CAPÍTULO 1
SISTEMAS DE ESGOTOS
1.1. INTRODUÇÃO
As referências relativas a esgotamento sanitário consideram a Cloaca Máxima
de Roma, construída no século 6 antes de Cristo como o primeiro sistema de esgoto
planejado e implantado no mundo. A Cloaca Máxima recebia parte dos esgotos
domésticos das áreas adjacentes ao fórum Romano e propiciava a drenagem super-
ficial de uma área bem maior, essencial para o controle da malária.
Ao longo do tempo, o crescimento das comunidades, particularmente na Ingla-
terra e no continente europeu levou a uma situação em que a disposição dos excretas
das populações se tornou impraticável. Isto levou ao uso de privadas onde os excretas
se acumulavam. Esta solução apresentava problemas de odores indesejáveis e tam-
bém criou sérios problemas de disposição dos excretas acumulados nessas priva-
das.
Estruturas similares aos drenos Romanos eram utilizados na Europa medieval,
porém, o lançamento de excretas humanos nesses condutos era terminantemente
proibido. Como resultado, os excretas eram dispostos nas ruas, até que a próxima
chuva, ou lavagem das ruas os levasse para os condutos de drenagem pluvial e os
descarregassem no curso de água mais próximo.
Embora a privada com descarga hídrica tivesse sido inventada em 1596, por Sir
John Harington, o seu uso generalizado demorou bastante a ocorrer. O uso de
privadas com descarga hídrica, associada à produção industrial de tubulações de
ferro fundido, agravaram os problemas de disposição dos esgotos e, juntamente
com as epidemias ocorridas no século 19, foram fatores fundamentais para que a
coleta e o afastamento de esgotos domésticos merecessem a adequada atenção das
autoridades.
Seguindo a prática Romana, os primeiros sistemas de esgotos, tanto na Europa
como nos Estados Unidos foram construídos para coleta e transporte de águas
pluviais. Foi somente em 1915 que se autorizou, em Londres, o lançamento de
efluentes domésticos nas galerias de águas pluviais e, em 1847 tornou-se compulsó-
rio o lançamento de todas as águas residuárias das habitações nas galerias públicas
de Londres (Azevedo Netto, et al. 1983). O sistema de galerias de Londres, cons-
truido sem planejamento, apresentou sérios problemas operacionais e em 1855 se
iniciou o desenvolvimento de um sistema coletor de esgotos adequado para a cidade.
2 COLETA E TRANSPORTE DE ESGOTO SANITÁRIO
Um dos mais significativos avanços em projeto e construção de sistema de
esgotos se deu em 1842, em Hamburgo, na Alemanha. Após um incêndio que
destruiu parte da cidade, pela primeira vez um novo sistema de coleta e transporte
de esgotos (pluvial mais doméstico) foi projetado de acordo com as modernas
teorias da época.
Esses sistemas de esgotos, recebendo contribuições pluviais, domésticas e even-
tualmente industriais, denominados depois de sistema unitário de esgotamento, fo-
ram rapidamente sendo implantados em cidades importantes destacando-se Boston
(1833), Rio de Janeiro (1857), Paris (1880), Bueno Aires, Viena etc.
O sistema de esgotamento unitário foi desenvolvido e teve bom desempenho,
em regiões frias e subtropicais, com baixo índice de pluviosidade, atendendo cida-
des com ruas pavimentadas e com bom nível econômico, que permitia assegurar
recursos financeiros importantes para obras públicas. Para implantação na cidade
do Rio de Janeiro, que tinha limitações de recursos financeiros, muitas áreas não
pavimentadas, casas ocupando grandes lotes, com áreas e pátios internos de difícil
esgotamento pluvial e particularmente com chuvas de alta intensidade, os ingleses
se viram obrigados a implantar um sistema de esgotos mais econômico, fazendo
modificações em relação ao sistema de esgotamento unitário tradicional.
De acordo com Azevedo Netto et al (1983) o sistema implantado no Rio de
Janeiro, que foi posteriormente designado do Separador Parcial recebia e condu-
zia as águas de chuva precipitadas no interior dos prédios, em áreas pavimentadas,
além de esgotos domésticos.
Em 1879, nos estados Unidos, o Eng. George Waring foi contratado para proje-
tar o sistema de esgotos de Memphis e, após concluir que o sistema de esgotamen-
to sanitário teria um custo de implantação muito elevado para as condições locais,
propôs que as águas residuárias urbanas fossem coletadas e transportadas em um
sistema totalmente separado daquele destinado às águas pluviais. Este sistema de
esgotos veio a ser denominado de separador absoluto e permitia o esgotamento das
águas residuárias, com vazões bem menores, resultando em obras de menor porte e
consequentemente de menor custo, resolvendo o problema mais grave de sanea-
mento da cidade.
O sucesso do sistema separador absoluto de esgotos foi amplamente reconheci-
do e muitos dos sistemas implantados a partir de então foram desse tipo.
1.2. TIPOS DE SISTEMAS DE ESGOTOS
Conforme apresentado anteriormente, os sistemas de esgotos urbanos podem
ser de três tipos:
a) Sistema de esgotamento unitário, ou sistema combinado, em que as águas
residuárias (domésticas e industriais), águas de infiltração (água de subsolo
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que penetra no sistema através de tubulações e órgãos acessórios) e águas
pluviais veiculam por um único sistema.
b) Sistema de esgotamento separador parcial, em que uma parcela das águas de
chuva, provenientes de telhados e pátios das economias são encaminhadas
juntamente com as águas residuárias e águas de infiltração do subsolo para
um único sistema de coleta e transporte dos esgotos.
c) Sistema separador absoluto, em que as águas residuárias (domésticas e in-
dustriais) e as águas de infiltração (água do subsolo que penetra através das
tubulações e órgãos acessórios), que constituem o esgoto sanitário, veiculam
em um sistema independente, denominado sistema de esgoto sanitário. As
águas pluviais são coletadas e transportadas em um sistema de drenagem
pluvial totalmente independente.
No Brasil, basicamente utiliza-se o sistema separador absoluto e este livro trata
exclusivamente do sistema de coleta e transporte de esgoto sanitário.
Os principais aspectos que levaram à predominância da construção de sistemas
de esgoto sanitário, são os que se seguem. (Azevedo Netto et al, 1983):
No sistema unitário, ou combinado a mistura de águas residuárias com as plu-
viais prejudica e onera consideravelmente o tratamento de esgotos. Torna-se neces-
sária a construção de grandes sedimentadores para uma grande parte do caudal que
deixa de sofrer a depuração biológica, enquanto que a outra parcela submetida ao
tratamento secundário se apresenta com variados graus de diluição, o que é prejudi-
cial.
Além desse aspecto há outros fatores relativos ao sistema combinado que de-
vem ser considerados:
· O sistema exige desde o início investimentos elevados, devido às grandes
dimensões dos condutos e das obras complementares;
· A aplicação dos recursos precisa ser feita de maneira mais concentrada,
reduzindo a flexibilidade de execução programada por sistema;
· As galerias de águas pluviais, que em nossas cidades são executadas em 50%
ou menos das vias públicas, terão de ser construídas em todos os logradouros;
· O sistema não funciona bem em vias públicas não pavimentadas, que se
apresentam com elevada freqüência em nossas cidades;
· As obras são de execução mais difícil e mais demorada.
4 COLETA E TRANSPORTE DE ESGOTO SANITÁRIO
O sistema separador absoluto, ao contrário, oferece reconhecidas vantagens;
· Custa menos, pelo fato de empregar tubos mais baratos, de fabricação indus-
trial (manilhas, tubos de PVC etc.);
· Oferece mais flexibilidade para a execução por etapas, de acordo com as
prioridades (prioridade maior para a rede sanitária);
· Reduz consideravelmente o custo do afastamento das água pluviais, pelo
fato de permitir o seu lançamento no curso de água mais próximo, sem a
necessidade de tratamento;
· Não se condiciona e nem obriga a pavimentação das vias públicas;
· Reduz muito a extensão das canalizações de grande diâmetro em uma cida-
de, pelo fato de não exigir a construção de galerias em todas as ruas;
· Não prejudica a depuração dos esgotos sanitários.
Por outro lado, para o sucesso do sistema de esgoto sanitário implantado é
necessário um eficiente controle para se evitar que a água pluvial, principalmente
proveniente dos telhados e pátios das economias esgotadas, sejam encaminhadas,
junto com as águas residuárias, para esse sistema de esgoto.
Tem-se notado que, em grande parte das cidades brasileiras, tal controle não
existe.
1.3. SITUAÇÃO DO ESGOTAMENTO SANITÁRIO NO BRASIL
O Brasil, com população total de cerca de 160 milhões de habitantes apresenta
um imenso deficit de atendimento no que refere ao esgotamento sanitário. Estima-
se que, já ao final do século 20, pouco mais de 30% da população seja atendida por
sistema de coleta e afastamento de esgoto, sendo que menos de 10% da população
tem esgoto tratado.
No Estado de São Paulo, o mais bem servido por sistemas de esgoto sanitário
do país, cerca de 65% de sua população é atendida por redes coletoras de esgotos.
Esses números indicam que muitas obras de coleta e transporte de esgotos
deverão ser construídas no país, para a melhoria de qualidade de vida de sua popu-
lação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AZEVEDO NETO, J.M.; BOTELHO, M.H.C.; GARCIA, M. A Evolução dos Sistemas
de Esgotos Engenharia Sanitária, vol. 22, nº 2, p. 226 - 228 - 1983.
FUHRMAN, R.E. History of Water Pollution Control. JWPCF, vol.56, nº4, p. 306
313, 1984.
METCALF & EDDY, INC. Wastewater Engineering: Colletion and Pumping of
Wastewater. McGrawHill Book Company, New York, 1981.