Poema "A Menina da Guatemala" de Martí
Poema "A Menina da Guatemala" de Martí
Calado, ao escurecer,
me chamou o coveiro;
nunca mais voltei a ver
a que morreu de amor.
Rima do poema
A rima do poema é consonante de acordo com o esquema a b–a b. A terminação que mais se repete em
o poema é "-or" pertencendo à rima b. Esta sempre se repete nas estrofes ímpares, as
estrofas 5 e 9 são uma exceção porque têm a mesma rima b–h b
Métrica e rima do poema (o número indica a métrica, a letra a rima)
Quero, à sombra de uma asa,
contar este conto em flor: =7 + 1 b
a menina da Guatemala, =8 a
a que morreu de amor. =7 + 1 b
Eram de lírios os ramos;
e as orlas de reseda =8 d
e de jasmim; a enterramos =8 c
em uma caixa de seda =8 d
...Ela deu ao desmemoriado =8 e
uma almofada de cheiro; =7 + 1 b
ele voltou, voltou casado; =8 e
ela morreu de amor.
Iban carregando-a em andas =8 f
bispos e embaixadores;=8 g
atrás ia o povo em grupos,
todo carregado de flores =8 g
...Ela, por vê-lo novamente, = 7 + 1 h
saiu para vê-lo no mirante; =7 + 1 b
ele voltou com sua mulher, 7 + 1 h
ela morreu de amor.7 + 1 b
Como de bronze candente, =8 i
ao beijo de despedida, =8 j
era sua frente -¡a frente =8 i
o que eu mais amei na minha vida! =8 j
...Entrou à tarde no rio, =8 k
o doutor a tirou morta; =7 + 1 b
dizem que morreu de frio, =8 k
Eu sei que ele(a) morreu de amor.
Ali, na câmara gelada,
ela foi colocada em dois bancos: =8 m
beije sua mão afiada, =8 l
beije seus sapatos brancos. =8 m
Callado, ao escurecer, =7 + 1 h
me chamou o coveiro; =7 + 1 b
nunca mais voltei a ver =7 + 1 h
a que morreu de amor. =7 + 1 b
Estrutura interna
A primeira estrofe é introdutória porque apresenta sobre o que se tratará o poema. As estrofes
As estrofes ímpares descrevem o velório, a procissão e o enterro da menina. As estrofes ímpares descrevem a
história de amor e desilusão da menina. Portanto, estas estrofes pertencem a um passado anterior
de todas as estrofes pares. A última estrofa pode ser considerada como o fechamento do problema.
Análise
Primeiro parágrafo
No primeiro "quero" está se expressando ao eu lírico, depois disso encontramos uma cesura, a qual
perfeitamente poderia não estar, sua função é a de isolar o “quero” do resto do poema, fazendo
que o encabece, o eu lírico governa o poema.
"À sombra de uma asa" é uma metáfora onde o metaforizado é a musa da inspiração e o
metaforizante é à sombra de uma asa. O eu lírico quer nos contar a história sob a proteção
da musa da inspiração, para poder encontrar as palavras e expressões corretas.
“Contar este conto em flor” é outra metáfora onde o metaforizado é conto e o metaforizante em
flor. Utiliza-se a palavra conto já que será contada uma anedota, mesmo assim, o poema não se encaixa na
definição de conto.
É utilizado "em flor" já que o eu lírico quer contar uma lembrança que está viva, não está morta e
marchito tapado por outros recuerdos. A flor simboliza a vitalidade.
“A menina da Guatemala” usa a palavra menina embora não se trate de uma menina de 9 ou 10 anos.
mas mostra o nível socioeconômico da mulher, na época em que foi escrito isso
poema se les dizia meninas às mulheres jovens que ainda moravam com seus pais e pertenciam a
uma família rica, essas mulheres também não tinham parceiro e eram virgens.
Utiliza-se a palavra “a” para se referir à menina, pois não era qualquer menina, mas sim a única.
que se morreu de amor, encontramos aqui uma anáfora, que determina que é essa menina e não outra.
A que morreu de amor aqui encontramos é o Leit Motiv do poema já que aparece essa mesma
frase o similar em todas as estrofes ímpares.
Segundo Parágrafo
Esta estrofa refere-se ao velório.
Encontramos uma hiperbato (alteração da ordem lógica das palavras) em "Eram de lírios os"
ramos e as orlas de reseda” nós diríamos “Os ramos eram de lírios”, o hiperbaton está para
que o verbo fique no começo e todas as flores (reseda e jasmim) fiquem juntas, assim se dá a
ideia de quantidade, destacando as flores que cercam a menina. As flores brancas simbolizam a
delicadeza, sua frescura, a pureza, a juventude e a virgindade da menina, encontramos uma
sinestesia (entrecruzamento de sentidos) já que a estas flores as podemos ver, cheirar e tocar. Para
ajudar a sensação de quantidade encontramos uma anáfora e um polissíndeto (acumulação de
coisas através da "e")
Há uma cesura que busca separar tudo o que é relativo à vida e à morte, portanto
podemos dizer que “…de jasmim; a enterramos…” é uma estrutura antitética devido ao fato de que são
ideias opostas.
“Nós a enterramos” está encabalgado no verso seguinte onde a expressão se suaviza com o
eufemismo “em uma caixa de seda” A única palavra chocante é “enterramos”
Terceira estrofe
Os pontos de suspensão marcam um salto no tempo entre a vida e a morte da vida. Vamos pular.
a um passado em que ela está viva.
É a primeira e única vez em toda a história que vamos encontrar a menina e o homem cara a cara.
a cara.
Utiliza-se a palavra desmemoriado para se referir ao homem para destacar que este não se lembra.
da menina, isto para evitar que isso aconteça, ela dá uma almofada de cheiro para impedir que se esqueça, na
A época em que o poema foi escrito era normal que se desse roupas com o aroma de
a pessoa para que não se esquecessem dela quando seu parceiro saia de viagem, no entanto isso não
funcionou. Desde o primeiro verso, o eu lírico nos adianta que o homem se esquecerá dela.
Há uma cesura que divide os desejos da menina "ele voltou" e a desilusão da menina "voltou".
"casado", isso é uma estrutura antitética já que mostra ideias opostas.
Quarta estrofe
A menina é alguém muito importante, pois é carregada por pessoas importantes, os bispos são
pessoas de grande hierarquia na igreja enquanto os embaixadores no Estado. Há uma
hipérbole em "tudo carregado de flores" já que é uma exageração. A menina era importante para as
classes altas e também para as demais classes, era querida por todo o povo.
Quinta estrofa
Encontramos novamente os pontos de suspensão por um salto no tempo, neste caso pulamos
até o momento em que a menina vê o homem.
O impacto que a menina sofreu ao vê-lo foi grande, pois ninguém a avisou contando isso.
ela o viu com seus próprios olhos.
Voltar é a palavra mais importante da estrofe, pois nela encontramos 3 palavras que
também são importantes Voltar, ver e vê-lo
Encontramos uma aliteração na estrofe, pois o som da letra “v” se repete várias vezes, esta
para ressaltar a ação de ver.
A cesura que podemos encontrar no início da estrofe está para separar a menina do resto
do poema, está para isolá-la. Mais abaixo encontra-se o desmemoriado e sua mulher. Formar-se-á um
triângulo amoroso entre eles três, a mulher tem a única função de deixar claro que nunca a
a menina e o desmemoriado poderão estar juntos novamente.
Sexta estrofa
Encontramos um hipérbato que muda a ordem das palavras que formam a comparação. A
comparada é a testa e o comparante é o bronze ardente. O ardente são os lábios dele
enquanto o bronze corresponde à testa que é da cor do bronze e rígida como ele.
O eu lírico vai explodir em uma confissão, nesta encontramos uma sinédoque já que se utiliza a
a frente para denominar a toda a menina. Antes que exploda encontramos uma cesura que está
para ressaltar a confissão, repete-se a palavra frente para ajudar a destacar. A confissão está
encabalgada para que esta possa explodir.
Quanto ao aspecto formal, o poema apresenta uma estrutura externa composta por nove
estrofas. As quais possuem 4 versos. Por sua vez, os versos possuem oito sílabas fônicas.
Com relação ao aspecto fônico, a rima é consonante porque coincidem todos os sons, tanto
vogais como consoantes. Cabe acrescentar que esta rima se produz entre os versos um e três, por
um lado, e os versos dois e quatro, por outro, de cada estrofe.
O poema apresenta um assunto do ponto de vista denotativo que se trata de uma mulher que
estava apaixonada por um homem, esse amor não é correspondido, já que quando a mulher volta
a ver seu amado, este volta casado. Por isso ela se deprime e decide terminar com sua vida,
porque pensa que esta já não tem significado sem ele. Além disso, como a apaixonada estava situada
em um bom nível tanto econômico quanto social, todo o povo esteve atento à sua morte.
Por outro lado, em relação ao sentido conotativo, opino que o poema nos faz entender que *.
Quanto à estrutura interna, esta coincide com a externa. As estrofes pares fazem referência
ao enterro da menina da Guatemala, e as ímpares à morte da mesma. Pode-se dizer que
a estrutura externa está alternada.
Não é possível estudar o título do poema já que o poeta José Martí não pôs título.
O poema começa com um verbo conjugado na primeira pessoa do singular “Quero”, através
do qual se expressa o eu lírico (É a voz que se expressa através do poema. Assim como o
o narrador é fictício (ao contrário do autor que é real). Manifesta-se através da primeira pessoa
de singular o plural) neste caso a função é criar um clima de intimidade com o leitor, uma vez que a
através do poema confessará um segredo íntimo: sua versão sobre a morte da jovem de
Guatemala. O eu lírico acredita que se trata de um suicídio porque ele é o desmemoriado, este tem
provas de que ela morreu de amor, uma vez que sabe que estava apaixonada por ele, porque recebia
presentes dela. A palavra ala na obra de Martí significa proteção. Este precisa de proteção
porque se sente culpado por ter provocado o suicídio da jovem.
No segundo verso da primeira estrofe onde menciona que conta esta história em flor, a
a expressão conto em flor é uma metáfora (Figura retórica ou tropo que consiste em substituir um
termino por outro em sentido figurado) neste caso sua função é transferir as características da
flor à menina da Guatemala (Na América Central, menina significa jovem, solteira, de alta classe)
econômica e social), uma vez que o que indica é a beleza da menina, a beleza e a fragilidade, esta é
tão frágil que diante da desilusão amorosa decide tirar a própria vida.
Laniña de Guatemala
O que podemos indicar deste verso é que o termo menina na América Central significa jovem,
solteira e de alta classe social. Além disso, os que pesquisam a vida de José Martí vinculam este poema
com um episódio da vida real do poeta. E por isso a menina da Guatemala seria Maria Granados,
Filha do presidente da Guatemala, amigo pessoal que hospedou Martí em seu exílio.
Este verso sinaliza a presença de Leitmotiv (figura retórica ou tropo que se produz quando uma ou
várias frases aparecem com variantes no final de várias estrofes)
O primeiro verso da segunda estrofe mostra que este verso está alterado para que rime, há
hipérbato (Figura retórica ou tropo que consiste na alteração da ordem lógica e sintática das
As flores eram de lírios. Além disso, os lírios são uma flor que se destaca.
delicadeza e beleza da menina
E as orlas de reseda
O que podemos apontar sobre este verso é que as orlas são uma flor que destaca a delicadeza e
beleza da menina.
E de jasmim a enterramos