Cresci em um lar completamente distante tanto da minha família paterna quanto da materna, o
que gerou inúmeras consequências. Essa experiência não foi apenas minha; minha mãe também viveu
algo semelhante. Ela não conheceu sua mãe biológica, pois esta faleceu quando minha mãe ainda era
um bebê. Consequentemente, eu também nunca conheci minha avó materna. Cheguei a conhecer meu
avô materno, mas o vi pouquíssimas vezes. Grande parte da minha família materna permanece
desconhecida para mim. Não conheço todos os meus tios e, mesmo com os que conheço, não tenho
intimidade. O mesmo ocorre em relação com meus primos.
Com a família paterna, a situação não é diferente. Sei ainda menos sobre eles do que sobre os
meus parentes maternos. Nunca conheci meu avô paterno e só vi minha avó paterna no fim da vida
dela. Não conheço todos os meus tios e primos desse lado da família. Meu pai teve cinco
relacionamentos, dos quais apenas um resultou em casamento formal, que foi com sua segunda
mulher que se tornou esposa, conforme mostra meu genograma. Ao todo, ele teve sete filhos. Desses,
conheço apenas quatro. Do relacionamento entre ele e minha mãe, sou filho único. Embora tenha
irmãos por parte de pai, nunca cresci com nenhum deles.
Minha maior dificuldade é justamente não conhecer meus parentes de modo geral. Tenho tios,
mas, por não ter convivido com eles, não consigo chamá-los de tios, e por essa razão, os chamo pelo
nome. Da mesma forma, é difícil ver meus irmãos como irmãos de fato, pois não temos contato e, em
alguns casos, nem mesmo nos conhecemos. Sei muito pouco sobre minha família como um todo.
Confesso que isso me entristece profundamente, pois gostaria de ter crescido cercado por eles.
O distanciamento trouxe consequências enormes. Nunca soube, na prática, o que é ter avós,
irmãos, tios e primos presentes. A única experiência familiar real que tive foi com minha mãe. Depois
da separação dos meus pais, quando eu tinha cerca de dez ou onze anos, perdi também o pouco de
vínculo que tinha com meu pai. Fiquei sob a guarda da minha mãe por escolha própria, e meu pai, a
partir daí, passou a me tratar como se fosse um estranho. Ele parou de falar comigo, me esqueceu e
até mudou de cidade. Como eu não tinha contato com quase ninguém da família dele, acabei
descobrindo sobre sua morte apenas um mês depois do falecimento, algo que me deixou
profundamente traumatizado.
Ao me casar, enfrentei dificuldades no relacionamento com minha esposa devido à minha falta
de referência familiar. Eu vivia inseguro, acreditando que ela um dia me deixaria, assim como meu
pai fez comigo. Carregava o medo constante de que nosso casamento não daria certo, influenciado
pelo histórico de cinco relacionamentos fracassados do meu pai. Graças a Deus e ao acompanhamento
terapêutico, tenho aprendido a lidar com esses traumas e a melhorar meus relacionamentos.
Acredito que minha história possa servir de exemplo e incentivo para ajudar outras famílias
que, assim como a minha, enfrentaram grandes desafios por causa do distanciamento familiar. Ao
compartilhar minha trajetória, quero mostrar que ninguém vive uma vida perfeita e que, se houve
solução para mim, apesar das inúmeras dificuldades, também pode haver para qualquer um.