda
trêmulo vira o copo.

CENA 12 - INT. CASA DE MAURO - COZINHA - CREPÚSCULO MATINAL


Mauro está sentado em uma cadeira de frente ao seu "contador
de animais", está muito concentrado. Visivelmente não dormira.
SOM do galo cacarejando

Mauro abaixa a cabeça e sente um grande alívio. Ele vai até um


armário e o abre. Dentro, haviam várias vasilhas iguais àquela
com carne na tarde anterior.

CENA 13 - EXT. - CURRAL - DIA


Mauro entra no curral com o machado. Para de frente a sua
última vaca. Olha para o instrumento em mãos. Encara a vaca
face a face e diz:

MAURO:
Bicha burra!

CENA 14 - INT. CASA DE MAURO - SALA - NOITE


Mauro está sentado em sua poltrona e enquanto faz um cigarro
de palha, diz:

MAURO:
Hoje, você vai dormir, aí.

DETALHE do rosto do animal olhando Mauro.

MAURO:

Tá olhando o quê? As outras não tiveram essa sorte

Termina de enrolar o fumo e acende o cigarro. Em meio a uma


tragada a outra, murmura:

MAURO:
Cê só me traz problema

Mauro vai para o quarto.

MAURO:

Amanhã a gente pensa nisso.

CENA 15 - EXT. RIO - TARDE


Mauro está dentro do rio margeado pela cintura. Ele pega 5
peixes de média estatura com uma tarrafa e coloca-os em um
balde. Vai até o barranco e senta.

DETALHE dos dedos de Mauro retirando as tripas dos peixes.

Separa o peixe em pedaços e volta ao rio para lavar as mãos


sujas. Mergulha e demora a voltar para superfície.
Ao voltar à superfície, LUQUINHA, um homem com forte demência,
de 35 anos, cego de um olho, está na margem próximo à suas
coisas. Luquinha possui um ferimento em seu ombro. Mauro volta
para a margem, encara Luquinha e pergunta:

MAURO:
Onde tá teu pai, Moleque?

Não há nenhum tipo de comunicação direta. O velho volta a


replicar:

MAURO:
Cê" tá sozinho, seu porqueira?...ando isso tudo sozinho pra
vir aqui?
Luquinha fica inquieto com as perguntas e a presença de MAURO.
Com dificuldade, ele diz:
LUQUINHA:
Foi culpa do mato...do bicho estranho... com fome.

MAURO:
Quê? Fala direito

Luquinha vira-se e deixa amostra um ferimento por baixo da


blusa. Mauro assusta-se e toca o ferimento.

MAURO:
Quem fez isso, Moleque?

Luquinha olha para as mãos de Mauro segurando o ferimento ,


serra as feições e fica sério. Encara Mauro nos olhos e diz:

LUQUINHA:
Essa terra vai engoli a gente.

Diante do silêncio entre os dois, Luquinha volta a ficar


inquieto como antes, sai e vai em direção ao rio.

CENA 16 - EXT. - EUCALIPTOS - FINAL DE TARDE


Ao voltar, Mauro vê a vasilha no mesmo lugar, porém quebrada e
caída. Ele levanta o objeto e passa a mão em um líquido no
chão. O líquido é viscoso e tem textura densa.

Ele deixa uma nova vasilha contendo peixes. Cabeças, caldas e


todas outras partes do animal. De repente, um vulto passa em
suas costas. Olha para trás e não vê nada. Ele tenta ver algo
na mata, deixa a vasilha no chão e volta para casa apressado.
CENA 17 - INT. - CASA DE MAURO - SALA - NOITE
Mauro amarra os cachorros próximos a entrada de sua casa.
Passa pela porta e a tranca. Ele empurra uma poltrona até a
porta, senta-se com o machado em punhos. Ele olha fixamente
para a fechadura.
FADE IN

FADE OUT
Mauro descobre que dormira por cansaço na poltrona da sala de
sua casa.
RUÍDO de uma pessoa dentro da casa.
Ele assusta-se com o som vindo de seu quarto. Olha pra porta e
percebe que ela ainda está trancada. Vai lentamente até o
quarto.

CENA 18 - INT. - CASA DE MAURO - QUARTO - NOITE


Mauro chega ao quarto, vê Moêma arrumando sua cama. Ela
percebe a presença de Mauro na porta e sussurra:

MOÊMA:
oi!

Mauro não esboça reação. Moêma volta a dizer apontando com a


cabeça para a faca em cima do colchão.

MOÊMA:
Achei isso embaixo do seu travesseiro.

Diante do silêncio de Mauro. Moêma deixa-o no quarto, vai para


a cozinha, revira as gavetas enquanto complementa dizendo:

MOÊMA(O.S):
Tá cega...senão tinha me cortado
RUÍDOS de gavetas sendo reviradas

MOÊMA(O.S):
Pronto. Tá aqui!

Moêma volta para o quarto com um amolador de facas. Diante do


silêncio de Mauro, Moêma ,gradualmente, acelera o movimento,
larga faca e amolador no chão e chora. Mauro senta lentamente
ao seu lado, Moêma ampara o rosto no peito de Mauro. Depois de
se acalmar, MOÊMA diz:

MOÊMA:
Era só ter pedido, seu mauro. Eu tinha ficado.

Mauro num impulso beija Moêma. Os dois deitam na cama. Mauro


retira a roupa da moça e sua camisa. Deita-se em cima da moça,
de repente, Moêma sente-se mal, e esguicha água pela boca como
se tivesse afogado.
Mauro assusta-se, Moêma se levanta e vai ao banheiro com
pressa.

CENA 19 - [Link] DE MAURO - BANHEIRO - NOITE.


Moêma está ajoelhada abraçada ao vaso do banheiro. Mauro para
na porta do cômodo e vê a moça abraçada com o vaso. O chão
está molhado e com 4 peixes agonizando. Outro peixe despenca
no chão.

MONTAGEM PARALELA com os cachorros rosnando em direção ao


breu.

Mauro distancia-se gradualmente de Moêma até encostar na


parede do corredor.

Ruído dos cachorros de Mauro uivando de dor.


Mauro vira-se com o som do cachorro, ao olhar outra vez para o
banheiro vê que está vazio.
Ele pega uma lanterna na sala e corre em direção a varanda de
sua casa.

CENA 20 - [Link] DE MAURO - VARANDA - NOITE.


A visibilidade é ruim e a lanterna falha. Ele aponta para o
lugar onde estavam os cachorros e vê as correntes arrebentadas
e um longo rastro de sangue.
Procura com a luz apontando-a para o mato, porém a lanterna
falha constantemente. De repente, vê algo entrando na mata.
Não vê com clareza o que é.
Ele bate no aparelho desesperadamente. Está imerso em um breu
total.
A luz volta e a poucos metros, uma CRIATURA estranha, de
aspectos humanoídes e algumas nuances de animais, está
ajoelhada com um pedaço de carne em mãos.
Com a luz, A criatura percebe a presença de Mauro e vira-se em
direção ao homem.
Ruído do Cachorro sofrendo dentro do mato.
A criatura emite um som bizarro e adentra o mato.

CENA 21 - [Link] DE MAURO - SALA - NOITE.


Mauro está deitado no chão de sua casa. Levanta-se e vai até
sua vaca. Não há rastros de Moêma em sua casa.

CENA 22 - [Link] DE MAURO - SALA - NOITE.


Mauro passa por onde estavam seus cachorros e vê o longo
rastro de sangue.

CENA 23 - EXT. - CASA DE MAURO - MATA - FINAL DE TARDE.


Mauro volta para casa com a tarrafa nas costas sem nenhum
peixe e com a expressão abatida. Ele para e olha em volta.
Ajoelha-se em lugar alagado e atola os braços no barro.
Tenta levantar, porém sente algo puxando seu braço. Faz força
e sente dor. Ao retirar o braço da terra, um dente sai em sua
mão e sua boca sangra. Ele olha abismado para a mão, fecha a
cara e vai em ritmo rápido para casa.

CENA 24 - EXT. - CASA DE MAURO - VARANDA - FINAL DE TARDE.


Passa a mão na vaca. E diz perto da orelha do animal:

MAURO:
A gente é tudo a mesma coisa...Mas, bicho a gente não é!

CENA 25 - INT. - CASA DE MAURO - COZINHA E OUTROS CÔMODOS -


NOITE
Mauro entra na casa e risca o último risco horizontal com
carvão. Pega o resto do carvão e risca o próprio corpo.
DETALHE de Mauro pegando o berrante
CENA 26 - EXT.- CASA DE MAURO - VARANDA - FINAL DE TARDE.

Ele olha para o mato, e toca o berrante...toma fôlego e toca-o


novamente.

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