A RIMA E SUAS CLASSES
A época da riqueza estrófica já passou, agora entendemos a rima como simples ornamento.
Perdemos a capacidade de apreciar sua beleza. E de gerá-la, porque isso implica viver imerso
em uma série de coordenadas culturais e literárias que já não existem. Atualmente, apenas os poetas
com uma grande formação acadêmica na leitura dos clássicos podem rimar com destreza, porque se
ele está imerso nessa cultura. Rimar não é mais uma obrigação, mas o conhecimento sobre a rima nos
permite aprofundar em descobertas literárias fascinantes sobre as quais a poesia foi construída
contemporânea.
Neste apartado estudaremos os tipos de rima mais importantes, deixando de lado as categorias mais
exhaustivas. Esta compilação se baseia em diferentes fontes na forma de um resumo prático e
essencial, mas suficientemente completo para aqueles que desejam uma digna introdução ao tema.
[Link]ção
A rima consiste na repetição de sons em dois ou mais versos a partir da última vogal
acentuada (tónica).
[Link]ção
[Link] seu timbre
[Link] consonante ou perfeita: consiste na repetição de vogais e consoantes a partir
da última vogal acentuada.
O arrabalde solitário
tem a noite a seus pés,
e treme seu campanário
no vapor visionário
desse paisaje holandês.
(Leopoldo Lugones)
Ao identificar este tipo de rima, teremos em conta que a rima consonante se fundamenta em
uma identidade fonética que não tem por que corresponder a uma identidade nas grafias, pois
grafias distintas podem representar um mesmo som (como ocorre no espanhol com os casos
de «b» e «v», ou de «g» e «j» seguidas das vogais «e» ou «i»). Alguns autores apelam ao seseio
para aconsonantar a «s» com a «z», mas tal licença não é recomendada, ou em todo caso o
utilizá-la com muita sobriedade. Elyeísmo é inadmissível, portanto são asonantes vozes como
cavalo raio
[Link] asonante ou imperfeita: consiste na repetição de vogais a partir da última
vocal acentuada.
Cheguei à pobre cabana
em dias de primavera.
A menina triste cantava,
a avó fiava na roca.
(Rubén Darío)
Ao identificar esse tipo de rima, teremos em conta que as vogais fracas dos ditongos, assim
como as vogais que se encontram na sílaba pós-tônica (a seguinte ao acento) nas vozes
esdrújulas, não são consideradas para a assonância. O fenômeno do ditongo também ocorre na
rima consonante, como veremos a seguir.
Derivações das anteriores
De acordo com as regras que vimos na rima consonante e asonante, podemos derivar de suas
particularidades de outras classes de rima:
[Link] consonante imperfeita: é aquela em que a vogal tônica é precedida por "i" ou
por «u» formando diptongo, as quais são ignoradas.
Pois muda vive, cantarei eu agora
com a voz que depois decreta o céu
o que diz à tarde e ao amanhecer,
tecido em suaves penas mortal véu.
E você, heroica e celestial senhora,
por quem meu engano equiparou seu voo
(Lope de Vega)
[Link] consonante simulada: neste caso a vogal «i» e a «u» seguem a vogal tônica
formando diptongo, sendo também ignoradas.
A vida nas bolhas e nos tombos,
a borbotões, sem pudor nem afronta,
visionária de ventos e de rumos.
a que não admite freio nem demora
quando se completam trinta anos.
(Luis Miguel Rubio)
[Link] consonante falsa ou rima consonante modulada: é aquela que se produz entre
palavras que soam de forma muito parecida, mas que na verdade têm alguma consoante
distinta.
O fio de aço penetra a carne
enchendo minha mente de velhos clamores.
Sinto-me tangente a tantos amores...
minha espada certeira já nada vai me dar.
(Elhi Delsue)
[Link] idêntica: consiste em rimar versos por meio da repetição de uma mesma palavra. De
Esta forma se produz, como é óbvio, uma consonância total.
Como todas as coisas estão cheias de alma,
emerge das coisas, cheia da minha alma.
Mariposa de sonho, você se parece com minha alma,
e você se parece com a palavra melancolia
(Pablo Neruda)
[Link] intensa: é a rima que se inicia mesmo antes da vogal acentuada.
(…) imitar na beleza trabalhadora
o tom ameno da queadora
(Luis de Góngora)
[Link] asonante de perceptibilidade degradada: ao não considerar a sílaba pós-tônica nas
vocês esdrújulas, é possível rimar uma palavra esdrújula com uma liana. Note na seguinte
estrofa a coincidência dos fonemas «e» e «o», ignorando a «i» da esdrújula do quarto
verso.
Os manicômios de junho
volteantes, huyen, cegos
as cem cabeças partidas
em cem chispazos elétricos
(Rafael Alberti)
respectivamente. Por exemplo: «venus» pode rimar em asonante com «céu»; e «teses» pode
rimar com «mente».
Abre a rosa o seio,
reina gentil do vale,
a tempo que levanta o lírio
seu delicado cálice.
Qual reluzem as estrelas
sobre o azul dos céus,
e entre elas serena e pura
se ergue a esplêndida Vênus.
Eduardo de la Barra
[Link] partida: é aquela que se estabelece nos versos que suprimem a sílaba que segue
à vocal acentuada. O valor destes versos se cifra na originalidade rítmico-acústica que
produza sua leitura.
Sou Sancho Pança, escudeiro
do manchego don Quijo-;
puse pés em pólvora
por viver a discreto;
que o tácito Villadie
toda a sua razão de estar
cifrou em uma retirada
segundo sente Celesti,
livro, na minha opinião, divi
se eu encobrisse mais o humano
(Miguel de Cervantes)
2.2. Segundo seu sotaque
[Link] oxítona (aguda): é a total ou parcial identidade acústica entre dois ou mais versos, em
onde a sílaba tônica é a sílaba final do verso. A rima se mantém na última sílaba do
verso, o que implica que se conta uma sílaba a mais do que realmente contém. Neste tipo de
rima, quando se dá um final vocálico (logicamente agudo), não existe distinção possível entre rima
consonante ou asonante.
Leva este rio crescido,
e levará a cada dia
(Luis de Góngora)
[Link] paroxítana (llana o grave): é a identidade acústica total ou parcial entre dois ou mais
versos, onde a sílaba tônica é a penúltima sílaba do verso. A rima se mantém na
penúltima e na última sílaba do verso.
O que não escrevo, dizes, ou que não vivo?
Faz você com meu amor que eu não sinta
que eu farei com minha caneta que não escreve
(Lope de Vega)
[Link] proparoxítana (esdrújula): é a identidade acústica total ou parcial entre duas ou mais
versos, onde a sílaba tônica é a antepenúltima sílaba do verso. Em caso de rima
consonante, a rima se mantém na antepenúltima, na penúltima e na última sílaba do verso.
Em caso de rima asonante, omite-se a coincidência da sílaba pós-tônica. Este tipo de rima
implica que se cuenta una sílaba menos de las que realmente contiene el verso.
(...) e suas supremas graças, e seus sorrisos únicos,
e seus olhares, astros que vestem túnicas negras
(Rubén Darío)
2.3. De acordo com sua disposição
[Link] contínua: a rima é semelhante em todos os versos. Nas estrofes deste tipo de
rima se les llama estrofas monorrimas.
Como diz Salamo e diz a verdade:
que as coisas do mundo todas são vaidade,
todas as passadeiras vão-se com a idade,
salvo amor de Deus, todas são liviandade.
(Arcipreste de Hita)
[Link] gemela: a rima é semelhante em dois versos consecutivos. A estrofes deste tipo
de rima se les chamam pareados ou série de pareados, embora essa rima possa ocorrer em estrofes mais
complexas.
Por que você se rebela! Por que você agita seu ânimo!
Tonto! Se você entendesse as alegrias infinitas
de plegar-se aos fins do Senhor que nos rege!
O que você quer? Por que você sofre? O que você sonha? O que te aflige?
[Link] abrazada: rima o primeiro verso de uma estrofe com o último verso da mesma
estrofa.
Homens necios que acusais
à mulher sem razão,
sem ver que sois a ocasião
do mesmo que culpais.
(Sor Juana Inés de la Cruz)
[Link] alternada, encadeada ou cruzada: rimam entre si os versos pares e rimam entre si
os versos ímpares.
Dichoso o árvore, que é apenas sensitivo,
e mais a pedra dura porque essa já não sente,
pois não há dor maior do que a dor de ser vivo
não há maior pesadelo do que a vida consciente.
(Rubén Darío)
[Link] trenzada: um ou mais versos de uma estrofe rimam com um ou mais versos de outra
estrofa. O exemplo mais representativo é o terceto encadeado.
Um tapa forte, um golpe gelado,
um golpe invisível e homicida,
um empurrão brutal te derrubou.
Não há extensão maior do que minha ferida,
eu choro minha desventura e seus conjuntos
e sinto mais a sua morte do que a minha vida.
(Miguel Hernández)
[Link] entrelaçada: é uma mistura de rima gêmea com rima abraçada e com rima
alternada. São combinações de versos seguindo um esquema fixado pelo autor, mas
mantendo a mesma estrutura na rima de todas as estrofes. São numerosas as
combinações que podem ser feitas.
A carícia do mar volta à sua praia,
regressa do deserto para Galileia.
Sua visita enaltece a maré
maternal da tua doce calorosa,
e na triste aridez da tua atalaia
te invade sua onda de ternura.
[Link] interna: é a rima que ocorre no interior de um verso; ou seja, em um lugar
distinto do final do verso.
1. Rima em eco: consiste na repetição, no interior de um mesmo verso ou estrofe, de
os fonemas ou sílabas que formam a rima.
Hoje o monarca se casa com sua marca,
não ficou frango a vida, nem comida
com que seja servida, minha querida,
chame-a na comarcapolliparca
(López de Úbeda)
[Link] em eco encadeada: consiste na repetição, no início do verso seguinte, de
os fonemas ou sílabas que formam a rima.
O soberano Gaspar
pares da bela Elvira,
vire o amor mais à direita
descanse suas armas mesmas
Sor Juana Inés de la Cruz
3. Rima em eco encadeada em escada: a palavra final do primeiro verso rima com a
primeira sílaba do segundo verso; a palavra final do segundo verso rima com a segunda
sílaba do terceiro verso e assim sucessivamente. O encadeamento também pode ocorrer entre
palavras, enquanto continua gradualmente. As estrofes com esse tipo de rima são chamadas de
llamaescaleruelasoguirnaldillas.
Por meu amor ferido que cicatriza
trizami nervo sentir-se perdida.
ferida, vida que presumo sem cura,
por ventura, sem ódio, te asseguro
que hoje procuro firmemente te esquecer
porei de minha parte, minha alma, esperança,
Pois teu desdém não se alcança para perdoar;
Minha solidão deve assim confirmar-se!
(Rafael Mérida Cruz-Lascano)
4. Rima em eco redobrada ou refletida: consiste na repetição, ao final do mesmo verso
ou na linha seguinte, dos fonemas ou sílabas que formam a rima, de maneira que
constituyan outro vocábulo em conjunto com outras sílabas ou por si mesmos.
vendo tua carne tão querida, ferida,
por aplicar à sua loucura, cura?
(Juan de Rengifo)
—Tive em momentos distantes,
antes,
que amar os doces cabelos
belos
da ilusão que primeiro
era
no meu alcázar andaluz,
luz
(Rubén Darío)
5. Rima interna italiana: consiste na rima do segundo hemistíquio do primeiro verso
com o primeiro hemistíquio do segundo verso, e assim por diante.
Estava com um ânimo desdenhoso,
com peito corajoso, aquele valente
que contra um rei poderoso e de grande engenho,
que o velho pai Presole tinha,
(Garcilaso de la Vega)
Outra variante consiste em que os primeiros hemistíquios mantêm uma rima e os
segundos outra.
O verso sutil que passa ou se pousa
sobre a mulher sobre a rosa
beijo pode ser, ou ser borboleta.
Na fresca florel verso sutil;
o triunfo de Amor no mês de abril:
Amor, verso e flor, a menina gentil.
(Rubén Darío)
6. Rima leonina: se dá entre os hemistíquios de um mesmo verso composto.
O primeiro apóstolo destenon vale mais que uma festa;
com este e por este farei eu, sim Deus me preste
(Ruiz, Juan, Arcipreste de Hita)
[Link] de maestria maior: a rima se repete em todos os versos que formam as estrofes,
os versos têm o mesmo número de sílabas e as estrofes o mesmo número de versos.
[Link] de média maestria: a rima se repete em alguns versos fixos, geralmente em
primeiro e o último de cada estrofe.
[Link]çãoesquemática
A rima costuma ser representada por uma fórmula alfabética na qual
as maiúsculas designam versos de arte maior e as minúsculas versos de arte menor. As letras
iguais indicam os versos que têm a mesma rima, seja consonante ou asonante. Se a rima é aguda,
se indica com um apóstrofo (A', a'). Um hífen ou espaço em branco representa um verso que queda
livre, ou seja, que não rima com nenhum outro.
Copa de ouro deslumbrante aberta
Sobre a redondeza dos verdes
Bbajos, que os arrobáis nas cores
Amágicos do poniente emarbolado.
(Juan Ramón Jiménez; rima consonante: -ádo, -óres, -óres, -ádo)
Mãe da minha alma,
aquí viejecita eres,
-já os oitenta anos
pesa sobre suas têmporas.
(Salvador Rueda; rima asonante: -, é...e, -, é...e)
[Link]
As rimas devem ser tão próprias e naturais que sem violência sirvam de remate aos versos. É
necessário que se prefiram as consoantes escolhidas e raras, e que se evitem ou descartem as muito
abundantes e vulgares.
O linguista espanhol Eduardo Benot aponta algumas características intrínsecas à perceptibilidade de
as rimas que podem nos servir de base na hora de ponderar seu uso. O ênfase, a forma das
cláusulas, a classe das rimas, o longo ou curto dos versos, a força das pausas, a índole das
palavras que as terminam, somando-se em um sentido, ou restringindo-se, estorvando-se e subtraindo-se em
outros, são movimentos que teremos em conta a partir das seguintes observações:
1 Existem rimas mais perceptíveis do que outras.
2. A clareza das rimas depende das pausas.
3. Se os versos terminam em substantivos ou em verbos, aumentará a proeminência das rimas.
4. As rimas pareadas são muito perceptíveis, e uma longa composição feita só com elas,
resultaria ao final muito monótono.
5. As consoantes nos versos pares são, após os pareados, as mais notáveis.
6. O estilo muito cortado, assim como a existência de asonantes contíguas, perturba a clareza.
das rimas.
7. As consoantes llanas entre as quais estão interpolados três versos, ou mais, deixam em
grande número de casos de sentir-se
8. Os agudos se sentem, mesmo havendo três ou mais versos interpostos.
Por outro lado, tentaremos evitar:
1. A mistura no mesmo poema de rima consonante e asonante.
2. O uso da mesma palavra duas ou mais vezes na rima.
3. O uso de rima idêntica em três ou mais versos consecutivos (martelada excessiva).
4. Recorrer às rimas comuns estabelecidas.
5. A monotonia dos sons.
6. A rima entre palavras homônimas.
7. A rima entre uma palavra simples e sua composta.
8. O abuso dos diminutivos.
9. O abuso de advérbios terminados em –mente.
10. O abuso das terminações verbais, especialmente no infinitivo.