TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Colégio Recursal - Presidente Prudente
Fórum de Presidente Prudente - Av. Miguel Damha, 225, Parque
Residencial Damha - CEP 19053-681, Presidente Prudente-SP
Processo nº: 1001183-42.2016.8.26.0482
Registro: 2018.0000026431
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos de Recurso Inominado nº
1001183-42.2016.8.26.0482, da Comarca de Presidente Prudente, em que é recorrente
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE TRÂNSITO DE SÃO PAULO - DETRAN/SP, é
recorrida AGÁTHA NOVAIS ROQUE SOARES.
ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 1ª Turma do Tribunal de Justiça de
São Paulo, proferir a seguinte decisão:Negaram provimento ao recurso, por V. U., de
conformidade com o voto do relator, que integra este acórdão.
O julgamento teve a participação dos Juizes FLAVIA ALVES MEDEIROS
(Presidente) e VINICIUS PERETTI GIONGO.
São Paulo, 5 de março de 2018
Sérgio Elorza Barbosa de Moraes
Relator
Assinatura Eletrônica
Recurso Inominado nº 1001183-42.2016.8.26.0482
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1001183-42.2016.8.26.0482 - Fórum de Presidente Prudente
RecorrenteDepartamento Estadual de Trânsito de São Paulo - Detran/SP
RecorridoAgátha Novais Roque Soares
Voto nº 725
Vistos
Ementa: Recurso Inominado – Multas de Trânsito -
Pretensão de anular auto de infração de trânsito lavrado em
duplicidade. Autuações por deixar de usar o cinto de
segurança (condutor e passageiro). Infração prevista no art.
167, do CTB. Tipo alternativo que abrange também a omissão
do passageiro e a permissividade do condutor. Aplica-se o
mesmo entendimento quanto a conduta do artigo 170 do
CTB. A condução de veículos sem habilitação incide sobe o
condutor. Não há solidariedade com o proprietário.
Penalidades que recaem sobre o condutor (ou o proprietário
do veículo), nos termos do art. 257, do CTB - Impossibilidade
de lavratura de múltiplas autuações pelo mesmo fato.
Sentença de parcial procedência mantida. Recurso
improvido.
Trata-se de recurso inominado apresentado por
DEPARTAMENTO ESTADUAL DE TRÂNSITO DETRAN-SP contra a
decisão proferida que julgou parcialmente procedente o pedido declaratório de
nulidade de multas de trânsito aforado por AGÁTHA NOVAIS ROQUE
SOARES que alega que pesa contra seu veículo várias multas de trânsito e
algumas delas em duplicidade e que foram lavradas no mesmo momento; que
foi lavrada multa contra o proprietário que é de responsabilidade exclusiva do
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condutor. Busca anular as multas lavradas em duplicidade e que não sejam de
responsabilidade do proprietário.
O MM Juiz de Direito julgou parcialmente
procedente o pedido da autora, para anular autos de infrações que foram
desmembrados do mesmo tipo penal.
Recorreu o DETRAN-SP aduzindo que as infrações
foram especificadas e referem-se a condutas diversas, com enquadramentos
diferentes; que a multa lavrada contra o condutor sem habilitação foi
direcionada ao proprietário em razão da não identificação do condutor.
É o relatório. DECIDO.
O recurso não comporta provimento.
Em relação aos AITs nºs 3B731354-0 e
3B731354-1, referente ao não uso de cinto de segurança.
Prevê o art. 167 do Código de Trânsito Brasileiro a
penalidade de multa e a medida administrativa de retenção do veículo até a
colocação do cinto para o condutor ou passageiro que deixar de usar o cinto
de segurança.
Como bem observou o Magistrado de primeira
instância, o tipo é alternativo, abrangendo também a omissão do passageiro e
a permissividade do condutor, de forma que a infração à legislação de trânsito
restará configurada se o condutor ou o passageiro deixar de utilizar o cinto de
segurança (qualquer um deles ou ambos).
A falta de utilização do cinto de segurança por
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qualquer dos ocupantes de veículo automotor que esteja em movimento
caracteriza infração tipificada no art. 167 do Código de Trânsito Brasileiro,
sendo que a responsabilidade é carreada integralmente ao condutor (ou ao
proprietário do veículo) por considerar-se violado o dever de fiscalizar ou zelar
pela segurança dos passageiros, nos termos do art. 257, do Código de
Trânsito Brasileiro:
“As penalidades serão impostas ao condutor, ao
proprietário do veículo, ao embarcador e ao transportador, salvo os casos de
descumprimento de obrigações e deveres impostos a pessoas físicas ou
jurídicas expressamente mencionados neste Código”.
Se na ocasião o condutor também não utilizava o
cinto de segurança, bastava a sua autuação por infração ao dispositivo legal
supra mencionado (art. 167, CTB), não sendo correta a lavratura de um auto
de infração para cada um dos ocupantes do veículo, pois evidentemente
acarretaria bis in idem.
Não é admissível a lavratura de múltiplos autos de
infração para o mesmo fato, sendo certo que a conduta verificada pelo agente
de trânsito em relação ao condutor já caracteriza violação ao núcleo do tipo
(deixar de usar o cinto de segurança).
ARNALDO RIZZARDO in Comentários ao Código
Brasileiro de Trânsito Editora Revista dos Tribunais 8ª ed. págs. 392/393
leciona que:
“O uso do cinto de segurança é obrigatório em todo
o território nacional, seja nas rodovias, nas estradas, nas ruas ou quaisquer
tipos de vias públicas. (...) A infração pela falta de uso classifica-se como
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grave, impondo a multa em até 120 UFIR. Não importa quem seja a pessoa
que não porte o equipamento, isto é, se motorista ou passageiro. Responderá
sempre o primeiro. Não se aplica multiplicativamente a multa, de acordo com o
número de pessoas sem o cinto. Haverá uma só pena, mesmo que vários os
passageiros que não usem o cinto”.
Nesse sentido é a jurisprudência do C. Tribunal de
Justiça do Rio Grande do Sul, destacando-se:
“INFRAÇÃO DE TRÂNSITO. CINTO DE
SEGURANÇA. CONDUTOR. PASSAGEIRO. MULTA 1. POR FORÇA DA
PRESUNÇÃO DE LEGITIMIDADE DOS ATOS ADMINISTRATIVOS, A
DESCONSTITUIÇÃO DA PENALIDADE IMPOSTA DIANTE DA PRÁTICA DE
INFRAÇÃO ADMINISTRATIVA NO TRÂNSITO EXIGE A PROVA
INEQUÍVOCA DA ILEGALIDADE DO ATO. 2. INCUMBE AO AUTOR A
PROVA DO FATO CONSTITUTIVO DO SEU DIREITO. ART. 333, INCISO I,
DO CPC. HIPÓTESE EM QUE NÃO HÁ PROVA DE QUE A PARTE NÃO
PRATICOU A INFRAÇÃO PREVISTA NO ARTIGO 167 DO CTB, QUAL SEJA,
DEIXAR O CONDUTOR OU PASSAGEIRO DE USAR O CINTO DE
SEGURANÇA, CONFORME PREVISTO NO ART. 65. 3. AO CONDUTOR
FLAGRADO SEM CINTO DE SEGURANÇA TRANSPORTANDO
PASSAGEIRO, TAMBÉM, SEM O EQUIPAMENTO, SERÁ APLICADA
APENAS UMA MULTA PELA PRÁTICA DA INFRAÇÃO DE TRÂNSITO
PREVISTA NO ARTIGO 167 DO CTB. RECURSO PROVIDO EM PARTE”.
(APELAÇÃO CÍVEL Nº. 70063000285 Nº. CNJ 0492591-18.2014.8.21.7000,
22ª CÂMARA CÍVEL, REL.ª DES.ª MARIA ISABEL DE AZEVEDO SOUZA, J.
17.01.2015).
No mesmo sentido já decidiu o TJ/SP:
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“Multa de trânsito. Lavratura de múltiplos autos de
infração por não uso de cinto de segurança. Descabimento. Anulação do
segundo auto de infração. Recurso desprovido”. (Apelação nº
0001552-54.2015.8.26.0493 - 13ª Câmara de Direito Público Rel. Des.
BORELLI THOMAZ j. 14.09.2016).
A mesma sistemática aplica-se a infração do artigo
170 do CTB. Ocorrendo quaisquer das condutas descritas no tipo penal, lavra-
se uma só multa. O desmembramento do tipo penal mostra-se indevido e
fundado em exegese equivocada.
Em relação ao AIT n.º 3B842538-1 referente a
responsabilização do proprietário por motorista dirigindo sem habilitação.
O artigo 257 do Código de Trânsito Brasileiro
diferencia a responsabilidade do proprietário do veículo e do condutor, sendo
solidária a responsabilidade somente quanto às infrações cujos preceitos
também ao proprietário couber observar.
Há vários precedentes que reconhecem que não há
solidariedade do proprietário com o condutor:
Do TJ/SP:
“MANDADO DE SEGURANÇA. Multas de trânsito.
Infrações cometidas por terceiro que não possuía CNH ou permissão para
dirigir e conduzia o veículo sem os documentos de porte obrigatório e sob
influência de álcool. Impetrante, proprietário da motocicleta, não tolerou, não
permitiu, não confiou, nem entregou a direção a esse terceiro - Solidariedade
inexistente. Segurança concedida em 1º grau, para anular as multas de
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trânsito e exclui-las do prontuário da motocicleta Decisão mantida em 2ª
instância. RECURSO DESPROVIDO”. (Apelação nº
0003406-18.2010.8.26.0539,12ª Câmara de Direito Público do Tribunal de
Justiça de São Paulo, julg. 22/05/2013. Rel. Isabel Cogan).
“MANDADO DE SEGURANÇA INFRINGÊNCIA A
NORMAS DE TRÂNSITO MULTAS PONTUAÇÃO NA CNH - ALIENAÇÃO DO
VEÍCULO AUSÊNCIA DE COMUNICAÇÃO AOS ÓRGÃOS DE TRÂNSITO
AUTUAÇÃO EM FLAGRANTE IDENTIFICAÇÃO DO CONDUTOR - Embora
não se olvide do dever solidário do alienante de comunicar a compra e venda
ao Órgão de Trânsito competente, sob pena de responder, solidariamente,
pelo pagamento dos débitos fiscais incidentes sobre o automóvel, houve
identificação do condutor no momento da autuação - Direito líquido e certo
demonstrado nos autos. Sentença que concedeu a ordem mantida. Recurso
da FESP e reexame necessário não providos”. (Apelação / Reexame
Necessário nº 1013520-34.2014.8.26.0482, da Comarca de Presidente
Prudente, 8ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo;
julg. 2/03/2016. Rel. Leonel Costa).
Do STJ:
“MANDADO DE SEGURANÇA COM PEDIDO DE
LIMINAR. RECURSO DE APELAÇÃO. DOCUMENTO COMPROVANDO A
ALIENAÇÃO DO VEÍCULO. MULTA QUE FOI COMETIDA POR PESSOA
DIVERSA DO APELADO, VISTO QUE FOI PRATICADA APÓS A ALIENAÇÃO
DA MOTO. INEXISTÊNCIA DE DOCUMENTO DE COMPROVAÇÃO DA
COMUNICAÇÃO OPORTUNA AO ÓRGÃO EXECUTIVO DE TRÂNSITO
REFERENTE À ALIENAÇÃO DO VEÍCULO. INTELIGÊNCIA DO DISPOSTO
NO ARTIGO 134, DO CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO. PONTUAÇÃO
QUE DEVE SER SUSPENSA DO PRONTUÁRIO DO APELADO. MANTIDA A
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MULTA. RECURSOS DESPROVIDOS”. (Apelação/Reexame Necessário nº
0011410-47.2010.8.26.0053, Relator Franco Cocuzza, 5ª Câmara de Direito
Público, julgamento em 21/03/2011).
“ALIENAÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR.
MULTAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO ALIENANTE.
INTERPRETAÇÃO MITIGADA DO ART. 134 DO CÓDIGO DE TRÂNSITO
BRASILEIRO. PRECEDENTES DO STJ. IMPOSSIBILIDADE DE REVISÃO
DO CONJUNTOPROBATÓRIO. SÚMULA 7/STJ. AGRAVO NÃO PROVIDO. 1.
É firme o entendimento do Superior Tribunal de Justiça no sentido de que,
"Comprovada a transferência da propriedade do veículo, afasta-se a
responsabilidade do antigo proprietário pelas infrações cometidas após a
alienação, mitigando-se, assim, o comando do art. 134 do Código de Trânsito
Brasileiro" (AgRg no REsp1.024.8687/SP, Rel. Min. CÉSAR ASFOR ROCHA,
Segunda Turma, DJe de 6/9/11). (...) (AgRg no AREsp 101.484/SP, Rel.
Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, PRIMEIRA TURMA, julgado em
21/08/2012, DJe 20/09/2012).
“ALIENAÇÃO DE VEÍCULO AUTOMOTOR.
MULTAS. RESPONSABILIDADE SOLIDÁRIA DO ALIENANTE.
RESPONSABILIDADE MITIGADA. INTERPRETAÇÃO DO ART. 134 DO
CÓDIGO DE TRÂNSITO BRASILEIRO. 1. A jurisprudência do STJ é no
sentido de que, alienado veículoautomotor sem que se faça o registro, ou ao
menos a comunicação da venda,estabelece-se entre o novo e o antigo
proprietário vínculo de solidariedade pelas infrações cometidas, só afastadas
quando a alienação é comunicada ao Detran. 2. Ocorre que o STJ tem
mitigado a regra prevista no art. 134 do CTB quando comprovada a
impossibilidade de imputar ao antigo proprietário as infrações cometidas, como
ocorreu no caso dos autos. 3. Assim, inexistindo dúvida de que as infrações
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não foram cometidas no período em que tinha o recorrido a propriedade do
veículo, não deve ele sofrer qualquer tipo de sanção. 4. Agravo Regimental
não provido”. (AgRg no REsp 1323441/RJ, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN,
SEGUNDA TURMA, julgado em 21/08/2012, DJe 27/08/2012).
Dessa forma, merece ser mantida a sentença
recorrida, que deu correta solução à lide.
Pelo exposto, pelo meu voto, nego provimento
ao recurso.
A autarquia estadual é isenta de custas.
Responderá por honorários advocatícios em favor da autora, em valor que
arbitro em 10% (dez por cento) sobre o valor da causa.
É o meu voto.
SÉRGIO ELORZA BARBOSA DE MORAES
Juiz de Direito - Relator
Recurso Inominado nº 1001183-42.2016.8.26.0482