Ecossistemas de Inovação no Brasil
Ecossistemas de Inovação no Brasil
A
Todos os direitos reservados.
Coordenação Editorial
Liandra Porto
Revisão
Gabriela Gonçalves e Liandra Porto
Vários autores.
ISBN 978-65-01-39026-0
25-260669 CDD-658.514
ECOSSISTEMAS DE
INOVAÇÃO
Histórias e
lições de
lideranças ao
redor do Brasil
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apoiado por
SUMÁRIO
8 53
Elen Flores
Eduardo Horai O ecossistema gaúcho
Prefácio de inovação
10 65
Eduardo Vieira Fabiana Medeiros
Introdução Hiluey Agra
O poder da conexão
e colaboração nos
CAPÍTULO 1
ecossistemas
ECOSSISTEMA
15 71
Luiz Costa Thalles Carvalho
O que é ecossistema Desfragmator: a
de inovação? importância dos
contextos
27
Eloízio Fernando
das Neves
82
Rogério Santos Ceryno
Relacionamento entre Case Vale do Ipitanga
empresas e outros Lauro de Freitas/BA
atores do ecossistema
39 93
João Miguel Silva Abreu Míriam Conceição
Por que desenvolver Como é um
ecossistemas de ecossistema de
inovação? inovação no interior?
CAPÍTULO 2
RELACIONAMENTO
CAPÍTULO 3
101 LIDERANÇA
Karla Adoryan
Brasil de milhões:
O tecido vivo da 132
inovação e Amanda Barbosa
empreendedorismo Comunidades de
startups & a geração
106 de talentos
Alexandre Frazão profissionais
Empreendedorismo:
uma das forças mais 138
transformadoras da Ana Uriarte
sociedade Comunidades
de startups
119 & inclusão social
Rodrigo Augusto Rocha
Souza Baluz 143
Da comunidade à Amanda Graciano
sociedade: como criar Estratégias de
um ambiente liderança em
favorável para as ecossistemas de
novas gerações inovação
CAPÍTULO 4
IMPACTO
SOCIAL
153 210
Wellington Marinho Luiz Gomes
Case Nasa Desafios e
Internacional Space oportunidade na
Apps Challenge - Coari integração de
e Tefé/AM tecnologias
163 218
Ed Lobo Fábio Silva
Inovação social Um olhar genérico e
e seu impacto outro específico para o
transformador ecossistema agro
184 229
Martonio Mendes Olivia Boretti e
Case Conecta Karla Adoryan
Nordeste Carta aberta à cada
um que fez o
193 Programa ALE
Luana Wandecy
Pereira Silva
O impacto causado
pelas startups com
foco social
PREFÁCIO
À
medida que nos aventuramos na jornada da ino-
vação e do empreendedorismo, torna-se cada
vez mais claro que nosso maior ativo não são
as tecnologias que criamos, mas as pessoas e as comu-
nidades que movem essas inovações. O Programa ALE
(Ambev para Lideranças de Ecossistema), iniciativa pio-
neira da Ambev, nasceu da crença de que, ao conectar
e empoderar líderes de comunidades locais, podemos
desencadear uma onda que transcende barreiras e esti-
mula o crescimento coletivo.
Ao reunir vozes diversas de todo o Brasil, procuramos
construir um diálogo aberto sobre as possibilidades que
surgem quando pessoas de diferentes contextos unem
forças em nome da inovação. Este livro é sobre o poder do
espírito humano, sobre a capacidade de sonhar e realizar,
e sobre o impacto transformador que podemos ter quan-
do trabalhamos juntos.
A jornada até a criação deste livro foi marcada por
aprendizados, desafios e, acima de tudo, pela constante
adaptação. Em cada capítulo, em cada história, você en-
contrará um pedaço do vasto ecossistema de inovação
que o Brasil tem a oferecer. Convido você a mergulhar nas
páginas deste livro não apenas como leitor, mas como
parte de uma comunidade crescente de visionários que
acreditam no poder da inovação para mudar o mundo.
12 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
de inovação se conectam e evoluem, formando uma es-
trutura que impulsiona o crescimento coletivo.
No capítulo Ecossistema, você descobrirá como
diferentes regiões criam ambientes favoráveis à ino-
vação, apoiando-se em redes locais e colaborativas. No
Relacionamento, verá como as conexões entre diversos
atores – empresas, startups, universidades e governos –
são essenciais para a sustentação desses ecossistemas.
O capítulo Liderança revela estratégias de liderança
que transformam comunidades e formam novas gera-
ções de inovadores, enquanto Impacto Social apresenta
histórias de como a inovação pode trazer mudanças so-
ciais significativas, gerando efeitos positivos em escala
local e nacional.
Ao folhear estas páginas, espero que você se sin-
ta parte dessa jornada, entendendo que cada história
aqui apresentada é um passo em direção a um Brasil
mais inovador e colaborativo. Que este livro inspire
você a fazer parte desse movimento, conectando-se
com sua comunidade e ajudando a construir o futuro
que queremos ver.
Eduardo Vieira
Fundador e CEO da Monking
13 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
CAPÍTULO 1
ECOSSISTEMA
O que é ecossistema
de inovação?
Luiz Costa
Gerente de inovação
E
cossistema de inovação é a junção de ambientes fa-
voráveis para a articulação entre diferentes atores
que juntos proporcionam as condições necessárias
para que empresas inovadoras se proliferem e se conso-
lidem, estimulando sua interação e cooperação.
O termo ecossistema vem da biologia. Nele, cada mi-
cro-organismo, animal, planta e elemento da natureza
exerce seu papel para o ambiente funcionar de forma
harmônica. Foi a partir desse raciocínio que se desen-
volveu a comparação com o ambiente de inovação. Para
que um ecossistema ecológico esteja equilibrado, é ne-
cessária, além da diversidade de espécies presentes no
ambiente, a interação entre elas.
Essa ideia começou a ser aplicada por James Moo-
re, em 1993, para se referir ao ambiente de negócios1.
Assim, considera-se o ecossistema de inovação um ter-
15 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
reno fértil para o nascimento de ideias, novos talentos,
formas de investimento e para estimular a interação
entre eles.
Após entrar um pouco mais no significado da termi-
nologia, podemos perceber que no Brasil existem diver-
sos ecossistemas de inovação, variando em tamanho e
nível de maturidade.
Em dezembro de 2021, comecei a trabalhar em um
projeto muito importante que me fez crescer bastan-
te profissionalmente. O Sebrae Nacional, junto com o
Impact Hub Brasil, selecionaram dez ecossistemas de
inovação para validar uma metodologia desenvolvida
e colocaram dez agentes locais de inovação focados na
articulação de atores e na realização de iniciativas de
fomento à inovação, acreditando que isso poderia ser
muito benéfico para impulsionar o amadurecimento do
tema. Esses ALI (agentes locais de inovação) - ecossiste-
mas, proporcionaram engajamento, conexão e energia
para a realização das diversas atividades envolvidas.
A proposta foi, portanto, que os agentes ocupassem
um papel central de catalisar a transformação e o ama-
durecimento dos ecossistemas através de atividades
que atendessem - especificamente - à realidade de cada
lugar, a partir dos diagnósticos previamente realizados.
Os dez ecossistemas escolhidos foram: Balsas (MA),
Boa Vista (RR), Cornélio Procópio (PR), Dourados (MS),
Lavras (MG), Londrina (PR), Maceió (AL), onde atuei
como agente de inovação, Novo Hamburgo (RS), Santa
Maria (RS) e Viçosa (MG). A atuação de todos os agentes
foi muito bem-sucedida; tanto que todos os ecossiste-
mas citados aumentaram potencialmente seu nível de
16 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
maturidade. A metodologia foi validada e hoje já está
sendo utilizada em mais de 50 ecossistemas no país.
Em Maceió, existiam diversos atores que não conver-
savam entre si. Os empreendedores comentavam que
tinham 10, 15 e até 20 anos de formados e nunca tinham
sido convidados para uma fala de cinco minutos na uni-
versidade. Por outro lado, ao conversar com a academia,
professores e reitores diziam que gostariam muito que
os empreendedores palestrassem para os alunos, mos-
trando que é possível empreender e construir empresas
inovadoras morando em Alagoas.
Isso foi resolvido facilmente ao colocá-los em um
mesmo ambiente para conversarem. Eventos começa-
ram a ser realizados por mais de um ator, e a academia
ficou mais próxima das empresas e vice-versa.
Com a comunicação sendo trabalhada de forma as-
sertiva, outros atores resolveram contribuir para que o
ecossistema de inovação local avançasse ainda mais em
maturidade. Após diversas reuniões mensais com toda a
governança do ecossistema, o sentimento era unânime:
sozinhos, ninguém iria a lugar algum. Era preciso ter
cada vez mais empreendedores participando do proces-
so. Como resultado, mais de 30 atores-chave da cidade
foram mapeados e conectados.
17 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
necessário que as startups sejam o objetivo que une os
membros da comunidade.
Para Brad Feld (2020), “Uma comunidade de startups
é um grupo de pessoas que – por meio de suas interações,
atitudes, interesses, objetivos, senso de propósito, identi-
dade compartilhada, companheirismo, responsabilidade
coletiva e administração do lugar – estão fundamental-
mente comprometidas em ajudar os empreendedores a
ter sucesso”.2 Já para a Associação Brasileira de Startups,
“Uma comunidade de startups é um conglomerado, nor-
malmente localizado em uma cidade ou em um grupo
de pequenas cidades de uma mesma região, formado
por startups em diversos estágios, que interagem com
outras pessoas importantes do ecossistema (empreen-
dedores locais, investidores, pessoas ligadas a órgãos
governamentais, universidades e curiosos) em busca de
oportunidades e desenvolvimento mútuo, focados na
economia do ecossistema local.”3
Dito isso, percebemos que existe uma grande dife-
rença entre ecossistemas e comunidades de startups. As
comunidades fazem parte do ecossistema de inovação
como um dos atores. Para esclarecer de uma vez por to-
das, as comunidades de startups não são o ecossistema
de inovação local, mas fazem parte dele.
Existem sete pilares fundamentais que compõem
uma comunidade de startups. Esses pilares foram con-
solidados, graças à grande contribuição teórica de Brad
2. Feld, Brad; Hathaway, Ian. The Startup Community Way, (techstarts) p.78. Edi-
ção do Kindle.
3. O que são Comunidades de startups. ABStartups, 2023. Disponível em: <https://
[Link]/comunidades/>.
18 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Feld e à atuação da ABStartups em todo o território na-
cional, por meio de seu time de comunidades.
Os seis pilares que o autor Brad Feld apresenta em
seu livro Startup Communities: Building an Entrepreneu-
rial Ecosystem in Your City, são: 1. Cultura, 2. Densidade (ou
suporte), 3. Talento, 4. Acesso a capital, 5. Acesso a mer-
cado e 6. Ambiente regulatório.4 No FALCOM 2020 (Fórum
ABStartups de líderes de comunidade), foi apresentado
o 7º pilar, que deve se somar aos demais para que uma
comunidade seja próspera e saudável: o pilar transversal
de diversidade e impacto.5
Existem diversas comunidades de startups no Brasil
que trabalham semanalmente com o objetivo de forta-
lecer as startups existentes na comunidade, assim como
fomentar o surgimento de novas startups. Essas comu-
nidades são lideradas por pessoas voluntárias que, mes-
mo sem remuneração, trabalham com afinco para que
o objetivo da comunidade seja alcançado. Quanto mais
fortes as comunidades se tornarem, mais startups pro-
missoras surgirão, mais empregos serão gerados e mais
desenvolvida será a região. Agora, queremos destacar a
comunidade Sururu Valley nas próximas páginas.
SURURU VALLEY
19 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
saboroso, também se tornou patrimônio imaterial do
estado em 2014.
A comunidade surgiu em 2012, quando um grupo de
empreendedores locais desejava ver o estado se desen-
volver nas áreas de tecnologia e negócios, tornando-se
mais inovador e desafiando o pensamento comum da
época de que empreender era sinônimo de deixar Ala-
goas. Assim, começaram a se reunir regularmente para
traçar planos de como isso poderia ser possível. No mes-
mo ano, ocorreu a primeira competição de startups do
estado, o primeiro Demoday, vencido pela startup Hand
Talk, que realiza tradução digital e automática para a
língua brasileira de sinais. Hoje, essa startup é conhecida
e premiada mundialmente. Nesse mesmo desafio, outras
startups também participaram e, mesmo sem terem
vencido, cresceram e se tornaram casos de sucesso.
Com toda a movimentação gerada pela comunida-
de de startups, reuniões mensais e a união de diversos
empreendedores, a capital de Alagoas começou a ganhar
destaque em todo o Brasil.
Em 2015, Maceió foi apontada como a “Cidade com o
maior potencial empreendedor do Brasil” segundo o Ín-
dice de Cidades Empreendedoras – ICE. Esse que vos es-
creve estava no início, quando a comunidade foi criada,
e ajudava no que podia, mesmo sem ter muito conheci-
mento prático, pois, na época, ainda era universitário.
A inovação que estava vibrante na capital alagoana
começou a expandir-se para outras cidades. Em abril de
2014, ocorreu o primeiro Startup Weekend em Arapiraca,
sendo o primeiro do Nordeste realizado em uma cidade
do interior. Lembro-me das dificuldades que os organi-
20 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
zadores enfrentaram para realizar esse evento, mas, se
há algo que caracteriza o nordestino, é a garra. Com essa
garra e vontade de fazer acontecer, o evento foi realizado
e foi um dos Startup Weekends mais fantásticos dos quais
já participei.
Os anos foram passando, e os empreendedores que
lideravam a comunidade começaram seus próprios ne-
gócios ou surgiram outras demandas, que os impediram
de ter tempo para promover iniciativas da comunidade.
Em 2017, a comunidade já não tinha a mesma força de
antes; um grupo pequeno ainda se reunia, pensava em
estratégias para reativá-la, mas sem muito êxito, pois
era necessário um trabalho de longo prazo, e algumas
pessoas querem resultados imediatos ou desistem. Aqui
encontramos uma das principais dificuldades que as co-
munidades de startups enfrentam: a chamada passagem
de bastão. Muitos líderes com quem converso mencio-
nam essa como uma das principais dores, devido à falta
de novos líderes.
Em 2020, durante a pandemia de COVID-19, o Sururu
Valley iniciou a retomada das atividades. Aqui vai um
passo a passo para líderes que desejam reativar suas co-
munidades. A primeira ação foi reunir pessoas interes-
sadas para um novo começo, deixando claro que, dessa
vez, seria para valer. Com essa união, ainda em 2020, rea-
lizamos o evento Re-Inaugura Sururu. Os interessados
em contribuir mais de perto preencheram um formulá-
rio simples, indicando em quais áreas se sentiam mais
aptos e à vontade para cooperar.
Em seguida, foram criados os squads (times), e os tra-
balhos para a reestruturação da comunidade começaram.
21 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
O desafio era enorme, e o número de pessoas dispostas a
contribuir voluntariamente ainda era muito pequeno.
Mesmo assim, aquele pequeno grupo iniciou o pro-
cesso organizacional, cheio de vontade de desenvolver
o estado de Alagoas por meio da inovação e de levar a
comunidade de startups ao cenário nacional novamente.
As primeiras ações foram a criação do Community Can-
vas e de um novo grupo no WhatsApp, com regras bem
definidas para boa convivência, além de trazer oportu-
nidades de programas e eventos, contribuindo para a
conexão de todos os atores ali presentes.
O trabalho estava em andamento e havíamos esta-
belecido reuniões virtuais periódicas para planejar e
definir as próximas etapas. No entanto, era evidente que
enfrentávamos dificuldades devido à escassez de mem-
bros voluntários. Foi nesse contexto que surgiu a ideia de
realizar a primeira chamada de voluntários para sanar
esse problema e dar continuidade aos trabalhos.
A primeira chamada ocorreu em 2021 e resultou na
adesão de 12 novos membros, que ajudaram a desenvol-
ver ainda mais a comunidade, participando de eventos,
elaboração de documentos, organização das redes sociais
e relacionamento com os principais atores do Estado.
Entretanto, como mencionado anteriormente, a
passagem de bastão é uma dor muito presente nas co-
munidades. Muitos líderes que fizeram contribuições
significativas acabaram encontrando limitações de
tempo para continuar apoiando a comunidade em-
preendedora local. Alguns deles iniciaram seus próprios
negócios, receberam novas oportunidades em suas car-
reiras profissionais ou enfrentaram desafios pessoais,
22 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
como questões familiares e problemas de saúde, que
exigiram foco total em suas necessidades pessoais. Po-
rém, alguns líderes que vieram dessa chamada ainda
permanecem na comunidade e ajudaram na constru-
ção da segunda chamada de voluntários, fator essencial
para a comunidade continuar vibrante.
A segunda chamada, realizada entre junho e julho de
2022, iniciou-se com a inscrição dos interessados por meio
de um formulário, onde informavam seus dados, interesse
em contribuir e em qual squad gostariam de participar.
O processo de divulgação foi feito pelas redes sociais do
Sururu Valley, contato direto com pessoas que já haviam
demonstrado interesse e com o apoio de parceiros locais.
Durante 15 dias, o formulário ficou aberto para inscrições.
Aqueles que avançaram para a segunda etapa do
processo seletivo receberam um desafio (case técnico)
por e-mail, onde foram apresentadas duas situações
reais enfrentadas pela comunidade Sururu. Os inscri-
tos tinham que solucionar essas situações e enviar a
resposta por e-mail. Isso permitiu observar e avaliar
diversas competências, como pensamento crítico, or-
ganização, capacidade de propor soluções e comprome-
timento daqueles que estavam realmente interessados
em se tornar voluntários.
Após uma análise minuciosa dessas duas etapas, os
selecionados foram revelados. No final de julho de 2022,
ocorreu a primeira reunião de boas-vindas dos novos
membros. O resultado dessa chamada foi muito satis-
fatório, visto que 14 novas pessoas foram selecionadas,
abrangendo perfis diversos e dispostas a contribuir com
entusiasmo para o desenvolvimento de Alagoas.
23 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Essa chamada se destacou positivamente em todos
os aspectos, com a inclusão de discentes e docentes
universitários, fundadores de startups e aspirantes a
empreendedores, homens e mulheres, pessoas de quatro
cidades diferentes. Todos se tornaram líderes de comu-
nidade, trabalhando juntos, aprendendo uns com os ou-
tros e compartilhando o mesmo objetivo. Essa prática de
seleção de voluntários incentiva as pessoas a entrarem
com a mentalidade de que, mesmo sendo um trabalho
voluntário, é necessário ter responsabilidade com os
projetos assumidos, o que contribui significativamente
para o desenvolvimento de novos líderes.
24 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Agora que você tem um grupo disposto a criar uma
comunidade e já se encontram regularmente, é necessá-
rio estruturar a comunidade, definindo regras/combina-
dos, rituais, um nome, metas e conhecendo o que já está
acontecendo na região.
Uma boa prática é entrevistar pelo menos dez atores
do ecossistema de inovação. Marque conversas de uma
hora, online mesmo, para entender quais ações já estão
sendo realizadas e quais ainda faltam. Se houver startups
na sua região, é essencial que a comunidade se coloque
à disposição dos empreendedores, buscando saber o que
falta para que as startups cresçam. Com as entrevistas, a
comunidade poderá montar eventos e projetos mais as-
sertivos, cooperando também no que já vem sendo feito.
Se a cidade não tem startups nascendo, será neces-
sário criar eventos e projetos para resolver essa questão,
focando em ideathons, startup weekends, hackathons,
meetups, startups on, editais de criação de ideias, entre
outros. Se, por outro lado, faltam investidores, convide
investidores de outros estados para falar sobre os tipos
de investimento, como acessá-los, como se preparar para
esse momento ou qual o melhor momento para captar.
Não existe nada mais poderoso para um ecossiste-
ma de inovação do que cases de sucesso. Portanto, ajude
a criar os primeiros cases e, quando surgirem, empe-
nhe-se ao máximo para divulgá-los. Conecte as star-
tups em fase inicial com as que já estão em operação
ou em expansão. Busque ecossistemas semelhantes ao
seu e evite o erro de se comparar com ecossistemas ou
comunidades mais antigas. Existem muitos “profetas
do óbvio” que tentarão desanimá-lo com frases como:
“precisa melhorar muita coisa aqui na cidade/estado”,
25 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
“falta emprego”, “seria bom que surgissem mais star-
tups”, “aqui falta investimento”, entre outras. Quando
encontrar essas pessoas, não se deixe contaminar. Em
vez disso, faça duas perguntas simples: o que você acha
que poderia ser feito para mudar isso? E o que está dis-
posto a fazer hoje para que isso mude? Há uma frase
que gostamos muito de usar por aqui: quem dá a ideia,
toca o projeto. Isso é viver em comunidade.
Envolver-me com a comunidade me tornou uma pes-
soa muito conectada. Hoje, conheço pessoas do Brasil in-
teiro, evoluí como líder e desenvolvi habilidade para gerir
vários projetos. Como líder de comunidade, fui convidado
para diversos eventos, tornei-me ALE da Ambev, embai-
xador do CASE 2022, embaixador da ABStartups 2023, co-
lunista na Startupi, líder do InovAtiva e um dos líderes do
Move Nordeste. Participei de um projeto fantástico com o
Sebrae Nacional e o Impact Hub Brasil, ajudei diretamente
mais de 100 startups, tornei-me mentor, realizamos duas
chamadas de voluntários, avaliei mais de 200 startups
em programas diversos, colaborei com 30 voluntários em
diversas ações e hoje atuo como Gerente de Inovação na
Dome Ventures que é a maior Venture Builder Govtech
do Brasil. Tudo o que fiz e faço nunca foi esperando nada
em troca; meu único desejo era que Maceió e Alagoas se
tornassem cada vez mais inovadores. Desde o início até o
momento atual, muito mudou, mas o trabalho não para.
— Margaret Mead
26 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Relacionamento
entre empresas
e outros atores
do ecossistema
Belo Horizonte/MG
Q
uando o termo “ecossistema” é aplicado ao ecos-
sistema de inovação, ele se refere às intercone-
xões entre diversos atores, como organizações
governamentais, empresas privadas, sociedade civil or-
ganizada, academia e investidores.
27 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Essa definição de Quíntupla Hélice demonstra a
evolução da sociedade ao longo dos anos. Inicialmente,
apenas alguns grupos interagiam, mas com o tempo
outros atores (comunidades) se integraram para for-
talecer o ecossistema de inovação, formando o modelo
atual. Todos os atores se relacionam de forma sinérgica,
contribuindo para que o país se torne mais inovador.
As grandes empresas, como um dos principais ato-
res desse ecossistema, desempenham um papel funda-
mental em seu desenvolvimento. Elas, em sinergia com
os demais participantes, ajudam a fomentar as startups
por meio de diversos programas de inovação aberta.
EMPRESAS
28 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
• Microempreendedor Individual (MEI): Para
comércio e serviços, com até 1 empregado
(não pode ter sócio) e faturamento anual de
até R$81 mil.
• Microempresa (ME): Para comércio e serviços,
com até 9 empregados; para a indústria, com
até 19 empregados, e faturamento anual de até
R$360 mil.
• Empresa de Pequeno Porte (EPP): Para comér-
cio e serviços, de 10 a 49 empregados; para a
indústria, de 20 a 99 empregados, com fatura-
mento anual entre R$360 mil e R$4,8 milhões.
• Empresa de Médio Porte: Para comércio e ser-
viços, de 50 a 99 empregados; para a indústria,
de 100 a 499 empregados, com faturamento
anual entre R$4,8 milhões e até R$300 milhões.
• Grande Empresa: Para comércio e serviços,
com 100 ou mais empregados; para a indústria,
com 500 ou mais empregados e faturamento
anual superior a R$300 milhões.
29 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
envolvidos se beneficiem, criando uma relação de “ga-
nha-ganha”. Por exemplo, uma startup (B2B ou B2B2C)
precisa vender seu serviço ou produto para uma em-
presa que, por sua vez, necessita dessa solução para im-
plementar sua transformação digital ou explorar novos
negócios. No entanto, a relação de confiança entre esses
atores pode ser complexa, uma vez que grandes em-
presas tradicionais geralmente preferem negociar com
outras grandes empresas. Para superar essa barreira,
muitas dessas grandes empresas criaram áreas de ino-
vação dedicadas a facilitar a adoção de inovação aberta.
INOVAÇÃO ABERTA
30 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
ties. No segundo caso, a empresa utiliza soluções, ideias
ou patentes de startups, universidades ou outros atores
para melhorar seus processos internos ou lançar novos
produtos. Esse modelo inclui diversas possibilidades,
como desafios de inovação (challenges), CVC, CVB, hacka-
thons, entre outros.
HORIZONTES DE INOVAÇÃO
31 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
sando à redução de custos, aumento de recei-
ta ou otimização dos processos internos. Um
exemplo seria a implantação de contratos
inteligentes no setor de suprimentos ou solu-
ções de reembolso inteligente para planos de
saúde, que detectam fraudes.
• Horizonte 2 (H2): Relacionado à criação de
novos negócios com base no core business
da empresa. Um exemplo é o iFood, aplicativo
de delivery de restaurantes, que já atuava no
setor de entregas e lançou o iFood Mercado,
aproveitando sua experiência logística para
entrar em um novo mercado.
• Horizonte 3 (H3): Voltado para ir além do que
já se conhece, experimentando e assumindo
mais riscos, com hipóteses a serem testadas e
validadas. Aqui são trabalhados, novos proje-
tos, para dentro da empresa, buscando explo-
rar novos mercados ou criar algo que possa
disruptar o próprio mercado em que a empresa
está inserida.
DESAFIOS DE INOVAÇÃO
32 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
inovação aberta. Um exemplo é a Fundação São Francis-
co Xavier (FSFX), onde atuei como Especialista em Inova-
ção. Inicialmente, criamos uma tese de inovação, seguida
por programas de intraempreendedorismo e inovação
aberta (além de co-desenvolvimento).
Para Fernanda Campera, Coordenadora de Promo-
ção da Saúde na Usisaúde (FSFX), que participou de um
desafio de inovação aberta, “a inovação é uma oportuni-
dade ímpar dentro da empresa. Ela gera grandes opor-
tunidades a partir de pequenas iniciativas, valoriza a
participação dos colaboradores no crescimento da em-
presa e contribui para o desenvolvimento do time. Par-
ticipar dessas iniciativas de inovação me tornou uma
profissional muito melhor. A inovação pode contribuir
em todas as áreas, basta estar aberto!”
Podemos observar que a sinergia entre empresas e o
ecossistema de inovação é fundamental para alavancar
ambos os lados, pois, se trata de uma troca entre par-
ceiros. Assim, o ecossistema de inovação cresce, abrindo
novas oportunidades para as grandes empresas e pos-
sibilitando o surgimento de startups que continuarão
colaborando com essas grandes organizações.
HUB DE INOVAÇÃO
33 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
acontecem lá dentro, como os challenges (desafios de
inovação aberta), o programa de aceleração de startups
em parceria com as indústrias, entre outros, abaixo a
coordenadora do FIEMG Lab como o FIEMG Lab contri-
bui para alavancar o ecossistema de inovação através da
interação startup-indústria.
“O relacionamento entre startups e indústrias pode
ser o trampolim para que indústrias descubram solu-
ções para desafios que enfrentam há anos e para que as
startups consigam validar e consolidar seus produtos
e negócios, propiciando o seu crescimento. Mas apesar
dos benefícios mútuos, esse relacionamento também
encontra desafios: a flexibilidade, agilidade, apetite ao
risco e até mesmo o vocabulário desses atores são muito
diferentes. Nesse contexto, os hubs de inovação aberta
além de conectar esses dois parceiros, podem ser parcei-
ros essenciais para ajudar a “traduzir” essa comunicação
e facilitar o relacionamento apesar das diferenças. Aju-
dando a indústria a compreender as melhores formas de
lidar com a startup e projetos de inovação e apoiando a
startup a entender melhor o contexto industrial e como
gerar valor para esse tipo de cliente sem perder suas ca-
racterísticas essenciais.”
34 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
cria um programa de investimento em startups ou mé-
dias empresas. Nesse modelo, a grande empresa atua
como investidora, enxergando nos negócios emergen-
tes oportunidades valiosas de investimento. Existem
diferentes teses de CVC, que envolvem desde aportes
financeiros, troca de expertise, visibilidade no setor, até
acesso a ferramentas e outros recursos. Os acordos ge-
ralmente incluem a troca de participações acionárias.
Um exemplo bem conhecido de CVC é o Açolab
Ventures, da ArcelorMittal, que busca soluções que di-
versifiquem ou complementem a cadeia da siderurgia.
Um caso de sucesso é o da Modularis, que foi investida
por eles.
“Inovar para modular, modular para transformar.
A Modularis Offsite Building tem planos e visão apurada
para transformar a construção civil do Brasil, e acredita
que o processo modular tem tudo para se tornar a base
do setor e revolucionar o mercado. A empresa trabalha
uma ideia de mundo em que as obras sejam realizadas
de modo ágil, moderno, acessível e sustentável. A Modu-
laris possui uma abordagem absolutamente inovadora,
que utiliza componentes pré-fabricados com o objetivo
de criar estruturas eficientes e ambientalmente cons-
cientes.” (Fonte: Açolab Ventures)
35 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
nam-se os melhores ativos corporativos, como acesso a
clientes, recursos, etc.
Esse modelo também pode ser utilizado no Horizonte
3 (H3), como uma oportunidade de criar novos negócios
e inovar. Um exemplo de CVB seria o caso do Zé Delivery,
onde esse conceito foi aplicado com sucesso.
HACKATHON
36 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
CULTURA DE INOVAÇÃO
PROGRAMA DE INTRAEMPREENDEDORISMO
37 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
postas pelos colaboradores utilizando de ferramentas
da inovação (aberta e/ou fechada) chamamos de Pro-
grama de intraempreendedorismo.
A inovação corporativa vai além da tecnologia; tra-
ta-se de como as pessoas interagem entre si e com o
ambiente, especialmente com o objetivo de melhorar a
experiência dos clientes finais. Ao utilizar as ferramen-
tas mencionadas acima, o processo de inovação se tor-
na mais rápido e assertivo, permitindo que as grandes
empresas se mantenham competitivas e explorem novos
mercados. Afinal, inovação é sobre pessoas!
38 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Por que
desenvolver
ecossistemas
de inovação?
Belo Horizonte/MG
E
cossistema de inovação. Um termo amplamente
mencionado por pessoas ligadas a startups, tecno-
logia, tendências de mercado, instituições de pes-
quisa e por aqueles responsáveis por fomentar inovação
em corporações, entre outros. Quando trazemos este ter-
mo, geralmente nos referimos a Silicon Valley, Shenzhen,
Barcelona e outros ecossistemas famosos.
Ainda não temos hoje uma definição única para o que
é um ecossistema de inovação, e nem é minha intenção
apresentá-la. No entanto, gostaria de compartilhar duas
definições que gosto e acredito que descrevem bem o que
estamos discutindo neste livro:
A primeira definição é de Wang (Wang, 2010), que, em
um artigo mostrando como ocorre a cooperação entre
universidades e indústrias na China, define:
“O sistema dinâmico de instituições e as pessoas in-
terconectadas que são necessários para impulsionar o
39 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
desenvolvimento econômico tecnológico tem sido des-
crito como o ecossistema de inovação. Esse ecossistema
inclui uma gama de atores da academia, indústria, fun-
dações, organismos científicos e econômicos, e do gover-
no em todos os níveis. A organização de um ecossistema
de inovação não é rigidamente planejada, com papéis
bem definidos para os diversos atores. Como resultado,
as posições relativas de cada ator, bem como as condi-
ções para encorajar ou restringir o processo de inovação,
podem mudar continuamente.”
A outra definição que quero apresentar é a de Thomp-
son (Thompson et. al. 2012), ao tratar dos esforços da área
de TI da NASA no desenvolvimento de um ecossistema de
inovação. Ele diz que:
“O ecossistema de inovação não é um processo e é
mais do que uma plataforma virtual e de demonstra-
ção. É uma abordagem aberta e holística, que incentiva
a inovação tecnológica em todo o organismo através do
compartilhamento de informações e colaboração.”
O mais interessante nessas definições é que ambas
apresentam o ecossistema de inovação como um or-
ganismo vivo, que inclui todos os atores: instituições
de ensino e pesquisa, empresas de todos os tamanhos
(startups, médias empresas e grandes corporações), so-
ciedade civil, governo e o próprio ambiente onde estão
inseridos – o que nos leva ao conceito da hélice quíntupla.
Mas, afinal, por que se fala tanto em ecossistemas de
inovação?
Nessa hora, trago meu lado engenheiro para a con-
versa. Quem não é da engenharia, não se preocupe, vai
dar tudo certo!
40 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Há uma teoria sobre o potencial das redes: a Lei de
Metcalfe.
Essa lei leva o nome de seu criador, Robert Metcalfe,
também o inventor da Ethernet. Ela afirma que o valor de
uma rede é proporcional ao quadrado do número de nós:
V∝n²
41 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Ecossistemas são redes. São nós e conexões que juntos
geram um campo potencial de criação de valor enorme.
Ok. Fim da matemática! Vamos para a prática!
Onde podemos ver o conceito dessas duas leis e do
ecossistema de inovação sendo aplicados?
Caso você não conheça, é hora de apresentar o Festi-
val HackTown!
Imagine uma cidadezinha do interior de Minas Ge-
rais, com pouco mais de 40 mil habitantes. Consegue
imaginar que essa cidade é conhecida como o Vale da
Eletrônica brasileiro? Sede de mais de 150 empresas de
tecnologia, com instituições responsáveis por desenvol-
ver tecnologias como o 5G, ela possui uma história incrí-
vel ligada ao empreendedorismo tecnológico através de
Sinhá Moreira e abriga um festival de inovação e cria-
tividade com mais de 1000 atividades, entre palestras,
painéis, workshops, shows, pitches, exposições e mais,
em mais de 50 locais diferentes da cidade, para mais de
30 mil pessoas.
É nesse contexto que nasce o HackTown, um festival
feito para impactar positivamente a vida das pessoas, de
forma transformadora e definitiva, por meio do compar-
tilhamento de experiências e informações.
O HackTown possui uma característica muito inte-
ressante: ele é, de fato, um evento colaborativo, realizado
por inúmeras mãos. São diversas instituições e pessoas
reunidas com o mesmo propósito de compartilhar suas
experiências e fazer o evento acontecer.
Vou exemplificar!
Na edição de 2023, a Skin Innovation, uma startup mi-
neira de educação corporativa, foi responsável por trazer
42 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
mais de 20 conteúdos sobre inovação corporativa, envol-
vendo empresas como Suzano, Ambev, Natura, Vale, Plena
Alimentos, Iochpe, Maxion, Sicoob Credicom, Reframax,
Briskcom, A42, MRS Logística, Unilever e FIEMG Lab.
Também nessa edição, tivemos a Casa Claro, um es-
paço de ativação de marca da empresa de telefonia, que
trouxe não apenas diversos conteúdos de altíssimo nível,
mas também conexões entre os participantes do evento.
Ainda neste ano, a praça central da cidade abrigou
uma série de comerciantes locais, prontos para atender
e servir os visitantes tecnológicos.
E sabe onde dormi durante os dias de evento? Na
casa da Dona Elza! Uma carioca que mora em Santa Rita
há mais de 20 anos, que se mudou para a cidade para que
seus filhos estudassem no Inatel e nunca mais quis sair.
Santa Rita do Sapucaí é a cidade onde os moradores lite-
ralmente abrem as portas de suas casas para receber os
visitantes, compartilhar histórias sobre a cidade e, acre-
dite, falar sobre o evento que está acontecendo!
O HackTown tem esse poder de usar a rede para po-
tencializar o evento!
Se dependesse apenas da equipe HackTown, o evento
seria muito menor. Como as leis de Metcalfe e Reed indi-
cam: O campo potencial de criação de valor de uma rede
cresce à medida que o número de envolvidos se conecta e
aumenta exponencialmente quando as interações ocor-
rem em pequenos grupos dentro da rede!
E é por isso que se fala tanto em ecossistemas de
inovação. O segredo de tudo é o trabalho em rede. Não
se trata apenas de conversas informais, mas também de
instituições dialogando, criando planos estratégicos e
43 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
colaborando para construir cadeias de valor mais sóli-
das e robustas.
Agora, quero que você tire um tempo para refletir
sobre as seguintes questões:
44 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
tecnológica da região metropolitana de BH. O SPV se
move de forma orgânica, sem ser uma instituição, sem
presidente ou hierarquia; todos são porta-vozes. Quem
participa tem o objetivo de se conectar com as pessoas,
identificar sinergias, trocar conhecimentos, divulgar va-
gas e, por que não, fazer negócios.
Vale destacar que, embora o nome tenha sido dado
em 2011, o cenário de empresas de tecnologia já se forta-
lecia anos antes, assim como em outras cidades do país.
A alcunha de primeira comunidade vem do fato de ter
sido a primeira a se reconhecer como uma comunidade
de startups e de ter uma identidade para que os empre-
endedores pudessem falar sobre ela.
O caso do SPV está em sintonia com uma das teorias
sobre comunidades de que mais gosto, a The Boulder The-
sis, de Brad Feld.
Em seu livro The Startup Community Way: Evolving
an Entrepreneurial Ecosystem, Feld apresenta quatro
princípios para criar e desenvolver uma comunidade de
startups:
45 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
criação, ela foi liderada por empreendedores, pessoas que
estavam à frente de negócios de alto crescimento. Havia
atividades recorrentes que engajavam os membros e
atraíam novos; era aberta para novos participantes e,
mesmo que não estivesse declarado, havia um compro-
misso de longo prazo nas ações pensadas para impactar
todos os envolvidos.
Se você trabalha com comunidades ou está entran-
do neste assunto, recomendo a leitura do livro e da
Boulder Thesis.
Mas por que trouxe esse exemplo?
Bem, o SPV tem diversos casos de sucesso, como Me-
liuz, Hotmart, MaxMilhas, Rock Content e outras star-
tups que nasceram na capital mineira e participaram do
início do movimento da comunidade.
Também em Belo Horizonte foi criado o SEED MG,
um dos principais programas de aceleração de startups
do Brasil, que ainda hoje, além de todo o impacto gerado,
serve de referência para outros estados e países.
Apesar de toda sua história, Belo Horizonte perdeu
parte de seu protagonismo e deixou de ser uma das gran-
des referências de ecossistemas maduros no Brasil. E é
por isso que trago este exemplo!
Assim como o ecossistema ecológico, os ecossistemas
de inovação também passam por períodos de equilíbrio
e de desequilíbrio. Da mesma forma que quando ocorre
um incêndio em uma floresta – algumas espécies mor-
rem, outras sobrevivem, mas, após um tempo, a floresta
se restabelece, criando novamente um ecossistema equi-
librado e cheio de vida.
46 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Guardadas as devidas proporções, é isso o que ocor-
re com Belo Horizonte. A cidade, que já foi o centro das
startups no país, passou por um período complexo,
perdeu algumas iniciativas, mas hoje se reergue com
iniciativas antigas e novas convivendo em harmonia,
criando um novo ponto de equilíbrio para o ecossiste-
ma local. Precisamos entender que nossos ecossistemas
passarão por momentos semelhantes e que nosso papel
é compreender isso e trabalhar para que a recuperação
seja mais rápida.
Com esse caso, agora quero que você reflita sobre as
seguintes questões:
SEJAMOS AUTÊNTICOS!
47 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
sempre surge, com pessoas questionando o quanto
importamos, no estilo “ctrl c + ctrl v”, os modelos de
ecossistemas estrangeiros, sem considerar nossos con-
textos, particularidades e a autenticidade de nossas
culturas e história.
Da mesma forma, alguns ecossistemas de outros pa-
íses já nascem com um olhar global, algo que nós temos
dificuldade em fazer. Afinal, nosso mercado interno é
enorme e cheio de problemas e oportunidades para criar
empresas e tecnologias.
Ao olhar para outros contextos fora do mundo da ino-
vação e das startups, temos exemplos de que podemos
ser modelos a serem seguidos (o Sistema Único de Saúde
do Brasil, o SUS, e seu sistema de distribuição de vacinas
é um grande exemplo). Mas, para isso, precisamos nos
conhecer e questionar o tempo todo por que fazemos o
que fazemos em cada ecossistema. Em outras palavras:
“Por que criar um programa de aceleração no meu ecos-
sistema?”, “Por que criar um summit regional?”, “Por que
realizar um Startup Weekend?”, “Por que trazer um in-
vestidor renomado para dar uma palestra e pagar R$40
mil por isso?”, “Por que criar uma associação de startups
no meu estado?”, “Por que criar um CNPJ que represente
meu ecossistema?”, “Por que criar um processo seletivo
de várias etapas para aceitar um membro na comuni-
dade de startups da cidade?”, “Por que insistir para que
uma corporação crie um CVC?”.
Essas são perguntas provocativas que poderiam ser
capítulos de um livro por si só. No entanto, o objetivo aqui
é gerar reflexões (e não fornecer respostas prontas), para
que nossas lideranças estejam sempre questionando se
48 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
estamos apenas replicando um modelo de outro lugar
ou se estamos realmente desenhando soluções para pro-
blemas reais dos nossos ecossistemas. A intenção é que,
ao criarmos programas, ações, eventos e, principalmen-
te, políticas, pensemos no propósito de cada iniciativa.
Apenas assim perceberemos o que realmente faz sentido
para nossos ecossistemas e startups.
Vamos a um exemplo para ilustrar melhor o que es-
tou dizendo. Hora de falar do FIEMG Lab!
Hoje, a principal iniciativa de inovação voltada para
a indústria, o FIEMG Lab nasceu em 2017 com o propósito
de levar inovação para as indústrias de Minas Gerais. Ao
longo dos anos, o programa cresceu e aprendeu muito
com sua própria jornada.
Mas qual a relação entre o programa e as provoca-
ções feitas?
Bem, uma das principais atividades do FIEMG Lab
é realizar com as indústrias do futuro (como são cha-
madas as grandes corporações que fazem parte da ini-
ciativa) desafios de inovação aberta, os Challenges, em
que uma das etapas envolve a execução de provas de
conceito (ou POCs).
A maioria das indústrias que chegavam ao programa
estavam iniciando sua jornada em inovação aberta, esta-
va aprendendo a se relacionar com startups e com todo o
ecossistema. Isso acarretava em diversos desalinhamen-
tos entre estes dois elos (startups e indústrias), onde, por
exemplo, as indústrias tinham dificuldade para contra-
tar as POCs devido aos processos internos das mesmas.
Nesse momento entra a expertise do FIEMG Lab, que
não seguiu o caminho de simplesmente replicar outros
49 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
programas que acontecem ao redor do mundo. A equi-
pe do FIEMG Lab entendeu que essa era uma dificulda-
de das corporações e que por mais que tentassem, era
preciso um esforço gigantesco para mostrar a todos os
envolvidos da corporação a importância de ter proces-
sos diferentes para contratar startups e suas POCs. As-
sim, o FIEMG Lab 4.0 (programa de desenvolvimento de
startups do FIEMG Lab) criou um “fundo de POC” para
dar celeridade na execução das POCs realizadas entre
as indústrias do futuro e startups, onde o contrato da
indústria e o FIEMG Lab já previa um valor que seria di-
recionado à realização das mesmas, porém sob gestão da
equipe do FIEMG Lab, não sendo mais necessário passar
pelos processos tradicionais da empresa.
Com isso, a iniciativa conseguiu não só agilizar os
processos mas também agilizar o impacto interno den-
tro das empresas, já que ao trabalhar com startups a cul-
tura interna começa a ser transformada e mais alinhada
com a cultura de inovação.
O FIEMG Lab olhou para dentro, entendeu o contex-
to, identificou os pontos a melhorar e se adaptou. Não se
prendeu aos modelos existentes; ao contrário, focou em
gerar mais valor para sua rede.
Com isso, é hora de refletirmos:
50 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
• O que temos de bom em nossos ecossistemas
que precisamos mostrar ao mundo?
• Como podemos ser autênticos?
• Olhe para o seu ecossistema e pense sobre esses
pontos.
51 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
de tecnologia e hoje é um dos principais ecossistemas de
inovação do país.
Neste ponto, quero que você reflita sobre uma ques-
tão única:
“E AGORA, JOSÉ?”
52 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
O ecossistema
gaúcho de inovação
Elen Flores
Diretora da Associação Gaúcha de Startups
São Leopoldo/RS
O
s primeiros movimentos para a construção do
ecossistema gaúcho de inovação começaram
na década de 1990, com a criação do primeiro
parque tecnológico no estado, o Tecnopuc (Parque Cien-
tífico e Tecnológico da Pontifícia Universidade Católica
do RS). Desde então, as universidades têm protagonizado
a transformação gaúcha, tornando o Rio Grande do Sul
um dos melhores ecossistemas de inovação do Brasil.
Trata-se de uma iniciativa sem precedentes, visto que,
no mundo, a mobilidade de mudança geralmente parte
inicialmente do poder público ou setor privado, trans-
bordando posteriormente para as instituições de ensino.
O ecossistema gaúcho de inovação apresenta como
uma de suas principais características a presença de
universidades no topo dos rankings brasileiros, como
a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS),
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS),
Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), entre
53 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
outras. Isso contribui para a formação de profissionais
altamente qualificados nas áreas de ciência, tecnologia
e inovação, gerando na economia um capital humano
valioso. Além disso, as universidades impulsionam o
empreendedorismo e fornecem aos alunos acesso a am-
bientes favoráveis para o desenvolvimento de negócios,
como incubadoras e parques tecnológicos.
Resultados dessa cultura empreendedora nas uni-
versidades foram evidenciados através da pesquisa “RS
Tech 2023: As startups do ecossistema de inovação gaú-
cho”, promovida pelo governo do Rio Grande do Sul. Os
dados mostram o alto envolvimento de mestres e dou-
tores na criação de startups no estado. De acordo com o
estudo, 65,9% das startups do estado foram fundadas por
pós-graduados, sendo 35,5% mestres ou doutores e 30,4%
com MBA ou especialização.
Tão relevante quanto as universidades é a Fundação
de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul
(FAPERGS), que, desde 1979, tem como objetivo fomentar
a pesquisa científica e tecnológica no estado. A fundação
vem articulando conexões para a construção de negócios
a partir das pesquisas e tecnologias desenvolvidas no
estado, sendo reconhecida em 2021 com o prêmio “Boas
práticas em fomento à ciência, tecnologia & inovação”,
promovido pelo Conselho Nacional das Fundações Es-
taduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP), que visa reco-
nhecer as iniciativas de todo o país. Em 2022, a FAPERGS
foi novamente premiada, em 1º lugar, como destaque em
“Desenvolvimento de ecossistema de CT&I” no Brasil.
Outro aspecto relevante do ecossistema gaúcho de
inovação é a diversidade de setores presentes. O estado
54 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
abrange desde áreas tradicionais, como agronegócio e
indústria, até setores emergentes, como tecnologia da
informação e biotecnologia. Essa diversificação permi-
te que diferentes segmentos econômicos se beneficiem
das oportunidades oferecidas pelo ecossistema e produ-
zam soluções transdisciplinares. As startups gaúchas
desenvolvem soluções, principalmente, nas verticais de
agronegócio, saúde e gestão de negócios. O mercado do
agronegócio, em particular, apresenta grande potencial
de crescimento e inovação, uma vez que o Rio Grande
do Sul é um dos principais produtores agrícolas do país,
com destaque para culturas como soja, milho e arroz.
A adoção de tecnologias avançadas no campo, como
agricultura de precisão e o uso de drones para monitora-
mento de lavouras, tem impulsionado a produtividade e
a sustentabilidade do setor.
O acesso a financiamento público é outra carac-
terística que impulsiona o crescimento das empresas
inovadoras no ecossistema gaúcho. O estado oferece
programas e linhas de crédito específicas para apoiar
projetos inovadores, possibilitando que as empresas
tenham acesso aos recursos necessários para expandir
suas operações. Entre o segundo semestre de 2022 e o se-
gundo semestre de 2023, o estado investiu mais de R$110
milhões no ecossistema de inovação.
Outros atores também marcam presença no investi-
mento em soluções inovadoras. A FINEP (Financiadora
de Estudos e Projetos) possui editais voltados à infra-
estrutura de pesquisa, bem como a linha de crédito
INOVACRED, destinada ao desenvolvimento de startups.
O BADESUL, agência de fomento vinculada à Secretaria de
55 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Desenvolvimento Econômico do Rio Grande do Sul, atua
como agente repassador da linha de crédito INOVACRED
e também como parceiro em Fundos de Investimento em
Participações (FIPs) com empresas de venture capital,
impulsionando investimentos nas categorias Pré-seed,
Seed e Série A no estado. Além disso, investidores priva-
dos estão presentes no ecossistema, oferecendo capital
para startups promissoras. As aceleradoras e incubado-
ras desempenham um papel fundamental no apoio ao
desenvolvimento das startups, fornecendo capacitações,
networking e recursos financeiros. A Ventiur, fundada
em 2013 no estado, foi a primeira aceleradora da região
Sul do país e já acelerou mais de 90 startups, contando
com mais de 400 investidores. A WOW, também fundada
em 2013, é uma das principais aceleradoras do RS, ofere-
cendo suporte estratégico e financeiro para startups em
estágio inicial, com recursos de um grupo de mais de 300
investidores-anjo, que também atuam como mentores.
Apesar do trabalho desses atores, as movimentações
no estado ocorriam de forma individualizada, fazendo
com que a falta de integração entre os diferentes atores
do ecossistema fosse um dos principais desafios para
seu amadurecimento. Para superar essa dificuldade,
três das principais universidades do RS perceberam a
necessidade de estabelecer mecanismos de colaboração
e parcerias estratégicas, visando à troca de conheci-
mento e recursos, além do investimento em programas
de capacitação e formação de recursos humanos qua-
lificados, a fim de suprir a demanda por profissionais
especializados em orquestração de ecossistemas de
inovação dentro do estado.
56 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Assim, em 2018, foi criada a Aliança para Inovação,
uma cooperação entre as três maiores universidades
do estado – Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), Pontifícia Universidade Católica do Rio Gran-
de do Sul (PUCRS) e Universidade do Vale dos Sinos
(Unisinos) – para o desenvolvimento de projetos que
potencializam ações de alto impacto no ambiente de
inovação gaúcho. Desde então, vem se desenvolvendo
no estado o modelo de inovação de hélice quádrupla,
através de iniciativas e projetos que engajam sociedade,
universidade, poder público e setor privado.
Com o objetivo de formar e atrair talentos para dar
continuidade ao movimento de mudança no estado, foi
criada uma especialização em ecossistemas de inovação.
Em 2019, foi lançada a primeira turma do MBA em Ecos-
sistemas de Inovação, ministrado em cooperação mútua
entre UFRGS, PUCRS e Unisinos, para preparar profis-
sionais que atuem na gestão de programas e ambientes
de inovação, proporcionando uma visão global sobre as
perspectivas do ecossistema gaúcho. O curso aborda a
estrutura e gestão de diversos tipos de ecossistemas,
bem como ferramentas e metodologias para alavancar a
inovação nas organizações, por meio de disciplinas como:
Ambientes Promotores da Inovação no Brasil, Fontes de
Fomento e Apoio à Inovação, Ecossistemas de Inovação
Globais, entre outras.
Ainda em 2019, sob uma provocação da Aliança para
Inovação e em parceria com a prefeitura da capital
gaúcha, foi lançado o Pacto Alegre, uma proposta de
articulação do poder público com universidades, se-
tor privado e sociedade civil, que acelerou o processo
57 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
de conexão entre diferentes atores. Essa iniciativa
transformou projetos isolados de inovação em parte de
uma proposta sistêmica de articulação local. O Pacto
Alegre envolve mais de 110 instituições e centenas de
voluntários que trabalham em conjunto para promover
ações inovadoras, já tendo conquistado reconhecimen-
to internacional. Em 2023, foi um dos dezessete cases
apresentados na Conferência Mundial da Triple Helix,
o principal evento mundial na área de inovação e de-
senvolvimento de territórios, realizado em Barcelona,
reunindo líderes do setor público, reitores e gestores de
ecossistemas de inovação de todo o mundo.
Dando continuidade ao fortalecimento do ecossiste-
ma gaúcho de inovação, o governo estadual tem imple-
mentado diversas iniciativas governamentais, incluindo
programas de incentivo à pesquisa e desenvolvimento,
como bolsas de estudo e financiamento de projetos ino-
vadores. Essas transformações tornaram, nos últimos
cinco anos, o território gaúcho um dos melhores ambien-
tes para o desenvolvimento de startups e tecnologias dis-
ruptivas no Brasil. O ecossistema estadual já conta com
casos de sucesso que demonstram seu potencial empre-
endedor, com startups gaúchas se destacando nacional e
internacionalmente, além de iniciativas governamentais
que seguem no mesmo caminho.
Entre os resultados das articulações no ecossistema
dos últimos cinco anos no estado, destaca-se que 78%
das startups ativas no RS foram fundadas nesse perí-
odo. Além disso, em 2021 e 2022, o estado conquistou a
primeira posição no ranking de inovação dos estados
brasileiros, segundo o relatório do Centro de Liderança
58 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Pública (CLP). O RS obteve a primeira posição com cinco
indicadores: Investimentos Públicos em P&D, Patentes,
Bolsas de Mestrado e Doutorado, Empreendimentos
Inovadores e Pesquisa Científica. Em nível internacio-
nal, a capital gaúcha foi representada pelo Tecnopuc
como referência global na 40ª Conferência Mundial da
IASP (International Association on Science Parks and
Areas of Innovation), realizada em Luxemburgo, cujo
tema foi “Megatendências em ecossistemas de inova-
ção”. O Tecnopuc foi anunciado como sede do Encontro
Latino-Americano da IASP em 2024.
Para reforçar sua posição no mercado, o ecossistema
gaúcho de inovação estabelece parcerias estratégicas
com outros ecossistemas. Essas parcerias visam com-
partilhar conhecimentos, recursos e oportunidades,
promovendo sinergias entre os diferentes atores envol-
vidos. São realizadas missões internacionais para atrair
investidores estrangeiros e estabelecer conexões com
ecossistemas globais de inovação. Um exemplo de parce-
ria bem-sucedida é o contrato de co-realização do South
Summit com a Espanha, assinado em 2021 em Madri.
O South Summit é um evento global de inovação, com dez
anos de trajetória, sendo uma referência mundial como
plataforma de conexões para inovação, com o objetivo
de gerar negócios e captar investimentos. Em 2022, teve
sua primeira edição fora da Europa, realizada na capital
gaúcha, com a participação de mais de mil startups de
76 países. Na segunda edição, em 2023, duas mil startups
de 86 países se inscreveram para a competição de star-
tups no evento, que reuniu fundos de investimento com
123 bilhões de dólares sob gestão, reforçando a identidade
59 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
do Rio Grande do Sul como referência para negócios ino-
vadores não só no Brasil, mas também como destaque na
América Latina.
Os eventos e conferências realizados no estado são
importantes plataformas para a discussão de tendências
e oportunidades no campo da inovação. Esses eventos
reúnem empreendedores, investidores e especialistas,
proporcionando um ambiente propício para a troca de
ideias e reafirmando a imagem do ecossistema gaúcho
de inovação como um polo de referência nacional. Isso
torna o território gaúcho atrativo para empresas priva-
das que desejam se destacar como referência em proces-
sos e soluções inovadoras.
Grandes companhias, como Randon, Unimed e Gren-
dene, desempenham um papel significativo no ecossis-
tema, investindo em pesquisa e desenvolvimento para
melhorar seus produtos e serviços. Em 2020, a Randon
lançou uma iniciativa de inovação aberta na serra gaú-
cha, o Conexo, um hub de conexões e negócios em ambien-
te físico e digital. No mesmo ano, a Unimed inaugurou
o Vibee, um hub de inovação focado na área da saúde,
localizado na região central do estado. Também em 2020,
a Grendene lançou o Bergamotta Lab, um laboratório de
inovação para criar e testar soluções sustentáveis. Essas
iniciativas valorizam a cultura de cooperação entre os
atores do ecossistema e destacam a capacidade do setor
privado em investir em startups promissoras, fornecen-
do recursos financeiros, conexões e expertise para im-
pulsionar o crescimento do mercado.
Outro exemplo de sucesso de cooperação para ino-
vação entre grandes empresas no estado é o Instituto
60 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Caldeira, um instituto sem fins lucrativos que tem o ob-
jetivo de fomentar o ecossistema de inovação através de
conexões em um espaço destinado à inovação, nova eco-
nomia, operações de pesquisa e tecnologia. Sediado na
capital gaúcha, foi fundado por 42 grandes instituições,
entre elas a Aliança para Inovação, Pacto Alegre, Atitus
Educação, Gerdau, Grendene, Panvel, Renner, Banrisul,
Agibank, Unimed, Safeweb e outras. Sendo empresas de
todos os segmentos – indústria, comércio e serviços – o
Instituto Caldeira promove programas de inovação aber-
ta para conectar seus desafios de negócios às soluções de
startups, impulsionando a geração de novas tecnologias
e favorecendo o crescimento das startups.
O crescimento acelerado do ecossistema no estado
aumentou a concorrência entre as startups na busca por
investidores. Com um número crescente de startups sur-
gindo, a disputa por recursos financeiros se intensifica,
fazendo com que os empreendedores precisem se desta-
car e apresentar propostas diferenciadas para atrair a
atenção dos investidores. No entanto, a falta de conhe-
cimento e experiência dos empreendedores em relação
à captação de recursos ainda dificulta esse processo.
Muitos empreendedores possuem habilidades técnicas
e conhecimento sobre seus produtos ou serviços, mas
carecem de expertise na área financeira, o que prejudica
a elaboração de um plano de negócios sólido e atrativo.
Para enfrentar esse desafio, são oferecidos cursos,
workshops e mentorias para quem deseja aprender so-
bre gestão, marketing, finanças e outras áreas. Dentre as
iniciativas de capacitação empreendedora, destaca-se a
AGS (Associação Gaúcha de Startups), fundada em 2015,
61 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
que promove eventos de conexão e aprendizado, fomenta
a interação entre startups e investidores, oferece men-
torias através do programa Startup Class e encontros
para apresentação de alternativas de investimento (In-
vest Talk), onde investidores apresentam suas teses e
premissas para esclarecer dúvidas dos empreendedores.
Esses eventos são oferecidos gratuitamente para o ecos-
sistema. Além disso, em 2021, o SebraeRS lançou a marca
de inovação SebraeX, para desenvolver ações voltadas
para inovação, capacitando empresas e startups através
de programas com foco em mindset inovador, fomento
a investimentos e articulação de eventos. A nova marca
reforçou a cultura de inovação aberta no estado, criando
a plataforma Inno2b, que possibilita a criação de desafios
por grandes empresas para que startups desenvolvam
soluções inovadoras. A marca também reforçou progra-
mas já existentes do SebraeRS, como o Startup RS, que,
desde 2015, já atendeu mais de 500 startups gaúchas,
auxiliando na validação de modelo de negócio, acesso a
novos mercados e conectando-as com mentores e espe-
cialistas de mercado.
Com relação à distribuição geográfica, 82,4% das
startups estão localizadas no eixo entre Porto Alegre e
Caxias do Sul. Esse eixo concentra a maior parte das ini-
ciativas e dos recursos destinados ao desenvolvimento
de startups e tecnologias inovadoras. A Secretaria de
Inovação, Ciência e Tecnologia do estado (SICT) também
desempenha um papel crucial, promovendo o programa
Inova RS, que atua em 8 regiões diferentes do estado,
com o objetivo de estimular a inovação e o desenvolvi-
mento regional.
62 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Além disso, o Tecnovates, um parque tecnológico da
Universidade do Vale do Taquari (Univates), localizado
em Lajeado, é um exemplo notável de como projetos re-
gionais estão contribuindo para o desenvolvimento do
ecossistema gaúcho. O Tecnovates apoia startups e em-
presas que buscam promover inovações e desenvolver
soluções tecnológicas na região.
Outro destaque é a estratégia de sandbox, implemen-
tada para permitir a criação de ambientes controlados
onde empresas podem testar e validar novas tecnologias
e produtos, acelerando o processo de inovação. A aliança
empresarial também tem sido fundamental na promo-
ção de uma cultura de cooperação e compartilhamento
de recursos entre empresas do estado.
Os resultados têm sido positivos, e os benefícios gera-
dos pelo ecossistema gaúcho de inovação são significati-
vos. A geração de empregos qualificados contribui para o
crescimento econômico do estado e para a melhoria da
qualidade de vida da população. Além disso, o aumento
da competitividade das empresas locais em um mercado
globalizado é evidente. A visibilidade internacional tam-
bém atrai investimentos estrangeiros, trazendo recursos
financeiros e maior conhecimento técnico para o estado.
Esses resultados reforçam a importância do investimen-
to em inovação como uma estratégia para impulsionar o
crescimento econômico sustentável.
As perspectivas futuras para o ecossistema gaúcho
de inovação são promissoras. Espera-se um aumento
significativo no número de startups e na diversificação
dos setores envolvidos, impulsionados pela continuida-
de do estímulo ao empreendedorismo e pela criação de
63 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
um ambiente favorável à inovação. A colaboração entre
universidades, empresas e governo tende a se intensi-
ficar, fortalecendo ainda mais o ecossistema gaúcho de
inovação e impulsionando o desenvolvimento econômi-
co e social do estado. A necessidade de investimentos
em infraestrutura e recursos humanos qualificados é
uma das principais lições aprendidas no ecossistema
gaúcho de inovação.
Para impulsionar a inovação, é essencial contar com
espaços físicos compartilhados, laboratórios e centros
de pesquisa. Também é fundamental investir na for-
mação de recursos humanos qualificados, por meio de
programas de capacitação e parcerias com universida-
des e instituições de ensino. A importância de políticas
públicas favoráveis à inovação também se destacou no
ecossistema gaúcho, por meio dos incentivos fiscais, da
criação de um ambiente regulatório favorável à inovação
e da simplificação de processos burocráticos.
64 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
O poder da conexão
e colaboração nos
ecossistemas
Campina Grande/PB
N
o contexto brasileiro, percebe-se um movimento
de comunidade que remete a uma ação de cone-
xão entre atores/representantes da sociedade
civil, governo, instituições privadas, entre outros, em
prol de uma aproximação que reflete o dinamismo do
mundo moderno.
Esse cenário é típico de uma realidade globalizada
onde as mudanças são rápidas e constantes. O movimen-
to de comunidade surge para absorver as novas estru-
turas econômicas e sociais, baseadas na informação, no
conhecimento e nas redes; ou seja, a “sociedade em rede”
se constitui pela existência de conexão, colaboração e
interação. Embora tais características já estivessem
presentes nas relações anteriores, agora se manifestam
com maior consistência em virtude da alta tecnologia.
Esse fator é essencial para envolver diferentes personas
em prol do crescimento e desenvolvimento mútuo nas
questões políticas, econômicas e sociais.
65 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Em uma perspectiva cronológica do estado da arte,
Korobbinsnki (2001) já defendia, há duas décadas, que,
para uma sociedade alcançar e solidificar esse movi-
mento, seus agentes locais deveriam promover uma cul-
tura orientada à inovação. Isso exige pensar na gestão
do conhecimento por meio da tecnologia da informação,
organização do trabalho, gestão da inovação, gestão de
pessoas e de recursos, possibilitando assim ambientes
que estimulem a criatividade, o aproveitamento de ta-
lentos e o desenvolvimento contínuo.
O modelo de criação de comunidades é precursor dos
ambientes/ecossistemas onde as discussões são guiadas
pela economia do conhecimento e pelos novos modelos
de gestão, que possibilitam conexões e, consequentemen-
te, a transferência de conhecimentos e a aprendizagem
coletiva. Esses fatores resultam em uma sociedade base-
ada nas conexões em rede, criando ambientes propícios
ao desenvolvimento.
Spinosa (2010) aponta que, para existir um ecossiste-
ma inovador, é necessário inseri-lo em um espaço que
estabeleça interações entre diversos atores da inovação,
exigindo um arranjo urbano e regional voltado a essas
necessidades, sendo esse espaço denominado ecossis-
tema de inovação. Ainda de acordo com o autor, esses
ecossistemas geralmente são situados em centros urba-
nos e surgem da necessidade de disseminação contínua
da inovação por meio da cultura empreendedora. Como
conjunto de instituições integradas, acabam formando
um ambiente de aprendizagem caracterizado pela trans-
ferência de conhecimento e tecnologia com o objetivo de
aplicá-los no mercado.
66 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Gomes (2018) propõe uma estrutura conceitual em
que define os ecossistemas de inovação como um modelo
caracterizado pela co-criação, ou criação conjunta de va-
lor. Sua estrutura é composta por atores como empresas,
clientes, fornecedores e reguladores, como o governo.
Essa definição sugere que os membros envolvidos no
ecossistema de inovação estabeleçam uma relação de
cooperação e competição.
O termo ecossistema é muito comum na literatura
acadêmica do campo da biologia, referindo-se a ambien-
tes naturais onde a vida se cria, adapta e evolui, com
intensa interação e sinergia. Da mesma forma, conside-
ra-se que todas as partes de um ecossistema apresentam
interdependência, inseridas em ambientes colaborativos
e flexíveis, indispensáveis ao seu desenvolvimento.
No contexto atual dos movimentos criados, essa ana-
logia faz todo sentido, pois as ações de um ecossistema
só alcançam resultados significativos quando há uma
relação sinérgica e dinâmica.
Dessa forma, os ecossistemas de inovação são vistos
como lugares propícios ao empreendedorismo inovador
e ao desenvolvimento contínuo de inovações. Além disso,
são considerados espaços que promovem a aprendiza-
gem coletiva, o intercâmbio de conhecimento, práticas
produtivas e processos inovadores que envolvem o exer-
cício da criatividade, a capacidade de gerar e integrar
conhecimento, bem como o desenvolvimento e a difusão
de novos produtos e serviços (SPINOSA & KRAMA, 2014).
No contexto abordado em “Conceito”, a estrutura de
um ecossistema de inovação é configurada pela presen-
ça de seus atores, aqui denominados agentes, que desem-
67 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
penham o papel de sensibilizar, buscar oportunidades e
conectar empreendedores, startups, empresas e investi-
dores, além de universidades, instituições de fomento e
prestadores de serviços públicos e privados. O objetivo é
fortalecer um espaço de conexão voltado para a geração
de negócios que estimule a interação entre diferentes
agentes, promovendo o surgimento de ideias inovadoras
e, principalmente, proporcionando às empresas nascen-
tes um ambiente para o desenvolvimento de tecnologias
e networking.
Atores do Contribuições
ecossistema
público (.GOV) Instituições voltadas a legislar por pro-
gramas, regulamentos e incentivos por
meio de políticas públicas.
Privado/ Instituições educacionais, públicas ou
público privadas, que contribuem com a pes-
educacional quisa e o desenvolvimento, através de
(.EDU) seu capital intelectual e estrutura física
laboratorial.
Privado (.COM) Pessoas jurídicas de direito privado,
com capital exclusivo dos sócios, que
colaboram com ações e iniciativas de
inovação, buscando firmar parcerias
para o crescimento do ecossistema.
Instituições sem Entidades sem fins lucrativos, como as-
fins lucrativos sociações e fundações, que oferecem
(.ORG) programas e incentivos para projetos
de cunho social no ecossistema de ino-
vação.
68 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Privado Bancos e empresas de venture capi-
financiador tal que financiam projetos em prol do
ecossistema de inovação.
Privado Empresas privadas que oferecem solu-
provedor ções em tecnologia e inovação para o
ecossistema.
Sociedade civil Indivíduos que contribuem para conec-
tar as necessidades da sociedade.
69 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Como já discutido, um ecossistema de inovação é
composto por diferentes atores/agentes (empresas e
entidades), comprometidos com o propósito de forta-
lecimento e desenvolvimento através das práticas de
empreendedorismo inovador, além de ser orientado
pelos direcionadores: colaboração, transparência, com-
partilhamento, cocriação e confiança. É importante
colocar em prática a interação entre os atores para que
se tenha resultados sempre superiores aos de atuação
individualizada.
70 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Desfragmator:
a importância
dos contextos
Thalles Carvalho
Superintendente de Inovação na Secretaria de Planejamento,
orçamento e inovação Aracaju/SE
O
que você responderia se alguém se direcionasse
até você e te fizesse essas três perguntas:
71 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
são. Aqui, compartilho com vocês alguns trechos do que
Bauman explora em seu livro Comunidade: A busca por
segurança no mundo atual:
“Comunidade é um lugar ‘cálido’, um lugar confortá-
vel e aconchegante.”
“Numa comunidade, podemos contar com a boa von-
tade dos outros. Se tropeçarmos e cairmos, os outros nos
ajudarão a ficar de pé outra vez.”
Trago essa reflexão não para apontar uma direção
certa, mas para ilustrar o quanto é importante enten-
dermos os contextos das referências que nos inspiram,
permitindo-nos seguir em busca do que desejamos com
nossa própria visão. É exatamente por isso que o conceito
de “dependência” que tanto ouvimos de muitas pessoas é
tão sério e importante.
Talvez seja óbvio, mas às vezes é preciso dizer, não
é? Temos a biologia, a história, a filosofia, a sociologia e
muito mais. Aqui, arrisco dizer: todos estão certos e erra-
dos ao mesmo tempo. Vai depender, entre outros fatores,
do contexto de quem busca, de sua visão, de suas sensa-
ções, e do que acredita ou não.
Muito já foi dito, escrito, registrado e até tecnologiza-
do sobre o valor do conhecimento. Nossa inteligência é
vista como nosso maior tesouro, o que nos diferencia dos
outros animais. Quando temos interesse em saber mais
sobre qualquer assunto, encontraremos milhares, talvez
milhões, de explicações diferentes.
E com a dor das pedras jogadas, ressalto que não
existem lados; não deve haver. Todos são importantes à
sua própria maneira. Podemos não entender ou sentir da
mesma forma, mas precisamos respeitar e considerar o
contexto de cada pessoa e sua busca.
72 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
A seguir, compartilho um “estoque de referências”
que têm sido essenciais na minha jornada pessoal e
profissional.
Com licença para ter uma posição, gostaria de com-
partilhar como tenho atuado em comunidades e ecossis-
temas a partir dos meus interesses. Entendo o ponto de
vista de cada ambiente e, principalmente, vejo que todos
nós podemos colaborar.
Dentro do meu contexto, aprendi que a curiosidade é
um dos combustíveis para o aprendizado, algo que con-
tinua me ajudando até hoje. Nunca fui “muito estudioso”
como dizem, mas sempre fui muito curioso e interessado
em saber os porquês de diversas situações na vida. Era
aquela “criança enjoada” que fazia muitas perguntas e
questionava quase tudo, assim como muitos de vocês
que estão lendo, suponho.
No programa de TV infantil Castelo Rá-Tim-Bum, que
assistia nos anos 90, o personagem Zequinha perguntava
insistentemente “mas por quê?”. Em determinado mo-
mento, os outros respondiam “porque sim, Zequinha”, e
ele logo dizia “porque sim não é resposta”. Se você enten-
deu a referência, já sabe do que estou falando. Para quem
não conhece, Zequinha era apenas um garotinho curioso,
com vontade de entender o mundo ao seu redor.
Assim, quando comecei a me aprofundar no trabalho
que faço hoje (empreendedorismo, startups, inovação,
comunidade, ecossistema), pesquisei bastante e me
aproximei de tudo o que podia: pessoas, comunidades,
materiais, conteúdos e mais. Foram muitas leituras,
participações e realização de oficinas, além de outros
projetos. Relacionei-me, atuei, colaborei e acumulei ex-
73 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
periências diversas. Não quero cometer o erro de nomear
algumas pessoas e casos e acabar esquecendo de alguém
ou algo importante. Se quiser saber mais, me chame para
um café ou uma cerveja!
Como bom curioso, queria entender mais sobre esse
mundo que estava explorando, pois olhar apenas para
uma “fotografia” não contava toda a história, nem me
dava clareza. Por isso, busquei entender mais profunda-
mente o contexto em que estava cada vez mais interes-
sado em fazer parte. Uma das minhas bases de estudo
foram as ciências humanas e sociais. A reflexão começou
da seguinte forma: “Como posso entender mais sobre
isso e fazer parte?”, “Como uma comunidade de startups
funciona?”, “De que maneira posso colaborar sem des-
respeitar ninguém?”
Com esse acúmulo de vivências, passei a observar
cada detalhe e elemento quase separadamente. Aprendi
algo valioso: a famosa frase “O todo é maior que a soma
das partes” é amplamente aceita, mas, particularmente,
não concordo. Respeito a frase, mas não a considero uma
verdade absoluta. Há quem diga que ela foi traduzida de
forma equivocada, mas isso é outra discussão.
Tenho certeza de que você já quis entender por que
algo acontece, as razões e as origens. Desejou ter um guia
para ajudar a compreender o que estava ao seu redor.
Com base na observação e atenção a cada “fragmento”
do que eu buscava, percebi que meu entendimento ficou
mais claro e passou a fazer sentido. Daí veio a nova refle-
xão: se eu repetisse esse processo, poderia ajudar ainda
mais? E assim fiz. E dessa maneira surgiu o conceito que
chamei de Desfragmator.
74 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Aqui vou te dar o contexto de onde veio isso. Esse
nome, esse conceito, essa ideia. Então, se estiver tudo
bem para você, pode pular para o parágrafo seguinte.
Se partindo de cada fragmento me ajudava a entender
melhor aquilo tudo que queria e buscava, então o que
eu precisava fazer era “desfragmentar” a situação em
fragmentos, ou partes, para compreender o todo. Pois
cada um destes fragmentos possuíam seu próprio con-
texto. História, motivações, local, pessoas, lideranças,
etc. Ou seja, existe muito mais em cada uma das partes,
que podemos perder olhando apenas para o todo (olha
aqui o motivo da minha discordância da frase icônica lá
atrás). Temos aqui um mecanismo que ajuda a “desfrag-
mentar”. Somado ao processo disso, surgem as referên-
cias novamente. Pensei sozinho na cena de uma pessoa
usando uma ferramenta do tipo, e me veio à mente uma
espécie de raio laser (minha criança interior que gosto
de ouvir em muitos momentos), tipo aquelas dos dese-
nhos e filmes. Eis que surge o Desfragmator, e lê-se “des-
fragmeitor”, afinal, tinha que combinar com minhas
referências da infância né? Claro.
Esse conceito não é uma receita de bolo, mas sim
uma ferramenta que qualquer pessoa pode usar – ainda
que esteja longe de ser perfeita. Para contextualizar um
pouco mais, aqui vão alguns exemplos (cuidado: anos 90
à frente!):
Praticamente em todos os episódios de Thundercats
havia a frase: “Dê-me visão além do alcance”, dita pelo
líder Lion empunhando a espada justiceira, este era
um dos poderes do Olho de Thundera. Esta habilidade
era utilizada em diversos momentos e que o ajudava a
75 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
entender o quê estava acontecendo, onde, e com quem.
Era um tipo de guia que nas suas decisões.
É disso que se trata o Desfragmator. Se preferir, sin-
ta-se à vontade para dar um novo nome, apelido, ou até
mesmo utilizar de várias formas.
Não se trata de alguém específico, mas de todos. Cada
pessoa tem o seu próprio Desfragmator, e em pratica-
mente todos os casos, é algo único. Não é um botão verde
ou vermelho, ou um mecanismo que pode ser usado por
outra pessoa.
Envolve uma série de fatores, o contexto em que es-
tamos inseridos, as relações, referências, oportunidades,
influências, condições financeiras, biopsicossocial, etc.
Pode ser muito simples, ou muito complexo, mas defini-
tivamente não pertence a ninguém.
76 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Ou seja: qual é o contexto da comunidade? Do ecos-
sistema? Das entidades envolvidas? Das startups?
APLICANDO O DESFRAGMATOR
77 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
processos educacionais e métodos para seu crescimento,
ajudando-as a proporcionar melhores experiências aos
clientes e aumentar suas vendas.
O que fiz foi identificar meus pontos de interesse e
habilidades essenciais e reuni-los. Experiências passa-
das me ensinaram, e esses aprendizados podem ser úteis
aplicando-se desta ou daquela forma. Ou, como costumo
dizer, desfragmentei.
Se você tem um papel, ou cargo, profissionalmente
falando. faça o mesmo processo no seu contexto de tra-
balho. Quais as expectativas da empresa e do ambiente
onde está inserido? Quais os objetivos e o mercado?
Identifique fragmentos essenciais no contexto de tra-
balho e busque sinergias com seus fragmentos pessoais.
Isso pode ajudá-lo a gerar mais valor no dia a dia.
Para as tarefas e projetos diários, tenha sempre em
mente os contextos das iniciativas, locais e ecossiste-
mas em que se insere. Esse entendimento, ou respeito,
como gosto de chamar, pode ajudá-lo significativamen-
te. Com esse olhar, você começa a enxergar além do que
é exposto – como o iceberg, que possui muito mais abai-
xo da superfície.
78 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
permite uma reflexão. Pode-se dizer que nosso contexto
é fundamental para conhecermos nossas potencialida-
des e ampliarmos nosso autoconhecimento. O que você
acha? Na prática, ao identificar cada fragmento e con-
texto que vivenciamos, podemos clarear nossas poten-
cialidades e evoluir a partir de nossas experiências.
Outra referência conhecida é a “hierarquia de ne-
cessidades” de Maslow, onde Abraham Maslow define
cinco categorias de necessidades humanas: fisiológicas,
segurança, afeto, estima e autorrealização. A represen-
tação visual em forma de pirâmide não foi proposta
por ele, mas se popularizou. Com isso, quero destacar
que, ao buscarmos entender o contexto das pessoas, as
necessidades básicas não podem ser ignoradas. Como
diria minha avó (ou a sua): “Saco vazio não para em pé.”
Compreender essas necessidades e cada fragmento de
alguém pode nos ajudar a entendê-la e a aprender mais.
Com o avanço da tecnologia, cada vez mais dizemos
que as pessoas estão no centro de novas soluções, fer-
ramentas, negócios e campanhas. Mas sempre foi sobre
nós, pessoas. Independente da descoberta ou área, tudo
se relaciona com alguém – até mesmo você. Se quer mes-
mo aprender, fazer parte, ajudar, desfragmente.
79 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
inserido, não conheço o contexto, nem sinto as mesmas
sensações que essa pessoa ao pensar na comunidade X
ou Y. Então, o respeito é fundamental – sempre.
Comecei essa conversa referenciando Bauman, então
já sabemos alguns pontos essenciais para comunidade,
independente do tipo. Outra referência amplamente
usada para comunidades de startups é Brad Feld, que de-
fende que quem empreende deve liderar a comunidade;
as lideranças devem ter um compromisso de longo pra-
zo; a comunidade de startups deve ser inclusiva; e deve
ter atividades contínuas que envolvam empreendedores.
Já usei essas e outras visões ao responder o que é comu-
nidade, dependendo mais de quem pergunta do que do
meu entendimento pessoal.
Uma vez, mesmo após trazer referências, alguém
queria saber mais. Lembrei de uma professora que di-
zia: “Se não conseguimos entender o significante, va-
mos pelo significado.” E assim respondi: “Comunidade
nada mais é que a união de unidades com pontos em
comum que decidem conviver e/ou se apoiar por isso.”
Será que essa definição difere muito do que as referên-
cias dizem? Fica a reflexão.
Ao “desfragmentarmos”, vemos que os fragmentos
de uma comunidade incluem suas motivações, pessoas,
lideranças, dores, desejos e contextos. E isso muda – os
contextos mudam. Como diria Mufasa: fazemos parte do
grande ciclo da vida.
Podemos pensar que o ciclo de algumas pessoas em
uma comunidade se encerra quando certos fragmentos
deixam de fazer sentido para elas. Podemos estar mudan-
do de direção, trabalho, cidade, prioridades, e contextos.
80 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Existem frameworks para ajudar na construção des-
sas comunidades. Alguns se aplicam, outros não – e tudo
bem. Não é um jogo que definirá qual caminho seguir.
Ainda que tenhamos todos os fragmentos, teorias e
referências, cada um sente de forma diferente. E nem
pretendo discutir empatia aqui.
Viver em comunidade foi determinante para nossa
evolução como espécie. E encerro dizendo que o Desfrag-
mator não é exato, nem funciona para todos. É apenas
mais uma possibilidade. E ele é seu, nosso.
Com isso, tenho um único pedido:
Questione, pense no contexto das pessoas e da comu-
nidade. Busque entender por que, o como, e tenha visão
além do alcance. Há muito mais do que é visível, dito,
sentido e feito.
Se necessário, e se fizer sentido para você, desfrag-
mente.
O contexto é um grande estímulo e pode ajudar você
– então, não se esqueça disso.
81 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Case Vale do Ipitanga
Lauro de Freitas/BA
Lauro de Freitas/BA
A
ntes de mergulharmos na jornada de criação
do ecossistema de inovação do Vale do Ipitanga,
vamos entender alguns fatores geográficos e de-
mográficos do município de Lauro de Freitas, pois essas
informações foram determinantes do ponto de vista es-
tratégico de atuação e caminhos percorridos.
Lauro de Freitas é uma cidade de aproximadamente
200 mil habitantes (IBGE, 2022) e vizinha à capital Sal-
vador. O município possui um PIB per capita de apro-
ximadamente R$33.000,00 (IBGE, 2020), ocupando a 22ª
posição no estado, mas penúltimo lugar em tamanho
territorial. Ou seja, tem um PIB relativamente alto em
comparação com o pequeno espaço territorial que ocu-
pa no estado.
Sua economia se concentra principalmente nos seto-
res de comércio e serviços, com destaque para áreas li-
gadas à saúde e alimentação. Lauro de Freitas conta com
sete instituições de ensino superior, sendo duas públicas
(federal e estadual) e outras cinco privadas.
82 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
A seguir, encontra-se um raio-X do município, através
de um mapeamento realizado pela Fundação Certi em
parceria com o Sebrae e a Federação dos Comerciários
da Bahia (Fecomércio).
83 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
• ICTIs: UNIFACS, Unime, UNIFTC, UESB, UNI-
NASSAU, UNEB, IFB.
• Empresas: Soterotech, Ecosystem, VAP Am-
biental, Desenbahia, Qualité, CP2K Brasil, Mix
Bahia Supermercados, Geração Melk, Eyby,
Giusoft, ABASE, PROA, Banco do Nordeste,
PromPet, Mercado Livre, Grupo BB, Limiar,
Maker Lab 3D, Aeroporto de Salvador e mais.
• Sociedade civil organizada: Assepro Bahia,
Sebrae, IEL, SESI, SENAC Fecomércio, SENAI,
CDL,Sicomércio,Fapesb, FAEB SENAR Sindica-
tos, Sicomércio.
• Governo: Governo do Estado da Bahia, Prefeitura
Lauro de Freitas, Secretaria da Ciência, Tecnolo-
gia e Inovação, Secretaria de Desenvolvimento
Econômico, Indústria, Comércio, Serviços e
Inovação Tecnológica, Secretaria da Cultura e
Turismo, Secretaria do Desenvolvimento Social
e Cidadania, EJA.
• Mecanismos de inovação: Avansys Tecnologia,
Parque Social, Rede+, GetIn, Anjos do Brasil,
Vale do Dendê, Founder Institute, Startei, AEP-
TEC, Instituto INOVI.
O INÍCIO
84 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Uma das grandes motivações para a criação desse
grupo foi a iniciativa de mapear e reunir pessoas da ci-
dade que tivessem interesse em se unir e gerar discus-
sões, promovendo, quem sabe, ações no município. Vale
lembrar que Lauro de Freitas é vizinha de Salvador, que
possui um ecossistema de inovação muito mais robusto,
atraindo pessoas das cidades ao redor. Embora Salvador
ofereça essa estrutura aos cidadãos vizinhos, isso, de
certa forma, limita a criação e motivação para novos
ecossistemas de inovação nos municípios adjacentes.
Mesmo fazendo fronteira com Salvador, o acesso aos
espaços de inovação e empreendedorismo, como hubs,
coworkings e centros tecnológicos, concentrava-se prin-
cipalmente na região do Comércio, na extremidade sul da
cidade. Isso obrigava qualquer cidadão de cidade vizinha
a atravessar toda a capital para chegar a esses locais.
Além disso, a maioria dos eventos de inovação e em-
preendedorismo ocorriam em horário comercial, em dias
de semana, o que restringia o acesso de muitos traba-
lhadores. Assim, nada mais justo que as cidades vizinhas
começassem a construir seu próprio ecossistema de
inovação. Com isso, a tendência é que uma grande massa
populacional com cultura de inovação formada ou em
formação seja criada, potencializando o surgimento de
novas ideias.
Voltando à criação do grupo de WhatsApp, os pri-
meiros integrantes eram pessoas conhecidas e amigos
de amigos interessados em inovação e empreendedo-
rismo, embora nem todos residissem no município.
A ideia inicial era que boas discussões e novas conexões
se formassem ali.
85 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Logo no início, conseguimos o contato de uma pessoa
da Secretaria de Inovação do município. Após explicar-
mos o propósito do grupo, ela demonstrou interesse e se
comprometeu a ajudar na divulgação através das redes
sociais da prefeitura de Lauro de Freitas. Criou-se um
card de divulgação, com um link para um formulário de
pré-cadastro para que conhecêssemos um pouco mais
sobre cada participante, e, em seguida, eles eram adicio-
nados ao grupo.
A JORNADA
86 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
de COVID-19. Para esse encontro, escolhemos o tema
“Desmistificando as Startups: Primeiros passos nessa
jornada”, e conseguimos um palestrante que concordou
em conduzir a sessão de forma gratuita.
Esse momento reforçou a importância das conexões
entre as pessoas. Exploramos ao máximo nossas redes
de contato e participamos de eventos sobre inovação e
empreendedorismo, sempre com o objetivo de aprender
com pessoas e ecossistemas mais maduros. Procuramos
estabelecer relações estreitas e realizar trocas de conhe-
cimento de forma constante.
Decidimos realizar nossos eventos todas as sextas-
-feiras, às 16h, para que o público se familiarizasse com a
nossa agenda e se sentisse cada vez mais à vontade para
participar e contribuir com debates.
Para cada encontro, propúnhamos uma agenda com
temas variados, porém sempre relacionados a inovação
e empreendedorismo. A programação era compartilhada
de forma antecipada no grupo de WhatsApp e nas redes
sociais, permitindo que todos ajustassem suas agendas
para participar.
Utilizamos também a estratégia de visitar escolas e
universidades no município com o intuito de disseminar
a cultura da inovação e do empreendedorismo. Perce-
bemos que havia uma carência expressiva nesse tema
na cidade, especialmente entre o público jovem e mais
vulnerável. Assumimos a responsabilidade de levar esse
conhecimento e essas oportunidades aos cidadãos, in-
centivando novas adesões ao nosso ecossistema.
Como mencionado anteriormente, esse jovem ecossis-
tema não nasceu com o nome Vale do Ipitanga. À medida
87 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
que o grupo ganhava força e visibilidade, sentimos a ne-
cessidade de escolher um nome para nos apresentar à
sociedade e firmar nossa identidade.
Optamos por conduzir essa escolha através de um
formulário, abrindo espaço para que a comunidade suge-
risse nomes para o ecossistema. Com a lista de sugestões
em mãos, criamos um segundo formulário para votação,
permitindo que cada cidadão escolhesse sua opção favo-
rita. Por fim, após a apuração dos votos, o nome Vale do
Ipitanga foi escolhido, com 44% da preferência.
Vale mencionar a origem do nome Vale do Ipitanga.
A cidade de Lauro de Freitas, antes de adotar esse nome,
era conhecida como Freguesia de Santo Amaro de Ipi-
tanga, em razão do crescimento da cidade ao redor da
Igreja Matriz de Santo Amaro de Ipitanga. O nome atual
foi oficializado apenas com a emancipação da cidade de
Salvador em 1962.
Essa escolha foi significativa, pois acreditamos que
o nome Vale do Ipitanga ajuda a reforçar a identidade
local e a criar vínculos com os cidadãos.
Após a definição do nome, ainda faltava criar nossa
identidade visual. Conseguimos um profissional de de-
sign voluntário que nos ajudou nessa tarefa, o que nos
permitiu consolidar uma identidade visual de que tanto
nos orgulhamos.
À medida que o tempo avançava, o poder de nossas
conexões e os encontros virtuais constantes começa-
ram a ganhar visibilidade entre algumas instituições
da cidade, como o Sebrae, a Secretaria de Ciência, Tec-
nologia e Inovação do Governo da Bahia (SECTI), a pre-
feitura, a Fecomércio, entre outras. Foi através dessas
88 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
conexões que surgiu uma parceria entre a Fecomércio
e o Sebrae, que selecionaram Lauro de Freitas como um
dos municípios beneficiados por um programa de pla-
nejamento de ecossistema, conduzido pela Fundação
CERTI de Santa Catarina.
Naturalmente, o Vale do Ipitanga esteve envolvi-
do nesse programa, que tinha como objetivo mapear
toda a cidade, identificando indicadores, pontos fortes,
fraquezas e oportunidades. O programa durou aproxi-
madamente quatro meses e culminou em um evento
presencial, que reuniu figuras importantes do muni-
cípio, como a prefeita, representantes de secretarias
e órgãos públicos, universidades, membros do Vale do
Ipitanga e a comunidade em geral. Na ocasião, foi assi-
nado o Pacto da Inovação, com assinaturas da prefeita,
do Sebrae e da Fecomércio.
Um dos grandes desafios de um ecossistema de ino-
vação jovem é a sua capacidade de atrair a atenção da
comunidade para debater, criar e desenvolver ideias ino-
vadoras. Uma das ferramentas mais eficazes para isso
é o Startup Weekend da Techstars, um evento popular
entre ecossistemas que oferece uma oportunidade in-
tensa de formação de equipes e validação de modelos de
negócio em um único final de semana. Assim, no final de
2021, o Vale do Ipitanga se candidatou para organizar o
primeiro Startup Weekend em Lauro de Freitas, e, após a
aprovação, começamos a planejar o evento, que ocorreu
nos dias 29 e 30 de abril e 1º de maio de 2022.
Dedicamo-nos a valorizar as pessoas residentes
no município para compor o quadro de mentores e ju-
ízes do evento, mas tomamos o cuidado de selecionar
89 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
profissionais capazes de contribuir de maneira quali-
ficada, orientando e incentivando os participantes na
construção de seus modelos de negócio.
Por ser um evento inédito em Lauro de Freitas, que-
ríamos que fosse um marco e um divisor de águas para
a sociedade. Realizamos diversos planejamentos, campa-
nhas e parcerias, além de visitas a locais para promover
o evento. No final, conseguimos atrair mais de 60 partici-
pantes, um número significativo para uma cidade onde
inovação e empreendedorismo eram pouco discutidos.
Em meados de 2022, alguns membros do Vale do Ipi-
tanga foram convidados pelo Sebrae a integrar a comiti-
va para o evento ELI Summit em Recife. Essa experiência
foi extremamente enriquecedora, pois o evento reúne
ecossistemas de inovação de todas as regiões do Brasil
e da América Latina, com temas, workshops, painéis e
palestras que promovem o compartilhamento de lições
aprendidas, além de proporcionar conexões valiosas.
Como em todo grupo voluntário, existem aqueles que
se mostram mais comprometidos com o propósito do
grupo. Esse núcleo, que dedicava maior parte do tempo
ao fortalecimento do ecossistema local, reuniu-se para
formar o grupo de governança do Vale do Ipitanga. Op-
tamos por uma estrutura horizontal, sem hierarquias rí-
gidas, para que cada membro se sentisse à vontade para
compartilhar ideias e opiniões.
Dentro dessa estrutura de governança, distribuímos
atividades de acordo com as afinidades de cada membro.
Uma prática amplamente discutida no grupo de
WhatsApp e entre os pilares da equipe de governança
era a realização de encontros presenciais, conhecidos
90 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
como meetups. O principal propósito desses eventos era
aproximar o Vale do Ipitanga da sociedade, criando um
espaço para que novos membros pudessem conhecer
nosso trabalho.
Procurávamos realizar esses encontros em locais de
grande circulação para atrair o maior público possível.
Outra iniciativa de destaque foi o evento realizado
em outubro de 2022, no Teatro Municipal de Lauro de
Freitas, com duração de uma tarde inteira. Intitulado
“Decola Lauro”, o evento adotou o formato de mesa de
debate e abordou temas com base na quádrupla hélice
de um ecossistema: empresas, educação, poder público
e sociedade civil organizada. Para cada mesa, definimos
um tema central e convidamos especialistas para um
diálogo enriquecedor. Todo o evento foi viabilizado por
meio de parcerias com o setor público e privado, eximin-
do o Vale do Ipitanga de qualquer obrigação financeira.
Sem dúvida, a criação de um ecossistema de inova-
ção é uma tarefa desafiadora, independentemente do
tamanho da cidade ou região. É um processo complexo
e único para cada localidade, o que dificulta a criação de
um “manual” ou uma ordem de passos a serem seguidos.
Cada região tem suas particularidades, desafios e opor-
tunidades, incluindo aspectos culturais.
Entretanto, é possível afirmar que em qualquer região
sempre existirá pessoas com interesses e afinidades co-
muns, sendo o grande desafio fazer com que estas se co-
nheçam e despertem a motivação de construírem algo em
conjunto capaz de atrair outros com o mesmo interesse.
Uma vez superada essa barreira de conexão e afini-
dade, temos o mínimo necessário para a criação de um
91 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
ecossistema de inovação: pessoas engajadas e unidas por
um propósito comum.
É sempre importante estabelecer canais de comuni-
cação abertos e inclusivos com toda a sociedade, setores
públicos, privados e centros educacionais, pois todos
têm algo a contribuir e a ganhar com os resultados e
ações do ecossistema.
Procure cercar-se de pessoas comprometidas. Crie
oportunidades para que novos participantes se unam ao
ecossistema.
Lembre-se de que a renovação e a rotatividade dos
membros são essenciais para um ecossistema de inova-
ção. Isso abre espaço para novas ideias, amplia conexões
e alcança um público maior, gerando oportunidades
para todos os interessados, independentemente de raça,
credo ou condição financeira.
92 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Como é um
ecossistema
de inovação
no interior?
Míriam Conceição
Analista de inovação
Rio de Janeiro/RJ
N
o contexto do ecossistema de inovação brasilei-
ro, é importante considerar a riqueza da diversi-
dade do país, que engloba diferenças culturais,
étnicas e geográficas. Embora a atenção muitas vezes se
concentre nos grandes centros urbanos e capitais, mui-
tos empreendedores precisam deixar suas regiões de
origem para buscar oportunidades de crescimento para
o seu negócio e inovação tecnológica para seus produtos.
Neste texto, vamos explorar a realidade dos ecos-
sistemas de inovação em regiões interioranas, com um
foco especial na Região Sul Fluminense. As informações
e experiências compartilhadas aqui podem, sem dúvida,
oferecer apoio valioso não apenas para líderes de nossa
região, mas também para aqueles em outras localidades.
A Região do Médio Paraíba abrange um total de 12
municípios: Barra do Piraí, Barra Mansa, Itatiaia, Pi-
nheiral, Piraí, Porto Real, Quatis, Resende, Rio Claro, Rio
das Flores, Valença e Volta Redonda. Cada uma dessas
cidades possui sua própria diversidade econômica, mas
93 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
merece destaque em setores como o mercado de serviços
e comércio, indústrias metalmecânicas, automotivas, si-
derúrgicas e alimentícias.
Além disso, é importante ressaltar que a região tem
uma forte abordagem no turismo, graças à rica história
relacionada ao período dos barões do café. Essa herança
histórica contribui para o desenvolvimento do setor tu-
rístico, tornando a região de grande importância cultu-
ral e econômica.
Temos inúmeros desafios e um grande caminho para
potencializar as comunidades do interior, mas gostaria
de abordar três desafios principais que se destacam
em nosso contexto: acesso à capital e aos mercados,
cultura de inovação e relacionamento entre os atores
de inovação.
94 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
3. Relacionamento entre atores de inovação: Nas
grandes cidades, a colaboração entre os atores
de inovação é mais natural, enquanto nas regiões
internas a mentalidade de “dono da iniciativa” é
mais comum, o que dificulta a cooperação e o tra-
balho conjunto. A promoção do trabalho voluntá-
rio e a cooperação são essenciais para fortalecer
o ecossistema de inovação do interior.
95 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
inovação. Esse foi o momento em que descobri um mun-
do de possibilidades além da minha região de origem.
Minha busca por inovação me levou a realizar meu Tra-
balho de Conclusão de Curso sobre Internet das Coisas.
Enquanto estudava e pesquisava mais sobre inova-
ção, percebi que a maioria dos eventos eram realizados
em São Paulo e no Rio de Janeiro, o que impossibilitava
minha participação. No entanto, minha paixão pela ino-
vação me motivou a continuar buscando oportunidades.
Finalmente, encontrei um evento que aconteceu em Vol-
ta Redonda em 2019. Além de ter conquistado o primeiro
lugar, o evento abriu meus olhos para um novo mundo.
Participar deste evento não apenas me possibilitou
criar minha própria startup, mas também me conectou
à comunidade de inovação Rio Sul Valley, uma comuni-
dade regional que desempenhou e ainda desempenha um
papel crucial em minha jornada de empreendedorismo e
inovação. São cinco anos dedicados ao ecossistema, com
participação em eventos da região, sendo reconhecida
nacionalmente e impactando mais de 5.000 pessoas.
Meu envolvimento voluntário na comunidade forta-
leceu meu amor pela inovação e me ajudou a representar
minha cidade e região em eventos nacionais, como o Fal-
com – Fórum Anual de Comunidades, e o InovAtiva, como
agente e líder de inovação. Em 2021, tive a oportunidade
de ser embaixadora do Rio de Janeiro no CASE, um dos
maiores eventos de inovação promovido pela Associação
Brasileira de Startups.
Atualmente, nossa comunidade de inovação tem
como propósito principal trazer oportunidades para
o Sul Fluminense. Estamos focados em apoiar o cres-
96 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
cimento e investimento nas startups da região e, ao
mesmo tempo, em incentivar a criação de novas star-
tups. Além disso, buscamos estabelecer conexões com
o mercado e os polos industriais locais para fomentar a
economia regional.
Nossa missão como líderes regionais é integrar,
conectar e fortalecer a comunidade de inovação e em-
preendedorismo. Compreendemos que ninguém pro-
gride sozinho, e a comunidade desempenha um papel
fundamental na promoção do crescimento econômico
e na criação de oportunidades. Estamos comprometidos
em ser agentes integradores, inspirando e capacitando
empreendedores locais e buscando a colaboração com
outros agentes econômicos da região.
Assim, a comunidade de inovação desempenha um
papel vital no fortalecimento do ecossistema de inova-
ção e no desenvolvimento econômico das regiões inte-
rioranas. Construir um futuro promissor e inovador em
uma região local é um desafio, e é necessário que todos
os atores estejam não apenas preparados, mas também
comprometidos na promoção ativa do ecossistema de
inovação. Trabalhando em conjunto, podemos trazer
grandes oportunidades para o interior, proporcionando
acesso ao conhecimento e impulsionando a inovação em
nossa comunidade.
O trabalho voluntário desempenha um papel signi-
ficativo nesse processo. Embora muitas vezes ocorra de
maneira sazonal, com períodos de engajamento, é neces-
sário que os líderes da comunidade sejam um suporte
constante para que ela sobreviva diante de seus desafios.
Gostaria de destacar algumas lideranças que desem-
97 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
penham um papel vital em nossa comunidade Rio Sul
Valley, como Gabriel Oliveira, Gustavo Lima, Francinery
Esperança e Mateus Carvalho, que lideraram e fazem um
trabalho contínuo de mobilização, busca de voluntários
e conexão com os atores de inovação para o avanço da
Região Médio Paraíba.
Nosso objetivo é que, no futuro, a comunidade tenha
capacidade de operar de maneira autônoma, viva e prós-
pera. É por isso que estamos trabalhando no presente e
projetando o futuro.
Vou compartilhar algumas boas práticas que nossa
liderança tem implementado na comunidade, que po-
dem servir de inspiração para serem implementadas em
sua região.
Em primeiro lugar, reorganizamos e reestrutura-
mos a própria comunidade. Começamos esse processo
revisando e sintetizando os objetivos da comunidade,
identificando o que já realizamos e o que ainda podemos
fazer. Para direcionar nossos esforços, utilizamos como
base os pilares da comunidade de inovação, mapeando e
trabalhando em cada um desses pilares.
Além disso, garantimos que cada pilar da comunida-
de tenha operadores-chave. O segundo ponto de nossa
estratégia foi identificar todos os atores que compõem
esses pilares. Como é comum em ecossistemas, nem sem-
pre é fácil acessar esses atores devido a diversos fatores.
Por isso, começamos a nos reconectar com os atores com
quem já temos relacionamento e a prospectar novos ato-
res que poderiam contribuir para a comunidade.
Outro passo importante foi criar um cronograma de
atividades para a comunidade. Reconhecemos que as
98 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
comunidades de inovação regionais se tornaram híbri-
das após a pandemia. Assim, desenvolvemos dois tipos
de ações: sessões presenciais e atividades online. Isso
nos envolveu e também envolveu líderes que não estão
mais na região, mas que ainda desejam contribuir.
Durante todo esse processo, não perdemos de vista
os empreendedores da comunidade. Restabelecemos
relacionamentos, aprimoramos a comunicação nos
grupos e identificamos os perfis personalizados e os di-
ferentes níveis de desenvolvimento de cada um. Esse é
um processo contínuo, pois também buscamos fomen-
tar a criação de novas soluções. Atualmente, estamos
focados em realizar eventos para promover a criação
de startups e dar visibilidade às startups que já fazem
parte da nossa comunidade.
Essas ações demonstram o compromisso da lideran-
ça em fortalecer a comunidade de inovação e o ecossis-
tema, envolvendo todos os atores relevantes e apoiando
tanto os empreendedores existentes quanto a criação de
novos empreendimentos na região.
99 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
CAPÍTULO 2
RELACIONAMENTO
Brasil de milhões:
O tecido vivo
da inovação e
empreendedorismo
Karla Adoryan
Consultora Independente
São Paulo/SP
N
o vasto e diversificado cenário do Brasil, onde mi-
lhões de pessoas coexistem em uma tapeçaria de
culturas, fés, cores e maneiras de ser, a inovação
encontra um terreno fértil. As comunidades ancestrais
e as modernas comunidades de startups brasileiras não
apenas coexistem, mas também se entrelaçam, criando
um ecossistema vibrante que impulsiona o empreende-
dorismo e a criatividade.
As comunidades indígenas e tradicionais do Brasil
são exemplos vivos de inovação ancestral. Durante sé-
culos, essas comunidades têm praticado um profundo
respeito pelo meio ambiente, desenvolvendo tecnologias
sustentáveis e modos de vida que garantem a harmonia
entre o homem e a natureza. As práticas agrícolas dos
povos indígenas da Amazônia, como a criação de “terra
preta” através de compostagem avançada, demonstram
um conhecimento sofisticado que continua a surpreen-
der cientistas e agricultores modernos.
10 1 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Essas práticas não são apenas sustentáveis; elas
são também intrinsecamente inovadoras, refletindo
uma compreensão holística dos ecossistemas locais.
A inovação, para essas comunidades, não é um fim em
si, mas um meio de preservar a vida e a saúde coletiva.
A cada nova geração, a sabedoria é transmitida, adap-
tada e aprimorada, criando um legado vivo de conheci-
mento e resiliência.
No outro extremo do espectro, encontramos as comu-
nidades de startups brasileiras, que estão na vanguarda
da inovação e do empreendedorismo. Essas empresas,
muitas vezes lideradas por jovens visionários, desafiam
o status quo com novas tecnologias e modelos de negó-
cios. A diversidade cultural e social do Brasil serve como
um terreno fértil para ideias ousadas e criativas, resul-
tando em soluções que têm o potencial de transformar
indústrias inteiras.
Um exemplo notável é a ascensão das fintechs no
Brasil. Empresas como Nubank e PicPay têm revolucio-
nado o setor financeiro ao oferecer serviços bancários
acessíveis e inovadores, especialmente para aqueles que
tradicionalmente foram excluídos do sistema bancário
formal. Ao utilizar a tecnologia para simplificar e demo-
cratizar o acesso financeiro, essas startups não apenas
criam novos mercados, mas também empoderam mi-
lhões de brasileiros.
As práticas ancestrais e as abordagens modernas
comungam a verdadeira força da inovação no Brasil,
demonstrando sinergias e aprendizados. Startups têm
muito a aprender com as comunidades tradicionais,
especialmente no que diz respeito à sustentabilidade e
10 2 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
ao respeito pelo meio ambiente, e as comunidades an-
cestrais têm muito a ganhar com as novas tecnologias e
modelos de negócio trazidos pelas startups.
Imagine, por exemplo, uma startup que utiliza dro-
nes para monitorar e proteger florestas, empregando
tecnologias avançadas de sensoriamento remoto para
detectar desmatamento ilegal. Ao colaborar com comu-
nidades indígenas, que possuem um conhecimento ínti-
mo do terreno e das espécies locais, essa startup pode
criar uma solução mais eficaz e culturalmente sensível
para a preservação ambiental. Essa colaboração não só
protege a floresta, mas também gera empregos e renda
para as comunidades locais, criando um ciclo virtuoso
de inovação e sustentabilidade.
10 3 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
O Brasil é feito de diversidade, de contrastes e identida-
des, tendo uma vantagem competitiva em suas múltiplas
formas de ver e criar soluções para problemas complexos.
Cada região possui suas próprias tradições e formas de vi-
ver, e nessa riqueza cultural reside uma fonte inesgotável
de inspiração e inovação. Desde a culinária única até as
festas coloridas, cada aspecto da vida brasileira oferece
lições de criatividade e adaptabilidade.
A natureza colaborativa do povo brasileiro, visível
tanto nas comunidades ancestrais quanto nas comu-
nidades de startups, fomenta um espírito de unidade e
apoio mútuo, essencial para o sucesso no mundo em-
preendedor.
A fé e a espiritualidade também desempenham um
papel crucial. Para muitas comunidades, a fé é uma fon-
te de força e resiliência, ajudando a enfrentar desafios
e a buscar novas oportunidades. Essa espiritualidade
pode ser vista como uma forma de inovação social, onde
a crença no futuro e a esperança se transformam em
ações concretas para melhorar a vida das pessoas.
10 4 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Neste Brasil de milhões, cada indivíduo, cada comu-
nidade e cada startup contribuem para um futuro mais
brilhante e próspero. A verdadeira inovação vem da união
de forças, da colaboração entre diferentes perspectivas e
da coragem de desafiar o convencional. Ao abraçar essa
diversidade e trabalhar juntos, estamos construindo
um Brasil onde a inovação não é apenas uma palavra da
moda, mas uma realidade viva que transforma vidas e
cria um legado duradouro para as futuras gerações.
10 5| eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Empreendedorismo:
uma das forças mais
transformadoras
da sociedade
Alexandre Frazão
Gerente de Contas na Endeavor Brasil
O
empreendedorismo é capaz de impulsionar a
economia, gerar empregos e fomentar a inova-
ção. No entanto, seu impacto vai além dos re-
sultados financeiros e econômicos imediatos. Antes de
alcançar o sucesso, o empreendedor já começa a gerar
transformações significativas, seja por meio de sua pró-
pria formação pessoal, do estímulo social ou da criação
de redes de colaboração. Esse fenômeno pode ser descri-
to como “o impacto antes do impacto” — um conjunto de
efeitos que ocorre antes de o empreendimento atingir
sua maturidade plena.
Desde o processo de aprendizado e tentativa até a
criação de oportunidades de trabalho e inovação, o im-
pacto do empreendedorismo se faz presente de maneira
precoce e muitas vezes invisível. Além disso, empreende-
dores servem como líderes e exemplos para suas comuni-
dades, inspirando outros a seguirem o mesmo caminho
e criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento e cola-
10 6 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
boração. Contudo, o crescimento do empreendedorismo
também enfrenta desafios estruturais, como a concen-
tração de oportunidades em determinadas regiões e a
falta de políticas públicas eficazes.
10 8 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
IMPACTO SOCIAL E ECONÔMICO INVOLUNTÁRIO
10 9 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
diretos. Essas novas contratações, por sua vez, movi-
mentam a economia local, uma vez que os salários pagos
são reinvestidos em outros negócios da comunidade em
um ciclo virtuoso de consumo e geração de renda. Além
disso, a presença de um novo empreendimento em uma
determinada região frequentemente desperta a necessi-
dade de qualificação profissional, levando mais pessoas
a buscarem aprimoramento de suas habilidades para
atender às demandas desse novo mercado. Esse processo
fomenta o desenvolvimento de mão de obra qualificada e
estimula o crescimento de setores educacionais voltados
para a formação técnica e profissional.
Outro aspecto importante desse impacto involun-
tário está na inovação. Empreendedores, ao introduzi-
rem novos produtos ou serviços, criam um efeito em
cadeia que incentiva a criação de soluções inovadoras
em outros setores. Ao atender a novas demandas ou re-
solver problemas não solucionados, os empreendedores
abrem espaço para que outros negócios surjam em tor-
no dessas inovações. Esse ciclo de inovação, por sua vez,
atrai o interesse de investidores, que enxergam nesses
negócios oportunidades de crescimento e expansão. As-
sim, o impacto inicial de um empreendimento não se
limita apenas ao seu sucesso financeiro, mas também à
capacidade de gerar novas oportunidades para outros
negócios e profissionais.
11 2 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
reside na forma como elas transformam mentalidades,
encorajam a inovação e incentivam a criação de novas
oportunidades em um ciclo contínuo de crescimento e
desenvolvimento.
11 5 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
com entidades como Sebrae, VALE e outras, a iniciativa
catalisou uma rede de apoio ao empreendedorismo que
continua a impulsionar a inovação na região. Esse pro-
grama é um exemplo claro de como o Estado pode ser um
agente facilitador no desenvolvimento de ecossistemas
regionais de inovação, criando condições para que mais
pessoas possam empreender e inovar.
O Estado também tem um papel crucial no incentivo
ao empreendedorismo. A criação de políticas fiscais favo-
ráveis, o apoio à educação empreendedora e o fomento a
projetos de inovação são apenas algumas das formas pelas
quais o governo pode atuar para impulsionar o surgimen-
to de novos negócios. Incentivos como linhas de crédito
acessíveis, isenções fiscais para startups e parcerias pú-
blico-privadas são essenciais para que empreendedores
tenham os recursos necessários para crescer e inovar.
No entanto, é preciso reconhecer que o Brasil ainda
enfrenta desafios na criação de um ambiente favorável
ao empreendedorismo. A burocracia excessiva e a alta
carga tributária são alguns dos obstáculos que limitam a
atuação de empreendedores, especialmente os de peque-
no porte. Em muitas situações, os custos operacionais se
tornam inviáveis, levando muitos negócios a encerrar
suas atividades precocemente. Portanto, há uma neces-
sidade urgente de reformas que simplifiquem o processo
de abertura e manutenção de empresas, permitindo que
mais empreendedores possam prosperar.
Apesar desses desafios, o impacto regulatório positi-
vo que o Estado pode gerar é inegável. Quando o governo
atua como facilitador, oferecendo suporte e segurança
jurídica, ele contribui diretamente para a criação de um
Parnaíba/PI
O
processo de desenvolvimento pode ser visto
como uma melhoria na qualidade de vida das
pessoas, refletindo em melhores condições de
produtividade e consequente um crescimento econô-
mico (DIAS e PLEIN, 2023). A forma como trabalhamos,
como nos relacionamos e como consumimos tem mu-
dado cada vez mais rápido, e o empreendedorismo tem
papel fundamental nisso. Promover arranjos locais que
estimulem ações na promoção de habilidades e compe-
tências empreendedoras é parte da construção de uma
transformação socioeconômica.
Os empreendedores não só acompanham essas trans-
formações sociais como também fazem parte [Link]
mesmo tempo em que trazem soluções e inovações para
os consumidores, também contribuem para a recupera-
ção da economia de um município por meio da geração de
empregos. Além disso, um negócio voltado para a socie-
dade gera inclusão social e torna a tecnologia ainda mais
CARNAÚBA VALLEY
1 21 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
cidade com o propósito comum de fomentar, comparti-
lhar e desenvolver soluções inovadoras.
O processo de criação de uma comunidade de star-
tups não deve ser mecânico e sim orgânico, ou seja, não
ser imposto, sim estimulado (DE MENEZES ARAGÃO et
al, 2022). Existe a necessidade de um diálogo entre os
atores locais, buscando a sensibilização, mobilização e
participação de todos criando uma sinergia que caminhe
positivamente para o desenvolvimento. Sendo este um
fenômeno humano, torna-se impossível desconsiderar,
portanto, os comportamentos individuais dos integran-
tes da comunidade. Passamos a compreender que aquele
aplicativo de fast food não é sobre comida. É sobre o Pe-
dro, que mora só, chega tarde do trabalho e nem sempre
tem tempo de ir ao supermercado ou de cozinhar.
Entendemos que se tecnologia, inovação e pessoas
não se encaixam umas às outras nas engrenagens da
marcha do desenvolvimento, o processo é falho. Que
havia em Parnaíba um punhado de mentes, percebendo
e absorvendo essas mudanças nos processos e abertas
às inovações tecnológicas. Essas mentes só precisavam
estar conectadas umas às outras.
O NASCIMENTO DA COMUNIDADE
1 24 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
empreendedora. As comunidades aparecem como uma
forma especial de redes informais de cooperação entre
indivíduos, ligados uns aos outros por um engajamento
mútuo, em atividades compartilhadas ao redor de um
mesmo interesse ou de uma paixão por um tema espe-
cífico, e que apresentam uma forte dimensão identitária
(CASTRO GONÇALVES et al., 2018). Todo o contexto de
ações emergentes geradas por legislações, associações,
instituições, empreendedores e investidores, favorecem
de alguma forma o fomento dos ecossistemas favoráveis
ao nascimento das startups (SENA et al., 2017).
Acontece que, para nós, da comunidade Carnaúba
Valley, a criação deste engajamento mútuo gerou bem
mais que apenas um ecossistema favorável para novos
negócios. O empreendedorismo tem sido reconhecido
como um fenômeno gerador de desenvolvimento eco-
nômico local, responsável pela redução nas taxas de
desemprego (NAKANO et al., 2022). Ainda, para estu-
dantes, acadêmicos e jovens profissionais, abriram-se
portas e perspectivas para novos horizontes no mercado
de trabalho, com possibilidade para mudanças sociais
significativas em suas bases familiares. Um dos instru-
mentos desse desenvolvimento local é a realização em
Parnaíba do Fórum de Tecnologia, Inovação e Ciências
do Piauí (FORTICs), evento único no Piauí, com o objetivo
de integrar a quádrupla hélice (academia, empresas e
instituições representativas, poder público e sociedade
civil), para que juntos possam debater e construir po-
líticas públicas de fortalecimento ao desenvolvimento
socioeconômico do Piauí, impulsionadas pela inovação,
ciência e tecnologia. É por meio dessas políticas que o
1 26 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Por meio da parceria com Sistema FIEPI/SENAI foi
possível contemplar jovens inseridos no contexto de em-
presas de tecnologia e instituições de pesquisa de Par-
naíba, no programa de gratuidade do curso de formação
técnica em Desenvolvimento Web Full Stack, com 670
horas. A primeira turma teve mais de 60 jovens profissio-
nais da cidade, buscando uma formação especializada,
valorização no mercado de trabalho e novos conheci-
mentos em diferentes linguagens, códigos e tecnologias.
Em nossa vida social, cada vez mais, os conheci-
mentos em relação ao arsenal tecnológico disponível
facilitam as nossas rotinas, sejam profissionais ou eco-
nômicas. Tal realidade indica uma exigência de novos
profissionais no mercado de tecnologia e a educação
precisa estar desafiada e conectada com esta realidade
(HENZEL RICHTER e CERUTTI, 2022). Uma outra vertente
de ação dentro da comunidade é o apoio ao Empreende-
dorismo Feminino. De acordo com a Junta Comercial do
Estado do Piauí, um total de 125.529 empresas piauienses
são constituídas apenas por mulheres, o que represen-
ta 47,20% do total de 265.897 empresas ativas no estado.
O projeto Café Delas: Mulheres Empreendedoras visa
apoiar o desenvolvimento de mulheres empreendedoras
e seus negócios, proporcionando encontros mensais de
formação e conhecimentos, muita troca de experiências
práticas e vivências na jornada empreendedora, além de
criar um ambiente propício para muita conexão.
Por compreender que a Carnaúba Valley é a resultado
da união de vários atores em prol dos mesmos objetivos,
passamos a realizar uma cerimônia anual de premiação
em reconhecimento aos atores do ecossistema. O objetivo
1 27 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
do Prêmio Carnaúba Valley é celebrar o trabalho de
instituições e pessoas que contribuíram ativamente
para o desenvolvimento dos negócios digitais, fomento
à inovação e a geração de emprego e renda na região
norte do Piauí. O modelo é baseado na maior premiação
do ecossistema nacional, o Startup Awards, entregando
13 troféus para cada uma das categorias definidas pelo
regulamento do Prêmio, distribuídas nos eixos Educação,
Comunicação, Negócios, Capital e Comunidade.
Ao considerarmos o desenvolvimento econômico, so-
cial e tecnológico em que se encontra o mundo na era do
conhecimento, o comportamento empreendedor tem se
destacado possibilitando a geração de novas sociedades
sustentadas no conhecimento e no valor agregado. Este
desenvolvimento empreendedor ligado ao crescimento
das cidades e à formação de conjuntos bem organizados
de regiões com mesma vocação e interesses comuns é
muito influenciado pela capacidade desenvolvida atra-
vés da união da quádrupla hélice, que aprendem a lidar
com mudanças estruturais e econômicas ao longo do
tempo, adaptando estratégias, criando novos nichos e
explorando fronteiras do conhecimento, da tecnologia
e da produção de soluções, que acabam beneficiando a
cidade novamente.
Desenvolver as ações e projetos dentro da comunida-
de Carnaúba Valley é bem mais do que apenas construir
um ambiente favorável ao nascimento de negócios (star-
tups). As pessoas voluntárias em volta da comunidade
compreenderam que o impacto gerado é direto no de-
senvolvimento socioeconômico na região norte do Piauí.
Os efeitos desta contribuição irradiam as demais regiões
REFERÊNCIAS
13 0| eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
CAPÍTULO 3
LIDERANÇA
Comunidades
de startups
& a geração
de talentos
profissionais
Amanda Barbosa
Empreendedora
Porto Velho/RO
T
odos sabemos que as comunidades de inovação
são agentes educacionais importantes em nos-
sas regiões. Elas promovem o conhecimento so-
bre inovação, empreendedorismo e nichos de mercado
que podem ser melhor explorados com o auxílio da tec-
nologia. Além disso, essas comunidades também incen-
tivam o crescimento e desenvolvimento de empresas
tradicionais por meio de soluções inovadoras.
Apesar desse impacto, pouco se fala sobre o papel
das comunidades no desenvolvimento de jovens talentos
profissionais. Segundo a Associação Brasileira de Star-
tups (ABStartups) em seu estudo mais recente, o perfil
das pessoas fundadoras de startups no Brasil é compos-
to por 72,2% de homens, com idade média de 40 anos e
especializações. Mas será que isso realmente representa
inovação nas comunidades que promovem a inovação,
ou seria apenas uma nova versão do empreendedorismo
tradicional no Brasil?
13 2 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Hoje, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geo-
grafia e Estatística (IBGE), quase 3,7 milhões de jovens
brasileiros estão sem trabalho. Entre as principais
razões para isso estão a falta de experiência e outras
diversas barreiras. Esse dado não é um reflexo recente
ou exclusivo do período pós-pandemia, já que, em 2021,
segundo pesquisa do Ministério da Economia, enquanto
a taxa geral de desemprego era de 14,7%, entre os jovens
esse número era de 31%.
Não é surpresa que a desigualdade social afeta con-
sideravelmente as oportunidades de emprego para os
jovens de baixa renda. Um exemplo disso é que, entre
os jovens que atualmente estão empregados no país,
as principais ocupações incluem: auxiliar de escritório,
assistente administrativo, repositor de mercadorias,
vendedor de varejo, embalador, almoxarife, operador de
caixa, atendente de lanchonete e ajustador mecânico.
Todas essas são profissões dignas, mas que geralmente
não oferecem um plano de carreira ou oportunidades de
crescimento profissional para esses jovens.
Os jovens precisam de oportunidades de trabalho
para auxiliar no sustento de suas famílias, mas será que
as comunidades de inovação e tecnologia não poderiam
unir essas duas questões, ajudando a desenvolver e ofe-
recer conhecimento e educação para esse público? Será
que o impacto social, ESG e diversidade, tão exigidos
em grandes corporações e startups mais consolidadas,
também não deveriam ser foco na composição de nos-
sas comunidades?
Assim como fizemos das comunidades um grande
meio de disseminação da cultura de empreendedorismo
13 3 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
e inovação, podemos utilizá-las para fomentar a forma-
ção de mão de obra qualificada para startups da própria
comunidade.
Existem diversos exemplos nacionais que já valida-
ram esse conceito. Jovens que ingressaram em comuni-
dades de inovação com o objetivo de empreender, mas
que, enquanto não estavam prontos, usaram o princípio
de Give First para ampliar seu network, aprimorar suas
soft skills e adquirir experiências para o currículo — o
que, como já mencionado, é uma das maiores barreiras
para o primeiro emprego dos jovens.
13 4 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
atrás apenas do desenvolvimento. De acordo com um
estudo da Brasscom (Associação das Empresas de Tec-
nologia da Informação e Comunicação), serão criados
no Brasil ao menos 797 mil postos de trabalho na área
de tecnologia até 2025. Nesse período, serão formados
apenas 267 mil profissionais, o que resultará em um
déficit de 530 mil vagas sem preenchimento. Esta é
uma área onde o requisito mais importante não é um
diploma, mas sim a capacidade de pensamento lógico e
de aprendizagem contínua. Isso reforça a tendência do
mercado em contratar profissionais de nível júnior, ou
seja, com menos experiência.
Outro aspecto que pode ser promovido nas comu-
nidades é o desenvolvimento de soft skills, que são
amplamente requisitadas para vagas em startups ou
empresas de tecnologia. Conhecimentos básicos em
metodologias ágeis, comunicação eficaz, autogerencia-
mento, relacionamento interpessoal, liderança, flexibi-
lidade, hands-on e gestão são grandes diferenciais no
currículo, e todas essas habilidades podem ser desen-
volvidas e aprimoradas por meio da participação em
comunidades de inovação.
O networking, uma ferramenta essencial para em-
preendedores, também pode ser um grande diferencial
para os jovens, uma vez que as comunidades de inovação
proporcionam oportunidades de interação por meio de
eventos e jornadas de aprendizado. Para esses jovens,
a comunidade oferece um ambiente propício para tro-
ca de ideias, conhecimento e experiências, muitas ve-
zes não abordadas em suas escolas ou universidades.
Além disso, esses jovens podem ter acesso a mentores e
13 5 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
empreendedores mais experientes, o que proporciona
uma aceleração não apenas profissional, mas também
uma compreensão mais profunda das demandas de em-
presas inovadoras e de tecnologia. Esse processo pode
resultar em uma evolução profissional muito mais rápi-
da do que seria possível em outros contextos.
Dessa maneira, ao fomentar a presença cada vez
maior de jovens que não buscam empreender, mas sim
se desenvolver e se tornarem intraempreendedores, es-
tamos provendo e solucionando um problema também
para nossos empreendedores; que muitas vezes podem
não estar contratando no momento, mas podem indicar
para uma pessoa que esteja em busca de um profissional
que seja alinhado com a sua cultura.
Por fim, temos um grande impacto social no desen-
volvimento de novas tecnologias, no avanço da cultura
empreendedora. E, temos, também, em nossas comu-
nidades, a possibilidade de ampliar e utilizar das ferra-
mentas que temos em mão para a transformação social,
aliando uma real necessidade do mercado com a real
necessidade da sociedade.
FONTES:
[Link]
ral/audio/2023-05/pesquisa-mostra-dificuldades-dos-jovens-
-em-acessar-mercado-de-trabalho
[Link]
-insercao-dos-jovens-no-mercado-de-trabalho/
13 6 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
[Link]
[Link]
[Link]
-sao-os-cargos-em-tecnologia-que-mais-crescerao-em-2023/
[Link]
-se-programacao-ainda-vale-a-pena-profissionais-contam-co-
[Link]
[Link]
turo-edtech-quer-ensinar-programacao-para-todos/
[Link]
me/em-meio-a-crise-startups-enfrentam-dificuldades-para-
-contratar-589y046jdi5v3j6zebnzycn0t/
Ana Uriarte
Co-Founder da Quark
Recife/PE
É
de conhecimento popular que o Brasil é um dos pa-
íses com maiores índices de desigualdade social no
mundo. Sabemos também que a educação e o tra-
balho digno são as principais ferramentas de transfor-
mação social, capazes de impactar não apenas a vida de
uma pessoa, mas, através dela, diversas gerações de uma
família. Considerando esse cenário, as comunidades de
startups, assim como outros agentes do ecossistema de
inovação, desempenham um papel crucial na inclusão
social de jovens que, de outra forma, enfrentariam obs-
táculos significativos em sua jornada rumo ao empreen-
dedorismo e à tecnologia.
Para ilustrar como as comunidades podem atuar
como agentes de transformação social, imagine um
jovem chamado Marcos, que cresceu em um bairro
com poucas oportunidades econômicas e educacio-
nais. Ele conhecia o mundo do empreendedorismo pela
televisão e pelo exemplo de seus pais, que tinham um
comércio, mas não tinha acesso a recursos, mentores
13 8 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
ou uma rede de contatos que pudesse introduzi-lo ao
universo do empreendedorismo e da tecnologia. No
entanto, Marcos tinha uma paixão por tecnologia e
uma grande vontade de transformar a própria vida e a
de sua família.
Por meio de um programa de capacitação em tecno-
logia oferecido por uma comunidade de startups local,
Marcos teve a oportunidade de aprender programação e
design de aplicativos. Ele encontrou mentores dispostos
a compartilhar conhecimento e experiência, além de in-
centivarem seu desenvolvimento profissional.
Ao frequentar eventos e encontros promovidos pela
comunidade, Marcos construiu relacionamentos valio-
sos com empreendedores, investidores e outros profissio-
nais. Essa rede de contatos o apresentou a possibilidades
que ele nunca teria conhecido de outra forma. Marcos
também descobriu as oportunidades de financiamento
disponíveis para empreendedores, o que lhe permitiu
lançar sua própria startup.
Assim como acontece com todos os empreendedo-
res, a jornada de Marcos não foi isenta de desafios. No
entanto, por meio de sua rede de mentores e de outros
empreendedores da comunidade, ele conseguiu supe-
rar essas barreiras. À medida que sua startup cresceu,
Marcos começou a empregar outros jovens de seu bairro,
oferecendo-lhes oportunidades semelhantes às que ele
próprio havia recebido.
Ao longo dos anos, a startup de Marcos se tornou um
sucesso, e ele pôde retribuir à comunidade que o ajudou a
prosperar. Investiu em programas de educação para jovens
de origens desfavorecidas, ofereceu estágios e empregos
13 9 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
em sua empresa e se tornou um modelo a ser seguido para
muitos outros jovens em situações semelhantes.
Esse exemplo fictício de Marcos reflete uma realidade
cada vez mais comum em comunidades que criam pro-
gramas de desenvolvimento gratuitos para a população.
Neste caso, as comunidades de startups desempenha-
ram um papel fundamental na inclusão social de Mar-
cos, proporcionando-lhe acesso à educação, mentoria,
networking e financiamento necessários para trilhar o
caminho do empreendedorismo e da tecnologia. Além
disso, essas comunidades permitiram que Marcos não
apenas transformasse sua própria vida, mas também
criasse oportunidades para outros jovens em contextos
sociais igualmente desafiadores, multiplicando seu im-
pacto por várias gerações.
Esse exemplo ilustra como as comunidades de star-
tups podem ser um poderoso catalisador de inclusão
social para jovens, capacitando-os a superar barreiras e
alcançar sucesso profissional e pessoal, independente-
mente de suas origens.
14 0 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
exige conhecimentos técnicos que não são comuns a
todos. Nesse contexto, as comunidades se tornam um
ambiente fértil para que empreendedores conheçam
novas possibilidades e pessoas que possam facilitar sua
jornada empreendedora.
Minha própria história empreendedora ilustra esse
conceito. Minha formação acadêmica é em Engenharia
Civil, mas desde criança me interesso por empreendedo-
rismo. Ainda na faculdade, percebi que gostaria de tra-
balhar com temas relacionados à inovação e tecnologia.
Em 2017, fui convidada para participar de um evento da
Manguezal, comunidade de startups de Recife, chamado
[Link]. A partir desse evento, me encantei com as
diversas possibilidades de inovação e geração de negó-
cios que o universo das startups oferece; no entanto,
concretizar essas possibilidades na minha realidade ain-
da parecia distante.
Com o tempo e a participação em diversos encon-
tros da Manguezal, percebi que as trajetórias empreen-
dedoras raramente são lineares e que é extremamente
comum que pessoas empreendam fora de suas áreas de
formação acadêmica. A partir daí, entendi que eu pode-
ria empreender em uma área pela qual sempre tive afi-
nidade: educação. Hoje, a Happen (minha edtech) é uma
das startups que compõem a Manguezal e o Porto Digi-
tal, parque tecnológico de Recife. Foi graças à Manguezal
que tive acesso a diversas oportunidades que me ajuda-
ram a chegar onde estou, como programas de formação,
editais de fomento e conexões com players relevantes do
mercado. É claro que, como em toda jornada empreende-
dora, parte do sucesso também se deve ao perfil dos fun-
Amanda Graciano
Economista executiva de inovação
Belo Horizonte/MG
L
iderar em um ecossistema de inovação é como
navegar em um mar em constante movimento.
Você precisa de foco, flexibilidade e, acima de tudo,
a capacidade de conectar pessoas de maneira genuína.
Quando comecei minha jornada como líder na comuni-
dade, tive diversos desafios e oportunidades, tanto como
Head de Startups no Cubo Itaú quanto como voluntária
em eventos como o Startup Weekend. Não tinha todas as
respostas. E talvez essa tenha sido a maior lição: lideran-
ça não é sobre ter todas as respostas, mas sobre ouvir,
conectar e empoderar aqueles ao seu redor.
Neste texto, compartilho estratégias e reflexões que
me ajudaram a construir uma liderança mais conec-
tada e eficaz. Espero que você, que está iniciando ou já
está inserido em um ecossistema de inovação, possa
encontrar aqui insights valiosos para trilhar sua pró-
pria jornada.
14 3 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
ESCUTAR PARA CONECTAR: O PRIMEIRO PASSO DA
LIDERANÇA
14 4 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Em vez de oferecer uma solução rápida, passei várias
horas ouvindo suas preocupações e ajudando a refor-
mular a estratégia de apresentação da empresa. No
fim, foi essa capacidade de escutar que abriu caminho
para ele ajustar sua abordagem e conseguir o investi-
mento necessário.
Do mesmo modo, em eventos como o Startup We-
ekend, em que a energia é intensa e o tempo é curto,
ouvir atentamente os participantes se tornou uma
ferramenta indispensável para ajudar as equipes a
encontrarem clareza em meio ao caos criativo. Nessas
54 horas de imersão, não basta dar ordens ou soluções
prontas. O verdadeiro valor está em ouvir o que cada
empreendedor está tentando construir e, a partir dessa
escuta, guiar de maneira que eles próprios descubram
suas melhores soluções.
Reflexão: Quantas vezes, na sua jornada, você parou
para ouvir profundamente os desafios e os sonhos da-
queles ao seu redor? Como a escuta ativa pode transfor-
mar seu papel de liderança?
14 6 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
TRANSPARÊNCIA: CONSTRUINDO CONFIANÇA NA
COMUNIDADE
14 8 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
E o mesmo aconteceu nos eventos voluntários, onde pre-
cisei confiar em outros organizadores para levar adiante
certas responsabilidades enquanto eu tirava um tempo
para descansar e recarregar as energias.
Reflexão: Você está conseguindo equilibrar sua vida
pessoal e profissional com suas responsabilidades na co-
munidade? Que mudanças você pode fazer para garantir
que está cuidando da sua saúde mental enquanto contri-
bui para o ecossistema?
1 51 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
CAPÍTULO 4
IMPACTO SOCIAL
Case Nasa
Internacional Space
Apps Challenge -
Coari e Tefé/AM
Wellington Marinho
Inovador Social e Novos Negócios na AM Business, Membro Angel
Investor Club e Founders Club
Manaus/AM
E
ste case tem por objetivo mostrar como se desen-
volve um projeto de inovação social. A inovação
social é um processo de inventar, garantir apoio e
implantar novas soluções para problemas e necessida-
des sociais (Stanford Social Innovation Review, 2003).
Originado no coração, após uma experiência transfor-
madora que tocou profundamente, despertando uma po-
derosa fonte de impacto social. Essa fonte se expandiria
na vida de jovens e outros profissionais espalhados pela
Amazônia brasileira, mas que buscam oportunidades
para mostrar seus talentos e potencialidades a quem os
desafie a expor suas competências.
SONHO, PROPÓSITO E FÉ
1 55 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
A CAPACITAÇÃO
OS DESAFIOS
1 57 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
equipe campeã mundial. E a Jussiane me conectou com
Daniel Takaki, que também tinha experiência com o pro-
cesso de candidatura e aprovação. Rafaela e Leka, Takaki
e Jussiane foram profissionais excepcionais, já se conhe-
ciam e atuavam juntos, fornecendo toda a orientação,
conexões e suporte para a construção do projeto de can-
didatura da cidade de Coari. Cabe mencionar também, os
apoios, conselhos e orientações de Akemi Shida, Andressa
Hattori, Olinda Marinho, Maria José Mamede, Maria Na-
thália Mendonça, Alexandre Mosquim, Anderson Diehl,
Bruno Marinho, Cleto Leal, Edson José de Souza, Franci-
mar Fonseca, Expedito Belmont, Jório Veiga, Júlio Castro,
Júnior Rodrigues, Sílvio Marques e Vitoriano Ferrero,
profissionais exemplares e ímpares no Brasil e no mundo.
Com o projeto de Coari pronto, surgiram inquieta-
ções: seria possível incluir a cidade de Tefé, a mais de
520 km de Manaus? Conhecia pessoas que poderiam me
colocar em contato com o secretário de Ciência, Tecno-
logia e Inovação do município para verificar a viabili-
dade. Afinal, como o evento seria on-line e inédito para
eles, bastaria replicar a organização e os ambientes
on-line. Contatei o secretário, que, após consulta ao pre-
feito, aprovou o apoio ao evento, reconhecendo o marco
e a oportunidade para a população local. Com a formali-
zação da parceria estratégica, o projeto de candidatura
da cidade de Tefé foi elaborado.
Os projetos das duas cidades foram submetidos com a
esperança de que, ao menos, uma fosse aprovada. Para mi-
nha surpresa, em 22 de julho de 2021, às 22h32 (horário de
Brasília), recebi o comunicado de aprovação para ambas
as cidades. Senti uma mistura de felicidade, gratidão e
também a consciência de que não conseguiria sozinho.
1 59 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
tores nacionais: Ana Beatriz Carneiro de Souza - AM; Cláu-
dia Menezes de Oliveira - AM; Daniel Rodrigo Andrade Leite
- AM; Diego Alexandre Batista Paz - SC; Donjorge Almeida -
BA; Geiciane de Jesus Ferraz Martins - AM; Glauco Soprano
Machado - AM; Ianca Caroline Nascimento Linhares - AM;
Ivan Santos do Reis - BA; Lucas Macedo Cavalcante - AM;
Matheus do Nascimento de Carvalho - RJ; Reinier Alex
de Oliveira Freitas - AM; Silas Vinícius Salles Nunes - GO;
Vinícius Bertotto - MT; Tainã Gomes Barbosa dos Santos
- BA. Mentores de Tefé: Antonione de Almeida Lima; David
Pedrozo Guimarães; Jessé Gama de Lima; Luzivaldo Castro
dos Santos Júnior; Naldo de Souza Oliveira.
Na cidade de Coari, infelizmente, não foi possível obter
o mesmo nível de suporte para os competidores.
A COMPETIÇÃO
16 0 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
devido a sérias dificuldades de conexão, o que impossibili-
tou a continuidade do trabalho. Já os times de Tefé perse-
veraram até o fim.
Um fato curioso sobre a conectividade de internet
nas cidades de Coari e Tefé: Coari é atendida por um cabo
óptico subfluvial que vem de Manaus, enquanto Tefé
ainda dependia, em grande parte, de conexão discada para
acessar a internet.
As equipes de Tefé se mostraram competitivas, porém
um tanto reticentes quanto ao recebimento de mentorias.
Foi necessário conscientizar os competidores sobre a im-
portância do apoio dos mentores, que eram profissionais
especialistas e voluntários, dispostos a auxiliar nas áreas
de atuação durante a competição. Esse processo chamou
a atenção da organização no início do evento e acabou
sendo decisivo para a determinação do time vencedor.
Observamos que os competidores com mais títulos
de formação eram os que mais resistiam às mentorias,
enquanto os que possuíam formação inicial ou básica
buscavam orientação constantemente, aproveitando ao
máximo o apoio dos mentores e realizando diversas ses-
sões de mentoria para ajustar seus projetos. Essa busca
por orientações e melhorias foi crucial para a escolha do
projeto vencedor, pois ele estava bem estruturado, vali-
dado e alinhado às regras da competição. A equipe tinha
sinergia e uma liderança feminina que surgiu natural-
mente durante o processo.
No total, tivemos quase 100 competidores nas duas
cidades. Uma curiosidade que nos chamou a atenção foi
a grande procura de jovens menores de idade, estudan-
tes de ensino médio e técnico, que queriam participar da
competição. No entanto, devido a restrições técnicas e re-
REFERÊNCIAS
Vitória/ES
P
repare-se para uma jornada instigante, repleta de
questionamentos que, paradoxalmente, nutrem
o conhecimento e capacitam a tomada de ações
concretas, impulsionando-o a ir além de seu propósito.
Em um mundo marcado por um crescimento po-
pulacional desenfreado, uma crise climática iminente,
conflitos que assolam nações inteiras e uma crescente
crise humanitária, surge a necessidade premente de dis-
cutirmos a inovação social como uma solução perspicaz.
Nossa conversa visa esclarecer que a inovação social
não se restringe à filantropia, às ONGs ou aos atos cari-
dosos. Embora essas iniciativas desempenhem um papel
crucial em seus domínios específicos, a inovação social
com impacto transformador transcende o imediatismo.
Ela é a construção de futuros no presente.
A inovação social compreende o desenvolvimento
de soluções inovadoras para problemas e necessidades
que permeiam toda a sociedade. Essas soluções podem se
manifestar não apenas em produtos ou tecnologias, mas
16 3 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
também em leis, processos, movimentos e na sinergia de
todos esses elementos.
De acordo com um estudo recente do Banco Mundial,
atingir a meta de erradicar a pobreza extrema até 2030 é
uma tarefa improvável sem taxas de crescimento econô-
mico que possam reverter o curso da história nesta dé-
cada. A pandemia de COVID-19, somada a conflitos como
a guerra na Ucrânia e na Faixa de Gaza, representam
ameaças que agravam essa situação.
O mais recente relatório do Banco Mundial, intitu-
lado “Pobreza e Prosperidade Compartilhada,” fornece
uma análise abrangente do cenário global da pobreza
após uma série de impactos econômicos imprevisíveis
nos últimos anos. O relatório estima que a pandemia em-
purrou aproximadamente 70 milhões de pessoas para a
pobreza extrema em 2020, o maior aumento anual desde
o início do monitoramento, em 1990. Isso levou cerca de
719 milhões de pessoas a viverem com menos de US$2,15
por dia no final de 2020.
Em entrevista, Claudia Priscila Gama abre a ma-
téria com a seguinte fala: “A fome no Brasil precede a
pandemia. As desigualdades absurdas já estavam aqui
bem antes do vírus. A cesta básica chega à quebrada,
e o limite da opressão se mantém. Somos alimentados
como vidas em cativeiro. O protagonismo segue distante
nessas ações, que mitigam a fome, mas não fomentam de
nenhuma forma a transformação das estruturas que são
o alicerce das desigualdades.”
A desigualdade de renda permanece como um desafio
significativo, com os 1% mais ricos detendo mais de 30%
da riqueza global em 2020, conforme destaca o Relatório
de Desenvolvimento Humano das Nações Unidas.
16 4 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Diante desse panorama, é evidente que a inovação e o
impacto social desempenham um papel fundamental em
todo o planeta. Precisamos realinhar nossa perspectiva
sobre o assunto, atribuindo-lhe a devida atenção e im-
portância. Ao fazê-lo, não apenas estaremos auxiliando o
próximo e o planeta, mas também construindo startups
lucrativas e valores que, unidos, formarão os alicerces de
uma sociedade mais próspera.
16 6 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
soluções sofisticadas que abordam desafios que afetam
toda a sociedade.
Além disso, a distinção entre empresários e empreen-
dedores sociais reside na motivação subjacente. Enquanto
os empresários são motivados pelo lucro, os empreende-
dores sociais buscam a criação de benefícios e a redução
de custos para a sociedade por meio de esforços para
atender às necessidades sociais e resolver problemas que
vão além dos benefícios puramente mercadológicos.
A inovação social, em conformidade com as palavras
de Priscila Gama, que busca “aumentar o tabuleiro e não
dividir o bolo” expande horizontes e cria soluções que
beneficiam a sociedade como um todo, em vez de dividir
recursos limitados. Apesar da falta de consenso entre
os pesquisadores sobre uma definição única e universal
para a inovação social, há um entendimento comparti-
lhado de que se trata de ações direcionadas para a re-
solução de problemas sociais, envolvendo a colaboração
entre o estado, a sociedade civil e empresas privadas, e
que visam transformar a realidade para enfrentar os
desafios societais.
16 8 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
climáticas e conservação da biodiversidade, pro-
movendo a inovação social por meio de tecnolo-
gias e práticas mais sustentáveis.
TEORIA DA MUDANÇA
TEORIA U
ECONOMIA DONUT
17 7 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
A abordagem da Economia Donut também reconhe-
ce que as medidas tradicionais de sucesso econômico,
como o PIB, são insuficientes para avaliar o verdadeiro
progresso humano e a saúde do planeta. Em vez disso,
ela propõe uma série de indicadores alternativos que
refletem o bem-estar, a igualdade, a sustentabilidade e a
resiliência das comunidades.
Em conjunto, a Teoria da Mudança, a Teoria U e a
Economia Donut fornecem uma estrutura sólida para
a concepção e execução de modelos de negócios sociais.
Essas abordagens não apenas direcionam os esforços
em direção a resultados mensuráveis, mas também
promovem a inovação, a colaboração e o impacto posi-
tivo, alinhando-se com os princípios do ESG e com os
ODS da ONU.
17 9 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
preciso colaborar com governos e partes interes-
sadas para simplificar regulamentações e acele-
rar processos. Isso pode exigir um lobby eficaz e
a advocacia para promover mudanças regulató-
rias favoráveis.
18 0 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
uma organização ou projeto. O SROI é frequente-
mente aplicado a iniciativas nos setores sem fins
lucrativos, em empresas sociais e em responsa-
bilidade social corporativa para medir o impacto
mais amplo de suas atividades além dos retornos
financeiros tradicionais.
18 2 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
sustentável e próspero. A inovação social tem o poder de
transformar nossa sociedade e deixar um legado dura-
douro de mudanças positivas para as gerações futuras.
REFERÊNCIAS
18 3| eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Case Conecta
Nordeste
Martonio Mendes
Analista de inovação na M. Dias Branco
Fortaleza/CE
C
riado em 2023, através da união entre players,
ambientes de inovação, comunidades empreende-
doras e líderes de comunidades de startups nor-
destinas, o Conecta Nordeste é um programa que nasceu
com o objetivo claro de impulsionar as startups da região.
No livro Comece Pelo Porquê, Simon Sinek apresenta
a importância de compreender o propósito de nossos
projetos e como isso pode direcionar ações estratégicas
e trazer resultados efetivos. “Quando temos um propó-
sito bem definido, estamos mais propensos a envolver
mais pessoas nos projetos, estabelecendo assim cone-
xões significativas.”
Assim, o Conecta Nordeste não é apenas um progra-
ma; é o início de uma jornada para a criação de uma rede
de apoio com o objetivo de impulsionar o crescimento
das startups nordestinas. Através da união dos atores
envolvidos no programa, foram iniciadas ações para
compartilhar com as startups conhecimento, estabele-
18 4 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
cendo conexões estratégicas e gerando oportunidades
para negócios promissores.
O programa começou a ser pensado em conversas
informais entre líderes de comunidades de startups
do Nordeste, em eventos onde eram compartilhadas
preocupações em relação aos programas disponíveis
na região. Observava-se também uma tendência de ini-
ciativas de fora do Nordeste, principalmente dos eixos
Sul e Sudeste, que, embora direcionadas ao público nor-
destino, muitas vezes ignoravam as particularidades da
região e de cada estado.
Essas ações externas não apenas ofuscaram inicia-
tivas locais já em curso, mas também, em muitos casos,
levaram empreendedores e negócios para fora da região,
diminuindo as oportunidades de crescimento e desenvol-
vimento local. Foi nesse contexto de insatisfação e percep-
ção das lacunas no ecossistema nordestino que nasceu a
ideia de criar uma rede de apoio e desenvolvimento nor-
destina, criada por nordestinos e voltada para as startups
da região. Assim, dessas conversas iniciais e da necessi-
dade de valorizar e potencializar o empreendedorismo
nordestino, surgiu o que mais tarde se tornaria a primei-
ra edição do Conecta Nordeste, um programa repleto de
insights, propósitos e impactos positivos para a região.
18 5 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
dos co-realizadores da iniciativa, iniciou um diálogo
com players e líderes de comunidade para compreen-
der o contexto atual dos nove estados nordestinos, seus
players, ambientes de inovação e a situação atual das
startups da região. A partir dessas conversas, foi co-cria-
do o Círculo Dourado do programa.
O porquê (Why), o centro do Conecta Nordeste, que
consiste em seu propósito fundamental, é apoiar o de-
senvolvimento das startups da região. Em um cenário
levantado nos diálogos realizados, onde já existiam di-
versos programas consolidados de ideação, validação e
aceleração para startups, foi identificada uma lacuna
nos programas de conexão e geração de negócios. Assim,
o Conecta Nordeste nasceu para preencher esse espaço,
oferecendo suporte e oportunidades de negócios para
que as startups nordestinas prosperem, além de fortale-
cer os programas existentes, oferecendo capacitações e
mentorias complementares.
Como (How), a segunda etapa do Círculo Dourado,
explora o “como” - como e qual a estratégia definida nas
conversas diferencia o programa dos demais. O Conecta
Nordeste busca realizar conexões e negócios através de
uma abordagem centrada na comunidade, promovendo
colaboração, aprendizado, networking e oportunidades
de negócios entre os empreendedores da região.
O que (What), na etapa mais externa do círculo, re-
presenta os produtos ou serviços específicos oferecidos
pelo programa. O Conecta Nordeste proporciona acesso
a conteúdos exclusivos, conexões estratégicas e valiosas
oportunidades de negócio para as startups nordestinas,
visando impulsionar seu crescimento e desenvolvimento
18 6 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
no mercado, preenchendo uma lacuna identificada pelos
players da região.
Assim, definindo o propósito, a estratégia e os produ-
tos e serviços ofertados pela iniciativa através da abor-
dagem do Círculo Dourado, estabelecemos como guia do
Conecta Nordeste a sua missão de fortalecer o ecossiste-
ma de startups da região, oferecendo não apenas recur-
sos tangíveis, mas também inspiração e propósito para
aqueles que participam do programa.
18 8 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
• Mentorias: sessões dedicadas a Marketing & Ven-
das, bem como a Investimentos.
18 9 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
foram discutidas oportunidades de parceria, realização
de provas de conceito (POCs) e até mesmo a formalização
de contratos.
Essa fase da jornada não apenas abriu portas para
novas colaborações e negócios, mas também evidenciou
o compromisso do programa em facilitar, promover e
acompanhar conexões estratégicas entre startups e
empresas, impulsionando o crescimento e a inovação no
ecossistema empreendedor do Nordeste.
ATORES ENVOLVIDOS
19 0 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
responsáveis por fornecer conteúdos, mentorias e co-
nexões entre empresas e investidores. As comunidades
de startups e seus líderes desempenharam um papel
essencial na divulgação e engajamento das startups em
cada estado, além de fornecer insights valiosos para en-
tender como melhor apoiá-las. As empresas, por sua vez,
participaram ativamente dos pitch days, desenvolvendo
relacionamentos com startups e gerando oportunidades
de negócios e colaborações significativas.
RESULTADOS
PARCERIA DE DESTAQUE
19 2 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
O impacto causado
pelas startups com
foco social
O
s Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
(ODS) são uma iniciativa da Organização das
Nações Unidas (ONU) que têm como principal
objetivo orientar as políticas nacionais e a cooperação
internacional em suas metas para a erradicação da po-
breza, proteção do planeta e garantia de que todas as
pessoas desfrutem de paz e prosperidade até 2030. São
17 objetivos com 169 metas relacionadas, que englobam
uma série de questões importantes para o desenvolvi-
mento sustentável, incluindo a erradicação da pobre-
za, segurança alimentar, agricultura, saúde, educação,
igualdade de gênero, água e saneamento, energia lim-
pa e sustentável, crescimento econômico sustentável,
infraestrutura, redução das desigualdades, cidades e
comunidades sustentáveis, padrões de produção e con-
sumo sustentáveis, mudanças climáticas, vida aquática,
vida terrestre, paz, justiça e instituições eficazes, além
de parcerias para as metas.
19 3 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Agora que compreendemos o que são os ODS, é im-
portante sabermos o que significa cada um desses 17
objetivos. Esses objetivos abrangem uma variedade de
questões globais, como a erradicação da pobreza, a luta
contra as mudanças climáticas e a promoção de uma
educação de qualidade para todos. Então, vamos aden-
trar em cada um desses 17 ODS.
19 9 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
OBJETIVO 11: CIDADES E COMUNIDADES SUSTENTÁVEIS
2 07 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
soluções práticas para fornecer acesso à água potável
para comunidades em todo o mundo que têm dificuldade
em obter esse recurso vital. Utilizando sistemas de puri-
ficação de água de ponta e programas de fornecimento
sustentável, a startup promove diretamente o ODS ao
abordar uma das maiores necessidades mundiais - água
potável segura e acessível para todos. Essas startups são
impulsionadas por uma visão transformadora que im-
pacta significativamente nosso planeta.
A adoção e incorporação dos ODS nas operações das
startups desempenham uma função vital para o pro-
gresso mundial. Seja promovendo a educação de qualida-
de, garantindo a saúde e o bem-estar, ou pavimentando
o caminho para cidades e comunidades sustentáveis,
essas startups estão virando a maré do futuro e condu-
zindo transformações positivas significativas. Elas estão
criando um impacto amplo e profundo na economia
global, na sociedade e no meio ambiente. Além disso, a
colaboração entre empresas e startups que se concen-
tram em diferentes ODS abre grandes oportunidades. Ao
se conectar e trabalhar em parceria, elas podem com-
binar suas especialidades e recursos para trabalhar em
soluções multifacetadas que atendam a múltiplos ODS
simultaneamente. Assim, a era das startups orientadas
para ODS é um catalisador oportuno para um mundo
mais sustentável e inclusivo.
Seguindo esse caminho, as startups que abraçam os
ODS apresentam um forte compromisso socioambiental,
aliando a busca pela lucratividade com a responsabili-
dade de oferecer soluções capazes de gerar impactos
sociais transformadores. Isso se reflete em práticas de
2 0 9| eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Desafios e
oportunidade
na integração de
tecnologias
Luiz Gomes
Fundador da Konekto
Recife/PE
H
á cerca de dez anos, fazia uma pausa no meio
da tarde, sentado na mesa de uma cafeteria no
térreo do Museu do Frevo, em frente à Praça
do Arsenal. Durante o Carnaval, essa praça se torna o
principal ponto de convergência dos blocos de frevo que
circulam pelas ruas do Recife Antigo. Enquanto tomava
um café, observei as pessoas caminhando pelas calçadas:
uma mistura curiosa de grupos de turistas que seguiam
seus guias e de indivíduos carregando mochilas cheias
de equipamentos tecnológicos.
Esse é um cenário comum hoje no bairro do Recife,
uma ilha conhecida por abrigar um dos principais polos
de tecnologia do país e por sua importância histórica
no desenvolvimento da cidade. Embora o bairro seja
agradável para circular durante o dia e agitado à noite,
é um espaço urbano que, por décadas, sofreu profundas
transformações, tentando sobreviver enquanto a cidade
se expandia, deixando para trás o que se tornava velho e
ultrapassado.
21 2 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
pessoas que desenvolvem tecnologia para assistência
aos serviços de saúde. Três galpões que por anos arma-
zenaram suprimentos hoje acomodam milhares de pro-
fissionais da Accenture, que, inclusive, construiu aqui
seu primeiro centro de inovação fora de São Paulo. Ou
ainda, um moinho e um conjunto de silos que, por anos,
armazenaram grãos e hoje fazem parte de um complexo
empresarial que abriga um dos escritórios do C.E.S.A.R.
(Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), a
primeira empresa instalada na ilha, dois anos antes da
criação do Porto Digital. Empresas como a Neurotech,
que surgiu como um projeto apoiado pelo C.E.S.A.R. no
início dos anos 2000 e recentemente foi adquirida pela
B3 por mais de R$1 bilhão, são exemplos do impacto des-
sas iniciativas.
Para discutir as grandes transformações no mer-
cado de tecnologia, precisamos fundamentar nossas
premissas na capacidade de uma cidade de transformar
seus territórios, e não apenas construir novos espaços.
O desejo de resgatar um bairro abandonado, reviver ce-
nários históricos importantes para a cidade e promover
a geração ativa e crescente de oportunidades para reter
e atrair talentos tecnológicos fizeram do bairro do Recife
um modelo a ser seguido. Centros históricos, ao contrá-
rio dos centros comerciais modernos, permitem maior
circulação de pessoas, aumentando encontros, conexões
e trocas de experiência.
Ao observarmos as ruas do bairro, percebemos uma
identidade própria, com suas formas, cores, sons e di-
nâmicas que misturam passado, presente e futuro. Essa
é a combinação que descobrimos para promover um
21 5 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
de uma comunidade aberta que torne as trocas de ex-
periência parte da rotina. Em Recife, a comunidade de
startups surgiu para promover a fácil interação entre
empreendedores, a partir de discussões sobre os apren-
dizados obtidos na jornada, sem a dependência de enti-
dades para mediar essas conversas.
A cidade do Recife tem um claro entendimento sobre
o ecossistema de inovação, baseado na presença de atores
distintos: das universidades às startups, do mercado tra-
dicional ao governo. Essa estrutura é o ponto de partida
para definir e executar planos e estratégias de desenvol-
vimento econômico a partir da inovação. Se estivermos
imersos nas dificuldades da cidade em que decidimos
empreender, devemos usar a força do nosso ecossistema
para criar pontes que ampliem nossa capacidade de resol-
ver problemas complexos, de qualquer lugar.
O que Recife tem de especial para conseguir liderar
uma transformação com esse impacto nacional? Acre-
dite, não se trata da praia de Boa Viagem ou do frevo na
Praça do Arsenal, mas da capacidade de integrar com-
petências distintas e alinhar objetivos estratégicos na
definição da visão de longo prazo para a cidade.
Se você está em um ecossistema fora do eixo e bus-
ca torná-lo relevante local e nacionalmente, deixo três
recomendações para reflexão, considerando as caracte-
rísticas da sua cidade:
Fábio Silva
Fundador da Mokambu
Cuiabá/MT
E
m um mundo em constante transformação, a
inovação se tornou um motor crucial para o
crescimento e a competitividade. A forma como
essa inovação se manifesta, no entanto, está evoluindo,
transformando-se e impactando cada vez mais nossas
vidas e negócios. Nesse contexto, emergem os ecos-
sistemas de inovação centrados em modelos amplos,
abertos, diversos e generalistas. Entretanto, nos últi-
mos anos, o olhar dos agentes de inovação nacionais e
regionais direcionou-se para a adaptação dos conceitos
de ecossistema de inovação às demandas específicas de
diferentes setores, dando origem a ecossistemas nicha-
dos e verticalizados.
Esses novos ecossistemas de inovação, com foco em
áreas específicas como saúde, energia ou, como veremos
neste artigo, o agro, caracterizam-se por uma sinergia
entre os diferentes atores: universidades e instituições
de pesquisa; startups, empresas e investidores; governos;
2 21 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
destaque para a produção de soja, café, açúcar, carne
bovina, aves, milho, algodão, hortaliças, legumes, leite e
tantos outros produtos oriundos da agricultura familiar.
Para o agro, há cases emblemáticos, marcos e uma
gama enorme de atores que, de alguma forma, contribu-
íram para que esse ecossistema de inovação emergente,
nichado e verticalizado, chegasse até aqui. Assim, esse
breve resgate histórico que pude vivenciar, contribuir e
observar dentro do ecossistema de inovação do agro res-
peitará os limites dos atores mais comuns de um ecos-
sistema de inovação - iniciativa privada; universidades e
pesquisas; governos; e a sociedade civil organizada - sem
seguir a ordem cronológica dos fatos.
Os atores da iniciativa privada, sejam ou não com
fins lucrativos, foram e continuam sendo a grande mola
propulsora desse ecossistema. Dito isso, é essencial co-
meçar pelo começo, destacando o primeiro Hackathon
de Agronegócio, realizado em Londrina, no Paraná, pela
Sociedade Rural Paranaense — que mais tarde originaria
a SRP Valley — e que despertou o olhar dos agentes de
inovação para esse setor que, até então, estava “esqueci-
do” no mundo da digitalização e da inovação tecnológica
com viés digital.
Praticamente ao mesmo tempo, outros polos agríco-
las lançaram ou estruturaram seus planos para atender
essa demanda de mercado, ajudando o agro a sair da base
da digitalização quando comparado a outros setores.
É nesse momento que se nota o surgimento de ambientes
de inovação nichados e verticalizados para essa deman-
da, destacando-se o Agtech Garage – atualmente batiza-
do de Agtech Innovation –, ou seja, um hub totalmente
2 24 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
os visionários que permitiram que a agricultura e a pe-
cuária brasileiras chegassem onde estão, possibilitando
que os produtores rurais dominassem a “arte” da agri-
cultura e pecuária tropicais. No âmbito da Embrapa,
deve-se dar ênfase ao Radar Agtech, isto é, o maior ma-
peamento das startups do agro brasileiro, considerado
o ponto de partida para aqueles que querem entender
os caminhos que a inovação tecnológica agro digital
está seguindo.
Ainda no contexto da Embrapa, cabe destacar o Ideas
For Milk, da Embrapa Gado de Leite, que desafia empre-
endedores, especialistas de negócio, entusiastas, makers
e desenvolvedores a pensar soluções para o setor lácteo.
Recentemente, houve um movimento interessante
da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios
(APTA) com a criação do AptaHub, que visa fomentar o
ecossistema de inovação do agro e apoiar os Institutos
de Ciência e Tecnologia (ICTs) da APTA a se conectarem
com o ecossistema de inovação agro e com os demais
atores pertencentes a ele.
Pensar o desenvolvimento tecnológico sem conside-
rar o governo, em suas três instâncias, é um “tiro no pé”.
Da mesma forma, o governo, quando inserido e atuante
dentro do ecossistema de inovação, tem o papel de criar
um ambiente propício para que as inovações surjam e
se desenvolvam. É, inclusive, papel do governo promo-
ver ações de fomento para pesquisa e desenvolvimento,
promovendo inovação no final. Aqui, destaco o papel das
Fundações de Amparo à Pesquisa de todas as unidades
da federação, pois é por meio delas que se vê a operacio-
nalização do programa Centelha, do programa TECNOVA
2 26 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
bovina, dada a vocação da cidade, considerada a capital
nacional do gado Zebu.
Outras comunidades voluntárias podem não levar
o agro no nome, mas, por estarem em regiões com vo-
cações agrícolas, colaboram e estimulam o surgimento
de soluções para o setor. É o caso da Digoreste Startups,
que atua na baixada cuiabana, em Mato Grosso, ou então
da Tambaqui Valley, a comunidade de startups de Ron-
dônia. Em ambos os casos há uma influência direta nas
soluções destinadas ao agro. Em Mato Grosso, por exem-
plo, de 2016 para 2023, o número de agtechs aumentou de
menos de 10 para mais de 60, impulsionado por múltiplos
fatores, inclusive pela contribuição da comunidade, que
estava aberta e disseminava conteúdos sobre o tema,
como o Agrotalks.
Além das comunidades abertas e voluntárias com
foco no agro, há outras fechadas que pertencem a ini-
ciativas privadas. Um exemplo disso é a Agtech Commu-
nity from AgriHub, a comunidade de startups do hub de
inovação. Há também a comunidade agro do Cubo, do
Distrito e de tantas outras iniciativas que enxergaram
o potencial de estimular e recepcionar agtechs em seus
ambientes de inovação.
Como se procurou mostrar neste capítulo, o fato de
ser nichado e verticalizado permite uma imersão pro-
funda nos desafios e oportunidades de cada setor, im-
pulsionando o desenvolvimento de soluções inovadoras
altamente eficazes e aderentes aos problemas reais do
público de interesse.
A especialização traz consigo vantagens e desafios
específicos. Por um lado, a concentração de esforços
2 27 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
em um nicho permite um acesso mais eficiente a re-
cursos específicos, como pesquisadores, investidores,
tecnologias e atores com expertise comprovada no de-
senvolvimento de soluções focadas. Por outro, os ecos-
sistemas nichados enfrentam a necessidade de conexões
mais amplas com outros setores, para garantir a com-
plementaridade das soluções.
Vale destacar que superar as barreiras regulatórias
específicas de cada nicho também exige um esforço con-
junto entre os atores do ecossistema, com uma articula-
ção e orquestramento amplos, dinâmicos e verdadeiros
em prol do ecossistema de inovação agro.
Por fim, é notório que, Brasil afora, os ecossistemas
de inovação verticalizados e nichados em diferentes se-
tores explicitam a potência desse modelo de colaboração
que, em minha visão, é o único que pode trazer benefícios
reais a todas as partes interessadas. Afinal, como dizem
lá por Recife: “quando o mangue desce, ele desce para to-
dos; mas, quando sobe, todos são impactados também”.
2 2 8| eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
Carta aberta
à cada um que fez
o Programa ALE
Olivia Boretti Karla Adoryan
Empreendedora Consultora Independente
Q
uando os brasileiros se unem e constroem re-
lacionamentos autênticos, a mágica acontece.
Uma comunidade existe para que mais mágica
aconteça, especialmente quando falamos do Progra-
ma ALE, uma iniciativa desenvolvida e promovida pela
Ambev no Brasil.
A verdadeira inovação surge quando as pessoas
sentem que pertencem, que suas vozes são ouvidas e
suas contribuições valorizadas. O Programa ALE tem
sido um espaço onde cada indivíduo, independente-
mente de sua trajetória, encontra esse sentimento de
pertencimento.
É mais do que um simples programa; é uma família
em crescimento. Trata-se de trabalhar com brasileiros
reais, cada um com sua história, raízes, sonhos e aspi-
rações únicas. Os brasileiros são belos por serem calo-
rosos, amigáveis, inovadores, apaixonados e resilientes,
e a comunidade do Programa ALE é tão rica e diversa
quanto nossa nação.
2 31 | eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
SOBRE LÍDERES E APRENDIZADOS, UM BRINDE AO ALE
2 3 6| eco s s i s t e m a s d e i n ovaç ão
1ª Edição Dezembro 2024
Papel de miolo Offset 90 g/m²
Papel de capa Supremo 250 g/m²
Tipografia Brava Slab
Open Sans
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