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Avanços na Fixação Biológica de Nitrogênio

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Avanços recentes na

pesquisa em fixação biológica


de nitrogênio no Brasil*
JOHANNA DÖBEREINER

A biologia do solo oferece inúmeras alternativas para o


desenvolvimento de novas biotecnologías que visam
substituir sistemas agrícolas tradicionais baseados
no crescente uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Devido ao
alto custo dos fertilizantes nitrogenados (70% dos custos dos
fertilizantes), a fixação biológica de nitrogênio que permite o uso,
pelas plantas, do N2 molecular da atmosfera, é o processo mais
estudado na biologia do solo, e os desenvolvimentos da biotecnologia
moderna em muito contribuíram para os progressos recentes neste
campo. A agricultura tropical não só é sujeita à erosão e, portanto,
menos apropriada para agrossistemas baseados em uso intensivo de
fertilizantes; ela ainda oferece umidade e temperaturas ótimas durante
todo o ano para a atividade microbiológica.
Na presente conferência, os avanços biotecnológicos mais recentes na
pesquisa relacionada com fixação biológica de nitrogênio no Brasil
(FBN) e as suas implicações com a agricultura tropical serão
discutidos.
Fixação de N2 em leguminosas
As leguminosas possuem o mecanismo simbiótico mais sofisticado e
eficiente entre as associações de plantas superiores com bactérias
fixadoras de N2 e as leguminosas de grão e forrageiras têm papel
importante na agricultura tropical. O sucesso da soja no Brasil se deve
a um programa de melhoramento direcionado à obtenção de cultivares
com alta produção sem adubação nitrogenada e ao desenvolvimento
em paralelo de inoculantes contendo rizóbios adaptados às condições e
solos brasileiros. O avanço da soja para os cerrados se deve, além da
identificação e solução dos problemas de fertilidade, principalmente à
obtenção de inoculantes novos capazes de competir com a microflora
de um ecossistema perturbado após a conversão dos cerrados em terras
de cultura. A adubação e calagem destes solos resulta numa
multiplicação indiscriminada de actinomicetos produtores de
antibióticos (COELHO e DROZDOWICZ, 1979) e a sobrevivência
dos rizóbios inoculados nestes solos depende da resistência à
streptomicina e vários outros antibióticos (SCOTTI et al., 1982).

* Conferência proferida pela professora Johanna Döbereiner, da Universidade Rural do Rio de Janeiro, no IEA em 16
de março de 1989.
Estudos mais recentes revelaram ainda que há rizóbios de soja muito
mais eficientes que os atualmente usados nos cerrados e que
transferem proporção maior do N fixado aos grãos (NEVES et al.,
1985). Estas estirpes possuem um mecanismo de reciclamento do H2
liberado durante o processo da redução do N2(HUP+) que de forma
ainda desconhecida é relacionado com a incorporação do N fixado em
forma de ureídeos, que por sua vez transportam o N diretamente aos
grãos (quadro 1), havendo menor perda com a caída das folhas. A
inoculação com estas estirpes de rizóbios, em solos onde não foi
plantada soja anteriormente com outros inoculantes, pode
proporcionar aumentos de produção de grãos na ordem de 40%
(quadro 2). Estas estirpes, entretanto, são pouco competitivas e ainda
não foi possível estabelecê-las em campos de cerrado onde já foi
plantada soja inoculada anteriormente.
Inter-relações semelhantes entre eficiência nodular, HUP, transporte
de N em forma de ureídeos e índice de colheita foram também
observadas em feijão (HUNGRIA e NEVES, 1986, NEVES e
HUNGRIA, 1987), onde, em vez de dois grupos distintos de
eficiencia nodular, etc., parece ter variações contínuas influenciadas
também pelo genotipo da planta (figura 1). A fixação de N2em feijão
tem problemas adicionais causados pela instabilidade genética das
estirpes de rizóbios isoladas desta cultura, que é causada pelo
rearranjamento freqüente do DNA (MARTÍNEZ et al, 1988), que
ainda é acelerado sob temperaturas elevadas (35 a 40°C) que
freqüentemente ocorrem em nossos solos. Estes autores observaram
dois grupos de rizóbios capazes de nodular o feijão, o grupo I, que é
específico para Phaseolus vulgaris e que é instável em relação a sua
performance simbiótica, enquanto o grupo II, além do feijão, nodula
várias leguminosas, principalmente arbóreas, e mostra características
dos rizóbios destas espécies que são muito mais estáveis, nodulando e
fixando N2 com até 40°C (CUNHA e FRANCO, com. pess.). A
seleção entre mais que 100 estirpes de rizóbio que nodulam
leguminosas arbóreas resultou em um grupo de 11 que são capazes de
nodular o feijão, metade dos quais fixando nitrogênio normalmente
em regime de 8h/dia de 40°C (quadro 3) (HUNGRIA e FRANCO,
1988). Estes resultados recentes podem vir a solucionar o problema da
fixação de N2 em feijão até então sem solução à vista. Como no caso
da soja, no entanto ainda há necessidade de adaptação destas estirpes
às condições de solos ácidos e fazê-las mais competitivas com os
rizóbios que ocorrem naturalmente em nossos solos.
Fixação de nitrogênio em cereais e cana-de-açúcar:
A extensão da FBN aos cereais e à cana-de-açúcar representa um dos
maiores desafios da pesquisa em biologia do solo, já que estas culturas
representam a maior parcela nas culturas plantadas em nosso meio,
usando mais que 90% dos fertilizantes nitrogenados vendidos no país.
Gramíneas incluindo cereais e cana-de-açúcar não formam nodulos
com bactérias fixadoras de N2 como as leguminosas. Mas nos últimos
15 anos, foram descobertas 10 novas espécies de bactérias fixadoras de
N2 que vivem numa associação menos perfeita nas raízes das
gramíneas, 7 delas descobertas no Brasil (quadro 4). Estas bactérias
todas são microaeróbias quando dependentes da FBN, isto é, somente
fixam N2 quando não há acúmulo de oxigênio em torno delas. A chave
para o descobrimento deste grupo novo de bactérias foi o uso de
meios de cultura semi-sólidos onde, atraídas pela quimotactia, as
bactérias se movem para a região no meio onde a taxa de difusão de
O2 é menor ou igual à taxa de respiração das bactérias.
Todas estas bactérias, com excessão do Acetobacter diazotrophicus, em
regiões tropicais e subtropicais ocorrem em números entre 103 e 106g-1
no solo e, geralmente, em números maiores ainda na superfície de
raízes de cereais e gramíneas forrageiras (MAGALHÃES etal.,1983,
BALDANI et al., 1986). Foram ainda isoladas do interior das raízes
(raízes tratadas com desinfectantes) e em alguns casos também dos
colmos (quadro 4). A. halopraeferans é comum na superfície de raízes,
mas não no interior de capim "Kallar", importante forrageira para
solos áridos salinos no Paquistão (REINHOLD et al., 1987). Esta
espécie apresenta uma adaptação marcante às condições áridas, tendo,
como temperatura ótima para crescimento e fixação deN 2 , 41°C. Esta
bactéria não foi encontrada em solos salinos do Rio de Janeiro ou em
raízes de várias outras gramíneas colhidas na região semi-árida do
Nordeste. Mas estirpes de A. brasilense, isoladas de raízes destas
gramíneas, mostram adaptação considerável a temperaturas elevadas e
concentrações de sal quando comparadas às estirpes isoladas na região
Centro-Sul do país (figura 2).

ESTUDOS AVANÇADOS, 4(8) 147


Como no caso das leguminosas, o efeito da inoculação de cereais com
estas bacterias depende do estabelecimento delas sob condições de
campo. Um exemplo do efeito da inoculaçâo de sorgo é apresentado
no quadro 5. Os resultados mais consistentes até agora foram obtidos
com trigo no sul do Brasil (BALDANI et al, 1987). O quadro 6 dá
um exemplo de um experimento onde Azospirillum brasilense Sp7
isolado do solo não se estabeleceu nas raízes do trigo, enquanto A.
amazonense XTr, isolado de raízes lavadas de trigo, foi intermediário e
A. brasilense Sp 245, isolado de raízes esterilizadas, se estabeleceu bem
e teve o efeito mais pronunciado no crescimento do trigo. Este efeito
da estirpe Sp 245, entretanto, não pode ser atribuído à fixação de N2
mas sim a um efeito da bactéria na eficiência do uso do fertilizante
nitrogenado (BODDEY et al., 1986). Isto foi confirmado em cultura
monoxênica com mutantes nitrato-redutase negativas desta estirpe
(FERREIRA et al, 1987), indicando papel importante da
nitrato-redutase da bactéria na associação destas bactérias com a
planta. Por outro lado, duas das bactérias citadas no quadro 4 não
possuem nitrato-redutase, o que lhes permite de fixar N2, mesmo na
presença de altas concentrações de nitrato no solo ou na planta, fato
que favorece a complementação da fertilização nitrogenada com FBN.
A bactéria nova mais recente, o Acetobacter diazotrophicus, apresenta
características extraordinárias que provêm de seu habitat, as raízes e
colmos do cana-de-açúcar (CAVALCANTE e DÕBEREINER, 1988,
GILLIS et al.; 1988). A bactéria foi isolada em grandes números de
cana de Pernambuco, Alagoas, Minas Gerais e São Paulo e não foi
encontrada no solo mesmo no canavial, nem em doze espécies de ervas
daninhas colhidas entre e dentro das fileiras da cana (REIS et al.,
1988). Isto indica que não se trata de bactéria do solo, mas sim de
bactéria cujo habitat é a planta e que sua propagação se dá com o
plantio dos toletes da cana. Como outras bactérias acéticas, ela é um
pequeno bastonete Gram negativo, aerobio que cresce melhor com
altas concentrações de açúcar (10%) em meio ácido, mostrando
fixação de N² e crescimento sem outra fonte de N em pH abaixo de 3
durante vários dias (TEIXEIRA et al.,1987). Etanol é completamente
oxidado a CO2 e H2O, formando o brilho nacreo típico de Acetobacter
em placas com CaCO3.
O potencial de fixação de N² em gramíneas pôde ser melhor avaliado
pela diluição isotópica de 15N aplicado ao solo em forma de uréia e
cuja relação com 14N na planta, proveniente do N2 gasoso, permite
calcular a contribuição da FBN, a nutrição nitrogenada da planta.
Experimentos deste tipo mostraram fixação de N2 de 20 a 40% do N
total incorporado em certas cultivares de capim-colonião (Panicum
maximum) e espécies de [Link] dados mais promissores foram
recentemente obtidos com a cana-de-açúcar, usando a mesma
metodologia e comparando variedades de cana cultivadas em um
tanque grande preenchido com solo marcado com 15N (quadro 7).
Resultados semelhantes foram também obtidos num experimento de
vasos grandes (50 litros), onde os cálculos pela diluição isotópica
ainda foram confirmados por balanços de N e onde a variedade de
cana CB 47-89 obteve 70% do nitrogênio através da fixação biológica
(LIMA etal,1987), enquanto outras variedades como a NA 56-79
recebeu pouco N da FBN. Estas diferenças entre genotipos de
gramíneas em relação a FBN mostram um grande potencial para a sua
melhor exploração através de melhoramento vegetal.
Os resultados recentes com cana-de-açúcar podem vir a, parcialmente,
solucionar o problema dos subsídios do álcool, já que a substituição da
fertilização nitrogenada nesta cultura reduzirá os insumos sem perda
de produtividade. Além disso, em função dos elevados custos também
energéticos dos adubos nitrogenados, a sua substituição contribuirá
para o aumento do balanço energético.
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Johanna Döbereiner, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Em-


brapa) e conferencista do mês de marco/1989 do IEA.

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