Última Estação (Drama / Mistério)
Capítulo 1 – O Comboio da Meia-Noite
A estação de São Bento, no Porto, estava quase deserta. Passava pouco da meia-noite
quando um comboio antigo entrou na plataforma, soltando um silvo agudo. Não havia
aviso no painel eletrônico, nem registo daquele horário.
Marta, jornalista de 28 anos, tinha ido à estação para apanhar o último comboio
para Lisboa. Mas o bilhete que comprara não correspondia a nenhum dos que estavam
no horário oficial.
Um revisor elegante, vestido como nos anos 50, aproximou-se:
— Senhora, o seu lugar é no vagão 3.
Sem entender, Marta entrou. O comboio partiu em silêncio, como se deslizasse sobre
um trilho invisível.
Capítulo 2 – Passageiros Improváveis
O vagão estava cheio, mas os passageiros não pareciam normais. Havia um soldado com
uniforme da Primeira Guerra, uma senhora com vestido de época e uma criança com um
urso de pelúcia antigo.
Todos a olhavam com curiosidade.
— Este não é um comboio comum, pois não? — perguntou Marta à mulher ao seu lado.
A senhora sorriu melancolicamente. — Aqui viajamos para onde nunca chegamos em
vida.
Um arrepio percorreu a espinha de Marta.
Capítulo 3 – Ecos do Passado
Durante a viagem, os passageiros começaram a contar as suas histórias. O soldado
descreveu a batalha em que morrera. A criança falava de um incêndio em casa.
Marta não conseguia acreditar. Seria um sonho? Estava morta também?
No reflexo da janela, viu o seu rosto pálido e cansado. Recordou-se de que, poucas
horas antes, tivera um acidente de carro numa estrada deserta. Talvez… talvez nunca
tivesse sobrevivido.
Capítulo 4 – O Revisor
Marta foi até ao revisor e perguntou em desespero:
— Para onde vai este comboio?
Ele respondeu calmamente:
— Para a última estação. Cada um desce onde deve descer.
— E eu? Onde devo descer?
O revisor encarou-a com um olhar grave. — Isso depende do que deixou por resolver.
Capítulo 5 – Entre Dois Destinos
O comboio atravessava paisagens impossíveis: mares iluminados por luas azuis,
cidades fantasma, campos onde milhares de velas ardiam no escuro.
Marta sentia o coração apertado. Não estava pronta para morrer. Ainda tinha a mãe,
os amigos, sonhos por cumprir.
Quando o comboio parou numa estação envolta em nevoeiro, alguns passageiros
desceram. Marta ouviu gritos de alegria, outros de dor. As portas fecharam-se de
novo.
Capítulo 6 – A Escolha
O revisor aproximou-se dela uma última vez.
— Marta, tens duas opções: continuar a viagem até ao fim, ou regressar. Mas para
regressar, terás de carregar o peso da dor e do acidente que sofrestes.
As lágrimas escorreram pelo seu rosto. Queria viver. Queria mais tempo.
— Eu escolho voltar. — disse com firmeza.
Capítulo 7 – O Regresso
O comboio começou a dissolver-se em névoa. Marta sentiu o corpo cair no vazio, como
se fosse sugada para trás.
Acordou num hospital, rodeada de máquinas e enfermeiros. Estava viva, ainda que com
cicatrizes.
Fechou os olhos e, por um instante, jurou ouvir o apito de um comboio distante.
Epílogo – O Bilhete
Meses depois, ao arrumar as roupas usadas no dia do acidente, Marta encontrou no
bolso do casaco um bilhete amarelado.
“Vagão 3 – Última Estação”
Nunca contou a ninguém. Mas sempre que passava por uma estação deserta, sentia que
um dia aquele comboio voltaria a chamá-la.