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Salvando Leonardo: Resistência ao Secularismo

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SALVANDO

LEONARDO
DIREITOS AUTORAIS
SALVANDO
LEONARDO
Um Chamado para Resistir ao Ataque Secular a
Mente, Moral e Significado

NANCY PEARCEY
Autora de Verdade Total: Libertando o Cristianismo de Seu Cativeiro Cultural

NASHVILLE, TENNESSEE
Leonardo da Vinci

Daí a angústia e a tragédia mais íntima


deste homem universal,
dividido entre seus mundos inconciliáveis.

(Giovanni Gentile, “O Pensamento de Leonardo”)


ÍNDICE

INTRODUÇÃO: Por que os americanos odeiam política................................................................1

PARTE 1 A Ameaça do Secularismo Global

CAPÍTULO 1 Você é uma vítima fácil?....................................................................................7


Secularismo furtivo — Surpreendido pela CBS — Elites se tornam globais — Da Vinci na Big Apple
Marcha no Departamento de Inglês — Cooptando a Cultura Cristã — Quando em Roma,
Conquiste a Decodificação de Visões de Mundo — Perguntas que as Crianças Fazem — Além de
Bolas de Tinta e Chantilly O que a Mídia Ignora — Revertendo o Secularismo — Onde a Ação
Está

CAPÍTULO 2 Verdade e Tirania........................................................................................23


Vítimas Fáceis — Espiritualidade em Secularville — Resistindo a Roma — Hamlet e
Harry Potter Relativistas para Jesus — Cristãos são Intolerantes? — Expulsando a Bíblia
da Sala de Aula Protegendo as Crianças da Religião — Policial Bom/Policial Ruim —
Fariseus Seculares

O Cristianismo é Exclusivo? — C. S. Lewis: Nem Todos Podemos Estar Certos — Por que as Igrejas Liberais
Falham Tolerância Opressiva — A Mão de Ferro — O Slogan de Sócrates — Alcançando os Secularistas

v
vi Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

CAPÍTULO 3 Sexo, Mentiras e Secularismo...............................................................................47

Odeie o Teu Próximo—Morte por Dualismo—Fantasma na Máquina—Desencantando


a Natureza Dividindo o Adão—Pró-Aborto É Anti-Ciência—A Bíblia e o Corpo
Alvejando Terri—Plantação de Embriões—Darwinstein—Inferno Humanista—O Que a NPR Não
Consegue Lidar Conectando-se, Sentindo-se Para Baixo—Quando Adultos Ajudam e Incitam—
Alienação PoMoSexual Corpos Importam—Metafisicamente Perdido—A Juventude Alienada da
Igreja

PARTE 2 Dois Caminhos para o Secularismo

CAPÍTULO 4 Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo.............................................................73


A Magia de Amahl—Beleza Desprezada como uma Besta—Artistas como Pensadores

Nova Maneira de “Ler” Arte—Dois Caminhos para o Secularismo—Exorcizando


o Fantasma da Máquina A Revolta Romântica—Separados, mas Desiguais—O
Eu Soberano Zen e o Colapso da Filosofia—Quem Possui a Verdade? Arte sob
Assédio—Estratégias de Sobrevivência dos Artistas—Liberdade Cristã

CAPÍTULO 5 Beleza nos Olhos da Máquina (A Herança do Iluminismo)................101


A Crise de John Stuart Mill—Estrelas da Ciência—Ode a uma Máquina Giratória
A Rejeição do Empirismo—O Artista Mostre-Me—Escritura e Dados Sensoriais
Camponeses e Banjos—Encontrando Deus na Natureza—A Visão de Mundo dos
Impressionistas

Da Vinci versus Degas—Doe a Discórdia—Arte por Ninguém—A Reação Racionalista


Galileu versus Aristóteles—O Caso de Newton para Deus—Roubando Newton
A Lição Racionalista de Picasso—Máquina Descendo uma Escada—Matem-
Artistas Pilha de Tijolos—Museu de Arte de Tom Wolfe—Schoenberg
Compõe por Números Música como Matemática—Busca pela
Infalibilidade Secular—Substitutos de Deus Música de Campo de
Concentração

CAPÍTULO 6 Arte Vermelha em Dentes e Garras (A Herança do Iluminismo).........................137


O Deus de Jack London—Scarlett Johansson sobre Evolução—Aristóteles Ganha um
Prêmio Nobel Sem Deus das Lacunas—A Natureza Desagradável de Darwin—
Explodindo a Religião em Pedaços—A Zoologia de Zola Por Que o Ateísmo É Chato
—Raciocínio Falho—Realismo Cristão—Jane Eyre e a Bíblia O Que Envergonhou
Hemingway—Duchamp Joga na Nossa Cara
Tirando Deus da Natureza—Queimadores de Livros Liberais—Abandonando
as Grandes Questões—Edifícios Cubistas—Bastilha de Bauhaus
Arte ABC—Pintura É Apenas Tinta—Perda de Transcendência—Senso
Comum Cristão Minimalismo Sagrado—“Vendo” Visões de Mundo
Índice vii

C APÍTULO 7 Romanceando a Tela (A Herança Romântica)........................................167


Seduzido pela Máquina—A Mente como Prisioneira—A Árvore da Morte de Blake
A Natureza como a Linguagem de Deus—A Estratégia dos “Dois Universos”—Metafísica em Mente
Como Artistas se Tornaram Profetas—A Arte como Salvador—Desespero Romântico—Espíritos e Feitiços

Platão e a Ciência Moderna—A Religião Estrelada de Van Gogh—Sinceridade über Alles


Trauma da Guerra—A Arte Clama por Espírito—Pintores e Panteístas—Muito antes de Darwin
Hegel e a Bíblia de Recorte e Colagem—Evolução Espiritual—Importando Buda
A Espiritualidade de Kandinsky—Nuvem do Desconhecimento—John Cage e Zen

O Deus Fracassado de Rothko—Fujimura e Bomer—Tolkien e C. S. Lewis

CAPÍTULO 8 Fuga do Niilismo (A Herança Romântica)...........................................203


Monges e Bestas—A Salvação de Salvador—Klee em Jogo—Os Forasteiros Dentro

Sartre e o Silêncio—Condenado a ser Pollock –- Sem Alfa ou Ômega—Fuga da Razão


Sexo, Drogas e D. H. Lawrence—Arte de Abraçar Árvores—Ciência Pós-Moderna
Sai da Frente, Euclides—Além de Einstein—Perdendo a Fé na Física—A
Queda do Átomo—Da Profecia à Paródia
Morte do Autor—Lyotard e Campos de Morte—Sem Metanarrativas
Visuais Politizando a Sala de Aula—Marxismo Vai à Igreja—As Fontes de
Duas Culturas de Schaeffer—Os Cegos e o Elefante—Bestas ou Lunáticos

CAPÍTULO 9 Visão de Mundo nos Filmes..............................................................................237


Adolescentes e Jeans—Quebrando as Regras da Casa de Cidra—Pulp e outras Ficções

Camus Vai ao Cinema—Zen Maluco—Ethan Hawke Sonha—Woody Allen


Faz de Novo Sete Pecados Capitais—Zumbis Humanos—Elvis e o
Significado da Vida Visão de Mundo para Nossa Geração

EPÍLOGO: Escola Bach de Apologética...........................................................................255

O Quinto Evangelho—Arregace as Mangas—Missionários em Casa—


Junk Food Espiritual Re-Moralizando a Cultura—Explorando o “Talento”
—O Dogma É o Drama A Igreja como Obra de Arte—Pós-Conservadores

AGRADECIMENTOS NOTAS LISTA DE ILUSTRAÇÕES


........................................................................................... XXX
INTRODUÇÃO

Por que os americanos odeiam política

Durante a campanha presidencial de 2008, surgiu uma tendência preocupante —


uma que sinaliza uma crise muito maior do que a política. As pesquisas revelaram
que muitos jovens se sentem alienados do processo político. Eles se desiludiram
com um estilo de debate político que parece estridente, duro e insolúvel.
É claro que pessoas de todas as épocas reclamaram que a política é manchada pela corrupção e
negociação de bastidores. Mas a desilusão de hoje é mais profunda. É o fruto trágico de
uma visão de mundo secular, que desvinculou a política da moralidade. Ao reconhecer
como isso aconteceu, podemos lançar uma nova luz sobre o impacto destrutivo do
secularismo em toda a vida. A política é um microcosmo que concentra as forças em
ação em todo o resto da sociedade.
Uma abordagem secular à política primeiro se enraizou nas universidades, o berço onde o mundo-
as visões são plantadas e nutridas. Como explica William Galston, da Brookings Institution, na
era moderna, os estudiosos decidiram que o estudo da política deve ser “científico” — pelo qual
eles queriam dizer livre de valores. Como consequência, a teoria política não era mais animada
por uma visão moral.
Tornou-se puramente pragmático.

Isso representou um afastamento radical da herança dos fundadores americanos. No


nascimento de nossa nação, a política era considerada uma empresa profundamente moral — a
busca de ideais morais como justiça, equidade e o bem comum. James Madison, principal autor
da Constituição dos EUA, disse que o objetivo do governo era garantir “o bem público”. Como um
recente

1
2 Nancy Pearcey | Saving Leonardo

article explains, the founders assumed that “government is not simply about securing individual
rights and interests but some more substantial and transcendent good.”2
But today, after decades of treating politics as value free, many political scientists reject the
very concept of a transcendent good.
How did such a dramatic reversal occur? Through much of the twentieth century, American
academia was dominated by the philosophy of empiricism, the doctrine that all knowledge is
derived from the senses—what we see, hear, touch, and feel. Even moral statements were reduced
to feelings. According to empiricism, we call things good when they give us pleasure. We call
them bad when they cause pain.
Thus was born the fact/value split, the idea that humans can have genuine knowledge only
in the realm of empirical facts. Morality was reduced to subjective preferences. Whatever the
individual happens to value.
This was a turning crucial point in the American mind. For if values are subjective, then
they have no place in the university where we pursue objective research. In every field of study,
knowledge claims were surgically separated from moral claims. Political thinkers decided that
statements about the public good were nothing but masks for private taste. As Galston explains,
they concluded that saying X is in the public interest was merely a covert way of saying I like X.
Today we are reaping the bitter harvest of that cynicism. For when moral convictions are
reduced to arbitrary preferences, then they can no longer be debated rationally. Persuasion gives
way to propaganda. Politics becomes little more than marketing. Political operators resort to
emotional manipulation, using slick rhetoric and advertising techniques to bypass people’s minds
and “hook” their feelings. Sound familiar?
Finally nothing is left but sheer force. Economist Lionel Robbins voiced the view of most
social scientists: When we disagree over values, he said, “it is a case of thy blood or mine.”3
No wonder American voters are disillusioned. In a book called Why Americans Hate Politics,
E. J. Dionne says, “Americans hate politics as it is now practiced because we have lost all sense
of the public good.”4 Without the conviction that there exists an objective good, public debate
disintegrates into a cacophony of warring voices.
The disillusionment is so widespread that a book came out in Britain with nearly the same
title: Why We Hate Politics. “Politicians are assumed today not to be selfless representatives of
those who elected them, or benevolent guardians of the public good,” the author says. How
could they be, if there is no public good? “They are, instead, self-serving and self-interested ratio-
nal utility-maximizers,” advancing only those policies that benefit themselves.5 Secular political
philosophies inevitably end in sheer pragmatism and utilitarianism.
Because the word secular is the opposite of religious, many people assume that secularism is
a problem for religious groups only. Not so. When politics loses its moral dimension, we all lose.
When political discourse is debased, the entire society suffers. The reason Christians should be
Por que os americanos odeiam política 3

preocupado não é proteger sua própria subcultura, mas proteger o processo


democrático para todas as pessoas.
As mesmas forças seculares exerceram um impacto destrutivo em todas as áreas da vida. No seguin-

Nos capítulos seguintes, você aprenderá a reconhecer e resistir a ideias seculares em


ciência, filosofia, ética, artes e humanidades. Examinaremos os conceitos e eventos,
os pensadores e artistas que lideraram o caminho passo a passo na criação de visões
de mundo que minam a dignidade e a liberdade humanas. E demonstraremos que a
única esperança reside em uma visão de mundo que seja racionalmente defensável,
afirmativa da vida e enraizada na própria criação. Como diz a Declaração de
Independência, os direitos humanos são inalienáveis apenas quando uma sociedade
os considera como dotados pelo Criador. Quando os americanos recuperarem uma
mensagem de liberdade, justiça e bem público, os jovens idealistas não terão mais
motivos para odiar a política.

Parte Um: A Ameaça do Secularismo Global


O livro está dividido em duas partes. A primeira parte descreve a crescente ameaça do internacional
secularismo e como ele afeta a todos nós. Os sociólogos nos informam que o secularismo está se
tornando global, irradiando-se dos centros urbanos em todos os continentes. É uma visão de
mundo monolítica com a qual todos devemos nos envolver, não importa onde vivamos ou
trabalhemos. O Capítulo 1 pergunta: Estamos à altura da tarefa?
O Capítulo 2 enfoca o conceito central do secularismo moderno: a polarização de
fatos de valores. Isso afeta muito mais do que a política, chegando ao conceito de verdade em si. O
A divisão fato/valor foi um tema importante em meu livro anterior Total Truth. Mas o capítulo 2 leva o conceito

em novas áreas, mostrando que não é apenas uma visão da verdade, mas também uma
estratégia para ganhar poder - e, finalmente, para impor o controle político. Aqueles que
não reconhecerem essa estratégia central continuarão a perder terreno cultural e
pessoalmente. E a sociedade como um todo continuará a sofrer. As ideologias seculares
pregam a liberdade, mas praticam a tirania.
O dualismo fato/valor é apenas a ponta do iceberg, no entanto. O Capítulo 3 amplia a lente para
revelar sua conexão com questões controversas que ameaçam a dignidade da própria
vida humana - aborto, eutanásia, engenharia genética e a destruição de embriões
humanos. Essas práticas se baseiam em uma visão dualista do ser humano: na ciência,
os humanos são vistos como nada além de mecanismos bioquímicos complexos (o
reino dos fatos), enquanto na ética, o indivíduo é tratado como um eu autônomo,
fazendo escolhas infundadas (o reino dos valores). O mesmo dualismo impulsiona
práticas sexuais como homossexualidade, transgênero e "ficar". Este capítulo oferece
as ferramentas conceituais de que você precisa para responder às questões éticas de
ponta de hoje.

Parte Dois: Dois Caminhos para o Secularismo


As ideias são muito mais fáceis de entender, no entanto, se subirmos para uma visão panorâmica para ver como elas

desenvolveram-se ao longo do tempo. A segunda parte amplia ainda mais a lente para traçar a ascensão histórica
do secularismo. Praticamente todas as visões de mundo modernas se agrupam em dois grandes grupos, originários
do choque entre
4 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

o Iluminismo e o movimento Romântico. Mais uma vez, encontramos o mesmo


dualismo: O Iluminismo focou no reino dos fatos; o Romantismo buscou proteger o
reino dos valores. Podemos pensar neles como dois caminhos para o secularismo.
Ao traçar esses caminhos paralelos que correm lado a lado ao longo da história
moderna, obteremos novas e surpreendentes percepções sobre as visões de
mundo que moldam nosso mundo hoje.
O Capítulo 4 começa com um curso intensivo sobre como detectar visões de mundo nas artes e na cultura.

O estereótipo comum é que a arte é meramente uma questão de expressão pessoal. Mas a
verdade é que os artistas interagem profundamente com o pensamento de seu tempo. Eles
traduzem visões de mundo em histórias e imagens, criando uma linguagem pictórica que
as pessoas frequentemente absorvem sem sequer pensar sobre isso. Aprender a “ler” essa
linguagem é uma habilidade crucial para entender as forças que estão alterando
dramaticamente nosso mundo. Este capítulo termina com uma visão geral dos dois
caminhos para o secularismo, preparando-nos para explorá-los em detalhes nos capítulos
restantes.
Os capítulos 5 e 6 exploram um caminho para o secularismo—o conjunto de visões de mundo que são desdobramentos

do Iluminismo. Você provavelmente se lembra de termos como Iluminismo das aulas de história do ensino médio-

ria. Você pode até ter estudado visões de mundo como empirismo, racionalismo,
naturalismo e materialismo. Mas agora essas visões de mundo ganham vida ao vê-
las expressas artisticamente em estilos como Impressionismo, Cubismo e aquelas
estruturas metálicas angulares que surgiram em nossas cidades sob a rubrica de
“arte pública”. Escritores e romancistas também desempenharam um papel,
criando histórias que retratam os humanos como organismos darwinianos na luta
pela existência. Ao percorrer esses capítulos, você “verá” as visões de mundo se
desdobrarem diante de seus olhos através da pintura, poesia e romances.
Normalmente pensamos nos artistas como Românticos, então os capítulos 7 e 8 se voltam para visões de mundo enraizadas no

Romantismo. Este caminho para o secularismo nos leva através de algumas das visões de
mundo mais controversas de nosso tempo—existencialismo, marxismo, pós-
modernismo, desconstrucionismo, espiritualidade da Nova Era. Artistas e escritores
tornam essas visões de mundo tangíveis, ajudando-nos a experimentá-las “por dentro”,
em estilos como Expressionismo, Surrealismo e Abstração. Imagens e histórias trazem as
ideias à vida de uma forma que uma discussão puramente abstrata nunca poderia fazer.
O Capítulo 9 identifica as visões de mundo à medida que elas se filtram para a cultura popular, onde têm massa

impacto. Esta é a área que mais preocupa os pais, é claro. Eles estão ansiosos para
encontrar maneiras de equipar a si mesmos e a seus filhos para combater o impacto
destrutivo das doutrinas seculares transmitidas através da música e dos filmes. Este
capítulo oferece dicas e ferramentas para criticar os temas de visão de mundo pregados
por Hollywood.
O Epílogo oferece uma visão inspiradora de como cada indivíduo pode se tornar uma cultura-

influência modeladora. Os mais qualificados para entender as artes são aqueles


que genuinamente as amam, e que estão se esforçando para tecer suas
próprias vidas em uma obra de arte que atraia outros para a beleza da verdade.
Parte 1

A Ameaça do Secularismo Global


Capítulo Um

“Através da arte, podemos conhecer a visão do universo de outra pessoa.”

—Marcel Proust

Você é um alvo fácil?

Hank, o Cão Boiadeiro, é uma história engraçada e caseira para crianças. Ou era, até que as forças do político

correto se apoderaram dela. O autor infantil John Erickson criou um personagem


canino com uma arrogância cômica de durão, o “Chefe de Segurança do Rancho”
que vive em um rancho de gado no oeste do Texas. Ao longo dos anos, passei a
conhecer Hank como um velho amigo porque meu filho Michael é um aprendiz
auditivo, o que me levou às prateleiras da biblioteca em busca de livros em fita que
o agradassem.
As histórias de Hank, com seu humor piegas e tom machista simulado, provaram ser perfeitas.

Michael passava horas ouvindo fitas de Erickson contando histórias sobre Hank e
seus encontros com um elenco caricaturado de criaturas — um ajudante de
cauda curta chamado Drover, um clã de coiotes indelicados e um casal de
urubus caipiras. A ação se concentra em um rancho familiar de propriedade de
High Loper e sua esposa Sally May, com seu filho Little Alfred. Trabalhando para
eles está um peão de rancho que mora na estrada, um cowboy solteiro chamado
Slim Chance (modelado no próprio Erickson em seus anos mais jovens).

Secularismo Furtivo
A história rural caseira provou ser inaceitável, no entanto, para os executivos de televisão da cidade grande.

Vários anos atrás, a CBS selecionou Hank, o Cão Boiadeiro, para seu programa “Storybreak”, uma série de vídeos baseada

em livros infantis para ir ao ar durante os desenhos animados de sábado de manhã. Inicialmente, Erickson se sentiu honrado.

7
8 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Quando o vídeo foi transmitido pela primeira vez, toda a sua cidade
natal de Perryton, Texas, fez uma celebração para seu autor local.
Mas quando Erickson se sentou com duzentos estudantes para
assistir ao vídeo, ele notou que a história soava falsa em vários
pontos. Para começar, High Loper e Sally May não eram mais casados.
Em vez disso, Sally May havia sido promovida a chefe do rancho.
Loper havia sido rebaixado a um peão de rancho que trabalhava para

ela, junto com Slim. Na verdade, todos os três adultos


viviam juntos em uma espécie de alojamento.
O que aconteceu com a casa da família? E por falar nisso, o que
1-1 John Erickson
Hank, o Cão Cowdog aconteceu com a família? O pequeno Alfred desapareceu completamente.
Impondo uma ideologia secular
Aparentemente, uma criança era um incômodo indesejado na versão da CBS do
rancho. Eu disse rancho? Não, o rancho de gado havia sido convertido em uma granja de galinhas. E a
localização não era mais o oeste do Texas, mas o Arizona, tendo como pano de fundo cactos saguaro.

Erickson ficou perplexo com as mudanças drásticas. “No início, pensei que alguém tivesse cometido um engano”,

ele me disse. “Então percebi que, em um nível tão alto de profissionalismo, as pessoas não cometem
erros. As mudanças tinham que ser intencionais.” Ele estava certo. Mas levou vários anos para Erickson
descobrir qual era essa intenção.
Quando ele começou a ler livros sobre a cosmovisão cristã, finalmente percebeu o que tinha acontecido:

Ele havia sido pego no fogo cruzado de cosmovisões conflitantes. Sua pequena história engraçada tinha
sido subvertida pelas forças do politicamente correto. Casamento? Uma armadilha para mulheres. Família? Uma

instituição social antiquada e opressiva. Filhos? Uma barreira para as aspirações de carreira das mulheres.

Rancho de gado? Um flagelo para o meio ambiente. Então, um roteiro revisado foi rabiscado
no qual Sally May foi transformada de esposa de rancheiro em chefe de rancho, dando ordens aos contratados

em vez de criar o pequeno Alfred.


“Eles tiraram a família da minha história!” Erickson ficou chocado quando a implicação afundou
em. “Eles removeram todos os vestígios do tipo de vida familiar que havia sido uma fonte de força para
mim, meus pais, meus avós e tão longe quanto pudemos rastrear nossa história familiar.” E por
qual razão? “Porque alguém da rede decidiu usar um desenho animado de sábado de manhã
—e meu livro Hank—como uma plataforma para sua própria ideologia.”

Surpreendido pela CBS


Histórias e imagens podem ser meios poderosos para transmitir ideias. Cada vez que lemos um livro ou

assistimos a um filme, entramos em uma expressão imaginativa da cosmovisão do artista.


Pode estar presente sutilmente como uma crença de fundo ou expressa abertamente
como uma agenda intencional. Mas está lá. Escritores e artistas não vão para casa à noite
e estudam filosofia sistemática. No entanto, são pessoas inteiras que trazem suas
suposições básicas sobre a vida para o estudo ou o estúdio. “Histórias oferecem
Você é uma presa fácil? 9

dando sentido aos 'fatos' da vida”, escreve Robert K. Johnston em Reel Spirituality. Eles sempre “têm
2
uma visão informadora, ou visão de mundo, embutida neles.”
Quando os produtores da CBS impuseram sua visão de mundo politicamente correta sobre o Hank vídeo,
eles não pediram permissão a Erickson. Eles nem sequer o notificaram. Ele foi simplesmente
pego de surpresa. “Estou envergonhado por ter demorado tanto para reconhecer o que
aconteceu”, disse Erickson para mim. “Eu não gosto de ser chicoteado. Eu era uma presa fácil
porque não sabia que estava em uma luta.”
E você? Você sabe que está em uma luta? As visões de mundo não vêm bem rotuladas.
Elas não pedem permissão antes de invadir nosso espaço mental. Você tem as
ferramentas para detectar as ideias que competem por sua lealdade em filmes, livros
didáticos escolares, noticiários e até desenhos animados de sábado de manhã? Você
está equipado para ensinar seus filhos, alunos e colegas a reconhecer as visões de
mundo mais poderosas de nossa época?
Ou você é uma “presa fácil”? Se sim, seu trabalho e realizações podem muito bem ser cooptados
e redirecionados por outros com sua própria agenda ideológica para impor, como Hank foi. E você
nem saberá como aconteceu.

O Secularismo se Torna Global


Entre as visões de mundo que competem na sociedade pluralista da América, há uma que todos nós
encontramos de alguma forma. Tornou-se quase universal, cruzando fronteiras étnicas, raciais e
nacionais. Os sociólogos a descrevem como um secularismo global emergente. “Há, sem dúvida,
uma cultura de elite globalizada”, escreve o sociólogo Peter Berger, “uma subcultura
internacional composta por pessoas com ensino superior do tipo ocidental.”

Eles tendem a se reunir em grandes áreas metropolitanas, de modo que as


elites na cidade de Nova York têm essencialmente a mesma mentalidade
secular que seus homólogos em Londres, Tóquio e São Paulo.
Essas elites urbanas exercem poder muito além de seus números. Como Berger escreve,

“Eles controlam as instituições que fornecem as definições ‘oficiais’ da realidade”, como direito, educação,
mídia de massa, academia e publicidade. Em suma, eles são os porteiros da sociedade. Qualquer pessoa

com o poder de controlar as definições “‘oficiais’ da realidade” está em posição


de impor sua própria visão de mundo privada em toda uma sociedade.
Como consequência, o secularismo global é uma visão de mundo internacional com a qual todos precisamos nos envolver,

não importa onde vivamos ou trabalhemos. O cientista político Benjamin Barber o


apelidou de “McWorld”, uma cultura global homogênea dominada por McDonalds,
Macintosh e MTV. “Mercados comuns exigem uma linguagem comum”, explica ele, “e
produzem comportamentos comuns do tipo gerado pela vida cosmopolita da cidade em
todos os lugares.”
Esse estilo de vida cosmopolita se espalha para pequenas cidades e áreas rurais através da televisão,
publicidade, música, filmes e moda. Os jovens são os mais propensos a serem atraídos. Hoje, os
adolescentes em pequenas cidades geralmente têm mais em comum com os adolescentes em
grandes cidades do que com seus próprios pais, pastores e professores. Nas palavras de Timothy
Keller, pastor da Redeemer
10 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Igreja Presbiteriana na cidade de Nova York, “É o conjunto de cultura/valores das cidades de classe
mundial que agora está sendo transmitido ao redor do globo para cada língua, tribo, povo e nação.”

O que isso significa em termos práticos? Significa que “crianças em Iowa ou mesmo no México estão se tornando

mais parecidas com jovens adultos em Los Angeles e na cidade de Nova York do que com adultos em seus próprios
locais.” A implicação preocupante é que os adultos nesses locais devem se atualizar sobre a cultura metropolitana
da cidade grande

se quiserem se comunicar com seus próprios filhos.


O objetivo deste livro é equipá-lo para detectar, decifrar e derrotar o secularismo monolítico
que está se espalhando rapidamente e impondo seus valores à sua família e cidade
natal. Traçaremos seu desenvolvimento histórico e analisaremos seu impacto em
algumas das questões mais controversas de nossos dias. Como é propagado através
da “educação superior do tipo ocidental” (frase de Berger), a melhor maneira de lidar
com isso é perguntar o que as universidades estão ensinando. O que é ensinado no
departamento de ciências, no departamento de filosofia e no departamento de arte
molda a “definição oficial da realidade” de uma sociedade. Com o tempo, ele se infiltra
no tribunal, na sala de aula da escola pública e no estúdio de produção de Hollywood.
Basta perguntar a John Erickson.

Da Vinci na Big Apple


Descobri em primeira mão como a cultura urbana global se infiltra quando dividi um táxi com um
jovem casal solteiro em Manhattan. Eles eram nova-iorquinos por excelência. Ele era um gerente
financeiro e judeu. Ela era advogada e asiática. A princípio, ela agiu de forma distante e
profissional, digitando mensagens para clientes em seu palm pilot enquanto o táxi avançava no
trânsito. Eventualmente, no entanto,
iniciamos uma conversa e, quando ela soube que eu estava em Nova
York para ensinar em um programa cristão de verão (World Journalism
Institute), ela imediatamente passou para a ofensiva.
“O que você acha de O Código Da Vinci de Dan Brown? O Código Da Vinci ?

já tinha sido lançado há cerca de um ano.) “Todos os meus amigos estão perdendo a fé por causa de

esse livro. E você?”


Decidi deixar os detalhes de lado e atacar a principal alegação do livro—
que a Bíblia é historicamente não confiável. Acima das buzinas estrondosas do trânsito de Nova York

City, expliquei que o Novo Testamento pode ser testado exatamente


1-2 Dan Brown O
Código Da Vinci pelos mesmos métodos que os estudiosos usam para testar qualquer outro documento antigo.
Ficção como crítica bíblica
Por exemplo, os historiadores podem comparar manuscritos em diferentes idiomas

de todo o mundo mediterrâneo—Egito, Síria, Turquia, Grécia—para ver o quão amplamente os


textos divergem uns dos outros. Se as variações forem pequenas, então os textos foram
copiados com precisão e a versão que temos hoje é próxima da original. E é exatamente isso que
os historiadores encontram.

Consequentemente, eles conseguiram reconstruir o texto original com cerca


de 99,5% de precisão. Não há evidências de que os textos do Novo Testamento
foram adulterados ou que material lendário foi adicionado posteriormente.
Você é um alvo fácil? 11

O jovem advogado estava intrigado. Então, há a idade dos textos, continuei. Temos quatro...
mil fragmentos do Novo Testamento, muitos deles datando de meras décadas após ele
ter sido escrito pela primeira vez. Compare isso com outros textos antigos. Temos apenas cerca de dez cópias de César

Guerras Gálicas, e a mais antiga é de cerca de mil anos depois de ter sido escrita pela primeira vez. Com Platão

e Aristóteles, temos ainda menos cópias, e a diferença de tempo é ainda maior. No entanto, ninguém duvida

da autenticidade dos escritores clássicos. Pelos padrões objetivos normais de erudição histórica,
6
o texto do Novo Testamento é incrivelmente preciso. Não há nada igual no mundo antigo.
E os Evangelhos Gnósticos? No romance, Dan Brown afirma que os Evangelhos Gnósticos
dão um relato anterior (e, portanto, mais autêntico) da vida de Jesus, uma visão que se tornou amplamente
popular. Mas historiadores profissionais dizem que os Evangelhos Gnósticos foram escritos cerca de um século depois

do Novo Testamento, não antes.


Continuamos conversando durante todo o caminho até o aeroporto. Quando chegamos, quarenta e cinco minutos

depois, a jovem havia abandonado sua persona de Advogada da Cidade Grande e estava me agradecendo calorosamente.

Ela confidenciou que havia sido criada em uma igreja, mas nunca tinha ouvido o cristianismo ser defendido por

razões e evidências.
Quando saí do táxi, me ocorreu que nossa conversa havia sido desencadeada por um romance,
uma obra de ficção. Mas isso deveria ser surpreendente? Afinal, onde a maioria das pessoas luta com as
grandes questões da vida - sobre Deus, moralidade e o sentido da vida? As visões de mundo mais influentes de hoje

nascem nas universidades, mas tocam todos nós através dos livros que lemos,
da música que ouvimos e dos filmes que assistimos. As ideias penetram em nossas mentes mais profundamente quando

comunicadas através da linguagem imaginativa de imagem, história e símbolo. É crucial para


os cristãos aprenderem a “ler” essa linguagem e a identificar as visões de mundo transmitidas através de
formas culturais.
Um comentarista de rádio evangélico certa vez aconselhou seu público a pegar O Código Da Vinci

e “jogá-lo fora!” Mas colocar vendas não é a maneira de desenvolver o pensamento crítico. Nem
é a maneira de mostrar amor e compaixão pelos milhões de pessoas que foram influenciadas por
o livro, e que precisam de respostas para suas falsas alegações. Artistas e escritores são os mais importantes

condutores de visões de mundo. Como escreveu o filósofo William Barrett, uma era se vê “no
espelho de sua arte.” Qualquer um que queira “entender os tempos e saber o que fazer”
(1 Crôn. 12:32) deve aprender a interpretar as imagens naquele espelho.

Marcha no Departamento de Inglês


No entanto, esse comentarista de rádio estava expressando uma visão muito comum na igreja. As artes

são frequentemente descartadas pelos cristãos como mero entretenimento, uma atividade de lazer. Não
há questões mais urgentes que exigem nossa atenção - como o que está acontecendo na Casa Branca?

As pessoas seculares sabem melhor. Considere uma frase muito citada de Todd Gitlin, ex-presidente
da Students for a Democratic Society (SDS). Após os protestos estudantis da década de 1960, Gitlin disse, o
12 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

A esquerda começou a “marchar sobre o Departamento de Inglês enquanto a


direita tomava a Casa Branca”. Hoje devemos nos perguntar: Qual foi a estratégia
mais eficaz? Os radicais da década de 1960 que evitaram o alistamento com
adiamentos estudantis subiram pelas universidades, tornaram-se professores e
inculcaram suas ideias radicais nas mentes de gerações de jovens – ideias que
moldam a forma como eles votam agora.
Isso explica por que os cristãos e outros conservadores morais continuam a perder terreno culturalmente,

apesar de um enorme aumento no ativismo político nas últimas décadas. O sociólogo James Davison Hunter,
autor de Culture Wars, diz que os evangélicos se tornaram adeptos em mobilizar dinheiro e mão de obra para

atingir objetivos políticos. Mas eles ignoraram um fato crucial: que as elites seculares da América já haviam
alcançado um consenso intelectual sobre a legitimidade de coisas como aborto e direitos homossexuais “muito
9
antes de qualquer tipo de legislação ou decisão judicial que ratificasse esse consenso.”
Em suma, o que veio primeiro foi uma mudança na visão de mundo. As ideias nascem, são nutridas e desenvolvidas

nas universidades muito antes de entrarem no palco político.


Isso é mais verdade hoje do que nunca, porque a própria política é dominada pela Ivy League.
Durante a maior parte da história da América, a nação teve uma reputação de ser
pragmática, não ideológica – focada em construir engenhocas e ganhar dinheiro.
Como Calvin Coolidge disse famosamente na década de 1920, “O negócio da
América é negócio”. Muitos dos presidentes da nação foram heróis militares.
Apesar de exceções como o Brain Trust de Franklin Roosevelt, os intelectuais não
estiveram no centro do poder político.
Isso mudou com a eleição de Barack Obama em 2008. Newsweek deu as boas-vindas à sua presidência
anunciando: “Os cérebros estão de volta”. O New Scientist o saudou como “o presidente intelectual”,

“um ex-acadêmico que está profundamente familiarizado com o mundo do pensamento”. De fato, toda a
administração Obama é preenchida com graduados de universidades da Ivy League. Um artigo do New York Times

10
os apelidou de “Achievetrons”, listando a principal universidade de onde cada um se formou.
O que isso significa é que a força controladora na política não é mais o negócio, mas a ideologia.
Aqueles que marcharam sobre o departamento de inglês estão agora na Casa Branca, trazendo consigo
as ideologias seculares radicalizadas que aprenderam na sala de aula. Esta é uma tendência que
continuará muito depois que o atual presidente deixar o cargo. As sociedades modernas são baseadas no conhecimento

sociedades, onde a informação e a expertise são tão críticas quanto os recursos econômicos. Aqueles com
a autoridade para definir o que se qualifica como conhecimento exercem o maior poder.

Cooptando a Cultura Cristã


John Erickson descobriu o quão estrategicamente esse poder pode ser exercido. A televisão
a rede não rejeitou sua história de Hank diretamente. Em vez disso, cooptou o conto para transmitir uma mensagem

que ele mesmo rejeitou. “Quando fiz meu acordo com a CBS”, Erickson me disse, “nunca sonhei
que eles usariam minha história como um veículo para zombar dos valores de meus pais, igreja e
comunidade.” Seu público também foi cooptado. Eles foram enganados ao pensar que estavam
recebendo
Você é um alvo fácil? 13

uma história de um autor em quem confiam, sobre personagens que aprenderam a amar. Em vez disso, os
produtores de televisão distorceram a história para transmitir sua própria visão de mundo secular de elite.

Isso dá uma pista sobre a forma como a sociedade foi secularizada ao longo dos últimos séculos. Ao longo de

Na história ocidental, os cristãos fundaram um grande número de instituições de caridade,


orfanatos, hospitais, ACMs, escolas e universidades - muitas das quais foram
posteriormente cooptadas e assumidas por forças seculares. A própria empresa científica
surgiu de uma visão bíblica da natureza (um tópico abordado em capítulos posteriores),
mas agora é frequentemente utilizada como uma arma para atacar o cristianismo. Você
pode até pensar na família. Estudos demográficos mostram que famílias religiosas
consistentemente têm mais filhos. A questão é: eles podem mantê-los? Os pais investem
enormes quantidades de tempo, dinheiro e
energia emocional para criar seus filhos, apenas para perdê-los para visões de mundo
seculares marteladas em suas mentes por meio da educação pública e da cultura do
entretenimento. Um estudo na Grã-Bretanha descobriu que pais não religiosos têm
quase 100% de chance de transmitir suas opiniões para seus filhos, enquanto pais
religiosos têm apenas cerca de 50/50 de chance de transmitir suas opiniões. A história
de Erickson é um microcosmo de um amplo padrão de secularização.
O processo de cooptação é tão bem-sucedido que os próprios cristãos não reconhecem mais
sua própria herança. Como era a visão de mundo dominante na cultura ocidental por quase dois
milênios, muitos de seus princípios passaram a ser considerados como simples senso comum -
como papel de parede que nem sequer notamos mais. Como resultado, um dos passos mais
importantes para recuperar uma visão de mundo cristã é simplesmente reconhecê-la, recuperá-
la e reconectá-la às suas raízes bíblicas. antes de descobrirmos que ele é cristão. Michael transmitiu
animadamente a notícia aos seus amigos. (Ele os havia incentivado a

Por exemplo, nossa família lia os livros de Hank de Erickson há anos ler os livros.) Um menino respondeu: “Eu não vejo nada
particularmente cristão nas histórias de Hank.” Percebendo um
momento de ensinamento, contei aos meninos sobre a reescrita da
CBS,
antes de descobrirmos que ele é cristão. Michael transmitiu animadamente a notícia aos seus
amigos. (Ele os havia incentivado a ler os livros.) Um menino respondeu: “Eu não vejo nada
particularmente cristão nas histórias de Hank.” Percebendo um momento de ensinamento,
contei aos meninos sobre a reescrita da CBS,
explicando como os editores haviam excluído o próprio conceito de família da história.
“Normalmente não pensamos em conceitos morais fundamentais como respeito pelo
casamento e pela família como distintamente cristãos”, expliquei, “porque no passado
praticamente todos na América concordavam. Mas hoje um secularismo monolítico
está desafiando a ética social básica que antes era dada como certa.” As sociedades
ocidentais não compartilham mais um consenso moral amplamente informado por
uma visão de mundo bíblica. Não devemos nos surpreender, então, que as liberdades
singulares e as instituições democráticas construídas sobre esse consenso estejam
desaparecendo diante de nossos olhos.
Está se tornando claro que muito do que costumava ser considerado senso comum não é comum

de jeito nenhum. Em vez disso, é um produto da herança distintamente cristã do Ocidente. Hoje não
pode mais ser simplesmente presumido. Tem que ser intencionalmente articulado e defendido.

Quando em Roma, Conquiste


O desafio enfrentado pelos cristãos hoje é paralelo ao enfrentado pela igreja primitiva. O
Império Romano abrangia uma vasta variedade de grupos étnicos, cada um com seus próprios deuses e rituais.
14 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Depois, havia a classe intelectual, que assumiu os filósofos da Grécia antiga —


pensadores tão influentes que ainda os conhecemos hoje: Pitágoras, Sócrates,
Platão, Aristóteles, os estoicos, os epicureus. Praticamente toda grande posição
filosófica que surgiria em séculos posteriores já estava prefigurada entre os
antigos gregos. Qualquer pessoa corajosa o suficiente para considerar e aceitar
as reivindicações de Cristo enfrentava uma sociedade pluralista com uma ampla
diversidade de opções seculares e religiosas — assim como nós hoje.
Como a igreja primitiva suplantou essas ideias diversas e frequentemente hostis? Ela estudou, criticou,
12
argumentou contra, às vezes adaptou e, finalmente, as superou. Indivíduos também demonstraram
seu compromisso por meio de uma vida autêntica, a ponto de sacrifício e até mesmo morte.
Uma das histórias de sucesso mais incríveis da história da civilização ocidental é a forma como o
cristianismo suplantou as religiões e visões de mundo clássicas para emergir como a principal
influência na cultura ocidental.
O que isso sugere sobre a melhor estratégia para envolver o secularismo global hoje? Nós

frequentemente ouvimos cristãos falarem sobre recuperar a vitalidade da igreja primitiva. Mas em qual aspecto
da igreja primitiva eles estão pensando? É uma aposta segura que eles não estão pensando na maneira como a

igreja primitiva partiu para a ofensiva contra os sistemas intelectuais dominantes


da época. As igrejas de hoje despejam seus recursos em comícios, evangelismo de
amizade e missões de misericórdia que distribuem comida e remédios. E tudo isso
é vital. No entanto, se aspiram ao impacto dinâmico da igreja primitiva, devem
fazer como ela fez, aprendendo a abordar, criticar, adaptar e superar as ideologias
dominantes de nossos dias.
Para usar uma metáfora bíblica, todos os cristãos são chamados a serem missionários, responsáveis por aprender-

a língua da sociedade a que se dirigem. Dentro das fronteiras de sua terra natal, eles podem não enfrentar
uma barreira linguística literal. Mas eles enfrentam uma barreira de visão de mundo ao procurarem

se comunicar com pessoas cujo pensamento difere do seu. E eles precisam de treinamento em
como superar essa barreira de visão de mundo. Eles devem aprender a enquadrar a mensagem
bíblica de maneiras que se conectem com as convicções mais profundas das pessoas.

Para usar outra metáfora bíblica, os cristãos são chamados a serem embaixadores de Cristo
(2 Cor. 5:20). Vivendo na área de Washington, DC, muitas vezes encontro estudantes de
pós-graduação se preparando para serem embaixadores e diplomatas, e eles estão
muito familiarizados com o conceito de visão de mundo. Seus cursos de pós-graduação
ensinam que o fator crítico para se envolver com uma cultura estrangeira não é
aprender a língua, mas aprender a visão de mundo.
Afinal, a primeira regra da comunicação eficaz é Conheça seu público. Para transmitir uma mensagem

às pessoas, você deve abordar suas suposições, perguntas, objeções,


esperanças, medos e aspirações. Em suma, sua visão de mundo.

O Evangelho Simples Não É Simples


No meio de uma conversa, um amigo de repente exclamou: “Do que se trata toda essa conversa sobre
visão de mundo? De repente, parece que em todos os lugares que olho em livros e revistas cristãs, todos
Você é um alvo fácil? 15

está falando sobre visão de mundo. O que há de errado em apenas pregar a Palavra de Deus?” Meu amigo, um

jamaicano incrivelmente bonito, cresceu em um lar fundamentalista e


achou incompreensível que os cristãos dedicassem tempo a analisar
visões de mundo. Não é melhor apenas pregar o evangelho simples?
A resposta é que o objetivo final é pregar o evangelho. Mas o evangelho não é simples para
aqueles cuja formação os impede de entendê-lo. A cultura secular global de hoje ergueu
um labirinto de barreiras mentais contra até mesmo considerar a mensagem bíblica. O
objetivo da análise da visão de mundo é derrubar essas barreiras - para “demolir
fortalezas”, como diz o apóstolo Paulo (2 Cor. 10:4–5), para que a Palavra de Deus possa
ser ouvida em toda a sua plenitude. O termo forte-
hold no grego original significava literalmente um castelo ou fortaleza. Paulo o usou como uma metáfora para os

argumentos e ideias que constroem paredes ao redor da mente das


pessoas e as impedem de conhecer a Deus: “Nós demolimos argumentos
e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus.”
Isso explica por que o grande teólogo J. Gresham Machen pôde escrever: “Ideias falsas são o
13
maior obstáculo para a recepção do evangelho.” Não a cultura pop. Não o consumismo. Não moral
tentação. Ideias falsas.
Os cristãos são chamados a derrubar fortalezas mentais e libertar as pessoas do poder de
ideias falsas. Este processo às vezes é chamado de pré-evangelismo porque seu propósito é preparar

as pessoas para ouvir e entender a mensagem do evangelho. Uma vez que


as paredes são derrubadas, então a mensagem de salvação é a mesma
para todos - cientista ou artista, educado ou não educado, cidade ou rural.

Perguntas que as crianças fazem


Tradicionalmente, as igrejas responderam às fortalezas não demolindo-as, mas construindo-

indo contra-fortalezas - com paredes grossas e altas para isolar o mundo. Eles
adotaram uma estratégia isolacionista para proteger as pessoas de ideias falsas.
Enquanto visitava nossa casa, um adolescente foi lavar as mãos para o jantar e voltou

com um sorriso reprimido e um olhar de soslaio para mim como se tivesse acabado de ver algo travesso. “Eu
não posso acreditar que você tem um livro sobre Marxismo no seu banheiro!” ele exclamou. Aparentemente em

na casa deste adolescente, a mensagem era que os cristãos não leem esse tipo de
coisa. Eles não se expõem a ideias mundanas. Mas se não lermos e analisarmos
Marx, como vamos demolir a fortaleza marxista que escravizou milhões de pessoas
no século XX? Como ensinaremos nossos filhos a discernir a ideologia marxista - e
uma série de outras ideologias seculares disputando sua lealdade no campus
universitário e na cultura do entretenimento?
Uma estratégia isolacionista acaba saindo pela culatra. Um estudo recente do Fuller Seminary descobriu que

quando os adolescentes se formam no ensino médio, eles frequentemente “se formam em Deus” também. Mas
os pesquisadores também descobriram um fator que se mostrou mais eficaz em ajudar os jovens a reter seus
16 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Convicções cristãs. O que você esperaria que fosse? Mais oração? Mais estudo da Bíblia? Por mais
importantes que essas coisas sejam, surpreendentemente, o fator mais significativo foi se eles
tinham um lugar seguro para lutar com dúvidas e perguntas antes de sair de casa. O estudo
concluiu: “Quanto mais

os estudantes universitários sentiam que tinham a oportunidade de expressar suas dúvidas enquanto
estavam no ensino médio, maiores eram [seus] níveis de maturidade na fé e maturidade espiritual.”

Em outras palavras, a única maneira de os adolescentes se tornarem verdadeiramente “preparados para dar uma resposta a qualquer um que

pergunte” (1 Pe. 3:15) é lutando pessoalmente com as perguntas.


Isso vai contra a abordagem típica na maioria dos lares e igrejas cristãs. Quando eu

ensinei um curso de apologética para alunos em casa, uma mãe confidenciou que hesitou em inscrever
seu filho. “Não tenho certeza se quero que ele saiba sobre pessoas que não acreditam em Deus”, disse ela.

Muitas pessoas operam como se a definição de fé fosse: Não faça perguntas, apenas acredite. Eles
citam o próprio Jesus, que ensinou seus seguidores a ter a fé de uma criança (Marcos
10:15). Mas certa vez ouvi Francis Schaeffer responder dizendo: “Você não percebe
quantas perguntas as crianças fazem?” O estudo de Fuller mostra que os alunos
realmente se tornam mais confiantes em seu compromisso cristão quando os adultos
em suas vidas — pais, pastores, professores — os orientam na exploração de
perguntas e no enfrentamento dos desafios colocados pelas visões de mundo
seculares predominantes. Quando esses adolescentes saem de casa, eles aprenderam
a praticar a máxima de Paulo: “Examinem tudo; apeguem-se ao que é bom” (1
Tessalonicenses 5:21).

Além de Bolas de Tinta e Chantilly


Isso pode parecer uma agenda desafiadora para adolescentes. Mas os jovens são atraídos por um
15
desafio. Essa é a mensagem de Faça Coisas Difíceis, de Alex e Brett Harris. O livro explodiu

as listas de mais vendidos, dando ampla evidência de que os adolescentes estão famintos
por uma alimentação mais rica do que o típico grupo de jovens da igreja oferece.
Infelizmente, muitas igrejas simplesmente espelham a cultura pop em que os jovens já estão imersos.

Quando nossos filhos eram mais novos e frequentavam a Escola Bíblica de Férias,
ficamos desapontados porque os programas ofereciam muito pouco ensino. Em vez
disso, eles tentavam atrair as crianças usando música alta, esquetes bobas e jogos
pastelão — muito chantilly e paintball. Não há nada de errado com uma boa diversão
sadia. Mas a força da pura experiência emocional não equipará os adolescentes para
abordar as ideias que encontrarão quando saírem de casa e enfrentarem o mundo por
conta própria. É provável que os jovens cuja fé é principalmente emocional a retenham
apenas enquanto ela os estiver fazendo felizes. Assim que uma crise difícil surgir, ela
evaporará.
Foi exatamente o que aconteceu com um jornalista chamado John Marks, autor de Razões para Acreditar :
A Jornada de um Homem entre os Evangélicos e a Fé que Ele Deixou Para Trás. “Em minha experiência como

adolescente, nunca tive um mentor adulto forte que representasse a fé de forma madura”,
escreve Marks. “A maioria dos meus ‘pastores’ eram líderes do Young Life ou líderes de grupos
de jovens que eram pessoas decentes, mas não tinham muita potência intelectual ou teológica.”
Assim que ele enfrentou um sério
Você é uma presa fácil? 17

tragédia que ele não conseguia entender com seu conhecimento teológico limitado,
ele abandonou sua “jornada entre os evangélicos” e deixou sua fé para trás.
Minha própria jornada começou em 1971, quando visitei a L’Abri Fellowship fundada por Francis e

Edith Schaeffer. Sou profundamente grato por Deus ter me conduzido a um ministério
que se envolvia ativamente com ideias e cultura. E, no entanto, depois de apenas um mês,
achei L’Abri tão intensamente atraente que, mesmo ali, tinha medo de ser atraído ao
cristianismo por razões emocionais, em vez de uma convicção genuína. Eventualmente,
voltei, mas, na época, sabia instintivamente que uma experiência emocional não era
suficiente. Eu queria construir minha vida sobre a convicção da verdade.
Voddie Baucham, um ex-jogador de futebol americano, oferece uma metáfora atlética cativante.

“Enviar jovens para o mundo sem uma cosmovisão bíblica”, diz ele, “é como
enviar um jogador de futebol para o campo sem
O espírito um manual
de equipe de instruções.”
não é suficiente. Um atleta precisa

compreender a estratégia do jogo.

Decodificando Cosmovisões
Qual é a melhor maneira de garantir que os jovens estejam equipados com um manual bíblico, para que

eles possam aplicar estratégias bíblicas às suas vidas? Nos últimos anos, o mundo
evangélico tem sido inundado com livros e conferências dedicadas ao ensino da cosmovisão.
A abordagem típica é comparar e contrastar usando grades e gráficos: existencialismo,
naturalismo, marxismo, pós-modernismo e assim por diante. Quando me tornei cristão,
estudei avidamente livros como esses, ansioso para aprender como defender minhas novas
convicções. Trabalhei duro para memorizar os princípios de todos os ismos que eu estava

encontrando no campus universitário.


Hoje ainda estou convencido de que os cristãos precisam entender as cosmovisões. Mas eunãocon-

vencido de que memorizar gráficos é o melhor método. Ele trata as cosmovisões


como trechos isolados, desconectados e a-históricos, reduzidos a resumos em
miniatura para serem memorizados em vez de genuinamente compreendidos.
Pior ainda, consumir material pré-embalado e pré-digerido pode promover o orgulho intelectual e

a preguiça. É muito fácil colocar um rótulo em uma ideia, colocá-la na categoria correta
e, em seguida, descartá-la sem pensar ativamente sobre ela. Uma das minhas alunas já
havia feito vários cursos de cosmovisão antes de se inscrever na minha aula. Mas ela
estava desiludida. “Eu tinha páginas e páginas de notas e diagramas”, ela me disse.
Mas “percebi que me tornei muito orgulhosa, colocando todos em categorias filosóficas
organizadas. Eu parei de ouvir as pessoas porque meu conhecimento superava tudo. A
comunicação se tornou uma questão de provar que eu estava certa.” O estudo da
cosmovisão e da apologética pode se transformar em pouco mais do que um jogo de
gotcha onde ganhar a discussão
é tudo o que importa.

Uma motivação bíblica para estudar cosmovisões deve ser o mesmo princípio que motiva todos

o discipulado autêntico: “Amar o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de
todo o seu entendimento” e “amar o seu próximo como a si mesmo” (Mateus 22:37–39). Amar alguém
18 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

requer que os conheçamos bem. Nutrimos o amor por Deus estudando uma cosmovisão bíblica
para nos familiarizarmos mais profundamente com sua verdade, seu caráter, seu propósito na
história e em nossas vidas. E demonstramos amor pelos outros quando estudamos sua
cosmovisão para entrar em seu
pensamento e encontrar maneiras de conectar a verdade de Deus com suas preocupações e perguntas mais íntimas.

Para adaptar a metáfora de Baucham, os cristãos não devem apenas conhecer seu próprio manual, eles

também devem conhecer o manual do outro lado. Como escreveu o apóstolo


Paulo, devemos nos tornar “tudo para todos” para conquistá-los. A frase não
significa meramente se vestir como os nativos e aprender seus costumes.
Acima de tudo, significa familiarizar-se com sua interpretação do mundo, para
que possamos entrar empática e compassivamente em sua experiência de vida.

O Que a Mídia Ignora


A necessidade de lidar com as cosmovisões seculares está se tornando mais urgente do que nunca porque, como

vimos anteriormente, o secularismo está se tornando global. Podemos ser


encorajados na tarefa pelo conhecimento de que o cristianismo também está se
tornando global. Embora a história tenha sido amplamente ignorada pela grande
mídia, o cristianismo tem crescido dramaticamente na Ásia, África e América do Sul.
Em termos de números absolutos, o centro de gravidade no mundo cristão já se
deslocou para o sul global. Segundo o historiador Philip Jenkins, em algumas
décadas, os cristãos brancos ocidentais serão apenas um em cada cinco em
comparação com os cristãos negros e pardos. (O Islã também está crescendo, mas
não tão rápido. “Até 2050”, diz Jenkins, “ainda deve haver cerca de três cristãos para
cada dois muçulmanos.”)
A ascensão do cristianismo global foi uma surpresa indesejável para a mídia ocidental
e a intelectualidade. Na verdade, até recentemente, eles se recusavam a levá-lo a sério. Sua
suposição era que as religiões são sempre uma expressão da cultura — e, portanto, o
cristianismo é uma expressão da cultura ocidental, imposta à Ásia e à África apenas através da
força coercitiva do colonialismo.

Com o fim da era colonial, certamente o cristianismo morreria enquanto as religiões


indígenas reviveriam. Melhor ainda, o Terceiro Mundo se tornaria moderno e secular.
Nenhuma das previsões se concretizou. Em vez disso, o cristianismo explodiu. A
Coreia do Sul agora tem cinco das dez maiores igrejas do mundo. A China
provavelmente tem perto de cem milhões de cristãos. Mais chineses frequentam a
igreja a cada domingo do que são membros do Partido Comunista. Na África, no
início do século XX, os cristãos eram apenas 9% da população; hoje são 44%.
Os cristãos do Terceiro Mundo normalmente unem seus compromissos bíblicos a fortes crenças tribais em

a realidade do mundo sobrenatural. Isso significa que eles podem, às vezes,


misturar ensinamentos pagãos e bíblicos em uma mistura sincretista selvagem.
Isso também significa, no entanto, que eles não têm problemas em acreditar que
Deus age sobrenaturalmente na história — tanto em milagres bíblicos quanto em
milagres modernos, como a cura. Eles também estão firmemente comprometidos
com a moralidade bíblica em áreas como casamento e sexualidade.
Você é um alvo fácil? 19

Por que pessoas não ocidentais descobriram repentinamente Deus? Durante o período colonial, tornar-se

cristão significava se vender para invasores estrangeiros. Mas quando as potências imperiais se retiraram, pela

primeira vez, os africanos foram livres para ler a Bíblia em sua própria língua e apropriá-la para
si mesmos. E foi exatamente isso que fizeram, em grande número. Os africanos descobriram que o cristianismo

não é inerentemente ocidental, mas universal. É “traduzível” para qualquer idioma cultural. Como resultado,

não destrói as culturas indígenas, mas realmente afirma o que há de melhor em cada uma. Poderíamos
dizer que houve repetidas reencenações do dia de Pentecostes, quando pessoas de várias
nações ouviram o evangelho “em sua própria língua” e foram convertidas (Atos 2:8). De acordo com
Lamin Sanneh, um ex-muçulmano de Gâmbia que agora leciona na Universidade de Yale, “o cristianismo
é a religião de mais de dois mil grupos de línguas diferentes”. Existem mais cristãos que
20
“oram e adoram em mais línguas do que em qualquer outra religião do mundo”.
Este Pentecostes do Terceiro Mundo também está produzindo benefícios sociais. Até os críticos estão começando

a perceber. “Como ateu, acredito verdadeiramente que a África precisa de Deus”, escreve o jornalista Matthew Parris.

Por quê? Porque o cristianismo liberta as pessoas da “passividade esmagadora” criada pelas
visões de mundo africanas: “medo de espíritos malignos, de ancestrais, da natureza e do selvagem, de uma hierarquia tribal”. Libertar

as pessoas de tais medos profundamente enraizados exige muito mais do que ajuda material ou conhecimento técnico.

Uma visão de mundo só pode ser substituída por outra visão de mundo. Tendo crescido na África, Parris
testemunhou em primeira mão que aqueles que se tornaram cristãos ganharam um senso de dignidade e confiança.
21
“Eles se aproximavam de você diretamente”, diz ele. “Eles andavam eretos.”

Os mesmos benefícios estão voltando em círculo completo para o Ocidente, à medida que imigrantes chegam da Ásia,

África e América do Sul. Em um domingo típico, metade de todos os frequentadores de igrejas em Londres são africanos

ou afro-caribenhos”, relata Jenkins. “Das dez maiores megaigrejas da Grã-Bretanha, quatro são pastoreadas por

africanos.” Na França, a cidade de Paris tem duzentas e cinquenta igrejas protestantes étnicas, a maioria
22
delas negras africanas.

Na América, mais de cem novas igrejas foram iniciadas apenas na cidade de Nova York
nos últimos quinze anos por imigrantes africanos de países como Nigéria, Gana, Congo,
e Etiópia. Nessas igrejas, relata o New York Times, é provável que você veja pessoas tocando
tocando tambores conga, vestidos com tecidos kente de cores vivas com lenços de cabeça. Além disso, esses novos
23
recém-chegados são ‘’esmagadoramente altamente educados e profissionais.” O secularismo urbano global está

sendo confrontado pelo cristianismo urbano global.

Revertendo o Secularismo
Mesmo entre os europeus nativos, que são mais secularizados do que qualquer outro grupo de pessoas, há

sinais de uma reversão. “A Itália não é mais um país completamente secular”, lamentou um
filósofo da ciência da Universidade de Milão. Isso foi depois de uma pesquisa que revelou que
quase dois terços dos italianos querem que as escolas abordem evidências científicas para a
evolução e a criação. Na Holanda,
um reavivamento silencioso está ocorrendo por meio de ministérios leigos, como reuniões de oração no local de trabalho. Uma pesquisa
20 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

pelo Departamento Central de Estatística Holandês descobriu que entre 2003 e 2004,
a frequência à igreja entre menores de vinte anos aumentou de 9% para 14%. Quando
o estudo foi publicado, os comentaristas estavam céticos. Não a Holanda! Não os
jovens! O padrão foi confirmado, no entanto, por outras pesquisas governamentais.

A virada da maré se reflete nas manchetes dos jornais. Em 1966, a capa da Timerevista
perguntou: “Deus está morto?” Em 2009, a capa de um novo livro anunciou: Deus está de volta. Um fator importante

no ressurgimento da religião foi a queda dos regimes totalitários com seu ateísmo imposto pelo Estado. Em todo
o mundo, há agora uma tendência em direção à autogovernança e à democracia, diz um artigo da Foreign Policy

e isso abriu as portas para grupos religiosos que buscam um maior impacto público.
“A democracia está dando voz aos povos do mundo, e eles querem falar sobre Deus.”
Por que esse renascimento religioso surpreendeu tanto os especialistas seculares? Desde o Iluminismo

os cientistas sociais aceitaram a tese da secularização - a ideia de que, à medida


que as sociedades se modernizam, elas se secularizam. Isso foi tratado como
um processo automático e inevitável. Quanto mais avançado, menos religioso. O
fundador da sociologia, Auguste Comte, propôs que todas as sociedades
progridem por três estágios - do religioso ao metafísico ao científico. Estes eram
conceitos evolucionários aplicados à cultura: as culturas evoluem de crenças
simples e primitivas para crenças cada vez mais esclarecidas e sofisticadas.
A tese da secularização se baseava em várias premissas, no entanto, que se mostraram falsas. Por exemplo-

exemplo, assumiu que a religião sobrevive apenas em enclaves protegidos, como as aldeias
rurais de épocas passadas. Em um ambiente tão homogêneo, a religião tinha uma
qualidade dada como certa. Ninguém questionou isso, mais do que as pessoas modernas
questionam a lei da gravidade. Mas o que acontece quando diversas religiões se chocam e
competem no caldeirão de áreas urbanas pluralistas e multiculturais? Então, de acordo com
a teoria, as religiões perdem sua plausibilidade. Em The Secular City, Harvey Cox escreve

que as sociedades se secularizam quando os “confrontos cosmopolitas da vida na cidade expõem


a relatividade dos mitos e tradições que os homens antes pensavam serem inquestionáveis”.

No entanto, a religião se recusou a morrer apesar dos “confrontos cosmopolitas da vida na cidade”.
A tese da secularização foi desmascarada, jogada no cemitério das teorias fracassadas.
Por que os especialistas estavam tão errados? Acontece que, historicamente, o cristianismo não tem sido uma

religião de aldeias rurais. No Império Romano, o cristianismo primeiro se estabeleceu


nas cidades - tanto que a palavra pagão realmente significa alguém do campo.
Mesmo aqui na
América, o cristianismo tem se concentrado nas cidades. Em The Churching of America, dois sociólogos

mostram estatisticamente que durante a rápida urbanização do final do século XIX e


início do século XX, tanto os protestantes quanto os católicos realmente predominaram
nas cidades mais do que nas áreas rurais. Portanto, não deve ser surpreendente que
hoje o cristianismo continue a prosperar precisamente em grandes áreas urbanas
pluralistas.
Você é um alvo fácil? 21

Chega de cristãos "nascidos"


A tese da secularização se baseava em uma segunda premissa falha: que quando as convicções das pessoas são desafiadas,

elas se tornam mais fracas. Na realidade, elas se tornam mais fortes. Nas gerações
passadas, muitas pessoas simplesmente “herdavam” sua religião, seguindo a
tradição de sua família e grupo étnico. Fui criado como luterano porque meus
ancestrais de ambos os lados eram escandinavos. Mas nos grandes centros
urbanos de hoje, não é mais possível permanecer cristão por tradição. As pessoas
enfrentam muita oposição e têm muitas alternativas.
Para usar rótulos sociológicos, as sociedades tradicionais são culturas de “atribuição”, onde a identidade de uma pessoa é amplamente dada a ela pela família, tradição, classe e papel social. Por outro lado,
as sociedades modernas são culturas de “realização”, onde os indivíduos fazem suas próprias escolhas sobre qual emprego aceitar, com quem se casar e no que acreditar. É mais provável que tratem os
compromissos de visão de mundo como algo que procuram, investigam, pesam, comparam e adotam como uma questão de compromisso e prática intencionais. Como resultado, diz o sociólogo Christian
Smith, esses compromissos são realmente mais fortes.

Para usar rótulos sociológicos, as sociedades tradicionais são culturas de “atribuição”, onde
a identidade de uma pessoa é amplamente dada a ela pela família, tradição, classe e papel
social. Por outro lado, as sociedades modernas são culturas de “realização”, onde os
indivíduos fazem suas próprias escolhas sobre qual emprego aceitar, com quem se casar e
no que acreditar. É mais provável que tratem os compromissos de visão de mundo como
algo que procuram, investigam, pesam, comparam e adotam como uma questão de
compromisso e prática intencionais. Como resultado, diz o sociólogo Christian Smith, esses
compromissos são realmente mais fortes.
E como um grande número de pessoas está concentrado nas principais áreas metropolitanas, há

também uma maior probabilidade de encontrar pessoas com ideias semelhantes para
formar subculturas de apoio. Assim, por mais surpreendente que possa parecer, “em vez
de ser uma fonte de secularização
Assim e declínio
como a igrejareligioso, o pluralismo
primitiva prosperou fortalece
na diversidade a religião”.
do ambiente urbano,

assim as igrejas modernas têm os recursos para prosperar em áreas metropolitanas pluralistas.
À medida que o oriente encontra o ocidente e o norte encontra o sul, o cristianismo global tem
uma oportunidade sem precedentes de desafiar a cultura secular global em sua essência.

Onde a ação está


O ressurgimento da religião está se tornando evidente até mesmo nos campi universitários seculares. Em

Harvard, os alunos estão cada vez mais “indo à igreja, estudando a Bíblia
e acreditando”, diz Jay Harris, o reitor que administra o programa de
Educação Geral. “Temos uma comunidade evangélica muito forte.”
O professor de direito Stanley Fish está testemunhando a mesma tendência. “Anuncie um curso com ‘religião’

no título, e você terá uma população excedente”, escreve ele. “Anuncie uma palestra ou painel
sobre ‘religião em nosso tempo’ e você terá que contratar um salão maior.” Um repórter perguntou uma vez a Fish o que

viria a seguir no campus após a atual moda do multiculturalismo. O que substituiria “o


triunvirato de raça, gênero e classe como o centro da energia intelectual na academia?”
“Eu respondi como um tiro: Religião.”
Além disso, acrescenta ele, os alunos não estão mais interessados em estudar religião da mesma forma que um antro-

pólogo estuda uma cultura antiga, tratando-a como um costume pitoresco de eras passadas. Em vez disso, eles

estão procurando na religião respostas viáveis e orientação para a vida. Eles estão tratando-a como uma genuína

“candidata à verdade.”
22 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

“Estamos prontos?” Fish pergunta aos seus colegas professores. Estamos preparados para discutir questões religiosas
31
com os alunos nesses termos? “É melhor estarmos, porque é aí que a ação está.”
Você está pronto? A comunidade cristã tem uma oportunidade sem precedentes de estar onde
a ação está. As pessoas estão famintas por alternativas às visões de mundo seculares dominantes. A porta está escancarada

aberta para apresentar um caso convincente para o cristianismo como um agente positivo de renovação individual e cultural

renovação. Devemos determinar nunca mais sermos derrotados porque não sabíamos que estávamos em uma

luta. Nunca mais ser pego de surpresa por uma agenda secular. Nunca mais permitir que escolas e instituições de caridade

e ministérios sejam cooptados para servir a uma ideologia secular. Devemos nos educar em uma visão de mundo bíblica

para manter a integridade de nossas vidas e nosso trabalho, tornando-nos uma alternativa viva para
o rolo compressor secular.

O primeiro passo é identificar e combater as principais estratégias usadas para promover o secular global

visão de mundo. Vamos começar.


Capítulo 2

“A razão define um tipo de realidade (o que sabemos);


a fé define outro (o que não sabemos).”
—Lisa Miller, editora de religião, Newsweek

Verdade e Tirania

Durante a campanha presidencial de 2008, a ABC News publicou um artigo perturbador sobre
jovens evangélicos. O repórter entrevistou vários adolescentes que participavam de um
comício de jovens cristãos na cidade de Nova York e a boa notícia foi que eles expressaram um
forte compromisso com a ética bíblica. A maioria era pró-vida, com alguns até classificando o
aborto como sua principal questão política. Mas então houve uma estranha desconexão:
muitos dos mesmos adolescentes disseram que seus candidatos políticos favoritos

eram pró-escolha. Para o repórter, isso soou como uma contradição, um


caso de dissonância cognitiva. Então ele perguntou: Isso não te incomoda?
“Talvez um pouco”, respondeu um adolescente, “mas é tudo preferência pessoal. Quer dizer, você não pode realmente
1
julgar alguém porque essa é a crença dela.”
Convicções morais são todas preferência pessoal? Onde esses adolescentes aprenderam uma visão tão rela-

tivista da moralidade? Eram jovens que estavam participando de um comício religioso, que
abraçavam a ética bíblica, que provavelmente iam à igreja regularmente. No entanto, eles aceitaram uma visão secularizada

da verdade que reduz o cristianismo a uma preferência subjetiva, esvaziando-o de qualquer poder espiritual

ou cultural. Eles absorveram o princípio central do secularismo global.

Alvos Fáceis
A chave para entender o secularismo moderno é sua visão da verdade. Pense desta forma: Antes
de decidir no que você acredita, você deve primeiro decidir quais são as opções credíveis. Essa lista é

23
24 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

determinado pela sua definição de verdade — o que os filósofos chamam de sua


epistemologia. Funciona como uma grade ou peneira que permite a passagem de
apenas certas ideias. Ideias que são eliminadas você nem se preocupa em considerar.
Da mesma forma, a visão de verdade de uma sociedade funciona como o porteiro intelectual na

arena pública. Determina quais ideias são levadas a sério e quais nunca
chegam à mesa.
Onde os jovens evangélicos entrevistados pela ABC News conseguiramsua epistemologia? A

ideia de que a moralidade nada mais é do que preferência pessoal surgiu no Ocidente após
a revolução científica. Muitos pensadores ficaram tão impressionados com suas conquistas
que elevaram a ciência empírica à única fonte de verdade. O empirismo é a doutrina de que
todo o conhecimento é derivado dos sentidos — o que vemos, ouvimos, seguramos,
pesamos e medimos. Obviamente, as verdades morais não podem ser colocadas em um
tubo de ensaio ou estudadas ao microscópio. Como resultado, as declarações morais não
eram mais consideradas verdades, mas meras expressões de emoção.

O mais radical dos filósofos empiristas foi David Hume, e ele raciocinou da seguinte forma:
Se o conhecimento é baseado, em última análise, em sensações, então a moralidade também deve derivar de
sensações — dor ou prazer. Chamamos as coisas de boas quando elas nos dão um certo tipo de prazer. Nós os
chamamos de

ruins quando causam dor. Como Hume colocou, a moralidade é uma questão de “gosto e sentimento”.

Ao reduzir a moralidade ao gosto pessoal, Hume deu um passo que alterou o curso do Ocidente
pensamento. Ele dividiu a filosofia tradicional em duas categorias opostas.
Tradicionalmente, a verdade era concebida como um todo abrangente, cobrindo tanto a
ordem natural quanto a ordem moral. Mas Hume separou essas duas coisas. A ordem
natural é algo que percebemos através dos sentidos, então, de acordo com o
empirismo, isso se qualificava como conhecimento genuíno. Mas a ordem moral não é
percebida através dos sentidos, então isso foi reduzido a sentimentos subjetivos. Os grandes princípios morais

que as pessoas pensavam serem verdades transcendentais não eram verdades afinal, mas apenas preferências.

A religião, a fonte final da moralidade, foi igualmente desacreditada. Por séculos, as pessoas tinham

pensado na religião como um sistema explicativo como qualquer outro sistema filosófico. Eles podem não ter
certeza de que suas próprias opiniões estavam completamente corretas. Mas eles tinham certeza de que havia

uma resposta correta e que a investigação contínua valia a pena. A existência de Deus
era considerada uma questão objetiva — algo sobre o qual você poderia estar certo ou
errado, com base em razões racionais. Com a ascensão do empirismo, no entanto, a
religião foi reduzida a sentimentos privados. Conforto emocional. O conceito de verdade
como uma visão de mundo unificada e coerente foi destruído.
A divisão da verdade é frequentemente referida como a divisão fato/valor (ver Introdução). É a
suposição de que o conhecimento objetivo só é possível no reino dos fatos empíricos. A
moralidade e a religião não são mais consideradas categorias de conhecimento. São meramente
valores — literalmente o que eu valorizo. O que é importante para mim. Meus gostos e
preferências.
Este conceito de valores parece ser a suposição tácita nos jovens evangélicos’
resposta ao repórter da ABC News. Eles perceberam que estavam sendo influenciados por uma filosofia
Verdade e Tirania 25

chamado empirismo? Eles aceitaram conscientemente sua premissa de que nada existe exceto o
que podemos ver, ouvir, pesar e medir? Claro que não. Como cristãos, eles reconheciam a
existência de um reino espiritual invisível. No entanto, eles absorveram o conceito dividido de
verdade derivado de
empirismo.
Em suma, eles foram enganados por uma visão de mundo secular sem sequer perceber. E isso roubou

deles a força e a coragem de suas convicções morais. Para usar uma frase do capítulo
um, esses jovens evangélicos estavam sendo derrotados porque nem sequer percebiam
que estavam em uma luta. Eles foram enviados ao mundo sem um manual de instruções.
Platão disse que os filósofos deveriam governar o mundo, e eles governam—centenas de anos depois de morrerem.

Elementos da filosofia empirista de Hume foram filtrados para se tornarem o núcleo da visão de
mundo secular global. A estrita separação de fatos e valores é a chave para desvendar a história de

a mente ocidental moderna. Examinaremos seus efeitos debilitantes dentro


da igreja e, em seguida, seus efeitos secularizantes na vida pública americana.

Resistindo a Roma
A visão secular dos valores é comum entre adultos e adolescentes. Uma vizinha que chamarei de

Vickie é ativa em sua igreja e ensina na escola dominical. No entanto, ela foi influenciada
pelo mesmo subjetivismo. Em uma conversa, mencionei um amigo em comum que era
franco ao expressar opiniões seculares. Surpreendentemente, a resposta de Vickie foi:
“O que funciona para você”. Ela se recusou a afirmar que seu próprio compromisso com
o cristianismo estava enraizado na verdade. Ou que a verdade era sequer uma questão.
Funcionava para ela. Pode não funcionar para os outros.
Vickie afirmou as principais doutrinas bíblicas: a divindade de Cristo, o nascimento virginal, a
Ressurreição e assim por diante. Mas ela não reconheceu que, além de verdades individuais, a Bíblia
também ensina uma visão da natureza da verdade. Porque uma única mente divina criou todas as coisas, a verdade

forma um sistema único, coerente e mutuamente consistente. A verdade é unificada e universal.

Nos tempos do Novo Testamento, os gregos tinham um termo para o princípio subjacente que

unifica o mundo em um cosmos ordenado, em oposição ao acaso e ao caos. Eles o chamavam de


Logos. Os filósofos estóicos o concebiam como uma mente panteísta que permeava o universo.

Mas o apóstolo João aplicou o termo a Cristo. “No princípio era o Verbo” — Logos

(João 1:1). Todo grego que ouviu o evangelho de João entendeu que ele estava
afirmando que o próprio Cristo é a fonte da ordem e coerência do universo.
Como Paulo colocou, “nele todas as coisas subsistem” (Col. 1:17). A criação
tem uma ordem racional e inteligível que reflete o plano criativo de Deus.
Desde o início, no entanto, este conceito de verdade do Novo Testamento foi atacado. O
Império Romano não considerava a religião como a busca pela verdade sobre a realidade. Esse era o domínio

dos filósofos, não dos sacerdotes. Os romanos definiam a religião apenas em termos de rituais, cerimônias e
práticas de culto. O império estava perfeitamente disposto a aceitar o cristianismo se ele tomasse seu lugar como
26 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

apenas mais um conjunto de práticas religiosas. O que o império não aceitaria, diz o teólogo católico
gian Lorenzo Albacete, era o cristianismo “como uma fonte de verdade sobre este mundo”.

Como a igreja primitiva respondeu? Ela se recusou resolutamente a reduzir o cristianismo à definição

relativista de religião de Roma. Como Albacete escreve, o cristianismo “não aceitaria um


lugar com as religiões do império” como meramente outro conjunto de rituais e práticas.
Ele “se via como uma filosofia, como um caminho para o conhecimento sobre a
realidade, e não principalmente como uma fonte de inspiração espiritual ou ética”. A
mensagem da ressurreição de Cristo — em um corpo físico, em tempo histórico —
não permitia nenhum dualismo que empurrasse a religião para uma esfera separada da vida
preocupada apenas com regras e rituais espirituais. A igreja primitiva insistia que a verdade
bíblica é uma unidade abrangente, englobando os reinos de ambos, sacerdote e filósofo. A
verdade é um todo unificado.
Hoje, os cristãos perderam em grande parte essa convicção. Quando leem versículos como “o temor do

Senhor é o princípio da sabedoria” (Salmos 111:10), eles o interpretam como significando


apenas sabedoria espiritual. Quando leem que Cristo é aquele “em quem estão escondidos
todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Col. 2:3), eles limitam o termo ao
conhecimento espiritual. No entanto, esses versículos não restringem seu alcance. A
verdadeira sabedoria consiste em ver cada campo do conhecimento através das lentes da
verdade de Deus — governo, economia, ciência, negócios, artes e humanidades. Quando os
cristãos falam de uma visão de mundo, eles estão simplesmente usando a terminologia
moderna para reafirmar a compreensão da Bíblia.
reivindicação hensiva.

Hamlet e Harry Potter


A dicotomia fato/valor, portanto, contradiz diretamente a visão bíblica da verdade. Francis Schaeffer

foi um dos primeiros no mundo evangélico a identificar o problema. Embora ele não tenha usado os termos
fatos versus valores, claramente ele estava chegando à mesma ideia. Usando a metáfora de um edifício,

ele alertou que a verdade havia sido dividida em duas histórias. A história inferior consiste
em fatos científicos, que são considerados empiricamente testáveis e universalmente
válidos. A história superior inclui coisas como moralidade, teologia e estética, que agora
são consideradas subjetivas e culturalmente relativas. Essencialmente, a história superior
se tornou um depósito conveniente para qualquer coisa que um
visão de mundo empirista não reconhecia como real. Schaeffer usou um
gráfico simples, que podemos adaptar assim:

O conceito de verdade de dois andares

VALORES
Privado, Subjetivo, Relativo
__________________________________________

FATOS
Público, Objetivo, Universal
Verdade e Tirania 27

Essa dicotomia cresceu tanto que a maioria das pessoas nem sequer percebe que a mantém.
Tornou-se parte do ar cultural que respiramos. Considere dois exemplos proeminentes. “A ciência lida
principalmente com fatos; a religião lida principalmente com valores” (Martin Luther King Jr.). A ciência produz

fatos, mas não “julgamentos de valor”; a religião expressa valores, mas não pode “falar de fatos” (Albert
4
Einstein).
É claro que as pessoas sempre souberam que existe uma distinção entreé e deveria,entre

o que você é e o que você deveria ser, entre declarações descritivas e declarações normativas.
Em épocas anteriores, no entanto, as pessoas pensavam que ambos os tipos de declaração tratavam de questões de verdade. Se

você fizesse uma declaração moral sobre o que alguém deveria fazer, seria verdadeira ou falsa. O que
torna a divisão fato/valor nova é o status epistemológico do reino dos valores. Os valores não são
considerados questões de verdade, mas apenas perspectivas e preferências pessoais.

Livros sobre educação em valores usados em escolas públicas fazem o ponto ao juntar ques-
tões de mera preferência com questões sobre genuínas questões morais. Por exemplo, eles podem
começar perguntando aos adolescentes qual é a sua férias de verão ideal ou que tipo de música eles gostam e

então, sem perder o ritmo, perguntar o que eles pensam sobre sexo antes do casamento ou Deus e espiritualidade.

A mensagem implícita é que não há diferença essencial — que não há base para a decisão
além do que você, como indivíduo, escolhe valorizar.
Como o termo valores é tão difundido hoje, mesmo os cristãos frequentemente o usam quando o que eles

realmente querem dizer é moralidade bíblica. Isso cria uma lacuna de comunicação significativa. Para entender a diferen-

ça, pense em um filme ou um romance. Ler um romance pode envolver e inspirar você. Mas você não
pergunta se realmente aconteceu.
Na verdade, essa é exatamente a analogia usada pelo filósofo de Cambridge Peter Lipton, que tem um

origem judaica. Em uma entrevista, Lipton disse uma vez: “Eu fico na minha sinagoga e oro a Deus
e tenho um relacionamento intenso com Deus, e ainda assim não acredito em Deus.”
Os jornalistas ficaram perplexos com a confissão paradoxal de Lipton. O que ele poderia possivelmente querer dizer?

Bem, ele explicou, a religião é como ler um romance — você pode obter prazer e significado com a
experiência mesmo sabendo que não é literalmente verdade . Embora a maioria das pessoas não declare isso tão

abertamente, esta é uma visão generalizada da religião hoje . Se você sugerir que o cristianismo lida com
realidade que é considerada um erro de categoria — como se alguém fosse falar sobre Hamlet ou Harry
Potter como uma pessoa real.

A visão da religião do andar superior até filtrou para os quadrinhos. Em uma tira de “Non Sequitur”
um pai pergunta à sua filha, “Você realmente disse ao seu professor que matemática é contra o nosso
religião?”
“Não”, a menina responde, “Eu disse que era contra minhareligião.”

“Danae”, o pai repreende, “você não pode arbitrariamente inventar uma religião apenas para
atender às suas necessidades.” “Ah?” ela pergunta. “Então, como outras religiões começaram?”
28 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Wiley Miller, cartunista


Non Sequitur, 31 de março de 2006
Visão superior da religião
O próximo quadro mostra o pai completamente confuso. Obviamente, ele está pensando: Ela está certa .

No quadro final, o pai está sentado com seu amigo de copo que pergunta: “Você se converteu ao
quê?”
“Danaeísmo”, ele responde. “Pelo menos é uma religião que é honesta sobre permanecer ignorante.”

O golpe final revela o desprezo do cartunista pela religião, mas a mensagem real está nos
quadros do meio: que a religião é uma construção social feita para atender às necessidades emocionais das pessoas

e desejos. Claro, isso não explica a origem e o chamado do cristianismo, que muitas vezes exige
que as pessoas façam coisas que vão contra seus desejos, a ponto de sacrifício e morte. No entanto,
a divisão superior/inferior da história se espalhou das elites globais para os escritores de histórias em quadrinhos.

Espiritualidade em Secularville
Uma vez que entendemos o conceito dividido de verdade, isso esclarece uma série de quebra-cabeças e suge-

re maneiras mais eficazes de comunicar o evangelho. Veja, por exemplo, a estratégia da


igreja para ensinar adolescentes. Muitos professores e líderes juvenis argumentam que
os jovens são pós-modernos — que eles não pensam mais de forma racional e linear —
e que escolas e igrejas devem reformular seus programas para se concentrarem em
mídia visual e experiência pessoal, ou correm o risco de se tornarem irrelevantes.
Antes de baixarmos a barra, no entanto, e pararmos mesmo de tentar ensinar os jovens a pensar com clareza,

vamos perguntar se o diagnóstico é preciso. Quão pós-modernos são os jovens


realmente? William Lane Craig, um apologista cristão que fala frequentemente em campi
universitários, tem uma boa leitura sobre como os alunos pensam. “Francamente, não
enfrento muitos alunos que são pós-modernistas”, disse ele. “Apesar de toda a conversa
da moda, acho que é um mito. Os alunos geralmente não são relativistas e pluralistas,
exceto quando se trata de ética e religião.” Em suma, seu pós-modernismo é seletivo.
A realidade é que o modernismo permanece firmemente entrincheirado no reino dos fatos — as ciências exatas,

finanças e indústria. Ninguém projeta um avião por princípios pós-modernos. O pós-


modernismo é normalmente mantido apenas no reino dos valores — teologia, moralidade e
estética. Pense desta forma: somos frequentemente exortados a não impor nossos valores aos
outros. Mas nunca ouvimos as pessoas dizerem: Não
imponha seus fatos sobre mim. Por que não? Porque os fatos são considerados objetivos e universais.
Verdade e Tirania 29

Quão pós-modernos realmente somos?

PÓS-MODERNISMO
Religião e Moralidade (Valores)
__________________________________________

MODERNISMO
Ciência e Indústria (Fatos)

O resultado é que a maioria das pessoas funciona como modernistas e pós-modernistas, dependendo do
contexto. Escolher uma religião, diz o filósofo Ernest Gellner, tornou-se semelhante a escolher um
padrão de papel de parede ou item de menu—uma área da vida onde é considerado aceitável agir puramente

gosto ou sentimentos pessoais. A maioria das pessoas não procura a espiritualidade por um sistema explicativo para

responder às questões cósmicas da vida. Em vez disso, eles escolhem sua espiritualidade com base no que atende

suas necessidades emocionais e os ajuda a lidar com questões pessoais, desde perder peso até ganhar
autoconfiança. Mas, quando “questões sérias estão em jogo”, como ganhar dinheiro ou atender às necessidades médicas

necessidades, diz Gellner, então as pessoas querem soluções baseadas em “conhecimento real”. Eles querem saber

os resultados testados da ciência e pesquisa objetivas.


O que isso significa é que a maioria das pessoas vive vidas fragmentadas. No mundo privado do lar,
igreja e amizades, eles operam na visão da verdade (valores subjetivos) que é completamente con-
trário àquele que empregam no mundo público do trabalho, negócios e política (fatos objetivos).
A oposição entre fatos e valores tornou-se o principal obstáculo para viver como pessoas inteiras
com uma filosofia de vida consistente e coerente.

Relativistas por Jesus


A visão dividida da verdade também se tornou o principal obstáculo para viver uma vida bíblica consistente

visão de mundo. Recentemente, conversei com um estudante de pós-graduação em química que


se converteu ao cristianismo no ensino médio, mas manteve um conceito dividido de verdade
por vários anos depois. “Eu operava na suposição de que o que aprendi na escola e na ciência era
realmente verdade”, disse ela, “enquanto a igreja
era uma espécie de grupo de apoio que fornece uma história agradável para ajudá-lo a lidar com a realidade.”

Quantos outros alunos do ensino médio operam com o mesmo conceito de verdade de dois níveis? Brett

Kunkle, da Stand to Reason, elaborou um pequeno teste para descobrir e tentou


com um grupo típico de jovens da igreja, ele primeiro explicou a diferença entre
subjetivo e objetivo. Dizer que algo é objetivo não significa que todos concordem, ou
que você saiba com certeza. Significa apenas que é capaz de ser verdadeiro ou falso.
Se você está trabalhando em um problema de matemática complexo, pode não ter
certeza de que tem a resposta certa. Mas você tem certeza de que existe uma
resposta certa, não apenas preferência pessoal.
30 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Depois de definir cuidadosamente os termos, Kunkle começou o teste. A camisa daquele cara é vermelha.” Objetivo.

“Vermelho é a cor mais legal.” Subjetivo. “2 + 2 = 4.” Objetivo. E assim por diante.

Então Kunkle disse: “Deus existe.” 75% dos adolescentes disseram que essa afirmação era
subjetiva.
Finalmente, ele disse: “Sexo antes do casamento é errado.” Todos, exceto um dos adolescentes, disseram queera subjetivo.
Claramente, esses jovens cristãos absorveram o dualismo fato/valor. Como resultado, eles não
compreendiam mais o caráter abrangente da verdade bíblica. Um adolescente disse: “Como cristão, eu
acho que sexo antes do casamento é errado”, mas outros grupos podem ter “sua própria opinião sobre o assunto
8
e tudo bem para eles.”
Em outras palavras, até mesmo adolescentes cristãos absorveram a ideia de que algo pode ser verdade para

você, mas não verdade para mim. O próprio significado da palavra verdade foi distorcido. Não significa mais
que uma declaração corresponde ao que realmente existe no mundo, mas apenas que corresponde à minha experiência interior.

ência. A lição preocupante é que é possível ir à igreja, estudar a Bíblia e frequentar o grupo de jovens,
mas ainda assim absorver uma visão secular da verdade da cultura secular global.
Devemos então nos surpreender que tantos adolescentes cristãos adotem estilos de vida seculares? O dividido

conceito de verdade produz jovens que são indecisos, instáveis em todos os seus caminhos
(Tiago 1:8). Tim Sweetman, um jornalista e blogueiro de dezessete anos, observa que muitos de
seus colegas se comportam como “agentes duplos”. Eles “são cristãos na igreja . . . mas têm uma
visão de mundo completamente secular. É como se tivessem uma dupla personalidade.” Sweetman conclui que esses frequentadores da igreja

ilustram “a história de nossa cultura — a ‘dicotomia’ do público e do privado, do coração e da


mente.” Suas vidas divididas são um espelho que reflete o conceito dividido de verdade.
Você pode tentar o teste de Kunkle você mesmo. Eu reuni um par de crianças do ensino fundamental e, em vez de perguntar

sobre sexo antes do casamento, porque eram mais jovens, eu disse: “Roubar é errado.”

“Isso é subjetivo”, um deles declarou


prontamente. “Por quê?”
“Alguém simplesmente inventouisso!ele respondeu.
Eu arqueei uma sobrancelha. “Já ouviu falar dos
Dez Mandamentos?” “Ops.”
Esses eram jovens educados em casa, criados em lares cristãos comprometidos. Eles tinham
aceitado os ensinamentos bíblicos cognitivamente, mas suas respostas automáticas e reflexivas foram moldadas

por uma sensibilidade pós-moderna da cultura pop circundante. Eles colocaram as verdades bíblicas no
andar superior como construções sociais — coisas que “alguém simplesmente inventou”.

Kunkle começou a ilustrar seu teste para líderes da igreja para ilustrar a mentalidade que eles enfrentam

ao trabalhar com adolescentes agentes duplos. Mas, para seu espanto, os adultos não conseguiam
10
ver qual era o problema. Sua resposta foi quase idêntica à dos adolescentes. Como podem

os cristãos “manejar corretamente a palavra da verdade” (2 Timóteo 2:15) se não mantêm uma visão bíblica
da própria verdade?
Verdade e Tirania 31

Cristãos são Intolerantes?


A visão de dois andares da verdade também molda a maneira como a maioria dos não cristãos responde quando eles

ouve o evangelho hoje. Josh McDowell tem dado palestras evangelísticas em campi
universitários por décadas. Ao longo dos anos, ele notou uma diferença marcante
nas respostas dos alunos. Costumava ser que, quando ele falava sobre a existência
de Deus ou a divindade de Cristo ou a ressurreição, ele era desafiado (e às vezes
hostilizado) com declarações como estas: “Eu não acredito nisso. Prove isso. Como
você pode dizer que um homem ressuscitou dos mortos? Dê-me alguma evidência.”
Nos últimos quinze anos, aproximadamente, os alunos pararam de fazer essas perguntas.

Em vez disso, eles normalmente respondem com declarações como estas: “Que
direito você tem de dizer isso? Você é intolerante! Você é um fanático! Quem
você pensa que é? Que direito você tem de julgar a vida moral de alguém?”
O que mudou? No passado, os alunos tratavam o evangelho como uma genuína alegação de verdade que poderia

ser apoiada apresentando razões e citando evidências — assim como qualquer outro conjunto
de proposições. Mas hoje os alunos colocam o cristianismo no andar de cima, onde é reduzido a
escolha pessoal e preferência. Claro, se algum grupo tentasse impor sua própria preferência
pessoal aos outros, isso seria

opressivo, coercitivo, fanático e intolerante. Isso explica por que tantas pessoas hoje tratam as
alegações cristãs como tentativas veladas de coerção. Ao falar sobre religião ou moralidade,
qualquer alegação de verdade é descartada como uma capa para uma luta de poder.

É por isso que é crucial para os cristãos abordar a desintegração da própria verdade. Antes que eles possam

argumentar que o cristianismo é verdadeiro, eles primeiro precisam esclarecer o que querem dizer com verdade. Isso foi

a questão central com a qual lutei pessoalmente quando era agnóstico. Quando fui para L’Abri
pela primeira vez, minha mente estava completamente encharcada de relativismo. Como
resultado, tive que lidar com a questão de saber se existia algo como a verdade objetiva — antes
mesmo de poder

considerar se o cristianismo era essa verdade. Em seus escritos, Schaeffer insistiu que
a fratura da verdade é “o problema mais crucial . . . que o cristianismo enfrenta hoje.”
Claro, como qualquer outra pessoa, os cristãos podem ser fanáticos às vezes. Mas, ironicamente, mesmo isso muitas vezes

decorre de uma visão deficiente da verdade. Quando os líderes da igreja perdem


a convicção de que o cristianismo é sobre a verdade objetiva, eles ficam tentando
persuadir e encorajar os jovens a acreditar e fazer as coisas certas. Gerações de
jovens da igreja foram encorajadas a reforçar seu compromisso religioso por pura
força de vontade, fechando os olhos e ouvidos a ideias contrárias. Isso explica
por que tantas igrejas estão cheias de pessoas de mente fechada, dogmáticas,
duras e julgadoras. Apenas as pessoas que entendem que o cristianismo é
verdadeiro para o mundo real são capazes da confiança relaxada que lhes
permite ser abertas, pacientes e amorosas com aqueles que diferem delas.
32 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

O Cristianismo é Exclusivo?
Compreender a divisão em dois andares fornece novas ferramentas para responder às mais co-
muns objeções contra o cristianismo. Provavelmente não há nada que ofenda mais a
sensibilidade moderna do que a afirmação de que a Bíblia é verdadeira em um sentido
único, exclusivo e universal. Ouvimos isso o tempo todo: Como você pode impor suas
opiniões pessoais a todos os outros? Claro, os cristãos reconhecem que outras religiões
e visões de mundo contêm elementos de verdade e, portanto,
eles podem ser abertos e generosos ao afirmar a verdade onde quer que ela seja encontrada. No entanto, eles
mantêm que o sistema abrangente de verdade que se encaixa na realidade é baseado em informações do

Criador nas Escrituras e na pessoa de Jesus Cristo. Para muitas pessoas modernas, isso
soa incrivelmente exclusivo e arrogante. Por quê? Porque eles automaticamente,
irrefletidamente, colocam todas as reivindicações religiosas no andar superior, onde não
são questões de verdade, mas meramente tradição étnica ou cola social ou experiência
inefável.
Pense desta forma: Se algo genuinamente é uma questão de gosto ou tradição, então seria
errado impô-lo aos outros. Se eu torço para o New York Giants enquanto você
torce para o Chicago Bears, então seria bobo e até intrusivo para mim insistir que
você deveria torcer pelo mesmo time que eu. Eu cresci em uma família sueca onde
celebramos o Dia de Santa Lúcia. Talvez você tenha crescido com tradições
diferentes. Seria arrogante e exclusivo para mim insistir que você deve celebrar
apenas feriados suecos.
A divisão fato/valor ensinou a maioria das pessoas a colocar a religião na mesma categoria. Isso explica

por que os cristãos são frequentemente acusados de impor suas opiniões, não importa o quão gentis e educados
eles possam ser pessoalmente. Os cristãos pretendem comunicar verdades objetivas e que dão vida sobre o real

mundo. Mas suas declarações são interpretadas como tentativas de impor preferências pessoais. Para o

secularista, então, os cristãos não estão meramente errados ou enganados.


Eles estão violando as regras do jogo em uma sociedade democrática.
Uma vez que reconhecemos esse mal-entendido, as objeções comuns ao cristianismo se tornam

mais compreensíveis. Elas também se tornam mais fáceis de desmascarar. Afinal,


ninguém se ofende que as teorias científicas reivindiquem a verdade exclusiva. Ninguém
acusa os cientistas de serem estreitos e arrogantes quando eles propõem as leis da
genética ou da física. Essas leis podem não estar em sua forma final ainda; elas podem
acabar sendo alteradas com mais pesquisas. Mas ninguém duvida que a resposta,
quando a encontrarmos, será exclusiva. Não há uma variedade de diferentes sistemas
de ciência dos quais podemos escolher, de acordo com nosso gosto pessoal ou origem
étnica. Então, por que assumir que a teologia e a moralidade são completamente
diferentes de tudo o mais que sabemos? Por que assumir que há um abismo absoluto
separando o conhecimento científico do conhecimento teológico e moral?
Pegue outro exemplo: A dicotomia de dois andares explica por que tantas pessoas modernas
deploram a ideia de enviar missionários para outros países. Eu estava uma vez lendo o site de
uma organização missionária, e na seção de comentários eu vi que um crítico havia escrito, em
essência, Por que vocês, cristãos, não respeitam as crenças e tradições culturais de outras
pessoas? Por que você
Verdade e Tirania 33

acha que os seus são superiores? Você praticou genocídio cultural, eliminando
culturas inteiras em sua ambição imperialista de refazer todos à sua própria imagem.
Novamente, essa objeção comum faz sentido quando compreendemos a dinâmica do superior/inferior

divisão da história. Se o cristianismo realmente não fosse nada além de tradição étnica ou cola social,
então impô-lo a outras sociedades seria imperialista. Mas ninguém levanta a mesma objeção quando

exportamos conhecimento científico, como saneamento, técnicas agrícolas ou cuidados médicos. Nesse
caso, entende-se que a verdade supera o mero costume—que as sociedades se beneficiam ao ter acesso a

conhecimento. Por que colocar o conhecimento teológico em uma categoria completamente diferente?

Ironicamente, aqueles que se orgulham de serem abertos e tolerantes muitas vezes acabam apenas prati-

cando um tipo diferente de intolerância. Eles resistem à ideia de que qualquer religião
seja verdadeira, porque isso implica que as outras são falsas—o que eles consideram
desrespeitoso. Parece mais respeitoso dizer que todas as religiões são formas
simbólicas de descrever uma experiência mística, ou dar conforto emocional, ou
motivar as pessoas a serem morais, ou algo assim. Em outras palavras, no caso da
religião, os ensinamentos reais não importam, apenas os efeitos sociais e emocionais.
Mas essa visão relativista é realmente tolerante? Dizer que os ensinamentos não importam é dizer
que todas as religiões estão erradas—porque todas as religiões afirmam que seus ensinamentos importam. O rela-

A visão tivista insiste que os hindus estão errados; os budistas estão errados;
Muçulmanos, judeus e cristãos estão errados—e que apenas a visão pós-moderna e
superior da religião está certa. Como comenta o filósofo Alvin Plantinga: “Acho difícil ver
como essa atitude é uma manifestação de tolerância ou humildade intelectual: parece
mais um condescendência paternalista.” A visão relativista de
religião é tão exclusiva quanto as alegações de qualquer religião tradicional.

C. S. Lewis: Não Podemos Estar Todos Certos


Surpreendentemente, até mesmo os defensores da religião às vezes aceitam a divisão fato/valor. É assim que você

pode dizer que os secularistas venceram a guerra territorial pelo domínio intelectual—quando as pessoas cedem

à definição secularista de suas próprias visões. Normalmente, isso representa uma forma de bar- cognitivo

ganho: A suposição é que, se você colocar a religião além do alcance da razão e da racionalidade
(isto é, no andar superior), então você a torna imune à refutação.
Mas a barganha tem um custo oculto íngreme. Pois, se algo não pode ser testado de forma alguma
maneira e demonstrado ser falso, da mesma forma, não pode ser testado e conhecido como verdadeiro. Pode
só pode ser acreditado cegamente.

Um exemplo extremo vem de um artigo do jornalista Lee Siegel respondendo aos Novos
Ateus. “A existência de Deus é indemonstrável, não verificável e objeto de um impraticável
salto de fé, fé no absurdo”, declara ele. “Sua disposição de apostar sua vida na possi-
14
bilidade de uma impossibilidade transforma uma fantasia em um fato.” Você consegue imaginar qualquer outra área da vida

onde estaríamos dispostos a apostar nossas vidas em uma impossibilidade, esperando transformar “um fato em

uma fantasia”?
34 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Tal estratégia irracional acaba sendo contraproducente. Qualquer benefício que as pessoas obtenham da religião—

qualquer poder que ela tenha para satisfazê-las emocionalmente ou motivá-las moralmente—vem da convicção

de que ela é, antes de tudo, verdadeira. Frequentemente ouvimos as pessoas dizerem que você pode acreditar no que quiser, desde que

atenda às suas necessidades, desde que funcione para você. O problema com essa visão pragmática é
que, ironicamente, não funciona. Se você aceita uma religião apenas para satisfazer uma necessidade emocional, então você

nunca será capaz de se livrar da sensação perturbadora de que ela não passa de uma projeção de sua própria

mente. E, portanto, ela nunca terá o poder de mudá-lo—de superar sua culpa, medos,
compulsões, disfunções, vícios e feridas emocionais. O único Deus que pode nos mudar
é um Deus que é “maior do que nossos corações” (1 João 3:20). Paradoxalmente, o que os humanos mais precisam
15
é de um Deus que não seja produto de sua própria necessidade.

É por isso que a estratégia de despojar a religião de suas alegações de verdade para torná-la segura contra a refutação

é autodestrutiva. Para usar a linguagem inflamada de J. S. Bezzant, “a imunidade à prova pode garantir
16
nada além de imunidade à prova, e [vamos] chamar o absurdo pelo seu nome.” Dele
O ponto é que, se sua religião está tão isolada da realidade que você não pode apresentar razões contra ela,

então não é o tipo de coisa para a qual você pode dar razões a favor. Você só pode dar esse salto para o
absurdo. Há um desespero terrível em apostar toda a sua vida em algo que não pode ser conhecido
ou raciocinado, mas apenas acreditado cegamente.

A única saída desse desespero é recuperar uma confiança robusta na possibilidade de moral
e verdade teológica. C. S. Lewis disse uma vez: “O cristão e o materialista têm crenças diferentes
sobre o universo. Eles não podem ambos estar certos. Aquele que está errado agirá de uma forma que
17
simplesmente não se encaixa no universo real.” Isto é, declarações morais e teológicas ou se encaixam no real
universo ou não. Nesse sentido, podemos até falar de fatos morais e teológicos. Hoje, uma
frase como fatos morais levanta sobrancelhas. Parece para a maioria das pessoas um oximoro. O que pode ser uma

boa razão para começar a usá-la. Ela traz de volta ousadamente o que a dicotomia fato/valor tem
dividido.

A Cedência Liberal
A cedência a uma definição secularista de religião pode ser vista em todos os lugares, mas mais obviamente

na teologia liberal. O liberalismo está feliz em ceder ao naturalismo científico o direito de


declarar a verdade sobre o universo (fatos). Em seguida, trata a religião como meramente
uma sobreposição de significado sobre o que quer que a ciência decrete (valores).

Considere alguns exemplos. Um rabino escrevendo sobre evolução em USA Today disse: “A ciência
18
explica como o mundo é. A religião explica por que o mundo é.” Eu não sei de qual religião ele
estava falando. Certamente não sua própria tradição do judaísmo, que está cheia de alegações sobre “como

o mundo é”, tanto sua criação quanto sua história, especialmente a história de Israel.
Da mesma forma, quando o padre católico Michael Heller recebeu o Prêmio Templeton de 2008, ele afirmou:
19
“A ciência nos dá conhecimento e a religião nos dá significado.” Mas essas duas coisas podem realmente ser
Verdade e Tirania 35

tão bem divididos? Quando alguém afirma que Cristo ressuscitou dos mortos, isso
é conhecimento ou significado? A resposta, claro, é que é ambos. Se a ressurreição
não aconteceu na história, então não pode ter nenhum significado espiritual.
O cristianismo ortodoxo se recusa a separar o fato histórico do significado espiritual. Seu núcleo
afirma que o Deus vivo agiu na história, especialmente na vida, morte e ressurreição de
Jesus. Outras religiões dizem às pessoas o que elas devem fazer para alcançar a salvação, ou se tornarem santas, ou alcançar

Nirvana, ou se conectar com o divino. O fardo da obrigação está sobre o indivíduo para realizar
as cerimônias corretas ou aperfeiçoar os rituais corretos. O evangelho cristão é único porque é o
narrativa do que Deus fez na história para realizar a salvação.
Teólogos liberais tipicamente desistem das alegações históricas do cristianismo pelo que eles dizem
é algum núcleo espiritual ou ético mais profundo. Mas se você remover a história, não sobra nenhum núcleo. Se

Deus não agiu na história para realizar a salvação, então não há "boas novas" para contar (o
significado literal da palavra evangelho). Como Paulo disse às audiências do primeiro século, se Jesus não ressuscitou

dos mortos, se o túmulo não estava vazio, então a fé cristã é baseada em uma mentira e é
inútil (1 Cor. 15:17). Ele até exortou seus ouvintes a confirmar a alegação procurando os cinco
centenas de testemunhas oculares que tinham visto o Cristo ressuscitado. Paulo estava usando um termo legal, o que significa

ele estava tratando a ressurreição como qualquer outro evento que pudesse ser testado por sua veracidade. O cen-

tral alegação do cristianismo é um fato histórico teimoso, que estava aberto à investigação empírica
e conhecível por meios ordinários de verificação histórica.
Os apóstolos estavam tratando a ressurreição de uma forma semelhante ao que os cientistas hoje chamam de crucial

experimento—um evento que confirma ou desconfirma uma teoria inteira (ou uma teologia inteira). Em
suas mentes, fatos históricos e verdades espirituais devem ser coerentes. Fatos e fé devem concordar. Verdade
é uma unidade.

Por que as Igrejas Liberais Falham


Hoje, essa visão da verdade é o único fator determinante para saber se uma igreja cresce ou morre. A

Um estudo de 1994 procurou explicar por que as igrejas teologicamente liberais estão em
declínio, mesmo que as igrejas conservadoras estejam em ascensão. Muitos líderes de
igreja pensam que a maneira de atrair pessoas para o santuário é usando esquetes,
música pop e videoclipes no culto. Mas, surpreendentemente, o estudo descobriu que o
crescimento real da igreja não tem nada a ver com truques ou técnicas. Em vez disso, o
fator central é a visão da igreja sobre a verdade. O estudo descobriu que quanto mais
fortemente as pessoas afirmavam as doutrinas cristãs ortodoxas como objetivamente
verdadeiras—verdadeiras para todos, em todos os lugares—mais propensos eram a se
envolver ativamente em uma igreja. A razão pela qual as igrejas liberais estão em declínio
é sua “rejeição da alegação de que o cristianismo . . . é a única religião verdadeira.”
No entanto, o problema nas igrejas liberais é ainda mais profundo do que simplesmente rejeitar o cristianismo como o

única religião verdadeira. Muitos rejeitam até mesmo as categorias de verdadeiro e falso. Alguns dos cristãos liberais

entrevistados no estudo disseram que não se importavam se seus filhos se tornassem budistas “contanto que
36 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

20
como eles acreditavam em algo.” Na visão superior da religião, não importa o que

você acredita, desde que atenda às suas necessidades emocionais. O estudo concluiu
que “os liberais não têm uma verdade convincente, nenhuma ‘boa nova’ para proclamar.”
Outro estudo, feito em 1998, descobriu resultados semelhantes. Quando um luterano da linha principal foi

perguntado como ele sabia que sua fé era verdadeira, ele disse aos pesquisadores:
“Ninguém realmente sabe se a fé cristã é verdadeira.” Outro disse: “Se minha fé é
verdadeira ou não, não é uma questão para mim. . . . A verdade é efêmera, está
mudando: o que é verdade hoje não é verdade amanhã.” Ele resumiu seu credo dizendo:
“O que quer que te agrade está bom para mim” Não é de admirar que as igrejas liberais não consigam inspirar
compromisso. Eles reduziram sua fé ao Cristianismo Lite.
A chave para o poder da mensagem bíblica é a convicção de que ela é realmente verdadeira - objetiva-

mente, universalmente, cosmicamente verdadeira. Não é meramente um mecanismo


psicológico de enfrentamento. Não é um produto sociológico da cultura ocidental. É
a verdade sobre o próprio universo. Essa convicção é o que diferencia o cristianismo
ortodoxo do cristianismo Lite. E é a fonte do verdadeiro crescimento da igreja.

Claro, conhecer a Deus vai muito além da mera concordância mental com a mensagem da Bíblia. Isso

seria como uma pessoa faminta que se senta diante de um banquete extravagante e diz:
Sim, eu acredito que existe comida - mas então não come nada. Somos feitos para
experimentar a verdade e a presença de Deus com todo o nosso ser. Percebi que uma das
minhas alunas teve a impressão errada quando escreveu em seu guia de estudo: “A Dra.
Pearcey acha que não devemos ser tão emocionais em nossa adoração.” Esclareci
rapidamente que, uma vez que uma pessoa está fundamentada em um conceito bíblico de
verdade, então as emoções podem aumentar. Como John Stott diz em Seu Espírito Importa,
“Eu não estou defendendo
um cristianismo seco, sem humor e acadêmico, mas uma devoção calorosa
incendiada pela verdade.” Conhecer a Deus é um relacionamento de amor que
envolve toda a pessoa: coração, alma, mente e força (Marcos 12:30). Para manter
esse rico equilíbrio, no entanto, os cristãos devem sempre se inclinar contra o erro
predominante de sua época. E o erro mais característico hoje é a quebra da
verdade.

Expulsando a Bíblia da Sala de Aula


É também a principal estratégia usada para marginalizar e desempoderar os cristãos no público

arena. Em poucas palavras, a divisão fato/valor permite que os secularistas rejeitem


pontos de vista opostos não reunindo bons argumentos contra eles, mas simplesmente
transferindo-os para o andar superior de valores não cognitivos. Por que se preocupar
em argumentar que o cristianismo é falso quando é muito mais fácil tirá-lo do reino do
verdadeiro e do falso? Desta forma, uma visão de mundo teísta pode ser descartada
como nada além de preferência pessoal e preconceito. E o preconceito privado não tem
lugar na esfera pública - em áreas como política governamental ou educação pública.

Isso explica, por exemplo, o processo pelo qual a educação pública americana foi secularizada.
Até a década de 1930, as universidades americanas estavam comprometidas com “a unidade da verdade”, diz Harvard
Verdade e Tirania 37

historiadora Julie Reuben. Eles tinham “a convicção de que todas as verdades


concordavam e, em última análise, poderiam ser relacionadas umas às outras em um
único sistema”. Essa convicção repousava, em última análise, em uma visão de mundo
bíblica. “Como o Deus cristão era uma mente única e unificada e a fonte de todas as
verdades, o currículo era unificado”, explica o filósofo J. P. Moreland. “Esperava-se que
cada disciplina lançasse luz e harmonizasse com todas as outras disciplinas.”
O que marca a era moderna é o rompimento do ideal da unidade da verdade. Nas palavras de Reuben,

palavras, as universidades passaram a aceitar a ideia de que “apenas a ‘ciência’ constituía o


verdadeiro conhecimento”. A teologia e a ética foram movidas para o andar superior, onde
“poderiam ser ‘verdadeiras’ em um sentido emocional ou não literal, mas não em termos de
conhecimento cognitivamente verificável”.
Eventualmente, eles passaram a ser considerados totalmente prejudiciais ao empreendimento acadêmico. Pois se

os valores são puramente subjetivos, então eles ameaçam contaminar a pesquisa


objetiva. Assim, surgiu a ideia de que a bolsa de estudos deve ser “livre de valores”.
Por exemplo, nas ciências sociais, Max Weber argumentou que, para tornar a sociologia verdadeiramente

científicos, os pesquisadores devem parar de avaliar os arranjos sociais por


padrões morais de justiça ou equidade. Em vez disso, eles devem simplesmente
descrevê-los factualmente, sem comentários morais. Em economia, Lionel Robbins
argumentou que a economia não deveria mais servir a uma visão ética de criação
de uma ordem social humana e equitativa. “A economia lida com fatos verificáveis;
ética com valoresNae Introdução,
obrigações.”
traçamos a mesma tendência na teoria política. Você pode

dizer que a bolsa de estudos foi definida como livre de valores porque os valores foram
primeiro definidos como “livres de fatos” - não mais enraizados no mundo objetivo.
A secularização da educação americana também foi impulsionada por motivos pessoais e profissionais.

vações. Sob o ideal da unidade da verdade, os estudiosos sentiram a obrigação de encontrar maneiras de
harmonizar os achados da ciência com as verdades da teologia. Em Ciência Livre de Valores? o historiador Robert

Proctor diz que os estudiosos começaram a defender a “autonomia” de sua


pesquisa porque queriam torná-la “imuneEm
a outras
críticas religiosas
palavras, a ideia de ou
scholmorais”.
livre de valores-

arship os deixou de fora. Se a teologia e a ética pudessem ser colocadas em


quarentena no andar superior, então os estudiosos não precisariam mais
perguntar se suas teorias harmonizavam com uma visão de mundo cristã. Eles não
precisavam mais se preocupar com as implicações morais de seu trabalho. Em vez
disso, eles estavam livres para ver seu estudo como uma arena amoral útil para
satisfazer sua própria ambição por prestígio acadêmico, poder ou ganho material.
Os historiadores frequentemente tratam a ascensão do secularismo como um subproduto inevitável e automático da mod-

ernização. Mas não havia nada de inevitável nisso. Foi perseguido intencionalmente
e agressivamente por aqueles que pensavam que servia a sua vantagem pessoal.

Protegendo as crianças da religião


E eles estavam certos. O dualismo fato/valor provou ser notavelmente eficaz para avançar
o poder social e político dos secularistas, enquanto despoja a praça pública de moral e teológica
38 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

perspectivas. Isso ocorre porque permite que os secularistas reivindiquem um monopólio sobre a verdade. Eles não
precisam proibir ideias ou usar medidas coercitivas. Tudo o que eles precisam dizer é: Nossas visões seculares são
baseadas em

ciência e fatos objetivos. Mas suas visões teológicas são pessoais e privadas. E
embora certamente as respeitemos, você não tem o direito de aplicar suas
preferências privadas à esfera pública — à política, à educação ou à saúde.
O conceito de tolerância foi redefinido para significar que convicções morais e teológicas

estão bem, desde que sejam mantidas na esfera privada. A implicação é que qualquer pessoa que
traga uma perspectiva cristã para a esfera pública não será tolerada. Como diz Stanley Fish, sob

o regime de tolerância secular, os adeptos religiosos são compelidos a viver vidas duplas
— a suprimir suas convicções mais profundas quando entram no local de trabalho ou
no espaço cívico. Em público, eles são obrigados a apoiar ideias como “individualismo,
progresso, lucro e secularismo”, mesmo que em casa estejam comprometidos com
ideais alternativos, como comunidade, altruísmo e transcendência.
Assim, ironicamente, o termo tolerância é usado para justificar a intolerância em relação ao cristianismo. É até

tratado como algo socialmente prejudicial que deve ser cuidadosamente contido,
como a pornografia. Francis Crick, da fama do DNA, disse uma vez que o cristianismo
está bem entre adultos que consentem, mas não deve ser ensinado a crianças.
Essa dinâmica explica por que as instituições americanas de poder — direito, mídia, academia, entretenimento — são altamente secularizadas, embora a nação tenha uma história cultural amplamente
cristã, e mesmo que a população americana permaneça a mais religiosa entre as nações industrializadas. Peter Berger oferece uma metáfora impressionante para esse estranho cisma. Estatisticamente, em
termos do número absoluto de adeptos religiosos, diz ele, o país mais religioso do mundo é a Índia. O país mais secular do mundo é a Suécia. Então, como poderíamos caracterizar a América? É uma nação
de “índios” governada por “suecos”. Ou seja, a população é tão religiosa quanto os índios, enquanto

o poder das elites é tão secular quanto


o dos suecos.
Vamos dar um passo adiante nessa analogia. Como as elites “suecas” estabelecem e
mantêm
seu poder? Como eles conseguem afastar todos os desafios dos “índios”? A divisão fato/valor faz o trabalho para eles. A visão dos “índios” é colocada no andar superior, onde é tratada como um passatempo
pessoal inofensivo, em vez de um concorrente sério pela verdade. Como reclama o professor de direito de Yale, Stephen Carter, a cultura de elite trata a religião como privada e trivial, “como construir
aeromodelos, apenas mais um hobby”, não algo que deveria “ser mencionado em um discurso sério”.

Um exemplo notável apareceu no filme


documentário “Expulso”. O biólogo P. Z.
Myers, um
polemista agressivo do ateísmo, disse que espera ansiosamente o dia em que a religião seja tratada como um passatempo que as pessoas fazem por diversão no fim de semana
“como tricotar” — algo “que realmente não afeta suas vidas”.

É claro que, quando as perspectivas teológicas


são trancadas no reino privado, apenas
perspectivas seculares estarão operando no reino público. Isso explica a reclamação comum expressa pela população americana de que “Washington não está ouvindo”. Suas ideias
nunca chegam lá
Verdade e Tirania 39

passado o guardião intelectual. A dicotomia fato/valor tem o efeito de


privar grupos-alvo de poder social e político. Eles podem ser acomodados
por um tempo por conveniência política. Mas suas ideias não são levadas
a sério e serão descartadas assim que o clima político permitir.
Um clipe de notícias recente ilustra como funciona. Em maio de 2008, o parlamento britânico aprovou
a criação de híbridos animal-humanos em laboratório. O editor de ciência do Times saudou-o como “um
divisor de águas para a ciência britânica” e “investigação científica livre”. Ele então elogiou o Parlamento por sobre-
31Ocientíficos
ponto é que, uma vez que os lados opostos foram rotulados como
passar a oposição do que ele chamou de “uma minoria religiosa”. necessário.
versus religiosos, nenhum argumento adicional foi considerado

Os lados opostos foram rotulados como científicos versus religiosos, nenhum argumento adicional foi considerado necessário.

Todas as objeções morais, éticas, filosóficas e metafísicas aos híbridos


animal-humanos foram simplesmente ignoradas.
O Newsweek editor de religião rotulou os dois lados opostos de forma ainda mais marcante: “A razão
32
define um tipo de realidade (o que sabemos); a fé define outro (o que não sabemos). Em qualquer

debate público, o que sabemos obviamente vai vencer o que não sabemos sempre.

Nas palavras de Phillip Johnson, ex-professor de direito da UC Berkeley, “Agnósticos


governam a América . . . porque sua metafísica (ou seja, naturalismo científico) governa
as universidades, e as universidades controlam
Isto é, asauniversidades
definição social de conhecimento.”
definem “o que sabemos”.
Todd Gitlin estava certo: Quem marchar sobre o departamento de inglês—e o resto da
universidade—acabará exercendo poder político.

Polícia Bom/Polícia Mau


Falar sobre a visão de verdade de uma cultura pode parecer abstrato, mas a recompensa é altamente prática.

Você pode pensar na divisão fato/valor como uma variação da estratégia de polícia
bom/polícia mau. Por um lado, quando os secularistas estão se sentindo confiantes, eles
afirmarão categoricamente que a ciência desmentiu o cristianismo e que é hora de
pessoas maduras enfrentarem os fatos e descartarem os falsos confortos da religião. Essa
é a postura de polícia mau. Quando eu era estudante universitário, era a postura típica
da maioria dos meus professores. Hoje é a retórica de Novos Ateus como Christopher
Hitchens, que diz: “Acho que a religião deve ser tratada com ridículo, ódio e desprezo.”

No entanto, quando o público protesta vigorosamente contra a tomada ateísta da sociedade,

os secularistas adotarão o comportamento conciliatório do polícia bom. Eles


garantirão a todos que realmente não há conflito e que respeitam os “valores
queridos” ou “crenças profundas” de todos. Mas o uso de linguagem emotiva é
um truque. Ele silenciosamente desliza visões teologicamente baseadas para o
andar de cima, onde não têm impacto no mundo “real” da ciência, política,
educação, negócios ou saúde. E uma vez que o público tenha sido embalado de
volta à complacência, o polícia mau pode retomar seus ataques.
Considere um exemplo. Em 1998, Paul Kurtz, fundador do Conselho para o Secular
Humanismo, estava funcionando no modo polícia mau. Ele afirmou que o naturalismo evolucionário
40 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

35
tinha decisivamente refutado a existência de um Criador. Alguns anos depois, no entanto, notando um aumento na

“religiosidade” em toda a América, Kurtz recomendou uma estratégia mais conciliatória. No Skeptical
Inquirer, ele continuou a insistir que todas as religiões “traficam em fantasia e ficção”. No entanto, ele

exortou seus colegas céticos a suavizar o golpe ao falar com o público. “Eu acho que religião e
ciência são compatíveis”, escreveu ele, “dependendo, é claro, do que se entende por religião.”

Bem, o que ele quis dizer com o termo? “A religião apresenta poesia moral, inspiração estética,

rituais cerimoniais performáticos”, escreveu ele. “A imaginação religiosa


criativa tece contos de consolo e de expectativa. São expressões dramáticas do
anseio humano, permitindo que os humanos superem
Esta é a linguagem doapolicial
dor ebom.
a depressão.”
Sob a

retórica pesada, Kurtz está dizendo que a religião pode ser tolerada apenas se tratada como uma
forma de terapia—consolando e inspirando talvez, mas ainda essencialmente “fantasia e ficção”.

Enquanto o cristianismo for tratado como “poesia moral” e “contos de consolo”, ele não representa

ameaça à soberania do secularismo. É manso e seguro. Mas também fica muito aquém
da definição robusta e completa de verdade da Bíblia. O cristianismo tem um rico
impacto expressivo e emocional, mas apenas porque é antes de tudo fiel à realidade.
Em suma, os secularistas propõem que religião e ciência não precisam entrar em conflito, desde que a religião seja

definida à maneira deles. Essencialmente, eles estão dizendo: “Dai a César o que é de César, e
37
a Deus o que César diz que ele pode ter.”
Este é o cerne da estratégia de policial bom/policial mau. A doutrina das esferas separadas é
retratada como um dispositivo de manutenção da paz. Mas quando você lê as letras
miúdas, você descobre que o tratado de paz relega o cristianismo à reserva, onde é
proibido fazer qualquer alegação factual que possa entrar em conflito com uma versão
materialista da ciência. É uma estratégia projetada para pacificar os religiosos sem dar
espaço para alegações de verdade religiosa.
As equipes esportivas dariam qualquer coisa se pudessem ver os playbooks de seus oponentes. Mas
os cristãos têm o playbook de seus oponentes. Os detalhes podem diferir, mas a estratégia será alguma ver-

são da divisão da verdade em dois andares.

Tolerância Opressiva
No entanto, a ruptura da verdade não é um problema apenas para os cristãos. Tem consequências corrosivas

em todos os aspectos. Afinal, as pessoas seculares estão tão ansiosas para promover as causas morais com que se importam

mais—direitos das mulheres, ambientalismo, direitos ao aborto, direitos dos homossexuais, o que for.
O problema é que, por sua própria definição de valores, suas visões morais não têm respaldo cognitivo.

Isso explica por que há tanta pressão por correção política—porque não há
38
outra forma de correção. Se o conhecimento moral é impossível, então ficamos apenas com medidas políticas
e legais para coagir as pessoas à conformidade.
Como resultado, as mesmas pessoas que aspiram a se libertar do que chamam de moral opressiva
estão, na verdade, abrindo caminho para novas formas de opressão. Como o teórico literário Terry Eagleton
Verdade e Tirania 41

explica, “‘Valor’ é um termo transitivo: Significa o que é valorizado por certas pessoas em situações específicas.” Não existe uma medida universal para medir valores. Eles são meramente questões de gosto pessoal. E o
gosto pessoal não está aberto à persuasão racional. Tudo o que resta é poder e coerção—cada grupo buscando impor suas próprias preferências aos outros. Como diz Eagleton, os valores são meramente “as
suposições pelas quais certos grupos sociais exercem e mantêm poder sobre os outros.”

situações.” Não existe uma medida universal para medir valores. Eles são
meramente questões de gosto pessoal. E o gosto pessoal não está aberto à
persuasão racional. Tudo o que resta é poder e coerção—cada grupo buscando
impor suas próprias preferências aos outros. Como diz Eagleton, os valores são
meramente “as suposições pelas quais certos grupos sociais exercem e mantêm
poder sobre os outros.”
Exatamente. Jovens como os adolescentes no comício em Nova York frequentemente aceitam o relativismo moral,

ismo porque querem ser tolerantes e não-julgadores. Mas, na realidade,


estão abrindo a porta para uma política de manipulação e coerção. A
perda de objetividade no pensamento moral não leva à libertação. Leva à
opressão. Ideologias seculares pregam liberdade, mas praticam tirania.
Reconhecendo o problema, alguns secularistas estão procurando maneiras de resgatar um status objetivo

para a moralidade. A estratégia preferida é invocar a psicologia evolucionista. Quase não


passa uma semana sem que um artigo apareça na imprensa popular alegando que a
seleção natural explicou a origem deste ou daquele traço moral. Tipicamente, o
argumento segue algo como isto: Vocês cristãos afirmam que é impossível ter
moralidade sem Deus. Bem, nós resolvemos isso

problema. Forças evolucionárias podem produzir empatia, cooperação, ajuda mútua


e todas as outras formas de ligação social. Esses comportamentos são selecionados
porque ajudam a garantir a aptidão genética e promovem a sobrevivência.
Voilá, a evolução se torna a base para o realismo moral. E os biólogos evolucionistas se tornam
os novos sacerdotes. Como diz um artigo do New York Times , se “a moralidade surgiu de regras comportamentais

moldadas pela evolução”, então “cabe aos biólogos, não aos filósofos ou
teólogos, dizer quais são essas regras.”
Mas a psicologia evolucionista realmente consegue fornecer uma base objetiva para a moralidade?
idade? Longe disso. Pois quando a moralidade é redefinida em termos de comportamento não moral, como passar
41
em seus genes, então não é mais genuinamente comportamento moral, escolher o certo do errado.

A bondade se torna uma ilusão programada no organismo humano pela seleção natural
porque faz com que os grupos cooperem melhor e sobrevivam por mais tempo. O
psicólogo evolucionista Michael Ruse coloca isso de forma direta: “A moralidade é uma
ilusão coletiva da humanidade colocada em prática por nossos genes para nos tornar
bons cooperadores.”
Em suma, um relato evolucionário da moralidade se baseia em uma equivocação de termos. Fala de
bem e mal, mas não são mais categorias morais. Em seus cadernos de 1838, Darwin rabiscou:
“Nossa descendência, então, é a origem de nossas paixões malignas!!—O Diabo sob [a] forma de [o]
Babuíno é nosso avô!” Ou seja, o que chamamos de mal são meramente paixões animais herdadas. O
genes de babuíno me fizeram fazer isso.

Mas se o que chamamos de mal é um produto natural de forças evolucionárias, então não temos base
para nos opormos a ele—o que significa que acabaremos conluiando com a opressão e a injustiça. Em um
42 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

artigo provocativo, dois filósofos argumentam que os darwinistas realmente deveriam ser niilistas
completos (do latim nihil, que significa nada) . Eles deveriam ser niilistas metafísicos que negam

“que existe algum significado ou propósito para o universo.” E eles deveriam ser niilistas éticos que

negam quaisquer “valores e obrigações intrínsecas”. Por quê? Porque a


moralidade só faz sentido em um mundo
A moralidade é umaimbuído de significado
forma de declarar e propósito.
para que os humanos são projetados

para fazer — seu propósito de vida. E se não há Designer, então não há design ou propósito.
Portanto, não pode haver moralidade genuína.
Quando a evolução darwiniana é aceita no andar de baixo como fato, então a moralidade é inevita-
velmente transferida para o andar de cima do valor não cognitivo. O que significa que não há como evitar a
opressão de algum grupo impondo seus valores sobre o resto de nós.

Em nome da tolerância e liberdade genuínas, é urgente desafiar a divisão de duas zonas da verda-

de. Aqueles que se apegam ao conceito dividido de verdade normalmente se


consideram de mente aberta e tolerantes. Mas, na realidade, eles estão impondo sua
própria visão estreita, limitada, culturalmente condicionada e secular da verdade sobre
o resto da sociedade. Recuperar a unidade da verdade é a chave para a renovação,
tanto na igreja quanto na cultura.

Fariseus seculares
Qual é a melhor estratégia para ajudar as pessoas a superar a divisão de dois andares? A mais poderosa

crítica é simplesmente apontar que ninguém realmente adere a ela na


prática. A divisão da verdade criou dois domínios contraditórios que são
exagerados a ponto de serem irrealistas e invivíveis.
Começando com o andar de baixo, muitos historiadores e filósofos da ciência hoje reconhe-
cem que a ciência não é a busca por fatos puramente objetivos e neutros. Os cientistas são movidos tanto

quanto qualquer outra pessoa por interesses pessoais, ambições profissionais, compromissos
políticos e visões de mundo metafísicas. A visão de mundo dominante na academia hoje é o
naturalismo evolucionário, que vai muito além de meros fatos. É um sistema explicativo que
tenta interpretar os fatos.
Em um artigo sincero, um jornalista científico admite: “Acredito que uma explicação
material será encontrada [para a origem da vida], mas essa confiança vem da minha fé
de que a ciência está à altura da tarefa de explicar, em termos puramente materiais ou
naturalistas, toda a história da vida.” Ele conclui: “Minha fé é bem fundamentada, mas
ainda é fé.”
Infelizmente, a maioria dos cientistas não está tão consciente de si. A divisão fato/valor os cega para o

status de fé de suas próprias visões. Como resultado, as visões de mundo


seculares se safam alegando ser objetivas e imparciais. É hora de blefar.
O andar de cima é igualmente irrealista e invivível. Ninguém é um relativista moral consistente.
A maioria das pessoas está dolorosamente consciente da injustiça e opressão no mundo, e tem
certeza de que está errado — não apenas desagradável ou pessoalmente ofensivo, mas
genuinamente errado. Eles não tratam sua própria oposição à injustiça como um mero valor
privado de andar superior.
Verdade e Tirania 43

E eu diria que ninguém realmente consegue. Todos os seres humanos são feitos à imagem de Deus,
programados com um senso moral intrínseco. Como Romanos 2 diz, mesmo aqueles que não conhecem a
lei revelada de Deus, no entanto, têm a lei moral “escrita em seus corações”. Como resultado, eles estão cons-
tantemente fazendo julgamentos mentais. Ele não deveria fazer isso. Ela é tão insensível. As pessoas não podem funcionar

por algumas horas sem fazer avaliações morais.


Isso é verdade mesmo para aqueles que insistem que a moralidade é relativa. O famoso ateu Bertrand

Russell certa vez expôs sua teoria de que bom e ruim não têm validade objetiva — então, min-
utos depois, denunciou ferozmente alguém por ser “um canalha!”. Ironicamente, os relativistas morais
muitas vezes se orgulham de serem moralmente superiores aos outros. Afinal, eles são tolerantes e não
críticos. Eles não são como outras pessoas que são intoleravelmente fanáticos e de mente fechada e
merecem a mais dura condenação. Todo grupo traça uma linha na areia em algum lugar que permite
que se sintam moralmente superiores, como o fariseu na parábola de Jesus que agradeceu a Deus por não ser

como outras pessoas (Lucas 19:11). O relativismo moral pode alegar ser sobre tolerância e humildade,
mas na realidade, muitas vezes, promove uma atitude altamente moralista e condenatória.

O resultado é que ninguém funciona na vida real com base na divisão fato/valor. Embora
muitas pessoas absorvam sua linguagem moralmente relativista, ela não corresponde à maneira como realmente vivem.

Não corresponde a quem eles realmente são. Eles foram cooptados por uma visão empirista da verdade — uma

que eles não podem seguir na prática sem violar sua própria humanidade.

O Slogan de Sócrates
Ao mesmo tempo, a maioria das pessoas anseia por uma visão unificada da vida. Depois Verdade Total foi pub-

licado, fui entrevistado em um programa de rádio localizado no Noroeste do Pacífico,


dedicado ao tema da espiritualidade. Quando o programa começou, a primeira pergunta do
apresentador foi: “O que você quer dizer quando escreve sobre uma visão de mundo cristã?”

Sabendo que o público provavelmente seria liberal e da Nova Era, decidi enfatizar
preocupações humanas universais. “A questão da visão de mundo é realmente uma questão
de integridade”, respondi. “Dizer que as pessoas devem ser intencionais sobre sua visão de
mundo é como o ditado de Sócrates de que a vida não examinada não vale a pena ser vivida.
Significa que devemos examinar nossas convicções fundamentais sobre o que é verdade e,
em seguida, tentar viver consistentemente com base nisso em todas as áreas da vida.”
Esse tipo de integridade é provavelmente mais difícil hoje do que na época de Sócrates, expliquei,

porque as sociedades modernas tendem a ser altamente fragmentadas. A divisão


público/privado cria pressão para deixar nossas convicções mais profundas para trás
quando entramos na arena pública. Isso criou uma crise de integridade. O conceito de
visão de mundo expressa o anseio humano natural por uma vida de integridade — um
termo que vem da palavra latina para totalidade.
O apresentador de rádio ficou interessado. Fez sentido para ela que os cristãos quisessem trazer

suas convicções mais profundas para influenciar suas vidas públicas. Que eles gostariam que sua
espiritualidade tivesse algo a dizer sobre o meio ambiente e questões globais, não apenas o que eles fazem em
44 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

igreja no domingo. Que eles gostariam de aplicar uma perspectiva moral aos
negócios e à política pública, não apenas aos seus relacionamentos pessoais.
Embora meu novo público da Era possa discordar de certos princípios bíblicos, essa
abordagem atenuou sua hostilidade inicial. Eles também poderiam se conectar
com o objetivo de serem pessoas íntegras, livres para expressar suas convicções
centrais em toda a vida.
O principal desafio da nossa era, diz o filósofo católico Louis Dupré, é a falta de qualquer

verdade integradora. “Experimentamos nossa cultura como fragmentada; vivemos de


fragmentos de significado e carecemos da visão geral que os mantém unidos em um
todo.” Como resultado, as pessoas sentem uma intensa necessidade de auto-integração. O
cristianismo tem o poder de integrar nossas vidas e criar uma estrutura de personalidade
coerente - mas apenas se o abraçarmos como a Verdade última, com V maiúsculo, que
reúne todas as verdades menores. “A fé não pode simplesmente permanecer uma parte
discreta da vida”, diz Dupré. Deve “integrar todos os outros aspectos da existência”.
Qualquer coisa menos não é bonita nem atraente o suficiente para
inflamar nossa paixão ou transformar nosso caráter.

Esta não é uma visão de uma teocracia, como os críticos costumam alegar. Pois o objetivo não é que a igreja

como uma instituição eclesiástica assuma o controle das outras instituições da sociedade. Esse foi o engano

feito na Idade Média, quando a igreja exerceu sua autoridade sobre o estado,
as escolas, as artes e as associações profissionais. O resultado foi opressivo. De
fato, quando qualquer instituição da sociedade domina as outras, o resultado é
uma perda de liberdade. O século XX ensinou essa lição através do caso
extremo do totalitarismo moderno. Em lugares como a antiga União Soviética, o
estado absorveu e, assim, destruiu toda a infraestrutura social, a um custo
horrível em termos de crueldade e coerção.
Uma percepção distintiva da Reforma foi que a influência cristã na sociedade é primária-

mente o trabalho de indivíduos e organizações leigas - nutridas e ensinadas pela igreja, mas
responsáveis diretamente perante Deus. Este era o significado do princípio da Reforma de coram

Deo (literalmente “diante da face de Deus”). A igreja é um campo de treinamento para equipar os indivíduos

com uma cosmovisão bíblica e enviá-los para a linha de frente para pensar
e agir de forma criativa com base na verdade bíblica. O resultado não é
opressão, mas uma maravilhosa libertação de seus poderes criativos.

Chegando aos Secularistas


Fazer com que os secularistas até “ouçam” uma concepção bíblica da verdade pode ser o maior

desafio de comunicação que os cristãos enfrentam hoje. Na década de 1940, C. S. Lewis escreveu:
“A religião envolve uma série de declarações sobre fatos, que devem ser verdadeiras
Hojeou falsas”.
essas são
palavras de luta. A maioria das pessoas não pensa mais que a religião é
sobre fatos, ou que é mesmo uma questão de verdadeiro ou falso.
EmRazões para Acreditar,o repórter John Marks tenta explicar o que a Bíblia quer dizer com verdade—

um pouco como um antropólogo interpretando os costumes de uma tribo obscura. Leva Marks
Verdade e Tirania 45

quase uma página, em um crescendo crescente de prosa, para comunicar o


que a Bíblia sequer quer dizer com verdade.
“Quando um cristão que crê na Bíblia fala sobre a verdade... ele não está falando sobre uma coisa

condicionada pela cultura ou criada, em última análise, pela linguagem”,


escreve Marks. (Isto é, a verdade não é uma construção social.) Ela não é
“afetada por marés e tempos ou tornada diferente de geração em geração”. (A
verdade não é relativa ao tempo ou lugar.) A Escritura é “a palavra explícita de
Deus”. (Ela tem uma fonte transcendente.) Ela é “nada mais e nada menos que o
fato último da existência, cru e não diluído”. (É a verdade última.) O evangelho
“não se dissolve na água nem queima
Você quase no fogo.
pode imaginar É a Verdade.
trombetas É final.”
soando enquanto o texto sobe para seu

clímax final.
a visão bíblica da verdade (que ele não aceita) destaca o desafio enfrentado pelos cristãos hoje. Para persuadir as pessoas de que a
A luta de Marks simplesmente para explicarmensagem da Bíblia é verdadeira, elas primeiro devem explicar que tipo de verdade querem dizer. Elas devem emancipar as
pessoas

mentes do debilitante dualismo fato/valor. Ao analisar o manual secularista, os cristãos estarão equipados
para combater as estratégias secularistas e se comunicar de forma mais eficaz com as pessoas seculares.

Para realizar esta tarefa crucial, devemos agora


ampliar nosso escopo para abranger um quadro maior.
O conceito dividido de verdade é o núcleo da visão de mundo secular global, mas ainda é apenas um aspecto. Cada visão da verdade (epistemologia) está ligada a uma visão da realidade (metafísica). O
dualismo de fato e valor tem um corolário em uma visão dualística do ser humano — o que tem consequências devastadoras em áreas como aborto, eutanásia e sexualidade. No próximo capítulo,
aprenderemos como responder às controvérsias éticas mais dolorosas de nossos dias.

O conceito dividido de verdade é o núcleo da visão de mundo secular global, mas


ainda é apenas um aspecto. Cada visão da verdade (epistemologia) está ligada a
uma visão da realidade (metafísica). O dualismo de fato e valor tem um corolário em
uma visão dualística do ser humano — o que tem consequências devastadoras em
áreas como aborto, eutanásia e sexualidade. No próximo capítulo, aprenderemos
como responder às controvérsias éticas mais dolorosas de nossos dias.
Capítulo 3

“Homens e mulheres têm um andar superior, bem como um térreo;

e você não pode ter um sem o outro.”


—George Bernard Shaw

Sexo, Mentiras e Secularismo

Anne Lamott, uma escritora favorita entre os jovens cristãos, ajudou um


homem a se matar alguns anos atrás. E ela não está arrependida.
“O homem que matei não queria morrer, mas não sentia mais que tinha muita escolha”,
Lamott escreve no The Los Angeles Times. Com seu corpo definhando por causa do câncer e sua mente

começando a vacilar, o homem estava aberto à oferta de Lamott de adquirir as


drogas letais necessárias para cometer suicídio. Ela primeiro enganou um
profissional de saúde para que lhe desse as drogas: “Por meios astutos e
clandestinos, consegui uma receita que cobriria pílulas suficientes para uma dose
letal.” Então ela esmagou as pílulas com um pilão e almofariz, misturou-as com
purê de maçã e entregou a poção mortal ao seu amigo.

Odeie o Teu Próximo


O amigo “ficou meio surpreso que, como cristã, eu concordasse tão firmemente com ele sobre
suicídio assistido”, observa Lamott. Para justificar sua posição, ela não reflete
profundamente sobre os dados das Escrituras ou a história do pensamento moral cristão.
Na verdade, ela não reflete sobre essas coisas de forma alguma. Em vez disso, ela compara
a vida a uma escola, garantindo ao amigo que não há problema em desistir cedo e obter
um Incompleto. Embora em seus escritos Lamott se posicione como cristã, ela
essencialmente abandona os princípios bíblicos sobre a vida como um presente de Deus.
Não há nada distintamente cristão em seu ensaio, mesmo que trate de uma questão tão
séria como tirar a vida de uma pessoa.

47
48 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

As opiniões de Lamott se alinham de muitas maneiras, de fato, com os princípios do secularismo global. Ela é ética e

politicamente liberal, não apenas em suicídio assistido, mas também em aborto. Em um artigo anterior do Los

Angeles Times, ela descreveu uma conferência onde deu vazão a um acesso de raiva contra
a posição pró-vida. “Como cristã e feminista”, explicou, “eu tinha que me manifestar por
“mulheres cujas vidas foram endireitadas e redimidas por Roe v. Wade,”
2
a decisão da Suprema Corte de 1973

que legalizou o aborto.


“Endireitadas e redimidas” pelo aborto? Isso está colocando um verniz de linguagem bíblica sobre
uma postura ética essencialmente secular. E ilustra como até mesmo os cristãos podem ser atraídos para
uma visão de mundo secularista. Para manter sua integridade, eles devem chegar a um acordo com o ético
desenvolvimento do secularismo global. Eles devem se opor àqueles que permitem a morte e o desespero,

enquanto defendem positivamente “amar ao próximo”.


No campo da bioética, é fácil se deixar levar pela última controvérsia ou notícia. Mas
os eventos atuais são efeitos superficiais, como ondas deslizando sobre o oceano. As visões de mundo subjacentes

são como placas tectônicas cujos movimentos causam as ondas superficiais. Uma abordagem de visão de mundo

permite que os cristãos vão além de meramente denunciar males sociais como o aborto, o que pode
soar duro, zangado e crítico. E os equipa para demonstrar positivamente que o bíblico
a sabedoria leva a uma sociedade justa e humana. Protestos e cartazes não são suficientes. Para ser estratégico

estrategicamente eficazes na proteção da dignidade humana, precisamos ir além dos slogans e descobrir o
visões de mundo seculares que moldam o pensamento das pessoas.

Morte por Dualismo


Quais sãoos princípios da visão de mundo por trás de questões bioéticas como suicídio assistido e aborto?
ção? Vamos vê-los através das lentes da história pessoal de uma mulher. A emissora britânica
Miranda Sawyer é loira, bonita e uma feminista liberal autoproclamada. Ela sempre foi
orgulhosamente pró-escolha . . . até que ela engravidou de seu primeiro filho. Então ela começou
a lutar.
“Eu estava chamando a vida dentro de mim de bebê porque eu queria. No entanto, se eu não quisesse, pensaria

nisso apenas como um grupo de células que estava tudo bem matar.” Isso não fazia sentido.

No entanto, Sawyer não conseguia se imaginar tornando-se—horrores!—anti-aborto. “Eu passei algum

tempo pensando sobre o ponto preciso em que nosso bebê passou a existir. Ele estava lá
antes de eu fazer o teste [de gravidez]? Algo estava, ou o teste não poderia ter dado positivo.
Mas o quê? Uma pessoa? Uma pessoa em potencial? Vida? O que era a vida exatamente?”

O que de fato? Sawyer conheceu crianças “Floco de Neve” nascidas de embriões congelados. “Se um embrião

pode sobreviver sendo criado artificialmente [em um laboratório], sendo congelado,


sendo enviado pela FedEx centenas de quilômetros e então implantado no útero de
outra pessoa, então certamente os anti-abortistas estavam certos? A vida começa na
concepção.” No entanto, ela permaneceu firmemente oposta a quaisquer restrições
legais ao aborto.
Sexo, Mentiras e Secularismo 49

Finalmente, ela encontrou um filósofo moral que propôs uma distinção crucial: que um
nascituro está vivo , mas não é uma pessoa . “No final, tenho que concordar que a vida começa na concepção”,

ela concluiu. “Mas talvez o fato da vida não seja o que é importante. É se essa vida tem
3
crescido o suficiente para começar a se tornar uma pessoa.”

Essa distinção é amplamente aceita hoje. Mas observe o que aconteceu com o conceito de
o ser humano: Ele foi dilacerado. Pois se a vida começa em um ponto no tempo, enquanto a pes-
soa passa a existir algum tempo depois, então claramente são duas coisas diferentes. Na conversa comum,

sação, usamos termos como ser humano e pessoa para nos referir à mesma coisa. Mas uma cunha foi
cravada entre eles em Roe v. Wade quando a Suprema Corte argumentou que um feto é humano desde
o começo, mas não uma pessoa até algum momento posterior no tempo. Esta é uma visão radicalmente fragmentada

do que significa ser humano. E tem um efeito desumanizador perigoso na maneira como
os americanos veem a si mesmos e aos outros.

Desde a antiguidade, é claro, a maioria das culturas tem presumido que um ser humano compreende

elementos físicos e espirituais—corpo e alma. O que é novo em nossos dias é que esses dois
elementos foram separados e redefinidos em termos que são totalmente contraditórios. Como nós vamos
ver, o corpo humano é considerado nada além de um mecanismo complexo, de acordo com um moderno-

ista concepção de ciência (o reino dos fatos). Por outro lado, a pessoa humana é definida em termos de
escolha e autonomia infundadas, de acordo com uma concepção pós-moderna do self (o
reino dos valores). Esses dois conceitos interagem em um dualismo mortal para moldar os debates contemporâneos

sobre aborto, eutanásia, sexualidade e outras questões da vida. Usando nossa imagem de dois andares, nós

poderíamos visualizar o dualismo assim:

Visão liberal do ser humano

PESSOA
Um Self Autônomo (Pós-modernismo)
__________________________________________

CORPO
Uma Máquina Bioquímica (Modernismo)

No capítulo anterior, diagnosticamos o conceito dividido de verdade no cerne do global


visão de mundo secular. Seu corolário é um conceito dividido da natureza humana. No andar inferior, o
corpo humano foi reduzido a um mecanismo sem maior valor do que engenhocas e bugigangas—um
visão que limpa o caminho para a experimentação desenfreada com a vida humana e o DNA. Ao mesmo
tempo, no andar superior, o self pós-moderno rejeita todos os limites morais aos seus desejos, denunciando

eles como uma violação de sua liberdade. As comportas foram abertas para a remodelação irrestrita
da própria natureza humana.
50 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Fantasma na Máquina
Para entender como o corpo e o eu foram separados, precisamos dar uma breve olhada para trás

na história. Antes do Iluminismo, a natureza era considerada a criação de Deus,


imbuída de seus propósitos. Não havia conflito de dois andares entre os reinos natural
e espiritual porque ambos eram produto de uma única Mente. Toda a criação foi
coordenada em um todo unificado. (A divisão crucial era o amor e a lealdade a Deus
versus o pecado e o afastamento de Deus.) Para usar um termo técnico, o cristianismo
levou a uma visão teleológica da natureza, do grego telos, que significa uma coisa
objetivo, propósito ou estado ideal. O estado ideal para os humanos é a imagem de Deus. Fomos
criados para refletir o próprio caráter de Deus. A lei moral é o mapa rodoviário que nos diz como
alcançar esse objetivo, o manual de instruções para nos tornarmos o tipo de pessoa que Deus
originalmente pretendia que fôssemos.
A fonte de informação mais importante para esse manual de instruções é, obviamente, a

comunicação de Deus nas Escrituras. Mas outra fonte é sua comunicação na natureza.
Podemos ler sinais na natureza que indicam o propósito original de Deus - traços da imagem
de Deus que permanecem mesmo em um mundo caído. Por exemplo, a correspondência
biológica entre macho e fêmea faz parte da criação original que Deus pronunciou “muito boa” -
moralmente boa. Assim, fornece um ponto de referência para a moralidade. As regras morais
não são arbitrárias; elas estão enraizadas na maneira como Deus criou a natureza humana.

Com a ascensão da ciência moderna, no entanto, muitos ocidentais começaram a abraçar um modelo mecanicista

da natureza. No século XIV, os relógios mecânicos tornaram-se comuns na


Europa, e alguns eram bastante elaborados, apresentando figuras automatizadas

que marchavam, entrando e saindo. O relógio da catedral em


Estrasburgo, França, apresentava um autômato ou robô em forma de
galo, feito de ferro e cobre. Todos os dias ao meio-dia, ele abria
suas asas, batia o bico, mostrava a língua e cantava três vezes
(usando uma palheta e fole) para lembrar os habitantes da cidade da negação de Pedro

de Cristo. Então, os Três Reis emergiam e se curvavam diante de uma


figura do menino Jesus carregado nos braços de Maria. Estes mecânicos
relógios e brinquedos tornaram-se uma metáfora poderosa para a própria natureza. Alguns

pensadores começaram a argumentar que, se figuras de brinquedo podem balançar suas cabeças e

acenar com os braços porque são movidos por engrenagens e rodas escondidas
3-1 Relógio da Catedral
Estrasburgo, França, 1354
e molas, então certamente o funcionamento interno dos seres vivos poderia ser
Os seres vivos também são robôs?

explicado da mesma forma.


A visão do modelo mecanicista era perfeitamente compatível com uma visão bíblica da natureza. O

os primeiros proponentes eram principalmente cristãos, como Robert Boyle e Isaac


Newton. Afinal, uma máquina requer um inventor, um designer. Se o universo é como uma
ferramenta mecânica de corda, então alguém deve tê-lo criado e dado corda. Além disso,
as ferramentas são inventadas para um propósito, para cumprir uma função. Assim, o
universo também foi criado para um propósito. Como o historiador John Herman Randall
Sexo, Mentiras e Secularismo 51

escreve: “Toda a forma da ciência Newtoniana praticamente forçou os homens,


como uma hipótese científica necessária, a acreditar em um Criador externo.”
A abordagem mecanicista começou a se consolidar em uma dicotomia radical mente/corpo, no entanto, em

a filosofia de René Descartes. Ele via o corpo humano como uma espécie de robô ou brinquedo de corda.
“Suponho que o corpo não seja nada além de uma estátua ou máquina feita de terra”, escreveu
ele. Seu movimento segue “necessariamente do próprio arranjo das partes”, assim como o
movimento de um relógio segue “do poder, da situação e da forma de seus contrapesos e
rodas.”
Como Descartes era católico, no entanto, ele também queria salvar o conceito de uma mente ou

espírito capaz de sobreviver ao corpo após a morte. Assim, ele definiu a mente
como uma consciência livre e autossuficiente conectada de alguma forma ao
corpo robô — em suas palavras, uma “alma racional unida a esta máquina”.
Como explica um filósofo, o dualismo cartesiano “pareceu efetuar um
compromisso e uma reconciliação entre a Igreja e os cientistas”. A regra era: “a
cada um sua própria jurisdição — aos cientistas, a matéria e suas leis mecânicas
de movimento; aos teólogos, a substância mental, as almas dos seres humanos.”
O dualismo cartesiano foi irreverentemente apelidado de “o fantasma na máquina”. E criou enormes

dificuldades para os pensadores ocidentais. Pois como duas substâncias tão opostas
poderiam formar uma única unidade interativa? Como um corpo robótico e uma mente
pensante poderiam funcionar como um todo integrado? Essas duas substâncias não
são apenas diferentes (como o conceito bíblico de corpo e alma), mas mutuamente
exclusivas. “O dualismo cartesiano divide o homem em duas substâncias completas”, diz
o filósofo Jacques Maritain: “por um lado, o corpo que é apenas extensão geométrica;
por outro lado, a alma que é apenas pensamento.” O ser humano foi “dividido”.
Para usar nossa imagem de dois andares, no andar de baixo estava o corpo operando pelas leis cegas e mecânicas

da natureza. No andar de cima estava o ego independente e autônomo. Como um filósofo


cristão coloca, Descartes “divide o mundo de nossa experiência total em duas metades.”

Desencantando a Natureza
Eventualmente, o próprio pensamento ocidental foi dividido em “duas metades”. Vamos nos aprofundar nos detalhes

dessa divisão em capítulos posteriores, mas para entender as questões mais urgentes da
bioética, precisamos cobrir os destaques. Com o crescimento das visões de mundo
seculares, muitos pensadores decidiram que a máquina do universo não precisava mais de
um Designer para criá-la, ou de um Mecânico celestial para dar corda nela. Eles
substituíram a imagem do universo como um dínamo autocriador, operando por forças
físicas automáticas e não direcionadas. Não importa que um universo autocriador seja uma
contradição em termos. (Antes que um objeto exista, não há um eu para fazer a criação.) O
conceito de um universo autoevolutivo
serviu para eliminar qualquer necessidade de um Criador transcendente.

Essa visão de mundo secularizada teve profundas implicações morais. Pois se a natureza não era a

obra de um Deus pessoal, então ela não mais carregava sinais dos bons propósitos de Deus — o que significava
que ela não mais fornecia uma base para verdades morais. A natureza se tornou “um sistema mecanicista
52 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

de matéria estendida sem significado religioso ou moral”, explica o filósofo David


West. Coisas como propósito e design não eram mais consideradas categorias
para explicar a natureza, mas apenas conceitos mentais na mente humana.
a vontade
O próximo passo é crucial: Porque a natureza não revelou de Deus, tornou-se um reino moralmente neutro
sobre o qual os humanos podem impor sua vontade. Como West explica, quando a natureza era considerada

“uma manifestação da vontade de Deus”, então o objetivo do conhecimento era


“cumprir o design de Deus” e viver em harmonia com seus propósitos. Mas, de acordo
com o secularismo, a natureza não revela o propósito de Deus. Portanto, o único
objetivo do conhecimento é melhorar “nossa capacidade de prever e controlar a
natureza” para servir às nossas próprias necessidades e preferências. fatos
neutros
Para usar a linguagem da divisão fato/valor, a natureza tornou-se o reino de em
relação a
valores,
10
disponíveis para servir a quaisquer valores que os humanos possam escolher. O teólogo N. T. Wright coloca de forma

completa: O Iluminismo promoveu a ideia de “que agora atingimos a maioridade, que


Deus pode ser chutado para cima, que podemos continuar administrando o mundo
como quisermos, dividindo-o para nossa vantagem sem interferência externa”.
A visão livre de valores da natureza incluía o corpo humano. Ele também se tornou mera matéria-

prima sujeita às escolhas do eu autônomo. Nas palavras de Roger Lundin, do Wheaton


College, tanto a natureza quanto o corpo se tornaram “mecanismos essencialmente
amorais para serem usados para quaisquer fins privados que tenhamos”.
Podemos chamar essa visão de liberalismo,empregando uma definição do filósofo liberal autodescrito

Peter Berkowitz. Em suas palavras, “Cada geração de pensadores liberais” se concentra


em “dimensões da vida anteriormente consideradas fixas pela natureza”, então procura
mostrar que, na realidade, elas estão
Em outras “sujeitas
palavras, à vontade
as gerações e refazimento
anteriores pensavam que havia umahumanos”.
natureza humana fixa,

universal que expressava uma teleologia dada por Deus. Por exemplo, eles pensavam que o
casamento heterossexual estava enraizado na natureza humana. Era a maneira como os
humanos foram criados para funcionar. Por outro lado, o liberalismo nega que exista qualquer
natureza humana fixa ou universal. Os humanos são uma

configuração acidental da matéria, um produto de forças evolutivas cegas


que não Onos tinham
casamento é umem mente. social que evoluiu porque era adaptativo em algum momento da
comportamento

história evolutiva. Mas não é intrínseco à natureza humana. Somos livres para
redefini-lo à vontade. Está aberto à ilimitada “vontade e refazimento humanos”.
Pode-se dizer que o corpo humano se tornou quase uma forma de propriedade que pode ser

controlada e manipulada. O filósofo Daniel Dennett oferece a analogia de dirigir um carro:


“Desde Descartes, no século XVII, temos uma visão do eu como uma espécie de fantasma
imaterial que possui e controla um corpo da mesma forma que você possui e controla seu carro”.
Ou seja, o corpo

não é mais considerado uma parte integrante da pessoa humana, mas como
“subpessoal”, funcionando estritamente no nível da biologia e da química -
quase como uma posse que pode ser usada para servir aos desejos do eu.
Sex, Lies, and Secularism 53

Splitting the Adam


This history throws surprising new light on the abortion debate. In the past, abortion sup-
porters simply denied that the fetus is human: “It’s just a blob of tissue.” Today, however, due to
advances in genetics and DNA, virtually no ethicist denies that the fetus is human: biologically,
genetically, scientifically human. But this refers to the fact realm—where, as we have seen, human
life is regarded as a product of the blind, mechanical forces of nature, with no intrinsic dignity or
value (lower story). As a result, simply being human does not confer any moral status. Nor does
it warrant legal protection. The turning point is said to be the stage at which the fetus becomes a
“person,” typically defined in terms of self-awareness, autonomy, and the ability to make choices
(upper story).
This radical dualism is called personhood theory, and it prevails today among liberal bio-
ethicists. For example, Hans Küng, a liberal Catholic theologian, writes that “a fertilized ovum
evidently is human life but is not a person.” Princeton ethicist Peter Singer acknowledges that
“the life of a human organism begins at conception.” But “the life of a person— . . . a being with
some level of self-awareness—does not begin so early.” Joseph Fletcher of situation ethics fame
says, “What is critical is personal status, not merely human status.” In his view, genetically defec-
tive fetuses and newborns do not attain the status of personhood. They are “sub-personal” and
therefore fail to qualify for the right to life.16 Adapting our earlier diagram, personhood theory
could be represented like this:

Personhood theory

PERSON
“Persons” have Freedom and Moral Dignity
__________________________________________
BODY
“Humans” are Disposable Machines

A flaw in this theory is that once personhood is separated from biology, no one can agree
how to define it. Some ethicists say personhood emerges when the developing organism begins
to exhibit neural activity, or feel pain, or achieve a certain level of cognitive function or con-
sciousness. For example, Singer says, “I use the term ‘person’ to refer to a being who is capable
of anticipating the future, of having wants and desires for the future.”17 Anyone who lacks these
functions he labels a “nonperson.”
Other ethicists focus on the desire to live (on the assumption that life is valuable only if
someone wants it). John Harris defines a person as “a creature capable of valuing its own exis-
tence.” Killing is wrong only in the case of someone who is cognitively developed enough to
54 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

nutrir um desejo explícito e consciente de viver. “Não se pode prejudicar não pessoas ou pessoas
potenciais dessa forma, porque a morte não as priva de nada que possam valorizar”, argumenta
Harris. “Se eles não podem desejar viver, não se pode frustrar esse desejo matando-os.”

Essas definições conflitantes demonstram como é complicado definir a personalidade uma vez que ela é cortada

da pura realidade de ser biologicamente humano. Miranda Sawyer concluiu que a


personalidade começa algum tempo antes do nascimento: “Uma vez que um
embrião se desenvolveu o suficiente para sentir dor ou começar uma
personalidade, então... acabar com essa vida é errado.” Mas Harris zomba dessa
ideia: “Nove meses de desenvolvimento deixam o embrião humano muito aquém
do surgimento
James de algo que
Watson, possa serda
co-descobridor chamado de pessoa.”
dupla hélice do DNA, recomendou esperar até

depois do nascimento e dar a um recém-nascido três dias de testes genéticos


antes de decidir se ele deve ter permissão para viver. Para Singer, a
personalidade permanece
Afinal, quanta umauma
função cognitiva área “cinzenta”
criança mesmo
pequena tem? aos três anos de idade.
O resultado é que, uma vez que o conceito de personalidade é separado da biologia, ele se torna

subjetivo e arbitrário — abrindo uma porta para a desumanidade e a opressão. Qualquer pessoa em
qualquer fase da vida pode ser rebaixada ao status de “não pessoa” e ter o direito de viver negado.

Pró-Aborto É Anti-Ciência
Este histórico nos equipa para combater os argumentos mais comuns a favor do aborto. É frequentemente

dito que os eticistas pró-escolha baseiam suas opiniões na ciência, enquanto os pró-vida apelam para a religião
— razão pela qual suas opiniões não têm lugar na política pública. Por exemplo, em First Things, Stanley Fish

escreveu: “Um defensor da escolha vê o aborto como uma decisão a ser tomada de acordo com a
melhor opinião científica sobre quando ocorre o início da vida, como a conhecemos.” Por outro
lado, “um defensor da vida vê o aborto como um pecado contra um Deus que infunde vida no
momento da concepção.”
Este estereótipo tem as coisas precisamente ao contrário. Durante a campanha presidencial de 2008, foi

foram os candidatos pró-aborto que o trataram como uma questão religiosa.


Questionado sobre quando começa a vida humana, Barack Obama disse: “Não presumo
ser capaz de responder a esse tipo de questão teológica”. Joseph Biden disse que falou
“como católico romano”, mas que “judeus, muçulmanos e outros” poderiam discordar.

Por outro lado, os líderes pró-vida apelam consistentemente para a ciência. Yuval Levin, membro do antigo

Conselho de Bioética do presidente Bush, afirma: “A questão de quando uma


nova vida humana começa não é fundamentalmente uma questão teológica, mas
uma questão biológica. . . EAessa
vidadefinição
humanacientífica
tem uma definição
começa científica
na concepção. direta.”
Desse

momento em diante, nada de substancialmente novo aparece. O indivíduo apenas revela as


capacidades que são intrínsecas ao tipo de organismo que é — seja um beija-flor ou um ser humano.

Claro, as pessoas são muito mais do que organismos biológicos. No entanto, a biologia fornece um objetivo,

marcador universalmente detectável do status humano. Por outro lado, quando desconectadas da biologia,
as definições liberais de personalidade flutuam vagamente no espaço pós-moderno, sem critérios objetivos.
Sexo, Mentiras e Secularismo 55

Quais habilidades ou funções contam para decidir se uma pessoa tem valor moral? E quão
desenvolvidas elas precisam estar para contar? Todo eticista liberal traça a linha
em um lugar diferente, dependendo de sua própria escolha e valores pessoais.
Ironicamente, embora os pró-vida sejam criticados por trazer valores privados para a esfera pública,
é realmente a posição pró-escolha que se baseia em visões e valores privados.
Até Fish teve que comer suas palavras. Dois anos depois de escrever o artigo do First Things citado anteriormente,

ele teve que se retratar do que disse. “Hoje em dia, são os pró-vida que tornam a
questão científica de quando o início da vida ocorre a principal”, admitiu, enquanto
“os pró-escolha querem transformar a questão em uma ‘metafísica’ ou ‘religiosa’.”
Como a ciência apoia a posição pró-vida tão inequivocamente, alguns pró-escolha estão agora

realmente repudiando a ciência. “A questão não é realmente sobre a vida em nenhum sentido biológico”, entoa
o professor de Yale, Paul Bloom, no New York Times. “Em vez disso, está perguntando sobre o momento mágico

em que um aglomerado de células se torna mais do que uma mera coisa física.” E
que força “mágica” tem o poder de converter uma “mera coisa física” em uma
pessoa com uma dignidade tão profunda que é moralmente errado matá-la?
Bloom responde: Essa “não é uma questão que os cientistas poderiam responder”.
Da mesma forma, Jennie Bristow, editora de Abortion Review , faz o possível para descartar a ciência como uma cortina de fumaça.

“Com os antiabortistas promovendo ‘evidências científicas’ sobre a viabilidade fetal, é hora de reafirmar o
caso moral do direito de uma mulher de escolher.” Seu artigo é intitulado: “Aborto: Pare de se esconder atrás
24
da Ciência.” posição é anti-ciência. Simplificando, os defensores do aborto perderam a discussão no nível científico. Eles não
podem mais negar que um embrião é biologicamente humano. Como resultado, eles mudaram seu argumento
Em suma, os liberais estão admitindo que sua para um vago conceito superior de personalidade — definido, em última análise, por nada além de sua própria
escolha pessoal. E quando sua visão é codificada em lei, então seus valores privados são impostos a todos os
outros.

porters perderam o argumento no nível científico. Eles não podem mais negar que um
embrião é biologicamente humano. Como resultado, eles mudaram seu argumento para
um vago conceito superior de personalidade — definido, em última análise, por nada
além de sua própria escolha pessoal. E quando sua visão é codificada em lei, então seus
valores privados são impostos a todos os outros.

A Bíblia e o Corpo
Como um fato sociológico, é claro, muitos pró-vida são membros de comunidades religiosas. Mas

isso não significa que seus argumentos dependam de ensinamentos teológicos sobre o espírito ou a alma.
Poder-se-ia até dizer que a verdadeira questão em jogo é o status do corpo. O aborto é defendido por

argumentos que identificam o valor moral unicamente com capacidades mentais,


como autoconsciência e autoconsciência. O corpo é denegrido ao nível do sub-
pessoal. É trivializado como uma forma de matéria-prima que pode ser mexida,
manipulada, experimentada ou destruída sem significado moral. A vida humana é
reduzida a um cálculo utilitário, sujeito apenas a uma análise de custo-benefício.
Esta é uma visão muitoinferior da vida humana do que qualquer coisa ensinada no cristianismo bíblico. De acordo com

a Bíblia, o mundo material tem valor intrínseco porque foi criado por Deus, e ele vai
56 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

serão, em última análise, redimidos por Deus. Na época da igreja primitiva, essas eram
alegações revolucionárias. Os primeiros cristãos enfrentaram uma cultura pagã
permeada por filosofias que negavam o mundo, como o platonismo e o gnosticismo.
Essas filosofias dualistas tinham uma visão baixa do reino material. Eles definiram a
salvação como a libertação da alma da prisão do corpo.
Nesse contexto cultural, a alegação da igreja primitiva da encarnação - que o próprio Deus
assumiu a carne humana (João 1:14) - foi um conceito surpreendente. Assim como sua alegação de que Jesus ressuscitou

corporalmente dos mortos. De fato, esses ensinamentos eram tão surpreendentes


que, no século II, os gnósticos os negaram completamente. Eles ensinaram que
Jesus era um avatar de um plano espiritual superior que entrou no mundo físico
temporariamente para trazer iluminação e, em seguida, retornou a um estado
superior de ser. Como explica N. T. Wright, eles “traduziram a linguagem da
ressurreição em uma espiritualidade privada e uma cosmologia dualista”.
Assim como hoje, uma visão dualista era muito mais socialmente aceitável. Como exemplo, os gnósticos

não foram perseguidos pelo Império Romano como os cristãos foram. Por que não?
Porque uma espiritualidade privatizada não representa uma ameaça ao poder, não
importa quão brutal ou corrupto ele possa ser. Foram os cristãos que foram queimados
na fogueira e jogados aos leões. Eles entenderam que, quando Jesus ressuscitou dos
mortos e recebeu um novo corpo de ressurreição, Deus estava inaugurando a nova
criação prometida, na qual toda injustiça e corrupção serão eliminadas. Eles foram
energizados para rejeitar o dualismo e tomar uma posição contra a injustiça aqui e agora.

No Credo dos Apóstolos, a igreja afirma ousadamente que todo o povo de Deus participará dessa nova

criação através da “ressurreição do corpo”. Em outras palavras, eles não serão salvos fora da
criação material, mas serão salvos junto com a criação material. No fim dos tempos, Deus

não vai descartar a ideia de um mundo físico no tempo e no espaço, como se


sua primeira criação fosse apenas um erro. O ensinamento bíblico é que Deus
vai restaurar, renovar e recriá-lo em um novo céu e uma nova terra. Na morte,
os humanos passam por uma divisão temporária de corpo e alma, mas é por
isso que a morte é chamada de “o último inimigo” (1 Cor. 15:26) - porque separa
o que Deus pretendia ser unificado. E na nova criação, eles serão reunificados.
Eternamente. A doutrina da ressurreição física significa que o mundo físico
importa. Importa para Deus e deve importar para o povo de Deus.
Hoje, essas doutrinas são tão surpreendentes quanto eram no mundo antigo. A cultura ocidental está regredindo a um dualismo que denigre o reino material, assim como o
paganismo fez. Em uma reviravolta inesperada, são os cristãos ortodoxos que estão argumentando contra os liberais para defender uma visão elevada do corpo humano.

ture está regredindo a um dualismo que denigre o reino material, assim como o
paganismo fez. Em uma reviravolta inesperada, são os cristãos ortodoxos que estão
argumentando contra os liberais para defender uma visão elevada do corpo humano.
Os liberais às vezes dizem: “Se você é contra o aborto, não faça um. Mas não imponha seus
opiniões sobre os outros.” A princípio, isso pode parecer justo. Mas o que os liberais não
entendem é que toda prática social se baseia em certas suposições de como o mundo é - em
uma visão de mundo. Quando uma sociedade aceita a prática, ela absorve a visão de mundo que
a justifica. É por isso que o aborto é
Sexo, Mentiras e Secularismo 57

não é meramente uma questão de indivíduos privados fazendo escolhas privadas.


Trata-se de decidir qual visão de mundo moldará nossa vida comunitária juntos.
A teoria da personalidade é uma visão radicalmente dualista do ser humano que reduz o corpo a
uma mercadoria explorável. E quando essa visão de mundo é absorvida, ela tem
consequências de vida ou morte não apenas para o feto, mas, em última análise, para
todos. Seu efeito desumanizador coloca todos nós em risco. Quando os cristãos
defendem a verdade da cosmovisão bíblica, eles estão procurando proteger os direitos
humanos e a dignidade de todos em todos os aspectos.

Alvejando Terri
A mesma visão de mundo dualista está na raiz da eutanásia. Apoiadores da eutanásia voluntária

nasia, ou suicídio assistido, muitas vezes argumentam que a dignidade humana


consiste na capacidade de exercer controle consciente e deliberado sobre nossas
vidas (andar superior). Se esse controle mental é perdido ou ameaçado por causa
de doença ou lesão, então a própria personalidade é perdida. Tudo o que resta é a
vida orgânica (andar inferior). E, como vimos, o organismo humano é considerado
uma máquina bioquímica sem valor intrínseco próprio.
O raciocínio é destacado em uma ópera escrita em 2002 pelo compositor minimalista Steve Reich.
O libreto justapõe citações de dois cientistas. Primeiro, o zoólogo Richard Dawkins afirma que os
humanos nada mais são do que “máquinas criadas por nossos genes”. Então, o biólogo Robert
Pollack tira a conclusão lógica: “Não tenho nenhum sentimento de culpa ao desligar qualquer
máquina.”
E quanto a em voluntário eutanásia? Não surpreendentemente, se os indivíduos não são sequer capazes de
dar consentimento informado, isso em si é tomado como significando que eles não são
mais pessoas. O exemplo mais conhecido foi o caso de Terri Schiavo em 2005. A mídia
apresentou-o como um caso de direito de morrer, mas Terri não estava morrendo. Ela
não estava doente terminal. Então esse não era realmente o cerne do debate. A questão
central era a teoria da personalidade.
Em um debate na televisão, um bioeticista da Universidade da Flórida foi perguntado diretamente,
“Você acha que Terri é uma pessoa?”
28
“Não, eu não acho”, ele respondeu. “Eu acho que ter consciência é um critério essencial de personalidade.”

O que quer que você pense sobre os detalhes do caso de Terri, essa declaração captura seu significado mais amplo-

cance. De acordo com a teoria da personalidade, um indivíduo com deficiência mental não é mais uma pessoa, mesmo

embora ela ainda seja obviamente humana.

Aqueles que eram a favor de cortar a comida e a água de Terri incluíam o neurologista Ronald Cranford,

que defendeu a mesma política mesmo para pessoas com deficiência que estão
conscientes e parcialmente móveis. Um caso na Califórnia envolveu um homem com
danos cerebrais que podia realizar testes lógicos com pinos coloridos e até mesmo
se locomover pelos corredores do hospital em uma cadeira de rodas elétrica (como
o famoso físico Stephen Hawking). No entanto, Cranford argumentou que o homem
deveria ter seu tubo de alimentação removido e ser deixado para morrer.
58 Nancy Pearcey | Saving Leonardo

We are not talking here about cases where medical professionals must make a practical judg-
ment between saving life versus prolonging death. When all organ systems are shutting down
despite the best medical treatment, then intervention may accomplish nothing except prolong
the dying process. By contrast, personhood theory is a philosophy used to justify actively ending
a life.
According to personhood theory, just being part of the human race is not morally relevant.
Individuals must earn the status of personhood by meeting an additional set of criteria—the
ability to make decisions, exercise self-awareness, and so on. Those who do not make the grade
are demoted to non-persons. Many ethicists have begun to argue that non-persons may be used
for utilitarian purposes such as research and harvesting organs. Wesley Smith, author of Culture
of Death, calls this a proposal for “human strip-mining”30 and warns that it would reduce human
life to a marketable commodity.

Embryo Plantation
Human embryos are already being treated as a marketable commodity. In the two-story
paradigm, human embryos are merely biological entities, not persons. Therefore they can be
destroyed without moral significance, if a utilitarian calculus suggests some benefit to society.
Many Americans have come to accept the idea that in the search for new medical cures, human
embryos can be sown, harvested, patented, and sold—as though they were just another natural
resource.
If we reject the two-story dualism, however, then personhood is inextricably linked to being
biologically human at every stage of development. Destroying an embryo is morally akin to kill-
ing an adult.
Moreover, embryo research typically involves creating human life in order to destroy it. Even
those who are uncertain whether the embryo is fully a person often find this troubling. A funda-
mental principle of ethics is that people should be treated as intrinsically valuable, not valuable
only as a means to some extrinsic end. As we say in ordinary conversation, it is wrong to use
people. As Wesley Smith writes, there something deeply dehumanizing about “treating human
life—no matter how nascent—as a mere natural resource to be harvested like a soy bean crop.” 31
Such a utilitarian view of human life inevitably exerts a coarsening and brutalizing effect across
the entire society.

Darwinstein
Ironically, embryo research is not even necessary. Research using adult stem cells is not
morally problematic and has produced excellent results. For some scientists, the real agenda
behind embryo research is that it offers a first step toward full-scale genetic engineering. Today
many scientists embrace the philosophy of naturalism or materialism, which reduces humans to
Sexo, Mentiras e Secularismo 59

produtos materiais de seus genes. Nesse caso, é lógico concluir que a maneira de melhorar a raça
humana é simplesmente ajustar seus genes. E a pesquisa com embriões está fornecendo as ferramentas.

Um movimento que se autodenomina transumanismo exorta a sociedade a assumir o controle da evolução através de

modificação genética. Os transumanistas argumentam que a vida humana como existe


hoje não tem valor ou dignidade inerentes. É meramente um passo em uma cadeia
evolutiva sem fim - uma configuração fortuita de células que será superada na próxima
etapa da evolução. Em tom poético, o filósofo John Gray escreve que os humanos são
“apenas correntes no fluxo dos genes”.
As implicações não são tão poéticas, no entanto. Nick Bostrom, um dos principais transumanistas em

Oxford, escreve que a natureza humana é “um trabalho em andamento, um


começo malfeito que podemos aprender
Mas a remodelar
quem decide de maneiras
o que é desejável? desejáveis”.
Quem terá o poder
de remodelar a natureza humana?

E por que parar por aí? Se os humanos são apenas uma coleção fortuita de células, por que não misturar células

de outras espécies, criando híbridos humano-animais? Os transumanistas argumentam que a espécie Homo

sapiens não está mais alta (e às vezes mais baixa) na escala cognitiva do que outras espécies e, portanto,

não há barreira ética para inserir DNA animal no DNA humano. Essas tecnologias transgênicas (trans-
gênico significa entre espécies) são propostas como meios para aprimorar as capacidades humanas e

criar uma raça pós-humana.


As mesmas tecnologias também podem ser usadas para aprimorar as capacidades dos animais. O autor futurista

James Hughes defende o que ele chama de “elevar” chimpanzés geneticamente


para lhes dar capacidades intelectuais humanas - não porque isso seria bom para
os chimpanzés, mas porque provaria que eles merecem o status legal de pessoas.
“Pessoas não precisam ser humanas, e nem todos os humanos são pessoas”, diz
Hughes - o que revela o quão indefinido e aberto o conceito de pessoa se tornou.

A suposição que impulsiona todos esses cenários futuristas, diz o embriologista Brian Goodwin, é

a afirmação darwiniana de que não existem espécies - que o que chamamos de espécies
são meramente agrupamentos temporários nas populações em constante mudança de
organismos em evolução, redemoinhos na corrente genética. Por causa dessa suposição
darwiniana, explica Goodwin, “perdemos até mesmo o conceito de natureza humana”.
Como resultado, “a vida se torna um conjunto de partes, mercadorias que podem ser
movidas” para se adequar à visão de progresso de alguns geneticistas.
Usando uma metáfora literária, o biólogo Thomas Eisner diz que uma espécie não é “um volume encadernado

da biblioteca da natureza”, mas sim “um livro de folhas soltas, cujas páginas individuais, os
genes, podem estar disponíveis para transferência seletiva e modificação de outras espécies”.
Isto é altamente

metáfora reveladora. Sugere que, se não houver Autor do livro da vida, então não há
base para considerar os organismos como totalidades integradas. Quando um autor
conta uma história, todos os segmentos são mantidos unidos por um tema ou propósito
comum. Mas se a vida é um acidente produzido por forças materiais cegas, então não
há tema unificador. Os organismos podem ser tratados como coleções aleatórias de
genes e outras peças de reposição para serem misturadas e combinadas à vontade.
60 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Inferno Humanista
Os transumanistas frequentemente falam em tons eufóricos como se uma utopia criada pela tecnologia estivesse

logo ali. Estamos na “iminência de uma nova Era da Razão”, entusiasma-se Adrian
Woolfson, da Universidade de Cambridge. Podemos finalmente “considerar a
possibilidade de modificar
Masnossa própria
essa visão natureza
utópica e criar
é uma ilusão. O vida artificial”.
que mais conta na produ-
ção de uma sociedade verdadeiramente humana não é o nível de tecnologia, mas a visão de
mundo predominante. E uma visão de mundo que diz que a vida humana não tem valor ou
dignidade inerentes nunca levará à utopia, não importa quão avançadas sejam as ferramentas e
os aparelhos.
Para provar o ponto, nem sequer precisamos citar exemplos de alta tecnologia, como engenharia genética.

Uma vez que a personalidade está em jogo, o poder de decidir quem deve viver ou
morrer pode ser exercido por meio de medidas de baixa tecnologia. Por exemplo, o
filósofo pragmático Richard Rorty sugeriu seriamente que as nações ricas podem acabar
se envolvendo em “triagem econômica” contra as nações pobres. Afinal, ao longo da
história, as sociedades criaram várias maneiras de excluir certos grupos da família
humana, rotulando-os como subumanos — grupos pertencentes a uma tribo, clã,

raça ou religião diferentes. A ideia de que os direitos humanos são universais, observa
Rorty, foi um conceito completamente novo inaugurado pelo cristianismo. Baseia-se no
ensinamento bíblico de que “todos os seres humanos são criados à imagem de Deus”.
Por causa de Darwin, afirma Rorty, não aceitamos mais a criação. E, portanto, não precisamos mais

manter que todos os que são biologicamente humanos têm igual dignidade. Somos livres para
retornar à atitude pré-cristã de que apenas certos grupos se qualificam para os direitos humanos.

Que critério devemos usar para selecionar quais grupos se qualificam? O mais lógico seria
um critério econômico, argumenta Rorty. Qualquer conceito de obrigação mútua
“tem que ser um que leve em conta o dinheiro”. Tem que perguntar: Temos
realmente os recursos econômicos para ajudar essas pessoas? Quando essa questão
é levantada, então a ideia de que todos devem ter os mesmos direitos “é
obviamente inviável”. Pois “nenhuma aplicação previsível da tecnologia poderia
tornar todas as famílias humanas ricas o suficiente para dar a seus filhos algo
remotamente parecido com as chances que uma família nas partes afortunadas do
mundo agora dá como garantido”. Assim, Rorty conclui, não há maneira significativa
de afirmar que “os cinco bilhões de cidadãos mais pobres dos estados membros das
Nações Unidas” têm os mesmos direitos humanos que as nações ricas.
E então? As nações ricas devem decidir que não têm obrigação moral de ajudar o mundo
pobre? Devem, como alguma tribo pré-cristã, declarar as nações mais pobres
como subumanas? Rorty se recusa a aresponder
mas lógica de seuàargumento
pergunta diretamente,
certamente aponta nessa
38
direção. Uma vez que a obrigação moral não se baseia simplesmente em ser humano, então é completamente

lógico — ainda que brutal — escolher a economia como critério para a personalidade. Ou qualquer
outro critério. Qualquer categoria de humanos é um alvo justo para ser excluída ou mesmo eliminada.

Os riscos neste debate são muito altos. “Se a vida humana não importa simplesmente e meramente
porque é humana, isso significa que o valor moral se torna subjetivo e uma questão de quem tem
Sexo, Mentiras e Secularismo 61

o poder de decidir”, Smith adverte. “A história mostra que, uma vez que criamos
categorias de valor diferente, esses humanos denegridos pela estrutura de
poder político como tendo menos valor totalitários
Os sistemas são explorados, oprimidos
do século e mortos.”
XX — Nazismo

e o Comunismo — dão evidências das consequências moralmente horríveis de tratar


os humanos como meras coisas a serem manipuladas para criar a visão de utopia
de alguém. O utopismo ligado ao poder leva a gulags e campos de extermínio.

O Que a NPR Não Consegue Lidar


O debate sobre as questões da vida é frequentemente retratado como um conflito que opõe aqueles que pensam que o estado

deve permanecer neutro em questões morais contra aqueles que querem “impor” suas crenças
aos outros. No entanto, como vimos, uma visão liberal secular está longe de ser neutra.
Uma vez fui convidado para falar em uma conferência de visão de mundo cristã organizada por uma universidade da Ivy League-

versidade, e rapidamente notei um padrão emergindo. Após cada palestrante, invariavelmente os alunos
levantavam a mesma questão de alguma forma: Mas se falarmos sobre uma visão de mundo cristã, não estamos
impondo nossas opiniões aos outros? Mesmo estudantes altamente educados da Ivy League absorveram a secular

pondo nossas opiniões aos outros? Mesmo estudantes altamente educados da Ivy League absorveram a secular

doutrina de que é ilegítimo falar de uma perspectiva cristã na arena pública


— que fazê-lo viola os ideais de neutralidade e objetividade.
Quando a mesma pergunta surgiu após minha palestra, como inevitavelmente aconteceu, eu estava pronto com uma

contra-pergunta: A posição liberal é neutra? É imparcial e objetiva? Claro que não. Ela
se baseia em uma visão dualista altamente controversa da natureza humana, que
envolve uma definição subjetiva da pessoa (andar superior) e uma visão grosseiramente
utilitária do corpo (andar inferior). Não há nada de neutro nisso. E quando o governo
exige políticas baseadas nessa visão de mundo, está impondo uma ideologia liberal
secular a toda uma sociedade.
O problema é que as visões de mundo não vêm bem rotuladas. Ninguém diz que as controvérsias bioéticas envolvem duas visões conflitantes da natureza humana. Em vez disso, as pessoas dizem: É um
conflito de ciência versus religião. Fatos versus fé. Quando ouvimos esse tipo de linguagem, devemos pressionar todos a colocar suas cartas de visão de mundo na mesa. Só então os americanos se
envolverão em um debate genuinamente livre e aberto.

versies envolve two conflicting views of human nature. Instead people say, It’s
a conflict of science versus religion. Facts versus faith. When we hear that kind
of language, we should press everyone to put their worldview cards on the
table. Only then will Americans engage in a genuinely free and open debate.
Uma vez fui convidado para ser um convidado em um programa da Rádio Pública Nacional em São Francisco. Mas

antes de ir ao ar, o produtor primeiro queria saber minha posição sobre o aborto. A visão
aceita, ele comentou, é que o aborto é aceitável “até que o feto se torne uma pessoa”.
“Essa frase carrega uma enorme bagagem filosófica”, expliquei. “A teoria da personalidade
assume uma visão fragmentada da natureza humana, que trata o corpo como dispensável.” Por outro lado,
“aqueles que se opõem ao aborto sustentam uma visão holística da natureza humana como uma unidade integrada. Eles

insistem que o corpo tem valor e dignidade intrínsecos.”

O produtor pareceu surpreso com este argumento. Continuei: “A posição pró-escolha é


exclusiva. Diz que algumas pessoas não estão à altura, não fazem o corte. Eles não se qualificam para
62 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

os direitos da personalidade.” Por outro lado, “a posição pró-vida é inclusiva. Se você é membro

da raça humana, você está ‘dentro’. Você tem a dignidade e o status de um


membro pleno da comunidade moral.”
Alguns dias depois, o produtor entrou em contato comigo para dizer que o programa havia sido cancelado. Pode ser

difícil para os liberais aceitar as implicações desumanizadoras de seus pontos de vista. Eu usei algumas das
palavras da moda liberais mais veneradas (inclusivo, holístico) para demonstrar que uma visão de mundo bíblica

realmente cumpre os mais altos ideais do liberalismo muito melhor do que qualquer visão de mundo secular.

Ficando, Sentindo-se Para Baixo


Vamos agora para as questões sexuais mais controversas de nossos dias, como homossexualidade,

transgeneridade e a cultura do sexo casual. Compreender o dualismo de dois


andares é uma ferramenta poderosa para responder a essas questões de
ponta e, mais uma vez, oferecer uma alternativa bíblica humana e holística.
A chave é lembrar que a visão de mundo bíblica é teleológica. A estrutura biológica do nosso

corpo não é um acidente evolutivo. Sinaliza um propósito divino para o


homem e a mulher formarem alianças para o amor mútuo e a nutrição de uma
nova vida. A moralidade bíblica reflete o propósito para o qual fomos criados.
Por outro lado, uma visão secular e materialista da natureza não tem espaço para propósito ou teleologia. Nossos

corpos são produtos de forças cegas e materiais. Portanto, eles são moralmente
neutros. A implicação é que o que fazemos com nossos corpos não tem significado
moral. Poderíamos chamar isso de visão de sexualidade de Provérbios 30, com sua
imagem de alguém que cometeu adultério: “Ela come e limpa a boca e diz: 'Não fiz
nada de errado'.” Em outras palavras, o sexo é apenas um apetite biológico, como
comer. Quando você sente a necessidade, você a satisfaz. Sem problemas. O que
fazemos com nossos corpos é separado de quem somos como pessoas.
Como essa visão fragmentada da sexualidade funciona na prática? Uma pesquisa do Instituto
para Valores Americanos descobriu que 40% das mulheres universitárias se envolvem em “sexo casual”,
encontros puramente físicos sem expectativa de qualquer relacionamento pessoal. “O que torna o sexo
casual único é que seus praticantes concordam que não haverá compromisso, exclusividade, sentimentos”,
explica o Washington Post. Parceiros de sexo casual são chamados de “amigos com benefícios”, mas isso é
um eufemismo porque eles nem são realmente amigos. A etiqueta não escrita é que você nunca se
encontra apenas para conversar ou passar tempo juntos, explica um artigo do New York Times. “Você

efícios”, mas isso é um eufemismo porque eles nem são realmente amigos. A etiqueta não escrita é que você
nunca se encontra apenas para conversar ou passar tempo juntos, explica um artigo do New York Times . “Você

apenas mantém puramente sexual, e dessa forma as pessoas não têm


expectativas confusas e ninguém se machuca.”
Exceto, é claro, que as pessoas se machucam. O mesmo artigo cita uma adolescente chamada Melissa

que estava deprimida porque seu parceiro de sexo casual tinha acabado
de terminar com ela. As pessoas não são máquinas e não podem
separar cirurgicamente suas emoções do que fazem com seus corpos.
Sexo, Mentiras e Secularismo 63

A revista Rolling Stone entrevistou uma estudante universitária que capturou o pensamento da cultura do "ficar" de forma clara.

Em suas palavras, as pessoas "assumem que existem dois elementos muito distintos em um
relacionamento, um emocional e um sexual, e fingem que existem linhas claras entre
41
eles." Você reconhece a linguagem do dualismo? Os jovens estão tentando viver a
filosofia fragmentada que lhes foi ensinada. Eles assumem que os relacionamentos sexuais podem
ser puramente físicos (nível inferior), desconectados da mente e das emoções (nível superior) — com
"linhas claras" entre eles.

A cultura do "ficar"

PESSOAL
Relacionamento Mental e Emocional
__________________________________________

FÍSICO
Relacionamento Sexual

George Bernard Shaw diagnosticou o problema em sua peça Too True to Be Good. “Quando homens

e mulheres se pegam apenas por diversão, descobrem que pegaram mais do que
esperavam, porque homens e mulheres têm um andar superior, bem como um térreo”, diz um dos
personagens. “Você não pode ter um sem o outro. Eles estão sempre tentando; mas não
funciona.” Os jovens de hoje ainda estão tentando desesperadamente. Mas ainda não funciona.

Claro, o fato de não funcionar deveria nos dizer algo. Significa que a cultura do "ficar"
repousa sobre uma concepção inadequada da natureza humana. As pessoas estão tentando viver um mundo
visão que não se encaixa em quem eles realmente são.

Como os humanos são criados à imagem de Deus, sua experiência nunca se "encaixará" em um secular

visão da natureza humana. Na prática, os não-cristãos sempre encontrarão algum ponto de contradição
entre sua visão de mundo secular e sua experiência na vida real. Essa contradição fornece
uma abertura para argumentar que a visão de mundo secular é falha. Não consegue explicar a vida humana

e experiência. Jovens como Melissa estão tentando viver uma visão de mundo que não corresponde
sua verdadeira natureza — e está os dilacerando com sua dor e angústia.

Quando os adultos ajudam e instigam


Tragicamente, alguns adultos são realmente cúmplices em pressionar os adolescentes a manter o andar superior separado

separado do térreo — isto é, para se envolver em atividade sexual casual. Scarleteen, um


site de educação sexual, inclui uma lista de verificação de prontidão sexual que inclui este
item sob o título de prontidão emocional: “Posso separar sexo de amor.” (Você é maduro
se estiver emocionalmente desapegado.) A revista Cosmo aconselha as mulheres que a
maneira de “impressionar um homem depois do sexo” é pedir uma carona para casa.
64 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

(Deixe claro que você não tem intenção de ficar por perto esperando por um relacionamento.) Dezessete

A revista adverte as adolescentes a "manter seus corações sob controle", ou


os meninos podem achá-las "chatas e grudentas".
42
Esses exemplos foram coletados por Wendy Shalit em seu livroGirls Gone Mild. Em seu site

Shalit publica cartas de leitores, algumas delas de partir o coração. No dia em que
verifiquei o site, havia uma de Amanda, de dezesseis anos, lamentando que em
uma escola de ensino médio típica, “quanto mais distante você estiver de sua
sexualidade, mais legal você é”. Ela acrescentou que até mesmo adultos -
professores, livros, revistas, televisão, pais - muitas vezes exortam os adolescentes
a adotar uma atitude de "sem importância" em relação à sexualidade.
Como que para provar o ponto, algumas resenhas do livro de Shalit realmente defenderam encontros sexuais sem amor

encontros. O Washington Post sugeriu que é saudável quando as adolescentes "se recusam a con-
fundir" amor e sexo: “Às vezes eles coexistem, às vezes não.” A Nação perguntou desafiadoramente: “Por que
43
o sexo deve ter uma garantia eterna de amor anexada a ele?” Por que, de fato, se o corpo é apenas
um pedaço de matéria que pode ser estimulado para o prazer sem significado moral?
A mesma visão sombria da sexualidade é incutida nas mentes de crianças pequenas pelo sistema de escolas públicas

sistema. Um vídeo divulgado pelo Children’s Television Workshop define as relações


sexuais como simplesmente “algo feito por dois adultos para dar
Nenhuma prazer
indicação um aotenha
de que a sexualidade outro”.
qualquer

significado moral ou social. Nenhuma sugestão de que tenha um propósito mais rico do
que a mera gratificação sensual, como unir marido e mulher para criar um refúgio
seguro para criar os filhos. Em vez disso, a sexualidade é retratada como uma troca de
serviços físicos entre dois indivíduos autônomos e desconectados. Sexo como
mercadoria.
Para usar uma frase impactante de John Kavanaugh, “a mercantilização divide sexualidade de auto-

estima .” 45
A sexualidade é tratada não como a expressão incorporada de nossa total auto-estima, mas meramente como um

instrumento para liberação física e recreação.

Alienação PoMoSexual
A mesma abordagem fragmentada da sexualidade impulsiona a visão liberal da homossexualidade também.

O vídeo do Children’s Television Workshop citado acima define a homossexualidade como


simplesmente “duas pessoas do mesmo gênero dando prazer uma à outra”. Se um encontro
sexual é apenas uma troca de serviços físicos, por que realmente importa qual gênero você é?

Na verdade, o que há de mais moderno hoje é a ideia de que o próprio gênero é uma construção social—e

portanto, pode ser desconstruído. Em seu influente livro Gender Trouble, Judith Butler argumenta

que gênero não é um atributo fixo, mas uma variável fluida e flutuante
que muda de acordo com a preferência pessoal. Gênero é uma “ficção”,
uma “fabricação”, uma “fantasia” que pode ser feita e refeita à vontade.
A teoria de Butler se tornou popular nos campi universitários, especialmente entre transgêneros
alunos—“trannies”, para abreviar. Estes são alunos que rejeitam o sistema binário masculino/feminino como
Sexo, Mentiras e Secularismo 65

uma mera construção social e, além disso, opressiva. Um artigo do New York Time relata que
algumas faculdades agora oferecem banheiros, alojamentos e times esportivos separados para
estudantes que não se identificam como homens ou mulheres. Em Wesleyan, a clínica do
campus não exige mais que os alunos marquem Masculino ou Feminino em seus formulários de
saúde. Em vez disso, eles são solicitados a “descrever
47
seu histórico de identidade de gênero.”’ Em outras palavras, quais gêneros você teve ao longo
de sua vida?
Essa visão fluida de gênero é normalmente apresentada como libertadora, uma forma de criar sua própria iden-

tidade em vez de aceitar uma que foi culturalmente atribuída. Como explica uma revista
para homossexuais, as pessoas hoje “não querem se encaixar em nenhuma caixa - nem
gay, hétero, lésbica ou bissexual”. Em vez disso, “eles querem ser livres para mudar de
ideia”. O artigo foi dirigido a pessoas que haviam saído do armário como homossexuais,
mas depois se viram atraídas novamente por relacionamentos heterossexuais. Então, o
que eu sou, eles se perguntaram? Não se preocupe, o autor garantiu
a eles. A ideia de que se nasce com um certo gênero que não pode ser mudado é tão modernista.
A sociedade está caminhando para uma visão pós-moderna em que você pode escolher qualquer gênero que quiser, a qualquer
48 49
hora. Uma visão pomossexual.
O gênero se tornou um conceito pós-moderno de andar superior - indefinível, manipulável, com-
pletamente separado da anatomia física.
Até certo ponto, é claro, essa tendência é impulsionada por uma reação contra os papéis de gênero estreitos

herdados da era vitoriana. Nas sociedades tradicionais, a maior parte do trabalho era
feita em fazendas familiares e propriedades, permitindo que pais e mães participassem
do trabalho produtivo enquanto criavam seus filhos. Mas, após a Revolução Industrial,
o trabalho foi transferido de casa para fábricas e escritórios. O escopo de ambos os
sexos tornou-se mais estreito e restritivo. As mulheres em casa não tinham mais
acesso ao trabalho gerador de renda, enquanto os homens praticamente
abandonaram a criação de filhos em comparação com as épocas anteriores. Os papéis
de gênero também se tornaram unilaterais e restritivos. É compreensível que muitos
protestem contra os danos causados ​por estereótipos de gênero [Link] é bem
outra coisa rejeitar a ideia de gênero definido completamente.
Os cristãos liberais tendem a seguir a liderança dos secularistas nessas questões, em vez de oferecer uma

alternativa genuína. Quando uma ministra metodista unida passou por uma operação de mudança
de sexo para se tornar homem, ela explicou: “Meu corpo não correspondia ao que eu
Claramente, ela sou.”
não considerava

seu corpo como parte de “o que eu sou”. A identidade física era irrelevante. Em um livro intitulado Omnigender,

a ex-escritora evangélica Virginia Mollenkott argumenta que todas as identidades sexuais estão
agora em jogo. Um revisor escreveu, sem nenhum senso aparente de ironia: “Argumentos contra
a ordenação de mulheres precisam de uma reformulação completa, pois não sabemos ao certo
agora o que é uma mulher.”
O corpo se tornou um pedaço de matéria moralmente neutro que pode ser manipulado para qualquer
propósito que o eu possa impor a ele - como estampar o perfil de Lincoln em um centavo de cobre.

Hoje, essa visão pomossexual está adquirindo força de lei. Vários estados já aprovaram
leis que exigem que os empregadores acomodem transgêneros no local de trabalho. Em 2007, a Califórnia
66 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

aprovou uma lei exigindo que as escolas acomodem alunos transgêneros, permitindo que
usem o banheiro ou vestiário de seu gênero preferido, independentemente de seu sexo
anatômico. Até então, o código de educação estadual havia definido sexo em termos
biológicos: “'Sexo' significa a condição ou qualidade biológica de ser um ser humano
masculino ou feminino.” A nova lei definiu sexo como gênero socialmente construído:
“Gênero significa sexo e inclui a identidade de gênero de uma pessoa e a aparência e o
comportamento relacionados ao gênero, sejam ou não estereotipicamente associados à
pessoa.
53
sexo atribuído ao nascimento.”

Note a suposição de que seu sexo é “atribuído” a você, como se fosse puramente arbitrário

em vez de um fato anatômico. A lei está sendo usada para impor uma visão
de mundo liberal secular que descarta a anatomia física como insignificante,
inconsequente e completamente irrelevante para a identidade de gênero.

Corpos Importam
Esta é uma visão devastadoramente desrespeitosa do corpo físico. A dicotomia de dois andares aliena-

as pessoas de seus próprios corpos, tratando a anatomia física como não


tendo dignidade ou significado intrínseco.

Alienação pomossexual

GÊNERO
Identidade Psicológica e Desejo Sexual
__________________________________________

BIOLOGIA
Identidade Física e Anatomia

Pode parecer surpreendente dizer que a sociedade ocidental degrada o corpo físico, dado o
valor ridiculamente alto que as pessoas dão à aparência física — cosméticos, dietas, cirurgia plástica.
No entanto, é verdade. Na divisão de dois andares, nenhum respeito é dado ao bem intrínseco ou telos (propósito)

do corpo humano. Nenhuma dignidade é concedida às capacidades únicas inerentes ao ser masculino ou
feminino. Curiosamente, a própria Butler reconheceu o problema. Críticos de seu livro argumentaram
que, ao divorciar o gênero da anatomia, ela estava ignorando e até denegrindo “a materialidade
54
do corpo.” Eventualmente, ela concordou e escreveu um livro de acompanhamento intitulado Corpos que Importam.

Exatamente. Os corpos importam. Uma visão genuinamente bíblica honra e respeita nossa identidade biológica

como parte de quem somos como pessoas inteiras. O Salmo 139 diz que Deus “tece” nossos corpos em
o ventre. A identidade masculina ou feminina é um presente de Deus para ser desfrutado em gratidão.

A ironia é que os cristãos são frequentemente acusados de serem puritanos e puritanos que têm uma nega-

tive visão do corpo e suas funções, como o sexo. Durante um debate universitário sobre o aborto, o
Sexo, Mentiras e Secularismo 67

estudantes pró-escolha gritaram com os estudantes pró-vida: “Vocês são apenas anti-sexo”. Mas a
verdade é que o cristianismo tem uma visão muito mais respeitosa de nossa identidade psico-sexual.

O tratamento bíblico do assunto começa em Gênesis 2, o relato da criação de Deus dos


dois sexos. Quando Adão reconhece Eva como semelhante a si mesmo, ele exclama: “Esta,
finalmente, é osso do meu osso e carne da minha carne”. Ele estava se referindo apenas à
correspondência corporal entre os dois sexos? Claramente não. A referência à unidade física
tinha a intenção de expressar uma unidade alegre
em todos os níveis - incluindo mente, emoção e espírito. O comentário de Jesus sobre o
mesmo versículo é que “eles não são mais dois, mas uma só carne”. A Escritura oferece
uma visão incrivelmente elevada da união física como uma união de pessoas inteiras em
todas as dimensões. O nível mais profundo de intimidade física deve expressar o nível mais
profundo de intimidade pessoal - pessoas inteiras comprometidas umas com as outras.
O liberalismo trata o sexo como instrumental para objetivos extrínsecos, como prazer físico ou expressar

afeição. É por isso que os liberais não se opõem a nenhuma forma de relação sexual, desde que
atenda a esses objetivos extrínsecos - desde que envolva prazer ou afeição mútua. Por outro
lado, uma visão bíblica do mundo trata o sexo como intrinsecamente bom ao constituir o
relacionamento de uma só carne. Os humanos são uma imagem de

Deus não apenas como indivíduos, mas também em seu relacionamento uns com os
outros - e mais intensamente na unidade íntima sexual-emocional-espiritual do casamento.
Quando o sexo é separado dessa união, estamos, em essência, contando uma mentira.

Isso explica por que o casamento é usado em toda a Escritura como uma metáfora para o íntimo rela-

cionamento que Deus aspira ter com seu povo. No Antigo Testamento, Israel
é a esposa infiel. No Novo Testamento, a igreja é a noiva de Cristo. A metáfora
marital significa que nossa natureza sexual possui uma “linguagem” que, em
última análise, deve proclamar o amor e a fidelidade transcendentes de Deus.

Metafisicamente Perdido
Ao lidar com questões morais tão controversas, é mais eficaz abordar a visão de mundo

nível. Toda prática social é a expressão de pressupostos fundamentais sobre o que


significa ser humano. Quando uma sociedade aceita, endossa e aprova a prática,
ela se compromete implicitamente com a visão de mundo que a acompanha. Tanto
mais se essas práticas estiverem consagradas em lei. A lei funciona como um
professor, educando as pessoas sobre o que a sociedade considera moralmente
aceitável. Se a América aceitar práticas como aborto, eutanásia, “casamento”
homossexual e assim por diante, no processo absorverá a visão de mundo que
justifica essas práticas - a fragmentação de dois andares do ser humano. E as
consequências negativas atingirão todos os aspectos de nossa vida comunitária.

Quando o ex-papa João Paulo II era um jovem lutando contra o marxismo, ele con-
cluiu que o aspecto mais prejudicial do comunismo (e, de fato, de todas as ideologias ateístas) é

uma visão baixa da vida humana. “O mal de nossos tempos” consiste em uma denigração da dignidade
humana, escreveu ele. “Este mal é ainda muito mais da ordem metafísica do que da ordem moral.”
Para usar um
68 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

termo bíblico, há mais de uma maneira de se perder. A Bíblia fala de pessoas moralmente
perdidas sem Cristo. Mas também é verdade que as pessoas estão metafisicamente
perdidas quando vivem de acordo com visões de mundo não bíblicas. Ao conversar com
pessoas seculares, os cristãos devem argumentar que a visão liberal secular da natureza
humana não se encaixa em quem elas são. Não corresponde ao mundo real. Como
resultado, é inevitavelmente destrutivo, tanto pessoal quanto socialmente.
Na pista de patinação onde meu filho estava tendo aulas, uma “mulher” apareceu um dia com

cabelos longos e maquiagem pesada, vestindo uma fantasia de patinação no gelo brilhante
com uma saia curta e meias coloridas. Mas algo estava errado com sua constituição. Ela
era alta, com um perfil robusto, ombros largos e joelhos nodosos. Obviamente do sexo
masculino. Provavelmente no processo de uma operação de mudança de sexo. Os cristãos
devem mostrar compaixão às pessoas que são pressionadas por uma sociedade
pomossexual a desprezar seus próprios corpos e rejeitar sua identidade anatômica. Amar a
Deus significa amar aqueles que carregam sua imagem no mundo.

Os cristãos devem se manifestar sobre questões morais nãoser porque se sentem “ofendidos” ou porque

suas “crenças queridas” estão ameaçadas, mas porque têm compaixão


por aqueles que estão presos por ideias destrutivas. Sua motivação deve
ser a mesma de Paulo: “o amor de Cristo me constrange” (2 Cor. 5:14).

A Juventude Alienada da Igreja


Infelizmente, essa não é a motivação que a maioria das igrejas consegue comunicar — mesmo para seus

próprios jovens. Uma pesquisa Barna de 2007 com frequentadores de igrejas na faixa
etária abaixo de 30 anos descobriu que cerca de 50 por cento — metade! — disse
“eles percebem o cristianismo como crítico, hipócrita e excessivamente político”.
Estes não são críticos de fora da igreja, mas jovens sentados nos bancos. Nem são

eles meramente expressando o idealismo normal da juventude, que sempre encontra


falhas nas instituições estabelecidas. O estudo descobriu que esta geração exibe “um
maior grau de crítica em relação ao cristianismo do que as gerações anteriores”.
O que isso significa é que, precisamente nas décadas em que os evangélicos se tornaram mais ativistas

na arena pública, eles se tornaram mais alienados de seus próprios jovens na arena
privada. E em nenhum lugar mais do que em questões polêmicas como aborto e
homossexualidade. Durante a campanha presidencial de 2008, dezenas de artigos
de notícias foram divulgados anunciando que jovens evangélicos estavam se
afastando de questões associadas à Direita Religiosa para abraçar questões
tipicamente associadas à Esquerda, como pobreza, ambientalismo e justiça social. A
ABC News perguntou: “Os jovens evangélicos estão se tornando mais liberais?”
Não é que os jovens não estejam mais preocupados com questões morais como o aborto, explica

John Green, do Pew Research Center. “Na verdade, algumas de nossas pesquisas mostram
que os jovens evangélicos são um pouco mais pró-vida do queeles
Por que, então, seus mais velhos.”
se tornaram tão desiludidos?
Porque estão cansados de ver questões morais transformadas em bolas de futebol político.
Sexo, Mentiras e Secularismo 69

Cristãos que entraram na arena pública nas últimas décadas normalmente empregaram táticas políticas padrão

e estratégias - mas eles não sabiam como abordar a visão de mundo subjacente
questões. E quando uma abordagem política não funcionava, eles simplesmente aumentavam o nível de decibéis e

forçavam mais. Para reunir as tropas e arrecadar dinheiro, grupos ativistas normalmente usam retórica voltada

para despertar medo e indignação - até que mesmo seus próprios filhos os achassem estridentes e estridentes. Um novo

livro intitulado American Grace: How Religion Is Reshaping Our Civic and Political Lives relata que
jovens americanos estão abandonando a religião a uma taxa alarmante de cinco a seis vezes a histórica
taxa (30 a 40 por cento não têm religião hoje contra 5 a 10 por cento há uma geração). Muitos deles
59
eles abrigam uma imagem de cristãos como raivosos, sem amor e moralistas.
Antes que a igreja possa esperar conquistar a sociedade ao redor, ela deve primeiro conquistar seus
própria juventude. Os jovens não precisam apenas de regras, eles precisam de razões. É hora de a igreja
se reagrupar, repensar e reformular sua estratégia para o engajamento social e político. Cristãos devem
aprender a envolver as visões de mundo seculares que impulsionam o debate público. Eles devem aprender a articular

uma justificativa de visão de mundo para explicar a moralidade bíblica. E, mais importante, eles devem apoiar

sua mensagem com uma vida autêntica diante de um mundo observador.

Para aprender como reconhecer visões de mundo seculares e seu impacto em nossas vidas diárias, precisamos

para cavar mais fundo e perguntar de onde eles vieram. Na Parte 1, diagnosticamos a divisão da verdade e

a fragmentação do ser humano. Na Parte 2, descobriremos que esta é apenas a ponta do


iceberg. O próprio pensamento ocidental se dividiu em duas correntes separadas - dois caminhos para o secularismo.

Para sermos eficazes em oferecer alternativas genuínas ao secularismo global, devemos mapear aqueles
dois caminhos, lendo as placas ao longo do caminho para identificar as principais visões de mundo que moldam nossos

mundo hoje.

Parte 2

Dois Caminhos para o Secularismo


Capítulo 4

“Arte e ciência . . . tornam-se rivais


sobre quem possui a verdade.”

—Jacques Barzun

Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo

Quando eu estava crescendo, as famílias não assistiam Frosty, o Boneco de Neve durante as festas de Natal,

dias . Eles assistiam ópera. Sério. Em toda a América, as famílias faziam da sintonia um costume
para Amahl e os Visitantes da Noite, a primeira ópera composta para a televisão. Escrita em 1951, foi

transmitida a cada temporada de Natal por anos, e continua a ser


amplamente apresentada em igrejas e salas de concerto até hoje.
O enredo é amplamente conhecido: Os três reis a caminho de Belém param na cabana
de um pobre e aleijado pastor. Enquanto os reis descrevem o divino infante que estão
procurando - “Somente no amor ele construirá seu reino” - o menino anseia por enviar
um presente próprio. Quando ele oferece sua única posse, uma muleta feita à mão, ele é
milagrosamente curado. Andando e saltando, o menino se junta aos três reis em sua
jornada para Belém para agradecer pessoalmente ao menino Cristo.

A Magia de Amahl
O que não é amplamente conhecido é que o enredo reflete uma cura milagrosa na própria vida do compositor

vida. Quando criança crescendo na Itália, “Eu fui aleijado por um tempo”, lembra Gian Carlo
Menotti. Em seu tornozelo direito, um tumor inchou tanto que ele não conseguia andar. Os
médicos ficaram perplexos. Mas sua babá Maria conhecia uma igreja não muito longe, onde,
dizia-se, Deus fazia milagres.
“Gian Carlo”, Maria perguntou-lhe seriamente, “você acredita que Deus pode curá-lo?” Com uma criança

firme convicção, o menino assentiu com a cabeça e juntos seguiram para a igreja.

73
74 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Enquanto estava lá, Menotti recorda: “Recebi uma bênção. . . . e de


repente eu andei.” Essa memória de infância foi a inspiração para

Amahl, um menino maltrapilho apoiado em sua


muleta, precisando de seu próprio milagre.
E os três reis? Eles foram baseados no costume italiano de
dar presentes não no Natal, mas em 6 de janeiro, a festa
da Epifania, que comemora a visita dos Reis Magos ao
4-1 Gian Carlo Menotti
menino Jesus. Quando jovem, Menotti lutava para ficar
Amahl e os Visitantes da Noite, 1951 acordado o suficiente para ver os três reis chegando
O escândalo da beleza
com
seus presentes de incenso, ouro e mirra. Embora ele nunca tenha conseguido vislumbrar
eles, ele imaginou que podia ouvir flutuando de longe os sons solenes de seu canto, o pesado
ritmo dos cascos dos camelos, o tilintar das rédeas de prata. Essas eram as memórias que ele queria
recapturar na ópera. Em uma das cenas mais emocionantes, os reis cantam sobre a criança que
estão procurando:

Você viu uma criança . . .


? Seus olhos são mansos,

suas mãos são as de um


rei, como rei ele nasceu.

Você viu uma criança . . .


? Seus olhos estão tristes,

suas mãos são as dos pobres,


como pobre ele nasceu.

Incenso, ouro e mirra trazemos ao seu


lado, e a estrela do oriente é o nosso guia.

Ouvi a ópera pela primeira vez quando tinha quatro anos. Mas não foi a versão televisionada,
foi um concerto ao vivo, com minha mãe tocando violino na orquestra. Fiquei fascinado com
o cenário, os figurinos, o canto—e acima de tudo, com a visão de minha mãe contribuindo para
a criação de tanta beleza e magia.

Beleza Desprezada como uma Fera


Apesar da popularidade da ópera, nem todos ficaram tão encantados. As composições de Menotti

mostraram-se controversas—não porque eram vanguardistas, mas precisamente porque eram


tão belas. Os principais compositores clássicos do século XX estavam produzindo música atonal
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 75

que era altamente discordante e irritante ao ouvido — peças que o público não
gostava e não conseguia entender. Qualquer um que compusesse música que as
pessoas realmente apreciassem era acusado por outros músicos de se vender por
dinheiro. O crítico musical Henry Pleasants escreveu na época que o compositor
clássico “não ousa ser popular, pois a música popular é considerada sinônimo de
música leve ou fácil e, portanto, inferior”. Mencionando Menotti como exemplo,
Pleasants escreveu: “Aqueles que cortejaram o público desfrutaram de alguma
medida de sucesso popular, mas pouco apreço na profissão. . . . Eles não são
considerados contribuintes significativos para a história musical.” O compositor que
aspirava ser levado a sério como um artista de vanguarda se sentia obrigado a
chocar, repelir e escandalizar.
Menotti sabia o que os críticos estavam dizendo e estava perplexo com isso. Entre os críticos, ele com-

mentou: “dizer de uma peça que ela é áspera, seca, ácida e implacável
é elogiá-la. Enquanto chamá-la de doce e graciosa é condená-la.” No
entanto, ele disse: “Eu ousei acabar completamente com a dissonância
da moda e . . . redescobrir a nobreza da graça e o prazer da doçura.”
É seguro dizer que a perplexidade de Menotti é compartilhada pelo público. Por que a dissonância
se tornou tão popular? Por que a arte é elogiada principalmente quando é áspera e ofensiva? Por que
muitos artistas rejeitaram o próprio conceito de beleza? O problema chega ao nível pessoal
quando os pais não podem mais permitir que seus filhos assistam à televisão ou ouçam a música mais recente

CD sem monitorar a linguagem imprópria e o conteúdo questionável.


Se as artes refletem a visão de mundo de uma cultura, o que tudo isso diz sobre a visão de mundo secular de hoje?

Os artistas são os barômetros da sociedade, sensíveis a novas ideias à medida que elas se infiltram na cultura

atmosfera. Eles também são talentosos em usar histórias e imagens para desenvolver essas ideias. Aprender a

interpretar as artes pode ser uma estratégia poderosa para entender o secularismo monolítico que está
se espalhando pelo mundo hoje.
Na Parte 1, diagnosticamos o conceito dividido de verdade e seu corolário, o conceito dividido
do ser humano. Mas as ideias são muito mais fáceis de entender se tivermos uma visão panorâmica para
ver de onde elas vieram. Na Parte 2, descobriremos que o próprio pensamento ocidental se dividiu em
duas correntes. Podemos pensar nelas como dois caminhos divergentes para o secularismo, correndo lado a lado

ao longo da história moderna. Exploraremos esses caminhos não apenas em palavras, mas também em imagens e

histórias, através das artes e da literatura. A rica textura desta história trará as ideias à vida, equipando-
o para se envolver em discussões com pessoas reais que buscam respostas viáveis em um mundo que está caindo
aos
pedaços.

Para começar, precisamos de um curso intensivo sobre como detectar temas de visão de mundo nas artes. Então nós

traçaremos um mapa aéreo dos dois caminhos para o secularismo. Isso o preparará para reconhecer o
as curvas mais significativas na estrada à medida que descemos aos detalhes nos capítulos que se seguem.
76 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Artistas como Pensadores


De início, precisamos desmistificar o estereótipo de que a arte não tem nada a ver com ideias ou
visões de mundo. O crítico de teatro Eric Bentley publicou certa vez um livro chamado O Dramaturgo como Pensador

que se mostrou altamente bem-sucedido - uma vez que as pessoas superaram o choque do título. A resposta inicial
dos críticos foi protestar: Isso não pode estar certo. “Como podem os dramaturgos serem pensadores, quando
todos
4
sabem que eles são sentimentais? Eles lidam com emoções, não com ideias - não é mesmo?”

A verdade é que os artistas interagem profundamente com o pensamento de seu tempo, traduzindo visões de mundo

em histórias e imagens. Felizmente, os estudiosos estão começando a reconhecer


esse fato. Meyer Schapiro liderou o caminho em um ensaio inovador na década de
1950, observando que “níveis insuspeitos de significado” foram descobertos quando
os críticos começaram a “explicar os estilos como uma expressão artística de uma
visão de mundo”. Na década de 1960, Finley Eversole escreveu que cada cultura tem
sua própria “visão de mundo” e que “o artista nos dá imagens concretas dessa visão
de mundo”. O historiador de arte holandês Hans Rookmaaker disse: “A arte tenta,
literalmente, retratar as coisas que a filosofia tenta colocar em palavras
cuidadosamente pensadas”. O arquiteto contemporâneo David Gobel diz que na arte
“uma visão de mundo se torna tangível”.
Em uma conferência de 2006 do International Arts Movement, tive a honra de compartilhar um
pódio com o poeta Dana Gioia, que na época era presidente do National Endowment for the Arts.
“Toda arte é uma linguagem - uma linguagem de cor, som, movimento ou palavras”, disse Gioia.
“Quando nos imergimos em uma obra de arte, entramos na visão de mundo do artista. Pode ser
uma
6
visão de mundo expansiva e gloriosa, ou pode ser uma visão de mundo limitada e desumanizante.”

É claro que nenhum desses estudiosos está dizendo que uma obra de arte pode ser reduzida ao nível cogni-

tivo sozinho. Elementos estéticos - estilo, cor, textura, tom, enredo, caracterização - são as
ferramentas essenciais do artista e têm um impacto próprio. O compositor Gustav Mahler
disse certa vez: “Se eu pudesse condensar minha experiência em palavras, certamente não
comporia música sobre isso”. No entanto, as pessoas comuns raramente estão equipadas
para avaliar as qualidades técnicas de uma obra de arte. Nas palavras de John Walford, do
Wheaton College, os não-artistas estão interessados principalmente na maneira como a
arte se conecta com “questões e preocupações humanas maiores”. Um artista cria um
mundo imaginário e
então nos convida a entrar nesse mundo, para experimentar como a vida se parece e se sente de
uma perspectiva particular. O público se importa tanto com as habilidades técnicas usadas para
realizar o truque. Sua principal preocupação é a concepção do mundo que o artista está
desenvolvendo.
Além disso, como descobriremos, até mesmo os elementos estéticos crescem, em última análise, a partir de visões de mundo.

Este pode ser um conceito difícil de entender. Na música popular, por exemplo, a maioria das pessoas reconhece
prontamente que as letras expressam a perspectiva e a experiência do compositor. Mas eles tendem a presumir

que o estilo musical é neutro. Isso é um erro. Os estilos artísticos se desenvolvem originalmente como veículos

para expressar visões de mundo particulares. Como diz o pintor Louis Finkelstein,
“O sentido de toda mudança estilística é que a visão subjacente do mundo muda.”
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 77

O que isso significa é que podemos “ler” a história das ideias através da história da mudança de
estilos artísticos. Isso abre um meio excepcionalmente envolvente de interpretar visões de mundo—um que

envolve a pessoa inteira: mente e imaginação, intelecto e emoção.

Nova Maneira de “Ler” Arte


Existem muitos bons livros que discutem a estética cristã ou uma justificativa bíblica para

as artes. Esse não é meu propósito aqui. A pergunta que estou fazendo não é se essas
obras de arte são bonitas ou bem executadas, mas como elas dão expressão pictórica a
uma visão de mundo. Em uma resenha de livro, o filósofo Jean-Paul Sartre comentou
certa vez que gostou do romance, mas discordou da visão de mundo do romancista. Em
suas palavras: “Gosto de sua arte, mas não acredito em sua metafísica”. Nas páginas
seguintes, você pode ou não gostar da arte. O objetivo, no entanto, é determinar
se você concorda com a visão de mundo dos artistas.

Para citar o pintor Anthony Toney: “Diferentes abordagens na pintura ou na arte em geral são

manifestações de diferentes visões da realidade.” Vamos passear por um museu


de arte virtual e examinar as diferentes visões da realidade em exibição ali.

Os Gregos Geométricos
Começando com os antigos gregos, um fio principal no tecido do pensamento ocidental tem sido
a convicção de que a verdade última é encontrada na matemática e na geometria. Na
época, essa era uma ideia completamente nova. Civilizações anteriores, como os egípcios
e babilônios, haviam tratado a geometria como um apanhado de ferramentas práticas
para cálculo—regras práticas descobertas por tentativa e erro, úteis para carpinteiros e
topógrafos. Deve ter sido tremendamente emocionante quando os filósofos gregos
descobriram pela primeira vez que as leis geométricas não eram meramente ferramentas
práticas, mas verdades demonstráveis que podiam ser expressas em fórmulas e
justificadas por provas lógicas e dedutivas. Se você estava entediado na geometria do
ensino médio, provavelmente é porque ninguém explicou que grande avanço esse tipo de
raciocínio rigoroso representava. Os gregos ficaram tão maravilhados com isso que
muitos veneravam a geometria como a porta de entrada para o conhecimento
logicamente certo.
Pense, por exemplo, em Pitágoras, cujo nome é familiar por causa do teorema que leva
seu nome. Ele descobriu que até mesmo as harmonias musicais dependem de
proporções geométricas. Dois tons estão uma oitava separados quando o tom mais alto
tem uma frequência exatamente duas vezes mais rápida que a frequência do tom mais
baixo—uma razão de 2 para 1. As duas ondas sonoras se encaixam tão perfeitamente que
os tons soam extremamente consoantes. Na verdade, nós os consideramos
essencialmente a mesma nota: Uma oitava acima da nota C também é chamada de C.
Uma razão de 2 para 3 produz uma quinta harmônica, que cria um tom claro e aberto.
Uma razão de 3 para 4 produz uma quarta harmônica. E assim por diante. Pitágoras
concluiu que o número era a força divina que mantém o cosmos em uma ordem
perfeitamente harmoniosa. Ele até fundou uma religião de mistério ensinando que a
iluminação espiritual poderia ser alcançada através do estudo da música e da
matemática. Tendo viajado uma vez para a Pérsia, Pitágoras
78 Nancy Pearcey | Saving Leonardo

don a Persian robe and turban to make dramatic appearances on a curtained stage, where he
would astonish the public with demonstrations of geometric proofs.
Pythagoras influenced Plato, who believed that geometry was the means to draw the mind
up to the realm of eternal truths. Over the gate to his school was carved the inscription, “Let
none ignorant of geometry enter here.” He even thought the divine mind had nothing better to
do than to eternally contemplate geometry: “God always geometrizes.”

CLASSICAL GREECE

4-2 Apollo Belvedere 4-3 Venus de Milo

Art of Mathematical Ideals

These ideas spilled over into art as well. If beauty reflected the underlying order of the cos-
mos, then beauty itself must be a matter of mathematics. Sculptors worked out precise mathe-
matical rules governing the ideal proportion of fingers to hand, hand to arm, thigh to leg, head to
body, and so on. In the fifth century BC, the sculptor Polykleitos said that “Apollo was beautiful
because his body conformed to certain laws of proportion and so partook of the divine beauty of
mathematics.”10 For the Greeks, explains Walford, “the proportions of the human body and the
mathematical structure of the universe were related.”11
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 79

O princípio ilustrado aqui é que “toda arte é fundada na fé”, diz o historiador de arte Kenneth
Clark. “A fé grega em números harmoniosos encontrou expressão em sua pintura e escul-
12
tura.” Deu origem a um estilo marcado por clareza, moderação, equilíbrio e proporção matemática.
Nenhum corpo humano vivo é tão perfeitamente proporcional quanto uma estátua grega. Isso porque estas

estátuas não representam indivíduos particulares, mas ideais ou tipos universais. Filósofos da
era clássica deram prioridade ao ideal sobre o real, ao universal sobre o individual. Eles não
atribuíram qualquer dignidade ou valor às características que tornam cada pessoa única. O que importava eram

as características compartilhadas que compunham a natureza humana universal. A individualidade era considerada nada
13
mais do que uma aberração, uma irregularidade, um desvio do ideal. Consciente ou não, a arte clássica
refletia a filosofia clássica.

Ícones Bizantinos
Pule agora para a era bizantina, um período que começou por volta de 330 d.C., quando Constantino mudou

a capital do Império Romano para Bizâncio. (Ele mudou seu nome para
Constantinopla.) Nos ícones bizantinos, as figuras tendem a ser formais, altamente
estilizadas e bidimensionais. O efeito é quase como um pedaço de papel de
embrulho de Natal colado na parede. O que esse estilo estava dizendo? Os pintores
bizantinos realmente pensavam que o ar era ouro? O que eles estavam
comunicando através deste estilo?
A principal influência filosófica na cultura bizantina foi o neoplatonismo, que misturava
o pensamento grego com o misticismo oriental. O resultado foi um dualismo
acentuado que considerava o mundo material como o reino da morte, decadência,
maldade e corrupção. O caminho para a sabedoria era se retirar do mundo físico
conhecido pelos sentidos, a fim de contemplar o reino dos ideais ou universais
conhecidos pelo olho interior da razão. O objetivo final da vida era escapar da
prisão do corpo físico e ascender ao reino espiritual.
Elementos do dualismo neoplatônico foram filtrados para o pensamento de teólogos cristãos como

Agostinho, Orígenes, Boécio e os pais capadócios. Vemos seu impacto, por exemplo, no
movimento monástico. Como o mundo material era considerado a fonte do mal e da
corrupção, o monge se retirava para o mosteiro para contemplar os ideais espirituais.
Como a natureza era considerada de pouco valor, o monge não possuía propriedade.
Como o corpo físico era uma fonte de pecado, o monge suprimia os desejos corporais
através de práticas ascéticas — comida simples, roupas grosseiras, a rejeição do sexo e
do casamento. E assim por diante. Os cristãos começaram a dividir o mundo criado em
duas esferas, sagrada versus secular. Eles reformularam a moralidade em termos de
regras negativas, como se a santidade pudesse ser alcançada simplesmente evitando
certas partes da criação. Eles perderam o ensinamento bíblico de que toda a realidade
criada vem da mão de Deus e é intrinsecamente boa.
Por volta do século V, vemos o impacto do neoplatonismo nas artes, à medida que os artistas perderam

o interesse em retratar o mundo comum. Nos ícones bizantinos, a ênfase não estava na humanidade de
Jesus, mas em sua divindade. Ele era tipicamente retratado como o Juiz e Governante todo-poderoso de
80 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

o universo. E Maria nunca foi uma pobre camponesa da Galileia, mas a Mãe de
Deus que (de acordo com a teologia católica e ortodoxa) já estava exaltada no alto.

BIZANTINO

4-4 4-5
Cristo Pantocrator, século XII Virgem e Criança, século XVI

Cristianismo Neoplatônico

Note que as figuras não estão inseridas em nenhum cenário narrativo. Não há pano de fundo de
árvores ou paisagens urbanas. Em vez disso, o fundo dourado tinha como objetivo elevar a mente às verdades eternas

(que, como o ouro, não enferrujam nem se deterioram). Os vermelhos são escarlates ricos e os azuis são claros safira,

quase como se também fossem joias preciosas. O esplendor solene diz ao espectador
que algo sagrado ou milagroso está sendo retratado. Normalmente, o sujeito faz contato visual
com o espectador, a fim de criar uma sensação de confronto pessoal - uma exortação para parar e
14
prestar atenção à mensagem sagrada. O ícone era um sermão visual.

Os artistas bizantinos não se esforçavam para expressar sentimentos pessoais. Pelo contrário, eles
seguiram regras e fórmulas estritas estabelecidas precisamente para eliminar qualquer perspectiva pessoal. Ícones

eram reverenciados como “janelas” que conduziam o adorador a um reino espiritual transcendente.

Primeira Cena da Manjedoura

O século XIII foi o século dos frades - os franciscanos e dominicanos.

Estes eram monges que deixaram os mosteiros para ensinar, pregar e


praticar a caridade no mundo. E a razão pela qual eles se importavam tanto
com o mundo era que eles desenvolveram uma visão mais bíblica dele.
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 81

Os Dominicanos foram fundados por volta de 1226, mais ou menos na época em que a filosofia de Aristóteles foi re-

descoberta. Eles se esforçaram para adaptá-la à teologia cristã. Ao contrário de Pitágoras e Platão, Aristóteles

não se interessava por geometria, mas por biologia. Ele ensinou que temos acesso às verdades universais
não nos afastando do mundo natural para um reino de ideais abstratos, mas observando o natural
objetos percebidos através dos sentidos. Ele argumentou que os processos naturais são bons porque são
os meios pelos quais as coisas alcançam sua verdadeira natureza—seu telos. Uma bolota se torna um carvalho. Um

ovo se torna uma águia. Sob a influência de Aristóteles, Dominicanos como Tomás de Aquino começaram
15
a argumentar que a criação é boa porque é obra de um bom Criador.
Os Franciscanos foram fundados na mesma época por Francisco de Assis. Francisco é creditado
com a criação do primeiro presépio, completo com um bebê vivo em uma manjedoura cercado por
bois e burros. Até então, a Páscoa, e não o Natal, era celebrada como a principal
feriado cristão. O que motivou Francisco a mudar o foco para o nascimento de Jesus? Um novo interesse em

A humanidade de Cristo. A meditação sobre a encarnação levou os teólogos a insistir que não
temos que nos afastar da natureza para contemplar a Deus. Pois o próprio Deus assumiu um físico
corpo na pessoa de Jesus Cristo. Ele se fez conhecido em e através do mundo criado. “Se
você me conhece, você conhece o Pai”, disse Jesus (João 14:7). E porque o próprio Deus se tornou
carne, a vida física não poderia ser intrinsecamente má ou maligna. Não precisamos rejeitar o material
mundo para ter uma mente espiritual.
A preferência grega pelo universal começou a ser equilibrada por uma apreciação do
indivíduo concreto. Pois o próprio Deus—o supremo universal—tornou-se um indivíduo único.
A individualidade não era mais meramente uma aberração arbitrária do ideal universal. Tinha valor
16
e dignidade por si só.

IDADE MÉDIA

4-6 Fra Angelico 4-7 Giotto


Anunciação, 1438 Lamentação, 1305

A natureza como a boa criação de Deus


82 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Essas tendências teológicas tiveram um enorme impacto nas artes. “O foco na humanidade de Cristo
alterou o curso da arte”, escreve um historiador. “Os artistas se esforçaram para fazer as figuras que pintavam
17
o mais reais possível e os arredores representados o mais naturais que pudessem.” Fra Angelico era
um dominicano, e Giotto foi influenciado pelos franciscanos. Comparando suas pinturas com
ícones bizantinos, que diferenças você detecta? As figuras não são mais planas e formais. Elas
possuem peso, volume e massa genuínos. Elas estão em um espaço real, tridimensional, dentro de um
cenário físico. Ambas as pinturas têm uma linha narrativa; elas contam uma história ou relatam um evento. Em

Lamentação de Giotto, as figuras expressam sua tristeza através de intensas expressões faciais e
gestos dramáticos com as mãos. Até os anjos fazem caretas de tristeza. O drama emocional é realçado por
a linha diagonal da parede de pedra inclinando-se em direção à cabeça de Jesus, simbolizando o tema da
descida (cf. Fil. 2:5-8).
“A visão de mundo de Giotto é fundamentalmente diferente” da dos bizantinos, explica um
acadêmico. Giotto descartou a “teologia dualista e ascética” inspirada no neoplatonismo, e
a substituiu por “uma teologia encarnacional”. O mundo físico não é mais uma prisão para ser
escapado. Em vez disso, é o locus para “o encontro do humano e do divino, o físico
18
e o espiritual, o temporal e o eterno.”
Para realçar o tema encarnacional, os artistas começaram a incluir detalhes elaborados e realistas
que correspondiam às características arquitetônicas da sala ou pátio circundante. Isso explica Fra
Pilares e arcos de Angelico. O objetivo era criar a ilusão de ótica de que a pintura fazia parte
da sala — como se pudéssemos realmente caminhar e encontrar os personagens bíblicos e testemunhar
os eventos. O uso da perspectiva, portanto, sublinhou a mensagem de que esses eventos aconteceram em

nosso mundo — que o reino espiritual entrou profundamente na vida


ordinária. O exemplo mais famoso foi A Última Ceia de Leonardo da Vinci,que foi engenhosamente

projetado para aparecer como uma extensão do refeitório onde foi originalmente pendurado. O monge que

sentado à mesa há cerca de cinco séculos, partindo o pão e bebendo vinho, viu a parede sólida ceder
e sentiu-se pessoalmente envolvido naquele momento dramático de confronto quando os discípulos
perguntou: “Sou eu, Senhor?” E como diz Bach em sua Paixão de São Mateus, para cada pessoa a resposta
deve ser, Sim, sou eu e meus pecados que colocaram Jesus na cruz. Sou eu quem deveria ter sofrido o que
19
ele está prestes a sofrer por amor a mim. A pintura transmitia profundas verdades espirituais, não
através de palavras, mas através de imagens visuais.

Sereis Como Deuses


Mencionar Leonardo é fazer a ponte para o próximo período histórico. Durante o Renascimento,
a Academia Platônica em Florença reviveu o neoplatonismo. Filósofos como Marsilio
Ficino consideravam-no uma sabedoria “perene” dada por Deus aos gentios, paralela ao
Antigo Testamento dado aos hebreus. Como resultado, eles estavam convencidos de
que poderiam harmonizar essa sabedoria perene com o cristianismo. O que eles
realmente fizeram foi transformá-lo em humanismo renascentista.
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 83

Lembre-se de que, para o neoplatonismo, a fonte do mal e do sofrimento era o dualismo. O espírito estava

preso na matéria (o corpo), que estava sujeita à morte e à corrupção. A filosofia de Ficino
começou, portanto, com a pergunta: Como podemos superar o dualismo? Sua resposta foi que os humanos

devem governar a matéria. Criado à imagem de Deus, o ser humano deve se tornar um “terrestre
deus.” Ele é “deus dos animais” porque os governa; ele é “deus de todos os materiais” porque
ele os usa para fabricar as coisas de que precisa. Em vez de pedir um retiro monástico do
mundo, o humanismo renascentista pedia o domínio do mundo. A dicotomia da velhice de
espírito e matéria seria superada à medida que o espírito conquista a matéria. Desta forma, escreve um historiador,

os pensadores renascentistas esperavam superar “os impedimentos e limitações resultantes do homem


20
natureza dualística.”

RENASCIMENTO

4-8 Leonardo da Vinci 4-9 Michelangelo Buonarroti


Homem Vitruviano, 1487 Isaías, a Capela Sistina, 1509

Domínio humano da natureza

Isso explica o ideal do Homem Renascentista, o indivíduo que domina uma ampla gama de
campos nas artes e nas ciências. E o exemplo supremo foi Leonardo da Vinci - cientista,
inventor, matemático, engenheiro e, acima de tudo, artista. Para Leonardo, o pintor era um “deus”
capaz de criar imagens à vontade. Seu Homem Vitruviano (nomeado em homenagem a um arquiteto romano que cal-

culou as proporções ideais do corpo) expressa a ideia neoplatônica de que o ser humano é um
microcosmo unindo os dois reinos do espírito e da matéria. “Na iconografia da época”, explica
84 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

um historiador, “o quadrado era geralmente tomado como simbólico da terra,


enquanto o círculo era representativo da eternidade do céu”. Na imagem de Leonardo,
então, o humano ideal é “tanto desta terra quanto do céu . . . o unificador do universo.”
Este polímata cumpriu o objetivo renascentista de superar a “natureza dualística do homem”?
Infelizmente não, diz o filósofo Giovanni Gentile. Como engenheiro e matemático, Leonardo
antecipou a visão de mundo mecanicista que surgiu logo depois na revolução científica—uma
visão da natureza “ordenada em um sistema fechado e fixo, necessário e mecanicamente invariável.” No entanto,

como artista, Leonardo nunca parou de buscar capturar o ideal ou o universal. Em uma passagem
comovente, Gentile fala da “angústia e da tragédia mais íntima deste homem universal, dividido
22
entre seus mundos inconciliáveis.” Situado no limiar da modernidade, Leonardo é um sím-
bolo da mente moderna e sua trágica incapacidade de encontrar uma verdade unificada.

O Mundo como Livro


Por outro lado, a Reforma tinha os recursos para superar o dualismo e recuperar uma
visão de mundo unificada. Quando Martinho Lutero deixou a Igreja Católica, ele
rejeitou o dualismo da mentalidade monástica. Ele argumentou que um padre ou freira
não é nem um pouco superior a um comerciante, fazendeiro, moleiro ou dona de casa.
A doutrina protestante da vocação insistia que qualquer trabalho honesto pode ser um
chamado de Deus, uma forma de cumprir o mandato cultural (o mandamento do
Gênesis de cultivar a terra). A arte inspirada na Reforma tipicamente mostrava pessoas
comuns exercendo seu ofício. As pinturas brilham com uma intensidade silenciosa para
transmitir o conceito bíblico de que a vida comum é infundida com dignidade e
significado espiritual.

BARROCO (PROTESTANTE)

4-10 Jan Vermeer 4-11 Jacob van Ruisdael


Cozinheira, 1658 Moinho em Wijk, 1670

A santidade da vida e do trabalho comuns


Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 85

A Reforma inspirou um novo inter-


esse em retratar a natureza também. Desde os
pais da igreja, os teólogos falavam de “dois
livros” da revelação—o livro da palavra de Deus
(Escritura) e o livro do mundo de Deus (cria-
ção). Parafraseando o primeiro capítulo de Romanos,
a Confissão Reformada Holandesa diz: “O
mundo está diante de nossos olhos como um belo livro, no

qual todas as coisas criadas, grandes e pequenas, são como

letras, que nos dão as coisas invisíveis de Deus


para contemplar.” Os pintores de paisagens holandeses, como
4-12 Rembrandt van Rijn A
Jacob van Ruisdael, procuraram retratar a natureza como Negação de São Pedro, 1660
Uma imagem melhor de Deus
24
“o segundo livro da revelação de Deus”

Finalmente, os Reformadores argumentaram que uma pessoa humana viva é uma imagem melhor de Deus do que as

esculturas de madeira ou pedra típicas das igrejas católicas. Isso explica por que artistas como Rembrandt
produziram tantos estudos do caráter humano. Em seu retrato requintado de Pedro, podemos “ler”
os medos conflitantes que cruzam seu rosto enquanto a serva pergunta se ele é um dos discípulos de Jesus.

Rembrandt está destacando o significado transformador do mundo das lutas espirituais de cada indivíduo

e escolhas. No fundo, à direita, Jesus olha para Pedro com uma expressão que
é ao mesmo tempo angustiada e gentil, insinuando o futuro perdão e restauração. No momento mais sombrio de Pedro

de tentação e traição, Rembrandt inclui um prenúncio de redenção.

A Matéria É Espiritual
A Igreja Católica teve sua própria Reforma (às vezes chamada de Contrarreforma).

Um resultado lamentável da Reforma Protestante foi um aumento no iconoclasmo—a destruição


de estátuas e imagens. Isso não tinha nada a ver com oposição à arte per se, mas tinha tudo a

ver com preocupações sobre teologia. Nas artes visuais, os Reformadores acusaram
que as imagens haviam escorregado para a idolatria, assim como a serpente de
bronze no antigo Israel havia se tornado um ídolo (2 Reis 18:4). Nas artes verbais,
eles acusaram que as interpretações alegóricas das Escrituras faziam uso de
simbolismo e metáforas excessivas, obscurecendo a mensagem central do
evangelho. No final, eles rejeitaram toda a panóplia de práticas devocionais
medievais: relíquias, vitrais, confissões, indulgências, peregrinações, procissões,
água benta e a própria missa. Esses rituais os impressionaram como semelhantes à
magia, como se poderes espirituais inerentes a objetos materiais onde pudessem
ser controlados e manipulados por seres humanos.
Muitos Reformadores—especialmente os Calvinistas—buscaram uma forma de adoração austera e organizada

focada na Palavra em vez de imagem ou ritual. Para enfatizar a transcendência de Deus, eles pintaram
de branco as pinturas religiosas nas paredes da igreja, deixando-as simples e sem adornos. Em vez de
86 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

cultivando elegância e eloquência em seus sermões, eles preferiam uma


linguagem simples. O reformador inglês Thomas Cranmer disse que aspirava
tornar suas palavras “tão claras, que a menor criança... possa entendê-las”.
O desafio enfrentado pelos teólogos católicos, então, era defender o uso de imagens. Como os
iconoclastas, seus argumentos não tinham nada a ver com a arte per se. Eles remontaram a debates anteriores

sobre imagens que haviam ocorrido nos séculos VII e IX. (Sim, o mesmo debate já
havia irrompido na igreja antes.) E eles reviveram a mesma defesa que havia sido
bem-sucedida então — a doutrina da encarnação. As imagens eram aceitáveis,
argumentavam eles, porque Cristo “é a imagem do Deus invisível” (Col. 1:15). O
Verbo se fez carne. Portanto, o mundo material tem a dignidade de ser uma
avenida da presença divina. Como explica um historiador, “Deus mesmo através
de Cristo assumiu a forma humana e assim revelou o mundo terreno como capaz
de suportar o Divino”. Com essa justificativa, “o uso cristão de imagens procurou
elevar o visível e terreno à dignidade de refletir o invisível ou eterno”.

BARROCO (CATÓLICO)

4-13 Michelangelo Carravagio 4-14 Peter Paul Rubens


A Deposição, 1604 A Exaltação da Cruz, 1611

O mundo revela o “peso” (kabod) da glória


Assim, a arte católica da era barroca procurou transmitir a ideia de que a presença e o
poder de Deus são imanentes em e através do mundo material. Observe como essa convicção é expressa
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 87

mesmo no próprio estilo. Pintores barrocos como Peter Paul Rubens são conhecidos por
suas figuras sólidas, maciças e tangíveis. Quando pensamos em museus de arte
tradicionais, muitas vezes temos uma imagem mental de nus pesados e carnudos, muito
diferentes dos ideais contemporâneos de beleza feminina. Poderíamos chamar isso de
visual Rubens. O que ele estava dizendo com esse estilo? Um católico devoto, ele estava
expressando o conceito bíblico de que a criação carrega o peso da glória espiritual. A
palavra hebraica para glória é kabod, que literalmente significa peso ou substância (como
quando dizemos que alguém tem um peso pesado
presença). Assim, o próprio estilo dizia que o mundo material tem a
dignidade de ser o lugar de habitação de Deus.

Controle Iluminado
A próxima parada em nosso museu virtual é o Iluminismo. A maioria das pessoas se lembra de termos
como Iluminismo dos cursos de história do ensino médio. Lançado pela ascensão da ciência moderna, seu

a principal metáfora era a natureza como uma grande máquina. A esperança era que, ao
aprender as leis pelas quais a máquina opera, os humanos seriam capazes de controlá-la.

ILUMINISMO—NEOCLASSICISMO

4-15 Thomas Gainsborough, 4-16 Jean-Antoine Watteau


Sr. e Sra. Andrews, 1750 Reunião em um Parque, 1720

Natureza como propriedade

A arte do período do Iluminismo expressa uma atitude de confiança no domínio humano


sobre a natureza. Watteau trata a natureza como um parque de prazer para o divertimento de membros da moda

da alta sociedade. Gainsborough trata a natureza como propriedade. O campo de feno foi arado em fileiras limpas,

fileiras paralelas, o que indica o uso da recém-inventada plantadeira - um sinal de que o jovem
casal é rico e ansioso para ser científico e atualizado. Ao fundo, as ovelhas estão
firmemente cercadas; o cercamento do gado foi igualmente uma inovação da época. O homem
segura seu rifle de caça em um ângulo casual na dobra do braço. Ele sabe que pode obter o que quer da natureza quando quer. Marido e mulher se posicionam orgulhosamente em um
ângulo na

wants from nature when he wants it. Husband and wife proudly position themselves angled at
lateral para mostrar sua propriedade. Eles até colocaram um banco ao ar livre como se fossem transformar tudo
88 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

da natureza em seu próprio quintal. A natureza foi domesticada. O tom


dessas pinturas é de confiança, orgulho, até mesmo complacência.

Reação Romântica
Havia um lado sombrio, no entanto, na visão de mundo do Iluminismo. Pois se a natureza era uma

máquina funcionando por leis naturais, a implicação era o determinismo—a doutrina


de que tudo é controlado pelas leis implacáveis da natureza. Não há liberdade, nem
criatividade, nem responsabilidade moral. A natureza parecia fria e morta. Os
Românticos se propuseram a substituir a metáfora mecanicista por uma metáfora
orgânica—a natureza como viva, crescendo, livre, imbuída de força espiritual ou vida.
Eles reviveram mitos medievais de fadas, duendes e elfos. O termo Romantismo em
si reflete um uso mais antigo referindo-se a uma busca ou aventura, como o romance
do Rei Arthur.

ROMANTISMO

4-17 John Kensett 4-18 Sanford Robinson Gifford,


Lake George, 1869 Outubro nas Catskills, 1880

Visão quase panteísta da natureza

Muitos Românticos substituíram o cristianismo ortodoxo por uma filosofia quase panteísta, em
que Deus não era o Criador transcendente da natureza, mas uma presença espiritual imanente dentro
da natureza. Ralph Waldo Emerson falou de Deus como a Superalma: “a alma do todo . . . o
28
UNO eterno.” Isso foi expresso artisticamente por um brilho penetrante que parece emanar quase
de dentro da própria natureza. (A luz tem sido tradicionalmente usada como um símbolo da presença divina.) As

pinturas acima são de um movimento chamado Luminismo, um produto do Transcendentalismo, que


Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 89

foi uma forma americana de Romantismo. No Luminismo, explica Gene Edward


Veith, “detalhes individuais são frequentemente apagados à medida que tudo se
mistura em uma unidade harmoniosa” — dissolvendo-se no Uno universal, o Todo.
Para contrastar, considere os
pintores da Hudson River School. Como
os outros Românticos, eles olharam para
a natureza como uma fonte de experiência religiosa

ência. No entanto, eles tendiam a reter


uma concepção mais ortodoxa da divina
transcendência. (Jasper Cropsey era
um membro da Igreja Reformada Holandesa

Igreja.) Em suas pinturas, detalhes


são claros e objetivos. A luz do sol
4-19 Jasper Francis Cropsey
muitas vezes vem de cima, “brilhando Outono no Rio Hudson, 1860
Um Criador transcendente
descendo de uma fonte celestial”, com
raios de luz cortando a paisagem. Era um meio visual de enfatizar que Deus
30
não é um espírito imanente dentro da natureza, mas o Criador transcendente da natureza.

Dois Caminhos para o Secularismo

O que aprendemos com esta rápida amostragem de obras de arte — este pulo-e-salto

pela história da arte? Claramente, a arte nunca é apenas uma cópia da natureza. Os artistas
sempre selecionam, organizam e ordenam seus materiais para oferecer uma interpretação
ou perspectiva. Isso não quer dizer que uma obra de arte possa ser reduzida a um resumo
verbal. A arte se comunica em muitos níveis. Muitas das convicções mais profundas do artista
podem nem mesmo ser conscientes. No entanto, os artistas não registram mecanicamente o
que veem. Eles também comunicam o que acreditam ser verdadeiro no nível mais profundo.
À medida que avançamos para a era moderna, então, descobriremos que a desintegração da verdade diagnosticada em capítulos anteriores teve um profundo impacto nas artes. O
efeito foi diagnosticado em poucas palavras pela crítica cultural Martha Bayles em Hole in Our Soul: The Loss of Beauty and Meaning in American

Música Popular. A era moderna tem sido um período de “intensa autoconsciência sobre o significado e o propósito
da arte”, escreve ela. E tudo começou quando a arte “começou a ter dúvidas radicais sobre sua relação com a
verdade”.
Música Popular. A era moderna tem sido um período de “intensa autoconsciência sobre o significado e o propósito da arte”, escreve ela. E tudo começou quando a arte “começou a ter
dúvidas radicais sobre sua relação com a verdade”.

Essa frase é a
Essa frase é a chave hermenêutica para entender o que aconteceu com a arte na era moderna:

era moderna: Ela se desconectou do conceito de verdade.


Como isso aconteceu? Quando os historiadores dizem “moderno”, eles geralmente se referem ao período que começa

com o Iluminismo. Muitos pensadores ficaram tão impressionados com a revolução científica que
começaram a considerar a ciência como a única fonte de verdade. O que não pudesse ser conhecido pelo
90 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

o método científico não era real. A ciência não era mais apenas um meio de investigar o
mundo. Foi elevada a uma visão de mundo exclusivista — cientificismo ou positivismo.
Como acabamos de ver, o Iluminismo provocou uma reação no movimento Romântico — e os
dois estão em desacordo desde então. Para usar a linguagem da divisão fato/valor, os pensadores do Iluminismo reivindicaram o reino
dos fatos empíricos. Muitos deles abraçaram o naturalismo filosófico ou o materialismo, a doutrina de que a realidade fundamental
consiste em matéria. Por outro lado, os Românticos queriam proteger o reino dos valores. Eles propuseram o idealismo filosófico,

ralismo ou materialismo, a doutrina de que a realidade fundamental consiste em matéria. Por outro
lado, os Românticos queriam proteger o reino dos valores. Eles propuseram o idealismo filosófico,

a doutrina de que a realidade fundamental consiste em mente ou espírito. O termo idealismo não é usado no

sentido comum de ter altos ideais, mas no sentido filosófico de que a


realidade causal última não é material, mas mental — o reino das ideias.
Pegando emprestada uma metáfora do romancista Walker Percy, poderíamos dizer que toda filosofia pro-

põe alguma categoria última e busca explicar toda a realidade em termos dessa única categoria
— um pouco como tentar enfiar todo o universo em uma única caixa. O materialismo enfia
tudo na “caixa das coisas”, enquanto o idealismo coloca tudo na “caixa da mente”.

A divisão no pensamento ocidental

ROMANTISMO
Caixa da Mente (Idealismo)
__________________________________________

ILUMINISMO
Caixa das Coisas (Materialismo)

Vamos repassar rapidamente o que está contido em cada caixa e como elas se desenvolveram historicamente. Então, descreveremos o impacto que as duas caixas tiveram nas
artes. Isso dá uma

Vamos repassar rapidamente o que está contido em cada caixa e como elas se desenvolveram historicamente. Então, descreveremos o impacto que as duas caixas tiveram nas artes. Isso dá
uma

visão panorâmica do terreno que abordaremos com mais detalhes no restante da Parte 2.

Exorcizando o Fantasma da Máquina


O pensador fundamental na divisão da verdade foi o filósofo do século XVIII Immanuel
Kant. Por um lado, sua filosofia ofereceu apoio ao Iluminismo. Ele decretou que a razão
humana não é capaz de conhecer nada além do mundo natural investigado pela ciência
empírica. A caixa das coisas. Nossa constituição mental simplesmente não está
equipada, disse ele, para conhecer nada sobre o reino da religião, moralidade ou
metafísica.
Este foi um ponto de virada importante. Ao cortar todas as formas de conhecimento, exceto a ci-
ência, Kant estava descartando virtualmente toda a história do pensamento ocidental. No mundo
antigo, nunca teria ocorrido a Platão ou Aristóteles que nossos poderes de raciocínio eram
incapazes de extrair quaisquer verdades além do reino da natureza. Na Idade Média, vastos
monumentos a
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 91

a investigação racional foi construída, como a Summa Theologica de Tomás de Aquino, usando a razão para
investigar verdades sobrenaturais. Como resultado, quando Kant limitou o conhecimento ao fenômeno empírico,

ele estava dando um passo radical. Ele praticamente zombou de qualquer um que “se
acredita capaz de voar tão alto acima de toda experiência possível nas asas de meras ideias
A filosofia de Kant se sobrepôs perfeitamente ao já familiar dualismo cartesiano que havia

dividido o ser humano em um “fantasma na máquina”. Como o “fantasma” não podia


ser observado empiricamente, logo se mostrou fácil de exorcizar. Aqueles inclinados
ao materialismo ou naturalismo reduziram os humanos a nada além de complexos
mecanismos físicos dentro de um nexo fechado de causa e efeito. “Concluamos
ousadamente então”, disse la Mettrie em 1749, “que o homem é uma máquina.” Essa
conclusão “ousada” significava que não existia uma mente distinta do cérebro físico.
Crenças, sentimentos, desejos, objetivos e intenções eram, em última análise,
apenas produtos dos mecanismos físicos do sistema nervoso — a ativação de
neurônios. Dizia-se que os humanos eram essencialmente robôs ou autômatos.

Essa visão ainda está muito presente hoje. Um colunista do jornal científico Nature
anunciou recentemente que a genética e a neurociência “estão prestes a desenhar a
imagem materialista final da natureza humana” — uma imagem em que os humanos
são “todos máquina e nenhum fantasma”. E se não há fantasma, então a liberdade é
uma ilusão. Até a consciência é irreal. “Os humanos pensam que são seres livres e
conscientes”, escreve o filósofo John Gray, mas “são animais iludidos”. Até mesmo a
sensação de ser um indivíduo único é uma “quimera”. Alguns neurocientistas, como
Steven Pinker do MIT, até sugerem que os humanos são essencialmente zumbis,
semelhantes ao monstro do filme “que age como você ou eu, mas em quem não há
nenhum eu realmente sentindo nada”.
Na vida comum, é claro, é impossível funcionar sem acreditar que somos auto-
conscientes, seres que escolhem — que fazemos algo porque queremos ou porque pensamos que é o
melhor caminho. O que os cientistas cognitivos estão dizendo é que estados internos como querer ou pensar não

realmente existem. Eles são ilusões. A seleção natural programou os humanos para
aceitar tais ilusões porque a vida é muito mais fácil se pudermos explicar o
comportamento das pessoas em termos de seus pensamentos e escolhas. Como escreve
Woolfson, a evolução nos dotou de “genes que nos fazem acreditar em conceitos como
a alma”, mas esses conceitos são ilusórios. “Um dia, tais tendências irracionais podem
ser removidas ajustando os circuitos cerebrais relevantes.” Enquanto isso, “teremos que
nos resignar ao fato desagradável de que não somos nada mais do que máquinas”.

A falha fatal nesta teoria é que ela se prejudica. Se a consciência é uma ilusão, então
quem está consciente desse fato? E por que deveríamos confiar no pensamento de
reducionistas científicos que nos dizem que não existe tal coisa como pensar? Mais
significativamente, se o mundo real força “ilusões” sobre nós, como o conceito de
consciência, então talvez elas não sejam ilusões, afinal. O ponto de partida de qualquer
visão de mundo deve ser as ideias que são indispensáveis para funcionar em
o mundo real.
92 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Apesar dessas falhas, uma forma radical de reducionismo continua a crescer em popularidade. O
livro O Que Acreditamos, Mas Não Podemos Provar apresenta 100 cientistas e filósofos, quase nenhum dos
36
quais aceita a realidade da consciência ou de um eu unificado.

A Revolta dos Românticos


Obviamente, essa imagem unilateral da pessoa mina radicalmente a dignidade humana e a
importância. Quando foi proposta pela primeira vez, os românticos ficaram horrorizados. Para
eles, o “fantasma” na máquina era o verdadeiro herói do drama cósmico, e eles estavam
determinados a movê-lo para o centro do palco. Liberdade e consciência eram precisamente as
coisas com que mais se importavam.
Por mais paradoxal que possa parecer, como seus rivais do Iluminismo, os românticos recorreram à filosofia de Kant

em busca de apoio. De acordo com Kant, a razão prova as coisas rastreando-as até as leis da
natureza — o que significa que não pode provar coisas como Deus, moralidade e liberdade
porque não são redutíveis a forças naturais. Pelo mesmo motivo, no entanto, a razão também
não pode refutar essas

coisas. Kant concluiu que os humanos pertencem a “dois mundos”. Por um lado, eles fazem parte
da natureza, pelo qual ele quis dizer o sistema determinístico e mecanicista conhecido pela ciência.

Por outro lado, eles também operam no mundo da liberdade como agentes livres que fazem escolhas morais.

escolhas.
Esses dois mundos são claramente contraditórios. A liberdade é impossível em um mundo materialista

no qual todas as ações são determinadas por forças naturais. Kant nunca encontrou
uma maneira de resolver essa contradição. Assim, sua filosofia nunca se une em um
todo unificado. “Kant deixou um abismo entre sua concepção de conhecimento e sua
teoria da moral”, escreve o filósofo Robert Solomon, “e assim deixou a mente humana
como se estivesse dividida em duas.” Filósofos descrevem isso

abismo como a dicotomia natureza/liberdade de Kant. No andar de baixo, os humanos


fazem parte da máquina do mundo newtoniano. No andar de cima, eles são eus autônomos.
Quando uma visão de mundo contém uma contradição flagrante, um lado inevitavelmente passa a dominar.

Para Kant, o vencedor foi o mundo da natureza. Afinal, poderia ser testado e verificado pela
ciência empírica. Por outro lado, o mundo da liberdade só poderia ser defendido com base na
necessidade moral. Os humanos são compelidos a agir como se fossem livres, porque a responsabilidade moral

não faz sentido a menos que possamos fazer escolhas genuínas. Eles são compelidos a agir como se

houvesse um Deus, porque uma lei moral universal requer um legislador transcendente. E eles são compelidos a
agir como se houvesse uma vida após a morte, quando a justiça cósmica será estabelecida, porque, caso contrário,

as leis morais não têm significado final.


Para Kant, não podemos realmente saber se alguma dessas coisas existe. Só podemos acreditar que

sim, porque funcionam como incentivos à moralidade. Em sua terminologia, os conceitos metafísicos
não são constitutivos, dizendo-nos o que existe no mundo. Eles são apenas reguladores, funcionando

como ideais para regular nosso comportamento. Essencialmente, Kant concordou com David Hume (capítulo
2) que a moralidade e a teologia são cognitivamente sem sentido — isto é, não têm significado em relação a
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 93

o que realmente existe. No entanto, ele esperava salvá-los insistindo que são necessários para a
moralidade. Em suas palavras, eles são “impossíveis de conhecer”, mas “moralmente necessários de supor”.

O dualismo de Kant

LIBERDADE
Ideais Incognoscíveis
__________________________________________

NATUREZA
Fatos Conhecíveis

Mesmo durante a vida de Kant, no entanto, os críticos o acusaram de transformar o andar superior em

nada além de uma coleção de ficções úteis. Como escreve um filósofo, Kant foi “forçado a
posição embaraçosa de postular a existência de algo que, por definição, não podemos
39
não saber nada”.
Na prática, quando surgem conflitos, o que é considerado conhecível vai superar o que é desconheci-

toda vez. Para dar um exemplo concreto do impacto da dicotomia de Kant, sempre que
as alegações do materialismo científico contradiziam as Escrituras, os teólogos eram informados de que era sua

interpretação das Escrituras que deve se adaptar e ajustar, nunca o contrário. Eles foram
mesmo disse que era ilegítimo para o cristianismo fazer declarações sobre o mundo natural em
tudo. O cristianismo foi autorizado a contar histórias da escola dominical como lições práticas para inspirar a moralidade,

mas não foi permitido alegar que essas histórias eram verdadeiras. Isso explica a ascensão do teológico
liberalismo. “Sob a influência de Kant”, escreve Stanley Hauerwas, “os teólogos cristãos simplesmente deixaram

o mundo natural para a ciência” e começou a tratar a teologia como pouco mais do que um enfeite
40
para a moralidade.

Na época dos Românticos, no entanto, o fato de Kant tolerar um andar superior em


tudo parecia fornecer um refúgio para precisamente aquelas qualidades humanas essenciais que estavam sob ataque

pelo materialismo — consciência, criatividade, espiritualidade, amor, altruísmo e liberdade moral. Como um

resultado, o dualismo kantiano exerceu enorme influência. Vemos isso expresso, por exemplo, em
estas palavras do poeta W. H. Auden: “Como organismo biológico, o Homem é uma criatura natural sujeita a

as necessidades [determinismo] da natureza; como um ser com consciência e vontade, ele está no mesmo
41
tempo uma pessoa histórica com a liberdade do espírito.” Para os Românticos, a divisão de dois andares
era uma estratégia para proteger a liberdade do espírito.

O Eu Soberano
Kant deu aos Românticos mais um presente. Ele propôs que mesmo o andar inferior — o mundo
da natureza — é, em última análise, uma criação da mente humana. As matérias-primas do conhecimento são o sentido
94 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

impressões, ele disse, que inundam nossos olhos e ouvidos em um caos confuso.
Como essas percepções são organizadas em uma concepção coerente e ordenada
do universo? Pela ação da mente humana. É a mente que fornece os princípios de
ordenação necessários: antes e depois, causa e efeito, espaço e tempo, número e
assim por diante. O mundo parece ser legal e ordenado apenas porque a mente
humana cria essa ordem, como pressionar argila em um molde.
Em vez de ensinar que vivemos em um mundo estruturado por Deus, Kant propôs que vivemos em

um mundo estruturado pela consciência humana. Em suas palavras, “A mente


é o legislador da natureza.” Isso é idealismo filosófico – a caixa da mente.
Para os românticos, foi um pequeno passo de lá para dizer que também deve haver uma
Mente Transcendental – não apenas um fantasma na máquina do corpo humano, mas também um fantasma em

a máquina do mundo, um Espírito Mundial ou Mente Absoluta. O ego individual era de alguma forma

parte de um Ego Transcendental. O universo material em si era a emanação


de uma substância mental ou espiritual.
Após a era romântica, no entanto, a ideia do Absoluto acabou entrando em colapso sob o
peso da pura vagueza mística. O idealismo filosófico deu lugar ao existencialismo, no qual o
Ego Transcendental desapareceu e tudo o que restou foi o ego individual, sozinho em um
universo não pessoal. No existencialismo, os humanos não podiam mais olhar para
qualquer realidade transcendente para confirmar seus anseios mais profundos por
significado e importância. O eu solitário estava alienado em um universo mecanicista que
era friamente indiferente ou abertamente hostil às aspirações humanas. Tudo o que os
humanos tinham era o reino de Kant de como se— eles devem tentar viver como se suas
escolhas morais importassem-
ram, como se a vida tivesse significado.

Em nossos dias, o existencialismo deu lugar ao pós-modernismo, no qual o eu está imerso

no fluxo constante da evolução. Nada é estável; tudo está aberto à reinterpretação.


(Lembre-se da discussão sobre gênero pós-moderno no capítulo 3.) Assim, o
legado duradouro da corrente filosófica do andar superior é a convicção de que o
eu é o criador de seu próprio universo. O eu pós-moderno examina o mundo e é
livre para impor a ele qualquer construção mental ou moral que escolher.

Zen e o colapso da filosofia


O que aprendemos com esta visão altamente telescópica do colapso do pensamento ocidental?

Após Kant, a filosofia se dividiu em duas correntes opostas: herdeiros do


Iluminismo versus herdeiros do Romantismo. Na filosofia do século XX, essas
duas correntes foram rotuladas como tradição Analítica versus Continental.
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 95

Filosofia do século XX

TRADIÇÃO CONTINENTAL
Herdeiros do Romantismo
__________________________________________

TRADIÇÃO ANALÍTICA
Herdeiros do Iluminismo

43
Cada tradição estendeu um lado do dualismo natureza/liberdade de Kant. Pensadores analíticos eram

defensores do Iluminismo—a parte inferior de Kant. Eles concordavam com Kant que o conheci-
mento genuíno só é possível do mundo natural. Eventualmente, eles declararam que, como as grandes questões meta-

físicas de Deus e moralidade eram incognoscíveis, elas eram totalmente sem sentido. O
único papel adequado para a filosofia era servir como auxiliar da ciência. Sua tarefa era analisar e
esclarecer os conceitos e métodos usados na ciência.
Hoje, a filosofia analítica está profundamente enraizada nos departamentos de filosofia em toda a
América. Brian Leiter, professor de direito e filosofia da Universidade de Chicago, diz: “Todas as
universidades da Ivy League, todas as principais universidades de pesquisa estaduais, todos os campi da Universidade da Califórnia

a maioria das melhores faculdades de artes liberais, a maioria dos campi principais das universidades de pesquisa estaduais de segundo nível

possuem departamentos de filosofia que, esmagadoramente, se autoidentificam como


‘analítica’: é difícil imaginar um ‘movimento’ que seja mais acadêmica e profissionalmente
44
enraizado do que a filosofia analítica.” Em uma pesquisa recente de filósofos nas principais universidades,
45
principalmente no mundo de língua inglesa, 91% relataram pertencer à tradição analítica.
Às vezes, é até chamada de filosofia anglo-americana.
Por outro lado, os pensadores continentais eram defensores do Romantismo—a parte superior de Kant. Em

universidades americanas, o pensamento continental raramente é encontrado em departamentos de filosofia. Mas

praticamente invadiu as humanidades: teologia, história da arte, crítica literária, estudos culturais e
teoria política. Isso porque nunca desistiu de fazer as Grandes Perguntas sobre o significado de
vida, bem e mal, opressão e justiça, a natureza da arte e da beleza. Desde o início,
no entanto, seu tom tem sido defensivo—pois essas são as mesmas perguntas que, de acordo com Kant,
46
a razão não pode responder, pois estão além do reino empírico. A filosofia continental con-
tinua a buscar uma visão mais expansiva da razão que seria capaz de responder a essas perguntas.
Em nossos dias, o abismo que divide a filosofia analítica da continental é tão grande que
um filósofo reclama que eles se tornaram “dois mundos filosóficos”. Outro se preocupa que
“chegamos a um ponto em que é como se estivéssemos trabalhando em assuntos diferentes” e “gritando
através do abismo.” Ainda outro diz que “às vezes parece que a filosofia analítica e a continental
47
são realmente duas disciplinas separadas com pouco em comum.” O dualismo kantiano tem
96 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

tornar-se uma grande separação de caminhos no pensamento e cultura


ocidental — dois caminhos divergentes para o secularismo.
Claramente, as visões de mundo não são uma dispersão de ideias desconectadas para memorizar, dominar e encaixar

em uma grade. Elas formam tradições contínuas que se movem ao longo do


mesmo caminho, na mesma direção básica, seguindo o mesmo mapa — o mapa
do Iluminismo ou o mapa Romântico. Alternativamente, você pode pensar nelas
como duas linhas genealógicas conectadas por semelhanças familiares. Para dar
sentido a qualquer visão de mundo particular, o primeiro passo é identificar a
linhagem familiar a que pertence e os temas comuns que compartilha.
Para que você não seja tentado a descartar esta discussão como abstrata, obscura e de interesse apenas

para uma pequena panelinha de intelectuais, deixe-me lembrá-lo de que o tópico que acabamos de
abordar é o tema de um dos livros mais vendidos do último quarto de século. Zen e a Arte de Robert Pirsig

da Manutenção de Motocicletas vendeu mais de quatro milhões de cópias em vinte e sete idiomas
e é frequentemente descrito como o livro mais lido sobre filosofia
de todos os tempos. Seu tema? A irreconciliabilidade das perspectivas analíticas e românticas.

Ambos contêm elementos de verdade e, portanto, ambos correspondem


aos modos de pensar que todos compartilhamos. “O modo romântico é principalmente

inspirador, imaginativo, criativo, intuitivo”, explica Pirsig, enquanto


o modo analítico “procede pela razão e pelas leis”. No moderno
mundo, esses dois estão tão divididos que nos sentimos divididos entre dois “separados
49
mundos.”

A busca de Pirsig por uma resolução o levou a uma jornada de motocicleta pela

América, anotando suas reflexões entre mexer com seu motor


4-20 Robert Pirsig e dormir sob as estrelas. (Caso você esteja se perguntando, Zen é romântico,
Zen e a Arte da Motocicleta
Manutenção, 1974 enquanto manter um motor de motocicleta é estritamente analítico.) A
Questões reais de pessoas reais
popularidade surpreendente do livro elimina todas as dúvidas de que os termos técnicos usados

pelos filósofos refletem questões reais levantadas por pessoas comuns.

Arte sob Cerco


Os artistas também dão expressão à experiência de pessoas comuns — não em termos técnicos

mas em histórias e imagens. Como as artes foram afetadas pela desintegração da filosofia?
Novamente, vamos apresentar o roteiro e, em seguida, entrar em detalhes em capítulos posteriores.

Voltamos ao Iluminismo. A maioria das pessoas sabe que o Iluminismo foi uma época

em que o cristianismo foi colocado na defensiva. Pela primeira vez em


séculos, tornou-se socialmente aceitável atacar o cristianismo
publicamente ou declarar-se publicamente ateu. Pense: a era de Voltaire.
Mas o que a maioria das pessoas nãosabe é que, ao mesmo tempo, o Iluminismo colocou as artes
e as humanidades na defensiva. Os críticos racionalistas começaram a insistir que a arte deveria ser despojada
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 97

de qualquer coisa que não existe no mundo comum e cotidiano. Eles atacaram o
uso de elementos poéticos, como os mitos gregos com seus deuses e deusas. Eles
desmascararam a fantasia e os contos de fadas com seus gigantes, bruxas, cavalos
alados, florestas encantadas e espadas mágicas. Eles até criticaram a linguagem
figurada — o uso de símbolos e metáforas. Por quê? Porque não é a linguagem
factual e literal da ciência.
Na melhor das hipóteses, os críticos disseram, a arte é meramente decorativa. Ornamental. Divertida. Isaac Newton chamou

a poesia de “absurdo engenhoso”. (Na época, poesia significava as artes em geral — do grego poiein,
fazer.) Hume denunciou os poetas como “mentirosos por profissão”. O filósofo Jeremy Bentham concordou:
“Toda poesia é deturpação.” Ele acreditava que as palavras deveriam ser usadas apenas para “lógica precisa
verdade lógica”. Thomas Sprat, historiador da Royal Society (a primeira associação profissional de cientistas)

disse que havia chegado a hora em que até mesmo a metáfora e a linguagem figurada deveriam ser banidas
“de todas as Sociedades civis, como uma coisa fatal para a Paz e os bons costumes.” A prosa tornou-se o veículo de

fatos e pensamento iluminado. A poesia foi rebaixada a um veículo de ficção e sentimentos.

De Quem é a Verdade?
Tudo isso se somou a um ataque impressionante às artes. Até então, o objetivo da arte era
expressar a verdade de algum tipo. Mesmo que fizesse uso de ficção e fantasia, seu propósito era
comunicar verdades duradouras sobre a condição humana. Desde os tempos antigos,
várias definições de arte foram propostas, mas todas incluíam a ideia de que a arte é um
espelho ou reflexo ou representação do mundo. O principal teste da arte era, portanto,
sua veracidade — sua capacidade de retratar a vida fielmente. Aristóteles até disse que a
poesia é mais verdadeira do que a história. Por quê? Porque a história
lida com fatos individuais, enquanto a poesia comunica verdades universais.
Mas agora, em uma reviravolta surpreendente, os pensadores do Iluminismo começaram a negar que a arte tivesse alguma coisa

a ver com a verdade. Como explica um historiador, “Antes do século XVIII, a arte era
considerada uma forma de conhecimento, um aspecto da verdade objetiva.” Mas “a beleza
não existe como uma qualidade objetiva em um universo
Os átomosdepertenciam
movimentosao atômicos.”
reino do objetivo
fatos. A beleza foi relegada ao reino dos valores subjetivos.
No final do século XIX, o filósofo George Santayana pôde afirmar a divisão fato/valor
como um axioma aceito: “Os julgamentos intelectuais são julgamentos de fato”, escreve ele, enquanto
“os julgamentos estéticos e morais são . . . julgamentos de valor.”
52

Certos artistas continuaram a se opor a este reducionismo radical — especialmente a arte cristã

istas. Pois o conceito bíblico de verdade é holístico. Aceita a metodologia científica como uma avenida para a
verdade sem reduzir a verdade ao que podemos estudar em tubos de ensaio. “É uma percepção do cristianismo

teoria estética de que a arte de boa-fé apresenta conhecimento confiável e específico”,


escreve o filósofo calvinista Calvin Seerveld. A arte emprega um idioma diferente da
ciência ou da filosofia — um idioma de cor e forma, sombra e textura, som e ritmo. No
entanto, é “um veículo para o conhecimento real”, que é “tão válido e seguro” quanto
outras formas de conhecimento.
98 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Em uma linha semelhante, o romancista católico Walker Percy insiste que a arte é “um instrumento sério para

a exploração da realidade.” É “tão científico e cognitivo quanto, digamos, o telescópio de Galileu ou a câmara de

nuvens de Wilson.”
No entanto, essa posição se tornou rara. Como o próprio Percy observa, hoje a maioria das pessoas assume que

“a ciência natural tem a verdade, toda a verdade”, e que a arte é meramente “a cereja do bolo cognitivo”.
54
bolo.” Da mesma forma, Jeremy Begbie, diretor das Iniciativas em Teologia e
Artes da Universidade Duke, diz: “São as ciências naturais que nos concedem verdades publicamente verificáveis,
55
enquanto as artes se preocupam com questões de gosto pessoal.” Verdade pública/gosto pessoal. Claramente,

a divisão fato/valor em todas as suas implicações corroeu o status e a estima que as artes antes
desfrutavam.

Estratégias de Sobrevivência dos Artistas

À medida que a arte era despojada de seu status tradicional como fonte de verdade, os artistas eram colocados na defensiva.

siva. O cientificismo não tolerava outras vias para a verdade. O crítico de arte Donald Kuspit oferece
um resumo eloquente do desafio que os artistas enfrentaram. A questão premente, diz ele,

era se a criatividade artística poderia se manter contra a criatividade científica e tecnológica.


Eles contribuíram muito para o bem-estar humano. O que a arte contribuiu? . . .

A ciência entendia o funcionamento da natureza . . . O que a arte entendia? A desesperada


56
pergunta moderna é . . . que lugar a arte tem na vida moderna.

Como os artistas responderam a essa pergunta desesperada — esse desafio da cultura científica?
A resposta é que eles tinham duas opções: Em uma frase, eles poderiam lutar contra eles ou se juntar a eles. Alguns

artistas escolheram lutar contra eles. Com isso, quero dizer que transformaram a arte em um protesto contra o Iluminismo.

Essa era a estratégia dos Românticos. Eles decidiram que a arte funcionaria como “o repositório e
57
refúgio da espiritualidade [que] o mundo material repudiou e evitou.” Em suma, ela
se tornaria virtualmente uma religião substituta.
Outros artistas decidiram que a melhor estratégia era se juntar a eles. Se a verdade fosse definida pela ciência, então

parecia que a única maneira de a arte recuperar sua conexão com a verdade era imitando a ciência. A arte
poderia recuperar seu status tradicional como fonte de verdade refletindo as visões de mundo do Iluminismo,

como o empirismo e o naturalismo.


Assim, a própria arte se dividiu em duas vertentes. Os historiadores da arte às vezes se referem a elas como o idealista
58
versus a vertente naturalista (cada vertente abrangendo vários estilos artísticos). Artistas no
vertente naturalista retratavam a visão de mundo científica, enquanto os artistas da vertente idealista protestavam contra ela.
Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo 99

Duas correntes na arte moderna

IDEALISTA
Protestos a visão de mundo científica
__________________________________________

NATURALISTA
Retrata a visão de mundo científica

No século XX, tornou-se mais comum usar a terminologia do expressionismo


versus formalismo. O expressionismo definia a arte como o derramamento de sentimentos interiores. O formalismo dita-

va que a arte não deveria expressar experiência subjetiva ou contar uma história, mas deveria consistir unicamente em
59
na investigação de elementos formais objetivos—linha, cor, espaço, volume e assim por diante.

Terminologia do século XX

EXPRESSIONISMO
Expressão de Sentimentos Subjetivos
__________________________________________

FORMALISMO
Análise da Forma Objetiva

Claramente, a ruptura da arte espelha a ruptura da filosofia moderna nas tradições Analítica e
Continental. Durante o resto da Parte 2, rastrearemos esses dois caminhos para o secularismo.
Ao adotar uma abordagem holística que inclui tanto a arte quanto as ideias, teremos uma imagem mais completa das

visões de mundo que nos confrontam e desafiam hoje.

Liberdade Cristã
Existem paralelos óbvios entre o destino da arte e o destino da religião no mundo moderno.
mundo. Começando no Iluminismo, ambos foram despojados de seu status tradicional como
avenidas para a verdade. Ambos foram colocados na defensiva e reduzidos à experiência privada
e subjetiva. Ambos foram expulsos do reino do fato e relegados ao reino do valor. Como diz o
educador Douglas Sloan,

“As artes, quase tanto quanto a religião, foram apanhadas no dualismo


moderno de fato objetivo e significado subjetivo.”
Simplificando, ambos foram reduzidos ao status de fantasia privada. Como escreve o crítico literário M. H.

Abrams escreve, quando a ciência recebeu o monopólio da verdade, “as declarações da


religião tradicional tornam-se não menos ficções e ilusões do que as da poesia tradicional.”
100 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Dado que tanto a arte quanto a religião foram marginalizadas pela paixão da cultura ocidental por
ciência, você poderia esperar que os cristãos naturalmente procurassem os artistas e simpatizassem
com sua situação. Certo? Bem, não. Em geral, os evangélicos modernos não têm uma grande reputação
por encorajar artistas. Geralmente, eles se enquadram em dois campos. Os frequentadores típicos da igreja tendem a adotar a

abordagem moralista. Eles condenam o conteúdo imoral nas artes e desligam, ignoram. A
mentalidade de fortaleza. Não deixe seus filhos assistirem ou ouvirem isso. Outros cristãos estão tão preocupados em

mostrar que eles não são estreitos ou fundamentalistas - que eles são cultos e sofisticados - que
eles encontram algo “redentor” em praticamente tudo.
Uma abordagem de cosmovisão oferece uma alternativa a este dilema. Incentiva os cristãos a desfrutar

das qualidades estéticas da arte, ao mesmo tempo em que lhes fornece ferramentas para análise crítica
das ideias motivadoras. À medida que avançamos, descobriremos que artistas cristãos trabalharam em
praticamente todos os estilos artísticos. A verdade bíblica é tão rica e multidimensional que pode afirmar o que

é verdade em todas as cosmovisões, ao mesmo tempo em que critica seus erros e transcende suas limita-

ções. Desta forma, o cristianismo possibilita a maior liberdade intelectual e artística.


Nos capítulos seguintes, localizaremos as cosmovisões dentro de uma conversa contínua realizada
não apenas por filósofos e cientistas, mas também por artistas, escritores e compositores. Como Gene
Edward Veith escreve, nas artes, “ideias abstratas encontram expressão em formas tangíveis, para que vejamos
62
mais claramente suas implicações humanas.” Deixe as artes serem nosso professor enquanto aprendemos sobre as

ideias que moldaram o mundo em que vivemos.


Capítulo 5

“A arte tenta, literalmente, retratar as coisas

que a filosofia tenta colocar em palavras cuidadosamente pensadas.”

—Hans Rookmaaker

A Beleza no Olho da Máquina


(A Herança do Iluminismo)

O que acontece com um menino criado para ser pouco mais que uma máquina de pensar? Foi assim que

o filósofo John Stuart Mill descreveu sua própria infância. Nascido em 1806, o jovem John foi o
objeto de uma experiência conduzida por seu pai e pelo filósofo Jeremy Bentham. Na primeira metade do
século XIX, esses dois homens lideraram um movimento político britânico chamado Radicais Filosóficos.
O que era distintivo nos Radicais era seu compromisso com a reforma social e política estritamente pela razão.

E por “razão” eles queriam dizer o princípio do utilitarismo, o


maior bem para o maior número. (Bentham é considerado o fundador do utilitarismo.)
Quando o pequeno John nasceu, eles determinaram criá-lo para se tornar um prodígio intelectual, um
profeta para seu credo utilitarista.
Aos três anos, John Mill começou a ter aulas de grego com seu pai. Aos oito, ele também
estava aprendendo latim e podia estudar os pensadores clássicos em suas línguas originais: Platão, Aristóteles,

Virgílio, Cícero. Aos onze, ele estava estudando Newton, lógica, matemática, história e política
economia. Quando adolescente, ele estava lendo filósofos como Hobbes, Hume e, claro, seu men-
tor Bentham. O experimento parecia estar funcionando. O jovem John estava anos à frente de seus colegas,

anunciado como o príncipe herdeiro do movimento Radical Filosófico. Ele já havia fundado
várias sociedades intelectuais e começou a contribuir com artigos para jornais.

101
102 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

A Crise de John Stuart Mill


O sucesso teve um preço alto, no entanto. Aos vinte anos, Mill sofreu uma crise mental. Isso
desabou sobre ele, percebendo que ele havia se transformado em pouco mais do que uma
“máquina de raciocínio”. E que, mesmo que alcançasse seus objetivos de reforma política
racional, ele não seria feliz. “Toda a base sobre a qual minha vida foi construída desabou”,
escreveu ele em sua Autobiografia. “Eu

parecia não ter mais nada pelo que viver.” Tão intensa era sua depressão que ele se comparou a
alguém no limiar de uma conversão religiosa. Porque na Grã-Bretanha a maioria dos evangélicos era

Metodista, ele descreveu sua condição mental como aquela “em que os convertidos ao
Metodismo geralmente estão, quando atingidos por sua primeira ‘convicção de pecado’”.
No entanto, Mill não encontrou uma resolução para sua crise na religião. Em vez disso, ele encontrou na poesia.

Sua depressão diminuiu quando ele descobriu a poesia de Wordsworth,


Coleridge e outros Românticos.
Como resultado de sua crise, Mill começou a questionar o pensamento Iluminista em que ele havia

sido mergulhado. Por exemplo, a doutrina do determinismo: “Eu me senti como se estivesse
cientificamente provado ser o escravo indefeso de circunstâncias antecedentes; como se meu
caráter e o de todos os outros tivessem sido formados para nós por agências além do nosso
controle.” Se isso fosse verdade, no entanto, então a reforma social e política era impossível.
Pois se as pessoas realmente são escravos indefesos de suas circunstâncias, então como
podem mudar essas circunstâncias? O fantoche não pode se levantar contra o titereiro.

Mill estava preso em uma disputa. De um lado estava a visão de mundo do Iluminismo em que ele
havia sido doutrinado. Do outro lado estava a reforma social que ele queria promover. Em suas
palavras, ele se sentia preso entre “pensar que uma doutrina é verdadeira” (que o comportamento humano é determinado)

enquanto pensava que “a doutrina contrária é moralmente benéfica” (que a reforma moral é possível). Em suma,

ele estava experimentando pessoalmente o dualismo natureza/liberdade de Kant — a oposição


entre a história inferior do racionalismo e do determinismo, versus a história superior da
liberdade moral. Como os dois eram contraditórios, eles não podiam ser verdadeiros ao mesmo
tempo. No entanto, ele não podia negar nenhum dos dois.
A luta mental do jovem revela a tensão pessoal criada pelo conflito entre

os modos de pensar Iluminista e Romântico. Na verdade, foi Mill quem primeiro usou a rubrica
filosofia continental para descrever o idealismo romântico. Claramente, isso não era apenas algo

abstrato que ele lia em livros didáticos. Era uma luta interna travada dentro
de sua própria mente e alma.
A maioria das pessoas busca alívio da tensão inclinando-se para um lado ou para o outro. E é

exatamente o que Mill fez. Apesar de seu deleite na poesia, ele permaneceu comprometido
com a visão de mundo do Iluminismo. Em sua mente, o método científico era o único
caminho para o conhecimento genuíno. Não importa o quão inspiradora ele achasse a
poesia, ele não a considerava um veículo para a verdade. Mill não disse que a arte e a poesia
consistiam em falsidade absoluta, como fez seu mentor Bentham (capítulo quatro). Mas para
resgatá-la da acusação de ser falsa, ele propôs que ela não é verdadeira nem falsa. Ela não

oferece nenhuma afirmação sobre o mundo, mas meramente expressa os sentimentos do artista. Poesia
Beleza nos Olhos da Máquina 103

pode parecer descrever algum aspecto do mundo (por exemplo, um leão feroz), mas na realidade é

apenas descrevendo o estado de espírito do poeta (seu “assombro, admiração e terror” diante do leão). Em
suma, Mill rebaixou a arte ao status de pseudo-declarações — declarações que têm a forma da verdade
2
afirmações, mas na realidade são meras expressões de emoção subjetiva.

Esta foi uma visão inovadora e, em última análise, destrutiva das artes. Até então, a maioria das pessoas

presumia que a arte se preocupava com a verdade. Seu objetivo era representar ou
refletir a realidade de alguma forma. Assim, Mill e outros pensadores do Iluminismo
estavam lançando um desafio direto à visão tradicional das artes. Neste capítulo e no
próximo, traçaremos uma forma como os artistas responderam a esse desafio — o
que chamamos de estratégia de “juntar-se a eles” no capítulo 4. Esses eram artistas
que decidiram que a maneira de recuperar o status cognitivo da arte era seguir o
exemplo da ciência. A arte recuperaria sua conexão com a verdade refletindo uma
visão de mundo científica. É o que os historiadores chamam de corrente naturalista
na arte (história inferior). Por negar qualquer reino transcendente, contribuiria para
uma imagem mortal e desumanizadora da humanidade.
Outros artistas responderam ao desafio com a estratégia de “lutar contra eles”. Eles formaram o

corrente idealista na arte (história superior). Essas duas grandes correntes correm
paralelas uma à outra e, se as seguíssemos estritamente por datas, o relato mudaria
para frente e para trás entre elas. Para evitar esse padrão instável, não adotaremos
uma abordagem estritamente cronológica, mas traçaremos cada corrente
separadamente. Começaremos com a herança do Iluminismo e seguiremos a
tradição analítica até o século XX. Então começaremos de novo com o Romantismo e
seguiremos a tradição Continental até o século XX. Ao desembaraçar as duas
estratégias e dar a cada uma um perfil mais nítido, acharemos muito mais fácil
reconhecê-las. E obteremos as habilidades necessárias para reconhecer e resistir aos
dois caminhos para o secularismo.

Estrelas da Ciência
Antes do Iluminismo, as pessoas raramente consideravam a ciência antagônica à arte ou
religião. A maioria das figuras importantes que impulsionaram a ciência moderna eram
cristãos devotos — Copérnico, Kepler, Galileu, Boyle, Newton. Em um estudo de 2003, o
sociólogo Rodney Stark identificou as cinquenta e duas principais “estrelas” que fizeram
um trabalho inovador para lançar a revolução científica. Recorrendo a documentos
biográficos, ele descobriu que todos, exceto dois, eram cristãos.
Isso te surpreende? Hoje, muitas pessoas presumem que ciência e religião são inerentemente

em conflito. Mas os historiadores da ciência viraram essa suposição de cabeça para


baixo. Hoje, a maioria dos historiadores concorda que a perspectiva científica realmente
se baseia em conceitos fundamentais derivados de uma visão bíblica da natureza.

Considere, por exemplo, a ideia de “leis” na natureza. Hoje, essa ideia é tão familiar que
consideramos senso comum. Mas os historiadores nos dizem que nenhuma outra cultura —
oriental ou ocidental, antiga ou moderna — jamais criou o conceito de leis na natureza. Apareceu
pela primeira e única vez na Europa durante a Idade Média, um período em que sua cultura
estava totalmente permeada
104 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

com pressupostos bíblicos. Como observa o historiador A. R. Hall, o uso da palavra "lei" no contexto

de eventos naturais “teria sido ininteligível na antiguidade, enquanto a crença


hebraica e cristã em uma divindade que era ao mesmo tempo Criador e Legislador
a tornou válida”. Além disso, o conceito de leis não era considerado metafórico,
uma mera figura de linguagem, mas literalmente verdadeiro. Como escreve
Randall, “As leis naturais eram consideradas leis ou comandos reais, decretos do
Todo-Poderoso, literalmente obedecidos.”
É claro que todas as sociedades reconheceram padrões de causa e efeito na natureza, o que permitiu
que construíssem edifícios, pontes e armas. No entanto, eles normalmente consideravam isso
apenas regras práticas. A ordem intrínseca da própria natureza era considerada insondável para
a mente humana. E quando as pessoas não acreditam que existem leis racionais por trás dos
fenômenos naturais,
então elas não vão procurá-las — e a ciência não decolará.
Por exemplo, muitas sociedades antigas eram animistas. Acreditava-se que a natureza estava cheia de deuses

ou espíritos prontos para infligir desastres — tempestades, inundações, secas, fomes — a menos
que fossem aplacados pelo desempenho correto dos rituais corretos. Nessas sociedades, diz o
historiador Carl Becker, a natureza parecia “intratável, até misteriosa e perigosa”. Não parecia
nada regular ou
previsível.
Por outro lado, a Bíblia rejeita qualquer status religioso para a natureza. Nas primeiras linhas de Gênesis,

o sol, a lua e as estrelas não são deuses. Nem são emanações de uma essência divina. São
objetos criados. Como resultado, eles não têm poder supremo sobre os humanos. O
ensinamento bíblico de um Deus transcendente libertou as pessoas do medo de forças
espirituais dentro da natureza. Como escreve o professor de divindade Harvey Cox, “por
mais altamente desenvolvidos que sejam os poderes de observação de uma cultura, por
mais refinado que seja seu equipamento de medição, nenhum avanço científico real é
possível até que o homem possa enfrentar o mundo natural sem medo”. Ao exorcizar os
deuses da natureza, o monoteísmo bíblico libertou
a humanidade para investigá-la sem medo. Ensinou-os a pensar na natureza
como regular, previsível e aberta ao estudo sistemático.
Na cosmovisão bíblica, diz o teólogo Thomas Derr: “o homem não enfrentava um mundo cheio de

deuses ambíguos e caprichosos que estavam vivos nos objetos do mundo natural.” Em vez
disso, havia “um Deus criador supremo cuja vontade era firme”. Assim, “a natureza exibia
regularidade, confiabilidade e ordem. Era inteligível e podia ser [cientificamente] estudada.”

Em suma, a ideia de uma ordem inteligível na natureza não foi derivada da observação científica,
ção. Foi derivado da teologia bíblica antes da observação. E foi o que tornou o empreendimento cien-
tífico possível em primeiro lugar.

Ode a uma máquina de fiar


A aplicação da ciência à tecnologia foi igualmente motivada por uma cosmovisão bíblica.

Muitos teólogos cristãos estavam ansiosos para usar a ciência para restaurar o domínio sobre a criação
dado aos humanos por Deus, mas danificado pela Queda no pecado. Nas palavras do teólogo Ernst Benz, “o
A beleza nos olhos da máquina 105

fundadores da tecnologia moderna” apelaram para “o destino do homem como imago dei e sua vocação
8
como o companheiro de trabalho de Deus . . . para compartilhar o domínio de Deus sobre a terra.”

Um exemplo frequentemente citado é Francis Bacon, um fundador do método científico. No século sete-

décimo, ele escreveu que o homem “caiu ao mesmo tempo de seu estado de inocência e de seu
domínio sobre a criação.” No entanto, “ambas as perdas podem, mesmo nesta vida, ser em parte
reparadas; a primeira pela religião e fé, a segunda pelas artes e ciência.” Por artes Bacon quis
dizer o técnico

artes, e seu ponto era que o estudo científico da natureza, aplicado através
da tecnologia, poderia ser usado para reverter os efeitos da Queda.
Assim, desde o início, a ciência foi permeada pelo objetivo humanitário de aliviar o
trabalho e sofrimento causados pela Queda. De acordo com o historiador Lynn White, o
desenvolvimento da indústria e tecnologia foi inspirado pelo “igualitarismo espiritual”
da Bíblia, que gerou “um desejo religioso de substituir uma máquina de força por um
homem onde o movimento exigido é tão severo e monótono que parece indigno de um
filho de Deus.”
Dado este contexto bíblico e humanitário, não é surpresa que a revolução científica

foi recebida como benigna e benéfica. Muitos artistas ficaram felizes em funcionar como
líderes de torcida para a ciência. Leia esta seção do ode de John Dyer de 1757 às novas
máquinas de fiação (se você pode imaginar um poema exaltando fusos e cilindros):

Uma máquina circular, de novo design,


Em forma cônica: . . . a lã cardada,

É suavemente enrolada em torno desses


cilindros, Que, girando suavemente, a
entregam àquele círculo De fusos
verticais, que, com rápido giro, Fiam, em
longa extensão, um fio uniforme.

Enquanto a ciência e seus spin-offs tecnológicos


foram impulsionados por um humanitarismo religioso, artistas

ficaram felizes em celebrá-los.

5-1 Anônimo

Rejeição do Empirismo Máquina de Fiação, século 19

Com o tempo, no entanto, uma abordagem secular começou a superar a visão de mundo bíblica. O
novas teorias científicas impressionantes foram cooptadas por ideólogos do Iluminismo que as
despojaram de seu contexto cristão. Um respeito biblicamente informado pelos fatos empíricos,
que havia inspirado a ciência para começar, foi substituído pelo empirismo, uma filosofia que
eleva os sentidos ao

única fonte de verdade. Tudo o que não podia ser conhecido por métodos
empíricos foi rejeitado como mito ou metáfora.
106 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Podemos testemunhar a transição nos escritos de poetas como Abraham Cowley em meados do século XVII.

século XVII. Cowley se orgulhava de ser apelidado de “o Poeta da Filosofia Natural” (um
termo inicial para ciência). Ele compôs odes em homenagem a vários cientistas pioneiros e suas descobertas.

Nos poemas de Cowley, no entanto, já detectamos a invasão da ciência em outras áreas da


vida. Ele reduziu o amor a uma força natural semelhante ao magnetismo. Ele explicou os milagres bíblicos

como produtos de forças naturais. (Um poema aludindo a Sodoma e Gomorra especula que o
fogo e enxofre bíblicos nada mais eram do que trovões e relâmpagos incomuns.) Embora Cowley
se considerasse um cristão, claramente ele havia começado a restringir a definição de verdade para
ajustar as categorias limitadas permitidas pela ciência empírica. Um estudioso o descreveu como um poeta

que “não finge mais criar mundos que transcendem este, mas sim relata o material
11
fatos deste mundo.”
A ideia de que a arte deveria simplesmente “relatar os fatos materiais deste mundo” implicou uma radical

mudança no assunto. Até então, os artistas se sentiam perfeitamente à vontade para dar expressão visível
a realidades invisíveis. Eles podem usar personificações para retratar ideais abstratos, como uma pessoa vendada

mulher para representar a Justiça. Ou eles podem retratar figuras de mitos e lendas gregas. Frequentemente

eles retratavam realidades espirituais, como Deus e anjos. Sob a influência do empirismo, no entanto,
sempre, os artistas começaram a insistir que só podiam pintar sensações visuais - apenas o que o olho vê.

EMPIRISMO
REALISMO

5-2 Francisco Goya 5-3 Miguel Gamborino


O Terceiro de Maio, 1814 Assassinato de Cinco Monges de Valência, 1813

Os céus estão fechados

Foi isso que Francisco Goya quis dizer quando declarou: “Não há razão para que meu pincel
deveria ver mais do que eu.” Em outras palavras, eu só posso pintar o que vejo. Então ele retrata o ter-
rível massacre de cinco mil camponeses espanhóis por soldados franceses, mas se recusa a transmitir qualquer
Beleza nos Olhos da Máquina 107

significado teológico para a cena. Na verdade, Goya estava deliberadamente


subvertendo “uma longa tradição de imagensCompare
de martírio”,
com a diz o biógrafo
pintura Fred Licht.
de Gamborino
que se acredita ter servido como fonte de Goya. Em pinturas de mártires, a vítima
olha para o céu, confiante de que Deus acabará por trazer justiça. Mas a vítima de
Goya apela desesperadamente aos seus assassinos. Na arte cristã tradicional, o
mártir é um herói espiritual, sofrendo pela causa de Cristo. Mas a vítima de Goya é
apenas um dos “milhões anônimos cuja morte é irrelevante”, arrastando-se numa
fila aparentemente interminável que se estende até à distância. A arte cristã
normalmente mostra os céus a abrirem-se e os anjos a prepararem a coroa do
mártir. Mas para Goya, os céus estão fechados — escuros e silenciosos. A igreja
também está no fundo escuro, o que implica que o cristianismo não tem
respostas. O crítico de arte John Canaday diz: “Nenhum outro pintor viu o mundo
mais despido da graça salvadora.”
Goya foi um dos primeiros representantes do Realismo, normalmente definido como um estilo que visa um objec-

tiva ou representação isenta de valores dos eventos. No entanto, compare a sua pintura com uma posterior de Edouard Manet

obviamente modelado sobre ele. A abordagem de Manet é muito mais consistente com o programa empirista
de não oferecer nada além de um relatório visual.

Que diferenças você vê entre o dele


pintura e de Goya? Mais obviamente, está faltando-
ndo o senso de ultraje trágico. Goya destaca
os rostos das vítimas para enfatizar a injus-
tiça que está sendo feita a elas. Mas na versão de Manet

você mal consegue distinguir seus rostos. Goya


soldados são rígidos, estilizados e sem rosto, como se
para representar a crueldade mecanizada. Mas Manet
soldados estão apenas fazendo seu trabalho - especialmente o

oficial do lado, que está casualmente preparando seu

rifle para o golpe de misericórdia. Os espectadores


5-4 Edouard Manet
espreitando por cima do muro estão horrorizados? Não, eles são Execução do Imperador Maximiliano do México,1867
O equivalente visual de uma reportagem de jornal
meramente curioso.

Claramente, Goya ainda não havia rompido com a visão de longa data de que a arte deveria transmitir um

tema, uma declaração da verdade interior ou significado dos eventos. Sua pintura é uma apaixonada
protesto. Seu tema pode ser chamado de algo como o horror da injustiça ou a desumanidade do homem
para o homem. Ele ainda estava seguindo o ditado de Aristóteles de que “o objetivo da arte é representar não o exterior-

aparência das coisas, mas seu significado interior.”


Por outro lado, Manet retrata apenas a superfície das coisas. Ele drena todo o drama trágico de
sua pintura e nos dá o equivalente visual de um relatório isento de valores. Como escreve um historiador de arte,

A “apresentação da cena por Manet carece de recursos retóricos — gestos, expressões faciais, acessórios-
rios — que tornariam o moral ou o significado claros.” De fato, “é completamente desprovido de moral.”
108 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Manet meramente registra o evento como


um fato histórico, um evento temporal.

A obra de Manet é, portanto, muito mais

um exemplo mais consistente da


corrente naturalista na arte. “O
classicista procurava criar imagens
nas quais valores eternos e
universais são resumidos”, escreve
Canaday. “Mas o naturalismo é
5-5 Gustav Courbet Enterro em Ornans, 1850
“Mostre-me um anjo.” amoral . . . o naturalista
15
lida apenas com o momento, mesmo no seu mais efêmero.”

O Artista do Mostre-Me
O termo Realismo foi originalmente cunhado para descrever o trabalho de Gustave Courbet. Ele pro-

fessou o programa empirista nestas palavras: “A arte da pintura deve consistir


apenas na representação de objetos que os artistas
Uma podem
vez, quandover e tocar.”
Courbet estava preparando

uma pintura para uma igreja, ele foi solicitado a incluir anjos. “Eu nunca vi anjos”, ele respondeu famosamente.
“Mostre-me um anjo e eu pintarei um.” O ponto dele era: Se eu não posso ver, eu não posso pintar.

A pintura do funeral do tio-avô de Courbet provocou uma grande controvérsia. Um funeral é tipicamente

uma ocasião que evoca tristeza, luto, talvez reflexões sobre nossa própria moralidade.
No entanto, como observa um historiador de arte, a pintura de Courbet “não é
organizada em torno da evocação de uma poderosa resposta emocional”. Na verdade,
não é organizado em torno de nenhum tema. Os críticos da época “reclamaram que
as mulheres idosas eram feias, que algumas das figuras masculinas eram grosseiras e
obviamente bêbadas, que o padre era singularmente nãoantipático
O tratamento espiritual”.
e aleatório

composição, o céu sombrio e os penhascos áridos, todos implicam que este é um evento sem particular significância
—apenas um evento local com moradores locais. No entanto, a pintura é enorme, em uma escala dedicada

na época apenas para eventos heróicos, histórico-mundiais, que se pensava transmitir

alguma lição edificante. Courbet estava intencionalmente subvertendo a ideia


de que a arte deveria ser sobre grandes eventos com uma lição moral.

Pintores realistas trataram a religião como um fenômeno estritamente humano—

um fato sociológico interessante, um ritual pitoresco, nada mais. Mesmo


quando o tratamento é simpático, como nesta pintura de Wilhelm
Leibl, o foco está nos adoradores, não na existência objetiva
do que (ou Quem) eles estão adorando. Leibl não mostra uma cruz
ou altar ou qualquer outra indicação do objeto da devoção dessas mulheres.
ção. O olho não é conduzido para cima a nenhum horizonte superior. O cristianismo é

5-6 William Leibl Três retratado sentimentalmente, como um costume rural pitoresco.
Mulheres em uma
Igreja da Vila, 1881
Religião como um costume pitoresco
Beleza nos Olhos da Máquina 109

Escritura e Dados Sensoriais


Em toda cosmovisão existe um grão de verdade. E a verdade no empirismo é que o Criador
deu forma aos nossos sentidos para nos dar acesso ao mundo que ele criou. O
próprio evangelho tem um importante elemento empírico. O apóstolo João insiste
que a mensagem da morte e ressurreição de Cristo se baseia naquilo “que
ouvimos, que vimos com os nossos olhos, que contemplamos e apalpamos com as
nossas mãos” (1 João 1:1). Quando Paulo se dirigiu aos governantes romanos,
salientou que os eventos da vida, morte e ressurreição de Jesus “não foram feitos
em um canto” (Atos 26:26). Foram eventos públicos testemunhados por muitas
pessoas que ainda estavam vivas na época — e que, portanto, poderiam refutar a
alegação dos apóstolos, caso tivessem alguma evidência contrária a apresentar.
Os quatro Evangelhos afirmam ser a verdade pública, baseada no testemunho de
testemunhas oculares e aberta ao exame e teste cruzado.
Motivados pelo respeito do evangelho pelos dados empíricos, os estudiosos desenvolveram uma forma empiricamente

baseada na apologética que investiga as evidências históricas dos eventos do Novo Testamento,
desde a Credibilidade da História do Evangelho de Nathaniel Lardner na década de 1700 até a mais

bolsa de estudos atualizada em livros como O Jesus Histórico: Evidências Antigas de Gary Habermas
para a Vida de Cristo e A Ressurreição do Filho de Deus de N. T. Wright. Isso não quer dizer que

a ressurreição pode ser comprovada a partir de um ponto de vista neutro. Em última


análise, as visões de mundo estão em jogo. No entanto, é possível oferecer um desafio
historicamente baseado aos relatos seculares dos eventos do Novo Testamento — e,
ao fazê-lo, desafiar as visões de mundo seculares das quais esses relatos surgem.

Até mesmo a ciência moderna, com sua metodologia empírica, deve muito ao mundo bíblico-
visão. Antes da ascensão do cristianismo, os gregos haviam definido a ciência
principalmente em termos de lógica. Na filosofia clássica, as coisas eram
compostas de matéria e forma. A ciência era definida como conhecimento das
formas. Como as formas eram racionais e eternas (como os números), a ciência era
logicamente necessária (como a matemática). Sua verdade dependia estritamente
da lógica, não de descobertas empíricas.
O problema óbvio com esta definição é que ela prejudica a necessidade de investigação empírica-

ção. Depois de compreender a essência de qualquer objeto, você não precisa examiná-
lo. Você pode extrair todas as informações importantes sobre ele por pura dedução.
Pegue, por exemplo, uma panela: Depois de saber que o propósito de uma panela é
ferver líquidos, você pode deduzir que ela deve ter uma certa forma para conter o
líquido, que deve ser feita de material que não derreta
quando aquecido, e assim por diante. Este método dedutivo foi transformado no modelo para todo o conhecimento.
Como resultado, os pensadores clássicos tinham pouco uso para experimentos e observações detalhadas.

Ao longo dos séculos, no entanto, à medida que os teólogos cristãos refletiam sobre o texto bíblico, eles

começaram a questionar a definição grega de ciência. Na Idade Média, os teólogos raciocinaram


que, como Deus é onipotente, ele poderia ter feito o mundo de várias maneiras diferentes. Ele
era livre para escolher o tipo de universo que criaria. Os padrões ordenados na natureza não são
110 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

logicamente necessário. Eles são contingentes à vontade de Deus. A implicação para a ciência é que não podemos
nos sentar em nossas torres de marfim e simplesmente deduzir o que deve acontecer. Em vez disso, temos que sair
para

o mundo para descobrir o que acontece—que tipo de ordem Deus de fato escolheu criar. Em

resumo, devemos observar e experimentar. A nova visão foi declarada no século XVII pelo amigo
de Newton, Roger Cotes, que escreveu que a Natureza surgiu da “vontade perfeitamente livre de
Deus” e, por essa razão, devemos aprender sobre ela “a partir de observações e experimentos”.

Para dar apenas um exemplo, Aristóteles argumentou que a terra deveria estar no centro do cos-
mos, porque em sua cosmologia, os elementos buscam seu lugar “natural”. Mas tal raciocínio dedutivo
foi rejeitado pelo monge e matemático francês Marin Mersenne. “Para Mersenne não havia
‘dever’ sobre isso”, escreve o historiador John Hedley Brook. “Estava errado dizer que o centro era
o lugar natural da terra. Deus tinha sido livre para colocá-lo onde quisesse. Cabia a nós
20
descobrir onde isso estava.”

Assim, a metodologia experimental da ciência moderna deve sua origem ao conceito bíblico
de um Criador. Os primeiros cientistas rejeitaram a definição de Aristóteles de ciência como logicamente certa

conhecimento baseado na dedução. Eles substituíram uma nova definição de ciência como conhecimento provável

conhecimento baseado em evidências empíricas. Como observa o filósofo Richard Popkin, os teólogos foram tão

significativos quanto cientistas e filósofos na criação do “chamado empirismo britânico que tem
21
desempenhou um papel tão importante no pensamento ocidental desde então.”

Camponeses e Banjos
Este mesmo respeito bíblico pelo mundo empírico foi expresso por artistas cristãos. Em

fato, alguns historiadores dizem que foi o cristianismo que deu origem ao Realismo em
primeiro lugar. Na cultura clássica e neoclássica, esperava-se que a arte fosse sobre
grandes temas históricos ou mitológicos. Eventos importantes aconteciam apenas
entre deuses e heróis, reis e guerreiros. Por outro lado, as classes trabalhadoras e o
campesinato eram geralmente retratados como caipiras cômicos. O Realismo rompeu
com essa tradição predominante, enfatizando a dignidade de pessoas comuns, até
mesmo humildes. De onde veio esse novo estilo? Da doutrina bíblica da encarnação.

“Foi a história de Cristo” que quebrou as regras clássicas de estilo, escreve o crítico literário

Erich Auerbach, através de sua “mistura de realidade cotidiana e a mais alta e sublime
tragédia”. Os eventos que mudaram o mundo do evangelho aconteceram entre
pessoas comuns e cotidianas. Jesus acolheu pecadores e prostitutas. Ele convidou
humildes pescadores para serem seus discípulos e comeu com cobradores de impostos
(colaboradores desprezados com as forças de ocupação romanas). Esses eram
personagens que nunca seriam considerados adequados para representação na arte
clássica. Mas, surpreendentemente, suas vidas se tornaram o locus do grande clímax
no plano de salvação de Deus. Como resultado, pela primeira vez na história, tornou-se
“possível na literatura, bem como nas artes visuais, representar os fenômenos mais
cotidianos da realidade em um contexto sério e significativo”. Além disso, porque Cristo
morreu a morte ignominiosa de um criminoso condenado, Auerbach
Beleza nos Olhos da Máquina 111

acrescenta, tornou-se possível retratar de forma simpática “até mesmo o


feio, o indigno, o fisicamente básico”.
Assim, Jean Francois Millet, um católico devoto, tornou-se “o primeiro a dar aos camponeses uma

grandeza michelangelesca”, segundo o historiador de arte Frederick Hartt.


“Antes dele, os camponeses eram retratados como estúpidos
Eles podiam ser usadosou
ematé ridículos.”
comédia ou gênero

pintura, mas não em arte séria. Inicialmente, as pessoas ficaram chocadas com as
pinturas de Millet porque concediam tanta dignidade a figuras humildes. Ele abriu novos
caminhos por causa de sua perspectiva cristã. Como diz um historiador, Millet deu “à
vida cotidiana uma gravidade bíblica”, pintando o ser humano como “o ícone realista do
Deus invisível”.

REALISMO CRISTÃO
Concedendo dignidade aos pobres e marginalizados

5-7 Jean Francois Millet 5-8 Henry O. Tanner


O Semeador, 1850 A Lição de Banjo, 1893

O pintor americano Henry Tanner também era um cristão devoto, filho de um pastor
na Igreja Episcopal Metodista Africana. Tanner reclamou que “muitos dos artistas que
representaram a vida negra viram apenas o lado cômico, o lado ridículo dela.” Até o banjo
havia se tornado uma caricatura. A imagem de escravos tocando banjo era um clichê visual. Tanner sub-
verte os estereótipos com uma imagem de profunda ternura.
Claramente, os realistas cristãos nutriam uma profunda simpatia pelos pobres. Eles não estavam pintando apenas o que o olho vê, mas buscando expressar a dignidade interior e o
significado de seus súditos.

pintando apenas o que o olho vê, mas buscando expressar a dignidade interior e o significado de seus súditos.
112 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Encontrando Deus na Natureza


Um movimento entre artistas ingleses chamados Pré-Rafaelitas foi ainda mais longe, buscando

pintar com precisão científica. Após a revolução científica, houve uma vasta
torrente de livros sobre teologia natural — argumentos para a existência de
Deus baseados na harmonia racional na natureza. O tema desses livros era que
a natureza, corretamente interpretada, revela verdades espirituais e morais.
No século XIX, tornou-se moda montar um gabinete de natureza na própria casa,

cheio de fósseis, rochas, pedras preciosas, conchas marinhas e flores prensadas. Em


1855, Charles Kingsley disse que podia ver o reflexo de Deus até nos caranguejos e
anêmonas do mar em uma poça de rocha na praia. Em suas palavras, o amante da
natureza “reconhece a marca do dedo de Deus, e se maravilha, e adora.”

Os Pré-Rafaelitas esperavam que suas pinturas também revelassem a marca do dedo de Deus, inspir-
ando os espectadores a se maravilhar e adorar. Seu nome indica que eles queriam recuperar o frescor
da arte anterior a Rafael, cujo estilo havia sido imitado tantas vezes que se tornou um clichê visual.
Eles exortaram os artistas a imitar a natureza em vez disso. John Ruskin, um líder do movimento, pensou que
era possível treinar nossos olhos para ver uma folha, por exemplo, não apenas como parte de uma planta, mas como a personificação

de verdades religiosas e morais. “As formas mais simples da natureza são estranhamente animadas pelo senso de

Presença Divina”, escreveu ele; “as árvores e as flores parecem todas, de certa forma, filhos de Deus.”

Para Ruskin, isso sugeria que os artistas deveriam buscar um estilo que fosse empiricamente preciso e
cientificamente preciso. Ao retratar a natureza de uma forma que levasse em conta as últimas descobertas

da ciência, ele pensou, os artistas revelariam a mão de Deus. Pode-se dizer que os Pré-Rafaelitas
buscaram uma estética que seria uma versão visual da teologia natural.

OS PRÉ-RAFAELITAS
Isso explica por que William Holman Hunt pintou com tanta precisão e
detalhes nítidos e focados. Até os objetos distantes não são nebulosos, mas claros e de bordas duras. O Mercenário

Pastor alude à parábola de Jesus sobre o pastor contratado que negligencia as ovelhas. Observe as
ovelhas à direita vagando pelos campos. O cordeiro no colo da donzela come um verde
maçã, que é venenosa para as ovelhas. O Bode Expiatório refere-se ao Dia da Expiação Judaico quando
um bode expiatório foi enviado para o deserto carregando os pecados do povo (Lev. 16). A imagem foi
destinado a trazer à mente o sofrimento e a expiação de Jesus, que foi prefigurado pelo Antigo
Testamento ritual. Hunt viajou para a Terra Santa para um estudo em primeira mão do Mar Morto, esforçan-

do-se para obter exatidão em todos os detalhes — científicos, geográficos, arqueológicos e históricos.
Beleza nos Olhos da Máquina 113

5-9 William Holman Hunt 5-10 William Holman Hunt


O Pastor Assalariado, 1851 O Bode Expiatório, 1856

Uma versão visual da teologia natural

O objetivo do hiper-realismo dos Pré-Rafaelitas, explica o crítico de arte Peter Fuller, era criar uma
26
estética “enraizada nas revelações espirituais da nova ciência.” Eles esperavam combater o secular

filosofias como o empirismo e o materialismo através de um Realismo simbólico, ligando cientificamente


detalhes realistas com referências espirituais complexas.

A ligação do natural e do espiritual era a marca registrada do Realismo Cristão. O católico


o apologista Frank Sheed disse uma vez: “O romancista secular vê o que é visível; o romancista cristão
vê o que está lá.” Exatamente. Por um lado, os Realistas Cristãos afirmavam a bondade do empiri-
cal reino conhecido pelos sentidos. Por outro lado, eles o consideravam apenas um aspecto de um mais rico,

realidade multidimensional criada por Deus. Em sua visão de mundo, Auerbach explica, a influência
de Deus “atinge tão profundamente o cotidiano que os dois reinos do sublime e do cotidiano
27
dia não são apenas realmente inseparáveis, mas basicamente inseparáveis.” A verdade era unificada. Cristão
Realistas deram às coisas temporais um significado eterno.

A Visão de Mundo dos Impressionistas


Esta era uma versão muito diferente do Realismo secular, que despojou os significados morais e espiri-

tual e visava uma representação livre de valores da realidade factual—


“apenas o que o olho vê.” Vamos retomar esse tema. Se a arte deveria
retratar apenas o que o olho vê, o que exatamente o olho vê?
Essa questão foi levantada pelos impressionistas. Eles se debruçaram sobre tratamentos científicos de

luz e óptica para entender melhor o processo de visão - o processo fisiológico pelo qual
adquirimos conhecimento do mundo. Esta foi a era do positivismo, uma forma extrema
de empirismo. O positivismo diz que não podemos conhecer o mundo como ele
realmente é. Só podemos relatar nossas sensações do mundo. Os impressionistas
transformaram a arte em um registro de sensações ópticas.
Os filósofos empiristas da época ficaram intrigados com histórias de casos de pacientes que eram
nascidos cegos devido a cataratas e, em seguida, tiveram sua visão restaurada cirurgicamente (tornada possível para o
114 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

primeira vez em 1743). Aqui estava o experimento ideal para testar como o
conhecimento é construído a partir da experiência sensorial. O principal porta-voz de
uma abordagem científica da arte, Hippolyte Taine, relatou que, quando pacientes pós-
operatórios olhavam para o mundo pela primeira vez como adultos, eles nem sequer
reconheciam objetos como itens separados. Eles eram incapazes de realizar operações
fundamentais, como distinguir a figura do fundo. Tudo o que viam eram listras e
planos de cor. “O olho tem apenas a sensação de diferentes manchas coloridas.” Os
pacientes tiveram que aprender a construir um mundo coerente a partir de um
deslumbre de manchas de cor.
E não somos todosconstruir o mundo a partir de manchas de cor? os positivistas disseram. Por exemplo,

quando você olha para uma mesa de madeira, o que você realmente vê? Uma mancha
de cor: marrom, plana, lisa, dura, retangular. De acordo com o positivismo, essas
impressões sensoriais diretas são a fonte última do conhecimento. E nesse nível
fundamental, não podemos estar errados ou enganados. Obviamente, todos cometem
erros às vezes, mas isso ocorre no processo de interpretação dos dados sensoriais.
Talvez o retângulo marrom não seja uma mesa de madeira, afinal, mas um engradado de plástico. No entanto, se
suspendermos toda a inferência e interpretação para entrar em contato com a sensação bruta e imediata, isso é

algo de que podemos ter certeza absoluta. Dados sensoriais diretos e não filtrados
forneceriam uma base infalível e à prova de falhas para o conhecimento. Mesmo que não
tenhamos certeza do que é o objeto, podemos ter certeza dessa mancha de cor marrom.

POSITIVISMO
IMPRESSIONISMO

5-11 Claude Monet 5-12 Camille Pissarro


Regata em Argenteuil, 1872 O Boulevard Montmartre à Noite, 1897

Manchas de cor

Isso explica por que Claude Monet disse: “Quando você for pintar, tente esquecer quais objetos
você tem diante de você, uma árvore, uma casa, um campo ou o que for. Apenas pense, aqui está um pequeno quadrado de

azul, aqui um oblongo de rosa, aqui uma faixa de amarelo.” Manchas de cor. Monet até acrescentou que
ele desejava ter nascido cego e recebido a visão pela primeira vez como adulto. Dessa
forma, ele seria capaz de pintar cores “sem saber quais eram os objetos que via antes
A beleza nos olhos da máquina 115

ele.” Em outras palavras, ele não teria ideia de como interpretar o que estava vendo. Ele teria
acesso aos dados brutos da sensação sem interpretação, a base
supostamente infalível do conhecimento.
“O termo ‘impressão’ tinha um significado muito específico nas teorias de percepção do século XIX,

explica o historiador de arte Robert Williams. O termo era usado para denotar aquelas
sensações brutas, primais e intocadas onde o conhecimento doMonet
Claramente, mundo começa.
não estava interessado

apenas em pintar quadros bonitos. Ele estava lutando com o problema filosófico do
conhecimento (epistemologia) — não em termos filosóficos, mas em termos artísticos.
O livro de arte típico diz que os impressionistas estavam tentando simular os efeitos da luz refletida
Mas não explica por que eles pensavam que era disso que a arte deveria se tratar. Quando eu era
estudante universitário, fiz um curso de filosofia moderna de um ano, onde participamos de intermináveis

discussões em sala de aula sobre se a fonte final do conhecimento consiste em manchas de cor.
Essa é a pergunta que os impressionistas estavam fazendo. O estilo deles faz perfeito sentido quando
percebemos que eles foram influenciados pela luta do positivismo para construir o conhecimento novamente sobre o

fundamento de dados sensoriais puros. O historiador de arte W. H. Janson resume sua abordagem como “a
31
revolução da mancha de cor.”

Da Vinci versus Degas


A ideia de que a verdade poderia ser encontrada despojando a mente de toda interpretação e começando

do zero era essencialmente moderna. Como um ideal teórico,


representou uma ruptura radical com tudo o que havia acontecido
antes. Desde os antigos gregos, o propósito da arte sempre foi
transmitir algum tema ou interpretação da vida. Apesar de todas as
suas diferenças, escreve Canaday, nenhum movimento artístico anterior
havia “duvidado da suposição de que estamos aqui por uma razão e
que nosso ser é justificado e significativo . . . que
existe uma harmonia , uma verdade descobrível . . . um significa-

do ordem . . . um plano universal . . . algum propósito .”

O que marca a era moderna é a perda de

esta convicção. Na época dos


impressionistas, diz Canaday, as pessoas
não esperavam mais “alcançar a expressão
de uma ordem universal ideal . . . [ou]
conhecimento universal.” Parecia que tudo
o que realmente sabemos é a experiência
imediata — os “fragmentos pequenos e
comuns do mundo infinitamente complexo.”
5-13 Edgar Degas
Bailarina e Senhora com Leque, 1885
Uma visão de mundo fragmentada
116 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

A arte começou a refletir essa sensação de fragmentação. Nesta pintura de Edgar Degas, observe a
corte arbitrário, o ângulo de visão descentralizado, as figuras cortadas nas bordas — algumas até com
suas cabeças cortadas — quase como se alguém tivesse tirado uma foto com uma câmera sem mirar primeiro.

Degas era, de fato, um talentoso fotógrafo amador.


A aparência aleatória de suas pinturas foi em parte devido à
maneira como a câmera ensinou as pessoas a “ver” imagens que não eram

intencionalmente compostas. Afinal, não é assim que nós


naturalmente vemos o mundo. Nós não vemos pessoas com suas

cabeças cortadas. A fotografia ensinou os artistas a retratar


como o mundo se parece sem interpretação—sem-
selecionar, compor, organizar, alinhar, equilibrar,
33
enquadrar e assim por diante. Esta foi uma abordagem radicalmente nova

para a pintura. Em vez de contar uma história ou transmitir uma moral

tema, o objetivo era capturar um momento fugaz, como um


instantâneo. Quando os filósofos disseram que o caminho para a verdade era

limpar a mente de toda interpretação, os artistas começaram a mostrar-

o que um mundo não interpretado parece.


Outra maneira de colocar isso é que os impressionistas começaram
5-14 Madonna das Rochas
de Leonardo da Vinci, 1483 a abandonar as regras tradicionais de composição que ligam o
Uma composição unificada
elementos em um todo coerente. Considere, por exemplo,
Madonna das Rochas de Leonardo Da Vinci. Observe como ele usa a composição piramidal tradicional
para reunir os elementos e concentrar nossa atenção no que é mais importante no centro.
Por outro lado, em Ensaio de Balé de Degas, o que está no centro? Bem, nada. Tudo é inciden-
tal, acontecendo ao lado, parcialmente cortado pela moldura. Até mesmo o ensaio de balé (supos-
tamente o tema da pintura) é parcialmente obstruído pela escada. Degas estava buscando um
efeito não posado, não planejado — um ponto de vista casual — como se alguém tivesse entrado
34
no fundo da sala em um momento arbitrário no tempo.

Fatia da Vida
Tradicionalmente, um artista usaria luz e sombra para puxar uma parte da pintura para frente
e torná-la o ponto focal — um pouco como o clímax de uma história — enquanto o resto cai em
fundo e é claramente secundário. Mas na pintura de Degas, as manchas de luz não destacam
qualquer figura. Não há ponto focal, nenhuma distinção real entre primeiro plano e fundo, não
“forma” geral inteligível imposta ao assunto. Como as pessoas modernas pararam de acreditar
que a própria vida tinha uma história coerente, os artistas pararam de procurar contar uma história coerente em seus

pinturas. Eles apenas tentaram capturar um segmento do fluxo aleatório da vida. Este foi o corte
do efeito da vida.
Beleza nos Olhos da Máquina 117

5-15 Edgar Degas 5-16 Edouard Manet


Ensaio de Balé, 1874 A Ferrovia, 1873
Momentos aleatórios e passageiros

O quadro A Ferrovia de Manet também carece de um ponto focal. Apesar do título, não há trem. A mulher

à esquerda levanta os olhos do livro como se um transeunte tivesse acabado de interromper sua leitura e
tirado uma foto. Como diz um crítico de arte, a pintura “não oferece história, nenhuma relação clara entre
35
suas figuras, nenhum centro de interesse. É como uma fatia da realidade não interpretada.” Uma fatia da vida.

Doe a Discord
Ao mesmo tempo, os compositores impressionistas começaram a abandonar as regras tradicionais da música

composição. Eles não sentiam mais a necessidade de escrever música


com uma forma ou enredo discernível: um começo, um desenvolvimento,
um clímax e uma resolução. Em uma ária de uma ópera clássica como As
Bodas de Fígaro de Mozart, você pode contar em ouvir introdu-

material tório, então um período de


desenvolvimento construindo sobre o tema
musical, levando inevitavelmente ao clímax em
uma nota alta, então finalmente terminando com
uma conclusão que une tudo. A peça começa e
termina na mesma tonalidade — por exemplo, a
tonalidade de Dó maior — para transmitir uma
sensação de partida e retorno. O enredo
narrativo é impulsionado por elementos
estruturais como contraste, repetição e
progressão harmônica. Se você toca violão, pense
na maneira como a dissonância de um acorde de
G7 cria uma sensação de movimento para frente
que se resolve em um acorde de Dó.
5-17 Claude Debussy
No final do século XIX, os compositores impressionistas Um humor fugaz

compositores como Debussy e Ravel começaram a criar música


que abandonou qualquer enredo narrativo. Para eliminar qualquer sensação de movimento direcionado, Debussy usou
118 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

fragmentos dispersos de melodias, acordes que não se resolvem (acordes paralelos),


finais sem uma cadência sinalizando uma conclusão. O resultado foi uma sensação de
que a composição não tinha um começo ou fim particular. Parecia quase como um
fragmento cortado de uma peça de música infinitamente longa que continua
indefinidamente—como o fluxo da própria vida.
Nas palavras do musicólogo Donald Grout, “O Impressionismo não buscava expressar profundamente
36
emoção sentida ou contar uma história, mas evocar um humor, um sentimento fugaz, uma atmosfera.” Isto é
o efeito de fatia da vida na música.

Arte por Ninguém


Hoje, a maioria das pessoas define arte em termos de expressão pessoal. Mas essa é uma definição romântica.

ção. Os impressionistas rejeitaram enfaticamente. Sob o impacto do empirismo, eles declararam


que a arte deveria ser meramente um registro de sensações—efeitos visuais e auditivos. Como o
impressionista americano James Whistler colocou, a arte deve apelar apenas “ao senso artístico
do olho ou do ouvido,” com-
37
sem buscar inspirar “devoção, piedade, amor, patriotismo e similares.”
Edgar Allan Poe colocou a mesma ideia de forma mais direta: A arte “não tem nenhuma preocupação

seja com o Dever ou a Verdade.”


Artistas visuais começaram a atribuir títulos musicais às suas obras para sugerir

que uma pintura não representava nada, mas era meramente um abstrato
harmonia de cores. Um exemplo foi a “Sinfonia em Branco de Whistler
No. 1.” As pessoas debateram interminavelmente quem era a mulher, o que o branco

vestido significava (ela era uma noiva?), o que o tapete de pele de lobo significava, por que ela

estava segurando um lírio (um símbolo religioso comum), e assim por diante. Afinal, os espectadores

na época estavam acostumados com a ideia de que os elementos em uma pintura eram

supostamente significar algo.


5-18 James Whistler
Mas a piada foi com o público. “A história era que não existia nenhuma
Sinfonia em Branco No. 1, 1862
Nada além de retinal e história,” escreve o crítico de arte Robert Hughes. A mulher era meramente “uma modelo
efeitos auditivos
posando no estúdio de Whistler para dar a ele um pretexto para pintar tons de branco
38
com extrema virtuosidade e sutileza.” A pintura deveria ser avaliada apenas em termos de formal
elementos—cor, linha, forma, textura e assim por diante.

A ideia de que a validade de uma obra de arte reside apenas em elementos formais é chamada de formalismo.

E representa uma grande ruptura com todos os conceitos tradicionais de arte. Até este momento, o propósito

da arte era transmitir uma mensagem ou uma moral. Para despertar virtude e coragem. Para instruir e
inspirar. Para enriquecer, elevar, edificar e refinar. Quando o Messias de Handel foi apresentado pela primeira vez, um

nobre saudou a obra como “um entretenimento nobre.” Handel respondeu: “Meu Senhor, eu deveria estar
triste se eu apenas os entretivesse; Eu desejava torná-los melhores.”
No século XIX, no entanto, os artistas começaram a atacar a própria ideia de elevação moral e refina-
39
mento. Eles se tornaram o que o crítico literário Lionel Trilling rotulou de “cultura adversária,” implantando
A beleza nos olhos da máquina 119

a arte de minar a sociedade burguesa. Em épocas anteriores, os artistas estavam


profundamente inseridos em sua sociedade, expressando suas preocupações e convicções
predominantes. Mas agora eles orgulhosamente certificavam sua superioridade sobre o
povo comum por seu desafio às normas estabelecidas. “Até chegarmos à época moderna,
toda arte tinha um significado social e uma obrigação social”, observa a artista Suzi Gablik.
Mas “nossa grande arte tem sido abertamente hostil à ordem social”.

Este era o significado operacional do slogan do século XIX “arte pela arte”.
significava uma rejeição da arte pelo bem do público. Os artistas criticavam a burguesia por se importar apenas

com o que era útil e lucrativo - por ser grosseira, egoísta e utilitária. Deve-se admitir
que suas acusações tinham alguma justificativa. O espírito burguês foi informado por
uma teologia liberal que havia substituído os conceitos bíblicos de pecado e salvação
por uma doutrina autocongratulatória de progresso material e moral. Os cristãos
liberais eram respeitáveis, civilizados, moralistas e presunçosos. Seu Jesus vitoriano
era manso, gentil e sentimentalizado. Como diz Rookmaaker, o espírito burguês não
lutou honestamente com os desafios colocados pela modernidade, mas meramente
“tentou encobrir o fato de que os velhos valores haviam perdido sua Como força”.
resultado, os artistas

desprezavam a sociedade convencional por ser tímida e reacionária. Eles se


orgulhavam de sua própria coragem ao enfrentar verdades duras.
Foi quando artistas e escritores começaram a ir “às favelas”, saindo em boates e
bordéis com criminosos e prostitutas, retratando o lado sórdido da vida. Eles
estavam determinados a chocar a burguesia para enfrentar a vida “real”.

A Cultura Adversária

5-19 Edgar Degas 5-20 Toulouse-Lautrec


Bebedor de Absinto, 1876 Treinamento das Novas Meninas, (Moulin Rouge), 1892

Artistas vão “às favelas”


120 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Apesar de sua premissa empirista, muitas pinturas impressionistas e peças musicais são bastante
bonitas. Elas permanecem imensamente populares entre o público. A razão é que os impressionistas
continuaram a incorporar uma grande parte da tradição artística e musical ocidental. Normalmente, leva
várias gerações para que uma visão de mundo e todas as suas implicações permeiem completamente uma sociedade.

Além disso, como grandes artistas em todas as épocas, eles eram mestres em seu ofício. Os bons dons de Deus—

incluindo coisas como habilidade e perspicácia—são dados a todos. Esta é a doutrina da graça comum,
que Deus “faz o seu sol nascer sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos
e injustos” (Mateus 5:45). Como resultado, a visão da maioria dos artistas é melhor do que sua visão de mundo.

Eles são sensíveis a dimensões da realidade que vão além do que é estritamente permitido dentro das
categorias restritas de sua visão de mundo secular. Pode-se dizer que quanto mais sintonizados os artistas estão

com a experiência humana real, menos restritos eles são por sua visão de mundo e mais rica sua
visão do mundo.

A Reação Racionalista
Eventualmente, uma reação se instalou contra o Impressionismo. Alguns artistas sentiram que a definição de

arte como nada além de efeitos retinianos era muito superficial. “Monet é apenas um olho”,
Paul Cezanne reclamou—nada além de um olho ambulante. Esses artistas queriam reviver
o ideal mais antigo de que a arte descobre algum nível mais profundo da realidade.

Mas eles ainda eram pessoas modernas. Eles ainda queriam ser “científicos”. Então, ao decidir
qual era essa verdade mais profunda, eles se voltaram do empirismo para seu principal rival—a filosofia do

racionalismo. Como Rookmaaker explica, eles queriam “pintar a estrutura da realidade como
entendida pela racionalidade humana, os princípios racionalistas ‘por trás’ da coisa vista”.
Qual era a “estrutura da realidade” mais profunda? De acordo com o racionalismo, era matemática.
Para rastrear a fonte dessa ideia, devemos voltar mais uma vez aos primórdios da
ciência moderna. Os primeiros cientistas propuseram que o Criador, sendo um
Deus racional, havia feito o universo com uma estrutura matemática. Descobrir
essa estrutura era uma forma de honrar o Criador. Nas palavras do matemático
Morris Kline, “A busca pelas leis matemáticas da natureza foi um ato de devoção
que revelaria a glória e a grandeza de Sua obra”.
As raízes dessa visão matemática do mundo remontam ainda mais, é claro,

a Pitágoras e Euclides. De fato, os antigos gregos são frequentemente creditados com a


origem da ciência moderna. Mas isso é um erro. Os gregos trancaram as verdades
matemáticas em uma espécie de céu platônico de formas ideais—um reino de plantas
mentais ou modelos para todos os objetos no mundo material. O problema era que
esses projetos não correspondiam aos seus objetos, exceto de forma grosseira e
aproximada. Por que não? Porque os gregos consideravam a matéria como eterna, não
criada. Portanto, a matéria tinha suas próprias propriedades inerentes e independentes,
que não necessariamente se alinhavam com os projetos no reino ideal. Pense na
geometria: suas regras não se referem realmente aos triângulos borrados e irregulares
que esboçamos com giz ou tinta. Eles se referem ao ideal abstrato de um triângulo.
A beleza nos olhos da máquina 121

Como resultado, os filósofos clássicos não esperavam encontrar relações matematicamente precisas
na natureza. Como explica o historiador Dudley Shapere, no pensamento platônico, o mundo físico
“contém um elemento essencialmente irracional: nada nele pode ser descrito exatamente pela razão, e
44
em particular por conceitos e leis matemáticas.” Assim, a ideia de que o mundo material segue
leis matemáticas não veio dos antigos gregos.
Em vez disso, veio do conceito bíblico de criação ex nihilo. A matéria não é eterna. É cri-
ada. Portanto, não tem nenhuma propriedade inerente e independente própria. Tem o que
propriedades que Deus queria que tivesse. Em termos práticos, isso significava que as pessoas começaram a esperar que a ma-

téria seguisse leis racionais e matemáticas exatas. O físico ganhador do Prêmio Nobel C. F. von
Weizsacker resume a diferença: “A matéria no sentido platônico . . . não obedecerá a matemática
leis exatamente.” Mas “a matéria que Deus criou do nada pode muito bem seguir estritamente as regras
que seu Criador estabeleceu para ela.” Desta forma, ele conclui, a ciência moderna é “um legado, eu poderia
45
até disse um filho, do cristianismo.”
Hoje consideramos natural que a ciência seja uma questão de formular leis matemáticas, falhan-
do em perceber o quão nova essa ideia já foi. Como aponta o historiador R. G. Collingwood, “a própria
possibilidade de matemática aplicada é uma expressão . . . da crença cristã de que a natureza é a
46
criação de um Deus onipotente.” Meu pai ensinou matemática aplicada em universidades como
Purdue e Texas Tech, então gosto de lembrá-lo de que a própria existência de seu campo depende de um
Visão de mundo cristã.

Galileu versus Aristóteles


Essas ideias tiveram um enorme impacto histórico. Por exemplo, como Johann Kepler descobriu

que as órbitas planetárias são elipses? Desde a antiguidade, as pessoas pensavam


que os planetas se moviam em órbitas circulares. A ideia remonta a Aristóteles. Ele
raciocinou que os céus são “perfeitos” e o círculo é a forma “perfeita”, logo os
corpos celestes devem se mover em círculos. (Este foi um exemplo da abordagem
dedutiva dos gregos à ciência.) Como Kepler conseguiu romper com uma crença
estabelecida em órbitas circulares que prevaleceu por dois mil anos?
Começou quando ele teve dificuldade em traçar a órbita de Marte. O círculo mais preciso que ele poderia

construir com base em observações era ligeiramente instável. Se Kepler tivesse


retido a mentalidade grega, ele teria ignorado uma aberração tão pequena. Seu
pensamento teria sido que os objetos correspondem a ideais geométricos, afinal,
apenas aproximadamente. Mas Kepler era um luterano devoto. Ele estava
convencido de que se Deus quisesse que uma linha formasse um círculo, seria
exatamente um círculo. E se não fosse exatamente um círculo, deveria ser
exatamente outra coisa. Não seria meramente uma partida arbitrária do ideal. Essa
convicção teológica sustentou Kepler por seis anos de luta intelectual e milhares de
páginas de cálculos científicos antes que ele finalmente chegasse à ideia de elipses.
122 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Kepler mais tarde falou com gratidão sobre a pequena discrepância na órbita de Marte como um “presente de Deus”

porque isso impulsionou sua maior descoberta científica. O principal objetivo da ciência, disse ele, é “
descobrir a ordem racional e a harmonia que foram impostas a ela por Deus e que Ele
nos revelou na linguagem da matemática.”
Galileu compartilhava a convicção de Kepler de que Deus criou o mundo com uma estrutura matemática

tura. Mas nem todos concordavam. Essa era a questão central da famosa controvérsia de Galileu.
A história típica é que Galileu foi perseguido porque defendeu a teoria heliocêntrica
de Copérnico. Mas a verdade é que ninguém na época se opôs ao copernicanismo—contanto que
fosse usado meramente como um dispositivo de cálculo. Não havia dados empíricos suficientes ainda para decidir

entre um sistema centrado na Terra e um sistema centrado no Sol. Ambos os sistemas funcionavam igualmente bem para

navegação, que era o principal uso prático da astronomia na época. A maioria das pessoas estava disposta

a usar qualquer teoria astronômica que funcionasse melhor, sem se preocupar se era
fisicamente verdadeira.

Galileu atraiu controvérsia porque insistiu que o sistema copernicano não era apenas
uma ferramenta de cálculo útil, mas fisicamente verdadeira. A questão central em jogo era, portanto, o status

da verdade matemática: a matemática nos diz o que é verdade no mundo físico? Esta era uma
questão filosófica, não teológica. E os principais oponentes de Galileu não eram homens da
igreja, mas os filósofos aristotélicos nas universidades. Para eles, a matemática não estava no topo
da lista do que faz o mundo ser o que é. A característica essencial do universo de Aristóteles não era
quantidade, mas qualidade — quente e frio, úmido e seco, macio e duro. Nas universidades, a matemática

tinha uma classificação muito inferior à física. Um mero matemático não deveria ditar aos
físicos qual teoria eles poderiam defender.
Temos um vislumbre fascinante da mentalidade da época nas palavras de um dos
oponentes de Galileu, um professor de filosofia da Universidade de Pisa. “Quão longe da verdade estão aqueles

que desejam provar fatos naturais por meio do raciocínio matemático”, escreveu ele indignado.
“Qualquer um que pense que pode provar propriedades naturais com argumentos matemáticos está simplesmente
47
demente, pois as duas ciências são muito diferentes.”
Quando leio essa citação em minhas palestras, inevitavelmente a plateia cai na gargalhada.
Hoje parece óbvio que a ciência se trata de explicar a natureza usando fórmulas matemáticas.
Não era assim nos dias de Galileu. Quando ele declarou que o livro da natureza é escrito por Deus em
a linguagem da matemática, essas eram palavras de luta—uma declaração de guerra à filosofia aristotélica.
48
filosofia.
A saga de Galileu é tipicamente contada como um conflito entre ciência e religião. Mas na realidade
foi um conflito entre cristãos sobre a filosofia correta da natureza. Era a qualidade de Aristóteles
ou a quantidade de Galileu? A vitória de Galileu foi o triunfo da ideia de que a natureza é construída
em um projeto matemático.
A beleza nos olhos da máquina 123

Roubando Newton
Foi o trabalho de Newton, no entanto, que finalmente persuadiu as pessoas do poder da matemática

para explicar a natureza. Sua lei da gravitação universal demonstrou que uma
vasta gama de fenômenos naturais poderia ser descrita por uma única fórmula
matemática — desde os movimentos familiares na terra (o arco de uma bala de
canhão) até os movimentos distantes nos céus (a órbita de um planeta). Que
simplicidade! Que elegância! Não é à toa que Newton se tornou a primeira
superestrela científica.
Sua dramática descoberta aconteceu
através de uma percepção bíblica.
Aristóteles havia traçado uma distinção
nítida entre a terra — o reino da
mudança e da decadência — e os céus,
que a olho nu pareciam imutáveis e
eternos. Aristóteles decidiu que os dois
deviam ser compostos de substâncias
completamente diferentes. Ele concluiu
que era impossível aplicar os princípios
5-21 William Blake
da física elaborados na terra a coisas nos Newton, 1795

céus, como estrelas e planetas. Um plano mestre

Essa imagem aristotélica do cosmos foi virtualmente incontestada por quase dois milênios.
O que finalmente minou uma tradição intelectual tão antiga? Reflexão sobre o
conceito bíblico de criação. Como Kline explica, “Deus havia projetado o universo, e
era de se esperar que todos os fenômenos da natureza seguissem um plano
mestre.” Era natural pensar que “uma mente projetando um universo quase
certamente teria empregado um conjunto de princípios básicos para governar
fenômenos relacionados.” Operando sob essa suposição, Newton demonstrou que
os céus não são compostos de uma substância diferente, afinal. O universo é um cosmos
unificado. Ele pode ser descrito em todos os lugares pelas mesmas leis matemáticas.
Newton não apenas entrelaçou a teologia em sua ciência, como também se virou e usou a ciência

para apoiar a teologia. “O principal negócio” da ciência, disse ele, é raciocinar ao


longo da cadeia de causas e efeitos mecânicos “até chegarmos à primeira
causa, que certamente não é mecânica” — ou seja, um Criador pessoal. Newton
também deu exemplos de tal raciocínio. Ele argumentou que o intrincado
equilíbrio do sistema solar não poderia ser explicado apenas por causas
naturais, que são “cegas ou fortuitas”, mas apenas por uma causa inteligente
“muito bem versada em mecânica e geometria”.
Até mesmo a descoberta científica mais significativa de Newton — o conceito de gravidade — ele viu como evi-

dência para Deus. A gravidade não poderia ser derivada das propriedades
intrínsecas da matéria, como massa e extensão. Portanto, Newton concebeu a força
da gravidade como evidência da governança direta e ativa de Deus sobre o mundo.
124 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

De fato, para Newton, os elementos mais básicos do universo — o próprio tempo e espaço —
eram, na verdade, propriedades de Deus. O tempo absoluto era a própria duração de Deus “da eternidade à eter-
50
nidade.” O espaço absoluto era a onipresença de Deus, “do infinito ao infinito.” Na física de Newton, é
literalmente em Deus que vivemos, nos movemos e existimos (cf. Atos 17:28).
Eventualmente, no entanto, os ideólogos do Iluminismo começaram a sujeitar a nova ciência ao
processo corrosivo de secularização. Voltaire defendeu o trabalho de Newton no con- europeu
tinente, mas no processo ele omitiu cuidadosamente qualquer menção à perspectiva bíblica do grande cientista.

Em vez disso, ele cooptou a física de Newton para servir a uma agenda do Iluminismo — a mesma
padrão de secularização que continuou até os nossos dias, como vimos na reescrita da CBS
da história de Hank de John Erickson. O conceito de gravidade de Newton recebeu uma interpretação materialista.

tação. Não era mais uma avenida do poder do Criador mantendo o universo unido, mas
meramente uma força inerente à própria matéria. O tempo e o espaço absolutos de Newton foram reduzidos

a meras categorias lógicas. Eventualmente, suas teorias foram absorvidas pelo próprio materialista
51
visão de mundo que ele esperava refutar.

A ironia é que isso passou a ser chamado de visão de mundo “Newtoniana”, embora fosse uma que
ele mesmo nunca teria aceitado. Ele imaginava o universo como uma vasta máquina, operando por
leis matemáticas inexoráveis. Modelos matemáticos foram aplicados não apenas na ciência, mas também
no pensamento social, político e moral. Parecia tão simples: Galileu observou uma bola rolando
descendo um plano inclinado e descobriu a lei matemática da aceleração para todos os movimentos
corpos. Newton observou um objeto caindo (uma maçã, segundo a lenda) e calculou o
lei matemática da gravidade para toda a matéria. A mesma metodologia não deveria se aplicar ao social
ciências? Não deveria ser possível observar alguns casos simples e, em seguida, descobrir leis universais
governando todo o comportamento humano? No século XVIII, diz um historiador, “muitos acreditavam
52
que estava próximo o tempo em que todas as coisas seriam explicadas por meio de uma física universal.”
Os métodos matemáticos que funcionavam na física certamente funcionariam em todos os outros campos. Eles

forneceria os meios para controlar não apenas a natureza, mas também a natureza humana.

Lição Racionalista de Picasso


Este histórico explica por que os filósofos racionalistas consideravam a matemática como a mais

caminho certo para o verdadeiro conhecimento. Descartes decretou que todos os


ramos do conhecimento devem procurar “atingir uma certeza igual à das
demonstrações de Aritmética e Geometria”. O filósofo Leibniz esperava o dia em que
todo o raciocínio humano seria reduzido a uma espécie de cálculo — um conjunto de
operações que resolveria todos os conflitos de opinião. Como ele colocou, devemos
nos esforçar para tornar nossos raciocínios “tão tangíveis quanto os dos matemáticos”,
para que “quando houver disputas entre as pessoas, possamos simplesmente dizer,
vamos calcular, sem mais delongas, para ver quem está certo.” Enquanto os filósofos
empiristas tentavam construir todo o edifício do conhecimento sobre as impressões
dos sentidos, os racionalistas tentavam fazer a mesma coisa com a matemática.
Beleza nos Olhos da Máquina 125

Como a visão racionalista foi expressa nas artes? Quando os primeiros cientistas falavam de
matemática, eles se referiam principalmente à geometria. Em sua famosa declaração de que o livro da natureza está

escrito na linguagem da matemática, Galileu continuou dizendo que seus caracteres “são triângulos,
círculos e outras figuras geométricas.” Nas artes, então, o racionalismo inspirou a ascensão da geometria
formalismo.
Isso explica o Cubismo, que procurava retratar o projeto geométrico subjacente da natureza.
O trampolim para o Cubismo foi uma observação de Cezanne de que os artistas deveriam “interpretar a natureza em

termos de cilindro, esfera, cone” — virtualmente uma paráfrase de Galileu. Nas palavras de
os historiadores de arte Lucy Adelman e Michael Compton, “As pinturas cubistas eram compostas em grande parte de

linhas retas e arcos que se cruzam, o próprio material da geometria de um colegial praticada por meio de
régua e compasso.” A estrutura subjacente era uma grade plana de elementos horizontais e verticais que se cruzavam-

elementos cal—a famosa grade cubista.


Como na ciência, a matemática representava o controle humano sobre a natureza. Para citar Adelman e

Compton novamente, “A geometria foi explorada como a expressão do poder do homem de impor ordem sobre
53
o mundo, para usar seu intelecto para dominar e controlar a natureza.” A grade cubista representava a
imposição de uma ordem racional e formal.

RACIONALISMO
CUBISMO

5-22 Georges Braque 5-23 Pablo Picasso Homem


Mulher com um Violão, 1913 com um Violão, 1912

Projeto geométrico oculto da natureza


126 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

No século XVIII, Kant procurou unificar as reivindicações rivais do empirismo e


racionalismo, propondo que os sentidos fornecem os dados básicos do conhecimento, enquanto a razão fornece a

forma racional que o conhecimento assume. O que interessava aos cubistas era a forma racional. Suas facetas

superfícies, linhas geométricas e planos angulares mudaram o foco da pintura. A arte não era mais
a representação de um assunto, mas a investigação da forma.

Talvez o exemplo mais famoso tenha sido


Les Demoiselles d’Avignon, de Picasso, que ren-
derizou cinco mulheres em um bordel divididas em
padrões geométricos. A pintura de Picasso foi
pretendida como uma “lição racionalista”, escreve Wendy

Steiner. Seu objetivo era ensinar os espectadores a não

ver “mulheres sexualizadas”, mas meramente um problema

em “relações espaciais”. Os espectadores deveriam


“olhar através” de assuntos imorais para
54
apreender a forma pura.
De fato, os formalistas insistiam que o poder
da grande arte sempre se deveu à sua subjacente
geometria. O assunto ou a história de uma pintura era

nada além de uma distração. O que a transformou em


5-24 Pablo Picasso
Demoiselles d’Avignon, 1907
uma obra de arte foi sua estrutura geométrica abstrata
Apreendendo a forma pura

tura. Imagine em sua mente, por exemplo, uma pietà


(Maria lamentando o Cristo crucificado). De acordo com os formalistas, o impacto da pintura não tinha
nada a ver com o significado teológico da morte do Salvador. Eles seriamente mantiveram
que o “sentimento religioso é evocado no observador não pelo Cristo morto ou pela Virgem que chora,
55
mas pelo ângulo específico criado por seus corpos adjacentes.”
Os livros de história da arte normalmente explicam que os cubistas procuraram retratar objetos de vários pontos de vista,
56
pontos simultaneamente: superior, inferior, esquerdo, direito. Mas por que eles foram motivados a quebrar objetos
em formas geométricas? Seu formalismo geométrico faz muito mais sentido quando você percebe que
eles foram influenciados pela filosofia do racionalismo. Como explica Schapiro, o cubismo “representa um
57
compromisso com a perspectiva científica”, com “a filosofia do Iluminismo, do racionalismo”.

Máquina Descendo uma Escadaria


Relacionada ao cubismo estava uma escola chamada Futurismo, que celebrava a ascensão do mundo recém-industrializado

mundo industrializado. O início do século XX foi uma era de rápida invenção — o rádio, o
automóvel, o avião, a luz de néon. Muitas pessoas estavam intoxicadas pelo novo poder
mecânico e velocidade. Eles estavam convencidos de que a natureza era inferior aos
itens fabricados — que o luar, por exemplo, havia sido suplantado por lâmpadas
elétricas. O fundador do Futurismo escreveu um provocativo
A beleza nos olhos da máquina 127

artigo intitulado “Vamos assassinar o luar”, no qual ele saudava “o reinado da sagrada Luz
Elétrica” e “a ideia de beleza mecânica”. Ele venerava as máquinas como virtualmente vivas:
“Portanto, exaltamos o amor pela máquina”, pois os motores “parecem ter personalidades,
almas ou vontades”.

FUTURISMO

5-25 Marcel Duchamp 5-26 Kasimir Malevich


Nu Descendo uma Escada, 1912 O Amolador de Facas, 1912

A “Figura da Máquina”

Se a máquina era tratada como virtualmente viva, é porque os humanos foram reduzidos a
máquinas. As figuras nas pinturas futuristas eram frequentemente mecânicas e robóticas. Marcel
O Nu Descendo uma Escada de Duchamp causou um grande escândalo no Armory Show de 1913 em Nova
York, a exposição controversa que trouxe a arte moderna para a América pela primeira vez. Mas podemos entender

se pensarmos nisso como Cubismo em movimento, imitando a fotografia time-lapse. Para retratar o movimento,

Duchamp explicou: “entramos no reino da geometria e da matemática, como se fôssemos


construir uma máquina.” Ele apelidou esta pintura de “a figura da máquina”.

Francis Schaeffer certa vez comentou que se “os teólogos americanos tivessem entendido o Armory
Show de 1913”, eles teriam uma vantagem inicial na interpretação da cultura moderna. Em vez disso, eles
59
“ficaram para trás”, sempre reagindo, sempre na defensiva. Se os cristãos de hoje esperam ser pró-
128 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

ativos, eles devem adquirir alfabetização artística. Só então eles vão superar a curva
cultural e aprender como falar a verdade de Deus novamente para cada geração.

Matemáticos-Artistas
Eventualmente, os objetos desapareceram completamente, dando lugar a um estilo abstrato composto de linhas retas

linhas pretas e planos de cores primárias. Esta era a grade cubista nua e sem
adornos. A abstração geométrica foi uma das “consequências lógicas” do cubismo,
de acordo com Piet Mondrian – arte que era “mais matemática do que naturalista”.

ABSTRAÇÃO GEOMÉTRICA

5-27 Piet Mondrian 5-28 Theo van Doesburg


Composição em Vermelho, Amarelo, Azul, 1930 Estudo para uma Composição, 1925

Arte reduzida a formas geométricas básicas

A abstração geométrica procurou “purificar” a arte, eliminando todos os vestígios de objetos materiais.
O objetivo era se livrar completamente dos dados da experiência de Kant, deixando apenas o racional universal de Kant

formas. Como Mondrian colocou, “o universal não pode ser expresso puramente enquanto o particular
obstrui o caminho.” Essa denegrição de coisas ou pessoas particulares tem sido característica de
racionalismo desde os antigos gregos, como vimos no capítulo 4. O formalismo geométrico deu
expressão visual a uma visão de mundo que exaltava o universal e o ideal, à custa da indi-
vidualidade.
A beleza nos olhos da máquina 129

O Museu de Arte de Tom Wolfe


O formalismo tem sido criticado por ser excessivamente intelectual. Em 1911, Guillaume Apollinaire,

um proeminente teórico do Cubismo, admitiu que o estilo é “mais cerebral do


que sensual” porque busca “expressar a grandeza das formas metafísicas”. E
as formas metafísicas apelam mais à mente do que aos olhos. Afinal, uma vez
que a arte foi reduzida a linhas pretas retas e blocos de cores primárias, é
difícil criar muita variedade visual. Como Kuspit observa, um cubo nu não é
exatamente interessante. “Não há necessidade de analisá-lo, de pensar sobre
ele”, escreve ele. “Intuitivamente, apreende-se seu caráter axiomático e não
se incomoda mais com elegeométrico
O formalismo (a menosparece
que se seja
mais um matemático).”
preocupado em transmitir um racionalista
visão de mundo do que em se deleitar com a beleza visual.

Em The Painted Word, o romancista Tom Wolfe reclama que a arte se tornou tão intelectual que
os museus precisam colocar placas cada vez maiores ao lado das obras de arte para
explicar qual é o objetivo. Ele brinca que, nas galerias do futuro, os tamanhos serão
invertidos: em vez de grandes pinturas com pequenas placas ao lado, os museus
apresentarão pinturas do tamanho de um cartão postal com enormes placas ao lado -
porque exigem muito texto para explicar a visão de mundo por trás delas. Wolfe está
nos enganando, mas ele tem um ponto sério. Hoje, criar obras de alta qualidade
artística é considerado menos importante do que fazer uma declaração ideológica. Daí
o título do livro de Wolfe: As pinturas se tornaram pouco mais do que “palavras
pintadas”. A visão de mundo superou a estética.

Schoenberg Compõe por Números


A mesma crítica - que apela mais à mente do que ao ouvido - é frequentemente nivelada

contra o modernismo musical. A figura imponente da música clássica do


século XX foi Igor Stravinsky. Seu estilo era fortemente anti-romântico -
claro, de arestas duras, não sentimental, não expressivo. Suas peças de
marca registrada mantiveram a tonalidade, mas apenas mal. Ele
experimentou politonalidade (duas ou mais tonalidades musicais ao
mesmo tempo) e polirritmia (dois ou mais padrões rítmicos ao mesmo
tempo). Por exemplo, em seu balé “Petrushka”, há um lugar onde o
primeiro clarinete toca uma melodia em Dó maior, enquanto o segundo
clarinete toca uma variante da mesma melodia em Fá sustenido maior.
Quando seu balé A Sagração da Primavera estreou
em Paris em 1913, provocou um motim. Foi difícil para o
público assimilar obras tão dissonantes. Muitos
historiadores dizem que o modernismo musical nasceu
5-29 Igor Stravinsky A
naquela noite. Sagração da Primavera, 1913

Nascimento do modernismo musical


Foi Arnold Schoenberg, no entanto, quem fez uma com-

pleta ruptura com a tonalidade. Se você não tem formação musical, tonalidade se refere à música que
usa as escalas maiores e menores. Pense em “Doe a Deer” de A Noviça Rebelde. Na tonalidade de Dó

maior, por exemplo, a nota Dó funciona como Doe, e uma composição musical girará em torno de
130 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

aquele tom fundamental. Isso é o que dá à peça sua sensação de ancoragem tonal, sua base, sua
sensação de fechamento no final. Por outro lado, a música atonal não faz uso de escalas,
tonalidades musicais, progressões de acordes e assim por diante. Nenhum tom é mais
importante que outro.
Schoenberg começou compondo música atonal completamente livre. Mas não havia

princípios para a atonalidade, então eventualmente ele sentiu a necessidade de algum


novo método para impor ordem e organização. Em 1921, ele introduziu o sistema de
doze tons, uma espécie de formalismo musical em que a ordem dos tons em uma
peça era predeterminada por um cálculo matemático de intervalos. (Se você contar as
teclas brancas e pretas em um teclado de piano, há doze tons em uma oitava.) A regra
é que cada tom dentro de uma oitava deve ser usado uma vez antes que qualquer
nota possa ser repetida. Isso serve para eliminar o senso auditivo de um centro tonal.

O SISTEMA DE DOZE TONS

5-30 Arnold Schoenberg


Serialismo

Compondo música por cálculo matemático

É assim que funciona. Os tons são atribuídos a valores numéricos com base na contagem de meio passos,

e são então organizados em uma série. Daí o rótulo serialismo. A série inicial é manipulada para cima
ou para baixo, para frente ou para trás, e com um pouco de matemática, você acaba com uma matriz como a

acima. A matriz é então usada para escrever a composição. Compor música não é uma questão de
expressão pessoal, mas cálculo matemático. Basta seguir a fórmula. Era a grade cubista
aplicada à música.
Beleza nos Olhos da Máquina 131

Música como Matemática

Mais uma vez, a grade cubista representou a imposição da ordem matemática. Schoenberg’s

seguidores, Pierre Boulez e Milton Babbitt, levaram o esquema de compor por números
ainda mais longe. Enquanto ele usava doze linhas de tons, eles adicionaram doze níveis
de volume, doze linhas de durações (o tempo que cada nota soa) e até doze maneiras de
tocar as teclas do piano. O resultado foi controle total: “a organização total da música”.

Boulez explicou que seu objetivo era limpar sua mente de tudo o que sabia sobre música
e começar de novo. Como ele colocou, sua música era “uma experiência no que
se poderia chamar de dúvida cartesiana, para colocar tudo em questão
novamente, fazer uma varredura clara de sua herança e começar tudo de novo
do zero”. Como vimos antes, esta era a marca registrada do modernismo:
despir a mente de toda interpretação e começar de novo. Como Begbie
comenta, Boulez exemplifica “a visão arqui-modernista do artista cujo intelecto
construtivo soberano traz ordem e significado ao mundo sônico”.
Infelizmente, a música criada por este complexo formalismo matemático era virtualmente

impossível de ouvir. Schoenberg chamou sua rejeição da tonalidade de “a


emancipação da dissonância” e a maioria do público a considera angustiantemente
dissonante. Esta não é uma música que convida você a assobiar ou bater os pés.
Não tem linha melódica, nem progressões de acordes reconhecíveis, nem frases
repetidas que o ouvinte possa reconhecer e então “acompanhar” a música. Quando
um compositor começa com uma série aleatória de sons, não importa o quanto
ele a manipule matematicamente, o resultado ainda soa aleatório.
Os defensores do serialismo insistiram que a música não era aleatória, mas tinha uma ordem—uma

que é detectável não pelo ouvido, mas pelo olho. Ou seja, você pode ver as
relações matemáticas elaboradas no papel. Mas esse é precisamente o
problema, dizem os críticos. O serialismo era muito cerebral. Não tratava a
música como um fenômeno auditivo, mas como uma construção matemática.
Era “intelectual de cima a baixo”, escreve Begbie. “Se a música era agradável de
ouvir ou fácil de tocar era secundário; o que importava acima de tudo era a
adesão a esquemas derivados intelectualmente.”
Os serialistas tentaram aumentar sua credibilidade imitando o jargão científico e matemático.

Em vez de falar de acordes, eles falavam de “densidades”, “conjuntos” e “classes”. Eles compuseram
em “laboratórios” musicais e adotaram títulos com som científico como Configurações e Estruturas.

Eles até se vestiam como cientistas, usando óculos pretos grossos e camisas
de botão com
Comocanetas no bolso.
um crítico musical do New York Times comenta, “a música de doze tons e o serialismo foram
66
tratados como disciplinas científicas por compositores que trabalham em universidades.” E se isso rendeu

música desagradável de ouvir, bem, esse era o preço a pagar pelo respeito
intelectual em uma era científica. Em um artigo influente, Babbitt comparou
compositores a físicos teóricos cujo trabalho é igualmente ininteligível para
o público. O artigo foi intitulado “Quem se importa se você ouve?”
132 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Em resumo, os compositores serialistas abandonaram a estética — como a música soa — em favor de


impor um esquema racionalista. Como Bayles escreve, o serialismo se tornou “um exercício estéril e hipermatemático
67
exercício” que é “mal adequado ao ouvido humano”. Mais uma vez, a visão de mundo por trás da música era

mais importante que a própria música. Uma adoração equivocada do racionalismo supera o ideal de
beleza.
Boulez disse que o objetivo de sua abordagem matemática era escrever música de uma forma que “elimi-
68
na a invenção pessoal”. O uso do cálculo matemático para predeterminar todo o processo musi-
cal não deixou espaço para a criatividade pessoal. Sabendo ou não, ele estava expressando a lógica
consequências de uma visão de mundo racionalista que começa com forças materiais cegas. Logicamente, uma causa

deve ser adequada para explicar seu efeito. Qualquer visão de mundo que postule um ponto de partida não pessoal

não tem os recursos intelectuais para explicar agentes pessoais, como seres humanos. E
portanto, inevitavelmente, acaba denegrindo a pessoa e esmagando a criatividade pessoal.

Busca pela Infalibilidade Secular


Para concluir o capítulo, vamos avaliar as duas principais visões de mundo do Iluminismo que temos

abordado até agora — empirismo e racionalismo. Aplicando a linguagem bíblica, podemos


dizer que uma visão de mundo é um ídolo mental. Um ídolo é um falso deus, um conceito
equivocado do divino. Não precisa ser religioso no sentido tradicional ou envolver
cerimônias formais de adoração. As visões de mundo seculares podem desempenhar
exatamente o mesmo papel na vida de uma pessoa que a religião tradicional.
A Bíblia define idolatria como a tendência humana de elevar algo na criação ao
status de Deus. Em Romanos 1:25, o apóstolo Paulo escreve: “Eles trocaram a verdade sobre
Deus por uma mentira e adoraram e serviram a criatura em vez do Criador.” Os humanos são
inerentemente religiosos e, quando negam o Criador, se apegam a algo dentro da criação e
elevam
a um objeto de adoração. Na vida prática, as pessoas que rejeitam a Deus buscarão
alguma satisfação emocional substituta: poder, lucro ou prazer. Na vida intelectual, eles
buscarão algum substituto para desempenhar o papel do divino em seu pensamento —
a realidade última, a fonte de tudo o mais. As visões de mundo são ídolos do coração
(Ez. 14:3).
Uma das principais tarefas da análise da visão de mundo é desmascarar esses ídolos e desmascarar suas alegações. Como

Timothy Keller escreve: “Toda personalidade humana, comunidade, forma de pensamento e


cultura será baseada em alguma preocupação última ou alguma lealdade última — a Deus ou a
algum substituto de Deus. . . . A melhor maneira de analisar as culturas é identificando seus
ídolos corporativos.”
Os ídolos seculares modernos surgiram quando dúvidas foram levantadas sobre a própria natureza da verdade. Começou

com a Reforma, que desencadeou um século de guerra religiosa. Os países foram


dilacerados quando os cristãos literalmente derramaram o sangue uns dos outros em
desacordos sobre a verdade religiosa. Então veio o Renascimento, estimulado pela
redescoberta de textos clássicos — Platão, Aristóteles, Demócrito, Epicuro. E todos eles
discordavam uns dos outros também. Assim, o amanhecer da era moderna foi
Beleza nos Olhos da Máquina 133

um período de conflito intelectual desconcertante. A questão urgente do dia era: Como podemos
ter certeza de qual dessas alegações de verdade concorrentes é realmente verdadeira?

Os pensadores do Iluminismo encontraram uma estratégia que eles pensaram que cortaria o intelecto-

caos intelectual. Eles procuraram uma fonte de verdade mais fundamental do que todas as
alegações e contra-alegações conflitantes. Teria que ser uma verdade mais imediata e mais
diretamente acessível do que qualquer coisa oferecida pelas teologias e filosofias
concorrentes. Isso significava que tinha que ser uma verdade localizada dentro do indivíduo
— não em nenhuma das instituições cívicas que estavam engajadas em conflitos armados
guerra uns contra os outros, não em nenhuma das autoridades teológicas que estavam denunciando uns
outro, não em nenhum dos livros sagrados ou textos antigos que estavam competindo por aceitação. Não

em nenhuma fonte externa. A esperança do Iluminismo era encontrar um método que pudesse
ser usado por cada indivíduo para descobrir o conhecimento estritamente por conta própria.

Quais métodos atenderam a essas qualificações? As duas principais abordagens filosóficas que

surgiram foram o empirismo e o racionalismo. Os livros de filosofia frequentemente


discutem a rivalidade entre eles. Mas eu quero enfatizar o que os tornou semelhantes.
Apesar de suas diferenças, eles eram irmãos de sangue por baixo da pele. Ambos
foram tentativas de fundamentar o conhecimento humano em bases seguras,
separadas da revelação divina. Ambos procuraram substituir a revelação por alguma
outra fonte de conhecimento que fosse igualmente certa e igualmente universal.
Ambos estavam procurando por infalibilidade dentro da consciência individual.
Eles apenas discordaram sobre qual era essa fonte.
Os empiristas fizeram um ídolo dos sentidos. Os dados brutos dos sentidos seriam a fonte de absolutamente

conhecimento confiável. Francis Bacon entrou para a história como o originador do empirismo
moderno. A busca pelo conhecimento, disse ele, deve “começar de novo desde o próprio alicerce”.
Nós

devemos limpar tudo o que pensamos que sabemos, remover todas as


inferências e interpretações e chegar à base do conhecimento. Para Bacon,
essa base consistia em meras impressões sensoriais. Eles eram o caminho para
o conhecimento em sua forma mais simples, mais direta—e, portanto, infalível.
Os racionalistas tomaram um rumo diferente. Eles decretaram que o conhecimento deve ser fundamentado no que

podemos saber diretamente e unicamente pela razão. Pense em Descartes com seu
famoso “Penso, logo existo”. Ele propôs um método de dúvida sistemática (dúvida
cartesiana) para despojar sua mente de toda ideia confusa, obscura ou mal concebida.
Eventualmente, ele esperava cavar fundo o suficiente para alcançar uma verdade tão
clara e certa que não pudesse ser duvidada.
E qual era essa certeza fundamental? O que Descartes não podia duvidar era, bem, seu próprio

processo mental de duvidar. Mesmo que todas as minhas ideias sejam ilusões,
disse ele, ainda existe um “Eu” que está experimentando essas ilusões. Ele concluiu
que se pode duvidar do mundo dos objetos físicos, mas não se pode duvidar da
existência de si mesmo. Esse é o conhecimento mais certo e imediato possível.
Sobre esta base infalível, Descartes esperava começar do zero e reconstruir todo o
edifício do conhecimento.
134 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Surpreendentemente, nem Bacon nem Descartes eram pensadores seculares. Ambos expressaram pelo menos algum

nível de compromisso cristão. No entanto, as filosofias que propuseram acabaram contribuindo para
a secularização do pensamento ocidental. Tanto o empirismo quanto o racionalismo implicavam que o caminho

para a verdade era começar do zero novamente—rejeitar todos os ensinamentos, todas as tradições, todas as verdades recebidas,

todas as alegações de revelação como a Bíblia, e começar de novo. Este é o cerne do projeto modernista,
seja qual for a forma que assuma: a ideia de que, se você remover detritos culturais suficientes como
leis e costumes e tradições—qualquer coisa sobre a qual os humanos possam estar errados ou enganados—você

finalmente alcançaria algo sobre o qual você não pode estar errado ou enganado. Algo que você não pode

duvidar ou debater. Por que não? Porque não é conhecido por inferência ou raciocínio discursivo, mas por

introspecção nos dados imediatos da consciência. Seria indiscutível, imune a


quaisquer críticas ou desafios externos. Como a fundação de uma casa, forneceria uma base sólida,
fundação infalível para construir o edifício do conhecimento.
Em outras palavras, funcionaria como um substituto para a revelação divina, fornecendo a mesma
certeza e universalidade. É por isso que o filósofo Karl Popper fala do “caráter religioso
das epistemologias [do Iluminismo]”. O empirismo baconiano apelava para “a autoridade dos
sentidos”, explica ele, enquanto o racionalismo cartesiano apelava para “a autoridade do intelecto .”73Mas
o objetivo deles era o mesmo: substituir a revelação divina por uma autoridade alternativa.

Na mesma linha, Randall diz que os pensadores do Iluminismo ansiavam por um absoluto
tipo de conhecimento alcançável na realidade apenas pela revelação divina. “Eles estavam tentando chegar a

essa compreensão e explicação completa e perfeita do universo que apenas um Deus poderia
possuir”, escreve ele. “Seu ideal ainda era um sistema de revelação, embora tivessem abandonado o
74
método de revelação.” Ou seja, eles rejeitaram o conceito de revelação divina, mas estavam
ainda buscando o tipo de verdade que apenas a revelação de um Criador vivo pode fornecer. O objetivo deles

era encontrar um método pelo qual cada indivíduo pudesse transcender seu nicho limitado no tempo
e espaço para alcançar uma visão da realidade “do ponto de vista de Deus”. Em suma, eles estavam buscando um substituto para Deus.

Substitutos de Deus
Isso explica por que o secularismo não é neutro, embora muitas vezes afirme ser. Em relação ao
Deus bíblico, os secularistas podem ser céticos. Mas em relação aos seus próprios substitutos
deuses, eles são verdadeiros crentes. Para adaptar uma observação de C. S. Lewis, seu ceticismo
está apenas na superfície. É para uso nas crenças de outras pessoas. “Eles não são nem de longe
céticos o suficiente” sobre suas próprias crenças.

E quando impõem visões seculares no domínio da lei, educação, sexualidade e cuidados de


saúde, estão a impor as suas próprias crenças a todos os outros em toda uma sociedade.
A consequência dessas visões seculares é inevitavelmente desumanizante. A razão é que o secu-

larismo em todas as suas formas é reducionista. Uma visão de mundo que não começa com Deus deve
começar com algo menos que Deus—algo dentro da criação—que então se torna a categoria para

explicar toda a realidade. Pense de volta na metáfora da caixa de Walker Percy. O empirismo coloca tudo
A beleza nos olhos da máquina 135

na caixa dos sentidos. O racionalismo coloca tudo na caixa da razão humana.


Qualquer coisa que não caiba na caixa é negada, denegrida ou declarada irreal. O
mundo diverso e multifacetado que Deus criou é reduzido a uma única categoria.
Os humanos também são enfiados na caixa. Assim, todo ídolo é, em última análise, desumanizador, deixando

uma destruição de dor e alienação em seu rastro.


A melhor maneira de combater os ídolos seculares é oferecendo algo melhor. Para combater o secular

empirismo, existe o que poderíamos chamar de um empirismo cristão que afirma o valor
do mundo sensorial sem reduzir a realidade ao que o olho humano vê. Não nega o invis-

ível reino da verdade, bondade, beleza e amor. E para combater o racionalismo secular, existe
um racionalismo cristão que afirma o valor da racionalidade sem reduzir a verdade a ideias que

se originam dentro da razão humana finita e caída. Uma cosmovisão baseada na Bíblia é capaz
de afirmar as melhores percepções das filosofias seculares sem nunca cair no reducionismo. Isso
porque não começa com nada na criação, mas com o Criador transcendente. Não deifica
nenhuma
parte da criação — e, portanto, não é compelido a negar as outras partes da criação. Reconhece e se alegra com a vasta diversidade e complexidade da realidade criada.

reconhece e se alegra com a vasta diversidade e complexidade da realidade criada.

Esta é genuinamente uma boa notícia. Uma cosmovisão bíblica nos liberta dos confins apertados

de qualquer esquema reducionista, libertando-nos para desfrutar da riqueza e beleza da criação de Deus. Devemos
nos recusar a permitir que boas palavras como empírico e racional sejam tomadas por cosmovisões seculares.

Em vez disso, devemos trabalhar para preencher esses termos com conteúdo bíblico equilibrado.

Música de Campo de Concentração


Da mesma forma, os artistas cristãos devem se recusar a permitir

que os estilos artísticos sejam definidos por teorias de arte


seculares. Os mesmos elementos estilísticos podem ser
usados no contexto de uma visão bíblica mais rica e humana.

Considere apenas um exemplo: música atonal. Um dos professores de Boulez

foi o compositor atonal francês Olivier Messiaen. Durante a


Segunda Guerra Mundial, Messiaen foi internado em um
campo de prisioneiros alemão. Entre seus companheiros de
prisão, ele encontrou um clarinetista, um violinista, um
violoncelista e um pianista, então ele compôs uma peça para
essa combinação incomum de instrumentos. Intitulado 5-31 Olivier Messiaen
Quarteto para o Quarteto para o Fim dos Tempos, 1941
Modernismo Cristão
Fim dos Tempos, foi apresentado pela primeira vez no campo de prisioneiros

Stalag VII para um público de quatrocentos companheiros de prisão maltrapilhos.

Messiaen era um católico devoto que nunca se furtou a deixar suas convicções claras.

No início da partitura, ele escreveu uma inscrição do livro de Apocalipse: “Em homenagem
ao Anjo do Apocalipse, que levanta a mão para o céu, dizendo: 'Não haverá mais tempo'.” A
peça foi uma afirmação de que, não importa o quão poderoso o regime nazista parecesse
136 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

para ser, seu tempo terminaria. Dois dos movimentos do quarteto, “Louvor à Eternidade de Jesus” e
“Louvor à Imortalidade de Jesus”, transmitem uma serenidade etérea. Acima de uma passagem (onde o

compositor geralmente instrui o músico a tocar rápido ou lento), Messiaen escreveu para tocar com amor.

O poder desta peça, diz um crítico musical, vem do fato de que foi escrita enquanto
vivia sob a desumanidade do regime nazista. “Diante do ódio, este homem
honestamente cristão não perguntou: 'Por que, ó Senhor?' Ele disse: 'Eu te amo'.”
O Quarteto é definitivamente uma obra do século XX. Messiaen eliminou qualquer batida constante
ao longo da peça. (Ele já tinha ouvido o suficiente da marcha constante das botas.) Em vez disso, o
ritmo se expande e se contrai de uma maneira fluida que contribui para uma sensação de transcendência.
Messiaen combinou elementos tonais e atonais de uma forma que o tornou um alvo de todos os lados. O
vanguardismo de meados do século o criticou por ser doce e sentimental demais, enquanto o público ouvinte mais tra-

dicional o achava austero e discordante demais. Hoje, muitos compositores veem


Messiaen como um modelo de como fundir o melhor do modernismo com o melhor da tradição. Em vez de
confinar a música atonal a uma estrutura cartesiana reducionista como Boulez fez, Messiaen encontrou
maneiras de usá-la para expressar a beleza do mundo criado por Deus.
No próximo capítulo, ousamos questionar outros ídolos no panteão do pensamento moderno, como
continuamos rastreando as visões de mundo do Iluminismo no andar inferior. Nosso próximo ídolo é certamente um dos

os mais influentes na era moderna. É hora de abordar o impacto do darwinismo.


Capítulo 6

“Você pode aprender mais sobre uma nação com

a leitura dos romances de ontem do que os jornais de hoje.”

—James H. Billington

Arte Vermelha em Dentes e Garras


(A Herança do Iluminismo)

Todos os homens devem morrer. . . .

Era a lei de toda carne. A natureza não era gentil com a carne. Ela não tinha nenhuma preocupação com a

coisa concreta chamada indivíduo. Seu interesse estava na espécie, na raça. . . . A natureza não
se
importava.

Era o mesmo em todos os lugares, com todas as coisas. Ele se lembrou de como havia abandonado seu próprio

pai em um trecho superior do Klondike um inverno . . . .


Koskoosh colocou outro pedaço de lenha no fogo e recuou mais profundamente no passado. Ele se lem-

brou, quando menino, durante um tempo de fartura, quando viu um alce derrubado pelos lobos. . . .
—o velho alce touro—os flancos rasgados e os lados ensanguentados, a juba crivada e os grandes galhos

chifres, baixos e balançando até o fim. Ele viu as formas brilhantes de cinza, os olhos brilhantes,
as línguas pendentes, as presas babadas. E ele viu o círculo inexorável se fechar até se tornar um
ponto escuro no meio da neve pisada. . . .
Ouçam! O que foi isso? Um calafrio passou pelo seu corpo. O uivo familiar e prolongado quebrou o
vazio, e estava perto. Sua mão disparou para o fogo e arrastou uma acha em chamas. Um
anel de cinza agachado e babado de mandíbula estava esticado ao redor. O velho ouviu o
desenho neste círculo.

137
138 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Por que ele deveria se apegar à vida? ele perguntou, e deixou cair o pedaço de pau em chamas na neve. Ele chiou

e se apagou. Novamente ele viu a última resistência do velho alce, e Koskoosh deixou sua cabeça
cansadamente sobre seus joelhos. O que importava, afinal? Não era a lei da vida?
—Jack London, “A Lei da Vida”, 1901

O Deus de Jack London


Com seu queixo quadrado e cabelo escuro e despenteado, Jack London era a imagem perfeita do rústico

homem do ar livre. Era uma imagem que ele cultivava habilmente para impulsionar as vendas de
livros. Como resultado, ele se tornou o representante mais conhecido do Naturalismo Literário,
um movimento que desenvolveu na ficção os princípios do naturalismo filosófico. Seus romances
e peças retratavam os humanos

como organismos biológicos sem liberdade real, determinados por sua


herança genética e ambiente social.
Quando jovem, London trabalhou como marinheiro, pirata, vagabundo e garimpeiro na corrida do ouro do Alasca

—experiências difíceis e exigentes que o prepararam para ter uma visão darwinista
do mundo. Em grande parte autodidata, London adquiriu sua educação devorando
livros na biblioteca pública. Lá ele encontrou as obras de Herbert Spencer, um
filósofo britânico que foi o divulgador mais influente da evolução na América do
século XIX. Imediatamente, o jovem escritor passou pelo que um historiador chama
de “uma experiência de conversão”. Em Spencer, ele encontrou a evolução
projetada em uma tela grande, aplicada não apenas à biologia, mas também à
sociologia, arte, literatura, comércio—a evolução expandida para uma visão de
mundo completa. Foi Spencer quem cunhou a frase “sobrevivência do mais apto”
(Charles Darwin a emprestou dele). E ele viu o processo em ação em todos os
lugares, não apenas na natureza, mas também na sociedade humana. Spencer,
mais do que qualquer outra pessoa no século 19, trouxe a evolução para a América.
E London, mais do que qualquer outra pessoa, integrou uma visão de mundo evolucionária à ficção americana.

Através de Spencer, ele descobriu Darwin, cujas obras ele leu tão profundamente que
conseguia citar passagens inteiras de cor. Ele abraçou outros pensadores materialistas
também, como Karl Marx e Friedrich Nietzsche. No entanto, foi Spencer quem
permaneceu seu “deus”, a divindade a quem “ele permaneceria fiel pelo resto de sua
vida”.
A maneira como ele serviu seu deus foi escrevendo histórias expressando o mundo evolucionário de Spencer

visão. Em “A Lei da Vida”, Koskoosh é um velho esquimó, abandonado pela


tribo e deixado para morrer na neve que cai. Fraco, cego e esperando pelos
lobos que inevitavelmente o devorarão, ele se reconcilia com seu destino,
ponderando que, no esquema evolucionário das coisas, o indivíduo realmente
não importa. A natureza atribui ao organismo apenas uma tarefa: reproduzir
para que a espécie sobreviva. Depois disso, se ele morrer, “o que importava,
afinal? Não era a lei da vida?” A história reforça o tema naturalista de que os
humanos não têm um propósito maior além da mera existência biológica.
Art Red in Tooth and Claw 139

Naturalism may be the most prominent Enlightenment worldview in our own day. One
philosopher considers it the “deepest and most decisive” division separating Analytic from
Continental philosophy.3 In this chapter we will continue our analysis of the Analytic tradi-
tion (the lower story). After an excursion into Darwinism and naturalism, we will pick up the
threads from the previous chapter and show how they were woven together to form the fabric of
twentieth-century Analytic thought. Then in the following chapter, we turn to the rival tradition
of worldviews that stem from Romanticism (the upper story) or the Continental tradition.

Scarlett Johansson on Evolution


These two rival traditions—two paths to secularism—run along parallel tracks, most of the
time antagonistic to one another. By the end of the nineteenth century, when Literary Naturalism
arose, Romanticism had degenerated into a faded, moralistic, sugar-and-spice Victorian senti-
mentalism. In literature it was referred to as the “genteel tradition.”4 It proved an easy target for
the Naturalists, who claimed to be introducing a more robust and realistic approach to literature.
Naturalism is in fact an outgrowth of Realism—but grittier, harsher, more pessimistic. It por-
trayed humans as nothing but biological organisms, products of evolutionary forces.
The Literary Naturalists were highly effective in communicating an evolutionary worldview to
the general public. In our own day, that worldview has filtered down through all levels of society.
In 2005 the London Zoo offered a provocative exhibit with a sign that read: “Warning: Humans
in their Natural Environment.” The exhibit featured men and women dressed in bathing suits with
green fig leaves attached. The humans cavorted, posed on the rocks, and pretended to groom like
baboons, picking parasites out of one another’s hair. Several children were heard asking, “Why are
there people in there?’’ That’s exactly the question the zoo was hoping to spark, a spokeswoman
replied: “Seeing people in a different environment, among other animals . . . teaches members of
the public that the human is just another primate.”5
What are the implications of seeing humans as “just another primate”? Even Hollywood
actresses know the answer to that question. In an interview, Scarlett Johansson was once asked
to respond to rumors that she had a reputation for being sexually promiscuous. Her reply was
unfiltered naturalism: Humans are merely biological organisms and therefore the practice of
monogamy—being sexually faithful to one person—is just not natural. “I do think on some
basic level we are animals,” Johansson said, “and by instinct we kind of breed accordingly.”6
Actress Sienna Miller was more caustic. “Monogamy is . . . an overrated virtue,” she told
Rolling Stone, “because, let’s face it, we’re f-—animals.” Obviously, Darwinian evolution is not
just a scientific theory. It has worldview implications that percolate from classic literature down
to Hollywood and into our living rooms.
140 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Aristóteles Ganha um Prêmio Nobel


Como os conceitos darwinianos passaram a prevalecer — primeiro na biologia e depois na literatura, arte,

e cultura popular? Antes da época de Darwin, as teorias mecanicistas haviam se tornado


comuns em campos como física e química. Mas eles não funcionaram bem em biologia. Os
seres vivos eram muito complexos para serem explicados por processos materiais cegos.

Mais importante, as estruturas vivas exibem uma intencionalidade (teleologia) que não tem lugar
em relatos mecanicistas. Por exemplo, se eu desse um relato detalhado de todos os
componentes físicos de um olho — lente, íris, bastonetes, cones — isso diria o que é um olho?
Claramente não. O que define um olho não são seus componentes físicos, mas seu objetivo ou
propósito. É um órgão para ver.
A este respeito, os seres vivos não se assemelham às coisas estudadas pela física e química—

rochas e moléculas — tanto quanto se assemelham a artefatos humanos. Se você


tivesse projetado uma ferramenta ou gadget e quisesse explicar o que era, você
falaria sobre o que ele faz, seu propósito. Imagine que alienígenas espaciais
aterrissam na Terra e encontrem um computador. Eles o analisam exaustivamente
em termos dos materiais que o compõem. Eles descobrem que é uma coleção de
fios e chips de silício interagindo pelas leis do eletromagnetismo e da mecânica.
Quando os alienígenas terminarem sua análise, eles descobriram o que é o
computador? De jeito nenhum. A análise físico-química mais abrangente não
revelará o propósito para o qual um computador foi feito — para realizar cálculos,
manter registros, jogar, verificar e-mail e assim por diante. O que define um
artefato humano é seu objetivo ou propósito.
No alvorecer da cultura ocidental, Aristóteles já havia intuído que os processos biológicos são
dirigido por um objetivo ou teleologia embutido. Antecipando a genética moderna,
ele observou que o desenvolvimento de organismos vivos deve ser dirigido por
algum programa interno para garantir que os pintinhos cresçam em galinhas, não
cavalos, e que os girinos se tornem sapos, não cães. Hoje, os biólogos creditam a
Aristóteles por estar certo em princípio, senão em detalhes. O zoólogo Ernst Mayr
escreve que a descoberta do DNA revela que Aristóteles estava correto ao manter
“que algo mais do que as leis da física era necessário” para explicar os seres vivos. O
que era necessário era um princípio teleológico, que os biólogos modernos chamam
de código genético: “O projeto de desenvolvimento e atividade — o programa
genético — representa o princípio formativo que Aristóteles havia postulado.”
O geneticista Max Delbrück até sugere brincando que Aristóteles deveria receber um póstumo

Prêmio Nobel por descobrir o DNA. O conceito aristotélico de um princípio teleológico,


diz ele, era notavelmente semelhante ao conceito moderno de um programa genético
— um “plano pré-imposto” que governa o desenvolvimento do embrião ao adulto.

Nenhum Deus das Lacunas


A ideia de um plano ou propósito que governa os seres vivos claramente se coaduna com um mundo bíblico-

visão. De fato, a maioria dos fundadores da biologia moderna eram cristãos, muitas vezes clérigos.
“Nos séculos XVIII e início do século XIX”, diz Mayr, o estudo da biologia “era quase completamente
Arte Vermelha em Dentes e Garras 141

nas mãos de amadores, particularmente padres do interior.” A evidência óbvia de design até
inspirou uma forma de apologética conhecida como teologia natural (como vimos no capítulo 5).
O argumento era assim: Os processos naturais atuando por conta própria são cegos. Eles não
podem prever as estruturas

que um organismo precisará e projetá-las de acordo. Portanto, as estruturas vivas devem ser as
“artimanhas sábias” de um Criador inteligente. O título de um livro do botânico John Ray em 1722
resume o tema da teologia natural: A Sabedoria de Deus Manifestada nas Obras da Criação. O

maravilhoso “ajuste” entre um organismo e seu ambiente foi tomado como evidência de
design proposital. Deus dotou os pássaros com asas para voar, os peixes com
barbatanas para nadar e as flores com cores brilhantes para atrair insetos polinizadores.

Note que a teologia natural não era um argumento de Deus das lacunas. Os críticos às vezes acusam

os cristãos de arrastar Deus para a ciência apenas para preencher lacunas no


conhecimento científico. A acusação é que, em vez de procurar uma explicação, os
cristãos simplesmente jogam as mãos para o alto e dizem: Deus fez isso—como os
antigos gregos que explicavam as tempestades dizendo que Zeus estava lançando raios
na terra. Mas isso é uma caricatura. A teologia natural não se baseia no que não
sabemos. Ela se baseia no que sabemos sobre os seres vivos. Os processos da vida são direcionados a um objetivo. Mas

as forças físico-químicas são não direcionadas—cegas e automáticas.


Portanto, elas não são adequadas para explicar a origem da vida.
Como o argumento do design é baseado no conhecimento, não na ignorância, ele realmente ficou
mais forte à medida que a ciência avançava. Quanto mais os cientistas descobriam sobre os processos direcionados a um objetivo em

seres vivos, mais implausível parecia que a vida pudesse surgir por causas materiais não direcionadas.

Por dois séculos, entre aproximadamente 1650 e 1850, a teologia natural foi
enormemente popular, inspirando a maior parte do trabalho de campo realizado
em biologia durante esse período. “É difícil para a pessoa moderna apreciar a
unidade da ciência e da religião cristã que existia”, escreve Mayr. “O dogma cristão
do criacionismo e o argumento do design proveniente da teologia natural
dominaram o pensamento biológico por séculos.”

Materialismo Sem Sentido


Contra este pano de fundo, podemos entender por que a teoria da seleção natural de Darwin em 1859 invocou uma tempestade de controvérsia.

A ideia da evolução em si não era tão revolucionária. Várias versões da evolução já


haviam sido propostas muito antes de Darwin (como veremos no capítulo 7). Mas
essas versões anteriores presumiam um Deus ou Mente por trás do processo
evolutivo, dirigindo-o providencialmente de acordo com algum objetivo, plano,
propósito ou design. A razão pela qual a teoria de Darwin foi tão controversa foi que
ele negou qualquer conceito de design. Como explica o biólogo Jerry Coyne, as ideias
de Darwin “implicam que, longe de ter um papel divinamente roteirizado no drama da
vida, nossa espécie é o resultado acidental e contingente de um processo puramente
natural”. Uma biografia de Darwin coloca desta forma: “Onde a maioria dos homens e
mulheres geralmente acreditava em algum tipo de design na natureza—algum tipo
de plano e ordem—e sentia um profundo e, em sua maioria, inexprimível
142 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

crença de que sua existência tinha significado, Darwin queria que eles
vissem toda a vida como vazia de qualquer propósito divino.”
O cerne da controvérsia da evolução pode, portanto, ser expresso em termos simples: a mente criou

matéria? Ou a matéria deu origem à mente? De acordo com uma visão teísta de mundo,
a mente é primária. É a força criativa fundamental no universo (se Deus criou o mundo
rapidamente por decreto ou lentamente por um processo gradual). Darwin inverteu as
coisas. De acordo com sua teoria, a matéria é a força criativa primária, e a mente surgiu
apenas muito tarde na história evolutiva.
Para ser mais preciso, a mente não existe. Apenas o cérebro existe. Nossos pensamentos são meramente

os subprodutos de neurônios disparando no cérebro, impulsionados em última análise


pela necessidade de sobrevivência. Nas palavras do paleontólogo de Harvard Stephen J.
Gould, “Darwin aplicou uma filosofia consistente de materialismo à sua interpretação da
natureza”, na qual “mente, espírito e Deus também são apenas palavras que expressam
os resultados maravilhosos da complexidade neuronal.” Isto é, eles são meramente con-

ceitos que aparecem na mente humana quando o circuito elétrico do


cérebro evoluiu para um certo nível de complexidade.
O problema com essa visão é que ela se prejudica. Se as ideias são meramente os “resultados da
complexidade neuronal”, então isso se aplica a todas as ideias—incluindo a ideia do próprio materialismo.

Também é o subproduto de neurônios disparando no cérebro. Nesse caso,


por que deveríamos dar-lhe qualquer crédito?
Materialistas gostam de destacar visões com as quais discordam e desacreditá-las aplicando relatos evolutivos de sua origem.

Mas no processo, eles estão cortando o galho em que estão sentados. Para ser logicamente
consistente, eles devem aplicar os mesmos relatos evolutivos às suas próprias visões—o que
torna suas visões tão sem sentido quanto aquelas que estão tentando desacreditar. Para

usar uma metáfora de Greg Koukl, o materialismo comete suicídio. Quando


pego no laço de suas próprias categorias, ele se autodestrói.
A única maneira de os materialistas evitarem o suicídio é ser logicamente em consistente e isentar

a si mesmos de suas próprias categorias de análise. Como diz um filósofo, o


materialista deve funcionar como se fosse um “observador angelical” que é de alguma
forma capaz de flutuar acima da gaiola determinista
Sempre que em
umaque ele tranca
filosofia todos
tem que os outros.
se isentar de
suas próprias categorias de explicação, esse é um sinal claro de que ela é logicamente falha.

Explodindo a Religião em Pedaços


Apesar de suas falhas, o materialismo evolucionário se tornou o dogma líder na biologia—e em todo
o pensamento moderno. Para citar um livro didático universitário amplamente utilizado, “A
teoria da evolução de Darwin foi uma tábua crucial na plataforma do mecanicismo e do
materialismo”, que “desde então tem sido o palco da maior parte do pensamento ocidental”,
incluindo as artes e as humanidades.
Os Naturalistas Literários usaram a ficção para retratar a sociedade como um produto da evolução, sujeito

à lei do dente e da garra. Eles se propuseram a arrancar a fachada da sociedade respeitável e


Arte Vermelha em Dentes e Garras 143

revelar a natureza animal no coração da natureza humana—a “fera interior”. Por


exemplo, Honoré de Balzac tratou o romance como uma “zoologia” de tipos humanos
formados pela adaptação aos seus habitats. Seu objetivo era destruir a hipocrisia da
sociedade educada para mostrar o egoísmo, a paixão e a violência que espreitam por
baixo.
Se os humanos são meras bestas, então eles não têm liberdade real, mas são determinados por sua bio-

herança lógica e condicionamento cultural. O poeta Edgar Lee Masters em Spoon River Anthology
(1916) retratou os humanos como ratos presos em uma armadilha, lutando inutilmente contra os fios da
gaiola. O credo dos naturalistas é frequentemente resumido com uma frase de An American Tragedy (1925)

de Theodore Dreiser: “Todos nós somos mais ou menos peões. Somos movidos
como peças de xadrez por circunstâncias sobre as quais não temos controle.”
A odisseia pessoal de Dreiser seguiu a mesma trajetória de London. Ele também passou por um
rito de passagem naturalista ao ler Spencer e Darwin. Como ele lembrou mais tarde,
Spencer o explodiu “intelectualmente em pedaços”, destruindo os últimos vestígios de
sua educação católica. Ele concluiu que todos os “ideais, lutas, privações, tristezas e
alegrias” humanas nada mais eram do que produtos de reações químicas no cérebro.
“Compulsões químicas”, como ele as chamava.

NATURALISMO FILOSÓFICO
NATURALISMO LITERÁRIO

6-1 Humanos à mercê das forças evolutivas

Da mesma forma, Frank Norris retratou os humanos como animais sob uma fina

camada de civilização—brutos sob a pele. Em The Octopus (1901), a natureza é virtualmente uma

divindade substituta, e uma cruel. “A natureza era, então, um motor gigantesco, um vasto poder ciclópico,
enorme, terrível, um leviatã com um coração de aço, sem conhecer nenhum remorso, nenhum perdoar-
mento, nenhuma tolerância; esmagando o átomo humano que está em seu caminho.” No final do romance,

o personagem principal obtém uma breve visão da “explicação da existência”. Ele percebe que
“os homens não eram nada”, que “só existia FORÇA—FORÇA que trouxe os homens ao mundo,
FORÇA que os expulsou dele . . . FORÇA que fez o trigo crescer, FORÇA que
144 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

colheu-o do solo.” Os naturalistas retrataram a natureza como imensa, poderosa, implacável,


indiferente. Suas forças ofuscam completamente os esforços insignificantes dos seres humanos.

A Zoologia de Zola
Como outros artistas de nível inferior, os escritores naturalistas seguiram o exemplo da ciência. Eles conceberam o romance ou a peça como uma espécie de laboratório. “A ascensão da visão de mundo
científica levou à ideia de que o palco... deveria se tornar como um instrumento de investigação científica sobre o comportamento humano”, escreve um crítico de teatro. Seria “um laboratório no qual as leis
que regem a interação dos seres humanos e das classes sociais poderiam ser estudadas”.

Os naturalistas até almejaram


um tom adequado para investigação científica — distante, clínico
e, acima de tudo, livre de valores. Os eventos deveriam ser
apresentados sem comentários morais.

Em Madame Bovary, de Gustave Flaubert, e sofre uma gradual deterioração do caráter até cometer suicídio. No entanto, o processo é retratado com
distanciamento clínico — sem simpatia, sem redenção, sem moral para a história. Quando Flaubert foi acusado de
obscenidade, seu advogado o defendeu argumentando que as cenas do livro exibem a mesma fidelidade aos fatos
a personagem principal se envolve em vários casos que uma câmera. Mas esse era precisamente o problema. Os eventos foram descritos fotograficamente, sem
comentários morais. Flaubert escreveu certa vez que a arte deveria buscar “a exatidão das ciências físicas”. Ele trata
seus personagens como espécimes um tanto repulsivos que ele pega com pinças para examinar.

Os leitores de hoje ficam perplexos


com a acusação de obscenidade, dado
que o livro não contém
descrições sexuais explícitas. Mas os leitores do século XIX eram muito mais sensíveis à mudança na visão de mundo. Eles ficaram horrorizados com a visão de mundo naturalista do
romance — sua recusa em aplicar qualquer tipo de perspectiva transcendente ou princípio moral — que eles reconheceram como reducionista e desumanizante.

Os naturalistas literários podem ter


afirmado ser científicos e objetivos, mas eles não estavam simplesmente observando a experiência humana. Eles estavam impondo uma estrutura filosófica preconcebida que reduzia os
humanos a organismos biológicos na luta darwiniana pela existência.
Arte Vermelha em Dentes e Garras 145

Literatura como Laboratório

Gustave Flaubert Emile Zola


Madame Bovary, 1863 Thérèse Raquin, 1867

6-2 “Animais Humanos, Nada Mais”

O teórico mais conhecido do Naturalismo foi Emile Zola. Ele não gostava da maneira como os Realistas anteriores

(como Charles Dickens) haviam adornado suas histórias com temas morais. Na visão de Zola, o romancista
deveria ser um observador amoral — “um registrador que está proibido de julgar”. Como um cientista, o roma-

ncista simplesmente estabelece as condições de laboratório e, em seguida, relata os resultados: “experimento tentado em tais e

tais condições dá tais e tais resultados”. O objetivo era “dissecar pedaço por pedaço esta máquina humana
20
” até que o romancista seja capaz de explicar as paixões humanas pelas “leis fixas da natureza”.
Em Thérèse Raquin, de Zola, um casal se envolve em um caso adúltero sem amor, impulsionado por pura

motivação animal, então conspira para assassinar o marido da mulher. Depois, eles se destroem
psicologicamente e finalmente cometem suicídio. Quando o livro foi publicado pela primeira vez, muitos leitores

pensaram que o enredo sugeria um tema moral — crime e castigo. Indignado, Zola escreveu um
prefácio para a segunda edição, deixando claro que ele não tinha intenção de comunicar uma moral
mensagem ou lidar com temas de pecado e culpa. O que ele estava fazendo no livro era conduzir
uma análise científica da personalidade humana — dissecando a psique da mesma forma desapaixonada
que um cientista disseca um corpo. Em suas palavras, “Eu simplesmente apliquei a dois corpos vivos o analítico

método que os cirurgiões aplicam aos cadáveres.” Eu estava retratando personagens “sem livre arbítrio”, governados
21
pelas leis inexoráveis de sua natureza física. Eles “são animais humanos, nada mais”.

Por que o Ateísmo é Chato


Retratar humanos como meros animais “sem livre arbítrio” não foi totalmente fácil, no entanto. Isso
provou ser difícil desenvolver personagens críveis que não tomassem decisões, mas fossem
levados por forças sociais e biológicas — fantoches do destino. Também resultou em
personagens incrivelmente maçantes. Não pode haver desenvolvimento real do personagem se
eles são vítimas indefesas de seu ambiente.
146 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Um professor de estudos cinematográficos diz que o Naturalismo era francamente “entediante”.


Quando os escritores seguiram a prescrição de Zola de simplesmente relatar como os humanos
reagem ao ambiente, resultou na perda de uma forte linha narrativa, criando “dramas que
vagueiam e nunca chegam a uma resolução”.
Um exemplo é As Três Irmãs de Anton Chekhov.
As irmãs querem desesperadamente escapar de sua província
cidade e se mudar para Moscou. Mas, embora continuem a falar

sobre isso durante todos os quatro atos da peça, elas nunca


realmente fazem isso. Elas não conseguem se libertar da armadilha de

costumes familiares e expectativas sociais. No Naturalismo,


explica um historiador de drama, “o homem não tem liberdade do

ambiente, do qual ele é um produto e vítima indefesa


6-3 Anton Chekhov vítima.” Assim, no drama naturalista, “nunca há um
As Três Irmãs, 1901
Por que o realismo é irrealista
início ou fim decisivo, nunca um clímax ou
23
reviravolta clara, porque não se espera que o homem tome uma decisão importante.” O público muitas vezes acha essas peças

frustrantes e deprimentes.
Mais significativamente, no entanto, uma visão de mundo determinista produz personagens que não são verdadeiros

para a vida. Na realidade, as pessoas tomam decisões genuínas. Grande parte do drama da vida
humana decorre da luta com dilemas morais angustiantes. Embora o Naturalismo tenha sido um
desdobramento do Realismo, poderíamos dizer que sua maior falha foi que não era realista o
suficiente. Todos nós experimentamos o momento-

a-momento a realidade de fazer escolhas. A experiência da liberdade é atestada em


todas as culturas humanas, em todas as eras da história e em todas as partes do globo.
Quando o naturalismo declara que a liberdade é uma ilusão, ele nega essa experiência humana universal.

experiência. Mas esse não é um movimento válido no jogo da visão de mundo. Afinal, o propósito
de uma visão de mundo é explicar os dados básicos da experiência humana, não negá-los.

Mesmo a vida dos próprios romancistas não se encaixava em sua professada visão de mundo naturalista. A historiadora

Cynthia Russett observa que os Naturalistas Literários normalmente


mantinham sua vida intelectual separada de sua experiência vivida. Eles
aceitaram “o longe
Eu iria mais determinismo
e sugeriria quecomo uma
eles não teoria,
poderiam vivermas
por elanão como
porque algo àpara
é contrária se humana.
natureza viver”.
natureza.

O teste de qualquer visão de mundo é duplo: 1) É internamente logicamente consistente? 2) Ela se encaixa no

mundo real? Ou seja, pode ser aplicada e vivida de forma consistente sem fazer violência à
natureza humana? Esta segunda questão sugere uma forma bíblica de pragmatismo. Afinal, o
propósito de uma visão de mundo é explicar o mundo — fornecer um mapa mental para
navegar na realidade. Se o mapa
não funciona no mundo real, então não é um guia preciso. Assim como você testa uma teoria
científica indo ao laboratório para ver o que acontece quando você realmente mistura produtos
químicos em tubos de ensaio, assim você testa uma visão de mundo vendo o quão bem ela
funciona na vida comum.
Arte Vermelha em Dentes e Garras 147

Como os humanos são criados à imagem de Deus e vivem no mundo de Deus, em algum momento todo

ponto de vista não bíblico falhará no teste prático. Os adeptos não serão capazes de aplicá-lo de forma consis-

tente na prática - porque não se encaixa em quem eles realmente são. Em vez disso, eles se verão
vivendo como se a visão bíblica da natureza humana fosse verdadeira - porque é quem eles realmente são.
Pode-se dizer que o mapa da realidade dos naturalistas é muito “pequeno”. Ele cobre apenas parte da realidade. Como

resultado, eles não podem viver de acordo com seus ditames. Eles continuam saindo do mapa e entrando em “terra

incognita” - terreno que seu mapa não leva em conta.

Raciocínio Falho
Considere um exemplo contemporâneo. Richard Dawkins, que foi apelidado de Dawkins

Rottweiler, argumenta que, de uma perspectiva naturalista, não devemos responsabilizar


ninguém pelo que fazem. Afinal, diz ele, o cérebro humano é meramente um computador
avançado. E quando um mecanismo funciona mal, não o punimos, nós o consertamos.

Ele reforça o ponto com uma ilustração do programa de comédia britânico “Fawlty Towers”.
Quando o carro de Basil Fawlty não liga, ele primeiro dá um aviso justo, conta até três e,
finalmente, pega um galho de árvore e começa a golpeá-lo. O episódio sempre provoca
risadas. Mas Dawkins pergunta: “Por que não rimos de um juiz que pune um criminoso?
. . . Uma visão verdadeiramente científica e mecanicista do sistema nervoso não torna
sem sentido a própria ideia de responsabilidade?” Tanto para o
sistema de justiça ocidental inteiro.

Na prática, no entanto, Dawkins admite que não pode viver com as consequências de seu pro-
fessado ponto de vista. Há alguns anos, ele estava em Washington, DC, promovendo seu livro mais recente.
Um jovem estava na plateia que trabalhava para um think tank de Washington - e que havia lido Total Truth
. Durante o período de perguntas, ele perguntou a Dawkins: Se os humanos são máquinas e é inadequado
culpá-los ou elogiá-los por suas ações, devemos dar-lhe crédito pelo livro que está promovendo?

inapropriado culpá-los ou elogiá-los por suas ações, devemos dar-lhe crédito


pelo livro que está promovendo?
Dawkins rapidamente voltou atrás. “Eu não consigo me forçar a fazer isso”, ele respondeu. “Eu realmente

respondo de forma emocional e culpo as pessoas, dou crédito às pessoas.”


Poderíamos dizer que, na vida real, Dawkins continua saindo de seu próprio
mapa. Ele age de maneiras que sua visão de mundo não leva em conta.
O jovem insistiu no ponto: “Mas você não vê isso como uma inconsistência em suas
visões?”
Dawkins respondeu: “Eu meio que vejo, sim. Mas é uma inconsistência com a qual meio que temos que conviver - caso contrário, a vida seria intolerável.” Foi uma admissão
surpreendente de que, na prática, ninguém pode viver de acordo com a visão de mundo naturalista que ele mesmo promove - que suas consequências seriam “intoleráveis”.

with— otherwise life would be intolerable.” It was an astonishing admission that in practice no
one can live by the naturalistic worldview he himself promotes—that its
consequences would be “intolerable.”
Quando sua visão de mundo não funciona no mundo real, isso é um sinal de que há algo
seriamente errado com sua visão de mundo. Neste tipo de teste pragmático, uma visão de mundo cristã vence
148 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

sem dúvida. Insiste que os humanos são criados à imagem de um Deus pessoal, um Agente
supremo que pensa, escolhe e age. Assim, o cristianismo tem os recursos intelectuais para
explicar por que os humanos são agentes pessoais, com a capacidade de pensar, escolher e agir.
Ele dá um mapa “grande”
o suficiente para cobrir todos os aspectos da experiência humana. A visão de mundo bíblica se encaixa no mundo real.

Realismo Cristão
Não deveria ser surpreendente, então, que a Bíblia histórica tenha dado origem ao Realismo nas artes.

Nas artes visuais, como vimos no capítulo 5, o Realismo teve sua origem em uma visão de
mundo bíblica. E o mesmo é verdade na literatura. Na literatura clássica, um estilo elevado era
usado para nobres e deuses, enquanto um estilo baixo e cômico era usado para camponeses e
agricultores. Não havia estilo para retratar o ordinário,
a vida cotidiana de forma séria e compassiva.
Exceto na Bíblia.
Pegue o relato da traição de Pedro. Pedro é um mero pescador, e sua negação ocorre

entre pessoas comuns — soldados e criadas. Na literatura clássica, diz Auerbach, um


evento tão humilde poderia ter sido tratado “apenas como farsa ou comédia”, com
Pedro retratado como um ajudante cômico ou bobo. No entanto, o Novo Testamento
o retrata como um ser humano completo “no sentido mais elevado, profundo e
trágico”. “Uma cena como a negação de Pedro não se encaixa em nenhum gênero
antigo. É séria demais para a comédia, contemporânea e cotidiana demais para a
tragédia, politicamente insignificante demais para a história.” É completamente único.
O mesmo é verdade para virtualmente todos os eventos do Novo Testamento. Eles acontecem dentro do

vida de pessoas comuns, mas “assumem a importância de eventos revolucionários


mundiais”. Cada indivíduo participa de um drama moral de importância cósmica. Como
resultado, a Bíblia introduziu um estilo realista que mudaria a literatura
Ao contrário para
do Realismo sempre.
secular, não era

reducionista. Não reduziu a vida humana a um produto de forças naturais. Pelo contrário,
reconheceu a dignidade das pessoas comuns e da história comum — precisamente porque
não eram meramente comuns e comuns, mas eram elementos no plano de salvação de Deus.

Jane Eyre e a Bíblia


O Realismo Bíblico propôs que a chave para uma verdadeira leitura da história era a tipologia, reconhecendo

eventos como tipos ou prenúncios. Por exemplo, o sacrifício de Isaac prefigura o


sacrifício de Cristo. O Êxodo foi um tipo de salvação, libertação da escravidão do
pecado. A travessia do Mar Vermelho foi um tipo de batismo. A peregrinação dos
israelitas no deserto foi um tipo dos quarenta dias de Cristo no deserto. O maná
no deserto foi um tipo da Ceia do Senhor. Os sacrifícios e ofertas em Levítico
prefiguram o sacrifício de Cristo. A serpente de bronze em um poste era um tipo
de Cristo sendo levantado na cruz. E Moisés golpeando a rocha prefigurou o
sofrimento de Cristo, a “Rocha Eterna, fendida para mim”. (Veja 1 Cor. 10:4.)
Arte Vermelha em Dentes e Garras 149

Em suma, a história não era uma sucessão de fatos brutos. Era uma obra de arte, uma espécie de poesia,

cheia de tipos e símbolos. A tipologia revelou que os humanos vivem em dois reinos interligados de
significado—o material e o espiritual. Um evento genuinamente histórico participa ao
mesmo tempo em níveis adicionais de significado. Como o escritor de hinos do século XVIII, William
Cowper escreveu:

Israel, nos tempos


antigos, Não só tinha
uma visão Do Sinai
em chamas,
Mas também aprendeu o Evangelho:

Os tipos e figuras eram um espelho


No qual eles viram o rosto de um Salvador.

Sob a influência da Bíblia, a tipologia tornou-se uma técnica literária popular.

Como o historiador literário George Landow explica, permitiu


que poetas e pintores “adicionassem outra dimensão de significado que espiritual-

mente redime o físico, o material, tornando-o mais rico e mais


28
relevante.”

Considere um exemplo. No romance de Charlotte Bronte, Jane Eyre, a


personagem principal percebe que está tão loucamente apaixonada que “não conseguia mais

ver Deus.” Ela tinha “feito um ídolo” do Sr. Rochester. Quando ela aprende 6-5 Charlotte Bronte
Jane Eyre, 1899
que o Sr. Rochester já tem uma esposa, Jane usa imagens bíblicas para Múltiplas camadas de significado

descrever seu desespero. “Minhas esperanças estavam todas mortas—atingidas por um sutil

destino, como em uma noite caiu sobre todos os primogênitos na terra do Egito.” Jane estava colocando o
eventos de sua própria vida dentro de um contexto espiritual, reconhecendo que ela estava sendo despojada de seus

ídolos, assim como os egípcios foram. (Cada uma das dez pragas invocadas por Moisés demonstrou
o poder de Deus sobre um dos deuses adorados pelos egípcios politeístas.)
O Sr. Rochester tenta persuadir Jane a ir embora e viver com ele como sua amante, deixando
sua casa, que ele chama de “este lugar amaldiçoado, esta tenda de Acã.” Ao usar este Antigo Testamento
tipo, ele admite mais do que percebe, pois Acã era um israelita que roubou despojos que não eram
devidamente seus e tentou escondê-lo de Deus—assim como o Sr. Rochester espera manter Jane, que não é
devidamente sua.

O que os escritores do século XIX “adquiriram de anos de meditação sobre a Bíblia,”


explica Landow, “era um hábito mental, uma garantia de que tudo possui um significado significativo,
29
o qual “o olho sensível pode ler em termos de tipo e símbolo.” A tipologia bíblica deu origem

a uma compreensão da história em que eventos comuns e banais são investidos com
150 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

múltiplas dimensões de significado. Elas são infundidas com imensa


dignidade como elementos no desenvolvimento da salvação divina.
A tipologia é muito mais do que um dispositivo literário, no entanto. Os escritores do Novo Testamento falam de

A morte e ressurreição de Cristo como eventos cósmicos nos quais qualquer indivíduo
em qualquer época pode participar. “Fui crucificado com Cristo” (Gl 2:20). “Sofremos
com ele, para que também sejamos glorificados com ele” (Rm 8:17). “Alegrem-se por
participar dos sofrimentos de Cristo, para que fiquem cheios de alegria quando a glória
dele for revelada” (1 Pe 4:14). O padrão da vida de Cristo é um protótipo que pode
explicar e dar significado à vida de qualquer indivíduo, imbuindo tanto o sofrimento
quanto a alegria com camadas adicionais de significado espiritual. Ele fornece o padrão
pelo qual sua vida e a minha podem ser tecidas na história maior da redenção de
Deus.

O Que Envergonhou Hemingway


Foi a ideia de que a vida tem camadas mais elevadas de significado que os naturalistas literários rejeitaram.

Na verdade, eles rejeitaram a ideia de que a vida tem uma história inteligível. Em um recente New Yorker

artigo, um romancista diz: “É possível conceber o debate sobre a evolução como


um literário. O universo tem um autor? A história natural é uma história com um
enredo ou apenas um acúmulo aleatório de anedotas? As coisas reverberam
com um significado secundário e superior ou são meramente o que são?”
Os naturalistas afirmaram que o universo nãotem um autor e, portanto, as coisas não

têm um significado secundário e superior. Os humanos estão presos em um mundo unidimensional de pura bio-

existência lógica. A natureza é “vermelha de dentes e garras”. A vida é uma luta dura e de cão

come cão pela sobrevivência. Esta era uma imagem escura e sombria do
mundo, e muitos naturalistas responderam descartando o próprio conceito
de beleza. “O tempo da beleza acabou”, declarou Flaubert sem rodeios. O
público tem dificuldade em entender por que muitos artistas modernos têm
rejeitado o ideal de beleza. Mas é compreensível quando percebemos
que foi uma consequência de uma visão de mundo naturalista implacável. Trabalhos

de escritores naturalistas normalmente apresentavam cenários sórdidos, enredos violentos,

personagens grosseiros e linguagem temperada com gírias e obscenidades.

Além disso, a filosofia do naturalismo ensinava que metafísicos


6-5 Ernest Hemingway
Adeus às Armas, 1929 ideais como Beleza e Bondade nem eram reais. Eles não eram
Fatos brutos
fatos, apenas valores. Produtos da subjetividade humana. E subjetividade

introduz viés e distorção na ciência. Isso “estraga os dados”, disse Zola. Ele insistiu
que os romancistas deveriam descartar coisas como temas morais e “símbolos de
virtude e vício”, esforçando-se, em vez disso, para simplesmente registrar os fatos
como um cientista. “Você começa do ponto em que a natureza é suficiente, que
você deve aceitá-la como ela é, sem modificação ou poda”, escreveu Zola. “O
trabalho se torna um relatório, nada mais.”
Arte Vermelha em Dentes e Garras 151

E quais eram os fatos que o romancista relata? Apenas os fatos concretos reconhecidos por
empirismo ou positivismo—o que pode ser visto, tocado, pesado e medido. Este é o tema
de uma passagem bem conhecida em Adeus às Armas de Ernest Hemingway. “Eu sempre me senti envergonhado com

as palavras sagrado, glorioso e sacrifício”, diz um personagem que claramente representa Hemingway
ele mesmo.

Apenas os nomes dos lugares tinham dignidade. Certos números eram da


mesma forma e certas datas. . . Palavras abstratas como glória, honra, coragem
ou santificar eram obscenas ao lado dos nomes concretos de aldeias, os
números das estradas, os nomes dos rios, os números dos regimentos e as
datas.

O que esta passagem está dizendo? Que ideais ou conceitos abstratos são irreais—retórica vazia,
piedades pomposas, francamente embaraçosas. Que a realidade consiste unicamente em fatos concretos como

nomes, números e datas. Fatos brutos.


Ao rejeitar conceitos abstratos, os naturalistas literários não pareciam notar que sua própria
visão de mundo naturalista era em si um conceito abstrato. Não era um fato empírico, mas uma meta-
interpretação física dos fatos. Como tantas vezes acontece, sua crítica foi seletiva. Era para
uso nas visões de mundo de outras pessoas, não na sua própria.

Duchamp Joga Isso na Nossa Cara


Nas artes visuais, o equivalente ao fato bruto de Hemingway era o objeto encontrado (francês:
objet trouvé ), às vezes chamado de ready-made. Os artistas juntavam sobras e pedaços—arame,

parafusos, tábuas, pregos—e os apresentavam como arte, sem adicionar nada de sua
própria visão criativa. Isso foi apelidado de movimento anti-arte. As obras resultantes que
resultaram muitas vezes impressionaram o público como pouco mais do que travessuras
adolescentes. Mas eles implicavam um tema sério—que fatos brutos são a única realidade,
sem qualquer ordem inteligível imposta sobre eles. Os artistas estavam seguindo a
prescrição naturalista de Zola: Aceite a realidade “como ela é, sem modificação ou poda”.
Como os próprios artistas costumavam dizer, o objetivo era eliminar a mão do artista. Ao selecionar

seus ready-mades, Duchamp explicou, sua regra era que eles “tinham que consistir
em algo sem valor estético”. Da mesma forma, Man Ray disse: “Eu desconsidero
completamente a qualidade estéticaEmdooutras
objeto. Sou contra
palavras, o artesanato.”
o objetivo era oferecer algo que
não tinha beleza ou design. Quando os artistas foram persuadidos de que a natureza
opera por processos cegos e não direcionados—sem nenhum propósito, ordem ou
design abrangente—então, consciente ou inconscientemente, eles começaram a
expressar essa visão de mundo, recusando-se a impor qualquer ordem ou design em
seus materiais iniciais.
152 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

ANTIARTE

6-6 Man Ray 6-7 Marcel Duchamp


Presente,
1921 Fonte, 1917

Os espectadores às vezes tentam ser caridosos, suavizando as intenções revolucionárias dessas


peças controversas, dizendo que os artistas estavam apenas encontrando beleza em lugares incomuns. Eu li

passagens que falam admiravelmente das linhas suaves e brilhantes do urinol de Duchamp, comparando-o

a uma escultura de Henry Moore. Mas devemos dar aos artistas o respeito de ouvir o que eles
próprios dizem sobre seu trabalho. Duchamp repudiou com raiva aqueles que tentaram domesticar
seus objetos de antiarte. “Joguei o urinol em seus rostos como um desafio”, ele rosnou, “e agora
33
eles vêm e o admiram como um objeto de arte por sua beleza estética.” Não estamos sendo caridosos
quando domesticamos os gestos desafiadores desses artistas dizendo: Oh, que bonito. Apontar o natural-

ista, até mesmo niilista, postura do movimento antiarte não é impor um julgamento externo. É
meramente aceitar os artistas em sua própria palavra. Se o universo não tem um autor, se não foi
criado por um Artista supremo, então que base existe para os humanos criarem obras de arte? Esta é uma

pergunta honesta, e foi a pergunta levantada pelo movimento antiarte.


Eliminando a mão do artista

Tirando Deus da Natureza


Artistas e escritores adotaram a filosofia do naturalismo e do positivismo porque

aceitaram a teoria da evolução de Darwin. Mas a influência também foi no sentido inverso.
Darwin chegou à sua teoria da seleção natural porque já havia aceitado a filosofia do natural-
ismo e positivismo.
Em sua Autobiografia aprendemos que anos antes ele já havia abraçado o naturalismo, rejeitando
o conceito bíblico de milagres: “Quanto mais sabemos das leis fixas da natureza, mais
Arte Vermelha em Dentes e Garras 153

34
incrível, milagres acontecem.” Consequentemente, quando Darwin começou a considerar a origem de

espécies, de acordo com o historiador Neal Gillespie, “ele o fez como um evolucionista porque ele havia primeiro
35
se tornado um positivista, e só mais tarde encontrou a teoria para validar sua convicção.” Sua busca ci-

entífica foi impulsionada pela necessidade de encontrar uma teoria que


satisfizesse a filosofia que ele já havia aceitado.
O mesmo era verdade para muitos dos apoiadores de Darwin. Muitas vezes nos dizem que a razão pela qual sua

teoria da evolução venceu foi porque ela se encaixava nos fatos. Mas, de acordo
com Gillespie, a verdadeira razão é que muitas pessoas já haviam aceitado a
filosofia do positivismo: “Foi o sucesso anterior do positivismo na ciência que
garantiu a vitória da evolução na biologia.” Não havia necessidade de atacar o
cristianismo diretamente, acrescenta Gillespie. Só era preciso adotar “o
positivismo como o padrão epistemológico na ciência. E isso acabou tirando
Deus da natureza (se não da realidade)
Isto é, umatão
vez efetivamente
que o positivismoquanto
foi aceitoona
ateísmo.”
filosofia, então
o darwinismo—ou algo muito parecido com ele—era quase inevitável na ciência.

Queimadores de Livros Liberais

A próxima grande filosofia que encontramos foi uma forma extrema de positivismo chamada positivismo lógico,

Isso se reconecta com os temas do capítulo anterior porque o positivismo


lógico, em certo sentido, combina as duas filosofias discutidas ali: empirismo
e racionalismo. Até voltamos a David Hume. O positivismo lógico aplica o que
às vezes é chamado de garfo de Hume. O conhecimento confiável vem em
duas formas, disse Hume: (1) ideias derivadas da sensação e (2) ideias
logicamente necessárias, como a matemática. O tipo de conhecimento que
ele tinha em mente era a ciência. Nada mais era permitido na categoria de
conhecimento—nem metafísica, teologia, ética ou estética.
Hume exortou as pessoas a usar seu garfo de duas pontas para expurgar livros das estantes da biblioteca.

Pegue cada livro na mão e pergunte: Ele contém raciocínio experimental baseado
em fatos? Ele contém raciocínio lógico baseado na matemática? Se você encontrar
qualquer outra coisa—qualquer metafísica ou teologia—então “entregue-o às
chamas”, ele gritou. Pois “ele não pode conter nada além de sofisma e ilusão.”
Séculos depois, nas décadas de 1920 e 30, os positivistas lógicos levaram o programa radical de Hume

a sério. Seu objetivo era “purificar” o conhecimento, reduzindo-o aos dois elementos de
Hume: 1) frases que declaram fatos empíricos nus e 2) conectivos lógicos (“e”, “ou”, “se
. . . então”, “se e somente se”). A parte mais notória do positivismo lógico foi seu
chamado princípio de verificação, uma regra que afirma que qualquer coisa que não
possa ser verificada empiricamente não é meramente falsa, mas totalmente sem
sentido. No passado, por exemplo, os ateus argumentavam que as declarações
religiosas são falsas. Mas, de acordo com os positivistas lógicos, as declarações
religiosas não são tanto falsas quanto sem sentido. A frase “Deus existe” pode parecer
ser uma proposição (uma declaração que é verdadeira ou falsa). Mas
não é uma proposição genuína, disseram eles. Por que não? Porque a existência do sobrenatural
154 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

não pode ser diretamente verificada ou falsificada pela ciência empírica. Eles
concluíram que declarações sobre Deus são expressões disfarçadas de emoção pessoal.
Os positivistas lógicos aplicaram o mesmo raciocínio à moralidade. Quando dizemos Esta ação é
certa, a maioria de nós pensa que estamos dando informações sobre essa ação. Não é assim, disseram os

positivistas. Fazer uma avaliação moral é semelhante a dizer Viva! ou Isso aí! E Viva não é
capaz de ser verdadeiro ou falso. Meramente expressa aprovação ou apreço. Se isso
soa familiar, deveria. É uma forma particularmente virulenta da divisão fato/valor.
Em nossos dias, a regra da verificação recuou para um merecido esquecimento. Pois se livrou
de muita coisa—incluindo o próprio positivismo lógico. A própria regra da verificação poderia ser
empiricamente verificada? Não. Não era uma declaração de fato empírico verificável pela
ciência. Era uma regra metafísica. Portanto, não cumpria seu próprio critério de verdade. Como
comenta um filósofo,

“Apesar de sua professada eliminação de todas as alegações metafísicas, parece que os positivistas
de fato confiaram em uma doutrina metafísica central—o princípio da verificabilidade em si.”
Lógico

o positivismo era uma filosofia que tinha que se isentar da regra que aplicava a todos
os outros, caso contrário, se prejudicaria. E, finalmente, foi o que fez. Cometeu suicídio.

Abandonando as Grandes Questões


Apesar da autodestruição do positivismo lógico, seu espírito continua vivo. Ele até redefiniu
o papel da própria filosofia. Pois, ironicamente, a filosofia como um todo falha no teste do garfo de Hume—ela

não é um ramo da ciência empírica nem da matemática. Que papel resta para ela então? Muitos
filósofos decidiram que o sério negócio de descobrir a verdade não era mais tarefa da filosofia.
Isso agora era tarefa da ciência. A filosofia simplesmente ajudaria esclarecendo os termos.

Tornou-se um método para analisar os conceitos e a linguagem usados na ciência.


Essa redução drástica no status da filosofia foi chamada de virada linguística, ou linguística
análise, ou filosofia analítica. E uma virada importante certamente foi. Pela primeira
vez desde os antigos gregos, a filosofia essencialmente negou que tivesse
qualquer assunto distinto próprio. Era meramente uma serva da ciência. Sua
função era esclarecer confusões e obscurecimentos que surgem do uso descuidado
da linguagem. A esperança era que, uma vez que os termos fossem esclarecidos,
muitos problemas filosóficos de longa data simplesmente se dissolvessem.
A filosofia analítica dominou os departamentos de filosofia americanos durante grande parte do
século XX. Os críticos alegam que não é tanto uma filosofia quanto uma anti-filosofia,
pois abandonou todas as grandes questões que os humanos têm feito ao longo dos
tempos: Quem é Deus? O que significa ser humano? O que é justiça? Como
distinguimos o bem e o mal? Em suma, o pensamento analítico descartou as grandes
questões metafísicas que estavam no coração da filosofia por vinte e cinco séculos. Em
vez disso, propôs que muitas dessas questões surgiram de um pensamento confuso,
que poderia ser esclarecido por uma análise cuidadosa da linguagem. Corte a confusão
verbal! Afaste os termos abstratos e as especulações metafísicas! Limpe as teias de
aranha dos séculos!
Art Red in Tooth and Claw 155

The goal of analytic philosophy was to reduce ordinary language to an ideal universal language
couched in terms of formal logic.
Instead of making metaphysical assertions about the nature of reality, philosophy would sim-
ply analyze the logical structure of propositions. Philosophy books became studded with symbols
of formal logic that look something like this:

x φ) x (P(x) y (P(y) (x = y)))

Logical formalism gave philosophy an aura of mathematical precision but rendered it unin-
telligible to ordinary people. Critics often denounced it as “empty formalism,” charging that
philosophy was no longer interested in finding truth but only in investigating the formal nature
of propositions.

Cubist Buildings
The term formalism should be familiar because we have encountered already it in the arts
(chapter 5). A famous group of logical positivists, called the Vienna Circle, included several
members who were also members of a formalist movement in architecture, which gave rise
to the International style. As a result, this style can be considered a direct artistic expres-
sion of logical positivism.39 The movement included the Bauhaus (in Germany) and de Stijl
(in Holland). Its bare glass-and-steel boxes are all too familiar in our cities today.

LOGICAL POSITIVISM
INTERNATIONAL STYLE
6-8 Walter Gropius 6-9 Mies van der Rohe & Philip Johnson
Bauhaus Building, Dessau, Germany,1926 Seagram Building, New York City, 1958

The modernist mentality applied to architecture


156 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Os paralelos são óbvios: Assim como os filósofos queriam


despir a linguagem comum de suas idiossincrasias e reduzi-la a
uma linguagem formal universal, assim os artistas pretendiam despir a arquite-

tura de toda ornamentação e reduzi-la a formas geométricas universais.

Até seus slogans eram semelhantes: Cortar a desordem! Limpar


molduras, cornijas, pergaminhos e enfeites! Jogar fora
6-10 Charles Garnier estilos históricos como colunas gregas e pináculos góticos! O
Ópera de Paris, 1874
Colunas ornamentadas, estátuas, frisos resultado foram telhados planos, fachadas lisas e formas cubistas (influ-

enciadas, de fato, pela pintura cubista). O fundador do de Stijl disse que o objetivo era criar um estilo baseado
40
unicamente em “números, medidas e linha abstrata”.
Essa era a mentalidade modernista aplicada à arquitetura: Jogar todo o passado no lixo
e começar de novo do zero. A cidade inteira foi tratada como “uma tábula rasa na qual se
41
poderia inscrever ideias totalmente novas e funcionalistas”. O formalismo geométrico resultante era tão popu-
lar entre os arquitetos que prevaleceu mesmo quando o projeto não funcionava. Em climas com fortes
chuvas e neve, os telhados planos eram notoriamente propensos a vazamentos. A razão pela qual o estilo exerceu tal

uma forte atração, diz Robert Hughes, foi seu ultra racionalismo: “Parecia ser o epítome
42
da razão - linhas retas, racional pensamento.”

O estilo internacional é tão famil- iar para nós hoje que precisamos de um

6-11 Marcel Breuer 6-12 Gerrit Rietveld 6-13 Marianne Brandt


Mesa Laccio, 1925 Mesa Schroeder, 1923 Bule de chá, 1924

pouco de imaginação histórica para sentir o quão chocante foi no início. Um exemplo
do que era considerado arquitetura impressionante na época era a Ópera de Paris, com
suas colunas ornamentadas e estátuas aladas. Em contraste, os edifícios da Bauhaus se
assemelhavam a grades em forma de caixa. Era a grade cubista aplicada à arquitetura.

Designers associados à Bauhaus passaram a aplicar princípios geométricos a itens dentro

de seus edifícios também - para móveis e utensílios de cozinha. O estilo foi apelidado de “a
estética da máquina” porque procurava imitar as linhas suaves e brilhantes das máquinas.

BAUHAUS NA CASA

A estética da máquina
Arte Vermelha em Dentes e Garras 157

Bastilha Bauhaus
O apóstolo mais conhecido do Estilo Internacional foi um arquiteto francês que atendia pelo
apelido Le Corbusier (o corvo). Seu objetivo,
disse ele, era “produzir casas em massa tão
eficientemente quanto uma linha de
montagem de fábrica”, feitas de concreto
derramado e desprovidas de toda
ornamentação. Os edifícios resultantes eram
estruturas cubistas padronizadas que ele
chamava de “máquinas de morar” porque
tinham a eficiência funcional de uma
máquina. Por implicação, as escolas são
máquinas para serem ensinadas e os
hospitais são máquinas para serem curadas.
Na verdade, Le Corbusier pensava em toda a 6-14 Plano da cidade de
Paris de Le Corbusier,
cidade como uma máquina grande e 1925
A grade como controle social
eficiente. Seu ideal
cidade foi construída com linhas simples e repetitivas unidas por ângulos retos. Era a
grade cubista em uma escala enorme. À direita está seu plano para Paris. Ele queria
arrasar a maior parte da cidade e reconstruí-la do zero. Corbusier chamou sua
abordagem de “arquitetura científica” e a ofereceu aos planejadores urbanos como uma
ferramenta para planejamento racional e controle social.
A maioria dos planos de Le Corbusier nunca foi construída. No entanto, eles exerceram uma enorme influência, em

parte porque ele prometeu eliminar áreas escuras e irregulares da cidade que
eram potenciais focos de sedição e insurreição. Como exemplo, Le Corbusier
ofereceu o crescimento da igreja cristã primitiva na Roma antiga. Naquela
cidade, “a plebe vivia em um caos inextricável”, de modo que “a atividade
policial era extremamente difícil”. Consequentemente, “São Paulo de Tarso era
impossível de prender enquanto permanecia nas favelas, e as palavras de seus
sermões eram transmitidas comouma
O cristianismo tornou-se umilustração
incêndio de boca
dos perigos que osem boca”.urbanos enfrentam se
planejadores

eles não praticassem o planejamento racional, impondo a grade corbusiana.


Le Corbusier não estava sozinho em seus sonhos utópicos de arquitetura como um meio de transição social-

formação. Muitos arquitetos modernistas estavam convencidos de que estavam na vanguarda da reforma
social. Ao mudar as estruturas materiais que moldam a forma como os humanos vivem, eles esperavam

mudar a forma como os humanos pensam. O racionalismo da arquitetura moderna faria as pessoas pensarem
44
e viver de forma mais racional. Como Ludwig Mies van der Rohe declarou em 1927, “A luta pela
nova habitação é apenas parte da luta maior por uma nova ordem social.”
Philip Johnson mais tarde recordou, um tanto ironicamente, as esperanças utópicas dos arquitetos: “Nós

estávamos totalmente da opinião de que, se você tivesse uma boa arquitetura,


a vida das pessoas seria melhorada. . . até que a perfeição descesse sobre nós
como o Espírito Santo e seríamos felizes para sempre.” Esta visão messiânica,
acrescenta Johnson ironicamente, foi “uma daquelas ilusões dos anos 20”.
158 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Certamente era uma ilusão. Pessoas comuns achavam os edifícios despojados austeros,
utilitários, impessoais. As enormes caixas de vidro e concreto não tinham materiais para suavizar
o calor, sem toques decorativos, sem cantos ou recantos tranquilos, sem estilos locais pitorescos como o meio-

madeira de uma casa Tudor ou a cúpula de cebola de uma igreja austríaca. Em vez disso, todos os edifícios estavam

sujeitos à mesma uniformidade monolítica. Aldeões que viviam perto da famosa escola Bauhaus
acharam seu estilo austero tão desumano que o transformaram

em um bicho-papão. Mães alemãs avisavam seus


filhos: “Se você não se comportar, eu o mandarei para o
46
Bauhaus.”
Apesar das objeções do povo comum, muitas cid-
ades ergueram enormes projetos habitacionais no estilo uniforme

considerado tão moderno e funcional. Apartamentos


6-15 Conjunto habitacional Pruitt-Igoe
foram concebidos como células matematicamente calculadas para
St. Louis, 1972
Explodindo a Bauhaus
dar a cada cidadão tantos metros cúbicos de espaço vital,
ar e outras necessidades. Os planejadores urbanos engoliram por atacado a premissa da racionalidade científica,

tratando os humanos como mecanismos complexos cujos problemas podem ser resolvidos simplesmente encaixando

os em uma “máquina de morar” corbusiana. Eles esperavam que a construção de moradias decentes
resolveria uma série de problemas sociais de uma só vez, da pobreza ao crime ao abuso de drogas.

Mas os humanos não são meramente seres materiais. Eles também são seres sociais, morais e espirituais.

E ignorar essas dimensões é flertar com o desastre. Os edifícios acabaram sendo altos
prisões de cimento - sombrias, deprimentes, despersonalizantes. Muitos se tornaram focos de crime e social

patologia. Alguns foram eventualmente dinamitados até o chão, mais famoso o Pruitt-Igoe hous-
ing development em St. Louis em 1972. Ex-habitantes aplaudiram enquanto desmoronava em pó.
O Estilo Internacional deu expressão de tijolo e argamassa a uma visão de mundo racionalista e funcionalista

que enfatizava a uniformidade em detrimento da individualidade. Nas palavras do social


crítico Theodore Dalrymple, o “desolador funcionalismo corbusiano expressa em forma concreta
a insignificância do homem como indivíduo.” Os projetos habitacionais em ruínas ainda vistos nas cidades
ao redor do mundo permanecem uma expressão visível da “concepção materialista e racionalista de
47
vida humana.”

A lição é que as ideias filosóficas não permanecem contidas em torres de marfim. Eles afetam o
maneira como as pessoas pensam e vivem - e até mesmo o tipo de edifícios que constroem. Isso não quer dizer

que as linhas geométricas do Estilo Internacional podem ser esteticamente agradáveis. E alguns de nós
podem gostar de ter móveis estilo Bauhaus em nossas casas. No entanto, o materialismo e o racionalismo
que inspiraram esses estilos não são visões de mundo adequadas. Eles produziram uma colheita de danos

vidas e bairros desolados.

Arte ABC
Arte Vermelha em Dentes e Garras 159

Se o positivismo lógico recebeu forma visual pela Bauhaus, então a análise linguística recebeu
forma visual pelo Minimalismo. Lembre-se de que a análise linguística limitava a filosofia a uma análise da

6-16 Ellsworth Kelly 6-17 Brice Marden


Vermelho Amarelo Azul 1, 1963 Pintura Vermelho Amarelo Azul No. 1, 1974

estrutura formal da linguagem. Da mesma forma, o Minimalismo limitava a arte a uma análise de sua linguagem formal,

guagem. As “letras” de uma obra de arte são coisas como linha, cor, textura,
forma, volume e espaço. Estes são o ABC da arte. O Minimalismo, com suas
formas geométricas simples
Os críticos e marcantes,
às vezes foi realmente
acusam o Minimalismo apelidado
de reduzir de Arte
a arte a pouco ABC.
mais do que
49
brincar com o alfabeto do pintor.

FILOSOFIA ANALÍTICA
MINIMALISMO
Brincando com o ABC da arte

A música clássica teve sua própria versão do Minimalismo. Consistia em fragmentos extremamente simples de

melodia organizada em padrões rítmicos repetidos continuamente, parecendo não ir a lugar nenhum. Por causa

de sua repetição quase mecânica, o Minimalismo tem sido criticado como a “trilha sonora emocionalmente vazia
50
da Era da Máquina”. Por causa de sua simplicidade, também tem sido depreciado como uma espécie

de música ABC. O crítico musical Harold Schonberg chama o Minimalismo de “uma espécie de música para bebês que
51
voltou à tríade clássica [as três notas de um acorde] e pouco mais”.
É suficiente simplesmente brincar com o ABC da arte? Em uma conferência de L’Abri na década de 1970, eu

assisti a uma palestra de Hans Rookmaaker na qual ele discutiu uma pintura consistindo de dois
retângulos coloridos lado a lado, vermelho e verde. Depois, uma jovem artista, com a voz irritada
e angustiada, perguntou por que ele se opôs a esse estilo de pintura.
“O que há de errado em apenas ficar animado com o interessante contraste de cores?” ela perguntou.
160 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

“Não há nada de errado com isso”, respondeu Rookmaaker. “Mas esse é o tipo de coisa que você gosta

ao brincar com cores em sua paleta. Não é uma obra de arte finalizada.” Chamar isso de arte é
abandonar o propósito tradicional da arte de transmitir uma visão mais profunda da condição humana.
As cores sozinhas podem ser visualmente estimulantes, às vezes intensamente. Como resultado, Minimalista

as pinturas podem ser visualmente impressionantes e esteticamente agradáveis. Da mesma forma, progressões de acordes

sões podem produzir harmonias fascinantes. Aliteração e assonância podem criar padrões impressionantes
de som. Estas são todas ferramentas importantes na caixa de ferramentas do artista. No entanto, assim como a filosofia foi

reduzida à análise da linguagem, a arte foi reduzida à análise do ABC de seu ofício. Como Seerveld
52
comenta, a arte moderna “refinou um alfabeto brilhante, mas não tem nada a dizer”.
Quando visitei o Museu Guggenheim em Nova York na década de 1980, ouvi um
docente discutir uma pintura que consistia em uma tela monocromática com um pequeno ponto em direção a um

lado. O docente palestrou longamente sobre “a tensão produzida pela assimetria” do off-
ponto central. Bem, certamente. Quando alguém como Rubens pinta uma cena com o assunto principal fora

centro, talvez com linhas diagonais arrebatadoras, esses elementos produzem uma sensação de tensão e
movimento. No entanto, para um pintor tradicional como Rubens, esses elementos composicionais eram
meramente os materiais de trabalho do pintor. Eles eram o alfabeto usado para contar a história. Eles fizeram

não ocupar o lugar da história.

Pilha de Tijolos
Da mesma forma, a escultura minimalista consistia em estruturas simples repetidas várias vezes.

As formas de bordas duras eram tão simples e precisas que poderiam ser produzidas por
qualquer pessoa. Na verdade, eles poderiam ser produzidos em massa. E tipicamente
eles eram. As obras minimalistas apresentavam caixas de metal e tijolos que não foram
criados pelo artista, mas fabricados mecanicamente em fábricas. Como Hartt explica, os
objetos minimalistas se recusam “a mostrar qualquer coisa que possa indicar a presença
da mão do artista”. Eles são “padronizados e industriais” - “anônimos” - “impessoais”.
Se o universo é o produto de forças naturais não pessoais, como essa visão de mundo é expressa
nas artes? Pela eliminação de todos os vestígios de criatividade pessoal. A singularidade da expressão individual

é substituída pela uniformidade racional.

ESCULTURA MINIMALISTA

6-18 Donald Judd 6-19 Sol LeWitt


Dois Cubos Modulares Abertos/Meio Desligado,
Sem título, 1965 1972
Arte Vermelha em Dentes e Garras 161

Padronizado, anônimo, impessoal

Uma vez, ensinei um curso de educação domiciliar para alunos do ensino médio, alguns dos quais não ficaram entusiasmados com o fato de que

seus pais os haviam inscrito em uma matéria tão arcana quanto a história da arte. No primeiro dia de aula,

um dos adolescentes entrou com uma atitude desafiadora em sua voz. “Você vai nos dizer por que
uma pilha de tijolos pode ser chamada de arte?” ele perguntou.

“Sim, vou”, eu disse, correspondendo ao seu tom assertivo. “Quando você sair desta aula, você
entenderá o que impulsiona a arte moderna. Você pode não gostar, você pode não achar bonito, mas
você entenderá a visão de mundo por trás disso.”
Abaixo está a notória “pilha de tijolos” de Carl Andre, que gerou uma forte controvérsia quando
foi exibida pela primeira vez na Tate em 1976. É essencialmente uma grade construída com 120 tijolos—“o

número mais rico em fatores”, explica Andre. A aritmética é “o andaime ou armadura do meu
54
trabalho.” Não apenas os tijolos foram fabricados em uma fábrica, como também foram montados por outros.

Andre não participou da construção da escultura.


Em uma entrevista, Andre afirmou: “Sou um materialista, um admirador de Lucrécio”, referindo-se ao
55
famoso filósofo materialista da Roma antiga.
Se ele estava ou não fazendo a conexão inten-
cionalmente, sua recusa em investir criatividade pessoal em

suas obras refletia sua filosofia de que o universo é


o produto de forças materiais não pessoais.
É claro que nenhum desses artistas teve total sucesso
em eliminar a mão do artista. Com um pouco
6-20 Carl Andre
de educação, você pode começar a reconhecer um Judd ou um Equivalente VIII, 1966
Matemática e materialismo
Andre. Essa é uma pista de que sua visão de mundo não
se encaixa na realidade. Porque somos criados por um Deus pessoal, a expressão pessoal não pode ser completamente

apagada. Não importa o quão completamente os artistas rejeitem a visão de mundo bíblica em seu pensamento,,

inevitavelmente, isso aparece de alguma forma em suas vidas. Eles não podem deixar de expressar sua própria natureza

como indivíduos criados à imagem de Deus.

Pintar É Apenas Tinta


162 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Uma ramificação do Minimalismo, a pintura Color Field, foi ainda mais longe. Sob o impacto da
filosofia materialista, a pintura foi finalmente definida apenas em termos de seus constituintes materiais:

6-21 Jules Olitski 6-22 Kenneth Noland


O Príncipe Patutszky-Red, 1962 Número Um, 1958

tinta e tela. “Apenas os 'ditames do meio' - tinta pura e a planura do plano


da imagem - eram considerados preocupações válidas para a pintura”,
explica Gablik. “O trabalho é uma superfície pintada, nada mais.”
Arte Vermelha em Dentes e Garras 163

6-21 Jan van Goyen 6-22 Frank Stella


Vista de Dordrecht, 1644 Quadrados Concentricos Solteiros, 1974

MATERIALISMO
CAMPO DE COR
“Uma Superfície Pintada, Nada Mais”

Nas palavras dos próprios artistas, “O que é importante na pintura é a tinta” (Jules Olitski). “É
57
tudo cor e superfície, isso é tudo” (Kenneth Noland).
Na Renascença, quando os pintores elaboraram as leis da perspectiva, eles transformaram
a tela em uma janela através da qual vemos o mundo. Em frente à tela, sua
atenção não deveria estar focada na superfície material da própria pintura. Você deveria
olhar “através” dela para uma ilusão de espaço tridimensional além. Um exemplo são as obras
de Jan van Goyen, que era um mestre em criar uma sensação de distância, com um primeiro plano definido,

plano médio e fundo que parece recuar infinitamente. (figura 6-21)

Pinturas sobre Nada


Por outro lado, os formalistas rejeitaram a ilusão de espaço. Eles trataram o plano da imagem como um

superfície opaca. Não era mais uma janela para o mundo. Eles até falavam como se qualquer tipo de
imagem ou representação fosse “manchada” pela associação com toda a herança artística europeia.
Frank Stella disse: “Eu sempre discuto com pessoas que querem reter os velhos valores na
pintura . . . afirmando que há algo ali além da tinta na tela” — isto é,
algo além dos meros elementos materiais. Stella então proferiu uma frase que se tornou o não ofi-
58
cial slogan do Minimalismo: “O que você vê é o que você vê.”
O Que Você Vê É . . . O Que Você Vê

O ponto de Stella era que a pintura não deveria ser sobre nada. Não deveria dizer ou expressar
nada. Deveria apenas ficar ali como um objeto material por si só. Uma pintura deveria ser
164 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

completamente autocontido e autorreferencial, julgado unicamente por


como organiza linha e cor em um todo formal.

Perda da Transcendência
Essa visão da arte é completamente inédita na história humana. Afinal, “não há conhecido
sociedade humana sem alguma concepção de uma ordem sobrenatural”, observa Gablik. E “tradi-
cionalmente, artistas têm usado a arte como um meio material de alcançar fins espirituais.”
Somente no Ocidente moderno surgiu a ideia de que a arte não tem nada a ver com verdades
espirituais ou éticas—que a arte é meramente uma forma de explorar as qualidades formais de
linha, cor, textura, volume e assim por diante.
O formalismo dominou a teoria da arte durante a maior parte do século XX. Os artistas foram solicitados

a abandonar a narrativa, a representação, a perspectiva—virtualmente toda a


tradição artística ocidental— e reduzir a pintura a elementos puramente formais. O
paralelo com a filosofia analítica é claro. Ambos deram as costas às Grandes Questões
relacionadas com realidades transcendentes. O filósofo Ernest Gellner observa que a
análise linguística poderia ser denominada “naturalismo linguístico” no sentido de
que não reconhece nenhuma fonte transcendente de verdade. É exclusivamente
“deste mundo”—um “tipo sombrio de filosofia feita sob um céu baixo e plúmbeo”.
O formalismo representa igualmente uma abordagem deste mundo à arte. Como Barrett escreve, houve um

tempo em que a arte oferecia uma escada para um reino transcendente. Mas não mais.

Quando a humanidade não vive mais espontaneamente voltada para Deus ou


para o mundo suprassensível [além dos sentidos]—quando, para ecoar as
palavras de Yeats, a escada se foi pela qual subiríamos a uma realidade superior
—o artista também deve ficar face a face com um mundo plano e inexplicável.”

62
Gablik chama isso de uma abordagem à arte que “não tem vestígios de transcendência”.

Senso Comum Cristão


Mas esse não é o fim da história. Assim como o cristianismo oferece um verdadeiro empirismo que se recusa

a reduzir a rica diversidade da criação ao que pode ser conhecido apenas pelos sentidos;
e assim como o cristianismo oferece um verdadeiro racionalismo que se recusa a reduzir
a verdade cognoscível aos limites da razão humana; assim também o cristianismo faz uso
do melhor do pensamento analítico sem reduzi-lo a uma perspectiva sombria e deste
mundo. De fato, alguns dos filósofos analíticos mais proeminentes de hoje são cristãos.
Seu trabalho demonstra que o raciocínio preciso e o rigor lógico característicos do
pensamento analítico podem ser usados para apoiar a verdade bíblica.

O mais conhecido desses filósofos é Alvin Plantinga, de origem reformada holandesa.

Alto, magro, com a típica barba holandesa, Plantinga é o fundador do que é chamado de epistemologia
reformada. Cerca de quarenta anos atrás, os escritos de Plantinga explodiram como fogos de artifício no
Arte Vermelha em Dentes e Garras 165

mundo da filosofia analítica, que há muito relegou o teísmo ao museu de curiosidades


intelectuais obsoletas. Aconteceu que, como toda filosofia, o pensamento analítico
contém núcleos de verdade que fazem sentido apenas dentro de uma cosmovisão cristã.
Na verdade, suas raízes originalmente cresceram a partir de princípios bíblicos. Embora o pensamento analítico tenha surgido

no início do século XX, foi inspirado em parte por uma filosofia anterior chamada
realismo do senso comum. O fundador do realismo do senso comum foi Thomas
Reid, um clérigo presbiteriano escocês do século XVIII. Ele estava respondendo
ao seu compatriota escocês, o cético radical David Hume. Reid argumentou que a
única maneira de a filosofia evitar terminar no ceticismo de Hume era começar
com a criação divina. A razão pela qual somos justificados em confiar em nossas
mentes é que Deus as projetou para "se encaixarem" no mundo que ele criou.
No realismo do senso comum, o termo comum significava mantido em comum ou todos.
compartilhado por
Existem

parecem existir certos conceitos mantidos por todas as pessoas em todas as culturas e em
todos os tempos - por exemplo, que os efeitos têm causas, que o mundo material é real, que
existe o bem e o mal genuínos, que somos agentes morais livres, que a razão é um teste válido
para a verdade e assim por diante. Esses conceitos não são apenas universais, eles também
são necessários para funcionar no mundo real. Não importa o quanto os questionemos na
teoria, não podemos negá-los na prática. Reid os rotulou de "autoevidentes".

Nos séculos XVIII e XIX, o realismo do senso comum era extremamente popular
em toda a América. Era defendido por muitos cristãos evangélicos, bem
como por deístas, unitários
Quando Thomase Jefferson
universalistas.
redigiu a Declaração de Independência com a

frase: “Consideramos estas verdades como autoevidentes”, ele foi influenciado pelo
realismo do senso comum. Poder-se-ia dizer, então, que Plantinga está revivendo uma
tradição intelectual americana clássica - e retornando-a ao seu contexto teísta original. Seus
escritos técnicos são repletos de lógica modal e as fórmulas de letras que tornam a filosofia
analítica tão assustadora para não especialistas. No entanto, seu rigor lógico conquistou o
respeito até mesmo de críticos hostis. Na revista Philo, Quentin Smith, um defensor

do naturalismo filosófico, diz que Plantinga demonstrou que os cristãos podem igualar
seus colegas seculares em “precisão conceitual, rigor na argumentação, erudição técnica
e uma defesa aprofundada de uma cosmovisão original”. O trabalho de Plantinga é a
prova de que os cristãos são capazes de “escrever no mais alto nível qualitativo da
filosofia analítica”.
Outras formas de realismo teísta, a maioria delas influenciada por Plantinga, varreram
a comunidade filosófica. Os cristãos agora preenchem programas de pós-graduação, ocupam posições de ensino importantes

e escrevem livros importantes no campo da filosofia analítica. Em 1978, Plantinga ajudou


a fundar a Sociedade de Filósofos Cristãos, que agora tem mais de mil membros
e é o maior subgrupo organizado entre os filósofos americanos. Como Quentin Smith
observa, em outros campos, os cristãos normalmente compartimentalizam suas convicções religiosas de
seu trabalho acadêmico por medo de cometer suicídio acadêmico. Mas “na filosofia, tornou-se,
quase da noite para o dia, 'academicamente respeitável' defender o teísmo.”
166 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

O influxo de cristãos na filosofia até atraiu a atenção da popular


imprensa. Em 1980, a revista Time publicou um artigo intitulado “Modernizando o Caso de Deus”. Uma vez

parecia, dizia o artigo, que Deus havia sido expulso do céu por Marx, banido para o
inconsciente por Freud e expulso do mundo empírico por Darwin. Mas hoje, “Deus está
fazendo um retorno.” O mais intrigante é que isso não está acontecendo em igrejas entre
fiéis comuns “mas nos círculos intelectuais nítidos de filósofos acadêmicos, onde o
65
consenso há muito baniu o Todo-Poderoso do discurso frutífero.” Muitos dos brilhantes de hoje-
os filósofos são cristãos e estão usando os melhores recursos da filosofia analítica para
argumentar em defesa do teísmo.

Em suma, a filosofia está sendo dessecularizada. E isso dá esperança para reverter o processo de
secularização em outras disciplinas acadêmicas também.

Minimalismo Sagrado
É muito cedo para dizer qual o impacto que este renascimento da filosofia cristã terá sobre o

mundo da arte. Há indícios na música, no entanto, onde uma versão cristã do Minimalismo surgiu.
Como qualquer retorno à melodia é bem-vindo ao público, as gravações minimalistas—com

seus fragmentos repetidos de melodia—venderam bem. Entre os mais vendidos estão


as gravações de compositores cristãos que combinam Minimalismo com elementos
do canto bizantino e polifonia medieval, criando um efeito assustador e meditativo.
O estilo foi rapidamente apelidado de Minimalismo Sagrado. Seus representantes mais conhecidos são Henryk

Górecki (um católico polonês), Arvo Pärt (um ortodoxo estoniano) e John Tavener (um compositor
britânico que se converteu à ortodoxia russa). Em 1993, a Sinfonia No. 3 de Górecki alcançou

o topo das paradas clássicas e populares ao mesmo tempo—uma conquista sem precedentes para
um compositor vivo. Tavener despertou a consciência pública em 1997, quando sua Canção para

Athene foi apresentada no funeral da Princesa Diana. O público em todo o mundo correu
para comprar o CD.

Curiosamente, foi Stravinsky quem abriu o caminho de volta à música medieval. Como com Pärt e

Tavener, começou com um despertar espiritual. Em 1925, Stravinsky desenvolveu um abscesso


em seu dedo, doloroso o suficiente para quase cancelar um próximo concerto de piano. “Um
tanto para sua própria surpresa, ele foi a uma igreja, ajoelhou-se e pediu ajuda divina.”
O dedo continuou

a infeccionar, no entanto, mesmo quando ele caminhou para o palco. Ele pediu
desculpas ao público pelo que ele temia que fosse um mau desempenho e sentou-se
ao piano—quando de repente a dor cessou. Ele removeu a bandagem e descobriu que
seu dedo estava completamente curado. Stravinsky tomou a cura repentina como um
milagre. Ele retornou à Igreja Ortodoxa Russa e escreveu várias composições sagradas,
muitas das quais se baseiam no canto medieval. No topo da partitura para Sinfonia de
Salmos, pela primeira vez ele escreveu a mesma dedicatória que Bach anexou a todas as suas obras: “Para

a glória de Deus.”
Arte Vermelha em Dentes e Garras 167

Mais uma vez, vemos como artistas cristãos podem tomar emprestado elementos estilísticos que foram inspirados por

filosofias modernas, mas aprofundá-los e enriquecê-los com elementos da tradição cristã clássica.
Eles estão criando obras de arte que são genuinamente modernas, ao mesmo tempo em que expressam a beleza de uma

cosmovisão bíblica.

“Vendo” Cosmovisões
Através dos capítulos cinco e seis, traçamos a corrente de pensamento do Iluminismo, a

tradição Analítica, através de várias cosmovisões—empirismo, racionalismo,


darwinismo, naturalismo, positivismo lógico e análise linguística. Observamos como
essas cosmovisões gradualmente despojaram todas as dimensões transcendentes da
existência humana. De fato, toda cosmovisão secular é reducionista de alguma forma.
Ela se apropria de algum fragmento da criação e o trata como a história completa,
enquanto descarta e nega tudo o que está fora de suas categorias prescritas. Ela
propõe uma caixa e, em seguida, tenta encaixar todo o universo nessa caixa.
Reconhecer essa dinâmica fornece uma ferramenta poderosa para a apologética. Você pode estar totalmente

confiante de que qualquer cosmovisão não bíblica será muito “pequena” para dar conta
de toda a realidade. Haverá algumas coisas que não se encaixam na caixa. Nesse ponto,
a cosmovisão falha. Ela não tem os recursos para dar conta de toda a realidade criada.

Em contraste, o Deus bíblico é transcendente à criação. Portanto, uma cosmovisão bíblica não
precisa divinizar nenhuma parte da criação—nem precisa negar e denegrir
nenhuma outra parte. Como resultado, os cristãos podem afirmar o que é bom
onde quer que seja encontrado. Nestes capítulos, fomos encorajados a ver que os
cristãos não abandonaram seus postos como criativos culturais. Eles lutaram com
ideias seculares e encontraram maneiras de reafirmar uma cosmovisão bíblica
humana em palavras e imagens adequadas para cada época.
A maioria das pessoas se surpreende ao saber que um grande número de estilos artísticos foram inspirados por

cosmovisões do Iluminismo. Normalmente pensamos nos artistas como Românticos.


Então, vamos nos voltar para o movimento Romântico e traçar a história da tradição
Continental. A arte e a literatura nos ajudam a “ver” as cosmovisões se desdobrarem
diante de nossos olhos, para que possamos estar mais bem equipados para comunicar a
verdade bíblica em nossa própria geração.
Capítulo 7

“A arte é nossa religião, nosso centro de gravidade, nossa verdade.”

—Franz Marc

Romanceando a Tela
(A Herança Romântica)

Ninguém expressou a crise da era moderna melhor do que o escritor do início do século XX
Henry Adams. Um homem magro com olhos pensativos e um bigode caído, Adams se deparou com
o contraste entre a cultura medieval e a moderna
enquanto viajava pela França. Ao visitar a catedral de Chartres, ele caiu

profundamente sob o feitiço do medievalismo. Impressionou-o que o


imponente monumento gótico, com seus vitrais ricamente coloridos,
foi construído não pelo poder da máquina, mas pelo poder espiritual. A

catedral era uma expressão concreta de uma visão de mundo em que

o universo era a criação de um Deus amoroso. Comunidades


trabalharam juntas para devolver a Deus algo de genuíno
beleza.
Adams então visitou a Exposição de Paris de 1900 (uma espécie de

Feira Mundial) para examinar as conquistas tecnológicas da


era moderna. A Galeria de Máquinas incluía uma enorme e giratória
turbina a vapor para gerar energia elétrica. Para Adams, o
7-1 Catedral de
gerador pulsante tornou-se um símbolo potente da Revolução Chartres Rosácea, 1230
Poder espiritual
Industrial e da nova sociedade que estava criando - uma onde a
motivação central não era amar a Deus, mas aproveitar o poder tecnológico para satisfazer puramente

167
168 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

desejos materiais. A eficiência implacável da máquina parecia falar de um universo


governado por forças inexoráveis e mecânicas, em vez da vontade de Deus. Como
Adams colocou, ele começou a ver “linhas de força ao seu redor, onde sempre viu
linhas de vontade [divina]”. Sentindo que não tinha escolha a não ser aceitar a nova
visão de mundo, Adams mentalmente “entrou na teoria mecânica do universo”.

Seduzido pela Máquina


Como toda alternativa ao cristianismo, a visão de mundo mecanicista era essencialmente um substituto

religião, um ídolo mental. De pé diante do enorme motor zumbindo do gerador, Adams foi tomado por uma
sensação de admiração - até mesmo adoração. Pois adoração é “a expressão natural do homem diante

força silenciosa e infinita”, como ele colocou. Ele até


escreveu uma “Oração ao Dínamo” alertando que
os humanos devem dominar a tecnologia ou então serem

dominados por ela.

A luta de Adams para se adaptar à modernidade foi

relatada em seu livro de 1918 A Educação de


Henry Adams, que se tornou um literário espetacular-
sucesso ary. Depois de ganhar um Prêmio Pulitzer, foi
7-2 Galeria de Máquinas,
Exposição de Paris, 1900
nomeado o livro número 1 na lista da Biblioteca Moderna
Poder da máquina
de 100 Melhores Livros de Não Ficção do Século Vinte

Século. Claramente, a crise pessoal do autor tocou um ponto sensível. Muitos leitores
compartilharam sua preocupação de que a cultura ocidental havia cruzado um abismo.
“Para o que suas reflexões apontam”, disse um revisor, “é nada menos que o rápido
colapso da cultura ocidental à medida que a ciência substitui a religião e as pessoas
desumanizadas oram cada vez mais às máquinas em vez de a Deus.”
Adams era particularmente sensível à mudança nas visões de mundo porque era um romântico.
O romantismo surgiu como uma reação contra as visões de mundo do Iluminismo e
permaneceu uma contracorrente potente até os nossos dias. Nos capítulos 5 e 6,
examinamos a família de visões de mundo que eram herdeiras do Iluminismo - a
tradição analítica. Inspirando-se na história inferior de Kant sobre a natureza, essas
visões de mundo eram reducionistas. Todos eles tentaram reduzir a realidade
para caber em uma caixa: empirismo (caixa dos sentidos), racionalismo (caixa da razão),
naturalismo (caixa da natureza), materialismo (caixa da matéria), para citar apenas os
mais influentes. Agora nos voltamos para a família de visões de mundo que eram
herdeiras do Romantismo - a tradição Continental. Estes eram pensadores e artistas que
se inspiraram na história superior de Kant sobre a liberdade.
No entanto, essa tradição deu origem a caixas reducionistas próprias, que
devemos aprender a identificar, criticar e combater, a fim de nos opormos
ao poder destrutivo que continuam a exercer em nossos próprios dias.
Romanceando a Tela 169

Sermões em Pedras
Para nos situarmos, vamos relembrar a visão geral das duas tradições no capítulo 4. Como
vimos lá, o Iluminismo levantou um sério desafio às artes e ao próprio conceito de
verdade. A física clássica parecia sugerir uma visão de mundo de pura matéria em
movimento. Átomos batendo no vazio. As únicas coisas consideradas reais eram massa,
velocidade e extensão — coisas que podiam ser quantificadas e descritas em fórmulas
matemáticas. Estas eram chamadas de quan-
tidades. Por outro lado, sensações como cor, som, textura, paladar e cheiro eram chamadas de qualidades.

Elas não eram consideradas reais da mesma forma. Em vez disso, dizia-se que
eram efeitos subjetivos produzidos por átomos atingindo nossos sentidos.
O termo qualidadefoi estendido para incluir tudo o que não pode ser pesado matematicamente,

contado e medido — como ideais morais, propósito, amor e beleza. Dizia-se também
que estes eram ilusões produzidas pela mente humana. Eles não tinham lugar em
um mundo mecanicista. Como diz o historiador Alexandre Koyré, a visão de mundo
mecanicista rejeitou “nosso mundo de qualidade e percepção sensorial, o mundo em
que vivemos, amamos e morremos”. Em seu lugar, a ciência substituiu “outro
mundo — o mundo da quantidade, da geometria reificada, um mundo em que . . .
não há lugar para o homem.” Um mundo em que os humanos se sentiam alienados.
Traçamos os contornos dessa visão de mundo nos capítulos 5 e 6. Mas para compreender totalmente o choque e a

alienação que ela produziu, precisamos voltar ainda mais, à visão de mundo medieval e
renascentista que ela substituiu. Uma metáfora comum na época era que a criação é um
livro escrito por Deus. Portanto, parecia apropriado interpretá-la da mesma forma que
o outro livro de Deus, a Bíblia. Isso levou à ideia de que a criação é sobreposta com
múltiplas camadas de significados morais e espirituais.
Os estudiosos chamam isso de visão de mundo emblemática porque

concebia a natureza como uma coleção de emblemas


(signos ou símbolos) a serem investigados em busca de
significado moral e espiritual. Entender a natureza era como
resolver um quebra-cabeça ou decifrar hieróglifos. Um
exemplo foi a História dos Animais de Conrad Gesner do
século XVI. Na entrada de Gesner sobre o pavão, por exemplo, lemos

o que autores antigos como Aristóteles disseram


sobre o pássaro. Aprendemos que o pavão está
associado à deusa Juno. Encontramos provérbios,
fábulas, lendas e até receitas de pavão. Em outras
palavras, na visão de mundo emblemática, o
objetivo não era descrever um organismo
fisiologicamente ou classificá-lo taxonomicamente
(como a ciência faria). O mais importante era
investigar uma complexa teia de associações que
7-3 Conrad Gesner
ligava o organismo à história, mitologia, religião e História dos Animais, 1558

cultura. Visão de Mundo Emblemática


170 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Pense nisso como a abordagem de Provérbios à natureza: Vá à formiga, ó preguiçoso! Aprenda com a formiga

a ser diligente. Pois, sem ter chefe, oficial ou governante, ela prepara seu pão no verão e
recolhe seu alimento na colheita. Em suma, a natureza ensinava lições espirituais e morais. “Os animais
eram personagens vivos na linguagem do Criador”, explica um historiador. “E o naturalista
que não apreciava ou entendia isso não conseguiu compreender o padrão do natural
3
mundo.”

A visão emblemática foi capturada em uma linha de Shakespeare em Como Gostais,quando um persona-
gem diz que encontramos “línguas nas árvores, livros nos riachos, sermões nas pedras”. Para o Renascimento

mente, isso não era antropomorfismo (atribuir conceitos humanos à natureza); a natureza realmente
tinha múltiplas camadas de significado. O importante a entender não eram as causas naturais
das coisas, mas o que elas nos ensinam.

A Mente Aprisionada
Tudo isso mudou com a ascensão da visão de mundo mecanicista. Ela despojou a natureza de seus significados morais

e espirituais, reduzindo-a a nada além de um mecanismo complexo - engrenagens e


engrenagens. Para os Românticos, essa foi uma redução chocante. Era quase como se o
mundo familiar que os humanos sempre conheceram agora estivesse dividido em dois
mundos separados e antagônicos. O mundo real era dito ser uma vasta máquina
funcionando por leis mecânicas inexoráveis ​- “duro, frio,
incolor, silencioso e morto”, nas palavras do historiador E. A. Burtt. Enquanto isso, o mundo que as
pessoas pensavam que estavam vivendo - um mundo de cores e sons, de moral e significado - foi

reduzido a um status puramente mental. A mente humana tornou-se como um


prisioneiro em uma sala escura, “um espectador insignificante e irrelevante” espiando
um universo alienígena que era totalmente indiferente às preocupações humanas.
Essa visão de mundo era atraente para os físicos porque os absolvia da necessidade de considerar
qualquer coisa que não pudesse ser explicada exclusivamente por sua própria disciplina. A realidade objetiva era

limitada ao que era matematicamente quantificável (quantidades). Todo o resto (qualidades) foi
rebaixado a uma criação da mente humana. Como diz Randall, os modernistas se tornaram adeptos de
“empurrar essas qualidades, tão inconvenientes para o físico matemático, para um tipo de coisa separado e

totalmente distinto, a mente.” Simplificando, a mente tornou-se “um depósito conveniente


5
para tudo na experiência que a física não lia na natureza mecânica.”
Tragicamente, o que foi “despejado” foi precisamente o que torna a vida digna de ser vivida. Como explica Sloan,

“Na visão mecanicista da natureza, não existem as qualidades ocasionadas pela experiência sensorial-
ência - cor, som e assim por diante - nem aquelas qualidades que têm a ver com a estética e a moral
experiência, com mente, significado e propósito. No entanto, essas qualidades constituem o mais importante
experiências que temos como seres humanos.” Não é de admirar que os românticos tenham achado o Iluminismo

visão de mundo alienante e desumanizadora.


Romanceando a Tela 171

A Árvore da Morte de Blake


As qualidades também são a própria essência das artes. Essencialmente, os artistas estavam sendo informados de que traficavam

em ilusões — que as cores em uma pintura ou os sons de uma sinfonia não eram reais,
estritamente falando. O papel do artista como um registrador do mundo natural foi
desafiado. Nas palavras do historiador Jacques Barzun, a ciência havia persuadido
pessoas instruídas “de que o universo era [nada] além da interação mecânica de
pedaços de matéria sem propósito”. Que impacto isso teve na estética?

Pessoas ponderadas na década de noventa [1890] disseram a si mesmas com toda a


seriedade que não deveriam mais admirar um pôr do sol. Afinal, nada mais era do que a
refração da luz branca através de partículas de poeira em camadas de ar de densidade
variável.

Da mesma forma, por que pintar um pôr do sol? Seria apenas pintar uma ilusão. Nas pungentes
8
palavras do filósofo Alfred North Whitehead, “Os céus perderam a glória de Deus.”
Muitos artistas românticos responderam tratando
a ciência como um inimigo. O poeta John Keats com-
reclamou que a ciência iria “desfazer um arco-íris”
e “cortar as asas de um anjo”, relegando ambos ao “o
catálogo enfadonho de coisas comuns.” William Blake
expressou a mesma reclamação de forma mais concisa: “A Arte

é a Árvore da Vida. A ciência é a Árvore da Morte.”


A aplicação da ciência através da tec-
7-4 Henry Gastineau
nologia parecia igualmente destrutiva. Durante a Nantyglo Iron Works, 1829
“Fábricas escuras e satânicas”
Revolução Industrial, encostas verdes foram enegrecidas

cidas por minas de carvão. As cidades foram sufocadas pela fumaça asfixiante das fábricas de algodão. Blake famosamente

os denunciou como “fábricas escuras e satânicas”. Charles Dickens, em The Old Curiosity Shop (1841),
deu voz a um lamento lírico:

[As] chaminés altas, amontoando-se umas sobre as outras, e apresentando aquela


repetição interminável da mesma forma monótona e feia, que é o horror de sonhos
opressivos, lançaram sua praga de fumaça, obscureceram a luz e tornaram o ar
melancólico imundo.

Não era realmente a ciência em si que os românticos se opunham. O que eles contestavam era a
filosofia materialista frequentemente apresentada como a inevitável implicação da ciência. E eles completamente

rejeitaram a visão iluminista da natureza como uma vasta máquina a ser controlada e explorada
para lucro. Para muitos românticos, a arte tornou-se um meio de protesto contra o mundo entorpecedor da
ciência e indústria racionalista — um meio de recuperar uma visão espiritualizada da natureza.
172 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

A Natureza como a Linguagem de Deus


Alguns Românticos permaneceram dentro de um contexto cristão. Caspar David Friedrich era um ardente

Luterano. Ele procurou resgatar a natureza do naturalismo, recuperando sua dimensão espiritual.
Sua Cruz na Montanha provocou controvérsia porque foi o primeiro altar a consistir principalmente

de uma paisagem. Seu objetivo, explica um historiador de arte, “era revitalizar a experiência da
divindade em um mundo secular que ficava fora dos limites sagrados da iconografia cristã tradicional.”

ROMANTISMO CRISTÃO

7-5 Caspar David Friedrich 7-6 Caspar David Friedrich


Cruz nas Montanhas, 1807 Cemitério da Abadia, 1810

Resgatando a natureza do naturalismo

O próprio Friedrich analisou a pintura nestas palavras: “A cruz está erguida sobre uma rocha,
inabalavelmente firme como a nossa fé em Jesus Cristo. Os abetos estão ao redor da cruz, perenes, durad-

ouros por todas as eras, como as esperanças do homem Nele, o crucificado.” Para Friedrich, rochas e
10
sempre-verdes não eram apenas objetos naturais. Eles eram símbolos da comunicação divina.

A Estratégia dos “Dois Universos”


Muitos Românticos, no entanto, sentiram que a ciência moderna de alguma forma havia desacreditado a ortodoxia

Cristianismo. Abandonando a unidade da verdade, abraçaram o dualismo kantiano. Sua


esperança era que as visões de mundo do Iluminismo que detestavam—empirismo,
racionalismo, materialismo, utilitarismo—pudessem ser seguramente contidas no andar
inferior de Kant. Ao mesmo tempo, o andar superior de Kant serviria como um domínio
independente onde valores humanos e espirituais poderiam ser protegidos. Por esta estratégia
de compromisso, os Românticos esperavam reter algum território cognitivo para as coisas
Romantizando a Tela 173

que as visões de mundo do Iluminismo haviam apagado do mapa conceitual


— coisas como espírito, liberdade, significado e beleza.
M. H. Abrams explica sua estratégia de dois andares nestas palavras: “Pela separação do
universo poético do universo empírico”, os Românticos esperavam “alcançar a distinção lógica
entre dois tipos, ou ‘universos’, de verdade” — entre “‘verdade racional’ e
‘verdade imaginativa’”.

A verdade de dois andares dos Românticos

VERDADE IMAGINATIVA
Mundo Criativo (Arte)
__________________________________________

VERDADE RACIONAL
Mundo Determinístico (Ciência)

A divisão foi expressa de várias maneiras. O poeta Goethe chamou-a de verdade natural versus artística
verdade. Mas qualquer que seja a frase que usassem, os Românticos começaram a falar explicitamente sobre uma bifurca-

ção da verdade em duas faixas paralelas. Como o mundo externo foi tomado pelo cientificismo, os
Românticos se retiraram para o mundo interior da mente e da imaginação.

Metafísica na Mente
Então eles partiram para a ofensiva e elevaram a mente e a imaginação a um status quase divino

status. Veja como funcionou. Antes de Kant, os empiristas haviam retratado a


mente humana como passiva. Eles ensinaram que as sensações criam impressões
na mente da mesma forma que um molde empurra impressões na argila. Essa era
a estratégia empirista para garantir que o conhecimento humano fosse objetivo,
confiável e confiável. Pois se a mente fosse passiva, então ela não distorceria os
dados que chegam pelos sentidos de forma alguma.
No entanto, o empirismo encontrou vários dilemas. Se o conhecimento é limitado apenas à sensação,
então não sabemos mais realmente muitas coisas que pensávamos que sabíamos — até mesmo conceitos tão funda-

mentais como causa e efeito. A pessoa que reconheceu o problema foi David Hume,
cujo nome já nos é familiar. Digamos que restringimos nossa atenção às informações
que chegam diretamente pelos sentidos, como decreta o empirismo. Onde em nossas
sensações detectamos conceitos metafísicos como causa e efeito? Em lugar nenhum,
disse Hume. Não importa o quão minuciosamente joeiramos nossas percepções
sensoriais, nunca encontramos nenhuma percepção de um poder causal. Tudo o que
realmente percebemos são eventos seguindo um ao outro. Na linguagem cotidiana,
podemos dizer, por exemplo, que o fogo causa calor. Mas tudo o que realmente
percebemos é a visão do fogo, seguido ou
acompanhado por uma sensação de calor. Com o tempo, desenvolvemos um hábito mental de esperar os dois
174 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

percepções para aparecerem juntas. Hume concluiu que o conceito de causalidade


realmente se refere apenas aos nossos hábitos e expectativas mentais. Não
podemos saber nada sobre se uma ordem causal existe no mundo real.
Mas se não sabemos nada sobre causalidade, então como sabemos alguma coisa? Não podemos

confiar no conhecimento científico, porque ele depende de relações de causa e efeito.


Outros conceitos metafísicos além da causalidade são igualmente suspeitos, como força
e matéria, tempo e espaço, a mente e o eu. Nenhuma dessas são impressões sensoriais.
Assim, de acordo com o empirismo, elas não nos dizem nada sobre o mundo real.

Quando Kant leu Hume, isso o abalou profundamente. Mais tarde, ele diria que Hume o despertou

de seu “sono dogmático”. A revolução científica havia revelado o incrível


poder do método científico para explicar a natureza. No entanto, aqui
estava Hume, demonstrando logicamente que a ciência era impossível.
Kant se propôs a salvar a ciência. Mas como? Ele decidiu que, se a causalidade não é algo que
percebemos no mundo fora da mente, então deve ser algo dentro da mente. Impressões
fluem através dos sentidos em um fluxo caótico, e é a mente que fornece as categorias
que moldam, modelam e organizam essas impressões — os conceitos de causa e efeito,
tempo e espaço, antes e depois. A mente é uma grade que impõe forma e ordem às
nossas percepções. Você poderia dizer que a mente contém seus próprios móveis nos
quais os hóspedes são forçados a se encaixar.
Assim, o legado de Kant foi a convicção de que a mente não recebe passivamente impressões
através dos sentidos, como os empiristas haviam dito. Em vez disso, ela ordena e organiza
ativamente as impressões sensoriais, como um cortador de biscoitos impondo formas na massa.
(Tocamos nisso brevemente no capítulo 4.) Assim, a ordem que pensamos descobrir na natureza
é realmente imposta por nossas mentes. O
rótulo filosófico para isso é idealismo. O filósofo Arthur Schopenhauer (ele próprio um ideal-

ista) colocou desta forma: O idealismo pega as “verdades eternas” que eram a base de toda a
filosofia anterior, “investiga sua origem e então descobre que isso está na cabeça do homem”.
Em outras palavras, o mundo não é uma complexidade bela e ordenada criada por Deus. Em vez disso,
é um fluxo caótico, e os humanos dão a ele ordem e estrutura. Embora Kant tenha permanecido um teísta de alguma

forma, ele não reconheceu Deus como a fonte da ordem natural, ou deu
graças. Em vez disso, “a mente humana assumiu o papel criativo de Deus”.
Isso foi revolucionário e Kant sabia disso. Ele chamou isso de sua revolução copernicana. Copérnico

havia colocado o sol no centro do sistema planetário. Agora Kant colocou


a mente humana no centro da realidade. De acordo com o idealismo, o
mundo como o conhecemos é constituído pela mente humana.

A Arte como Salvador

A revolução copernicana de Kant foi aproveitada pelos Românticos em sua busca por uma maneira
de superar a visão mecanicista da natureza do Iluminismo. A resposta parecia estar no
Romantizando a Tela 175

poder criativo divino que o idealismo concedeu à mente humana. A acusação empirista de que
as qualidades — cores, sons, significados — foram criadas pela mente não era mais uma
desvantagem. Em uma demonstração de força, os Românticos realmente a transformaram em
apoio para as artes. Pois se as qualidades

foram criadas pela mente, então o artista não era mais apenas um artesão,
mas um criador. O poeta Samuel Coleridge descreveu a criação artística como
“uma repetição na mente finita do eterno ato de criação no infinito EU SOU.” O
poeta Johann Gottfried Herder escreveu: “O artista se tornou um Deus criador.”
O idealismo permitiu que os Românticos argumentassem que a imaginação é realmente superior à mera

razão científica. Pois ela reencena o próprio trabalho de Deus ao criar


um novo mundo do nada. “A arte é mais divina que a ciência”, disse o
pintor do século XVIII John Opie, porque “a ciência descobre, a arte cria.”
Assim nasceu a noção agora familiar do artista como um profeta. William Wordsworth sentiu
que seu espírito havia sido “revestido com vestes sacerdotais” e escolhido “para serviços
sagrados”. William Butler Yeats disse que a arte se tornou para ele “uma nova religião,
quase uma Igreja infalível de tradição poética”. Entre os Românticos, diz Barzun, “A arte
se tornou a porta de entrada para o reino do espírito para todos aqueles sobre quem as
antigas religiões perderam o controle.”
14
No processo, ele acrescenta, a arte “herda todos os deveres da igreja”. E quais eram esses

deveres? Toda religião oferece uma interpretação do mundo, uma visão de mundo, uma contrapartida à
narrativa bíblica da Criação, Queda, Redenção. Traduzido em termos de visão de mundo, Criação refere-se a

uma teoria das origens: De onde viemos? Qual é a realidade última? Queda refere-se ao problema
do mal: O que há de errado com o mundo, a fonte do mal e do sofrimento? Redenção pergunta: Como

o problema pode ser resolvido? O que devo fazer para me tornar parte da solução? Estas são as
três questões fundamentais que toda religião, visão de mundo ou filosofia procura responder.
16
As respostas oferecidas pelo Romantismo foram adaptadas do neo-Platonismo. No neo-Platonismo,
a contrapartida da Criação, ou a fonte última de todas as coisas, é uma essência espiritual primordial
ou unidade referida como o Um, o Absoluto, o Infinito. Mesmo o pensamento não pode ser
atribuído ao Um porque o pensamento implica uma distinção entre sujeito e objeto — entre o
pensador e o objeto de seu pensamento. De fato, para os Românticos, o próprio pensamento
constituía a Queda,
a causa de tudo o que está errado com o mundo. Por quê? Porque introduziu
divisão na unidade original. Mais precisamente, a falha estava em um tipo
particular de pensamento — o reducionismo iluminista que havia produzido a
dicotomia superior/inferior em primeiro lugar. Coleridge escreveu que “o
instinto racional” representava “a tentação original, através da qual o homem
caiu”. O poeta Friedrich Schiller culpou o “Intelecto que tudo divide” pela
fragmentação, conflito, isolamento e alienação da sociedade moderna.
E o que nos redimiria desta Queda? A imaginação criativa. A arte restauraria o
significado e propósito espiritual que a ciência do Iluminismo havia retirado
do mundo. Em 1820, Thomas Campbell escreveu:
176 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Quando a Ciência da face da criação


O véu do encantamento se retira,
Que visões adoráveis cedem seu lugar
Para frias leis materiais!

A tarefa da arte e da poesia era desenhar o véu do encantamento de volta sobre a face da criação—exatamente

como a névoa e o luar suavizam e transformam uma paisagem, para usar uma analogia de Wordsworth.
Coleridge até elogiou um artista que aprendeu “a desenhar da Natureza através de óculos de gaze”
(uma forma primitiva de óculos de proteção).

Em suma, a imaginação do artista funcionaria como óculos cor-de-rosa. Iria re-


encantar o mundo, curar a alienação entre humanos e natureza e inaugurar a redenção.
Coleridge pegou emprestada (e distorceu) a imagem bíblica de uma festa de casamento entre Jesus e a
Igreja: A imaginação criativa traria um “casamento” entre a mente humana
e a natureza, uma “Reconciliação da Inimizade com a Natureza”, criando assim “uma nova Terra e um
17
novo Céu.”

Desespero Romântico
Havia uma fraqueza fatal no plano de salvação dos Românticos, no entanto. Se sua visão re-encantada

da natureza só pudesse ser vista através de óculos cor-de-rosa, seria realmente


algo mais do que uma ilusão? Coleridge pareceu admitir isso quando escreveu:

Nós recebemos apenas o que damos

E em nossa vida apenas a Natureza vive.

Em outras palavras, qualquer senso de parentesco que obtemos da natureza é apenas o que primeiro damos à natureza.

Se esperamos perceber algo além do “mundo frio e inanimado” da ciência mecanicista,


Coleridge continua que a visão deve vir de dentro:

Ah! Da própria alma deve emanar


Uma luz, uma glória, uma nuvem luminosa e bela

Envolvendo a Terra.
E da própria alma deve ser enviada
Uma voz doce e potente . . . .

Romanceando a Tela 177

Isto é, da alma humana emana toda a luz e glória que parecemos encontrar na
natureza, qualquer voz doce que parecemos ouvir. Para Coleridge, a imaginação não descobre
a beleza tanto quanto exerce seu próprio “poder de fazer beleza”.
Esta foi a revolução copernicana de Kant aplicada às artes. Até agora, a teoria estética
tinha sido fundamentada no conceito de criação: a arte era bela porque seu design refletia
o design de Deus na natureza. Falava da harmonia e do significado espiritual que realmente existem
18
porque o mundo foi criado por Deus. Mas Kant não acreditava mais que a natureza fosse divinamente

projetada. Assim, ele separou a beleza do conceito de design. Ele argumentou que a beleza na natureza
aparece como se fosse propositalmente projetada, mas na realidade não é. Em suas palavras, a natureza exibe

“finalidade sem propósito”. Essa frase como se entrega o jogo. Diz que estamos nos enganando
a nós mesmos. No idealismo de Kant, a beleza não é realmente uma característica dos objetos naturais em si. É

meramente um constructo mental que impomos à natureza. Um produto do “poder de fazer


beleza” da imaginação.

Esta foi a fonte da arrogância romântica — e, em última análise, do desespero romântico. Pois a
verdade é que os artistas não são seres semelhantes a deuses com o poder de criar do nada. Seres finitos
como nós não têm o poder de investir o mundo com beleza e propósito. E quando
o projeto falhou, como inevitavelmente aconteceu, os românticos experimentaram desilusão radical e
desespero. Vamos traçar essa trágica descida.

Espíritos e Feitiços
Em sua busca por uma religião substituta, os românticos recuperaram elementos sobrenaturais que

tinham sido banidos das artes pelo racionalismo iluminista. Eles reviveram mitos antigos, contos
de fadas e lendas folclóricas. Na poesia, Goethe foi o líder do movimento Sturm und Drang

(Tempestade e Ímpeto), compondo peças cheias de emoções tempestuosas e forças demoníacas. Em seu
poema Erlkönig, o título se refere a um rei elfo que atrai um menino moribundo para viver no mundo das fadas.

Carl Maria von Weber surpreendeu os frequentadores de ópera com Der Freischütz, que reintroduziu elementos sobrenaturais assustadores

como magia, feitiços, fantasmas e um pacto com o diabo. Ninguém


teve maior influência, no entanto, do que Richard Wagner com seu ciclo
do Anel baseado na mitologia nórdica, com suas Valquírias, Donzelas
do Reno, Valhalla e Götterdämmerung (a queda final dos deuses).
À medida que a era romântica chegava ao fim, sua visão foi continuada pelos simbolistas. Eles con-

tinuaram a dar à arte as mesmas duas funções: protestar contra as visões de


mundo do Iluminismo, servindo como uma religião substituta. Como Barrett
resume, por um lado, o Simbolismo representou “uma revolta metafísica contra
o tipo de mundo criado pelo positivismo e cientificismo da era presente”. Por
outro lado, os simbolistas consideravam a poesia não como “uma arte
meramente de fazer versos, mas um meio mágico de chegar a uma esfera de
Ser mais verdadeira e real. A poesia se torna um substituto para uma religião.”
178 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

IDEALISMO FILOSÓFICO
SIMBOLISMO

7-7 Carlos Schwabe 7-8 Arnold Böcklin


Morte do Coveiro, 1895 Ilha dos Mortos, 1880
A arte como uma religião substituta

Como os Românticos, os Simbolistas exploraram a mitologia e as imagens de sonhos. O dramaturgo


August Strindberg escreveu peças com títulos como Sonata dos Espectros e Uma Peça de Sonho. Eles acreditavam

que esses símbolos oníricos tinham um poder imenso porque funcionavam como janelas para uma
realidade superior. De onde veio essa convicção? Ela foi derivada do “conceito neoplatônico de
que as formas naturais eram símbolos vivos de uma realidade superior e que a imaginação do artista
20
era a chave que poderia revelar essas verdades espirituais.”

Isso pode parecer abstrato, mas podemos entendê-lo melhor focando nesse termo neo-

Platônico. Embora já tenhamos abordado essa filosofia algumas vezes, devemos agora cavar
mais profundamente, pois ela desempenhou um papel enorme na tradição Continental. O Neoplatonismo foi

fundado no século III por um filósofo grego chamado Plotino, que procurou imbuir
a filosofia com o poder inspirador de uma religião. Ele juntou elementos dos
principais pensadores ocidentais—Pitágoras, Platão, Aristóteles, os Estoicos—então lançou sua rede ainda mais

para incluir o pensamento oriental. Dessas diversas fontes, Plotino criou uma visão de mundo de “grande tenda”.

Você pode pensar no neoplatonismo como o movimento da Nova Era do mundo antigo porque ele
21
combinou elementos do Oriente e do Ocidente. Seu conceito central, como vimos antes, era que
a realidade última é o Um, o Absoluto. Este não era um Deus pessoal que pensa, sente, quer,
e age. Em vez disso, era uma essência ou substância não pessoal.
Mas como uma essência não pessoal cria o mundo, já que não pode conscientemente querer ou
agir? O Neoplatonismo respondeu que o Um era tão “cheio” de ser que simplesmente emanava outros
seres automaticamente, sem intenção consciente, como o sol irradiando luz ou uma fonte
Romanceando a Tela 179

água jorrando. O mundo era, portanto, uma emanação ou manifestação do ser divino.
Assim como uma fonte pode cair em cascata em sucessivas cachoeiras, o mundo
consistia em vários níveis de ser—primeiro uma sucessão de entidades espirituais (um
tanto como as fileiras de anjos), depois humanos, animais, plantas e, finalmente,
rochas e matéria inanimada. E assim como os raios do sol gradualmente desaparecem
na escuridão, assim em cada nível descendente, havia menos espírito e mais matéria.
A série inteira de emanações foi chamada de Escada da Vida ou Grande Cadeia do Ser.
O objetivo da vida era re-ascender a escada e re-unir-se em união mística com o Um.

De volta ao Império Romano, quando o neo-platonismo foi proposto pela primeira vez, seu principal apelo foi

que oferecia uma alternativa ao cristianismo. Durante os primeiros três séculos após
Cristo, a igreja cristã cresceu tão rapidamente que os pagãos começaram a procurar
uma filosofia atraente o suficiente para contrariá-la. O neo-platonismo parecia se
encaixar na conta. Não era apenas uma filosofia, mas também uma visão mística da
ascensão espiritual. Logo estava sendo usado como uma arma pelo paganismo em
sua batalha contra a igreja. Quando os imperadores romanos perseguiam os
cristãos, muitas vezes justificavam suas duras ações citando as palavras do filósofo
neo-platônico Porfírio, que era amargamente oposto ao cristianismo. No século IV, o
imperador Juliano tentou derrubar o cristianismo e restaurar o paganismo como a
religião oficial do Império Romano. Embora não tenha tido sucesso, a forma de
paganismo que ele procurou restabelecer era o neo-platonismo.

Platão e a Ciência Moderna


Apesar de sua hostilidade ao cristianismo, surpreendentemente os pais da igreja não rejeitaram o neo-Pla-

tonismo completamente. Pelo menos reconhecia a realidade de um reino espiritual,


em contraste com os filósofos materialistas do mundo antigo (como Epicuro e
Lucrécio). Consequentemente, muitos dos primeiros teólogos cristãos—Clemente,
Orígenes, Agostinho—estenderam a mão e tomaram emprestado argumentos
filosóficos do neo-platonismo para defender doutrinas como a existência da alma
humana. Agostinho até disse que sua conversão ao cristianismo foi ajudada por
“certos livros dos platônicos”, que os historiadores acreditam serem obras de
Plotino. (O termo mais preciso neo-platonismo não foi cunhado até o século XIX.)
O escritor cujo neo-platonismo teve a maior influência em tempos posteriores atendia pelo nome de

Dionísio, o Areopagita, um convertido de São Paulo mencionado em Atos 17:34.


Mais tarde, descobriu-se que ele era uma fraude que viveu quatrocentos anos
depois, então hoje ele é conhecido como Pseudo-Dionísio. No entanto, por séculos
seu trabalho foi considerado genuinamente apostólico e, portanto, altamente
reverenciado. Traduzido para o latim no século IX por João Escoto Erígena,
influenciou virtualmente toda a teologia medieval.
Durante o Renascimento, este cristianismo neo-platonizado tornou-se bastante popular entre os fi-

lósofos e artistas (capítulo 4). Também teve um impacto significativo na ascensão da ciência
moderna. Pegue o heliocentrismo, a ideia de que o sol, e não a terra, é o centro do sistema
planetário. De onde veio essa ideia? Foi inspirado pelo dualismo neo-platônico, no qual Deus é o
180 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

alma imanente do mundo material. E qual seria o lugar mais adequado para
a presença divina ser concentrada ou localizada? O sol. Assim como Deus é
a fonte espiritual da vida, o sol é a fonte física da vida na Terra. E onde o sol
deveria estar localizado? O lugar mais adequado era o centro do universo, a
única posição compatível com sua dignidade como um símbolo divino.
Detectamos um toque desse cristianismo neo-platonizado nos escritos de Copérnico, Kepler,

e outros defensores do heliocentrismo. Em seus escritos, Copérnico citou literatura


neo-platônica saudando o sol como “o Deus Visível”. Ele descreveu o sol como “a
Lâmpada, a Mente, o Governante do Universo [que] se senta como em um trono real
governando seus filhos, os planetas que circulam ao seu redor”. De forma semelhante,
Kepler escreveu que o sol “sozinho aparece, em virtude de sua dignidade e poder,
adequado para este dever motivador e digno de se tornar a casa do próprio Deus”.
Assim, o conceito de heliocentrismo surgiu não tanto por razões empíricas,
mas por razões filosóficas e espirituais.
Entre os primeiros químicos, o dualismo neo-platônico levou à convicção de que toda
substância consiste em matéria (chamada de elemento passivo) combinada com uma centelha divina interna

ou força vital (chamada de elemento ativo). O elemento ativo em qualquer substância era considerado
a fonte de sua potência—razão pela qual os rótulos nas embalagens de medicamentos ainda listam os “ingredientes ativos”.

Paracelso, um dos fundadores da abordagem química da medicina no século XVI,


século, decidiu que os ingredientes ativos ou espirituais poderiam ser descobertos por aquecimento e
destilação. Por exemplo, o álcool era referido como o “espírito do vinho”—razão pela qual as
bebidas alcoólicas ainda são às vezes referidas como espíritos.

Até mesmo o grande Isaac Newton reteve elementos do neo-platonismo, especialmente em sua teoria da

gravidade. Os cientistas mecanicistas de sua época ensinavam que causas e efeitos devem ter contato físico direto,

contato físico—assim como uma bola de bilhar só pode fazer outra bola se mover colidindo com ela. Mas
O conceito de gravidade de Newton funciona sem qualquer contato físico. A Terra não
empurra e puxa fisicamente a lua para mantê-la em sua órbita. Em vez disso, exerce uma força invisível e intangível. Para

pensadores mecanicistas, isso soava como mágica, não ciência. Eles reagiram da maneira que poderíamos reagir

a uma cena de filme quando um raio azul sai do dedo de um Jedi e faz uma nave espacial subir.
De onde, então, Newton tirou sua ideia de força? De um cristianismo neo-platonizado que
sugeriu que forças espirituais invisíveis—elementos ativos—representavam o poder imanente de Deus
trabalhando em e através da ordem criada. Como explica um historiador, o conceito de força “serviu
24
para Newton como uma manifestação do divino no mundo sensível”.

A Religião Estrelada de Van Gogh


Dado este breve histórico, podemos entender por que os Românticos ainda consideravam o neo-

Platonismo uma opção viável para reforçar uma visão espiritualizada da natureza. Eles estavam especialmente
apaixonados pelo conceito de criação como emanação, com sua metáfora de um sol radiante ou
Romanceando a Tela 181

uma fonte transbordante. Eles até aplicaram as imagens de metáforas à criatividade do artista. Arte
era uma lâmpada irradiando sua própria luz interior para o mundo, uma fonte de emoções
transbordantes. Wordsworth definiu a poesia como “o transbordamento espontâneo de
sentimentos poderosos”. O próximo grande movimento após o Simbolismo passou a ser
chamado de Expressionismo.
Os expressionistas rejeitaram o ditame impressionista de que o artista deveria pintar apenas o que

o olho vê. O pintor expressionista Alexej von Jawlensky disse: “O artista expressa apenas o que
tem dentro de si, não o que vê com os olhos”. O historiador de música Donald Grout resume

a diferença: Enquanto o Impressionismo “visava representar objetos do mundo externo como percebidos
em um determinado momento”, o Expressionismo “buscava representar a experiência interior”.

EXPRESSIONISMO INICIAL

7-9 Paul Gauguin 7-10 Vincent Van Gogh


Visão após o Sermão, 1888 Noite Estrelada, 1889

A expressão da experiência interior

“Visão após o Sermão” de Gauguin não tem a intenção de mostrar uma cena realista - observe a
perspectiva plana, o fundo vermelho, a falta de qualquer fonte de luz visível. Em vez disso, retrata a ideia nas

mentes das mulheres enquanto oram. (Elas acabaram de ouvir um sermão sobre Jacó lutando com o
anjo.) Como Rookmaaker explica, Gauguin queria “superar o naturalismo extremo dos
26
impressionistas”, encontrando maneiras de “incluir mais do que o olho pode ver”.

As estrelas girando e as árvores flamejantes de Van Gogh são igualmente expressionistas. Quando jovem,

Van Gogh queria se tornar um pregador, mas foi rejeitado pela escola de teologia onde
ele tentou se inscrever. Intimado, ele se formou como missionário e trabalhou como evangelista em uma pobre

distrito de mineração de carvão no sul da Bélgica. Determinado a compartilhar a pobreza dos mineiros, ele doou

seus pertences e dormiu no chão. Infelizmente, a escola missionária não apreciou sua
paixão, e ele foi demitido. Finalmente, Van Gogh percebeu que a arte também pode ser um meio de servir
Deus. Suas estrelas girando e paisagem contorcida expressam “uma visão que, em última análise, pertence mais a
27
o reino da revelação religiosa do que às observações astronômicas”.
182 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Às vezes, Van Gogh dizia que tentava pintar em um estilo mais naturalista. Mas logo ele
sentiria “uma terrível necessidade de—devo dizer a palavra?—religião. Então eu saio à noite e pinto
as estrelas.”

Sinceridade über Alles


A definição de arte como expressão pessoal foi uma novidade histórica. Desde o alvorecer da

cultura ocidental, a arte tem sido definida em termos de refletir ou representar a


realidade de alguma forma. Os artistas da Renascença gostavam de citar a máxima
de Cícero de que a arte é “uma cópia da vida, um espelho do costume, um reflexo da
verdade”. Leonardo da Vinci disse: “A mente do pintor deve ser como um espelho”.
Dada esta definição, o principal critério de uma obra de arte era sua veracidade.
Oferecia uma representação verdadeira? O espelho era fiel ao original? O objetivo
não era necessariamente a verdade literal, mas a veracidade da experiência vivida.
Começando com os Românticos, no entanto, a metáfora de um espelho refletindo o mundo foi
substituída pela metáfora de uma lâmpada lançando sua própria luz para iluminar o mundo. A imaginação criativa do artista

imbuiria o mundo com um significado mais profundo. Dada esta definição, o


principal critério da arte não era a verdade, mas a sinceridade. A questão não era
se uma obra de arte era fiel ao mundo exterior, mas se era fiel ao mundo interior
do poeta ou artista. Correspondia ao estado de espírito do artista? Era uma
expressão genuína de sua vida interior? A arte não era mais medida por padrões
de habilidade ou artesanato, mas por sinceridade. Os artistas não reconheciam
mais a responsabilidade de serem fiéis à natureza, mas apenas ao seu eu interior.
Isso explica por que eles se tornaram dispostos a distorcer a percepção sensorial
para expressar sua visão interior. Gauguin pinta a grama de vermelho. Van Gogh
faz estrelas que giram como rodas de carroça. O que quer que ajudasse a
transmitir significado ou emoção.

A Falência da Ciência
Por volta da Primeira Guerra Mundial, o Expressionismo ficou muito mais sombrio. A guerra foi tomada como uma acusação

da ciência e da racionalidade ocidental. O progresso tecnológico não havia criado o


paraíso prometido na terra. Em vez disso, criou máquinas de matar grotescamente
eficientes—metralhadoras, tanques, bombas, gás venenoso. A carnificina resultante
foi em uma escala nunca testemunhada antes. Centenas de milhares foram
massacrados às vezes em uma única batalha. “A razão se tornou irracional e
desumana—técnica sem alma, técnica sem consciência”, escreve Kuspit. Também
“se tornou agressivamente materialista nesta sociedade, desumanizando as
pessoas e permitindo a desumanidade que grassou na Primeira Guerra Mundial.”
Muitos sentiram que a Europa havia cometido suicídio cultural. “A ciência em que depositei minha fé
está falida”, lamenta um personagem na peça de George Bernard Shaw de 1931, Too True to be Good. “Suas

crueldades [foram] mais horríveis do que todas as atrocidades da Inquisição . . . seus


conselhos que deveriam ter estabelecido o milênio levaram diretamente ao suicídio europeu.”
Romantizando a Tela 183

A cultura ocidental parecia ter perdido seu centro unificador. Desde os gregos, as artes tinham
sido informadas pela “ideia de que uma ordem transcendente ou unificadora governava o cosmos”, diz
Walford. Mas agora, “fragmentação, acaso, caos e dissonância pareciam metáforas artísticas mais adequadas
29
para a experiência humana do que a ordem formal da arte estabelecida.” Os artistas começaram a

distorcer ainda mais suas imagens para criar uma sensação de um mundo hostil e alienante. Eles expressaram

temas de raiva e ansiedade através de ângulos agudos, linhas irregulares e cores fortes. Em uma linha de
T. S. Eliot, o mundo parecia ter entrado em colapso em “uma pilha de imagens quebradas”.

EXPRESSIONISMO

7-11 Ernst Kirchner 7-12 Max Beckmann


Inferno dos Pássaros,
Auto-Retrato como Soldado, 1915 1938

“Uma pilha de imagens quebradas”

Kirchner e Beckmann sofreram esgotamentos nervosos enquanto serviam na Primeira Guerra Mundial.
Embora a mão de Kirchner não tenha sido realmente amputada, a imagem simboliza seu medo de perder sua criatividade

atividade (sua mão de pintar), enquanto telas inacabadas se acumulam atrás dele. Mais tarde, o regime nazista

denunciou as pinturas de ambos os homens como “degeneradas” e ordenou que centenas delas fossem destruídas.

Kirchner cometeu suicídio. Beckman mal escapou e


imediatamente pintou Inferno dos Pássaros, que retrata um homem sendo

esfolado vivo por nazistas, alguns dos quais estão levantando os braços em

a saudação nazista.

No drama e no cinema, o senso de alienação foi transmitido


por distorções no próprio cenário — paredes que se inclinam precariamente

ou se projetam no ar. O Gabinete do Dr. Caligari, um marco


filme expressionista, apresentava janelas tortas, portas tortas,
7-13 Robert Wiene
e passarelas deformadas. O Gabinete do Dr. Caligari (1919)
Expressionismo no cinema
184 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Essas obras eram bonitas? Elas não foram feitas para serem. Diante de tanta crueldade e
desumanidade, parecia que só se podia criar belas obras de arte entregando-se à pieguice
sentimental. “Os expressionistas sentiam tão fortemente o sofrimento humano, a pobreza, a violência e
a paixão, que se inclinavam a pensar que a insistência na harmonia e beleza na arte era
apenas fruto de uma recusa em ser honesto”, escreve Gombrich. “Tornou-se quase uma questão de honra

para eles evitar qualquer coisa que cheirasse a beleza e polimento, e chocar o 'burguês'
30
para fora de sua complacência real ou imaginária.”

A Arte Clama por Espírito


Apesar de sua sensibilidade ao sofrimento — ou talvez por causa dela — os expressionistas permaneceram

abertos ao reino espiritual. “O homem clama por sua alma”, escreveu o crítico de arte Hermann Bahr em 1916.
“A arte também clama, na escuridão profunda, clama por ajuda, clama por espírito: isso é Expressionismo.”

EXPRESSIONISMO RELIGIOSO

7-14 Max Beckmann 7-15 Emil Nolde 7-16 Georges Rouault


Descida da Cruz, 1917 Pentecostes, 1909 Crucificação, 1936

“A arte clama por espírito”

Muitos expressionistas investigaram o que o Evangelho Cristão significava sob tais condições. Quando
Beckmann retornou da Primeira Guerra Mundial, ele executou uma série de pinturas bíblicas para expressar o que

ele chamou de “misticismo viril”. Seu Descida da Cruz inclui um sol escurecido, um símbolo de
desespero emprestado de um retábulo do século XV. O topo da escada desaparece no
topo da pintura, como para enfatizar que a descida de Cristo não foi apenas da cruz, mas, em última análise,

do céu (cf. Fil. 2:6–8).


Nolde foi criado em uma família protestante que era intensamente religiosa, mas seus rostos semelhantes a máscaras

e cores estridentes eram muito expressionistas para os nazistas. Ele foi outro pintor denunciado por
o regime nazista como “degenerado” e proibido de pintar mais.
Georges Rouault trabalhou para um fabricante de vitrais quando jovem, uma experiência refletida em
suas fortes linhas pretas e cores luminosas. Um católico romano devoto, Rouault frequentemente retratava
Romanceando a Tela 185

os párias e marginalizados da sociedade — palhaços, criminosos, prostitutas. Após a Grande Guerra, ele dedicou
grande parte de seu trabalho a imagens de sofrimento, incluindo uma série de gravuras intitulada Miserere,

que significa Tenha Misericórdia, do título em latim do Salmo 51. As gravuras retratam os horrores da guerra,

intercaladas com imagens do sofrimento de Cristo. A última é intitulada “pelas suas


pisaduras fomos sarados” (Isa. 53:5), transmitindo uma profunda mensagem de redenção.
Nestes exemplos, os artistas cristãos estavam trabalhando para desenvolver estilos que fossem genuinamente moder-

nos e também genuinamente bíblicos. Os resultados foram dramaticamente


diferentes da arte ensolarada, sentimental e até enjoativa que entulha a maioria
das livrarias religiosas hoje. O Expressionismo Cristão era muito mais honesto
sobre a crueldade e a corrupção endêmicas em um mundo caído e pecaminoso.
Como resultado, mesmo hoje pode nos atrair para uma apreciação muito mais rica
da surpreendente afirmação do evangelho de que o próprio Deus entrou na agonia
da condição humana e compartilhou nosso sofrimento, a fim de nos redimir.

Pintores e Panteístas
Alguns artistas dentro da tradição Romântica decidiram que a única maneira de se conectar com as reali-

dades espirituais era através da arte abstrata. No capítulo 5, encontramos a Abstração


Geométrica, com suas linhas pretas retas e blocos de cor primária. Mas agora
encontramos uma forma diferente de arte abstrata, muitas vezes referida como
Abstração Biormórfica. Foi inspirada pelo Romantismo e expressou uma visão de mundo
espiritual e orgânica.
Para entender a visão de mundo orgânica, devemos mergulhar na história da ciência novamente. A revolução cien-
31
tífica começou em campos como física e astronomia, mas ficou para trás na biologia. Isto
não é surpreendente quando você considera que a física é comparativamente simples
e universal. Galileu podia derrubar balas de canhão da Torre Inclinada de Pisa e
extrair leis generalizadas que se aplicam universalmente. Por outro lado, plantas e
animais são diferentes em todo o mundo. Eles também são muito mais complexos do
que qualquer sistema físico. Como resultado, um relato mecanicista dos seres vivos
sempre foi mais uma promessa do que uma realização real. Por exemplo, a metáfora
do mecanismo de relojoaria de Descartes para o organismo foi extremamente
influente, como vimos em capítulos anteriores. Mas suas teorias biológicas reais eram
extremamente simplistas e grosseiras, diz o zoólogo Ernst Mayr. Elas ofenderam
“todo biólogo que tivesse o menor entendimento de organismos”.
No século XIX, a teimosa recusa dos seres vivos em se encaixarem em qualquer simplista

explicação mecanicista provocou uma rebelião entre os biólogos. Eles começaram a


perguntar: Por que a máquina deveria ser a metáfora da natureza? Por que não o
organismo? Os Românticos decidiram que o mundo não era uma máquina estática,
mas um organismo em crescimento e desenvolvimento. Do neo-Platonismo, eles
tomaram emprestada a ideia de que a natureza era permeada por uma essência
espiritual, alma ou Força Vital. No Romantismo, diz Randall, “o mundo não era uma
máquina, estava vivo, e Deus não
Em seu erasobre
Ensaio tanto seu criador
o Homem, quanto
Alexander sua alma,
Pope descreveu sua cadeia
a “vasta vida”.de
ser” nestas palavras:
186 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Todos são apenas partes de um todo estupendo


Cujo corpo é a Natureza, e Deus, a Alma.

Para os Românticos, explica o teólogo Ian Barbour, “Deus não é o criador externo de uma
34
máquina impessoal, mas um espírito que permeia a natureza.” E se a matéria fosse permeada de espírito,

a implicação parecia ser que a própria matéria tem muitas das qualidades que normalmente associamos
com espírito ou mente—vontade, percepção, sensibilidade, inteligência e assim por diante. Os humanos não estão sozinhos

em um universo alienígena, afinal. Eles desfrutam de um parentesco espiritual com a natureza.

Muito antes de Darwin


Se a natureza tem um espírito ou vida interior, então não é estática. Pois qual é a característica central

da vida? Crescimento e desenvolvimento. Muitos biólogos românticos voltaram sua atenção para
a embriologia. No embrião em desenvolvimento, eles esperavam descobrir uma Lei interna de
Desenvolvimento que fornecesse pistas para os estágios do desenvolvimento da própria vida.

Isso marcou o início da consciência histórica e alterou permanentemente a


mente ocidental. Por mais de um milênio, a imagem neoplatônica de uma Escada
da Vida ou Grande Cadeia do Ser foi estática—uma lista fixa ou inventário das
coisas que existem no universo, de seres espirituais a humanos, animais, plantas e
rochas. O indivíduo pode procurar subir pelos degraus para se fundir com o Um
(assim como no Hinduísmo, o indivíduo procura ascender a níveis mais elevados de
ser em cada reencarnação). Mas a própria escada era estática.
Então, no século XIX, a Escada da Vida tornou-se dinâmica. Para imaginar a mudança,
você pode pensar na escada sendo inclinada para se tornar uma escada rolante—uma
série de estágios pelos quais todo o universo se move para cima ao longo do tempo:
primeiro a matéria, depois a vida, depois a consciência. E porque Deus é a alma do
mundo, ele evolui junto com ele. Tudo é impulsionado por um esforço universal para
níveis cada vez mais elevados na escada rolante.
O pensador que inclinou a escada foi Hegel. Escrevendo no início de 1800, Hegel ensinou
que o Espírito Absoluto ou Mente se desdobra dialeticamente ao longo do tempo.
A Força Vital tornou-se uma divindade imanente, um Deus-em-formação. Assim,
muito antes de Darwin, os Românticos já haviam abraçado uma forma
espiritualizada de evolução. Isso explica por que a evolução biológica de Darwin
foi recebida tão rapidamente quando apareceu pela primeira vez em 1859—não
tanto por cientistas, mas por pensadores em áreas como história, filosofia,
teologia e as ciências sociais. Também explica, Randall observa secamente, “por
que eles uniformemente o entenderam mal... e por que eles não conseguiram ver
o real significado de seu pensamento.” Ou seja, eles pensaram que poderiam usar
Darwin para apoiar sua própria versão espiritualizada da evolução, sem perceber
que ele estava propondo uma versão completamente materialista.
Para ter certeza de que reconhecemos a diferença, considere um exemplo. Jean Baptiste Lamarck pro-

pôs uma teoria da evolução em 1801 e é tipicamente listado como um precursor de Darwin. Mas o fato
Romanceando a Tela 187

é que os dois homens viviam em mundos conceituais completamente diferentes. A


teoria de Darwin invoca um processo puramente mecanicista. As variações aparecem
aleatoriamente e são então peneiradas pelo processo cego e automático da seleção
natural. Em contraste, a teoria de Lamarck invoca um poder vital ou Força da Vida
progredindo em direção a um fim. À medida que uma girafa se esforça e se estica para
alcançar a folhagem superior, seu pescoço se alonga até que, ao longo de várias
gerações, uma nova espécie emerge. O que impulsiona a evolução é a vontade ou o
esforço interno do organismo - uma versão biológica da ideia romântica de um esforço
universal por níveis mais elevados de perfeição. “Em nenhum sentido sério, portanto, a
teoria da evolução de Lamarck deve ser tomada como o prelúdio científico da de
Darwin”, argumenta o historiador Charles Coulston Gillispie. Em vez disso, “foi um dos
exemplos mais explícitos da contra-ofensiva da biologia romântica” contra o
reducionismo científico.
Como a história é escrita pelos vencedores, não percebemos mais quanto tempo as versões românticas

da evolução permaneceram populares. A teoria de Darwin não foi elevada ao


status de ortodoxia científica até a década de 1930, após a redescoberta da
genética mendeliana. (A teoria de Darwin se baseia em variações aleatórias, mas
ele não sabia como elas surgiram.) Até então, os conceitos de evolução
espiritualmente dirigida eram amplamente aceitos porque pareciam apoiar o
conceito de providência divina dirigindo o processo. “A ideia de ‘Evolução’ provou
ser uma dádiva para os buscadores religiosos”, escreve Randall, porque injetou
“Deus e a Providência no próprio processo evolutivo”. Forneceu uma versão da
evolução que era teleológica (dirigida por um objetivo ou propósito). Assim,
garantiu às pessoas que “há um Propósito no mundo, os ideais do homem
importam para a Natureza, o Céu será alcançado, em forma substancial, na terra”.
Em outras palavras, garantiu às pessoas que, ao contrário do que diz o materialismo, propósito e significado

não eram estritamente mentais, localizados apenas na mente humana. Eles estavam embutidos na natureza também

bem. E os humanos não eram aberrações dolorosamente deslocadas em um universo


mecanicista. Em vez disso, as mais profundas aspirações da mente humana encontraram
apoio e confirmação em uma Mente Absoluta permeando a natureza. Os humanos
foram unidos à natureza por um espírito comum. “Tudo tem uma vida própria”, escreveu
Coleridge, e “somos todos Uma Vida”. A evolução tornou-se um processo pelo qual
a Vida Divina se revela através da história. Como Randall conclui, “Quando a ciência pareceu
tirar Deus do universo, os homens tiveram que deificar alguma força natural, como ‘evolução’”.

Hegel e a Bíblia de Recorte e Colagem


Quando a evolução foi deificada, no entanto, teve que encontrar uma maneira de depor sua divindade rival - ou seja,

o Deus bíblico. Isso foi realizado tornando a própria teologia sujeita ao processo
evolutivo. Se a história era o desdobramento progressivo do Espírito ou Mente Absoluta,
então as próprias ideias devem evoluir - lei, ética, filosofia, até mesmo teologia. Hegel
ensinou que nenhuma ideia é verdadeira em um sentido absoluto ou atemporal. O que é
considerado verdadeiro em um estágio da história dará lugar a uma verdade “superior”
no estágio seguinte. Este relativismo radical é chamado de historicismo porque diz que há
nada que esteja fora do processo histórico em constante mudança.
188 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

O problema com o historicismo, claro, é que ele se autodestrói. Ele comete suicídio. Pois, se
39
tudo é historicamente relativo, então o mesmo vale para a ideia do próprio historicismo. Ao fazer suas alegações,
Hegel teve que presumir que tinha o poder de se colocar acima da história e vê-la objetivamente como ela
realmente é. No entanto, o historicismo diz que nada está fora da história. Assim, é impossível para um históri-

cista afirmar que o historicismo é verdadeiro. A única maneira de evitar o suicídio é ser logicamente inconsistente:

Hegel teve que isentar suas próprias visões das categorias historicistas que ele aplicava a todas as outras
visões.

Apesar dessa contradição interna, o historicismo logo foi imposto à Bíblia—com


efeitos corrosivos. O historicismo afirma que a Escritura não é revelação divina. É meramente um registro
de concepções humanas de Deus, que evoluem ao longo do tempo do simples ao complexo. O primeiro estágio

na evolução da religião é o totemismo ou animismo (que parecia simples para o século XIX
pensadores). O próximo estágio é o politeísmo (muitos deuses), depois o henoteísmo (um deus principal, como

Zeus no Monte Olimpo), depois o monoteísmo (um deus). O estágio final é o monoteísmo ético
de profetas como Amós e Oséias, que ensinaram que Deus não é apenas um, mas também santo.

A Bíblia exibe essa progressão evolutiva? Claramente não. Ensina o monoteísmo ético
ismo desde as páginas iniciais de Gênesis Um. Os seguidores de Hegel responderam dizendo, em essência,

que isso apenas prova que a Bíblia não é confiável e cheia de erros. Eles pegaram tesouras e cola para
o texto e o reorganizaram até que ele se encaixasse em sua sequência preconcebida. Passagens que expressam

uma noção crua ou primitiva de Deus (como versículos que descrevem Deus como zangado) foram datadas anteriormente,

enquanto passagens consideradas sublimes ou avançadas foram datadas posteriormente. Para dar ao projeto um tom de cien-

tific credibilidade, em 1878 o aluno de Hegel, K. H. Graf, junto com seu aluno Julius Wellhausen,
propôs um método de “alta crítica” que dividiu os livros do Antigo Testamento e
re-atribuiu as partes a diferentes datas e autores. Isso ficou conhecido como Graf-Wellhausen
40
hipótese.
A ironia é que toda essa teorização inspirada em Hegel ocorreu antes que a arqueologia tivesse sequer

emergido como uma disciplina moderna. Assim que o fez, as alegações da alta crítica encalharam
nos fatos. Para dar apenas um exemplo bem conhecido, os críticos argumentaram que Moisés não poderia

ter escrito o Pentateuco porque a escrita ainda não havia sido inventada em
seu dia. Mas os arqueólogos logo descobriram que a escrita havia sido inventada
muito antes de Moisés. Hoje, toda criança aprende sobre o Código de
Hamurabi, que precedeu Moisés em várias centenas de anos. Ainda antes,
nos dias de Abraão, a maioria das cidades e templos na Babilônia tinha bibliotecas contendo

dicionários, gramáticas e listas de vocabulário em vários idiomas para


uso por tradutores. Os escritores do Antigo Testamento viviam em sociedades altamente alfabetizadas, com-
41
plexas e multiétnicas.
No entanto, os críticos continuam a insistir que grande parte da Bíblia foi
7-17 Código de Hamurabi
composta muito depois dos eventos que descreve, de modo que o texto está incrustado com
Séculos antes de Moisés
Romanceando a Tela 189

mito e lenda. E a arqueologia continua a confundir os críticos. Vários textos


antigos foram desenterrados: as tábuas de Nuzi, as tábuas de Mari, as
tábuas de Ebla, o obelisco de Salmaneser, o cilindro de Ciro, as cartas de
Láquis. Repetidas vezes, detalhes históricos mencionados nas Escrituras
provaram ser precisos—nações, cidades, rios, rotas comerciais, líderes
políticos, costumes, tradições. Em muitos casos, esses detalhes foram
completamente esquecidos mais tarde. É dificilmente crível que um
escritor vivendo centenas de anos depois inventaria histórias envolvendo
7-18 Cilindro de Ciro
nomes, lugares e costumes que por acaso correspondiam Conquistaa fatos
Persa que
da Babilônia, eram
539 a.C.
Detalhes que por acaso correspondem aos fatos?
desconhecidos por séculos.

Importando Buda
A filosofia de Hegel apareceu antes que qualquer um desses fatos arqueológicos estivesse disponível, então era

inteiramente especulativa. No entanto, teve um impacto enorme. Versões


espiritualizadas da evolução se tornaram extremamente populares, especialmente
entre figuras artísticas e literárias. Eles começaram a se reunir em diversas técnicas
espirituais e místicas—astrologia, médiuns, sessões espíritas, escrita automática,
pesquisa psíquica e guias espirituais. Eles abraçaram filosofias ocultistas como a
Teosofia, que tinha raízes no neo-Platonismo. Em eras anteriores, como vimos, os
teólogos procuraram tornar o neo-Platonismo compatível com o Cristianismo. Mas
agora as pessoas tendiam a ficar mais intrigadas por suas afinidades com o
pensamento oriental. Schopenhauer se tornou o primeiro filósofo a importar o
Budismo completo para apelidou
(Nietzsche o Ocidente.
a filosofia de Schopenhauer de “Budismo Europeu”.) Porque

ele também ofereceu uma teoria estética altamente influente, as ideias


orientais de Schopenhauer penetraram profundamente no mundo da arte.
No entanto, foi uma médium russa chamada Madame Blavatsky quem teve o maior impacto
em artistas. No final do século XIX, ela desenvolveu a Teosofia em sua forma moderna. Ela

tornou-se um misticismo de denominador comum que sintetizou o pensamento oriental


e ocidental, ensinando que tudo é parte de uma essência divina que tudo permeia.
Através de experiências místicas, a mente pode evoluir para níveis mais elevados de
consciência até atingir um estado de unidade com a realidade última, o Absoluto.

A Espiritualidade de Kandinsky
O artista mais influente a cair sob o feitiço de Madame Blavatsky foi Wassily Kandinsky,
frequentemente creditado como o primeiro artista abstrato. Em seu livro altamente influente Sobre o Espiritual na

Arte (1911), Kandinsky afirmou a doutrina neo-platônica de que “tudo tem uma alma secreta”—

as estrelas, a lua, os bosques, as flores. A patologia da sociedade moderna, disse ele, consiste em
sua falha em discernir a alma em todas as coisas: “Nesta era da deificação da matéria, apenas o
físico, aquilo que pode ser visto pelo ‘olho’ físico, recebe reconhecimento. A alma foi abolida.”
190 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

A razão pela qual Kandinsky rejeitou o Realismo foi que ele o associava ao materialismo. Se os artistas
seguem a regra de pintar “apenas o que o olho vê”, então claramente eles estão limitados a objetos materiais.

Kandinsky decidiu que a maneira de se livrar da filosofia materialista era se livrar do material
objetos em favor da abstração. A arte abstrata, disse ele, era “menos adequada ao olho do que à alma”.
Isso libertaria a mente da “dura tirania da filosofia materialista”, tornando-se
44
“um dos agentes mais poderosos” de renovação espiritual. O estilo de Kandinsky é chamado de Biomorphic
Abstração porque ecoa as linhas curvas dos seres vivos.

EVOLUCIONISMO ESPIRITUAL
ABSTRAÇÃO BIOMÓRFICA

7-19 Wassily Kandinsky 7-20 Franz Marc


Amarelo, Vermelho, Azul, 1925 Cavalos e Águia, 1912

A arte como agente de renovação espiritual

Para apoiar seu espiritualismo inspirado na Teosofia, Kandinsky apelou à ascensão da teoria atômica
teoria. Newton presumiu que o átomo é uma massa dura e sólida, como uma pequena bola de bilhar. O
termo átomo significa literalmente algo que não pode ser mais dividido (grego: a = não, tomos = cortar).
Mas em 1911, Ernest Rutherford atirou partículas atômicas em uma folha de folha de ouro fina como papel e ficou

surpreso ao descobrir que a maioria das partículas passou direto! Apenas alguns zuniram em várias
várias direções — o que lhe disse que os átomos consistem principalmente de espaço vazio, com um minúsculo núcleo em

o centro. De repente, o mundo da experiência comum parecia uma ilusão. O chão embaixo
seus pés, que parece tão sólido, é realmente principalmente espaço vazio. A quantidade de matéria que contém

é minúscula. Ele te sustenta principalmente por campos de força dentro do átomo.

Muitos aproveitaram a nova teoria atômica como suporte científico para o idealismo filosófico (o
doutrina de que a realidade não é, em última análise, material, mas mental). “O universo começa a parecer mais

como um grande pensamento do que como uma máquina”, exultou o físico James Jeans em 1931. “A mente não mais

parece ser um intruso acidental no reino da matéria . . . devemos antes saudá-lo como o
45
criador e governador do reino da matéria.”
Romanceando a Tela 191

Kandinsky igualmente anunciou a nova física como o fim do materialismo. “O colapso do


modelo atômico foi equiparado, em minha alma, ao colapso do mundo inteiro”, escreveu ele. “De repente
as paredes mais robustas desmoronaram. . . . A ciência parecia destruída: sua base mais importante era apenas uma
46
ilusão.” De fato, existe mesmo “algo como matéria?”
O mundo parecia estar se dissolvendo em forças invisíveis, que pareciam semelhantes a forças espirituais

forças. Franz Marc usou linhas de força em suas pinturas para sugerir essas energias invisíveis, que
ele incorporou a uma visão panteísta da natureza. Em suas palavras, “Eu quero um estilo [expressando] uma

sensibilidade para o ritmo orgânico de todas as coisas, uma empatia panteísta com a vibração e o fluxo
de sangue na natureza.”

Os historiadores frequentemente agrupam todas as formas de Abstração, mas isso é um erro. Geométrica

A Abstração, com suas linhas retas e ângulos retos, era formalista (andar inferior). Biomórfica
A Abstração, com suas formas orgânicas arredondadas, era expressiva (andar superior). Como Gene Edward Veith

observa, mesmo quando a arte se tornou abstrata, ela continuou a mostrar a mesma bifurcação nos modos “formalistas
47
e expressivos”.

7-22 Otto Bartning 7-23 Erich Mendelsohn


Sternkirche (Modelo), 1922 Torre Einstein, 1921

ARQUITETURA EXPRESSIONISTA
Formas orgânicas ou biomórficas

Podemos reconhecer a mesma divisão na arquitetura. A arquitetura formalista produziu austeras


caixas de vidro e aço, inspiradas em ideais de geometria e equilíbrio. A arquitetura expressionista pro-
duziu formas orgânicas ou biomórficas, com uma sensação de movimento.

Nuvem do Desconhecimento
O movimento artístico mais amplo que começou com Kandinsky é rotulado como Expressionismo Abstrato.

Com seus tons espirituais, ele claramente continua a tradição romântica da arte como uma religião substituta.
Mas que tipo de religião? Muitos críticos de arte sugerem que o Expressionismo Abstrato tem paralelos

com a teologia negativa (latim: via negativa), uma abordagem que descreve Deus não em termos do que
192 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

ele é, mas o que ele não é. Deus não é material; Deus não é limitado; Deus não está dentro do tempo; e assim

em diante. Historiadores rastreiam a teoria negativa de volta a Plotino, o fundador do


neoplatonismo, que ensinava que o Um está além de todos os conceitos humanos.
Portanto, qualquer conceito humano do Um deve ser falso e enganoso. A única maneira
de se aproximar do divino é negar qualquer concepção que possamos ter. Como Plotino
escreveu: “Nosso pensamento não pode apreender o Um enquanto qualquer outra
imagem permanecer ativa na alma.” Assim, “você deve libertar sua alma de todas as
coisas externas e se voltar inteiramente para dentro de si mesmo, exponha sua mente.”

Místicos cristãos às vezes usaram a teologia negativa, principalmente como uma ferramenta para expulsar

visões inadequadas de Deus. Um exemplo bem conhecido é o clássico do século XIV A Nuvem do
Desconhecimento. Ensina que o caminho para alcançar Deus é deixar para trás tudo o que pensávamos que

sabíamos sobre ele, para entrar na escuridão e no silêncio do “desconhecimento”. No entanto, a


teologia negativa nunca foi um fio condutor importante no cristianismo simplesmente porque a
Bíblia faz tantas declarações positivas sobre Deus - sobre seu caráter e seus atos poderosos na
história.
As religiões que fazem o maior uso da teologia negativa estão no Oriente. Na meditação hindu e
budista, o mantra mais popular é a sílaba Om. O propósito de repetir um

única monossílaba repetidamente é limpar a mente - para libertá-la de sua preocupação


com o mundo material até que, finalmente, o próprio pensamento seja transcendido, o
silêncio interior seja alcançado e o meditador se funda com o Infinito ou o Vazio.
Da mesma forma, uma pintura abstrata tem como objetivo libertar a mente

de sua preocupação com objetos materiais e elevar o espectador


ao reino espiritual. Você pode pensar na arte monocromática (uma tela
pintada de uma única cor) como um paralelo visual ao Om monossilábico. Ambos

são caminhos para o silêncio interior ou a escuridão da teologia negativa - para uma

unidade além do pensamento, além da razão.

7-23 Ad Reinhardt Considere, por exemplo, o expressionista abstrato do século XX


Pintura, 1958
Arte como teologia negativa Ad Reinhardt, que foi profundamente influenciado pela Teosofia. Ele “desenvol-
veu uma perspectiva religiosa que combina o misticismo oriental e ocidental
para formar o que é, na verdade, uma via negativa artística”, diz o teólogo pós-moderno Mark Taylor.
Reinhardt é mais conhecido por uma série de pinturas pretas que representam, em suas
próprias palavras, uma “ascensão mística”. A mente deixa para trás “o mundo das
aparências” composto de imagens separadas até atingir uma “unidade indiferenciada”.
Neste estado, não há “consciência de nada” e “todas as distinções desaparecem na
escuridão”. A mente atinge “a escuridão divina”. A nuvem do
desconhecimento.

Podemos pegar emprestado um rótulo de Francis Schaeffer e chamar isso de “misticismo sem ninguém
49
lá”. Uma experiência como essa pode nos tirar do mundo mundano, mas para nos conectar com o quê?

Não com uma pessoa que nos ama e se comunica conosco, mas com puro silêncio e vazio. A romancista
Susan Sontag chama isso de misticismo que termina “em uma via negativa, uma teologia de Deus
Romancing the Canvas 193

absence, a craving for the cloud of unknowing beyond knowledge and for the silence beyond
speech.” In the same way, Sontag says, abstract art tends toward “the elimination of the ‘subject’
(the ‘object,’ the ‘image’), the substitution of chance for intention, and the pursuit of silence.”50

John Cage and Zen


Both of those themes—chance and silence—became trademarks
of composer John Cage. In 1946 an Indian student told him that
back home, the purpose of music was to quiet the mind, making
it susceptible to divine influences. Cage immediately decided that
Western artists had made a terrible mistake in defining art as self
expression. He began to study Zen Buddhism, which teaches that Williams Mix, 7-25 John Cage
1952, composed for tape
the way to quiet the mind and attain enlightenment is to free one- recorder using I Ching
Buddhism in music
self of all desires. The implication, Cage decided, was that the composer should not impose his
own likes and dislikes on tones. Instead he should treat every sound as an equally valid form of
music. To eliminate his power of choice and control, Cage began to compose music using chance
methods, such as tossing dice and consulting the Chinese I Ching, to decide what the next note
should be. Or he might instruct performers to bang randomly on chairs, tables, and window sills,
as in his piece Living Room Music.
As you might predict, a chance collection of notes and sounds typically ends up in chaos and
cacophony. The commitment to a worldview has once again trumped considerations of beauty
and aesthetics. As a university student, I was invited to play violin in a concert inspired by Cage.
In place of musical notes, the composer had drawn loops, whorls, and wiggly lines ascending and
descending. The score was written on a long strip of paper, wrapped around several music stands
arranged in a circle. The performers walked around the circle playing their violins, oboes, French
horns, and so on. Because the music was indicated only roughly by squiggly lines, the musicians
had the freedom to improvise. The composer had relinquished his control of the music. Though
I was one of the performers, I have to admit that the result was not a piece anyone would want
to listen to.
Evenually Cage descended into complete silence. In his infamous 1952 silent piece titled
4’33” the musician sits at the piano and suspends his hands above the keyboard, but does not
play a single note for 4 minutes and 33 seconds. The “music” consists of the random background
noises in the room. The point was to eliminate the artist’s creative choice and intention, in order
to let the universe itself “speak.”
The problem with this approach, observes Begbie, is that it “represents a virtual denial of
any human transcendence over nature.”51 In fact, it expresses the Eastern idea that human tran-
scendence over nature is an illusion. In Hindu thought, your sense of being a separate indi-
vidual is maya, illusion. It is even the source of evil—the cause of greed and selfishness, war and
194 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

opressão. Assim, o objetivo da meditação é dissolver todo o senso de ser um


eu separado, fundindo-se com o Um cósmico, o Todo indiferenciado. Um
poema de Li Po, um poeta chinês do século VIII, termina com estas palavras:

Sentamo-nos juntos, a montanha e eu,


até que apenas a montanha permaneça.

Este poema é frequentemente citado em livros sobre meditação. Que paz! Que unidade com a natureza! Mas

o que o poeta está realmente dizendo? Que nosso objetivo deveria ser dissolver-nos na
rocha da encosta da montanha. É uma mensagem radicalmente desumanizadora. O
poema implica que o ser humano tem menos valor e dignidade do que uma rocha. Tão
pouco, na verdade, que é melhor dissolver-se e desaparecer na rocha - até que apenas a
montanha permaneça.
A razão pela qual o panteísmo oriental leva a uma visão tão baixa da pessoa é que ele tem um ponto de partida não-

pessoal. Sua divindade não é um Deus pessoal que pensa, age e sente, mas uma essência
ou substância espiritual não-cognitiva. É por isso que, por mais surpreendente que possa
parecer, o panteísmo não é realmente tão diferente do materialismo. É o outro lado da
mesma moeda. O materialismo afirma que tudo consiste em matéria. O panteísmo afirma
que tudo consiste em matéria espiritual. Ambos são não-pessoais. Como resultado,
ambas as visões de mundo não conseguem explicar a personalidade humana.
Assim como a água não pode subir acima de sua fonte, uma força não pessoal que não pensa, age ou
sente é incapaz de produzir agentes pessoais que pensem, ajam e sintam. Assim, nem o material-
ismo nem o panteísmo estão à altura da tarefa de explicar a origem dos seres humanos.
Inevitavelmente, eles acabam negando e denegrindo as características dos humanos que não
conseguem explicar - aquelas características que tornam uma pessoa essencialmente diferente
de uma rocha.
É intrigante que essas visões de mundo sejam tão populares. Afinal, o que mais desejamos é
ser conhecido e amado por quem somos como pessoas únicas - um anseio que só pode ser
satisfeito se o divino for um ser pessoal. O Deus do cristianismo não apaga nossa identidade
individual, mas na verdade a afirma, chamando-nos a nos tornarmos cada vez mais
plenamente os indivíduos únicos que fomos criados para ser. Ao contrário do misticismo
oriental, o objetivo não é suprimir nossos desejos, mas direcionar nossos desejos
para o que realmente satisfaz - para um relacionamento de amor apaixonado com a Pessoa suprema.

Como seres criados, é claro, às vezes sentimos nossa unidade com o resto da criação, e
estas podem ser experiências poderosas e comoventes. O brilho das montanhas cobertas
de neve, ou a calma de um dia ensolarado de verão, pode nos elevar além das demandas
superficiais da vida diária. Isso pode ser chamado de uma forma bíblica de misticismo da
natureza. No entanto, como seres pessoais, também somos convidados a um misticismo
mais profundo - a compartilhar da vida e do amor entre as três pessoas da Trindade divina,
à imagem de quem fomos feitos. Em comunhão com o Deus pessoal, mas infinito,
realmente entramos em contato com nossa própria personalidade em níveis mais
profundos do que jamais pensamos ser possível.
Romanceando a Tela 195

Arte Abraçador de Árvores

A tradição do misticismo romântico da natureza continua viva na Land Art. Buscando escapar da

pressão para mercantilizar seu trabalho, os artistas abandonaram as galerias de


paredes brancas do Soho para criar obras de arte abstratas em desertos, lagos e
montanhas. Usando bulldozers e caterpillars, eles construíram enormes rampas e
espirais, ou estenderam gaze de tecido pela paisagem. Esses projetos são
“saturados de nostalgia”, diz Hughes. Eles expressam “o temor dos românticos
diante da natureza”.

LAND ART

7-25 Christo 7-26 Robert Smithson


Valley Curtain, 1970 Spiral Jetty, 1970

Revival do misticismo romântico da natureza

Muitas dessas obras de arte foram temporárias por intenção e continuam a existir apenas como foto-

documentos gráficos. Eles são uma provocação à tradição monumental ocidental que outrora
apresentava estruturas de mármore projetadas para durar para sempre. Essas obras afirmam implicitamente que o impacto

dos humanos no planeta não durará; que a terra acabará por retornar ao seu estado natural; que
a Natureza vencerá no final. Apenas a montanha permanece.

O Deus Fracassado de Rothko


O movimento da arte como religião chegou a um fim trágico na obra de Mark Rothko. Suas pinturas de

marca registrada consistem em nuvens ondulantes e flutuantes de cor. Elas são


produzidas por um acúmulo de inúmeras camadas finas de tinta, criando uma sutil
sensação de profundidade e textura. Elas também são enormes, o que tem a intenção
de dar ao espectador uma sensação de ser engolido pela pintura. À primeira vista,
Rothko pode parecer muito com os pintores de Color Field (capítulo 6), que estavam
interessados apenas em relações formais de cor e linha. Mas a motivação de Rothko
era diametralmente oposta. “Não estou interessado na relação de cor ou forma”,
insistiu ele. Se você “é movido apenas por suas relações de cor, então você perde o
ponto!”
196 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Qual era o objetivo então? Na mesma passagem, Rothko diz que as pessoas frequentemente “desabam e

choram ao se confrontarem com minhas pinturas.” Por que seria isso? “As pessoas que choram diante das minhas

pinturas estão tendo a mesma experiência religiosa que eu tive quando as pintei.”
Que tipo de experiência religiosa Rothko tinha em mente? Em pinturas anteriores, Rothko
havia explorado símbolos cristãos, juntamente com imagens da mitologia grega e egípcia antiga.
Mas, eventualmente, ele se convenceu de que todo conceito particular do divino é muito limitado e
deve ser transcendido. Assim, os enormes campos de cor quase indiferenciados tinham a intenção de suge-
rir que a realidade última não pode ser identificada com nenhuma imagem definida ou específica do divino. Em

teologia negativa, não podemos fazer declarações positivas sobre quem ou o que é o divino. Nós podemos
nos aproximar da verdade apenas através da negação de imagens.

TEOLOGIA NEGATIVA
EXPRESSIONISMO ABSTRATO

7-27 Mark Rothko 7-28 Mark Rothko


Terra e Verde, 1955 Laranja e Amarelo, 1956

Nenhuma ideia positiva do divino

No entanto, se você não pode identificar o divino de forma positiva, como você sabe que ele é real?
Como você sabe que realmente existe uma presença espiritual que você está experimentando, e não apenas uma

ilusão ou satisfação de desejos?

Perto do fim de sua vida, Rothko trabalhou em várias telas grandes para uma capela em Houston.
A forma octogonal da capela é a estrutura convencional das igrejas ortodoxas orientais, e
as telas de Rothko são variações do formato de tríptico típico de um retábulo. Mas em vez de
Romantizando a Tela 197

contendo narrativas cristãs, as telas são assustadoramente em branco,


pintadas em cores escuras e sombrias.
O que Rothko estava dizendo com esses painéis escuros? A pessoa que encomendou a pintura-
53
ções disse que eles expressam “o silêncio de Deus, o insuportável silêncio de Deus”.

Depois de completar os painéis, antes mesmo da capela ser aberta, Rothko cometeu suicídio. Um
“misticismo indefinido sem ninguém lá” não é suficiente. Não preenche a fome no humano
coração por conexão com um Deus pessoal que nos conhece e ama.
O trabalho de Rothko revela a tragédia do conceito dividido de verdade. As coisas que dão vida

seu significado mais profundo, que nos dão

um propósito e razão para viver,


foram todos colocados no andar superior

história, onde são reduzidos a


meras experiências subjetivas—
privado, não racional e, em última análise,

incognoscível. Isso é artis-


alienação tic em seu mais profundo e
mais doloroso. A esperança romântica
que a arte poderia substituir a religião por

dar sentido à vida inspirou


incrível criatividade artística. Mas
inevitavelmente falhou. Como histo- de arte 7-30 A Capela Rothko
Houston, 1971
rian Robert Rosenblum escreve, “O insuportável silêncio de Deus”

A “crença apaixonada de Rothko no poder mágico da arte

poder mágico para salvar almas e abrir vistas transcendentais” agora parece remoto, sua promessa
54
vazio. Tudo o que resta é o insuportável silêncio de Deus.

Fujimura e Bomer
Claramente, artistas como Rothko estavam lutando com ideias que têm consequências de vida ou morte—

ideias pelas quais estavam dispostos a apostar suas vidas. Nunca devemos tratar a análise da
visão de mundo como simplesmente uma forma de colocar um rótulo em uma obra de arte e
encaixá-la em algum esquema organizado. Devemos reconhecer que os artistas não estavam
apenas fazendo belas imagens, mas estavam lutando com questões profundas sobre a vida—
não por meio de palavras, mas por meio de cor, textura, tom e composição. A arte é uma
linguagem visual, e os cristãos têm a responsabilidade de aprender essa linguagem.

Todas as visões de mundo contêm alguns grãos de verdade, simplesmente porque todas as pessoas são feitas à imagem de Deus

imagem e vivem no mundo de Deus. Os cristãos são chamados a identificar o que é bom e derramá-lo em odres
bíblicos (para adaptar a metáfora de Jesus). Isso explica por que os artistas cristãos são capazes de empregar
198 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

muitos dos mesmos elementos estilísticos que os artistas secularistas - pegando o que é
verdadeiro e derramando-o no odre muito mais rico e cheio de uma cosmovisão bíblica.
Entre os artistas cristãos contemporâneos, um dos mais conhecidos é o pintor da cidade de Nova York

Makoto Fujimura, que combina o expressionismo abstrato com um antigo estilo japonês chamado
nihonga. Em vez de tinta, Fujimura usa pedras preciosas moídas - folha de ouro, lápis e mala-

chite. Os resultados são obras de cores cintilantes que comunicam uma sensação de
graça e esperança. Tenho a honra de dizer que a Philadelphia Biblical University
(onde atuei como professor de pesquisa) foi a primeira instituição cristã a
encomendar uma pintura de Fujimura. Muitos evangélicos desconfiam de qualquer
arte que não seja representacional. Mas Fujimura responde: “Devemos desconfiar de
fogos de artifício espalhando sua abstração sobre um céu de verão? Ou padrões de
ondas criados na areia? Que tal música clássica ou jazz? A vida é cheiaPara
de pintar
abstração.”
abstrato
padrões é pintar a partir da vida.

ABSTRAÇÃO CRISTÃ

7-30 Carol Bomer 7-31 Makoto Fujimura


Chore pelo Extermínio da Graça, 1998 Verão Zero, 2005

Padrões abstratos são realistas

A artista de Asheville, Carol Bomer, combina elementos de abstração e realismo. “Acredito que
a Encarnação explica e resolve todas as dicotomias do trabalho imaginativo artístico”, diz Bomer,
citando Colossenses 1:18 (“em Cristo, todas as coisas permanecem juntas”). “Cristo é Deus e homem,
Espírito e carne, bem como Palavra e imagem. Através de Cristo e sua Palavra, tento unir o
mundo tangível e o mundo espiritual apreendido pelos olhos da fé.” Assim, ela busca
superar “a dicotomia percebida entre abstração e realismo, forma e conteúdo, e
56
representação e não representação.”
Romantizando a Tela 199

Bomer usa colagens para justapor texto e imagem, aludindo a Cristo como o Verbo que se fez carne.
A pintura acima, de sua Série Pródigo, usa uma planta arquitetônica como fundo,
relembrando a passagem das Escrituras: “Ansiamos por uma cidade cujo arquiteto e construtor é Deus.” A

planta inclui uma porta com o texto “Entrada Principal”, representando nosso lar celestial.
A graça desce desta entrada para o corpo do pródigo, que está enrolado como uma semente enterrada,
A graça desce desta entrada para o corpo do pródigo, que está enrolado como uma semente enterrada,
cumprindo sua própria metáfora: “Se uma semente cai no chão e morre, produz muito fruto.”

Tolkien e Lewis
Voltando-nos para os escritores, alguns dos autores cristãos favoritos do século XX eram

praticamente românticos não reconstruídos. Afinal, os românticos estavam certos


em protestar contra o reducionismo e o materialismo da visão de mundo do
Iluminismo. Eles estavam certos em manter viva a convicção de que os humanos
são mais do que máquinas. Eles estavam certos em procurar uma visão de mundo
que defendesse a realidade da mente, da moral e do significado. De volta à igreja
primitiva, quando os pais da igreja se apropriaram do que era verdade da
filosofia grega, eles justificaram isso pela metáfora bíblica de “saquear os
egípcios”. Eles estavam aludindo ao livro de Êxodo, onde lemos que, quando os
filhos de Israel deixaram o Egito, pediram aos habitantes locais comida, roupas,
dinheiro e joias - assim “saqueando os egípcios”. Poderíamos dizer que alguns dos
escritores cristãos mais amados saquearam os românticos, pegando o que há de
melhor e mostrando que faz sentido apenas dentro de uma narrativa bíblica.
J. R. R. Tolkien era um romântico de coração que bebeu profundamente da

literatura e mitologia nórdica antiga. Através do filme O Senhor dos Anéis


trilogia, os americanos se familiarizaram com sua grande saga
do bem e do mal, e seus elfos, anões, ents e hobbits. Tolkien foi
repelido pela era da máquina. Em uma carta, ele escreveu uma
vez que todas as suas obras eram sobre “a Queda, a Mortalidade
e a Máquina”. Ao mesmo tempo, ele era fas-
cinado pelo medievalismo. Os pensadores do Iluminismo
haviam denegrido toda a Idade Média como “a idade das
trevas”. Mas os pensadores românticos, por causa de seu
historicismo, acreditavam que cada estágio da história dá uma
contribuição única para a evolução da consciência. Assim, eles
reabilitaram a Idade Média, celebrando cavaleiros e armaduras, 7-33 J. R. Tolkein

castelos e missões, magia e misticismo. Tolkien foi uma força Senhor dos Anéis, 1955
Saqueando os Românticos
importante para tornar esses motivos medievais populares
entre os leitores do século XX.
C. S. Lewis também ecoou temas dos românticos. Ele criticou o material científico-
ismo por “reduzir a Natureza aos seus elementos matemáticos”. No processo, diz ele, “o mundo
foi esvaziado primeiro de seus espíritos habitantes . . . e finalmente de suas cores, cheiros e
gostos.” Depois de ler este capítulo, você sabe o que ele quer dizer: a Natureza não era mais vista
como permeada de vida,
200 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

e as qualidades não eram mais consideradas objetivamente reais. O resultado,


diz Lewis, “foi o dualismo”. Os humanos se colocaram contra um universo
mecanizado do qual se sentiam alienados. “O homem com seus novos poderes
[científicos] ficou rico como Midas, mas tudo o que tocava estava morto e frio.”
A paixão de Lewis para superar esse dualismo foi a força que alimentou sua própria busca espiritual. Como

um jovem, Lewis estudou com um tutor que era um ateu e racionalista rigoroso.
Impressionado com o rigor intelectual do tutor, Lewis abandonou quaisquer restos
de fé infantil que lhe restavam. As visões de mundo modernas, como o materialismo
e o racionalismo, pareciam tão elegantes e sofisticadas. E, no entanto, deixaram sua
imaginação faminta. Como Lewis escreveu mais tarde, “Os dois hemisférios da minha
mente estavam em contraste acentuado”. De um lado estava “um ‘racionalismo’
superficial e raso”, que o exortava “a acreditar em nada além de átomos e evolução”.
Era uma visão de mundo que ele considerava “sombria e sem sentido”. Do outro lado
estava a imaginação com seu mundo encantado de “poesia e mito”, “deuses e heróis”.
Mas essa era uma visão de mundo que ele acreditava ser estritamente “imaginária”.
Lewis chamou a divisão de dois andares de “razão” versus “romantismo”. Seu amigo íntimo Owen

Barfield lutou com a mesma tensão interna. O pensamento ocidental havia se segregado
em duas “celas de prisão”, escreveu Barfield. A ciência estava “trancada e fechada” em
uma cela, enquanto as artes e as humanidades estavam trancadas na outra. Ambos os
prisioneiros precisavam ser libertados antes que fosse possível viver uma vida unificada
e integrada.
Isso explica por que Lewis ficou “surpreso com a alegria” quando descobriu que o cristianismo pro-
porcionou a unidade que ele tanto desejava. A vida, a morte e a ressurreição de Cristo foram eventos que ocorreram em

o mundo físico, testável pelos mesmos meios que qualquer outro evento histórico. No entanto, eles também foram

o cumprimento dos antigos mitos que Lewis sempre amou. Ele usou o termo mito não para
significar uma história que é falsa, mas uma que responde ao profundo anseio humano por transcendência. Em suas

próprias palavras, “O coração do cristianismo é um mito que também é um fato. O antigo mito do Morrendo

Deus, sem deixar de ser mito, desce do céu da lenda e da imaginação para
61
a terra da história.”
Em outras palavras, os grandes eventos do Novo Testamento têm toda a maravilha e beleza de
um mito. No entanto, eles acontecem em um lugar específico, em uma data específica e têm consequências históricas empiricamente verificáveis

consequências históricas. O reino do fato empírico é imbuído de profundo significado espiritual


significado. O cristianismo unifica os dois reinos. A visão de mundo bíblica cumpre tanto os requisitos de
razão humana e os anseios do espírito humano.
Quando Lewis se tornou cristão, ele não abandonou seu romantismo. Ele meramente subverteu
Imagens românticas para propósitos cristãos. Em That Hideous Strength o personagem principal, Ransom,

se maravilha que o espaço não seja mais “a vacuidade negra e fria, a completa falta de vida, que era suposto
para separar os mundos.” De fato, “ele não podia chamá-lo de ‘morto’; ele sentiu a vida jorrando para ele de
cada momento.” Lewis usou a fantasia para retratar imaginativamente um mundo onde a vida divina e a divina

razão—o Logos—permeiam o universo material.


Romanceando a Tela 201

Em todas as épocas, o evangelho cumpre as aspirações mais profundas das pessoas. Nos tempos do Novo Testamento,

os gregos buscavam sabedoria, enquanto os judeus procuravam sinais de poder espiritual (1 Cor 2:21–25).
O cristianismo cumpriu ambos. Se as pessoas estivessem dispostas a olhar além de suas definições normais de

esses termos, elas descobririam que “Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus”. Em
tempos modernos, algumas pessoas são movidas por uma “razão” obstinada, enquanto outras são motivadas por

um “romantismo” de coração mole. Novamente, o cristianismo oferece satisfação a ambos. A verdade bíblica é rica

o suficiente para satisfazer todas as ânsias da personalidade humana.

No entanto, a tradição romântica como um todo não seguiu o caminho de Lewis de volta ao cristianismo. Seu

panteísmo foi eventualmente secularizado, dando origem a movimentos como o pós-modernismo e a descons-

trucionismo. Para avaliar esses movimentos de forma inteligente e resistir ao seu impacto radical, devemos

continuar nossa jornada pelo andar superior. No próximo capítulo, seguiremos o caminho de
Filosofia continental até os nossos dias.
Capítulo 8

A arte é “a coisa mais próxima de uma atividade sacramental

reconhecida pela nossa sociedade secular.”

—Susan Sontag

Fuga do Niilismo
(A Herança Romântica)

“Ele é um niilista!”
“O quê?” perguntou Nikolai Petrovich, enquanto Pavel Petrovich levantava sua faca no ar com um pequeno

pedaço de manteiga na ponta e permanecia imóvel.


“Ele é um niilista”, repetiu Arkady.
“Um niilista”, disse Nikolai Petrovich. “Isso vem do latim nihil, nada, tanto quanto posso
julgar; a palavra deve significar um homem que . . . que não reconhece nada?”

“Diga, que não respeita nada”, interveio Pavel Petrovich e abaixou sua faca com a man-
teiga nela.

“Um niilista é uma pessoa que não se curva a nenhuma autoridade, que não aceita nenhum
princípio por fé, por mais que esse princípio seja reverenciado”. . . .
Pavel Petrovich estava bebendo seu cacau; de repente, ele levantou a cabeça. “Aqui está o Sr. Niilista
vindo nos visitar”, ele murmurou.
Bazarov estava de fato se aproximando pelo jardim, caminhando sobre os canteiros de flores. Seu linho

casaco e calças estavam salpicados de lama; uma planta de pântano aderente estava enrolada na
coroa de seu velho chapéu redondo, em sua mão direita ele segurava uma pequena bolsa na qual algo vivo estava

se contorcendo. Ele caminhou rapidamente até o terraço e disse com um aceno de cabeça: “Bom dia, senhores;

desculpe o atraso para o chá; Vou me juntar a vocês em um momento. Eu só tenho que guardar esses prisioneiros.”

203
204 Nancy Pearcey | Saving Leonardo

“What have you there, leeches?” asked Pavel Petrovich.


“No, frogs.”
“Do you eat them or keep them for breeding?”
“For experiments,” answered Bazarov indifferently, and went into the house.
“So he’s going to cut them up,” observed Pavel Petrovich; “he has no faith in principles, but
he has faith in frogs.”
—Ivan Turgenev, Fathers and Sons, 1862

Monks and Beasts


When Turgenev published Fathers and Sons, it ignited instant controversy. The book is typi-
cally regarded as a fictional account of the generation gap, with the “sons” represented by Arkady
and his friend Bazarov, and the “fathers” represented by Arkady’s father and uncle, Nikolai and
Pavel Petrovich. Yet Turgenev’s goal was not just to probe the perennial tension between the gen-
erations. His aim was to portray the emergence of a genuinely novel personality type: the new
“scientific man.”
Turgenev’s creative insight was that worldviews form character. And that the modern sci-
ence-based worldview was actually producing a new personality type, represented by Bazarov.
Deliberately curt and abrupt (good manners are a sign of aristocratic snobbery), Bazarov rejects
anything not established by the methods of natural science. Art, music, poetry, beauty—all of it
he dismisses as “romantic rubbish.” The philosophy of empiricism has taught him that the most
exalted ideals and moral principles derive ultimately from sense perceptions. “All principles are
reducible to mere sensations,” he declares. As a result, “a decent chemist is twenty times more
useful than any poet.”
The two “sons” eagerly devour books by the most widely read science popularizers of
Turgenev’s day, an emerging breed of materialists including Ludwig Büchner, Jacob Moleschott,
and Karl Vogt.1 When Bazarov discovers that Arkady’s father still reads Romantic poets like
Pushkin, he is disgusted.
“It’s something astonishing,” went on Bazarov, “these old romantic idealists! . . . Please explain
to him how utterly useless that is. After all he’s not a boy. It’s high time he got rid of such rubbish.
And what an idea to be Romantic in our times! Give him something sensible to read.”
“What should I give him?” asked Arkady.
“Oh, I think Büchner’s Stoff und Kraft [Matter and Force] to start with.”
Clearly Turgenev was using a story about generational conflict to flesh out the broader
antagonism between the Romantics and a new breed of Enlightenment thinkers. By the end
of the nineteenth century, Romantic literature had come to seem soft and foppish. We saw
this in chapter 6, when the Literary Naturalists rejected Romanticism as insufferable Victorian
sentimentalism. Many young people reacted by adopting a hard, doctrinaire materialism. They
Fuga do Niilismo 205

rejeitaram o conceito do Romantismo de uma Força Vital como vago e


metafísico demais para ser acessível ao estudo científico. E desafiaram a
geração mais velha a encarar as implicações materialistas do Darwinismo.
Os maiores avanços científicos da época estavam ocorrendo nas ciências físicas, onde

os sucessos pareciam ser registrados diariamente. A única maneira de a biologia


igualar essa taxa de sucesso, parecia, era tomar emprestada sua metodologia das
ciências físicas. Muitos começaram a insistir que os processos da vida só poderiam ser
sujeitos à explicação científica se fossem reduzidos à física e à química. Quando
Bazarov é perguntado por que ele coleta rãs, ele responde que os próprios humanos
são pouco mais do que rãs glorificadas: “Eu abrirei a rã e verei o que está acontecendo
dentro dela, e então, como você e eu somos muito parecidos com rãs (só que
andamos sobre duas pernas), saberei o que está acontecendo dentro de nós também.”

O resultado é que, no final do século XIX, os sucessores do Romantismo enfrentaram

uma oposição recém-energizada do materialismo iluminista e até mesmo do niilismo absoluto (a negação de
todas as verdades morais ou metafísicas). O romance de Turgenev tornou o niilismo uma palavra familiar na

Rússia. Até Nietzsche, o filósofo mais conhecido do niilismo, pegou o termo lendo o
romance. As figuras históricas cujos nomes aparecem na história — Büchner, Moleschott
e Vogt — estavam usando agressivamente suas credenciais científicas para atacar a
religião e promover uma visão de mundo materialista, um pouco como os Novos Ateus
em nossos dias.
A essa altura, o materialismo havia ido além da simples imagem cartesiana de mecanismo de relógio do

organismo para incluir novos desenvolvimentos em eletricidade e termodinâmica. No


entanto, era, se possível, ainda mais doutrinário. Os biólogos começaram a imaginar o corpo
como uma máquina elétrica, com os nervos atuando como fios. “Nas décadas de 1860 e 70,
em uma época em que máquinas elétricas como o telégrafo pareciam uma grande
maravilha, médicos e o público em geral passaram a entender o cérebro como uma máquina
elétrica”, operando por mecanismos de entrada/saída. A tensão entre o Iluminismo e

as visões de mundo românticas estava se tornando aguda.

Nem era meramente uma tensão filosófica. As duas visões conflitantes da natureza humana muitas vezes

travavam guerra dentro dos corações e mentes das pessoas. Em Howards End (1910), E. M. Forster lamenta que

as pessoas estão dolorosamente divididas entre o lado da “paixão” de seu caráter


(artístico, espiritual) e o lado da “prosa” (científico, material). “Somos fragmentos
sem sentido, meio monges, meio bestas”, ansiando por encontrar “a ponte do arco
-íris” que conectará os dois. A frase mais conhecida do romance é: “Apenas
conecte! . . . Apenas conecte a prosa e a paixão.” Forster literalmente chama isso de
“sermão” apontando o caminho para a “salvação”.
Neste capítulo, continuaremos a seguir a busca dos pós-românticos pela salvação até os nossos

próprios dias. Veremos como suas falsas promessas de salvação acabaram sendo tão
prejudiciais e desumanizadoras quanto o reducionismo iluminista que eles esperavam combater.
206 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

A Salvação de Salvador
No final do século XIX e início do século XX, o conceito romântico de um Absoluto

Mente ou Força Vital foi reinterpretado em uma forma mais adequada para uma era
psicológica. Tornou-se identificado com uma Mente universal ou coletiva que poderia ser
acessada através das forças inconscientes nos níveis subterrâneos da mente humana. O
conceito de uma mente inconsciente recebeu uma interpretação quase científica por
Sigmund Freud. Para investigá-la, ele propôs um conjunto de técnicas psicoterápicas,
como sonhos e associação livre. No alemão original, Freud não escreveu sobre a mente,
mas sobre a alma (Seele). Assim, na Europa, muitos consideravam as técnicas de Freud

como métodos para descobrir as profundezas interiores da alma.

Carl Jung reformulou a Força Vital como um Inconsciente Coletivo contendo a sabedoria acumulada

da raça humana ao longo de toda a sua evolução. Ele ensinou que podemos acessar essa
sabedoria através de mitos, sonhos, lendas e símbolos. Jung usou linguagem religiosa,
exortando os artistas a recorrerem às “forças curativas e redentoras da psique coletiva”.

INCONSCIENTE COLETIVO
SURREALISMO
Irracionalidade como salvação

Essas ideias deram origem ao Surrealismo, com suas imagens oníricas. Os objetos foram retratados com

8-1 Salvador Dali 8-2 Giorgio de Chirico


Canção de Amor,
A Persistência da Memória, 1931 1914

realismo nítido, mas deslocados em associações aleatórias, um pouco como a


associação livre usada na psicanálise. De fato, os surrealistas praticavam uma série de
técnicas psicanalíticas— incluindo hipnotismo e análise de sonhos—em um esforço para
superar o controle da razão e se conectar com o inconsciente. “A razão pode nos dar
ciência”, disseram eles, mas “só a irracionalidade pode
Fuga do Niilismo 207

dê-nos arte.” Eles argumentaram que, como a razão analítica emprega conceitos fixos
e estáveis e, portanto, não consegue capturar o fluxo evolutivo da Força Vital. Somente
transcendendo a razão podemos nos imergir no fluxo concreto da existência. Dali
escreveu que sua ambição era “materializar imagens de irracionalidade concreta”.

A irracionalidade foi elevada a um meio de libertação — até mesmo salvação. Como Barzun explica, “o

desejo de ser salvo foi reformulado como a esperança de que, através da arte, a barreira entre a
mente consciente e o inconsciente fosse derrubada.” Esta não era a salvação por um Deus pessoal que

nos conhece e ama, mas a salvação por imergir-se na Força Vital. Mais uma
vez, misticismo sem ninguém lá.

Klee em Jogo
Se os surrealistas retratavam objetos realisticamente, mas em justaposições aleatórias, o próximo passo

foi submeter os próprios objetos a processos aleatórios ou de acaso. Este passo foi dado pelo
Expressionismo Abstrato, que começou com Kandinsky (capítulo 7), mas ganhou destaque em
meados do século XX. Sugeriu que a maneira de deixar a Força Vital criar através do artista era

eliminar todo o controle consciente. O artista não deve planejar seu trabalho com antecedência, mas simplesmente
deixá-lo “crescer” organicamente de acordo com suas próprias leis. Por exemplo, os expressionistas abstratos
usavam uma espécie

de desenho automático (automatismo), no qual simplesmente rabiscavam linhas aleatórias ou brincavam

com formas e cores, até que as imagens emergissem. Eles também usavam processos
de acaso, como gotejar ou derramar tinta, deixando-a fluir e acumular na tela. “Eu
preparo o terreno para uma imagem limpando meu pincel sobre a tela”, disse Joan
Miro brincando. “Derramar um pouco de terebintina também pode ser útil.”

O estilo resultante apresentava formas orgânicas que se parecem um pouco com águas-vivas ou amebas flutuando

pela tela. Esta é a Abstração Biomorfa. Observe como era diferente


das linhas retas e ângulos retos da Abstração Geométrica. Alfred H.
Barr, Jr., diretor fundador do Museu de Arte Moderna, ofereceu um
resumo rápido da diferença entre Abstração Geométrica e Biomorfa,
dizendo: “A forma do quadrado confronta a silhueta da ameba.”

EXPRESSIONISMO ABSTRATO
A rejeição do controle consciente levou à derrubada dos padrões tradicionais para avaliar
a arte. Desde os antigos gregos, presumia-se que a arte era um ofício que envolvia habilidade.
Deve seguir certas regras e métodos. E essas regras eram consideradas enraizadas na
ordem objetiva e harmonia do universo. Como Walford explica, “Esperava-se que os artistas
descobrissem os princípios atemporais e subjacentes da beleza na natureza”, da mesma forma que “um
7
cientista ou filósofo do Iluminismo procurava descobrir princípios fundamentais na natureza.”
208 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

8-3 Joan Miró 8-4 Arshile Gorky


Femmes et olseau dans la night, 1947 Jardim em Sochi, 1940

Usando o acaso para acessar o inconsciente

Começando com os Românticos, no entanto, os artistas começaram a renunciar às regras e métodos como

nada além de convenções mortas. Seu objetivo era a livre liberação de energias e impulsos interiores
do inconsciente. Ao olhar para uma obra de arte, você não deveria mais perguntar: É um bom
exemplo das regras do ofício? mas apenas, Expressa a visão interior do artista? Os artistas “focaram
mais no processo de externalização da consciência do que na obra de arte resultante.” O que
contava não era a qualidade estética, mas o quão bem a imagem incorporava a consciência do artista.

Os Forasteiros por Dentro


A ideia de que a verdadeira sabedoria poderia ser encontrada acessando o inconsciente levou a um interesse em

crianças e primitivos, até mesmo os insanos. Eles pareciam menos “arruinados” pela
civilização, mais em contato com impulsos naturais, mais próximos da Força Vital. Este
era um tema Romântico típico, é claro. Rousseau havia glorificado o Bom Selvagem,
livre das restrições da civilização. Wordsworth havia elevado a criança ao status divino:
“A Infância é o Messias perpétuo, que vem aos braços de homens caídos e implora
que retornem ao paraíso.” Surgiu a ideia de que no fundo de cada pessoa existe uma
criança interior, que é mais pura e genuína do que o eu exterior preso a regras.

O Bom Selvagem
Isso explica por que muitos artistas adotaram um estilo infantil. Paul Klee é conhecido por suas imagens caprichosas, semelhantes a brinquedos. Ele disse que queria pintar “como se fosse recém-nascido”.
Jean Dubuffet tentou imitar a arte das crianças e ficou fascinado pela arte criada por internos de um hospício. Ele disse que queria “substituir a arte ocidental pela da selva, do banheiro, da instituição
mental”. Dubuffet cunhou o termo Arte Marginal para descrever obras criadas por artistas autodidatas que estavam completamente fora do mundo mainstream das escolas de arte e museus. Em sua
opinião, estes

cal, imagens semelhantes a brinquedos. Ele disse que queria pintar “como se fosse recém-nascido.” Jean Dubuffet tentou imi-

tate a arte de crianças, e ficou fascinado pela arte criada por internos de um hospício. Ele
disse que queria “substituir a arte ocidental pela da selva, do lavatório, da instituição mental-
ção.” Dubuffet cunhou o termo Arte Outsider para descrever obras criadas por artistas autodidatas que
estavam completamente fora do mundo mainstream das escolas de arte e museus. Em sua opinião, estes
Fuga do Niilismo 209

forasteiros tinham uma perspectiva fresca e crua que havia escapado da contaminação da
civilização ocidental e, portanto, era pura e autêntica. Ele esperava que, ao eliminar regras e
convenções, pudesse imitar essa perspectiva crua e criar arte com um impacto emocional mais
direto.

8-5 Paul Klee 8-6 Jean Dubuffet


Máquina de Piar, 1922 A Vaca com um Nariz Sutil, 1954

Imitando crianças e selvagens

Hoje somos muito mais céticos em relação à noção romântica de que os humanos têm um núcleo interno que

é naturalmente bom. Logicamente, dificilmente faz sentido: se os humanos são intrinsecamente bons, então como

as culturas se tornaram más e corruptas? As culturas só podem revelar o caráter daqueles que as criaram.
Além disso, estamos muito mais conscientes hoje do poder ineradicável do mal, tendo testemunhado
os horrores de duas guerras mundiais, campos de concentração nazistas, o Gulag, os campos de extermínio de

Camboja, o genocídio de Uganda, o genocídio de Ruanda e assim por diante. O conceito bíblico
de pecado agora parece render uma visão mais crível da natureza humana. Como observou G. K. Chesterton,

a doutrina do pecado original - que algo está radicalmente errado no coração da natureza humana - tem
sido verificada por milhares de anos de história humana.

Sartre e o Silêncio
O interesse da tradição romântica pelo irracional e pelo inconsciente teve o efeito de
aumentar seu conflito com a tradição iluminista. Eventualmente, a tensão entre os
dois foi esticada ao ponto de ruptura. Parecia que uma pessoa tinha que escolher
um ou outro. O historiador Henry Steele Commager escreveu que as pessoas
foram confrontadas com uma escolha “entre uma filosofia ‘bruta’, de cabeça dura,
que baniu o idealismo e o misticismo em nome da ciência” e uma “filosofia de
mente terna que baniu a ciência em nome do misticismo e do idealismo”.
210 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Em outras palavras, as histórias superior e inferior foram isoladas e exageradas além da possibilidade
de reconciliação. A lacuna de Kant entre natureza e liberdade era agora um abismo intransponível.

Isso explica a ascensão do existencialismo. Os existencialistas lançaram um olhar claro e inflexível para

aquele abismo intransponível e expressaram seu angustiante senso de alienação. Não


havia mais nenhum Espírito Cósmico para dar aos humanos uma conexão com o cosmos.
Em vez disso, o indivíduo estava sozinho vis-à-vis um mundo frio, alienígena e não pessoal.

Essa solidão cósmica foi expressa poeticamente pelo bioquímico ganhador do Prêmio Nobel
Jacque Monod em O Acaso e a Necessidade (1971). “O homem deve finalmente despertar de seu milenar

sonho e descobrir sua total solidão, seu isolamento fundamental”, escreveu


Monod. “Ele deve perceber que, como um cigano, ele vive na fronteira de um
mundo alienígena; um mundo que é surdo à sua música e tão indiferente às suas
esperanças quanto aos seus sofrimentos ou seus crimes.” Este retrato
melodramático vai muito além de qualquer coisa que possa ser propriamente
chamada de ciência,
Monod estava como aponta
retratando a filósofa
o cientista Mary
como um herói [Link] um alienígena, absurdo
existencialista

universo.
O conceito existencialista do absurdo foi uma consequência direta da ideia da morte

de Deus. Pois, se Deus não existe, então não há como satisfazer as aspirações humanas por
verdade, justiça, amor e significado definitivos. Como escreve Albert Camus, “o absurdo
nasce desse confronto entre a necessidade humana e o silêncio irracional do mundo”.
Para viver autenticamente

(na definição existencialista do termo) devemos colocar uma cara corajosa e agir como se a vida tivesse
significado, sabendo o tempo todo que não tem.
Na década de 1970, o existencialismo era extremamente popular entre os estudantes universitários, especialmente na

Europa. Eu estava estudando na Alemanha na época, e todos os meus colegas estavam


lendo avidamente Albert Camus e Jean Paul Sartre - então tentando viver de acordo
com o credo existencialista. Foi um exemplo trágico de como as filosofias se filtram
para moldar o pensamento e a vida das pessoas comuns, especialmente os jovens.

Condenado a ser Pollock


Se você já fez Filosofia 101, provavelmente ouviu o existencialismo resumido em
a frase: “A existência precede a essência”. O que isso significa? Como a essência é um ideal pré-existente.
Se eu digo Eu sou uma mãe ou Eu sou um professor, estou definindo minha identidade em termos de um ideal do que

significa ser mãe ou professor. Nossa identidade mais fundamental é


derivada do ideal da própria natureza humana, que fornece uma diretriz
moral universal que nos diz o que significa viver como um ser humano pleno.
Os existencialistas negaram que exista qualquer natureza humana ideal ou universal. Nas palavras de Sartre,
12
“Não há natureza humana porque não há Deus para ter uma concepção dela.” Como uma conse-

quência, eles negaram que existam quaisquer diretrizes morais universais. Nós simplesmente fazemos
nossas escolhas dia após dia (existência), inventando nossa identidade (essência) ao longo do caminho.
Fuga do Niilismo 211

Para os existencialistas, os humanos estão presos no fluxo incessante da evolução. Assim como as espécies

estão em constante mudança e evolução, os indivíduos também devem deixar para trás todos os conceitos estáveis

de certo ou errado e mergulhar no fluxo da vida. Na famosa frase de Sartre, eles estão
“condenados a serem livres” — condenados a agir em um vácuo completo, fazendo escolhas fundamentadas

em nada além de sua própria vontade, sem saber se essas escolhas são certas ou
erradas. Na ausência de qualquer identidade dada por Deus, os indivíduos devem criar sua própria identidade

momento a momento por meio de suas ações.


Essas ideias inspiraram os Action Painters. Eles não planejavam suas pinturas com antecedência.
Eles não fizeram estudos preliminares. Em vez disso, eles criaram suas pinturas por meio de
ação espontânea e não premeditada. Eles definiram a arte não em termos de seu resultado final (a própria pintura), mas em

termos da ação de criá-la (o gesto físico de atirar tinta na tela). Como crítico de arte
Harold Rosenberg diz, para os Action Painters, uma tela não era um espaço para reproduzir
imagens ou expressar sentimentos, mas “uma arena na qual atuar”. O artista literalmente procurou criar
sua identidade pessoal através do ato de criação artística. Ele “gesticulou sobre a tela e
13
observou o que cada novidade declararia ele e sua arte”.

EXISTENCIALISMO
ACTION PAINTERS
Criando identidade pessoal através da ação

8-7 Jackson Pollock 8-8 Pollock no trabalho


Número 33, 1949

O Action Painter mais conhecido foi Jackson Pollock. Ele adotou o Expressionismo Abstrato
técnica de automatismo — pingar, derramar e atirar tinta para eliminar a escolha consciente
e controle. Mas então ele foi mais longe ao abandonar todas as convenções de composição. Ele era
o primeiro pintor “total”: não há motivo central, nenhum ponto focal, nenhuma relação discernível
entre as partes, nenhuma distinção entre figura e fundo — na verdade, nenhuma figura delimitada, afinal,

seja representacional ou abstrato.


212 Nancy Pearcey | Saving Leonardo

While flying across the country, I once saw a trailer for Mona Lisa Smile flash on the movie
screen. I snatched up the headphones. Here was an opportunity to discover how a movie would
probe the meaning of art. The plot proved to be dismally predictable. Julie
Roberts’ character wants to shake up her pampered, privileged students, so
she takes them to New York City to view a Jackson Pollock drip painting in
a Greenwich Village loft.
“See past the paint,” she intones. “Let us open our minds to a different
idea.”
I sighed. Is that the best a screenwriter could do to explain the Action
Painters? A more instructive approach is to ask what worldview influenced
8-9 What worldview influ-
enced the artist?
Pollock. The Action Painters were expressing “the refusal of values,” explains
Rosenberg. “The gesture on canvas was a gesture of liberation from Value—
political, esthetic, moral.” By giving up all compositional conventions, consciously or not they
were conveying the existentialist theme that there are no binding moral or intellectual ideals.
There is only the endless flux of life.

No Alpha or Omega
At the same time, modernist writers were proclaiming their own liberation by giving up liter-
ary conventions—the idea that a novel needs to have a well constructed structure. Think back to
what you learned in high school literature class: that a novel should have a beginning, a develop-
ment, a climax, and finally a denouement, in which all plot lines are resolved. The structure is an
intelligible whole. Everything in the story has some logical connection to the overall plot.
As Barrett points out, this standard for literature arose when Western thinkers still held to
the idea that reality itself “is a system in which each detail providentially and rationally is sub-
ordinated to others and ultimately to the whole itself.”14 The Bible teaches that history is linear,
moving in a definite direction toward a future in which all wrongs will be righted and all wounds
healed. Every event has meaning within this overarching goal or purpose.
But when Western intellectuals declared the death of God, they lost the concept of purpose-
driven history. After all, most cultures do not have a linear view of history. The ancient Chinese,
Babylonians, Hindus, Greeks, and Romans all thought of history as cyclical—as an endless flow
without beginning or end, like a circle. This seems to be the default position of the human mind
apart from biblical revelation. What was the effect on literature? In Taylor’s words, the death of
the biblical God meant “the death of the Alpha and Omega.” It became “impossible to locate a
definite beginning and a decisive end” to history. “The narrative line is lost and the story seems
pointless.”15 Life was reduced to an endless, meaningless present.
Fuga do Niilismo 213

Narrativa Não Linear

8-9 Um presente interminável e sem sentido

Escritores começaram a experimentar com estrutura não linear para transmitir essa sensação de um intelec-

tível e presente sem sentido. Como Camus colocou, as pessoas modernas são “privadas da memória de um
16
lar perdido ou da esperança de uma terra prometida.” Isto é, eles não sabem mais de onde vieram
ou para onde estão indo—sua origem ou seu destino. Por que escrever histórias coerentes se o universo
em si não é mais pensado para ter uma história coerente? Escritores modernistas como James Joyce e
William Faulkner também experimentaram com o estilo de fluxo de consciência, mergulhando os leitores no

fluxo livre e fluido da experiência em evolução—o fluxo da vida.


A expressão mais consistente do existencialismo foi o Teatro do Absurdo. Em Samuel
Beckett’s Waiting for Godot, dois personagens se envolvem em diálogo sem sentido enquanto esperam por al-

guém que nunca aparece. Existencialistas anteriores como Camus e Sartre haviam composto cuidadosamente

dramas e romances ordenados para comunicar sua filosofia de que o mundo não tem
ordem significativa. Mas Beckett deu o próximo passo lógico. “Se confusão e caos são a condição humana,”

explica um crítico literário, “então a forma da peça em si deve fazer uso de interrupção, des-
17
continuidade, incongruência e lógica e repetição sem sentido.” O próprio estilo expressou uma exis-
tencialista visão de mundo.

Fuga da Razão
Como artistas visuais, os escritores começaram a abraçar a irracionalidade como uma forma de libertação. O proble-

ma era que o conceito de razão tinha sido tão esvaziado que não parecia mais ser o
meio para descobrir quaisquer verdades realmente importantes. Antes da era
moderna, a razão era considerada uma ferramenta poderosa para conhecer a
Verdade, a Bondade e a Beleza. Mas a divisão entre fatos e valores havia trancado
a razão no andar inferior, reduzindo-a a nada além de cálculos de causa e efeito—
às vezes chamada de razão instrumental. Ou seja, a razão nos dá ferramentas para
controlar a natureza. Mas não pode indicar quais usos da natureza são bons ou humanos. A razão mostra
214 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

nos mostra como alcançar nossos objetivos. Mas não pode determinar quais objetivos são certos para perseguir
em primeiro lugar. Determina o que podemos fazer, mas não o que devemos fazer. O que funciona, mas não o que

é bom. Fatos, mas não valores. Como resultado, muitas pessoas concluíram que a única maneira
de investigar as Grandes Questões era “escapar da razão” (o título de um dos livros de Schaeffer).
Ou seja, deixar a razão para trás e dar um salto de fé do andar inferior para o andar superior.

“Salto de fé” era a frase de marca registrada da teologia existencialista. As sementes do existen-
18
cialismo foram plantadas por Søren Kierkegaard, um apaixonado luterano dinamarquês. Mais tarde, um inteiro

uma escola de teologia existencialista surgiu chamada neo-Ortodoxia (que incluía Karl Barth,
Paul Tillich, Reinhold e Richard Niebuhr). Como a razão havia sido estreitamente definida como
uma ferramenta para prever e controlar a natureza, não parecia mais apropriado aplicar esse
tipo

de razão ao reino espiritual. Afinal, Deus não está sujeito ao controle humano. Como resultado,
no entanto, o conceito neo-ortodoxo do reino espiritual era fundamentalmente não racional.
Como diz Sloan, resumia-se a pouco mais do que “um humor romântico de admiração e temor”.

Como seus homólogos seculares, os existencialistas religiosos abraçaram “a teoria dos dois reinos

da verdade”, explica Sloan. Eles aceitaram “a dicotomia entre a ciência como fato
e a religião como significado”. Como resultado, trataram as declarações religiosas
como “afirmações que exigiam decisões arbitrárias e existenciais” sem “nenhum
fundamento racional”. A fé tornou-se um “salto existencial” para o andar superior.
Isso estava muito longe da definição bíblica de fé, que é um compromisso de toda
a pessoa, incluindo a mente. Nenhum salto irracional é necessário porque não há
dicotomia que limite a razão ao andar inferior. O próprio Deus criou a razão humana e
espera que a usemos. Quando Paulo escreve: “Andamos por fé, não por vista” (2
Coríntios 5:7), muitos leitores parecem pensar que ele está falando metaforicamente e
significa “por fé, não por razão”. Mas Paulo está falando
literalmente: Seu ponto é que o reino espiritual é invisível, invisível. É
preciso uma fé tremenda para agir com base em realidades que não
podemos ver. Ele não quer dizer que o cristianismo é oposto à razão.
Tragicamente, a alta dignidade concedida à razão como parte da imagem de Deus foi tão
completamente perdida que até mesmo os cristãos teologicamente ortodoxos muitas
vezes têm a noção equivocada de que a fé bíblica é irracional. Esta é uma das principais
razões pelas quais eles são ineficazes em abordar o mundo contemporâneo. Eles
absorveram a mesma dicotomia fé/razão que está no centro das visões de mundo
contemporâneas. Assim, eles não têm uma alternativa genuína a oferecer.

Sexo, Drogas e D. H. Lawrence


Entre as figuras literárias, a fuga da razão era frequentemente efetuada por drogas e sexual
libertinagem. A tendência começou na era romântica, quando poetas como Coleridge e De
Quincy usavam ópio para estimular sua imaginação (e depois sofriam as consequências do vício
e da escravidão). Alguns ficaram até fascinados pela insanidade. Um amigo de Coleridge passou
um tempo em um
Fuga do Niilismo 215

hospital psiquiátrico e mais tarde escreveu: “Não sonhe em ter provado toda a grandeza e
selvageria da Imaginação, até enlouquecer.” A loucura era tratada como uma fonte de inspiração
artística, um estado que “escapava do funcionamento mecânico e cego do racionalismo”.
Drogas e álcool eram
simplesmente maneiras convenientes de alcançar a insanidade temporária.

Esses temas foram retomados no final do século XIX pelo movimento Decadentista em
arte e literatura, que se concentrava em temas mórbidos como morte, depressão e
desvio, especialmente desvio sexual. Em 1871, o poeta simbolista Arthur Rimbaud
transformou o vício e a autodestruição em uma vocação sagrada, uma forma de martírio
em nome da arte. “Agora estou me debochando o máximo que posso”, escreveu ele. “O
poeta se torna um vidente por meio de um longo, imenso,
e calculado desarranjo de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura.”
Rimbaud popularizou a ideia de que o artista, em busca de alguma nova percepção, deve
distorcer seus sentidos e violar as convenções sociais por meio de drogas, álcool, sexo e um
estilo de vida dissipado. Grande parte da poesia de Rimbaud foi escrita enquanto ele estava em
um relacionamento homossexual.
Em seu romance de 1927, O Lobo da Estepe, Herman Hesse também retratou drogas e sexo
encontros como meios de se reconectar com o próprio eu autêntico. Em seu livro de 1954, As Portas
da Percepção, Aldous Huxley relatou sua experiência pessoal com drogas. Para explicar como
as drogas alucinógenas funcionam, Huxley reviveu o conceito junguiano de uma
consciência coletiva, que ele chamou de Mente Ampla. “Cada um de nós é
potencialmente Mente Ampla”, capaz “de perceber tudo o que está acontecendo
em todo o universo”, escreveu ele. No entanto, seríamos rapidamente
sobrecarregados por tanto conhecimento. Assim, para “tornar possível a
sobrevivência biológica, a Mente Ampla tem que ser canalizada através da
válvula redutora do cérebro e do sistema nervoso. O que sai na outra
extremidade é um mísero fio da espécie de consciência que nos ajudará a
permanecer vivos na superfície deste planeta em particular.” Para aqueles
insatisfeitos com um fio tão miserável, Huxley sugeriu que substâncias
alucinógenas poderiam alargar a válvula redutora e dar acesso à sabedoria da
Mente Ampla. Eles
Essas poderiam
ideias abrir
penetraram “as portas na
profundamente dacontracultura
percepção”. da década de 1960 e foram
22
até refletidas nos nomes de bandas de rock: Steppenwolf, The Doors.

Técnicas de Falsa Transcendência


À medida que as visões de mundo seculares e materialistas fechavam as formas tradicionais de transcendência espiritual, a arte-

istas estavam procurando por caminhos alternativos de transcendência. Virtualmente qualquer meio de distorcer o

sentidos e interromper a consciência comum pode ser tentado como uma técnica para escapar da razão
e romper para o andar superior.
Isso explica o estereótipo do artista, escritor ou músico como alguém que vive uma vida dissoluta,
Vida boêmia, viciado em álcool ou drogas, e passando de um relacionamento sexual para outro,
muitas vezes levado ao suicídio no final. Essas vidas trágicas são testemunhos do poder do
pressuposto de que o artista deve ser alienado da sociedade dominante - que é de suas feridas,
216 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

sua posição de pária, que ele extrai seu poder criativo (mesmo quando as feridas são auto
infligidas através do vício). Os cristãos devem chorar por pessoas tão famintas por
transcendência que estão dispostas a destruir seus corpos e mentes na busca por algum
significado superior para a vida.
8-11 Perturbação dos sentidos

Ciência Pós-Moderna
A ideia de que o significado superior da vida é essencialmente não racional nos leva ao pós-modernismo, um

termo que é amplamente usado, mas amplamente incompreendido. Para entendê-lo,


precisamos recuar e traçar como ele surgiu. Não é exagero dizer que todas as escolas
filosóficas dentro da tradição continental compartilham uma motivação principal: abrir
um espaço para a liberdade humana em um mundo concebido como uma vasta
máquina. Defender a liberdade de Kant da natureza de Kant.
Proteger o andar superior do imperialismo intelectual do andar inferior.
Resistir ao reducionismo do cientificismo e do positivismo.
Por exemplo, no final do século XIX, o filósofo alemão Wilhelm Dilthey
propôs que existem duas formas diferentes de ciência—uma ciência da natureza e uma
ciência da mente—com sua própria metodologia distinta. A ciência da natureza busca
regularidades universais. Explica os eventos naturais em termos de conexões causais.
Requer uma atitude de observação desapegada. E produz conhecimento que é objetivo
e universalmente válido.
A ciência da mente requer uma metodologia completamente diferente. Sob este rótulo, Dilthey
incluiu o que poderíamos chamar de ciências humanas—ética, teologia, humanidades,
ciências sociais. Aqui, a fonte de informação consiste principalmente em textos
literários. E para interpretar um texto, você deve entrar empaticamente no
pensamento de outra pessoa. Você deve procurar entrar “na pele da pessoa” e
entender como o mundo aparece para ela. Você não está procurando por
regularidades universais, mas por perspectivas únicas e individuais. As explicações são
expressas não em termos de causas naturais, mas em termos de motivações, objetivos,
propósitos, crenças. Para Dilthey, o conhecimento que este método produz é subjetivo
e culturalmente relativo. Ele aceitou
Fuga do Niilismo 217

O conceito de evolução cultural de Hegel—que cada cultura produz sua


própria “verdade” adequada para o estágio atual da evolução da consciência.
Esta foi a versão de Dilthey da divisão inferior/superior. Embaixo estavam as ciências naturais

ciências; em cima estavam as ciências humanas. Essa divisão teve um impacto enorme nos
pensadores continentais porque parecia fornecer um meio de resistir ao reducionismo.
Em oposição à ciência natural, havia outra ciência, que era definível e defensável por si só.

Eventualmente, alguns pensadores até criaram um contra-reducionismo ao antigo

Reducionismos do Iluminismo. Eles começaram a questionar se realmente existia algo como


ciência natural. Afinal, é um produto da cultura humana tanto quanto a literatura ou as

artes. As teorias científicas não são simplesmente relatórios de observação factual.


Elas envolvem construções mentais, como interpretação, inferência, conjectura e
generalização. Até mesmo conceitos científicos fundamentais, como massa, força e
energia, são abstrações mentais. (Observamos objetos individuais, mas nunca
observamos “massa”.) Além disso, os cientistas são pessoas comuns movidas pelos
mesmos interesses econômicos, pressões sociais e compromissos de visão de
mundo que todos os outros—tudo isso influencia as teorias científicas que eles
constroem. Em suma, a ciência natural não consiste apenas em descobertas
empíricas. É uma rica rede de ideias intrincadamente conectada às outras partes da
cultura.
Alguns chegaram à conclusão de que as ciências naturais não são realmente diferentes do que
Dilthey havia chamado de ciências humanas. Ambas são construções sociais. Ambas são
produtos da cultura humana. Para visualizar isso, podemos dizer que a ciência foi puxada para o
andar de cima. Não havia mais andar de baixo. Tudo estava no andar de cima. Este foi o
nascimento do
pós-modernismo.

Dê espaço, Euclides
O pós-modernismo parecia plausível por causa de mudanças dentro da própria ciência. No final do século XIX e início do século XX,

o pensamento ocidental foi abalado até o âmago por duas revoluções científicas,
que levantaram questões sobre a própria natureza da verdade científica: a
geometria não euclidiana e a nova física (relatividade e física quântica).
Por quase dois mil anos após Euclides, a geometria foi considerada a forma mais confiável
e universalmente válida do conhecimento humano. Assim como as crianças podem
usar alguns blocos simples para construir uma cidade inteira de brinquedo, os
matemáticos podem usar alguns axiomas simples para criar os milhares de teoremas
que compõem a geometria euclidiana. “Dois pontos determinam uma linha.” “Qualquer
linha reta pode ser estendida indefinidamente.” “Todos os ângulos retos são
congruentes.” O sistema resultante era consistente internamente, enquanto
externamente parecia corresponder perfeitamente ao mundo físico. Como explica um
filósofo, os teoremas geométricos “parecem ter uma dupla verdade: verdade formal
que se origina na lógica coerente do discurso e verdade material
218 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

24
originando-se no acordo das coisas com seu objeto.” Como consequência, a geometria era
considerada o exemplo para todos os outros campos do conhecimento a serem imitados.

Então, no século XIX, o mundo acadêmico foi abalado pela descoberta de que
a geometria euclidiana não era universal, afinal—que formas alternativas de geometria
poderiam ser geradas. Ou seja, você poderia começar com axiomas diferentes dos que
Euclides escolheu e raciocinar a partir deles para produzir diferentes sistemas
geométricos—aqueles que eram tão logicamente consistentes quanto a geometria de
Euclides. De repente, os matemáticos não tinham mais certeza de qual versão

da geometria era verdadeira para o universo físico. Como analogia, você


pode pensar em um jogo de computador complexo com um universo de jogo
que é internamente consistente, mas não tem nada a ver com o mundo real.
Após o choque inicial, foi finalmente decidido que diferentes geometrias poderiam ser igualmente

válidas, dependendo do contexto. A geometria euclidiana funciona ao lidar com


superfícies que são planos comuns. Ela se aplica na maioria das vezes na experiência
comum porque as superfícies são pequenas o suficiente para que você possa
desconsiderar a curvatura da terra e tratá-las essencialmente como planos. Mas uma
geometria diferente—a geometria Riemanniana—funciona ao lidar com superfícies que
têm uma curvatura positiva (como uma esfera). Einstein popularizou esta forma de
geometria quando a aplicou ao seu conceito de espaço curvo. Existe também uma
geometria chamada Lobatchevskiana, que funciona ao lidar com superfícies que têm
uma curvatura negativa.
A descoberta de que a verdade lógica (exemplificada pela geometria) poderia ser separada da

verdade física foi devastadora. Desde os antigos gregos, a maioria dos ocidentais assumiu que a realidade é,
em última análise, racional—que o que é logicamente verdadeiro também é realmente verdadeiro. As novas

geometrias desafiaram essa convicção. Aqui estavam vários sistemas que eram todos
internamente consistentes, mas incompatíveis entre si—o que significava que nem todos
poderiam ser verdadeiros. Pela primeira vez, um abismo se abriu entre o que é racional e o que é
verdadeiro. Parecia que
a própria verdade havia se estilhaçado.

A queda da geometria euclidiana era muito esotérica para afetar a cultura popular, mas abalou

os fundamentos da academia. Longe de ser universalmente verdadeira, a


geometria euclidiana foi agora relegada ao status de uma de muitas verdades
possíveis, relativa ao contexto em que foi aplicada. A crise na geometria tornou-se
uma metáfora para o estilhaçamento de verdades estabelecidas em todos os
níveis. Nas palavras do matemático E. T. Bell, encorajou a “descrença em verdades
eternas e absolutos” em todas as áreas.
Por exemplo, a filosofia moral começa com princípios universais e imutáveis e então

raciocina a partir desses princípios para aplicações no mundo real. “Muito Euclidiano!”
criticaram os críticos. Uma abordagem não euclidiana reconhece que diferentes culturas
começam com diferentes axiomas morais, resultando em diferentes sistemas morais—
todos igualmente válidos, em relação ao contexto cultural. Da mesma forma, na teoria
jurídica, Jerome Frank, da Yale Law School, argumentou que a compreensão tradicional
da lei era muito euclidiana. Na teoria política, Charles Beard rejeitou o fundamento
Fuga do Niilismo 219

Instituições americanas, como o equilíbrio de poderes, como euclidianas. Em


economia, John M. Clark argumentou a favor de diferentes sistemas econômicos—
sistemas “com axiomas tão distantes uns dos outros quanto a geometria de
Euclides e as não euclidianas.” Em antropologia e sociologia, a vasta variedade de
sociedades humanas era considerada semelhante às diversas formas de geometria
não euclidiana.
Em praticamente todos os campos, paralelos foram traçados entre a geometria e as culturas humanas. Ambas,

dizia-se, repousam sobre axiomas escolhidos arbitrariamente a partir de um número


indefinido de possibilidades. E em ambos, diferentes axiomas dariam origem a
diferentes sistemas, todos igualmente válidos. A geometria não euclidiana foi invocada
para varrer qualquer alegação de uma única verdade abrangente. E assim, abriu a porta
para o pós-modernismo.

Além de Einstein
Outra porta para o pós-modernismo foi a nova física—a teoria da relatividade e a física quântica

mecânica. Assim como a geometria derrubou Euclides, agora a física derrubou


Newton, cujo trabalho foi a pedra angular da revolução científica. Newton havia
tratado o tempo e o espaço como absolutos na base da física. Kant os havia tratado
como categorias universais da mente humana. Mas Albert Einstein decidiu que
não eram nenhum dos dois. Tempo e espaço, disse ele, são relativos ao quadro de
referência do observador.
O público tinha pouca ideia do que a relatividade significava cientificamente, mas interpretou-a avidamente

como apoio ao relativismo moral e cultural, a negação de todas as verdades absolutas. Einstein enfaticamente

negou que sua teoria implicasse relativismo. Ele até queria rotulá-la de teoria da invariância,
porque seus cálculos mostram que as leis físicas não variam de um quadro de referência para
outro.
Para capturar o conceito básico, imagine que você está caminhando para frente no convés de um navio

a uma taxa de 3,2 quilômetros por hora, enquanto o navio se move pela água a 32
quilômetros por hora. Quão rápido você está se movendo? Em relação ao navio, você
está se movendo a 3,2 km/h. Em relação à costa, você está se movendo a 35,2 km/h.
Algo relativístico sobre isso? Claro que não. As leis do movimento permanecem as
mesmas em ambos os quadros de referência. Esta forma inicial da teoria da
relatividade foi desenvolvida por Galileu. Einstein simplesmente aplicou o mesmo
princípio a fenômenos eletromagnéticos, como a luz. Mesmo que ele tivesse que
fazer o tempo desacelerar para que a teoria funcionasse, seu objetivo era mostrar
que as leis do eletromagnetismo permanecem as mesmas (invariantes) em todos os
quadros de referência.
No entanto, a teoria de Einstein foi recebida com uma enxurrada de artigos de jornal interpretando-

a como um ataque ao “absolutismo”. Até artistas e escritores aplicaram-na ao seu trabalho.


William Carlos Williams defendeu o verso livre (poesia sem ritmo ou rima) dizendo que, por
causa de Einstein, os poetas agora podem empregar “um pé relativamente estável, não rígido”.
Em seu poema de 1921

“São Francisco Einstein dos Narcisos”, Williams apresenta Einstein como um salvador trazendo liberdade
220 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

do conhecimento "morto" e "antiquado". Apesar dos protestos de Einstein, o


público entendeu sua teoria exatamente ao contrário.

Física e Misticismo
A ascensão da teoria quântica foi ainda mais intrigante para o público. Demonstrou que as

leis da física Newtoniana não se aplicam no nível subatômico. Por exemplo, a


física clássica assumia que um mundo objetivo existe, o qual podemos
observar e medir sem essencialmente mudar. Mas no nível quântico, é
impossível observar a realidade sem mudá-la. A distinção clássica entre sujeito
e objeto parece ter entrado em colapso. Se observarmos uma partícula
atômica sob um conjunto de condições, ela funciona como uma onda. Mas se
a observarmos sob diferentes condições, ela funciona como uma partícula. A
dualidade onda/partícula parece destruir o ideal de objetividade científica.
Alguns físicos vão ainda mais longe em sua interpretação. Se o experimento determina

quais propriedades uma entidade atômica tem, eles dizem, então o ato de observação é
essencialmente um ato de criação. O observador cria o que observa. Isso parece harmonizar com

a visão de mundo oculta da religião oriental, que ensina que a realidade é, em última análise,
mental ou espiritual—que o mundo material é uma criação da consciência. Muitos livros
populares sobre física quântica oferecem uma interpretação oriental, como o agora clássico de
Fritjof Capra, O Tao da
Física: Uma Exploração dos Paralelos entre a Física Moderna e o Misticismo Oriental.
Mas há mais. Outro resultado perturbador da teoria quântica é o Princípio da Incerteza

Princípio. A peça central da física clássica era sua teoria do movimento. Se


soubermos onde um objeto está para começar (posição) e soubermos sua
velocidade (que na física inclui velocidade e direção), então podemos traçar seu
curso—seja a trajetória de uma bola de futebol ou de um planeta. Hipoteticamente,
se soubéssemos a posição de cada partícula no universo, juntamente com todas as
forças que atuam sobre ela, poderíamos prever todo o futuro. A implicação parecia
ser que cada evento no universo é completamente determinado.
No nível quântico, no entanto, verifica-se que não podemos conhecer a posição e a veloc-

idade ao mesmo tempo. Na vida comum, posso acender uma lanterna em alguém e os fótons de
luz que o atingem não o derrubam. Mas se eu lançar um feixe de luz para investigar partículas
subatômicas, como elétrons, elas são tão pequenas que os fótons os derrubam do curso.

Assim, não podemos determinar a posição de uma partícula sem derrubá-la do curso e mudar sua
velocidade. Nunca podemos obter uma leitura precisa da posição e da velocidade ao mesmo tempo.

A implicação é que o determinismo completo é impossível. A teoria quântica reconhece


um reino de indeterminação dentro do átomo, no próprio coração da matéria.
Fuga do Niilismo 221

Perdendo a Fé na Física
Para aqueles que depositaram suas esperanças na formulação de uma visão de mundo totalmente determinística,

a nova física foi profundamente desconcertante. “O universo de Newton era a fortaleza do determinismo
racional”, diz um personagem em uma peça de George Bernard Shaw. “Tudo era calculável.

. . . Aqui estava minha fé: Aqui encontrei meu dogma de infalibilidade.” Mas essa fé
se estilhaçou nas margens rochosas da nova física. “E agora—agora—o que restou
dela? A órbita do elétron não obedece a nenhuma lei”, lamenta o personagem de
Shaw. “Tudo é capricho, o mundo calculável se tornou incalculável.”
Até mesmo cientistas estóicos levantaram as mãos. O físico Percy Bridgman escreveu: “Sempre que

o físico penetra no nível atômico ou elétrico em sua análise, ele encontra coisas
agindo de uma maneira para a qual não consegue atribuir nenhuma causa. . . . Isso
significa nada mais nem menos que a lei denacausa
Certamente, e efeito
experiência deve
cotidiana, ser abandonada.”
os objetos ainda se comportam

de acordo com a física newtoniana clássica—o que significa que os engenheiros ainda podem
usá-la para construir pontes e edifícios. Mas isso ocorre apenas por causa da média estatística de
um grande número de átomos. Os cientistas não podem mais apelar ao determinismo clássico
para explicar por que a física funciona.

J. C. Polkinghorne, um físico que se tornou padre anglicano, diz que é “como


ver um palácio impressionantemente bonito e ser informado de que ninguém
tem certeza se suas fundações repousam sobre rocha ou areia movediça.”
Para muitos pensadores ocidentais, parecia que o fundo havia caído de qualquer tentativa de
construir um modelo inteligível do universo. Como a racionalidade humana poderia ser
confiável quando sua maior conquista, a física clássica, poderia desmoronar tão
repentinamente? Até agora, presumia-se que a ciência avança constantemente para cima,
com novos fatos sendo gradualmente adicionados a um conjunto de conhecimento em
constante expansão. Mas a relatividade e a física quântica não simplesmente adicionaram à
física newtoniana. Eles a arrasaram e começaram de novo.
Para descrever essa mudança repentina e dramática, o historiador da ciência Thomas Kuhn cunhou a

frase “mudança de paradigma”, que foi aproveitada pelos pós-modernistas. Eles


entenderam que a ciência não avança tanto por meio de investigação racional, mas por
saltos intuitivos. A racionalidade não era o caminho sagrado para a verdade, como o
Iluminismo havia afirmado. A fuga da razão agora parecia ter o apoio da própria ciência.

A Queda do Átomo
A nova física foi recebida como uma dádiva por defensores do andar superior. Por três
séculos, o reducionismo e o determinismo da física clássica foram protestados por
artistas, poetas, teólogos, eticistas e filósofos idealistas. No entanto, como não eram
cientistas, suas críticas foram descartadas como meramente anticientíficas. Com a
ascensão da nova física, pela primeira vez surgiu uma crítica de dentro da ciência. “Pela
primeira vez”, escreve o teórico social Floyd
32
Matson, “a imagem da grande máquina foi atacada diretamente pela própria ciência.”
222 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Desapareceu a imagem do universo como uma máquina determinada por leis matemáticas. Desapareceu

a imagem dos humanos como meras engrenagens no mecanismo. A ciência não poderia mais ser invocada
para negar a liberdade moral e criativa humana. Muitos saudaram a nova física como uma grande emanci-
padora, abrindo a porta mais uma vez para o livre arbítrio e a dignidade humana. “A velha física nos mostrou

um universo que se parecia mais com uma prisão do que com uma morada”, escreveu James Jean. “A
nova física nos mostra um universo que parece que poderia concebivelmente formar um adequado
33
lugar de moradia para homens livres.”

Até milagres pareciam possíveis novamente. Na física clássica, o mundo era ordenado não pela
fidelidade de um Deus pessoal, mas por leis naturais inexoráveis. Nada era permitido
intervir na ordem fixa da natureza. Os teólogos foram pressionados a abandonar conceitos como milagres

e providência. Teólogos liberais, cedendo à pressão, exortaram os cristãos a “desmitologi-


zar” a Bíblia — o que significava eliminar qualquer referência ao sobrenatural. Por exemplo,
Rudolf Bultmann escreveu: “O homem moderno reconhece como realidade apenas os fenômenos ou
eventos que são compreensíveis dentro da estrutura da ordem racional do universo. Ele
34
não reconhece milagres porque eles não se encaixam nesta ordem legal.” Para Bultmann,
o que o “homem moderno” não reconhece, os cristãos devem abandonar.
Mas a nova física mostrou que a “ordem legal” que tanto impressionou Bultmann não era
fixa, afinal. Como resultado, não poderia mais ser usada para eliminar o sobrenatural. Uma poderosa
barreira para aceitar milagres desmoronou no chão. A física não poderia mais ser usada para governar
contas bíblicas dos poderosos atos de Deus na história.
Hoje, a euforia da nova física passou, e podemos avaliar suas implicações
com mais sobriedade. O que exatamente isso significa para questões morais e teológicas? A física quântica
na verdade, não oferece nenhuma evidência positiva para o livre arbítrio ou milagres. Tudo o que realmente faz

é remover uma barreira de longa data erguida pela física clássica, embora uma barreira muito poderosa.

No lugar do determinismo, a teoria quântica reconhece um reino de indeterminação — chance


ou aleatoriedade. Mas acaso é a mesma coisa que escolha? Certamente não. Como o teólogo Ian
Barbour escreve: “Dificilmente atribuiríamos liberdade a uma roleta simplesmente porque seu
35
ponto de parada não é previsível.” Nem invocaríamos um milagre e diríamos que Deus parou o
roda. A física quântica não oferece uma brecha para a mente ou o espírito no universo (embora
você ainda pode encontrar livros e artigos fazendo essa afirmação). Ele apenas limita o alcance do clássico

física.
Por que a revolução na física teve um impacto tão grande? Porque muitas pessoas
tinham transformado a ciência em um ídolo. No pensamento analítico, a essência de qualquer coisa é descoberta por

cortá-la até seu menor componente. A velha física dizia: Se o átomo é determinado, então
são seres humanos. A nova física disse: Se o átomo é indeterminado, então os seres humanos também são.

Mas por que devemos definir as pessoas pelas características dos átomos? Por que devemos aceitar tal
um reducionismo radical? Ambas as conclusões tratam o átomo virtualmente como um mini-deus.
Fuga do Niilismo 223

Toda visão de mundo deve identificar algo como a realidade final, a causa de tudo o mais.
Historicamente, à medida que os pensadores ocidentais se afastavam de Deus como a causa última, muitos se voltavam

para a matéria. Eles a dissecavam até seus menores blocos de construção, esperando descobrir o que era
fundamentalmente real. “Desde o Renascimento”, escreve Koestler, “a Causa Última havia gradualmente
36
se deslocado dos céus para o núcleo atômico.” O átomo, não Deus, determinava nosso
destino. Mas com o desenvolvimento da física quântica, essa Causa Última pareceu se
dissolver no acaso. O ídolo modernista desmoronou. Para muitas pessoas, a própria ciência agora parecia
apontar para uma visão de mundo pós-moderna.

De Profeta a Paródia
Estamos agora preparados para nos concentrarmos nessa visão de mundo pós-moderna—para diagnosticar tanto suas pos-

sibilidades quanto seus perigos. Embora os pensadores pós-modernos se opusessem firmemente ao reducionismo das

visões de mundo do Iluminismo, tragicamente, suas próprias teorias muitas vezes se mostraram tão reducionistas.

Considere a visão pós-moderna do eu. Por um lado, os pensadores pós-modernos firmemente


rejeitaram o conceito modernista do eu autônomo—o ego autossuficiente e soberano de
o cogito cartesiano (penso, logo existo). Mas muitos pós-modernistas caíram do outro lado
do cavalo, dissolvendo o eu em uma rede de forças sociais—raça, classe, gênero e
orientação sexual.
O raciocínio remonta a Hegel. Se a história é o desdobramento de um Espírito Absoluto ou
Mente, como Hegel ensinou, então o verdadeiro ator na história não é o indivíduo, mas a própria Mente—
uma força mental imanente se desdobrando através da história. Qualquer cultura dada é a expressão de
Mente em seu estágio atual de evolução. As leis, costumes, religião, arte, moralidade e
linguagem da cultura não são o produto da criatividade individual, mas da Mente panteísta trabalhando em

e através dos membros da comunidade. A implicação é que os indivíduos realmente não


têm ideias únicas ou originais. A maioria de seus pensamentos são produtos de fatores que eles não
37
escolheram ou criaram, mas apenas absorveram.

O panteísmo de Hegel eventualmente se desgastou, mas deixou para trás a suposição de que os indi-

víduos não são produtores de cultura tanto quanto produtos dela. Essa visão foi rotulada de anti-
humanismo porque é radicalmente desumanizante. Nega que os humanos sejam genuínos moral ou
agentes criativos. Isso vai muito além de derrubar o eu cartesiano de seu pedestal. É a negação
de que existe tal coisa como o eu. (Também comete suicídio: Quem originou a ideia de que
os humanos não têm ideias originais?) Aqueles que negam o conceito de Deus como Criador acabam
negando, em última análise, a criatividade humana.

O impacto nas artes foi dramático. O artista não era mais considerado um profeta que
oferece insights originais de ponta, porque ninguém tem insights originais. O artista era meramente
um porta-voz das forças sociais maiores que o produziram. Isso explica por que tanta pós-
a arte moderna consiste em zombaria e paródia. Os profetas da antiguidade tinham duas funções: proclamar
224 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

A verdade de Deus e denunciar os pecados da sociedade. Os artistas pós-modernos perderam a


primeira função. Eles não revelavam mais nenhuma verdade superior. Mas ainda podiam
desfrutar de uma sensação de vanguarda profética ao denunciar os pecados da sociedade: seu
consumismo, trivialidade e superficialidade.

PÓS-MODERNISMO
POP ART

8-12 Roy Lichtenstein 8-13 Andy Warhol


The Melody Haunts My Reverie, 1965 Campbell Soup, 1968

Paródia e caricatura

Isso explica por que grande parte da Pop Art era pouco mais que caricatura. Ela exibia os produtos de
uma sociedade de consumo para parodiá-los. Os artistas pop frequentemente ampliavam itens comerciais, como

latas de sopa ou histórias em quadrinhos, para um tamanho quase heroico, como se quisessem atingir os espectadores no rosto com sua

pura banalidade. Se os artistas fossem meros porta-vozes da sociedade, eles abraçariam esse papel com
vingança. Eles espelhariam seus elementos mais banais e insípidos.

Morte do Artista
Na teoria literária, a perda da ideia de criatividade foi encapsulada na frase “a morte
do autor”. O crítico literário Roland Barthes argumentou que os escritores são
semelhantes aos bardos ou xamãs de antigamente, que não eram inventores de suas
próprias histórias, mas sim transmissores das histórias de seu clã ou tribo. Um texto
literário não é um produto de criatividade original, disse ele, mas meramente “um tecido
de citações” absorvidas da cultura e do período histórico circundantes.
É claro que toda comunidade abriga interesses e crenças conflitantes - o que significa que todo

autor refletirá inconscientemente mensagens culturais conflitantes. Como diz


Barthes, um texto não tem um único significado, mas é uma mistura “na qual
uma variedade deesses
Resolver escritos, nenhum
significados deles original,
contraditórios é chamadose
demisturam
desconstruireo se chocam”.
texto. Portanto,

o termo desconstrucionismo.
Fuga do Niilismo 225

Tradicionalmente, o objetivo do crítico literário era discernir o que o autor pretendia dizer. Mas
se um texto não fosse realmente o produto criativo do autor, então não fazia mais sentido perguntar o que
ele ou ela queria dizer. Os leitores eram livres para atribuir seus próprios significados ao texto. Os desconstrucionistas

saudaram isso como libertador, porque libertava os textos literários de qualquer significado fixo ou estável. Como

Barthes colocou, discernir a intenção do autor “é impor um limite a esse texto, fornecer-lhe
um significado final.” A desconstrução se recusou a impor qualquer limite ao seu significado.
Não surpreendentemente, os pensadores pós-modernos não aplicam os mesmos princípios aos seus próprios escri-

tos. Eles esperam que seu próprio trabalho seja tratado como uma contribuição séria de um intelecto criativo,
não meramente uma repetição de mensagens culturais. E eles certamente querem que os leitores se importem com o que o

próprio autor quer dizer. Assim, ironicamente, os pós-modernos contradizem suas próprias visões toda vez
que escrevem um livro ou apresentam um artigo.

Vamos nos envolver em uma pequena desconstrução nossa. Quando alguém abraça uma posição que
é internamente inconsistente, normalmente isso indica uma motivação mais profunda em ação. A motivação de Barthes

fica clara se continuarmos lendo na passagem citada anteriormente. Depois de explicar que
a desconstrução nega qualquer significado definitivo ao texto, Barthes acrescenta uma frase muito estranha:
Isso “liberta o que pode ser chamado de atividade antiteológica, uma atividade que é verdadeiramente revolucionária,
40
já que recusar-se a fixar o significado é, no final, recusar a Deus.”
Espere um momento: o que Deus tem a ver com isso? Barthes está sugerindo que Deus é a
fonte última de significado. Afinal, os cristãos sempre trataram o próprio mundo como uma espécie de
texto ou escrita ou história. O Salmo 19 diz: “Os céus declaram a glória de Deus.” Agostinho escreveu:
“Estes céus, estes livros, são obras dos dedos de Deus.” Ao longo da história, os cristãos
empregaram a metáfora de dois livros—o livro da palavra de Deus (a Bíblia) e o livro de
o mundo de Deus (criação). E porque Deus é o Autor de ambos, ele tem autoridade sobre o direito
maneira de interpretá-los. Existe um padrão objetivo de verdade.
Da mesma forma, os seres humanos, criados à imagem de Deus, são autores genuínos de seus próprios
trabalhos. Se você quer saber o que um texto significa, você pergunta ao autor.

Tudo isso mudou quando Nietzsche declarou a morte de Deus. Para usar uma das metáforas favoritas de Nietzsche,

todas as filosofias anteriores foram tentativas de descobrir uma transcrição do livro do


universo. Ou seja, o universo é como uma peça se desenrolando em um palco, e os filósofos estavam tentando

encontrar a transcrição para que pudessem entender o enredo. De acordo com Nietzsche, no entanto, não

há nenhum Autor do livro do universo—ninguém em posição de dar uma transcrição autorizada.


Assim, não há verdade objetiva ou universalmente válida sobre o universo. Como diz Mark Taylor, “A
morte de Deus foi o desaparecimento do Autor que havia inscrito a verdade absoluta e o significado unívoco

na história mundial.”
E porque os humanos são feitos à imagem de Deus, Taylor conclui, “a morte de Deus
41
implica o desaparecimento do autor.” Mais uma vez, aqueles que negam o Criador divino acabam
negando também a criatividade humana.
226 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Metanarrativas e Campos de Extermínio


Os pós-modernistas acolheram a implicação da morte de Deus—que não há "absoluto

verdade e significado unívoco na história mundial.” Qualquer tentativa de explicar o significado da história
eles chamaram de metanarrativa, uma narrativa mestra que conecta o amanhecer do universo ao seu final
42
destino em um grande sistema. E o que eles tinham contra as metanarrativas? Eles as viam

como a fonte de sistemas políticos brutais e opressivos.


A maioria dos fundadores do pós-modernismo eram europeus que testemunharam, opressivos

sistemas políticos de perto—Nazismo e Comunismo. Ambos os sistemas foram organizados


em torno de um único princípio: raça (Nazismo) ou classe econômica (Comunismo). Ambos
abraçaram uma grande visão da história movendo-se inexoravelmente em direção a
alguma sociedade ideal. E ambos acabaram se tornando totalitários, usando suas visões
utópicas para justificar polícia secreta e campos de extermínio.
Após a Segunda Guerra Mundial, muitos pensadores europeus que sofreram sob regimes totalitários
decidiram que a fonte do totalitarismo estava em metanarrativas “totalizantes”. Por “totalizante” eles
queriam dizer qualquer metanarrativa que se concentre em uma única dimensão da experiência
humana e a eleve a um falso absoluto. Os nazistas colocaram todas as relações sociais na caixa
da raça. Se você fosse ariano ou judeu ou eslavo, dizia-se que isso determinava suas opiniões,
seu caráter, seu valor. O

Os comunistas colocaram todas as relações sociais na caixa da economia. Se você fosse membro da
classe capitalista ou da classe proletária, esse era o fator determinante. A lição que os pós-modernistas

tiraram desses sistemas totalitários foi que as tentativas de unificar a sociedade artificialmente
de acordo com alguma grande teoria totalizante levam à coerção, opressão e violência.

Claro, desde os pré-socráticos, os filósofos tentam encontrar um único princípio que

uniria toda a realidade dentro de um sistema explicativo coerente. O que os pós-


modernistas apontaram é que não importa qual princípio unificador você escolha, ele
é invariavelmente reducionista—muito estreito e limitado para dar conta do mundo
real. A visão de mundo resultante acabará negando a complexidade e a diversidade
da vida real. Tornar-se-á totalizante. E quando uma visão de mundo totalizante está
ligada ao poder político, o estado procurará impor a unidade esmagando aqueles
que não podem ou não querem aderir à sua metanarrativa oficial, sancionada pelo
estado—qualquer um que não se encaixe em sua caixa prescrita. Os comunistas
soviéticos mataram cerca de 60 milhões de pessoas, os comunistas chineses
mataram cerca de 35 milhões, os nazistas, 21 milhões. O Khmer Vermelho maoísta no
Camboja massacrou mais de um quarto da população da nação.
A ideologia política tem um histórico sangrento e

bárbaro.
Os pensadores pós-modernos concluíram que a melhor maneira de desafiar as reivindicações de absoluto poder

era desafiando as reivindicações de verdade absoluta. Eles rejeitaram a busca por uma única verdade unificada.

Em vez disso, celebraram a diversidade e a multiplicidade. Como as visões de mundo são


transmitidas através da linguagem, os pós-modernistas frequentemente se referem a elas como
“jogos de linguagem”. Eles afirmam que existe uma pluralidade irredutível de jogos de linguagem,
cada um com suas próprias regras para jogar o jogo. Assim como o beisebol e o futebol são dois
jogos totalmente diferentes, sem praticamente nenhuma regra em comum, então
Fuga do Niilismo 227

as visões de mundo são diferentes jogos de linguagem sem sobreposição ou terreno


comum. Os pós-modernos acreditam que a maneira de impedir o poder absoluto do
estado e apoiar a democracia é que as sociedades permaneçam divididas em
agrupamentos menores com base em seus jogos de linguagem. Eles rejeitam qualquer
metanarrativa que unifique todos os grupos em uma sociedade.
Um cristão concordaria com grande parte da crítica pós-moderna ao reducionismo. De fato,
criticamos várias formas de reducionismo várias vezes em capítulos anteriores. Mas a
solução pós-moderna funciona? Devemos abandonar todas as alegações de uma
verdade unificada? A falha nesta solução é que ela é auto-refutável. No próprio ato de
afirmar que não existe uma verdade universalmente válida, o pós-moderno está
afirmando sua própria visão como verdadeira. Isso não é tanto uma contradição lógica

como o que o filósofo Jürgen Habermas chama de “contradição performativa”. A frase significa
que, no próprio ato de declarar uma posição, uma pessoa está implicitamente afirmando que
ela é verdadeira. Assim, toda vez que o pós-moderno declara sua própria visão, ele a contradiz.
O pós-modernismo comete suicídio.
Ele se autodestrói no processo de ser afirmado.
Igualmente importante, sem algum tipo de verdade transcendente, não há como se opor a

males sociais e políticos — as mesmas coisas com que os pós-modernos estavam tão preocupados. Sem
um absoluto moral, não podemos dizer: Isto está errado. Isto é injusto. Vivido de forma consistente, o pós-

ismo leva à cumplicidade com o mal e a injustiça.

Sem Metanarrativas Visuais


Apesar de suas falhas, o pós-modernismo permeou profundamente a comunidade artística. E como

você pode dar expressão visual à ideia de que não há metanarrativa, nenhuma história
maior para dar um significado coerente à vida? Recusando-se a dar a uma obra de arte
qualquer design geral coerente. Isso explica por que os artistas desconstrutivistas
favorecem a pastiche ou colagem — uma colcha de retalhos de imagens
desconectadas que desafiam qualquer tentativa de interpretação. Como explica Gablik,
“Como a presença unificadora de uma crença em uma ordem cósmica transcendental
não existe mais em nossa cultura, a implicação é que as obras de arte não podem mais
oferecer o tipo de visão unificada do mundo que existia” em eras anteriores.

PINTURA DESCONSTRUTIVISTA
Por exemplo, David Salle oferece imagens aleatórias que “deslizam umas pelas outras, dissociadas
e descontextualizadas, não conseguindo se ligar em uma sequência coerente.” São “imagens que não
narram mais, mas em sua liberdade desapegada realmente obstruem qualquer tentativa de decifração-
45
mento.” Em outras palavras, a colagem tinha como objetivo obstruir a tentativa humana natural de encontrar

alguma conexão lógica ou coerência.


Da mesma forma, Robert Rauschenberg “justapôs imagens de forma a sugerir uma incoerência aleatória,

à qual o artista — e o espectador — não podem trazer nenhuma ordem significativa.” O que ele estava dizendo
228 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

8-14 David Salle 8-15 Robert Rauschenberg


Sem título, 1998 Retroativo I, 1963

com essas colagens? Que “ocorrências aleatórias da vida... não podem ser
feitas para se encaixarem em qualquer hierarquia inerente de significado.”
Nenhuma ordem cósmica transcendente

Compositores de música clássica criaram uma espécie de colagem auditiva incorporando citações irônicas de

Bach, Beethoven ou Monteverdi em partituras que eram abstratas e discordantes.


Por exemplo, a ópera de Harrison Birtwistle de 1966, Punch and Judy, assimila aspectos do grego
tragédia, ópera barroca e a Paixão de São Mateus de Bach na partitura.
A arquitetura pós-moderna tem sua própria versão do pastiche ou colagem. Como um jornalista coloca

isso, o pós-modernismo “trouxe-nos vigas penduradas inacabadas nas bordas dos edifícios,
47
arcos cortados no espaço e paredes que não se encontram com paredes.” Em contraste com o Internacional

Estilo, com sua ordem geométrica e equilíbrio, a arquitetura pós-moderna sugere desequilíbrio
e instabilidade. Muitas vezes, elementos clássicos são costurados na estrutura, mas exagerados fora de
proporção em incongruências irônicas, como a coluna jônica superdimensionada no edifício à direita
abaixo. Como que para zombar do amor modernista pelo funcionalismo, esta coluna é deliberadamente não

funcional (não suporta nada).

ARQUITETURA DESCONSTRUTIVISTA
A arquitetura desconstrutivista pode ser bastante desorientadora e, certa vez, teve consequências de vida ou morte

consequências. Em Cleveland, em 2003, um homem armado que havia baleado três pessoas liderou equipes da SWAT em um

perseguição enlouquecedora de gato e rato por um edifício projetado por Frank Gehry (à esquerda). O
design de vanguarda, com suas paredes de aço onduladas, levou a uma perseguição de sete horas por vários andares.

“Não há ângulos retos no prédio”, disse o chefe de polícia em exasperação, explicando por que
Fuga do Niilismo 229

8-16 Frank O. Gehry 8-17 Kengo Kuma


Case Western Reserve University, 1997 Edifício M2, Tóquio, 1991

as equipes da SWAT tiveram tanta dificuldade em rastrear o assassino. As equipes treinaram


intensivamente, disse ele, mas em um armazém convencional, “um edifício muito retangular”.

Ironia e desequilíbrio

Até a moda reflete mudanças na visão de mundo. Na década de 1950, um estilo modernista estava em alta,

com linhas limpas e formas quadradas. Yves St. Laurent desenhou um vestido reto com linhas pretas retas

e blocos de cores imitando a versão de Abstração Geométrica de Mondrian (capítulo 5), que foi
amplamente copiado. Então, na década de 1990, um estilo desconstrutivista se tornou popular: roupas feitas de sobras

e pontas remendadas - em camadas, assimétricas, muitas vezes rasgadas com bordas irregulares. Era o
colagem aplicada à moda.

Politizando a Sala de Aula


Uma consequência do pós-modernismo que as pessoas frequentemente encontram na vida comum é a ubiq-

pressão uituosa pela correção política. As regras para o comportamento politicamente


correto agora são de rigor na maioria das instituições sociais - escolas, jornais, direito,
política. Como o pós-modernismo deu origem à correção política? Decorre da aversão pós
-moderna às metanarrativas totalizantes. Se a coerção era o resultado da imposição da
unidade, então parecia que a maneira de proteger a liberdade era celebrar a diferença.
Isso explica a popularidade de palavras da moda como diversidade e multiculturalismo.
A falha gritante na correção política é que apenas grupos selecionados são escolhidos para representar

“diversidade” - grupos de vítimas certificados com base em raça, classe, gênero e orientação
sexual. E a análise do problema é tipicamente derivada do marxismo. Diz-se que algum grupo
é vitimizado e oprimido, e o caminho para a libertação é revoltar-se contra os opressores.

Isso explica por que os departamentos de arte e literatura no campus universitário se tornaram

completamente politizado. A crítica literária não lida mais com questões de estética, como estilo,
estrutura, conteúdo e composição. Em vez disso, concentra-se em questões de raça, classe, gênero e
230 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

ambiente. Escrevendo no Chronicle of Higher Education, um professor de inglês definiu o objetivo

do estudo literário em termos estritamente marxistas: Seu objetivo é ajudar os alunos a decidir
“de que lado da luta de classes mundial eles estão: do lado dos donos dos meios de produção ou
do lado dos trabalhadores. Esta e somente esta é a verdadeira questão na alfabetização textual.”

O marxismo clássico pode ter sido desacreditado na economia. Mas imitações marxistas ainda estão
vivos e bem nos departamentos de inglês e humanidades.
Para aderir aos ditames da correção política, os alunos muitas vezes têm que dominar um complexo
novo vocabulário. Um pai ficou chocado ao descobrir que não conseguia entender o livro
didático de sua filha sobre estudos de cinema - apesar de ser um crítico de cinema profissional.
O livro estava densamente repleto de termos como heterogeneidade narratologia e
sintomatologia. O pai escolheu
dois deles - fabula e syuzhet - e perguntou à filha se ela sabia o que significavam.
“São os termos formalistas russos para ‘história’ e ‘enredo’”, respondeu sua filha.
“Bem, então, por que eles não usam ‘história’ e ‘enredo’?”
50
“Não temos permissão. Se fizermos isso, eles tiram pontos do nosso trabalho.”

O jargão é tão denso, brinca Andrew Delbanco, da Universidade de Columbia, que eventualmente
pessoas falando sobre Romeu e Julieta não poderão dizer: “Eles se apaixonaram e se casaram”.
Em vez disso, eles podem dizer algo como isto: “Privilegiando-se mutuamente como objetos de heterossexual

desejo, eles significaram sua retirada do mercado sexual valorizando o con- marital
51
trato como um instrumento da hegemonia burguesa.”

Na verdade, um físico chamado Alan Sokal fezdizer algo assim em uma farsa notória. Em
1996, ele compôs um artigo composto inteiramente de frases sem sentido expressas em jar- pós-moderno

gon. Sob o título “Transgredindo as Fronteiras: Rumo a uma Hermenêutica Transformativa de


Mecânica Quântica”, ele submeteu a peça a um jornal de humanidades. Completamente enganados, os
editores publicaram a peça. Eles ainda não superaram a infâmia.
Se a teoria da arte já imitou a religião, agora é uma paródia da ciência, gerando seu próprio arcano
52
jargão especializado.

No processo, infelizmente, tende a desencorajar o amor pela arte e pela literatura por si só.
Frank Lentricchia, um crítico tão radical que já foi apelidado de Dirty Harry da teoria literária,
ficou desiludido quando observou que seus próprios alunos desenvolveram um senso sufocante de
superioridade moral. Eles julgariam os autores como racistas, sexistas, capitalistas ou impe-
rialistas ou homofóbicos antes mesmo de ler suas obras. Em consternação, Lentricchia disse: “Diga-me sua
[literária] teoria, e eu lhe direi antecipadamente o que você dirá sobre qualquer obra de literatura, espe-
53
cialmente aqueles que você não leu.”

As teorias críticas estão sendo usadas não para obter uma compreensão mais profunda das obras de literatura, mas

para descartá-los de imediato. Claramente, os regimes politicamente corretos não estão libertando os alunos para

pensar por si mesmos. Eles estão transformando os alunos em quadros de reacionários egocêntricos prontos

para receber ordens do teórico da moda do momento.


Fuga do Niilismo 231

O pós-modernismo começou buscando desmascarar o imperialismo implícito do mundo modernista-


visões. Mas ele próprio se tornou imperialista, insistindo que apenas os pós-modernistas têm a capacidade de

enxergar os interesses e motivos subjacentes de todos os outros—para desconstruí-los e desmascará-los.


Com isso, ele efetivamente silencia todas as outras perspectivas.

O Marxismo Vai à Igreja


A mesma visão de mundo neomarxista filtrou-se para a teologia, onde inspirou a teologia negra,
54
feminista e da libertação. Durante a campanha presidencial de 2008, o público americano

ficou chocado ao descobrir o quão radicais algumas versões da teologia negra


podem ser. Por cerca de vinte anos, o então candidato Barack Obama frequentou
uma igreja em Chicago pastoreada pelo reverendo Jeremiah Wright, que pediu a
Deus não para abençoar a América, mas para “amaldiçoá-la”. Wright é um seguidor
do teólogo James Cone, que condena as igrejas brancas como “o Anticristo racista”
e defende a “destruição do inimigo branco”.
Teólogos de inspiração marxista normalmente dizem: Eu não sou marxista, eu meramente uso ferramentas marxistas de

análise. Assim, Cone escreve: “A fé cristã não possui em sua natureza os meios
para analisar a estrutura do capitalismo. O marxismo como ferramenta de
análise social pode . . . ajudar os cristãos
Cone está a ver
tragicamente como as
enganado. coisas
Uma realmente
visão de são.”
mundo cristã tem
recursos para analisar estruturas econômicas como o capitalismo. Mas porque ele não
reconhece esses recursos, Cone estende a mão para a caixa de ferramentas marxista para pegar
emprestadas suas ferramentas conceituais. O problema com essa estratégia é que as
ferramentas conceituais que usamos mudam a maneira como pensamos—assim como
ferramentas práticas, como o carro ou o computador, mudaram a maneira como vivemos. A
teologia da libertação frequentemente acaba sendo pouco mais do que uma cobertura teológica
em um bolo marxista.
A maioria das visões de mundo seculares contém elementos de verdade, e o marxismo pode às vezes destacar

problemas sociais genuínos. Ele ecoa temas bíblicos em sua preocupação com os pobres, os
oprimidos, os alienados. Mas a história tem apresentado repetidos exemplos de como o
marxismo se parece quando soldado ao poder político, e suas soluções são invariavelmente
coercitivas e desumanas.

As Fontes de Schaeffer
Nossa pesquisa sobre a herança do Iluminismo (capítulo 6) terminou com um relato inspirador de

cristãos empregando elementos da filosofia analítica para apoiar a verdade bíblica.


Existem cristãos trabalhando também dentro da tradição continental? Absolutamente.
O mais amplamente conhecido é Francis Schaeffer, que primeiro apresentou muitos evangélicos a

o problema da dicotomia de dois andares. Schaeffer foi influenciado pelo


filósofo Herman Dooyeweerd, um calvinistaPor
holandês que morreu
que Dooyeweerd em o1977.
identificou pro-
blema central da era moderna como dualismo? Porque, como holandês, ele foi influenciado por
232 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

O pensamento continental — que, como vimos, tem lutado com o dualismo


de dois andares desde a era Romântica.
No final do século XIX, a tensão entre as duas histórias havia crescido tanto
aguda que muitos pensadores experimentaram uma sensação de esquizofrenia intelectual. Aqui na América, por

exemplo, os fundadores do pragmatismo filosófico estavam constantemente declarando guerra ao dualismo,

especialmente a divisão fato/valor. William James disse que queria criar “um sistema que combinasse
ambas as coisas, a lealdade científica aos fatos . . . mas também a antiga confiança nos valores humanos.” Como um

historiador explica: “O nobre objetivo do pragmatismo, nos próprios termos de James, era a ponte entre fato
59
e valor, ciência e religião.”
Os pragmatistas não tiveram sucesso, mas na Europa o mesmo nobre objetivo foi perseguido por Edmund

Husserl, fundador da fenomenologia. Esta filosofia não é tão conhecida quanto o existencialismo ou
o pós-modernismo. Mas foi o precursor de ambos.
Como Husserl propôs superar a divisão superior/inferior? Ao diagnosticar como ela
surgiu em primeiro lugar. Todo o processo dialético foi desencadeado pelo erro de elevar um
reino limitado da experiência humana ao status de realidade última. O materialismo iluminista,
que absolutizou a matéria, evocou a reação do idealismo romântico, que absolutizou o livre
60
consciência. No cabo de guerra que se seguiu, a mente ocidental foi dividida em dois.

Claro, a própria natureza da erudição exige que abstraiamos algum aspecto da experiência—
para colocá-lo entre parênteses, isolá-lo e investigar suas propriedades. O perigo é que podemos facilmente esquecer de

devolvê-lo ao seu contexto do mundo real. Um físico se concentra em padrões matemáticos na matéria, mas

pode então elevar a matéria à única realidade — materialismo. Um biólogo se concentra no processo natural,
mas pode então insistir que a natureza é tudo o que existe — naturalismo. E assim por diante. Como disse Husserl, falsos

absolutos surgem quando esquecemos que nossos conceitos são “realmente nada mais do que abstrações divorciadas
61
de sua gênese original em nosso mundo da vida.”
A solução, então, é reverter o processo — retornar o conhecimento abstrato e especializado ao seu
contexto maior na matriz da experiência humana. Como Husserl colocou, devemos reconectar o pensamento teórico

com nossa experiência pré-teórica do mundo, que é integral e unificada.

Os Cegos e o Elefante
De acordo com Dooyeweerd, a tendência de absolutizar alguma parte da criação é a fonte
62
de todas as visões de mundo não bíblicas — “a fonte de todos os ismos.” Como o famoso poema dos cegos
homens e o elefante, cada pensador tem certeza de que a parte da realidade
que ele agarrou é a chave interpretativa para todo o resto. O homem que
agarrou a tromba insiste que todo o elefante é como uma cobra; aquele que
agarrou a presa argumenta que o animal é como uma lança; aquele que
encontrou a cauda insiste que a besta é como uma corda. E assim por diante.
Como Hegel colocou, todas as filosofias nascem da tendência de cada pensador
absolutizar seus próprios horizontes limitados de experiência.
Fuga do Niilismo 233

Isso pode ser traduzido em termos teológicos como a tendência humana de criar ídolos mentais.
Aqueles que rejeitam o Criador transcendente construirão sua visão de mundo sobre algo dentro
da criação. Eles “adorarão e servirão a criatura em vez do Criador” (Rm 1:25).
Os filósofos não são diferentes de todos os outros a esse respeito. Eles também selecionam algum aspecto da

realidade criada que lhes agrada. Isso se torna para eles a chave que abrirá o universo,
o conjunto de categorias conceituais que explicará toda a experiência humana, a verdade última que
condiciona toda outra alegação de verdade, o ponto de apoio no centro da realidade. Em suma, torna-se um

ídolo mental.
Mas, claro, não importa qual parte da realidade seja absolutizada, ainda é apenasuma parte. Portanto,
a visão de mundo construída sobre essa base será sempre parcial, incompleta, unilateral, desequilibrada.
Sempre haverá algumas coisas que não se encaixam em suas categorias de explicação, que ficam fora de sua

grade, que saem da caixa.


E então? Qualquer coisa que saia da caixa é simplesmente descartada ou negada. Por
exemplo, o materialismo insiste que qualquer coisa além da matéria não é real. O empirismo diz que qualquer coisa

além dos sentidos não é real. O naturalismo diz que qualquer coisa além do natural não é real. O panteísmo

diz que qualquer coisa além do Uno abrangente não é real. Estas são todas as formas de redução-
ismo porque eles reduzem a realidade complexa e de muitos níveis que Deus criou a um nível.
O reducionismo é como uma criança que argumenta que o que não cabe em sua caixa de brinquedos não é um brinquedo. Ou

para pegar emprestada uma metáfora de G. K. Chesterton, o reducionismo é como uma prisão mental, “a prisão
63
de um pensamento.” O que não cabe dentro dessa prisão é negado e suprimido.
Não é de admirar que os pensadores pós-modernos se referissem a isso como totalizador . E tem ramificações muito além
do reino das ideias. Pessoas que adotam uma visão de mundo desequilibrada e totalizadora muitas vezes procuram obter

poder político e impô-lo em toda uma sociedade. E quando eles têm sucesso, aqueles que discordam
serão marginalizados, oprimidos, deixados de fora, silenciados, dominados, cooptados, controlados e coagidos.

Eles serão estigmatizados como diferentes, percebidos como “o outro”. Todos devem ser feitos para se curvar ao

ídolo imposto pelo estado — ou queimados na fornalha ardente da opressão.

O estudo das visões de mundo não é meramente um assunto abstrato a ser discutido hipoteticamente em

sala de aula. Tem consequências de vida ou morte.


64
Para criar uma sociedade humana, devemos “desmascarar os ídolos temporais” (frase de Dooyeweerd)
para mostrar o quão perigosa é realmente uma visão de mundo desequilibrada e unilateral. A única base para genuínos

direitos humanos e dignidade é uma visão de mundo totalmente bíblica. Porque o cristianismo começa com um trans-

cendente Criador, não idolatra nenhuma parte da criação. E, portanto, não nega ou deni-
gra nenhuma outra parte. Como resultado, tem os recursos conceituais para fornecer um holístico, inclusivo

visão de mundo que é humana e afirma a vida. Esta é uma boa notícia de fato. É a única abordagem
capaz de curar a divisão na mente ocidental e restaurar a liberdade na sociedade ocidental.
Ao adaptar elementos da fenomenologia, pensadores como Dooyeweerd mais uma vez “saquearam
os egípcios.” Outros cristãos influenciados pela fenomenologia incluem Paul Ricoeur,
234 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

65
Gabriel Marcel, Jean-Luc Marion e o ex-papa João Paulo II. Na verdade, tantos religiosos

pensadores abraçaram a fenomenologia que os secularistas reclamam de uma “guinada


teológica” dentro do movimento. Assim como os cristãos encontraram maneiras de
trabalhar dentro da tradição analítica, também encontraram maneiras de trabalhar
dentro da tradição continental, adaptando os elementos que são compatíveis com uma
cosmovisão bíblica.

Bestas e Lunáticos
Ao longo dos últimos capítulos, exploramos várias cosmovisões dentro das tradições analítica e

Continental. As cosmovisões não são sistemas de pensamento desconectados.


Elas se agrupam em tradições contínuas relacionadas por semelhanças familiares.

Duas correntes, muitas escolas

CONTINENTAL
Idealismo, Marxismo, Fenomenologia, Existencialismo
Pós-modernismo, Desconstrucionismo
__________________________________________

ANALÍTICO
Empirismo, Racionalismo, Materialismo, Naturalismo
Positivismo Lógico, Análise Linguística

Lembre-se de alguns dos temas de conexão: Fatos/valores. Caixa de coisas/caixa da mente. Máquina/
fantasma (Descartes). Natureza/liberdade (Kant). Formalismo/expressionismo. E assim por diante. No século dezenove,

John Stuart Mill notou o antagonismo já separando as duas tradições:


O andar inferior, com seu materialismo, “é acusado de transformar os homens em bestas”, enquanto o andar superior,
66
com seu irracionalismo, é acusado de transformar os homens em “lunáticos”. Leia qualquer livro contemporâneo de

Filósofos analíticos falando sobre filósofos continentais, ou vice-versa, e você encontrará


acusações semelhantes ainda sendo lançadas através da divisão.

A maioria das pessoas é atraída por temperamento para um lado ou para o outro. Uma pessoa analítica
(cientista ou engenheiro) provavelmente terá cosmovisões do andar inferior. Uma pessoa criativa (artista ou escritor)

provavelmente será simpática às cosmovisões do andar superior. Um cristão é chamado a tornar o evangelho

crível para cada tipo. Como Paulo diz: “Que a vossa palavra seja sempre agradável, temperada com
sal, para que saibais como responder a cada um” (Col. 4:6). O estudo das cosmovisões
fornece as ferramentas para individualizar nossa abordagem na apresentação do evangelho.

Ao longo da história, essas duas tradições não permaneceram estanques. Às vezes, elas
se sobrepuseram ou tomaram emprestado uma da outra. Na verdade, a maioria das pessoas realmente mantém elementos de

ambas (como vimos no capítulo 2): Suas visões são moldadas pelo pensamento romântico no reino dos valores
Fuga do Niilismo 235

e pelo pensamento Iluminista no reino dos fatos. O mesmo se aplica à sociedade como um todo, diz

o filósofo Charles Taylor. O subjetivismo romântico permeia o reino privado


das relações pessoais, lazer e entretenimento. Mas o utilitarismo iluminista
domina o reino público dos negócios, da academia, da medicina e da política.

Duas Culturas
Em 1959, C. P. Snow publicou um livro chamado As Duas Culturas, alertando que a cultura ocidental

havia se dividido em duas. Em suas palavras, um “abismo de incompreensão mútua” e


“hostilidade” divide as ciências (químicos, engenheiros, físicos e biólogos) das humanidades
(pintores, poetas, romancistas e filósofos — a quem ele chamou de “intelectuais literários”).
Ao longo dos
últimos capítulos, vimos o quão certo ele estava.
Desde que Snow escreveu essas palavras, o abismo se alargou em um grand canyon. Na década de 1950,

explica Wendy Steiner, “os oponentes nos debates das ‘Duas Culturas’ estavam parelhos: de
ambos os lados, eram homens de tweed que acreditavam na verdade e pensavam que seu
caminho para ela era o certo”. Como resultado, “eles se sentiam igualmente com direito a um
lugar na universidade”. Desde então,
no entanto, os dois grupos se tornaram desiguais. A ciência e a tecnologia continuaram
sua marcha para frente, confiantes de que todos os problemas podem ser resolvidos
pela metodologia científica. Por outro lado, artistas e escritores não acreditam mais que
tenham alguma verdade significativa a oferecer. Como escreve o professor de literatura
Daniel Ritchie, “O acadêmico comum na torre de marfim não está mais persuadido de
que a literatura tem algo único a nos ensinar sobre a vida”. Os intelectuais
literários de Snow ainda podem ser homens de tweed, mas não acreditam
mais na verdade ou pensam que seu caminho para ela é o certo.
O teólogo chinês Carver Yu descreve o problema como um “abismo entre o otimismo tecnológico e
71
o pessimismo literário”.
Esses desenvolvimentos exigem algumas perguntas difíceis para os cristãos. Motivados pela compaixão

e amor ao próximo, eles devem se perguntar: Onde eles estavam quando esse abismo
estava crescendo? Onde eles estavam quando os artistas começaram a clamar em
desespero por alternativas ao impacto desumanizador do reducionismo científico? Eles
estavam prestando atenção? Eles estavam lendo os sinais culturais? Eles sabiam como
interpretar a linguagem de seu campo missionário mais imediato — as pessoas que vivem
ao redor deles? Eles comunicaram respostas ponderadas e compassivas? Como escreve
Calvin Seerveld, “O povo de Deus deve se conscientizar de nossa culpa na situação difícil
daqueles
72
presos em becos sem saída culturais”.

Infelizmente, quando os cristãos prestam atenção à arte moderna, eles frequentemente a condenam ou até mesmo a ridicularizam

ela. Quando mostro slides de arte moderna em minhas aulas, os alunos costumam fazer piadas sobre soi-disant

artistas rindo até o banco. É certo que a rejeição da habilidade às vezes permitiu

que pessoas inescrupulosas reivindicassem o prestígio e o status da arte para trabalhos inferiores. Mas a arte
séria deve ser levada a sério. Podemos não gostar pessoalmente de certas formas de arte ou achá-las bonitas.
236 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

No entanto, temos a obrigação de prestar atenção ao que eles nos dizem. Devemos dar aos artistas o
respeito de perguntar o que eles pretendiam em suas obras, não apenas como reagimos a elas. Como

Rookmaaker disse uma vez: “Muitas obras seriam sem sentido, lixo real,
mas pelo fato de que, sendo arte, são exibidas porque têm uma mensagem
de importância quase religiosa, interpretando o homem e seu mundo.”
Os cristãos são responsáveis por aprender a ler essa mensagem—assim como os missionários são
responsáveis por aprender a língua da cultura onde vivem. Eles também devem mostrar com-
paixão àqueles que são capturados por visões de mundo destrutivas e niilistas. Como Schaeffer escreveu uma vez

escreveu, não há nada mais feio do que a ortodoxia teológica sem compreensão ou compaixão.
74
ssion. Somente demonstrando compaixão genuína os cristãos ganharão o direito de oferecer uma bibli-

alternativa cal.

As mesmas visões de mundo se filtram para a cultura popular, onde são absorvidas por adolescentes e

crianças. É por isso que é crucial que até mesmo os jovens aprendam a reconhecer e resistir ao secu-
lares visões de mundo. Vá para o próximo capítulo para alguns exemplos perturbadores.
Capítulo 9

“Através da arte moderna, nosso tempo se revela a si mesmo.”

—William Barrett

Moralidade no Cinema

Com o amanhecer progressivo, os contornos de um acampamento imenso tornaram-se visíveis: longos trechos

de várias fileiras de cercas de arame farpado; torres de vigia; holofotes; e longas colunas de figuras humanas esfarrapadas,

cinzentas na cinzenta do amanhecer, caminhando ao longo das estradas retas e desertas . . . .


Não percebemos o significado da cena que se seguiria em breve. Disseram-nos para
deixar nossa bagagem no trem e formar duas filas—mulheres de um lado, homens do outro—
para passar por um oficial superior da SS. . . .
O oficial havia assumido uma atitude de facilidade descuidada. Sua mão direita estava levantada, e com o
dedo indicador dessa mão, ele apontou muito vagarosamente para a direita ou para a esquerda. . . .

O significado do jogo de dedos foi explicado para nós à noite. Para a grande maioria
do nosso transporte, cerca de 90 por cento, significava morte. Aqueles que foram enviados para a esquerda foram marchados

da estação direto para o crematório. . . .


Nós que fomos salvos, uma minoria do nosso transporte, descobrimos a verdade à noite. Eu
perguntei a prisioneiros que estavam lá há algum tempo para onde meu colega e amigo
P-—tinha sido enviado.

“Ele foi enviado para o lado


esquerdo?” “Sim”, respondi.
“Então você pode vê-lo lá”, me disseram.

237
238 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

“Onde?” Uma mão apontou para a chaminé a algumas centenas de metros de distância, que estava enviando uma

coluna de chamas para o céu cinzento da Polônia. Ela se dissolveu em uma nuvem sinistra de fumaça.

—Viktor Frankl, Em Busca de Sentido

Deus das Câmaras de Gás


Vivemos em uma era de ideologia. Foi em nome de uma ideologia que centenas de milhares
de pessoas foram enviadas para a morte em uma nuvem sinistra de fumaça na
Alemanha Nazista. Foi em nome de uma ideologia que um número ainda maior de
pessoas pereceu em campos de trabalho forçado na Rússia Stalinista e na China
Maoísta. Claro, as crenças sempre moldaram a história. No passado, no entanto,
as crenças tendiam a assumir a forma de suposições tácitas e dadas como certas
que se filtravam organicamente através da religião, dos costumes e das tradições
de uma sociedade. A maioria das pessoas prestava pouca atenção à filosofia
formal. Na verdade, eles “descartavam a filosofia como totalmente impraticável e
inútil”, observa o poeta polonês Czeslaw Milosz. Foi somente em meados do século
XX que os ocidentais descobriram “que seu destino poderia ser influenciado
diretamente por livros de filosofia intrincados e abstrusos”.
Tanto o Comunismo quanto o Nacional Socialismo (Nazismo) tiveram seu nascimento em filosofias abstratas

sistemas cal, discutidos por professores universitários em salas de aula e salas de professores.
Ambos foram eventualmente impostos politicamente por meio de uma ortodoxia estatal
coercitiva. E ambos foram usados por regimes totalitários para justificar o assassinato de
centenas de milhares de seus próprios cidadãos. Embora a crueldade e a opressão tenham sido
endêmicas à sociedade humana desde a Queda, o papel desempenhado por filosofias
especulativas ou visões de mundo para justificar a opressão é um fenômeno moderno. O estado
patrocinou

A violência do século XX revela o poder que os ídolos ideológicos exercem na


era moderna.
Viktor Frankl foi um psicoterapeuta que suportou anos de prisão em campos de concentração nazistas

campos de concentração. O relato acima descreve seu primeiro dia, quando percebeu
que estes não eram campos de trabalho, mas campos de extermínio. Mais tarde, ele
escreveria que uma visão de mundo não é apenas uma abstração inócua, mas
realmente tem o poder de corromper as pessoas. O totalitarismo é o resultado final de
uma visão de mundo materialista: “Quando apresentamos o homem como um
autômato de reflexos, como uma máquina mental, como um feixe de instintos, como
um peão de impulsos e reações, como um mero produto de instinto, hereditariedade e
meio ambiente, alimentamos o niilismo ao qual o homem moderno está, em qualquer
caso, propenso.” E o niilismo abriu caminho para as câmaras de gás. Frankl termina
com estas palavras convincentes: “Estou absolutamente convencido de que as câmaras
de gás de Auschwitz, Treblinka e Maidanek foram, em última análise, preparadas não
em algum Ministério ou outro em Berlim, mas sim nas mesas e nos anfiteatros de
cientistas e filósofos niilistas.”
Os historiadores muitas vezes se perguntam por que algumas das nações mais avançadas da Europa sucumbiram a

tamanha desumanidade. Frankl está certo: uma das principais razões foi a aceitação de um materialista
Moralidade no Cinema 239

uma visão de mundo que negava a liberdade e a dignidade humana, levando assim ao niilismo.
A política governamental meramente seguiu onde as universidades lideraram. Como J. Gresham
Machen observou certa vez: “O que hoje é uma questão de especulação acadêmica começa
amanhã a mover exércitos e derrubar impérios.”
As câmaras de gás refutaram de uma vez por todas qualquer noção equivocada de que as ideias são neutras. Hoje

ideologias determinam como o estado governa, como a economia é administrada, como


as notícias são enquadradas na mídia e como o sistema educacional molda a próxima
geração. Lidar com questões de visão de mundo não é um mero exercício intelectual.
Deve sempre ser feito com um senso esmagador de que estamos lidando com questões
de importância de vida ou morte.

Jesus Zumbi?
À medida que as ideias se filtram da sala de aula universitária para a cultura popular, elas informam o pensamento

de pessoas comuns que nunca lerão um livro de filosofia ou visitarão uma galeria de arte. Deixe-
me ilustrar com a história de dois adolescentes. Ambos foram criados em famílias cristãs
comprometidas e frequentavam a igreja regularmente. No entanto, no ensino médio, ambos
rejeitaram sua educação cristã.
Um adolescente, que chamarei de Todd, foi atraído pelo Novo Ateísmo, a versão mais agressiva de hoje

da pensamento iluminista. Como um jornalista aponta, os argumentos dos Novos Ateus são
“copiados em quase todos os detalhes do auge do ceticismo iluminista”. Todd começou a

imitar a sátira feroz do cristianismo que ele lia em sites da internet - como um que
zombeteiramente chamava Jesus de zumbi. Afinal, não é assim que chamamos
alguém que volta dos mortos? Em uma Páscoa, Todd decorou sua página do
Facebook com uma ilustração grotesca de “Jesus Zumbi” copiada de um site - uma
imagem da Escola Dominical Vitoriana do Salvador com seu rosto apodrecendo. A
legenda dizia: “Jesus morreu por nossos pecados, ele renasceu por nossos
cérebros” (uma alusão ao mito de que zumbis comem cérebros de pessoas).
O outro adolescente, que chamarei de Tom, foi atraído por uma tendência criativa e artística chamada emo (abreviação

para emocional), inspirado em temas românticos. A moda emo inclui roupas pretas, skinny

jeans, delineador (para ambos os sexos) e cabelo tingido de preto, cobrindo um olho.
As bandas emo apresentam letras de tristeza, solidão e desespero. É considerado
emo ser fascinado por morte, suicídio e autoagressão (cortes). Aparentemente da
noite para o dia, Tom passou de um adolescente responsável e de alto desempenho
para um garoto-propaganda do emo, quase como se estivesse seguindo um roteiro.
Quem escreveu o roteiro? A cultura emo exagera temas do Romantismo,
especialmente os Simbolistas e Decadentes, filtrados para o nível popular.
O que esses exemplos deixam claro é que os jovens são confrontados não apenas por tentações morais

mas também por tentações filosóficas - concretizadas na linguagem da cultura pop.


Para os jovens, aprender as habilidades de conscientização da visão de mundo pode literalmente
significar a diferença entre a vida espiritual e a morte. As ideias exercem um enorme poder
quando musicadas em um vídeo do YouTube ou traduzidas em imagens brilhantes na tela do
teatro.
240 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Você tem as habilidades para confrontar esse poder e aproveitá-lo para o bem? Vamos pegar nossos
detectores de visão de mundo e praticar em vários filmes. Muitos dos filmes a seguir não são adequados
para crianças. Alguns são medíocres em qualidade. No entanto, selecionei filmes cuja visão de mundo
temas são relativamente óbvios, porque é aí que podemos aprimorar melhor nossas habilidades de visão de mundo.

Regras da Vida
Susan é uma cristã comprometida que trabalha no Capitólio como analista de políticas para um membro do

Congresso. No passado, quando Susan tirava folga de seu trabalho de alto nível
para ir ao cinema, ela tratava isso como puro entretenimento. Uma chance de
sentar e desfrutar de uma boa história. Até que ela assistiu Regras da Vida.
“O que você achou?”, perguntou um amigo depois.
“Foi um bom filme”, respondeu Susan. “Eu gostei.”
“Como você pode dizer isso?”, seu amigo gritou. “É um dos filmes pró-aborto mais
feitos!”
Susan foi abalada com a percepção de que os filmes são muito mais do que entretenimento. As Regras da Vida

é baseado no romance de John Irving. Como ele mesmo explica, o livro é sobre “o direito de uma mulher

ao aborto”, e o filme é sobre “a história do aborto ilegal”. Os cineastas até realizaram várias
exibições para grupos da Planned Parenthood. “Sou tão ativo quanto posso ser para a Planned
Parenthood e a National Abortion Rights League”, disse Irving ao LA Times. “Essa é a minha

política e as pessoas sabem disso .”


5

Mas as pessoas sabiam disso antes de comprar seus ingressos e pipoca? Eles perceberam que o
propósito do filme era promover a posição liberal de Irving sobre o aborto? O personagem principal é
um jovem chamado Homer Wells que foi criado em um orfanato. Embora treinado medicamente por
o médico residente, Homer se recusa a realizar abortos, assombrado pelo fato de que ele poderia ter
sido abortado. Mais tarde, no entanto, quando Homer encontra uma adolescente que é vítima de incesto por seu

pai, ele decide que dar a ela um aborto é o único curso compassivo - mesmo que
signifique descartar suas convicções morais.
A lição é óbvia: as regras atrapalham a compaixão. O médico diz que sua política é
dar às mulheres o que elas querem - um bebê ou um aborto. Nada é dito sobre moral
princípios ou obrigações. O filme reduz a moralidade a desejos e sentimentos. É David Hume no
cinema.
Durante todo o filme, as regras são quebradas constantemente. Os personagens mentem na ponta do chapéu,

seja para encobrir uma verdade dolorosa ou para promover uma boa causa. A casa de cidra no título se refere
a um alojamento para trabalhadores migrantes localizado em uma fazenda de maçãs. Pregado na parede está um velho

folha amarelada de papel proclamando regras que variam de princípios óbvios de segurança, como não fumar

na cama (que os trabalhadores violam diariamente) a regras intrigantes como não dormir no telhado. Mas o

conteúdo real das regras é irrelevante. Os trabalhadores se opõem veementemente à ideia de seguir
Moralidade no Cinema 241

nenhuma regra. Homer arranca o papel da parede e o queima no


fogo. O líder da equipe de trabalho declara: “Somos nós que
devemos criar nossas próprias regras. E nós criamos, todos os
dias.” Mais tarde, ele acrescenta: “Às vezes, você tem que quebrar
algumas regras para endireitar as coisas.”
Essas duas falas encapsulam o tema do filme. No entanto, os cineastas não
parecem perceber o paradoxo feio que contêm. Pois o líder da equipe de
trabalho que as profere é também o pai que está estuprando sua filha.
Em essência, ele está dizendo que ele é livre para inventar suas regras e
fazer o que quiser—com
ela.
9-1 Uma apologia ao aborto
A maioria dos críticos perdeu o paradoxo completamente, elogiando o filme como um

belo conto de amadurecimento. E é um filme lindamente produzido. Os personagens são simpá-

ticos. É precisamente isso que torna o filme tão destrutivo. Os membros da audiência se veem
querendo que Homer realize um aborto para libertar a filha do resultado de sua vitimização.

Mas se você pensar racionalmente, no mundo real, quem mais se beneficia com o
aborto é o perpetrador. Ao eliminar as evidências de seu crime, ele fica livre para
continuar vitimizando a garota. (No filme, a filha esfaqueia o pai e foge, mas na
realidade, é claro, muitas garotas são muito jovens e dependentes para escapar do
abuso contínuo.)
Quando você vai ao teatro, você simplesmente deixa a história te envolver? Ou você tem as

habilidades para analisar o que um filme está dizendo? Um filme geralmente comunica
sua perspectiva através do personagem principal. O que o personagem principal
aprende ou descobre é o que os cineastas querem que o público aprenda. Neste filme,
Homer aprende que sua oposição ao aborto é equivocada e ingênua, um produto de
sua vida protegida no orfanato. A vida é muito complexa para quaisquer regras morais
predeterminadas. É melhor criarmos nossas próprias regras à medida que avançamos.
No entanto, se regras morais objetivas não existem, então não há como enfrentar valentões, tiranos,

usuários e exploradores. Uma das cenas mais arrepiantes do filme mostra o incinerador
do orfanato, onde os minúsculos corpos dos bebês abortados são queimados. Fumaça
cinzenta sobe da alta chaminé de tijolos para o céu. É a mesma “nuvem de fumaça
sinistra” que Frankl testemunhou em um campo de extermínio nazista.

James Spiegel, professor de filosofia na Taylor University, escreve que “todo filme oferece uma
visão de mundo, um conjunto de crenças e valores para entender como o mundo é e
como deveria ser.” Ao assistir a um filme, devemos perguntar: Que visão de mundo
o filme está comunicando? Existem elementos que são verdadeiros? Existem
elementos que são falsos e destrutivos? Se os cristãos não aprenderem a fazer essas
perguntas, eles podem muito bem absorver ideias não bíblicas sem nem mesmo
estarem cientes disso. T. S. Eliot observou certa vez que os livros sérios que lemos
não nos influenciam tanto quanto os livros que lemos por diversão (ou os filmes que
assistimos para entretenimento). Por quê? Porque quando estamos relaxando, nossa
guarda está baixa e nos envolvemos na “suspensão da descrença” que nos permite
entrar imaginativamente na história. Como resultado, as suposições do autor ou
242 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

o roteirista pode passar despercebido e infiltrar-se ainda mais profundamente em nossa consciência. Quando nós

“suspendemos a descrença”, devemos ter cuidado para não suspender nossas faculdades críticas.

Zen Maluco
Vida Regras da Casa de Cidra , alguns filmes contêm uma mensagem tão óbvia que é virtualmente um
peça apologética ou de propaganda. Menina de Ouro é uma apologia à eutanásia. Brokeback
Mountain é uma apologia aos direitos dos homossexuais. V de Vingança diz que a igreja é completamente
corrupta, o governo é completamente opressor e, portanto, obviamente, uma revolta sangrenta é justificada.

Outros filmes retratam visões de mundo em conflito. Quero Ser John Malkovich é praticamente uma filosofia

lição, ensinada através do humor. Dois dos personagens são “Detetives Existenciais” que oferecem seus

serviços para contratar para investigar o significado da vida de seu cliente. Eles pregam
uma espécie de filosofia oriental confusa misturada com física quântica, brandindo um
cobertor para explicar como todas as partículas do universo se interconectam como fios
no tecido. Eles entoam princípios supostamente profundos, como: “Tudo está conectado
e tudo importa”.
O antagonista é um filósofo francês que se opõe ao
Zen alegre dos detetives com um niilismo sombrio. Ela prega uma filosofia atomística:

Nada está conectado, então nada importa. A vida é um acidente sem sentido,
cheio de miséria e caos. “A existência é uma piada cruel.”
É um tratamento cinematográfico do conflito entre o mundo superior/inferior da história-

visões. No entanto, os temas são tratados de forma leve - uma espécie de meta-
pastelão físico. O filme está cheio de frases como: “Você já trans-
ascendeu o espaço e o tempo?” Um crítico chamou o filme de “uma mistura de
Sartre maluco e Zen maluco.” No final, ambos os lados são considerados certos,
9-2 Temos que perguntar
essas perguntas? mesmo que sejam contraditórios.
Ao longo do caminho, o filme faz uma pausa para dar alfinetadas no cristianismo. A

família cristã é retratada como hipócrita, hostil e boca suja. Eles adotaram um
órfão sudanês, mas apenas, ao que parece, para lhes dar direitos de se gabar de
serem mais caridosos do que você. A troca mais reveladora ocorre quando o
personagem principal janta com a família e pergunta: “Se as formas deste mundo
morrem, o que é mais real, o eu que morre ou o eu que é infinito? Posso confiar na
minha mente habitual ou preciso aprender a olhar por baixo dessas coisas?”
A filha olha fixamente para a mãe e diz: “Não precisamos fazer essas perguntas,
precisamos, mãe?”

“Não, querida”, responde a mãe.

Infelizmente, a caricatura contém alguma verdade. Os cristãos estão pagando o preço por adotar a

mentalidade de fortaleza no século passado e não prestar atenção às perguntas que as pessoas estão fazendo.
Uma abordagem melhor foi sugerida por C. S. Lewis quando ele disse que em todas as áreas temáticas,
Moralidade no Cinema 243

são os cristãos que deveriam pensar mais profundamente e ser os mais criativos - até que
as pessoas se perguntem por que todos os melhores livros e filmes são feitos por cristãos.

Woody Allen Faz de Novo


Em Crimes e Pecados, Woody Allen retrata o conflito de visões de mundo de uma forma muito

mais séria. O personagem principal é um rico oftalmologista que contrata um


assassino para matar sua amante quando ela ameaça revelar o caso. O filme então
essencialmente nos leva através de uma discussão prolongada sobre o
assassinato, realizada entre três visões de mundo: uma visão de mundo pré-
moderna (teísmo tradicional), uma visão de mundo do andar de cima
(existencialismo) e uma visão de mundo do andar de baixo (empirismo).
O teísmo é representado por um rabino. Ele insiste que o universo tem “uma estrutura moral, com real

significado”. No entanto, o rabino sofre de uma doença ocular e está ficando


cego rapidamente. Em uma entrevista, Allen explicou o que a metáfora
significa: “Sinto que suareforça
Allen fé é cega. . . no
o ponto . requer fecharcom
filme, fazendo os olhos para
que o pai a realidade.”
do rabino diga
que se sua religião se revelasse falsa, “Eu sempre escolherei Deus em vez da
verdade.” Fé cega de fato.
A visão de mundo existencialista é representada por um filósofo. “O universo é um lugar bem frio”, diz ele. “Somos apenas nós, com nossa capacidade de amar, que damos significado ao universo
indiferente.” Essa noção remonta aos românticos, que disseram que são os humanos que conferem significado ao universo sem sentido. Antes do final do filme, no entanto, o filósofo comete suicídio -
simbolizando a convicção de Allen de que o existencialismo não funciona.

lugar”, diz ele. “Somos apenas nós, com nossa capacidade de amar, que damos
significado ao universo indiferente.” Essa noção remonta aos românticos, que disseram
que são os humanos que conferem significado ao universo sem sentido. Antes do final
do filme, no entanto, o filósofo comete suicídio - simbolizando a convicção de Allen de
que o existencialismo não funciona.
O filme também coloca temas existencialistas na boca do
próprio personagem de Allen, um produtor de cinema. No clímax
do filme, o oftalmologista e o produtor de cinema discutem o
assassinato em termos hipotéticos. O produtor, pensando que
está discutindo o enredo de um filme, diz que a história deve
terminar com o assassino se entregando: “Na ausência de Deus
ou algo assim, ele é forçado a assumir essa responsabilidade ele
mesmo.” Mas o médico responde: “Isso é ficção . . . Estou falando
da realidade.” Em outras palavras, a ideia existencialista de que
os humanos sozinhos, sem Deus, têm a capacidade de imbuir
suas ações de significado moral é uma ficção. 9-3 A realidade é
apenas o que o olho vê

Finalmente, uma visão de mundo empirista e materialista é representada pelo

oftalmologista. Ele ajuda as pessoas a ver o mundo como ele realmente é - e a implicação é que o mundo
consiste apenas no que podemos ver. Quando menino, o médico foi ensinado que “os olhos de Deus

veem tudo.” Mas a mensagem do filme, Allen afirma sem rodeios, é que
“não há Deus” e, portanto, ninguém para ver. “Se você está disposto a
assassinarOetema
podedo escapar
filme é queimpune, e pode
não há justiça convivernenhum
transcendente, com isso, tudo
equilíbrio bem.”
final
244 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

dos livros, nenhuma consequência moral final para nossas ações. Contanto
que você não seja pego, você está livre.
Mas (o que o filme não nãodiz) nesse caso, suas ações também são sem sentido. Os humanos enfrentam

um dilema fundamental. Ou existe uma moralidade objetiva, caso em que ficamos aquém e somos
culpados. Ou não há moralidade, caso em que nossas ações não têm significado final. Para evitar
culpa, Allen escolheu a insignificância.

Sete Pecados Capitais


Outro filme que questiona a existência de justiça transcendente é o thriller Seven—mas

termina sugerindo uma resposta existencialista. O personagem de Morgan Freeman é um policial que lamenta
que a justiça humana é dolorosamente inadequada: “Tantos cadáveres rolam impunes.” Existe alguma

justiça cósmica que acabará por vingar essas mortes e equilibrar os


livros? A resposta do filme é Não.
Na verdade, a premissa do filme é que se houvesse tal coisa como
justiça divina, seria repulsivo. Percorrendo os Sete Mortais
Pecados um por um, o filme retrata o que se considera uma visão cristã de
justiça baseada em A Divina Comédia de Dante - que a punição se encaixa no crime.

Como o pecado da gula é punido? Quando um homem obeso é alimentado à força até

seu estômago explode. Como o pecado da ganância é punido? Quando um sem escrúpulos

advogado (que “sangrou” suas vítimas) é literalmente sangrado até a morte. E assim por diante.
salto de fé
Se existisse tal coisa como justiça divina, o filme está dizendo, Deus
seria um sádico cósmico. O mundo seria um inferno dantesco. Portanto
não há justiça divina. Existem apenas as tentativas parciais e imperfeitas de justiça humana.
No final do filme, o personagem de Morgan Freeman cita uma frase de Por Quem os Sinos Dobram de Hemingway:
“Ernest Hemingway escreveu uma vez: ‘O mundo é um lugar bom e vale a pena lutar por ele.’ Eu concordo com a segunda parte.” Em outras palavras, o mundo não é um lugar bom, mas eu
lutarei
por ele de qualquer maneira. Isso é existencialismo: Objetivamente falando, enfrentamos um mundo sombrio sem justiça cósmica, sem moralidade transcendente, sem esperança de que o mal seja finalmente
corrigido. A vida é absurda. Mas podemos dar um salto de fé para o andar superior e continuar a lutar por justiça - sem qualquer base objetiva, impulsionados apenas pelo nosso senso pessoal e subjetivo de certo e
errado.

Camus Vai ao Cinema

O filme eXistenZ
de dar um salto de fé, ele permanece no andar superior durante todo o filme. O título é a palavra alemã para existencialismo, e o escritor/diretor David
expõe o existencialismo de forma muito
Cronenberg se autodenomina um “existencialista portador de cartão”. Ele chama o filme de “propaganda existencialista” - “uma espécie de ilustração filosófica
mais explícita. Você pode dizer que, em vez
dos princípios existencialistas”.

Ele até fez com que os atores se


aprofundassem em Sartre, Kierkegaard,
9-4 Um existencialista
Moralidade no Cinema 245

Nietzsche e Camus para que pudessem comunicar a visão


de mundo de forma mais clara.
Como Cronenberg prega seu credo existencialista? Na história,
eXistenZ é o nome de um jogo de realidade virtual altamente avançado. Ao longo de

do filme, os personagens entram e saem do jogo - apenas para


descobrir que, em última análise, não há saída do labirinto de
jogos. No final do filme, o que pensávamos ser realidade acaba
sendo mais um jogo, chamado Transcendenz (outro termo
emprestado do existencialismo). Em o
cena final, um personagem pergunta: “Diga-me a verdade:
9-5 Tu és Deus do teu
ainda estamos no jogo?” Fade to black. próprio pequeno universo

O ponto filosófico é que não existe objetividade

realidade. Nas palavras de Cronenberg, “Toda realidade é virtual. É tudo inventado.” Os jogos de realidade virtual
simbolizam a ideia de que todas as visões de mundo são inventadas. Eles são como jogos que inventamos e

então vivemos. Para citar Cronenberg, toda visão da realidade “expressa um


ato criativo de vontade entre os humanos. Somos
Em uma cena, mestresjoga
um personagem doumuniverso.”
jogo chamado “Arte

Deus” com o slogan: “Tu, o jogador do jogo, és Deus.”


De acordo com o existencialismo, para ser autêntico, o indivíduo deve certificar-se de que realmente é

o Deus de seu próprio universo. O que torna isso difícil é que todos nós crescemos
dentro de uma família, sociedade, cultura, nação, religião. As ideias e expectativas de
outras pessoas estão constantemente nos pressionando, forçando-nos a entrar em seus
moldes. No existencialismo, quando você vive de acordo com papéis e regras prescritas,
isso é inautêntico.
No filme, isso é ilustrado quando “desejos de jogo” pré-destinados assumem o controle e forçam o char-

personagens em certos papéis. A designer de eXistenZ, Allegra, está jogando o jogo com Ted quando
de repente ele pergunta: “O que aconteceu? Eu não queria dizer isso.”

“É seu personagem quem disse isso”, explica Allegra. “Há coisas que precisam ser ditas para

avançar a trama e estabelecer os personagens, e essas coisas são ditas quer


você queira dizê-las ou não.”
Mais tarde, depois de fazer algo ofensivo, Ted diz: “Esse não era eu. Esse era meu personagem do jogo-

ter.” Finalmente, ele é até compelido a matar um homem. Lamentavelmente, ele


comenta: “O livre arbítrio obviamente não é um grande fator neste pequeno mundo
[jogo].” O existencialismo ensina que devemos nos conscientizar de como estamos
presos pelos padrões e expectativas de outras pessoas e, em seguida, trabalhar para nos
libertarmos. Em uma entrevista, Cronenberg cita a frase de Sartre de que os humanos
são “condenados a serem livres” - condenados porque, como vimos no capítulo 8, é uma
liberdade vertiginosa, sem um padrão objetivo para medir o certo ou o errado.

Os revisores normalmente descreveram eXistenZ como um filme sobre um designer de jogos que fica preso em

seu próprio jogo. Mas isso é apenas um recurso literário. Claramente, Cronenberg está lutando com
questões de verdade, realidade e liberdade humana - tudo dentro do contexto de uma história de celulóide.
246 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Fazendo a Matrix
Um filme com um tema incrivelmente semelhante é The Matrix, que apareceu aproximadamente na mesma

época. Escrito e dirigido pelos irmãos Wachowski, mais uma vez o mundo que os personagens
pensam ser real acaba sendo uma realidade virtual, semelhante a um jogo de computador. O tema é resumido

em uma pergunta levantada por um dos personagens: “Você já teve um sonho, Neo,
do qual tinha tanta certeza de que era real? E se você não conseguisse acordar desse
sonho? Como você saberia a diferença entre o mundo dos sonhos e o mundo real?”
Os cinéfilos cristãos ficaram a princípio intrigados com o filme porque ele é
repleto de nomes e termos bíblicos. Mas espalhados ao lado deles estão
nomes do gnosticismo grego antigo, mitologia egípcia, hinduísmo,
e budismo. É um supermercado de produtos religiosos, e o subjacente
a suposição parece ser que todas as religiões são nada mais do que simbólicas
projeções de alguma experiência espiritual subjacente. Portanto, as dife-
renças entre elas não importam; somos livres para escolher o que quisermos
símbolos que preferimos.

9-6 Um supermercado Os irmãos Wachowski creditam Nietzsche como a fonte de seu


de produtos religiosos
credo existencialista. Eles também exigiram que os atores lessem livros de Jean
15
Baudrillard, que foi chamado de “sumo sacerdote” do pós-modernismo. Como eXistenZ, o filme
luta com questões filosóficas de verdade e realidade, livre arbítrio e determinismo - embora, ao contrário de
eXistenZ, seja um filme de ação brilhante, exagerado e de grande orçamento, com efeitos especiais que agradam o
público

efeitos e edição no estilo MTV.

Ethan Hawke Sonha


Waking Life é exatamente o que você precisa se for ao cinema para ter uma aula de Continental

filosofia. O filme nem sequer tem um enredo. Em vez disso, consiste inteiramente
em trechos de reflexões filosóficas de filósofos, cientistas, cineastas e atores. Os
personagens são renderizados em um estilo de animação ondulado, de pintar por
números, que confere uma qualidade onírica a tudo. O personagem principal
parece estar em um sonho, flutuando para vários lugares e ouvindo enquanto as
pessoas ponderam sobre o sentido da vida. O único tema coerente que emerge é
que os sonhos podem ser avenidas para um inconsciente coletivo que está
evoluindo para níveis cada vez mais elevados. Carl Jung, ligue para o seu escritório.
Em uma cena, dois atores (Julie Delpy e Ethan Hawke) especulam sobre a possibilidade de que
os humanos estão conectados telepaticamente através de uma “memória coletiva” - uma
“coisa telepática acontecendo que todos nós fazemos parte, quer tenhamos consciência
disso ou não”. Em outra cena, o escritor afro-americano Aklilu Gebrewold afirma que a
mente coletiva é a principal força da história, constantemente rompendo para novos
estados de consciência. O professor de química Eamonn Healy
Moralidade no Cinema 247

tenta dar à ideia uma plausibilidade científica, sugerindo que a evolução está acelerando a
ponto de "produzir um neo-humano com uma nova individualidade e uma nova consciência".
E essa maneira de acessar essa consciência é através dos sonhos. O título do filme é retirado de uma

máxima de George Santayana: “A vida acordada é um sonho controlado.” A


mensagem do filme parece ser resumida por um personagem não identificado,
que discorre sobre “a venerável tradição de feiticeiros, xamãs e outros
visionários que desenvolveram e aperfeiçoaram a arte da viagem onírica, o
chamado estado de sonho lúcido onde, ao controlar conscientemente seus
sonhos, você é capaz de descobrir coisas além de sua capacidade de apreender
em seu estado de vigília.”
Qual é a lógica para pensar que os sonhos nos dão o poder

de “descobrir coisas”? A resposta dada é notavelmente


semelhante à lógica de Aldous Huxley para usar drogas
psicodélicas (capítulo 8). “No mundo da vigília, o sistema neural
inibe a ativação” da maior parte do cérebro, diz o
cantor/compositor Guy Forsyth. Isso “faz sentido evolutivo”
porque, para funcionar na vida comum, precisamos apenas de 9-7 Carl Jung, ligue para seu escritório

uma estreita gama de consciência.” Os sonhos são uma forma


de expandir a gama de consciência—sem as drogas de Huxley.
Tudo isso levanta a questão de por que a consciência expandida é uma coisa boa. Se a vida é sem

sentido e sem propósito, por que acharíamos gratificante nos tornarmos mais conscientes desse fato?
A consciência expandida não é a panaceia que muitas vezes é apresentada. A questão anterior é qual

tipo de realidade existe para estarmos conscientes. A menos que haja um Deus que nos criou e nos ama,
aumentar a consciência apenas aguçaria nosso senso de falta de sentido da vida.

Elvis e o Sentido da Vida


Para outros filmes que dão uma perspectiva superior, pense em praticamente qualquer filme que trate

de espiritualidade. Em Finding Graceland, o enredo gira em torno de um imitador de Elvis que está

viajando para participar de um show para imitadores de Elvis—pessoas


que construíram todo o seu senso de identidade e propósito em torno
da imitação do famoso cantor. Em uma cena, um jovem pergunta à
protagonista feminina: “Por que vocês todos soam como filósofos?” Esse
é um sinal de que ela está prestes a apresentar uma ideia filosófica.
Ela responde: “Todo mundo precisa de orientação. Que diferença faz
se você recebe de Jesus, Buda—ou Elvis?” Em outras palavras, o conteúdo da crença não
importa, desde que lhe dê um senso de propósito e identidade. Contanto que ajude você
a passar a noite.

propósito e identidade. Contanto que ajude você a passar a noite.


Uma das mensagens espirituais mais populares que Hollywood prega é
9-8 O evangelho segundo
o panteísmo no estilo da Nova Era. Apareceu já em 1940 no filme clássico Emerson
248 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

“As Vinhas da Ira”. No clímax do filme, o personagem de Henry Fonda, Tom Joad, diz: “Um
sujeito não tem uma alma própria, apenas um pequeno pedaço de uma grande alma, a
única grande alma que pertence a todos.” Tom está prestes a deixar sua família para se
tornar um ativista político, e ele está explicando à sua mãe por que ela não deve lamentar
sua ausência. Não importa se eu partir, ele explica, “porque estarei por toda parte... Estarei
em todo lugar.” Claro, essa explicação não funcionaria com nenhuma mãe de verdade. Mas
Steinbeck está entregando um mini-sermão sobre o panteísmo. Como escreveu um crítico,
este é
16
“o evangelho segundo São Walt” —referindo-se a Ralph Waldo Emerson
filosofia de que todos fazemos parte da Superalma (capítulo 4).
O tema panteísta é frequentemente conectado ao ambientalismo e
primitivismo do Bom Selvagem. Mesmo que você nunca tenha assistido Pocahontas, você

provavelmente viu o trailer, onde a esguia princesa indiana canta: “Eu sei
cada rocha e árvore e criatura tem uma vida, tem um espírito, tem um nome.” É
a mesma doutrina ensinada pelos Jedi em Star Wars, onde Obi-Wan Kenobi
descreve a Força como “um campo de energia [que] nos rodeia, nos penetra
e une a galáxia.”
9-9 Uma apologia ao panteísmo
O mesmo tema básico é promovido em Dança com Lobos, Fern Gully,
Batalha por Terra, Balto II, Avatar e muitos outros. Avatar apresenta o

planeta mítico Pandora, onde toda a flora e fauna estão conectadas por uma vasta rede
neural—uma espécie de inconsciente coletivo—que reúne as criaturas para lutar contra
os invasores humanos. É personificado por uma deusa semelhante a Gaia chamada Eywa,
que está além do bem e do mal. Como explica um dos nativos, “Nossa grande mãe não
toma partido. Ela protege apenas o equilíbrio da vida.” Yin yang. Uma resenha do New
York Times chamou Avatar de uma “longa apologia ao panteísmo—uma fé que equipara
Deus com a natureza e chama a humanidade à comunhão religiosa com o mundo natural.”

Rebeldes contra Nenhuma Causa


Vamos agora para filmes com visões de mundo de histórias inferiores. O clássico

Rebeldes sem Causa (1955) foi um dos primeiros filmes de angústia adolescente.

Os adultos no filme pregam uma visão sombria e niilista


da realidade—e então parecem perplexos quando os
jovens realmente vivem o que lhes foi ensinado.
No início, um cientista em um planetário diz a uma audiência
de estudantes que, em última análise, a terra e tudo nela “desaparecerão
na escuridão do espaço de onde viemos—destruídos, como começamos,
9-10 Quando a cultura adulta
prega o niilismo
em uma explosão de gás e fogo. Os céus estão calmos e frios mais uma
vez.
” A implicação é que a vida humana não tem significado final. “Em toda a imensidão
do nosso universo e das galáxias além, a terra não fará falta”, continua o cientista.
Moralidade no Cinema 249

“Através das extensões infinitas do espaço, os problemas do homem parecem triviais e


ingênuos. E o homem, existindo sozinho, parece ser um episódio de pouca consequência.”
Isso é uma pregação direta para uma visão de mundo de nível inferior: a vida humana é trivial, temporária e

sem sentido. O show do planetário termina com uma explosão vermelha


dramática de gás e fogo, significando o fim do mundo.
Os jovens no filme estão zangados e impacientes com o fracasso de seus pais em lhes dar

qualquer causa pela qual valha a pena viver. Os personagens principais, interpretados por
James Dean e Natalie Wood, se agarram um ao outro como se seu amor pudesse criar um
pequeno enclave de calor e luz diante de um mundo escuro e sem sentido. No entanto, o
filme termina com uma cena do cientista chegando na manhã seguinte para continuar seu
trabalho. A imagem sugere que a mensagem sombria do cientista prevalecerá no final. A
rebelião dos jovens, como toda a vida humana, é, em última análise, inútil.

Star Trek e IA
Um tema comum nas visões de mundo de nível inferior explora se os humanos são realmente qualitativamente

diferentes dos robôs. Normalmente, a história envolve robôs dotados de consciência e sentimentos
humanos, a fim de levantar a questão de se eles realmente são humanos. Os exemplos incluem

2001: Uma Odisseia no Espaço, Blade Runner, O Homem Bicentenário e IA: Inteligência Artificial. Em Eu, Robô,

o principal designer de robótica sugere que em seu robô mais avançado,


poderia muito bem haver “um fantasma na máquina”.
A questão levantada por esses filmes é muito debatida por cientistas que trabalham no campo da
inteligência artificial também. Se a inteligência é meramente uma forma de cálculo ou
processamento de informações, então alguns computadores são de fato “mais inteligentes” do
que os humanos. Nesses casos, alguns cientistas concluem que os computadores podem ter
mentes no mesmo sentido que os seres humanos têm mentes.
A implicação, é claro, é que os próprios humanos são meramente máquinas avançadas.
Este foi um tema frequente em Star Trek. Em um episódio intitulado “A Medida de um Homem”, um
ciberneticista chamado Comandante Maddox quer fazer engenharia reversa em um andróide
chamado Tenente Comandante Data para aprender mais sobre o funcionamento de seu cérebro
positrônico. Um debate surge sobre se isso significaria desmantelar uma máquina ou matar uma
forma de vida senciente.
Em uma audiência formal, um Comandante Riker relutante é pressionado a servir como promotor em
nome do Comandante Maddox. Ele apresenta um caso persuasivo de que Data é, de fato, uma máquina.

Mesmo que isso seja verdade, o Capitão Picard retruca, “não é relevante. Nós também somos máquinas, meramente

máquinas de um tipo diferente.”

Por fim, a Capitã Louvois decide a favor de Data: “Você quer que eu tente provar que
Data é uma mera máquina. Eu não posso. Eu não acredito nisso.”

O Comandante Riker responde: “Então, decidirei sumariamente com base em minhas descobertas. Data é uma

torradeira. Que ele se apresente ao Comandante Maddox imediatamente para uma reforma experimental.”
250 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

No final, Data não foi desmontado. Mas o debate sobre se os humanos são algo
mais do que mecanismos complexos continua hoje, não apenas na atmosfera rarefeita da aca-
demia, mas também no cinema e na tela da televisão.

Pulp e Outras Ficções


Claro, nem todo filme tem a intenção de transmitir uma visão de mundo. Muitos se concentram em contar

uma história humana calorosa ou oferecer puro espetáculo e entretenimento. Mesmo assim, porém, a história

é contada a partir de uma certa perspectiva que molda o tom e o tema. “Uma história de filme quando 'contada' tem

uma visão informadora . . . um quadro de referência”, escreve Robert K. Johnston em Reel Spirituality. “Em
fato, nenhuma história pode se desenvolver sem alguma percepção mais ou menos coerente da realidade, alguma funda-

opinião mental sobre a vida.” Assim, “qualquer filme, como produto da criatividade humana, contém dicas sobre
17
a visão de mundo do cineasta.”
Essas dicas geralmente são encapsuladas no tema de um filme - o que poderíamos chamar de sua mensagem,

ou a moral da história. O tema de Atração Fatal é que a infidelidade pode ter consequências perigosas
consequências. Jurassic Park sugere que o controle da natureza por meio da tecnologia é frequentemente uma ilusão

ilusão - que “a vida encontrará um caminho” para fora das tentativas humanas de controlá-la. O Rei Leão é um filme sobre

vivendo de acordo com suas responsabilidades. O pai de Simba diz a ele: “Você é mais do que você tem
tornar-se. ” (Isto é, você é filho do rei, mas não está vivendo como um.) O Apóstolo relutantemente
admite que mesmo um evangelista do interior que cospe fogo com falhas morais ainda pode fazer algum
bom. O tema de Minority Report é que, mesmo que pudéssemos prever o futuro, não seríamos
determinado, mas ainda poderia fazer escolhas morais genuínas. Clube da Luta adverte que os homens que crescem

sem pais para ensiná-los a enfrentar a dor e o perigo, muitas vezes acabam como cubículos reprimidos
escravos que se definem por seus salários e itens de consumo - e seus reprimidos
a masculinidade pode explodir de maneiras perigosas.

Às vezes, o tema superficial de um filme não é seu tema real. Em


lendo resenhas de O Show de Truman, você pode pensar que era uma ciência
filme de ficção. A premissa é um aparelho de televisão tão avançado que um personagem

poderia confundi-lo com a realidade e viver toda a sua vida nele. Mas o filme é
não é realmente sobre tecnologia avançada. O tema real é exploração. Em
o clímax do filme, o produtor Christof (observe a alu- religiosa
sion) tenta impedir o personagem principal Truman (True Man) de escapar
saindo do aparelho de televisão para o mundo real. O diálogo deixa claro
que o produtor não se importa com Truman por ele mesmo. Ele só
11/09 Controle sua
vida sob (meu) controle quer continuar explorando-o para melhorar seu próprio status profissional
e ganho financeiro. O aparelho de TV é uma metáfora para a forma como as pessoas exploradoras procuram controlar os outros

controlando sua definição de realidade.


Moralidade no Cinema 251

Pulp Fiction é outro filme imprevisível. Muitos críticos rotularam


como pós-moderno por causa de sua estrutura não linear. Outros críticos deram
más avaliações por causa de sua violência. Mas o elemento de enredo mais marcante é que um

assassino de aluguel, Jules, passa por uma conversão religiosa. Quando um criminoso atira

uma arma contra ele seis vezes, à queima-roupa, sem atingi-lo, Jules
conclui que ele experimentou um milagre. É um sinal de Deus de que ele
deveria deixar a vida de crime. Ao longo do resto do filme, ele e
seu parceiro debatem o que realmente aconteceu. Quando Jules se refere ao “mira-
cle que acabamos de testemunhar”, seu parceiro protesta: “O milagre que você testemunhou.
9-12 Um sinal de Deus?
Eu testemunhei uma ocorrência estranha.”

No final, Jules demonstra sua mudança de coração ao se recusar a atirar em dois ladrões amadores,
um jovem casal, que o assaltou. Em vez disso, ele os manda embora com o saco de saque
que eles roubaram. Com esse dinheiro, Jules diz a eles: “Estou comprando sua vida.” A mensagem implícita
é que eles também deveriam deixar sua vida de crime e começar uma nova vida. (O termo bíblico redimir
literalmente significa recomprar.) Tendo sido salvo, Jules está agora se tornando um agente de salvação
para os outros. Uma resenha da TV Guide conclui: “Sem seu compromisso com uma ideia de salvação, Pulp

Fiction seria pouco mais que um truque de salão fantástico; com isso, é algo muito mais rico e mais
18
assustador.”

Visão de Mundo para Nossa Geração


Claro, um filme é mais do que a visão de mundo que ele expressa. Como os cineastas são feitos à
imagem de Deus, sua arte é frequentemente melhor do que sua visão de mundo, trazendo temas universais à vida.
Por exemplo, filmes baseados em fatos históricos podem nos transportar para um tempo e lugar diferentes.
Gladiator mov-

mostrou comoventemente a ética de honra do antigo guerreiro romano. A Lista de Schindler foi um protesto poderoso

da desumanidade nazista. Braveheart foi um relato inspirador da luta escocesa pela independência.
O Resgate do Soldado Ryan invocou a Segunda Guerra Mundial tão poderosamente que reduziu muitos veteranos às lágrimas.

Hotel Ruanda conta a história real de um gerente de hotel que salvou mais de mil vidas quando

os hutus massacraram um milhão de pessoas em Ruanda em 1994. (O que o filme não retratou claramente
é que o verdadeiro gerente do hotel é um cristão fervoroso.) Blood Diamond é um retrato convincente de

a selvageria da guerra civil em Serra Leoa em 1999.


Os filmes também podem oferecer insights genuínos sobre a condição humana. Spitfire Grill conta uma

história de uma jovem da prisão que traz uma reconciliação inesperada para uma pequena
cidade. Um Sonho de Liberdade é um retrato bem traçado da relação entre dois prisioneiros,
um branco e o outro afro-americano. Conduzindo Miss Daisy retrata a relação

entre dois personagens ainda mais díspares, uma mulher judia rica, ácida e idosa e seu motorista
negro idoso. Tender Mercies conta a história de um cantor country decadente que descobre
252 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

que os simples prazeres da vida comum — família e igreja — superam a


fama, o dinheiro e os refletores.
Muitos desses filmes retratam a religião de forma simpática, como uma parte normal da vida. Lugares no
Coração é uma história sobre um grupo improvável de pessoas que se fortalecem ao enfrentar a adversidade juntas

em uma pequena cidade do Texas durante a Grande Depressão. Em um final


surpreendente, o filme termina com a cena de um culto religioso onde todos os
personagens estão reconciliados e unidos enquanto passam os elementos da
comunhão de pessoa para pessoa. A câmera foca primeiro um marido adúltero e sua
esposa, que o perdoa e pega em sua mão. A câmera então se move para vários
membros brancos da Ku Klux Klan e para um trabalhador agrícola negro que eles
haviam agredido brutalmente, agora curado e inteiro, sentado ao lado deles. De
repente, com um choque, notamos que a congregação inclui até personagens que
morreram durante o filme — um xerife que foi baleado e o adolescente negro que
acidentalmente atirou nele e foi linchado. Durante todo o tempo, o pregador está
lendo 1 Coríntios 13, a conhecida passagem sobre o amor, e você percebe que o filme
está criando uma visão do céu, quando aqueles que estão alienados serão
reconciliados, reunidos e curados pelo amor divino.
Filmes feitos por cristãos com uma mensagem explicitamente evangelística também se tornaram mais sofisticados

nos últimos anos. Enfrentando os Gigantes e À Prova de Fogo foram produzidos por uma igreja Batista em
Georgia. O protagonista de À Prova de Fogo é um bombeiro chamado Caleb, interpretado

por Kirk Cameron (da série de TV “Growing Pains”), que é um herói no trabalho, mas

não em casa. Para citar uma crítica de filme de Rick Pearcey, “No trabalho, ele
vive e respira um código heroico: ‘Nunca deixe seu parceiro para trás.’ Mas em
19
casa, ele deixa sua parceira para trás regularmente.” O problema é
que Caleb é um usuário regular de pornografia, o que está matando seu casamento. Seu pai

o desafia a ler O Desafio do Amor, um livro que descreve 40 dias de


passos práticos, um-dia-de-cada-vez, para aprender a amar sua esposa e
restaurar seu casamento.
9-13 Sem soluções rápidas
A luta de Caleb em direção à recuperação não é adoçada. Sua esposa não

responde imediatamente às suas investidas. O filme deixa claro que reconstruir um


casamento exige esforço e risco — que o caminho para a cura é através do sofrimento.
Para citar Pearcey novamente, “Porque vivemos em um universo moral que foi estragado,
todo ato de redenção envolve uma espécie de morte.” Afinal, “A cruz não é uma joia
brilhante; é um símbolo de brutalidade sobre um Messias torturado.” O realismo
espiritual do filme claramente tocou um ponto sensível: O Desafio do Amor, que começou

como um dispositivo de enredo, foi posteriormente transformado em um


livro real e instantaneamente disparou para o topo das listas de best-sellers.
Esta é apenas uma rápida amostragem de filmes, sem nenhuma tentativa de ser abrangente, mas apenas para

sugerir estratégias para discernir visões de mundo em filmes. Embora seja bom apreciar o filme
como arte e entretenimento, também devemos observar as maneiras como ele revela o
pensamento de nossa geração — não principalmente para que possamos lançar protestos e
boicotes, mas para que possamos responder às pessoas em nossas vidas
Moralidade no Cinema 253

de forma mais inteligente e compassiva. Aprender a “ler” a cultura pop fornece


ferramentas para se conectar melhor com as pessoas e comunicar as verdades
vivificantes das Escrituras em linguagem e conceitos que elas entenderão.
Em Clube da Luta, Tyler Durden diz de sua geração: “Não temos uma grande guerra para lutar, nenhuma Grande

Depressão. Nossa grande guerra é uma guerra espiritual.” No entanto, cada época
tem sua guerra espiritual—uma que é travada na igreja e no campus, no cinema e na
televisão, na sala de concertos e na Casa Branca. Você está equipado para se envolver
nessa luta? Você reconhece o inimigo? Você sabe onde está a linha de frente? Os
cristãos são chamados a ter a mente de Cristo em tudo o que fazem, a pensar como
ele pensava e agir como ele agia, em nossa moderna sociedade pluralista.
Mas não basta criticar o secularismo. Os cristãos também devem criar suas próprias

contribuições culturais. Como as igrejas podem mais uma vez se tornar viveiros de criatividade, como
foram em épocas anteriores? Para aprender princípios positivos para a criação cultural, vá para o Epílogo.
Epílogo

“Nenhuma grande ideia radical pode sobreviver a menos que seja

incorporada em indivíduos cujas vidas são a mensagem.”

—Erich Fromm

Escola Bach de Apologética

Bach está conquistando o Japão. O compositor barroco do século XVIII está inspirando não
apenas uma tendência musical, mas também um reavivamento espiritual.

“Um verdadeiro boom de Bach tem varrido aquele país nos últimos 16 anos”, relata
o jornalista Uwe Siemon-Netto. Sua força motriz é Masaaki Suzuki, fundador e maestro
do Bach Collegium Japan, que gerou centenas de sociedades semelhantes em todo o
país. As apresentações de Suzuki do “Oratório de Natal” de Bach durante o Advento e
a “Paixão de São Mateus” durante a Quaresma estão sempre esgotadas—mesmo que os ingressos custem mais de

$600. Os programas impressos dão ao público a oportunidade de ler traduções japonesas das
letras, que transmitem a mensagem do evangelho.

“Bach funciona como um missionário entre nosso povo”, disse Suzuki em uma entrevista. “Depois de
cada concerto, as pessoas lotam o pódio desejando falar comigo sobre tópicos que normalmente são
tabu em nossa sociedade—morte, por exemplo. Então, inevitavelmente, eles me perguntam o que ‘esperança’ significa para

os cristãos.” Ele concluiu: “Acredito que Bach já converteu dezenas de milhares de


japoneses à fé cristã.”

O Quinto Evangelho
Os concertos de Bach até inspiraram dezenas de jovens japoneses a fazer peregrinações a
Leipzig, Alemanha, onde ele trabalhou por vinte e sete anos até sua morte em 1750. Lá eles

255
256 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

sentar-se na igreja onde Bach foi outrora cantor, “seguindo com olhos brilhantes a rica
liturgia luterana”, escreve Siemon-Netto. Por exemplo, um musicólogo japonês
chamado Keisuke Maruyama viajou para Leipzig para estudar as leituras diárias das
Escrituras que faziam parte do ciclo lecionário luterano. Seu objetivo acadêmico era
analisar o impacto que essas passagens das Escrituras tiveram nas cantatas de Bach.
Mas ele descobriu muito mais do que esperava. Depois de concluir seu trabalho
acadêmico, Maruyama procurou o bispo da antiga igreja de Bach e disse: “Não basta ler

textos cristãos. Eu quero ser um cristão


eu mesmo. Por favor, batize-me.”

E assim o ditado é mais uma vez provado


correto que as cantatas de Bach são o “quinto
Evangelho.”

Surpreendentemente, até mesmo sua música puramente instrumental

tal pode ter um impacto espiritual. Um

10-1 Thomaskirche em Leipzig


convertido famoso é Masashi Masuda, que
começou como agnóstico. Ele data o
início de sua jornada espiritual ao ouvir as Variações Goldberg interpretadas por Glenn
Gould, que não têm palavras das Escrituras. Masuda agora leciona teologia
sistemática na Sophia University em Tóquio.
A organista Yuko Maruyama também atribui sua conversão à música de Bach. Uma vez

uma budista devota, Maruyama diz que “Bach me apresentou a Deus, Jesus e ao
cristianismo”. Ela acrescenta: “Quando toco uma fuga, posso ouvir Bach falando com Deus.”
O maestro Robert Bergt, que trabalhou no Japão, diz que a música de Bach tem levado músicos

e o público a entrar em contato com a Palavra de Deus. “Algumas dessas pessoas então
declarariam em particular como ‘cristãos secretos’”, disse Bergt à revista Christian History. Embora

apenas um por cento da população do Japão seja oficialmente cristã, Bergt estima
que, se crentes secretos fossem incluídos, o número real poderia ser três vezes maior.

Arregace as Mangas
Onde estão os equivalentes de Bach hoje? Onde está a música e a arte que expressam o bíblico
verdades tão eloquentemente que convida as pessoas a embarcar em uma busca por
Deus? Os cristãos devem ir além de criticar a degradação da cultura americana,
arregaçar as mangas e começar a trabalhar em soluções positivas. A única maneira de
expulsar a cultura ruim é com a cultura boa. Afinal, Jesus chamou seus discípulos de sal
e luz. A metáfora da luz significa que os cristãos devem procurar
lugares de escuridão e desespero, e entrar nesses lugares para iluminá-los com o esplendor da
verdade de Deus. E porque o sal era usado nos tempos bíblicos como conservante — para evitar
que os alimentos estragassem e apodrecessem — a metáfora do sal significa que os cristãos
devem procurar
Escola Bach de Apologética 257

lugares onde a sociedade está corrompida e desmoronando, e entrar nesses


lugares com o poder de Deus para preservar e renovar.
A Igreja deve mais uma vez se tornar um lugar com reputação de nutrir artistas, aqueles
com um dom especial de dar expressão visual e imaginativa à verdade bíblica. As artes são

não apenas um enfeite em uma mensagem didática — uma camada de doce para
ajudar o ensino a ser aceito mais facilmente. A própria Escritura é composta por
uma ampla variedade de formas literárias: poesia, provérbios, profecia, narrativa
histórica, mandamentos, parábolas, canções de amor, admoestação prática e hinos
de louvor. Na verdade, apenas uma fração da Escritura é dedicada ao ensino
didático direto. Os escritores da Escritura usaram formas artísticas e literárias para
transmitir verdades profundas demais para declarações proposicionais diretas.
O próprio Jesus ensinou muitas de suas lições mais poderosas por meio de histórias, metáforas e imaginação.

Ele poderia simplesmente ter nos ordenado a cuidar daqueles que são vitimados e
oprimidos. Em vez disso, ele contou a parábola do Bom Samaritano. Ele poderia ter nos
garantido que Deus perdoa os pecados. Em vez disso, ele contou a parábola do Filho
Pródigo. “O Reino era uma verdade profunda e rica demais para confiar meramente a
proposições abstratas racionais”, escreve o roteirista de Hollywood Brian Godawa. Jesus
“escolheu histórias de casamentos, banqueiros de investimento, escravos inescrupulosos e
tesouros enterrados” em vez de falar em silogismos lógicos ou axiomas abstratos. A forma
literária da Bíblia
ressalta a importância das artes para nutrir o espírito humano.
A própria teologia bíblica pode ser entendida como uma narrativa. A linha da história tem três pontos de virada fundamentais—

Criação, Queda e Redenção (levando a uma Glorificação final). O relato começa


com a Criação, o que significa que, ainda hoje, o mundo continua a exibir sinais
da beleza e da maravilha de sua criação original. Mas sua perfeição foi destruída
pela tragédia da Queda no pecado, irrompendo em guerra, injustiça e opressão.
Ao longo da história, as forças do bem e do mal se envolveram em uma batalha
cósmica — até que, finalmente, a história atingiu seu clímax na encarnação,
morte e ressurreição de Jesus Cristo. Em Cristo, o próprio Deus entrou no mundo
espaço-tempo para compartilhar a condição humana. Ao sofrer a injustiça e a
morte, ele quebrou seu poder sobre nós. Desde aquele grande ponto de virada,
Deus tem aplicado os efeitos da salvação para libertar os cativos e recuperar o
território. Agora esperamos um desfecho final — a Última Batalha, como Lewis
chama nas Crônicas de Nárnia — quando o mal e o sofrimento
terminarão. Na maravilhosa nova criação de Deus, não haverá morte nem lágrimas. Esta é uma grande
história épica que captura a imaginação moral. De fato, todas as boas histórias a ecoam de alguma forma.

Missionários em Casa
As pessoas foram criadas com uma imaginação para precisar de histórias e imagens inspiradoras tanto

quanto precisam de boa comida para comer e ar puro para respirar, diz John Erickson. “O
primeiro capítulo de Gênesis nos diz que o primeiro ato de criação de Deus foi impor estrutura
ao caos primordial, separando a terra seca da água, o dia da noite, a terra do céu e o macho do
258 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

feminino.” Da mesma forma, “uma história estruturada diz, sem dizer, que há ordem
no universo. E neste mundo louco, isso se torna uma declaração profundamente
religiosa, uma afirmação do ato divino da criação.” Uma história bem ordenada
“afirma a ordem divina no universo e a justiça nos assuntos humanos.”
E, no entanto, Erickson observa que a “cultura popular de hoje oferece justamente o oposto: televisão frenética

imagens que não têm coerência, filmes que não conseguem distinguir entre heróis e vilões,
arte que parece ter perdido toda a visão de forma e beleza, livros com personagens que nunca
convidaríamos para nossas casas e ‘música’ irregular que não oferece melodia nem harmonia.”

Pense desta forma: os pais estão menos preocupados com seus filhos fazendo cursos de filosofia

na faculdade do que com seus filhos sendo sugados para o pântano da cultura pop. Eles
estão procurando orientação para ajudar seus filhos a navegar por um mundo cada vez
mais decadente de música e entretenimento. Os pais cristãos não podem proteger seus
filhos de encontrar visões de mundo opostas. Mas eles podem ajudá-los a desenvolver
habilidades de resistência, dando-lhes
as ferramentas para reconhecer ideias falsas e combatê-las com uma sólida compreensão dos conceitos bíblicos.

Os cristãos são chamados a adotar a mentalidade de um missionário, mesmo que nunca pisem em

um país estrangeiro. Um missionário tem que peneirar cuidadosamente a cultura


indígena, decidindo quais aspectos da sociedade podem ser redimidos e quais devem ser
rejeitados. Tem sido assim desde a igreja primitiva, quando os primeiros cristãos
enfrentaram uma cultura greco-romana altamente desenvolvida. Algumas partes dessa
cultura eles rejeitaram como não bíblicas. Mas outras partes eles viram como consistentes
com o ensino bíblico e, portanto, adaptaram e abraçaram — tanto que, desde então, a
cultura ocidental tem consistido em uma mistura da herança clássica e cristã.

A mesma seleção deve ser feita em todas as épocas. Por um lado, grande parte da cultura humana é boa,

porque todos os humanos são feitos à imagem de Deus e devem viver dentro das
estruturas do mundo que Deus criou. Eles se beneficiam da graça comum de Deus,
os dons que Deus concede a toda a criação. Como Mateus 5:45 diz, Deus faz com que
a chuva caia sobre justos e injustos. A implicação é que os não cristãos podem ser
artistas criativos, empresários de sucesso, médicos habilidosos e pais amorosos.
Como Jesus disse, mesmo “vocês que são maus sabem dar boas dádivas aos seus
filhos” (Mt. 7:11). Por outro lado, as Escrituras também ensinam que o pecado e o
mal são generalizados. Nenhuma parte da vida é intocada pela corrupção e pela
falsidade. Nada é teologicamente neutro. Os cristãos são responsáveis por avaliar
tudo de acordo com o fio de prumo da verdade bíblica.
Juntos, esses dois temas dão aos cristãos uma abordagem equilibrada da cultura — afirman-

do e apoiando o que é bom, enquanto resistem a qualquer coisa que entre em conflito com as Escrituras.
Para usar o equilíbrio, devemos ser inocentes como pombas, mas prudentes como serpentes (Mt. 10:16).

Junk Food Espiritual


O que esse equilíbrio implica para as artes? Por um lado, dá aos cristãos a liberdade de
desfrutar de qualquer obra de arte por sua beleza e poder estético. Como Gene Edward Veith escreve: “Nós
Escola Bach de Apologética 259

pode reconhecer a habilidade artística de uma obra, possivelmente até encontrando grande
valor em sua dimensão estética, ao mesmo tempo em que discorda de sua mensagem explícita.”

Por outro lado, uma obra de arte pode ser solidamente bíblica em conteúdo, mas ter pouco ou nenhum

mérito artístico. Os cristãos não devem se permitir desenvolver um julgamento estético negligente
aceitando kitsch religiosos de baixa qualidade apenas porque concordam com a mensagem. Quando eu estava

crescendo, a arte religiosa típica exibia um sentimentalismo vitoriano açucarado.

10-2 Sentimentalismo cristão

O que torna essa arte e música sentimentalizadas tão insípidas? Ela equipara o cristianismo com
açúcar, especiarias e tudo de bom. O poeta Paul Claudel criticou o estilo doce e leve
6
perguntando: “Se o sal perdeu o sabor, com que será salgado? Com açúcar!”
Quando gerações de crianças são nutridas com essas imagens açucaradas, elas perdem o senso
do verdadeiro caráter de Jesus. Nas palavras de Dorothy Sayers, “Nós eficientemente cortamos as
garras do Leão de Judá”, transformando Jesus “em um animal de estimação para curas pálidos e velhas
senhoras piedosas.” No entanto, no primeiro século, este chamado “Jesus gentil, manso e humilde” era tão inflexível

e inflamatório “que Ele foi expulso da igreja, apedrejado, caçado de lugar em lugar, e
finalmente enforcado como um incendiário e um perigo público.” Como a igreja retratará esse Jesus
em sua arte?

O paralelo de hoje com o Victorianismo incluiria música de louvor que espelha o emo-
cionalismo e egocentrismo insípidos da cultura pop. Uma vez visitei uma igreja onde fiquei surpreso ao ouvir

a congregação cantar versos como “Você é meu desejo” e “Eu quero sentir o calor do seu
abraço.” A letra não mencionava Deus ou Jesus. Nenhuma referência à salvação ou justifica-
ção ou qualquer outro tema teológico. Nada que sugerisse que a música era algo além de uma
canção de amor para a namorada de alguém. A letra era um exemplo tão extremo do Jesus-é-minha-
namorada que eu me perguntava como qualquer homem poderia cantá-la com a cara séria—embora enquanto eu

olhava ao redor da sala, vi vários homens com os olhos fechados, braços levantados.
260 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Por que os evangélicos são atraídos por tal sentimentalismo superficial? Porque eles
absorveram um dualismo de dois andares próprio. Nós o chamamos de divisão sagrado/secular. O problema é

que quando as coisas espirituais são movidas para o andar de cima, onde a adoração é reduzida a pouco mais

do que um zumbido emocional. A igreja se torna uma breve fuga que pouco faz para equipar as pessoas a

lidar com o mundo real de pecado, tristeza, conflito e alienação. O dualismo sagrado/secular
isola a verdade de Deus no andar de cima, longe do mundo ordinário — o que implicitamente nega
o poder de Deus para redimir o mundo ordinário. “Capitula à expulsão das artes e da
adoração de um mundo materialista”, diz o teólogo e crítico literário Amos Wilder. E no
8
processo, “abandona a vida real dos homens como irredimível”.
A arte cristã deve crescer a partir da robusta confiança de que nada é irredimível—
que o próprio Jesus entrou nos níveis mais sombrios da experiência humana e os transformou
em fontes de vida e renovação. Uma obra completa de arte cristã deve incluir todos os três
elementos da cosmovisão bíblica: Criação, Queda, Redenção. Deve aludir à beleza
e dignidade da criação original. Mas também deve ser transparentemente honesto sobre a real-
idade do pecado e do sofrimento. Finalmente, deve sempre dar indícios de redenção. Não importa o quão
degradado ou corrupto um personagem possa ser, ele ou ela deve ser retratado com a dignidade de
ser redimível. Algum raio de esperança deve penetrar a escuridão.
A arte que transmite a complexidade e a beleza
de uma cosmovisão bíblica atrairá as pessoas para o
evangelho, assim como a obra de Bach continua a fazer. Um

modelo é o trabalho de William H. Johnson, cujas


pinturas foram selecionadas pelo Presidente Obama para

pendurar nas paredes da Casa Branca. Johnson


adotou uma forma de primitivismo para expressar “o que eu

sinto ritmicamente e espiritualmente, tudo o que tem


sido armazenado em minha família de tradição primi-
tiva.” As cores alegres e brilhantes nesta pintura
10-3 William H. Johnson
Monte Calvário, 1944 sugerem que a crucificação de Cristo não é o fim—
Primitivismo cristão
que a tragédia levará à ressurreição.

Re-Moralizando a Cultura
Como a igreja pode nutrir novas gerações de artistas para a expressão visual e verbal para
uma cosmovisão cristã? Primeiro, deve superar a mentalidade de protesto negativo.
Aqui está um teste rápido: Qual é o nome do presidente do National Endowment for the
Arts? Há alguns anos, muitos cristãos conseguiam responder imediatamente. Na década
de 1990, o NEA era o departamento mais controverso do governo dos EUA. Estava
financiando projetos como o infa-
Escola Bach de Apologética 261

crucifixo de rato em um frasco de urina e exibicionismo sexual oferecido como “arte performática”
(Annie Sprinkle’s “Vadias e Deusas: Como Ser uma Deusa do Sexo em 101 Passos Fáceis”).

Mas quantos cristãos acompanharam a NEA depois? Quantos sabiam que sob

a administração Bush, seu presidente era cristão? Dana Gioia é um poeta que ascendeu de uma
origem operária para se tornar um líder em um movimento chamado neoformalismo, que visa

restaurar o ritmo e a rima à poesia. (Imagine!) Como presidente da NEA, a primeira


grande iniciativa de Gioia foi chamada de “Shakespeare nas Comunidades Americanas”.
Financiou a produção de peças de Shakespeare em todo o país, especialmente em
bairros de baixa renda, onde os alunos poderiam não ser expostos ao bardo de outra
forma.
Infelizmente, durante o mandato de Gioia, a maioria dos cristãos não tinha ideia de que ele existia. Muitos ministérios e

grupos ativistas não prestam atenção às artes, a menos que seja politicamente
conveniente — a menos que lhes dê a oportunidade de organizar um protesto público,
reunir as tropas e arrecadar dinheiro. Mas onde estavam esses mesmos grupos quando
tiveram a oportunidade de aplaudir um cristão por usar seu cargo no governo para
trabalhar positivamente pela renovação cultural? Onde está o apoio contínuo deles para
pessoas criativas que são talentosas para liderar a cultura em direções positivas?
Em Dinâmica da Vida Espiritual, Richard Lovelace apresenta um caso convincente de que a melhor
defesa é um bom ataque. “A solução definitiva para a decadência cultural não é tanto a
repressão da cultura ruim, mas a produção de uma cultura sólida e saudável”, escreve
ele. “Devemos direcionar a maior parte de nossa energia não para a censura da cultura
decadente, mas para a produção e o apoio de expressões saudáveis de arte cristã e não
cristã. Protestos públicos e

boicotes têm seu lugar. Mas mesmo as críticas negativas são eficazes apenas
quando motivadas por um amor genuíno pelas artes. A solução a longo prazo é
apoiar artistas, músicos, autores e roteiristas cristãos que possam criar
alternativas humanas e saudáveis que falem profundamente à condição humana.

Explorando o “Talento”
A igreja também deve se posicionar contra as forças que suprimem a criatividade genuína, tanto dentro

quanto fora de suas paredes. Na cultura de consumo de hoje, um dos maiores


perigos que as artes enfrentam é a mercantilização. A arte é tratada como
mercadoria para comercializar com o objetivo de ganhar dinheiro. As pinturas são
compradas não para serem exibidas, nem para adornar a casa de alguém, mas
apenas para revender. São investimentos financeiros. Como Seerveld aponta, “A arte
de elite da escola de Nova York ou de gurus aprovados como Andy Warhol é tanto
um grande negócio hoje quanto
Artistas a indústria
e escritores foramda músicaaou
reduzidos a indústria
“talentos” do esporte.”
para serem inseridos no
processo de fabricação.
Essa abordagem pode aumentar as vendas, mas suprimirá as melhores e mais elevadas formas de arte.

No século XVIII, o mundo quase perdeu o melhor da música de Mozart porque os adultos na
vida do jovem o tratavam principalmente como “talento” para explorar. Seu pai dominador
262 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Leopold o incentivava a compor músicas leves e fáceis que vendessem bem e gerassem
muito dinheiro (para enriquecer seus próprios cofres). Ao mesmo tempo, o chefe de Mozart
em Salzburgo, o Arcebispo, o tratava como sua propriedade pessoal da corte, um servo
cujos talentos poderiam ser usados para aumentar o status e o prestígio do Arcebispo. Em
certo momento, ele proibiu Mozart de se apresentar em concertos, mesmo em seu
próprio tempo para ganhar dinheiro extra e desenvolver sua reputação profissional. Como resultado dessas restrições,

Mozart sabia que não estava cumprindo seu potencial como um compositor sério. Outras
pessoas estavam escondendo sua lâmpada sob um alqueire. Se ele não tivesse se libertado
dessas relações exploratórias, o mundo poderia ter sido roubado de seu gênio artístico.

Hoje, aqueles envolvidos na produção de livros, músicas e filmes cristãos às vezes


caem em padrões exploratórios semelhantes. Uma vez conversei com uma figura
proeminente no mundo evangélico que reconheceu que usava ghostwriters para vários
projetos de escrita, que ele então apresentava ao público sob seu próprio nome.
Quando sugeri que essa prática poderia ser considerada desonesta e antiética, ele
respondeu: “Não é meu trabalho se eu paguei aos escritores que pesquisaram
e escreveram?” Claro, dizer que é “seu” trabalho é suposto significar que ele escreveu, não
que ele pagou por isso. Como Mozart, os escritores estavam sendo tratados essencialmente
como propriedade pessoal para aumentar o status e o prestígio de uma celebridade. Como
resultado, seus talentos estavam sendo escondidos, absorvidos pelo ego exagerado do
chamado líder. No entanto, em Arte por Amor a Deus, Philip Ryken diz: “Os dons de Deus
13
nunca devem ser escondidos; seu chamado nunca deve ser negado.”

Por outro lado, também entrevistei um escritor que havia trabalhado como ghostwriter na equipe
de um ministério cristão. Lá, ele havia sido proibido de escrever seus próprios artigos, mesmo em
seu próprio tempo para ganhar renda extra e desenvolver sua reputação profissional. O chefe do

ministério disse a ele: “Eu pago seu salário, então sou eu quem possui suas ideias.”
Claramente, nenhum pensador ou escritor criará seu melhor trabalho sob tal escravidão
salarial exploratória. Como resultado, a igreja está sendo privada de seus dons.
Há alguns anos, o veterano jornalista David Aikman escreveu uma coluna argumentando que a escrita fantasma
14
é antiética e enganosa para o público. A resposta do leitor foi uma das maiores que ele
já recebeu—muito dela de escritores que se sentiam explorados. Eles contaram
sobre editoras cristãs pedindo-lhes para produzir trabalho de alta qualidade para
vender sob o nome de pastores proeminentes ou líderes de ministério que “não
tinham tempo” para fazer seu próprio pensamento e escrita—mas que
desfrutavam da fama e do dinheiro que os livros traziam, enquanto os escritores
que faziam o trabalho real lutavam para sustentar suas famílias.
Quando os cristãos aceitam tais práticas exploratórias, eles estão transmitindo ao mundo que

eles não valorizam o trabalho criativo ou intelectual, não importa o que digam.
Como diz Makoto Fujimura, a igreja mostra que desvaloriza a criatividade quando
pede aos artistas que doem seus talentos sem “crédito e honra adequados”.
A solução é desenvolver uma teologia bíblica do trabalho que desenvolva o mandato cultural
dado em Gênesis. Assim como o trabalho de Deus na criação reflete sua natureza e caráter, também o
Escola Bach de Apologética 263

os produtos que criamos refletem nosso caráter. Como escreve o filósofo Alexandre
Kojève, “o homem que trabalha” revela seu eu mais profundo em seu produto;
“Nele, ele descobre e revela aos outros a realidade
Assim, quando objetiva
uma celebridade de osua
reivindica humanidade.”
trabalho de outros como seu

próprio, ele viola a própria humanidade deles. John Milton, o poeta de Paraíso Perdido, certa vez escreveu que

livros “preservam como em um frasco a mais pura eficácia e extração do


intelecto vivo que os gerou”. Como alguém pode pegar a extração do intelecto
vivo de outra pessoa e comercializá-la para o público como se fosse sua?
Para obedecer ao mandato cultural, os cristãos devem analisar atentamente as práticas dentro da

igreja que suprimem a criação de cultura. De acordo com o produtor de televisão


Mark Joseph, uma grande força que sufoca a criatividade é o paradigma dos
pastores e líderes ministeriais “superstars”. “Se você vai à igreja de um pastor
onde ele é uma estrela, você está realmente lá como membro para defender seus
braços e ajudá-lo a causar um impacto maior no mundo.” Um modelo mais bíblico
é o inverso, onde o papel do líder é ensinar e equipar leigos que trabalham na
linha de frente. Como diz Joseph, o pastor deve estar “erguendo os braços das
pessoas de sua congregação, que são então capacitadas para ir e fazer coisas
boas para o mundo”, seja na música, arte, política, direito, ciência ou negócios.

O Dogma É o Drama
Em vez de viver indiretamente através das conquistas de líderes superstars, todos os cristãos
são chamados a se verem como artistas, transmitindo a beleza da salvação através de
seu trabalho. Existe uma arte de gestão, uma arte de empreendedorismo, uma arte de
descoberta científica. Em cada caminhada da vida, temos a oportunidade de atrair as
pessoas ao evangelho através da beleza de uma vida moldada pela verdade salvadora
de Deus.
Pois a verdade de Deus é de fato bela - um drama tão emocionante e intenso que mal podemos suportar

considerá-lo diretamente, assim como não podemos olhar diretamente para o sol. Dorothy Sayers disse uma
vez: “O dogma é o drama.” Ou seja, a doutrina bíblica é em si a trama emocionante da história universal.

“Somos constantemente assegurados de que as igrejas estão vazias porque os


pregadores insistem demais na doutrina - 'dogma maçante', como as pessoas chamam.
O fato é exatamente o oposto. É a negligência do dogma que torna a coisa maçante. A
fé cristã é o drama mais emocionante que já surpreendeu a imaginação do homem.”
Nenhuma outra religião ensina que a divindade mais elevada, aquele que cre-

ou o universo, entrou na condição humana, compartilhou seus sofrimentos e foi condenado por
suas próprias criaturas. “Que o homem deva desempenhar o papel de tirano sobre o homem é
o registro sombrio usual da futilidade humana; mas que o homem deva desempenhar o papel
de tirano sobre Deus . . . é um drama surpreendente, de fato”, escreve Sayers. “Qualquer
jornalista, ao ouvir falar disso pela primeira vez, reconheceria como notícia; aqueles que
ouviram falar disso pela primeira vez realmente chamaram de notícia, e boas notícias nisso.”

Ainda mais surpreendente, nós mesmos temos a oportunidade de participar desse drama
através de nossas próprias vidas. As doutrinas da Bíblia estão inseparavelmente enraizadas na história do ordinário
264 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

seres humanos—no Antigo Testamento, pessoas como Abraão, Isaque e Jacó, e


no Novo Testamento, Pedro, Paulo e João. Como Erich Auerbach aponta, essas
eram pessoas tão humildes que nunca teriam sido personagens principais em
um poema homérico ou um drama grego. No entanto, na Bíblia, seus encontros
com Deus são tratados com “a importância de eventos revolucionários mundiais”.
A implicação é que cada um de nós, embora também sejamos pessoas comuns, pode levar

vidas imbuídas do mesmo significado revolucionário mundial ao


participarmos do desenrolar do plano redentor de Deus.
Os artistas e escritores da igreja são aqueles especialmente talentosos para transmitir o drama e excitar-

mento do evangelho. Eles não devem ser domesticados ou explorados, mas


nutridos e apoiados em sua missão vital. Através de seu ministério, eles ajudam
todos a reconhecer a beleza e o propósito cósmico de suas próprias vidas.

A Igreja como Obra de Arte


Os sociólogos nos dizem que toda cosmovisão requer uma base social onde possa ser concretizada

de maneiras concretas. As ideias são muito difíceis de aceitar se forem apenas


abstratas e teóricas. Precisamos vê-las vividas na prática—tornadas visíveis e
tangíveis. Para usar um rótulo sociológico, precisamos de uma “estrutura de
plausibilidade”, que significa uma estrutura social que torna uma ideia mais
plausível, mais fácil de acreditar. E qual é a estrutura de plausibilidade para o
evangelho? A igreja, a vida corporativa da comunidade cristã. Escrevendo à igreja
de Corinto, São Paulo disse: “Vocês mostram que são uma carta de Cristo... escrita
não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo” (2 Cor. 3:3). Cada igreja local é uma
carta de Cristo para o mundo. Os de fora serão atraídos quando virem a beleza de
relacionamentos marcados pela graça e pelo perdão, a beleza da justiça para os
oprimidos, a beleza da criatividade em todos os campos do esforço humano.
Como Dennis Hollinger coloca, a própria igreja é a melhor apologética. “Os pós-modernos podem melhor

entender um Deus de graça santo, amoroso, justo, perdoador e doador de vida quando
veem uma comunidade santa, amorosa, justa, perdoadora e doadora de vida fundada
na graça de Deus.” A comunidade cristã é a realidade concreta onde a realidade
transcendente do evangelho se manifesta— “uma expressão visível e corporativa da
cosmovisão cristã”.
Este é um pensamento sóbrio, porque o outro lado da moeda é que o evangelho também é mais
facilmente desacreditado através da igreja. O que acontece quando os não crentes ouvem pregadores pro-

clamarem a importância da família, mas veem igrejas cheias de pais workaholics com
pouco tempo para seus próprios filhos? Quando veem relações de poder tão exploradoras
quanto em qualquer outro lugar? Quando veem cristãos presos nos mesmos vícios sexuais
que o resto da sociedade? Quando veem celebridades evangélicas usando as mesmas
táticas desonestas de marketing que o mundo da publicidade secular? Os cristãos podem
pregar apaixonadamente sobre a necessidade de uma cosmovisão bíblica, mas a menos
que estejam se submetendo a um processo contínuo de santificação, eles não o farão
Escola Bach de Apologética 265

têm o poder de viver essa visão de mundo—e eles desacreditarão a própria


mensagem que estão procurando comunicar.
Os antigos gregos pensavam que a virtude e a verdade estavam tão interligadas que, sem virtude,

uma pessoa não conseguia nem ver a verdade claramente. As Escrituras ensinam um princípio
semelhante quando dizem que o pecado leva a uma espécie de cegueira. O interesse próprio e a
ambição pessoal podem obscurecer tanto nossa percepção que literalmente não reconhecemos
certas verdades espirituais. É por isso que Jesus disse que devemos estar dispostos a agir
corretamente como uma condição prévia para sequer reconhecer o que é certo. “Se alguém
escolher fazer a vontade de Deus, então saberá se o meu ensino vem de Deus” (João 7:17). Em

para desenvolver uma visão de mundo bíblica, cada pessoa deve primeiro fazer
um inventário minucioso de suas próprias áreas de pecado, tentação e fraqueza,
e embarcar em um processo de santificação em todas as áreas da vida.

Pós-Conservadores
Caso contrário, falar sobre visão de mundo pode se tornar apenas mais uma capa para o orgulho e a autoafirmação.
Uma mulher que chamarei de Amy era casada com um homem que parecia ser um cristão
comprometido. Tanto o marido quanto a esposa cresceram em famílias cristãs. Ambos eram
ativos em sua igreja. Eles estavam educando seus filhos em casa para dar-lhes uma educação de
visão de mundo bíblica.
Então o mundo de Amy desabou. No caminhão de seu marido, ela descobriu um esconderijo de cartas de amor

de várias mulheres—evidências inegáveis de que seu marido havia se envolvido em


múltiplos casos. Confrontado com as evidências, seu marido decidiu parar de levar uma vida
dupla. Ele abandonou sua família, junto com sua fé cristã, para ficar com sua atual paixão.

Esta trágica história ilustra o que pode acontecer quando os cristãos adotam a ideia de uma visão de mundo bíblica

meramente como um sistema intelectual, ou como a última moda no mundo


evangélico, sem permitir que ela transforme suas próprias motivações mais
profundas. Aqueles que aspiram a uma visão de mundo cristã devem lembrar que
quando São Paulo fala sobre “a renovação de nossas mentes” (Rm. 12:1), esse versículo
está no contexto de um chamado para colocar nossas vidas inteiras no altar como um
“sacrifício vivo”. Em outras palavras, o caminho para a renovação intelectual é oferecer
todo o seu ser—mente, corpo, coração e espírito—em solidariedade com o sacrifício
de Cristo. Qualquer coisa menos pode se tornar orgulho e intelectualismo vazio.

J. Gresham Machen disse uma vez que a Igreja é chamada a avançar o reino de Deus de duas
maneiras: extensivamente, atraindo cada vez mais pessoas, mas também intensivamente, consagrando nossas vidas

cada vez mais profundamente a Deus. Como Machen colocou, “A Igreja deve procurar conquistar não
meramente cada homem para Cristo, mas também o todo do homem.” Assim, ele diz que esperamos o fim dos

tempos, quando “todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus é o Senhor”.
Mas também devemos ser inspirados a trabalhar por um tempo “quando toda a ciência
converge para uma grande convicção, quando toda a arte é dedicada a um grande fim,
quando todo o pensamento humano é permeado pela influência refinadora e
enobrecedora de Jesus, quando todo pensamento é levado à sujeição
266 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

21
à obediência de Cristo.” Esta deve ser a visão revolucionária que atrai a Igreja
para frente.

Deixe-me terminar com uma citação de marca registrada de Francis Schaeffer, que é tão surpreendente

hoje como era em 1974: “Uma das maiores injustiças que fazemos aos nossos jovens é pedir-lhes
que sejam conservadores. O cristianismo não é conservador, mas revolucionário.” O significado
técnico de conservador é conservar o status quo. Mas “devemos ensinar os jovens a serem
22
revolucionários, revolucionários contra o status quo.” Somos chamados a revoltar-nos contra o falso

ídolos e o poder que exercem sobre mentes e corações. Os cristãos devem estar na linha
de frente lutando para libertar a sociedade de seu cativeiro às visões de mundo seculares.
E quem está mais bem equipado do que os artistas para comunicar essa mensagem libertadora — para abalar

a igreja de sua complacência, rasgar o véu do eufemismo religioso, expor a hipocrisia


e a auto-justiça e criar obras que revelem a beleza de tirar o fôlego da salvação?
Como Bach, os artistas de hoje poderiam muito bem inspirar um avivamento espiritual e, por sua vez, desencadear um global

revolução cultural.
Agradecimentos

Aqueles que leram meus livros anteriores, especialmente Verdade Total, sabem que minha principal dívida intelectual

é com Francis Schaeffer. Foi através da visita a L’Abri e, em seguida, da leitura de seus livros, que
eu me converti ao cristianismo. Na pós-graduação, no Institute for Christian Studies em Toronto, eu
estudei as obras de Herman Dooyeweerd. O livro The Wedge of Truth de Phillip E. Johnson me deu
uma compreensão mais clara da forma como a divisão fato/valor funciona nas estratégias seculares para desacreditar

e marginalizar as perspectivas cristãs na esfera pública.


Quando estudante universitário, tive a oportunidade de conhecer Hans Rookmaaker, o historiador de arte holandês

que apresentou tantos cristãos, incluindo Schaeffer, ao papel formativo desempenhado


pelas cosmovisões nas artes. Conheci Rookmaaker em uma conferência de L’Abri em 1972, quando me juntei a um

grupo de questionadores reunidos ao seu redor após sua palestra. Não totalmente satisfeito com sua resposta

à minha pergunta, dei de ombros, me virei e saí do prédio. Momentos depois, ouvi passos
atrás de mim. Fiquei surpreso ao descobrir que Rookmaaker havia me procurado para garantir
que ele havia abordado adequadamente minhas preocupações. Eu era apenas um estudante universitário hippie de cabelos compridos

(eu tinha viajado de carona com um amigo por vários estados para participar da conferência). No entanto, Rookmaaker

me abordou com a mesma atenção focada que teria dado a um colega profissional.
Enquanto conversávamos, ele relatou a história de conhecer Schaeffer nos primeiros dias da L’Abri Fellowship

e sua paixão compartilhada para recuperar o papel de formador de cultura que o cristianismo já teve—e
pretende ter. Através da influência de Rookmaaker, as artes se tornaram um tema influente em

267
268 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Os livros de Schaeffer ajudaram a persuadir os evangélicos de que não é


apenas aceitável, mas imperativo, envolver-se com a arte e a cultura.
Outro ponto de virada importante foi a oportunidade de conhecer Martha Bayles no Ethics

e no Public Policy Center em Washington DC no final da década de 1990. Bayles é autora de um livro
sobre a história da música popular, Hole in Our Soul, e sua breve, mas perspicaz discussão sobre o

relacionamento entre arte e verdade estimulou minha pesquisa inicial para este livro. Dei ao assunto
um tratamento preliminar em “Soli Deo Gloria”, um dos capítulos que escrevi em How Now Shall We

Live? (co-autoria de Chuck Colson e Harold Fickett), onde analisei o Romantismo sob
as categorias de Criação, Queda e Redenção.
Uma oportunidade de desenvolver ainda mais esses temas surgiu quando fui convidado a falar em um

simpósio organizado por Phillip Johnson na Biola University em 2004. O material


tem se beneficiado desde então da interação em sala de aula e no salão de
conferências, com palestras ministradas a artistas profissionais em Nova York,
hospedadas pelo International Arts Movement; para atores e roteiristas em
Hollywood, hospedado por ActOne e InterMission na Hollywood Presbyterian
Church; para professores universitários na National Faculty Leadership Conference,
hospedada pelo Christian Leadership Ministries da Campus Crusade; para
funcionários do Capitólio, hospedado por Faith and Law; para professores do ensino
fundamental e médio cristãos, especialmente aqueles da Association for Christian
Schools International; e para alunos e professores de várias universidades, tanto
seculares quanto religiosas, especialmente o Torrey Honors Institute da Biola
University, a Philadelphia Biblical University e o Patrick Henry College. Lecionei o
material durante vários verões para o World Journalism Institute. Finalmente,
quando o manuscrito estava completo, usei-o como livro didático em duas turmas
do ensino médio em casa. Muito obrigado às famílias de WHEAT (We Home Educate
and Train) e STARS (Springfield Teaching and Resource Services).
Devo uma dívida especial de gratidão ao presidente da Philadelphia Biblical University, Todd

Williams, por uma cátedra de pesquisa de dois anos a partir do outono de


2007, que me deu a oportunidade de escrever o livro enquanto desfrutava
da estimulante comunhão intelectual dos colegas e alunos da PBU.
Sou grato aos amigos e colegas que generosamente dedicaram seu tempo para ler e comentar

sobre parte ou todo o manuscrito, incluindo Jim Colman, John R. Erickson, Makoto
Fujimura, David Koyzis, Tim McGrew, Karen Mulder, Dorothy Randolph, Calvin Seerveld
e Gene Edward Veith. Seus insights foram invariavelmente estimulantes e informativos.

Meu agente é, sem dúvida, um dos melhores do ramo. Curtis Yates, da Yates & Yates, é
infalivelmente profissional, solidário e diplomático.
Tem sido uma alegria trabalhar com o B&H Publishing Group. Quando Yates & Yates enviou um

inquérito inicial sobre este livro, o presidente Brad Waggoner respondeu quase instantaneamente. Como ex
-professor de seminário, ele havia ensinado Total Truth na sala de aula. Da mesma forma, quando conheci

minha editora Jennifer Lyell, ela ergueu sua cópia de Total Truth, com orelhas de burro e manchada de tinta, para mostrar que
Agradecimentos 269

ela praticamente viveu dentro de suas páginas. Tudo o que posso dizer é
que todo escritor deveria ter um editor tão criativo quanto Jennifer para
conduzir o projeto do livro por todas as reviravoltas do processo editorial.
Apoiando todos os meus esforços estão meus pais, que fizeram enormes sacrifícios para proporcionar

a todos os seis filhos uma educação musical. Quando eu tinha doze anos, meu pai aceitou
um cargo de pesquisa de um ano na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. Enquanto
estávamos lá, nossa família viajou para Salzburgo, na Áustria, para comprar instrumentos
musicais diretamente de um fabricante de violinos. Mas havia um problema: mesmo que o
preço fosse uma fração do que teria sido nos EUA, meus pais ainda não tinham dinheiro
suficiente para comprar instrumentos para nossa grande família e ainda pagar as
passagens para a viagem de volta aos EUA. Eles teriam que escolher um ou outro.

Bem, nós não voltamos para casa. Em vez disso, meu pai encontrou outro emprego (em Oslo, Noruega) que

nos permitiu permanecer na Europa para que toda a família pudesse ser equipada
com instrumentos musicais. Um violino para mim, um violoncelo para meu irmão
mais velho, uma viola para minha irmã mais velha, um violoncelo pequeno para
minha irmã mais nova, um cravo para a família e flautas doces (um instrumento de
sopro barroco) para todos. Dois irmãos mais tarde passaram da flauta doce para
o fagote e a trompa. Minha mãe, uma violinista profissional, costumava brincar
que sempre quis tocar em um quarteto de cordas, mas não sabia que teria que
criar o seu próprio. Até meu pai, um matemático, comprou uma flauta doce alto e
aprendeu a tocar música renascentista e barroca. Depois que os filhos cresceram e
saíram de casa, ele e minha mãe formaram um conjunto para apresentar
concertos de música antiga no violino, flauta doce, viola da gamba e cravo.
Essa rica herança musical permaneceu uma parte formativa da minha vida, que incluiu acampamentos musicais

e orquestras estaduais no ensino médio, e bolsas de música na faculdade. Também


tive a oportunidade de voltar à Alemanha e estudar violino no conservatório de
Heidelberg. Sou profundamente grato pela oportunidade que meus pais
proporcionaram não apenas para estudar as artes, mas também para ser um
praticante. Que privilégio ter realmente tocado algumas das grandes obras-primas
da tradição musical ocidental.
Meu apoiador e promotor mais entusiasta é meu marido Rick, cujo olhar editorial aguçado

e sugestões inteligentes melhoraram imensamente o livro. Sua experiência como editor em várias
publicações do Capitólio, incluindo Human Events, lhe proporciona insights penetrantes sobre

questões políticas e culturais (ver The Pearcey Report, [Link]). O


próprio talento musical de Rick também me revigorou e me sustentou no processo
de escrita. Muitas noites, enquanto eu batia no teclado do computador, ele batia
no teclado do piano ali perto, tocando blues, Beatles e suas próprias composições,
as notas inundando minha mente enquanto eu trabalhava. É a ele que dedico este
livro.
Notas

Introdução: Por que os americanos odeiam política


1. William Galston, “Um debate antigo renovado: a política do interesse público” Daedelus,
22 de setembro de 2007.

2. Adam Wolfson, “Interesse público perdido?” Daedelus, 22 de setembro de 2007.


3. Lionel Robbins, Um Ensaio sobre a Natureza e o Significado da Ciência Econômica (Londres:

Macmillan and Company, 1952 [1932]), 150. 4. E.


J. Dionne, Por que os americanos odeiam política
(Nova York : Simon & Schuster, 1991 ), 332.
5. Colin Hay, Por que odiamos política (Cambridge, Reino Unido: Polity Press, 2007), 155.

Capítulo 1: Você é uma presa fácil?


1. Entrevista pessoal com John R. Erickson, 31 de janeiro de 2007. Veja também John
R. Erickson, “Indignação: CBS injetou vírus feminista no programa ‘Hank the
Cowdog’”, no Pearcey Report,
[Link] 2. Robert K.
Johnston, Reel Spirituality (Baker, 2000), 119–20.
3. Peter Berger, “A Dessacralização do Mundo” The National Interest, 46:8, ênfase

no original. Para uma boa descrição das forças da modernização, veja “Quatro Faces da Cultura
Global” de Berger, The National Interest, Fall, 49:23. O impacto da cultura urbana está crescendo

indo em parte porque as cidades em si estão crescendo. Em 2007, pela primeira vez na história da humanidade,

271
272 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

a população da Terra tornou-se mais urbana do que rural. Nos Estados Unidos, o ponto de
inflexão foi no final da década de 1910. Universidade Estadual da Carolina do Norte (25 de
maio de 2007). “Mayday 23: População Mundial se Torna Mais Urbana do que Rural”, relatado
no ScienceDaily, 25 de maio de 2007.
4. Benjamin R. Barber, “Jihad vs. McWorld”, Atlantic Monthly, março de 1992.

5. Timothy Keller, “Avançando o Evangelho no Século 21, Parte IV:


Estratégia com Foco na Cidade”, [Link]

tim_keller_2004-02_advancing_the_gospel_into_the_21st_century_part_4.
6. Ken Boa, “Quão Precisa é a Bíblia?”, Knowing & Doing, o Instituto C. S. Lewis, Inverno
2009. Na segunda metade do século XX, houve uma revolução na opinião acadêmica
em relação aos documentos do Novo Testamento, de um ceticismo generalizado a
um respeito generalizado por sua confiabilidade histórica. Veja William Lane Craig,
“Bolsa de Estudos Contemporânea e as Evidências Históricas da Ressurreição de Jesus
Cristo”, Truth 1 (1985): 89–95.
7. William Barrett, Homem Irracional: Um Estudo em Filosofia Existencialista (Garden City, Nova York:

Doubleday, 1958),
63. 8. Todd Gitlin,
O Crepúsculo dos Sonhos Comuns: Por que a América é Abalada pelas Guerras Culturais (Novo

York: Metropolitan Books, 1995), 147.

9. James Davison Hunter, “Existe uma Guerra Cultural?” transcrição de


uma conferência organizada pelo Ethics and Public Policy Center, 23 de
maio de 2006. 10. Michael Hirsch, “Cérebros Estão de
7 de novembro de2008.
Volta”, Newsweek,
Chris Mooney, “Salve
ao Presidente Intelectual”, New Scientist, 12 de maio de 2009. Lewis H. Lapham, “Achievetrons”,
Harper’s, março de 2009. O termo foi cunhado para descrever o governo Obama por David
Brooks em “The Insider’s Crusade”, New York Times, 21 de novembro de 2008. Obama prevaleceu

entre os eleitores brancos com diploma universitário ou de pós-graduação, enquanto


McCain desfrutou de uma pluralidade entre os brancos sem diploma universitário
(que eram 53% do eleitorado em 1992, mas agora são apenas 39%). Peter Wehner e
Michael Gerson, “O Caminho para o Renascimento Republicano”, Commentary, 1 de
setembro de 2009.
11. “Nova pesquisa no Reino Unido mostra declínio significativo no cristianismo institucional”, Ekklesia, 17

Dezembro de 2009. “Dados europeus mostram que os religiosos têm tido uma
vantagem demográfica sobre seus homólogos seculares por várias gerações, mas
também que essa vantagem tem sido equilibrada pela secularização de muitos
dos filhos dos fiéis da Europa. . . . Certamente muitos dos filhos dos religiosos nos
EUA se tornarão seculares, como aconteceu na Europa Ocidental por gerações.”
Eric Kaufmann, “Breeding for God”, Prospect, Edição 128, novembro de 2006.
12. Os pais da igreja criticaram vigorosamente as escolas materialistas de filosofia
(como o epicurismo), com o resultado de que essas escolas praticamente
desapareceram do mapa filosófico por mais de um milênio - até serem revividas
durante a revolução científica. Por outro lado, os pais da igreja acharam Platão e
Aristóteles muito mais agradáveis e adaptaram muitos de seus conceitos
filosóficos. Para um resumo, veja Verdade Total, apêndice 3.
Notas 273

13. J. Gresham Machen, “Cristianismo e Cultura”, The Princeton Theological Review, Vol. 11,
1913.
14. Lillian Kwon, “Pesquisa: Alunos do Ensino Médio ‘Se Formando em Deus’”, The Christian Post,
10 Agosto de 2006.
15. Alex e Brett Harris, Faça Coisas Difíceis(Colorado Springs: Multnomah, 2008) .

16. Becky Garrison, “Razões para Acreditar de John Marks”, God’s Politics, 30 de abril de 2008.

17. Voddie Baucham, Fé Impulsionada pela Família (Wheaton, IL: Crossway, 2007), 69.
18. Philip Jenkins, O Próximo Mundo Cristão: A Chegada do Cristianismo Global (Oxford University
Press, 2002). Veja também Philip Jenkins, “Um Novo Mundo Cristão”, Chronicle of Higher Education,
29 de março de 2002. Philip Jenkins, Os Novos Rostos do Cristianismo: Acreditando na Bíblia no Global
Sul (Oxford University Press, 2006). Para um resumo, veja Robert Bruce Mullin, Um Breve Mundo
História do Cristianismo (Louisville, KY: Westminster John Knox Press, 2008). “Pela primeira vez
desde o início do segundo milênio da era cristã, a face do cristianismo novamente
se tornou marrom. As grandes igrejas históricas da Europa e da América do Norte não são apenas minori-

dades dentro do mundo cristão, mas são estáticas ou estão em declínio diante da expansão real em
Ásia, África e América do Sul” (276).
19. John Micklethwait e Adrian Wooldridge, “Deus Ainda Não Está Morto”, The Wall Street Journal,
7 de abril de 2009. Veja também Lamin Sanneh, De Quem É a Religião do Cristianismo? O Evangelho Além do Ocidente

(Eerdmans, 2003), 15.


20. Lamin Sanneh, 69–70.
21. Michael Parris, “Como ateu, acredito verdadeiramente que a África precisa de Deus”, Timesonline, 27 de dezembro

2008.
22. Philip Jenkins, “O Retorno Cristão da Europa”, Foreign Policy, Junho de 2007.
23. Daniel Wakin, “Em Nova York, o Evangelho Ressoa em Línguas Africanas”, New York Times,
18 Abril de 2004.
24. “Antievolucionistas aumentam seu perfil na Europa”, Nature, 23 de novembro de 2006, 444, 406–7.
25. Joshua Livestro, “O Futuro Pós-Secular da Holanda”, The Weekly Standard, Volume 012, Edição
16, 1 de janeiro de 2007.

26. Timothy Samuel Shah e Monica Duffy Toft, “Por Que Deus Está Vencendo”,Foreign Policy,
(Julho/Agosto de 2006), reimpresso em Dallas Morning News, 16 de julho de 2006. De acordo com a Freedom

House, o número de países “livres” e “parcialmente livres” saltou de 93 em 1975 para 147 em
2005. Veja [Link]
27. Harvey Cox, A Cidade Secular (Nova York: Macmillan, 1965), 1.
28. Rodney Stark e Roger Finke, Atos de Fé (Los Angeles: University of California Press,
2000), 64.
29. Christian Smith, Evangelicalismo Americano: Ameaçado e Próspero(Chicago: University
of Chicago Press, 1998), 111, 151. Finke e Stark, A Igreja da América 1776–1990:
274 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

Vencedores e Perdedores em Nossa Economia Religiosa (New Brunswick, NJ: Rutgers University Press,

1992), 203–7.
30. Lisa Miller, “Crise de Fé de Harvard: Uma universidade secular pode abraçar
a religião sem sacrificar sua alma?” Newsweek, 22 de fevereiro de 2010.
31. Stanley Fish, “Uma Universidade sob Deus?” Chronicle of Higher Education, 7 Janeiro de 2005.

Capítulo 2: Verdade e Tirania


1. Dan Harris, “Jovens Evangélicos Estão Tendendo Mais ao Liberal?”
ABC News, 10 de fevereiro de 2008.
2. Lorenzo Albacete, “Pelo Amor de Deus,” New York Times, 3 Fevereiro de 2006.
3. Francis Schaeffer discute o conceito dividido de verdade em Escape from Reason e O Deus
Quem Está Lá, em The Complete Works of Francis A. Schaeffer (Wheaton, IL: Crossway, 1985).
4. Martin Luther King, Coretta Scott King, As Palavras de Martin Luther King, Jr., 2ª ed.
(Newmarket Press, 2001), 48. Albert Einstein, “Ciência e Religião”, um
discurso no Seminário Teológico de Princeton em 19 de maio de 1939.
5. John Horgan, “Confronto em Cambridge: Religião e Ciência Parecem Tão
Antagônicas Quanto Sempre”, Scientific American, 12 de setembro de 2005.
6. Citado por Brett Kunkle, “O Relativismo Está Vivo e Bem em Nossa Juventude”, 30 de
julho de 2007, Stand to Reason Blog em [Link]
-[Link]. 7. Ernst Gellner, Legitimação da Crença
(Nova York: Cambridge University Press, 1974), 193–95.
8. Ibid.
9. Tim Sweetman, “ Verdade Total . . . Versus Cidadania Real ?" 13 de fevereiro de 2006,
[Link]
10. Brett Kunkl, “Relativismo: Vivo e Bem”, 8 de maio de 2008, Stand
to Reason Blog, [Link]
11. Josh McDowell, “Alcançando a Juventude Hoje”, um discurso
proferido nas Assembleias de Deus 1998 Conferência de
Enriquecimento Ministerial. 12. Francis Schaeffer,
(Downers O Deus Que
Grove, IL: InterVarsity, 1968)Está
13. Lá
13. Alvin Plantinga, Crença Cristã Justificada (Nova York: Oxford University Press, 2000), 62.
14. Lee Siegel, “Precisamos de Fé? Acredite”, The Los Angeles Times, 7 de outubro de 2007.

15. Estou parafraseando um sermão dado por Timothy Keller da Redeemer


Presbyterian Church em Nova York. Da mesma forma, Ian Barbour diz que qualquer
poder que a religião tenha para motivar as pessoas moralmente depende “da suposição
de que certas proposições são verdadeiras. Seria irracional adotar ou recomendar um
modo de vida a menos que se acredite que o universo é de tal caráter que este modo
de vida é apropriado.” Mitos, Modelos e Paradigmas: Um Estudo Comparativo em
Ciência e Religião (São Francisco: Harper and Row, 1974), 58.
Notas 275

16. J. S. Bezzant, Objections to Christian Belief, citado em Francis Schaeffer, The God Who is There
(Downers Grove, IL: InterVarsity, 1998), 120.
17. C. S. Lewis, “Homem ou Coelho?” Deus no Banco dos Réus: Ensaios sobre Teologia e Ética (Grand
Rapids, IL: Eerdmans, 1970), 110.
18. Gerald L. Zelizer, “De onde viemos? (E o que podemos ensinar aos nossos filhos?)”
USA Today, 6 de fevereiro de 2005.

19. Michael Heller, “Declaração sobre a Conquista do Prêmio Templeton de 2008” The Global Spiral,
12 Março de 2008.
20. Citado em “Protestant Baby Boomers Not Returning to Church”, artigo não assinado,Nova York
Times, 7 de junho de 1992.

21. Dean R. Hoge, Benton Johnson e Donald A. Luidens, Limites Desaparecendo: O


Religião dos Baby Boomers Protestantes da Mainline (Louisville, KY: Westminster/John Knox Press,
1994). O estudo foi um acompanhamento de um livro de 1972 de Dean Kelley intitulado Why Conservative

Igrejas Estão Crescendo.

22. Smith, Evangelicalismo Americano, 57–58, 61.


23. John Stott, Sua Mente Importa: O Lugar da Mente na Vida Cristã (Downers
Grove, IL: InterVarsity, 2006), 18.
24. Julie Reuben, A Construção da Universidade Moderna (Chicago: University of Chicago Press,
1996), 17. J. P. Moreland, Triângulo do Reino (Grand Rapids, IL: Zondervan, 2007), 69.
25. Reuben, 112. Veja também Phillip E. Johnson, “Como as Universidades Foram Perdidas”, First Things,
Março de 1995.

26. Citado em Subroto Roy, Filosofia da Economia (Routledge, 1991), 23.


27. Robert Proctor, Ciência Livre de Valores? Pureza e Poder no Conhecimento Moderno (Cambridge,

MA: Harvard University Press, 1991), 80.


28. Stanley Fish, “O Problema com a Tolerância” Chronicle of Higher Education, 10 de novembro
2006.
29. Citado em Nicholas Wade, crítica de Descobridor do Código Genético por Matt Ridley, Novo
York Times, 18 de julho de 2006.

30. Stephen Carter, A Cultura da Incredulidade: Como a Lei e a Política Americana Trivializam a Religiosidade
Devoção (Nova York: Doubleday, 1993), 22.
31. Mark Henderson, “Células de ‘híbridos citoplasmáticos’ não chegarão aos humanos” The Times,
20 de maio de 2008.

32. Lisa Miller, “Argumentando Contra os Ateus” Newsweek,27 de setembro de 2008.


33. Johnson, “Como as Universidades Foram Perdidas”.

34. Uma apresentação feita na Universidade de Toronto, citada por Barbara Bradley Hagerty,
“Uma Amarga Divisão Divide os Ateus”, National Public Radio, 19 de outubro de 2009.
276 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

35. “A ‘ideia mais perigosa’ de Darwin é que a seleção natural e outros fatores causais fornecem
uma explicação mais adequada para a descendência dos humanos do que a postulação de um decreto divino ou

design.” Paul Kurtz, “Darwin Re-Crucificado: Por que tantos têm medo do naturalismo?” Livre
Inquiry , Volume 18, No. 2, Primavera de 1998.

36. Paul Kurtz, “Ciência e religião são compatíveis?” Skeptical Inquirer , março de 2002.
37. H. Allen Orr, “Gould sobre Deus: A religião e a ciência podem ser reconciliadas felizmente?” Boston
Review, outubro/novembro de 1999. Orr está revisando um livro de Stephen J. Gould, mas sua percepção
se aplica de forma mais geral a outras visões materialistas também.

38. Dallas Willard, “Nova Era da Antiga Espiritualidade Cristã”, entrevista não publicada em julho
18, 2002, postado em [Link]
39. Terry Eagleton, Teoria Literária: Uma Introdução (Minneapolis, MN: University of
Minnesota Press, 1983, 1996), 10, 14.
40. Nicholas Wade, “Cientista Encontra os Princípios da Moralidade no Comportamento de Primatas” New York

Times, 20 de março de 2007.

41. Veja Dallas Willard, “Direitos Morais, Responsabilidade Moral e o Fracasso Contemporâneo
do Conhecimento Moral”, uma palestra proferida na primeira conferência anual de Direitos Humanos organizada pelo

Instituto IPFW de Direitos Humanos da Purdue University, 10 de dezembro de 2004.


42. Michael Ruse, Notícias de Pesquisa, maio de 2001.

43. Tamler Sommers e Alex Rosenberg, “A Ideia Niilista de Darwin: Evolução e o


Sem Sentido da Vida”, Biologia e Filosofia, 18 (2003): 653, ênfase adicionada. Veja Nancy
Pearcey, “A Religião é uma Muleta Emocional? O Impacto Cultural do Darwinismo”, NAMB,
[Link]
Crutch_The_Cultural_Impact_of_Darwinism__Apologetics.htm
44. Gordy Slack, “O que os neo-criacionistas acertam”, [Link], 20 de junho de 2008.
45. Wayne Booth, Dogma Moderno e a Retórica do Assentimento (Chicago: University of Chicago
Press, 1974) 42, ênfase no original.
46. “Em Busca da Interioridade Cristã: Uma Entrevista com Louis Dupré”The Christian Century ,
16–23 de julho de 1997.

47. C. S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (Nova York: Macmillan, 1943, 1945, 1952) ,58.
48. John Marks, Razões para Acreditar: A Jornada de um Homem Entre os Evangélicos e a Fé que Ele
Deixou Para Trás (Ecco, 2008), 105.

Capítulo 3: Sexo, Mentiras e Secularismo


1. Anne Lamott, “Na Janela da Morte”
The Los Angeles Times, 25 de junho de 2006.
2. Anne Lamott, “Os Direitos dos Nascidos”, The Los Angeles Times, 10 de fevereiro de 2006.
3. Miranda Sawyer, “Eu sabia qual era minha posição sobre o aborto. Mas tive que repensar”, The Observer,

8 de abril de 2007.
Notas 277

4. John Herman Randall, A Formação da Mente Moderna (Nova York: Columbia University
Press, 1926, 1940), 276.
5. O termo “cartesiano” passou a se referir ao contraste irreconciliável entre um objetificado
natureza e um sujeito livre. O próprio Descartes pode não ter pretendido uma polarização tão extrema.

ização. Veja John W. Cooper, Corpo, Alma e Vida Eterna: Antropologia Bíblica e o
Debate Monismo-Dualismo (Grand Rapids, IL: Eerdmans, 2000) 14–15.
6. T. Z. Lavine, De Sócrates a Sartre: a Busca Filosófica (Nova York: Bantam Books, 1984),
128. Veja também Stephen Shapin, A Revolução Científica (Chicago: University of Chicago Press,
1996), 30 e seguintes.

7. Jacques Maritain, O Sonho de Descartes (Nova York: Philosophical Library, 1944), 179.
8. J. V. Langmead Casserley, O Cristão na Filosofia (Nova York: Scribner’s Sons, 1951), 99.
9. David West, Uma Introdução à Filosofia Continental (Cambridge: Polity Press, 1996),
14-15. Ele acrescenta: “Nosso conhecimento deste mundo desencantado não fornece mais inequívoco ou
apoio imediato para a moralidade ou a religião.”
10. David Schindler, “Biotecnologia e a Dadiva do Bem: Colocando Adequadamente o
Questão Moral Relativa à Dignidade Humana”, Communio 31 (Inverno de 2004), 617. “‘Fato’ é agora
um mecanismo (acessado empiricamente) cuja inteligibilidade é obtida através do controle humano,
enquanto ‘valor’ é a imposição da vontade humana sobre o ‘fato’ do que agora é apenas não naturalmente

‘bom’—isto é, ‘bom’ não como dado intrinsecamente pela natureza, mas apenas como postulado, instrumentalmente-

arbitrariamente, pelo homem.” Da mesma forma, João Paulo II escreve que a natureza não é mais considerada como

intrinsecamente boa, revelando a bondade de seu Criador, mas apenas instrumentalmente boa como é

usado para atingir propósitos humanos. Veja Veritatis Splendor (O Esplendor da Verdade), para. #46.
O antigo papa analisou a visão de dois níveis da pessoa humana e seu impacto na ética
questões em Evangelium Vitae. Veja meu ensaio, “Evangelium Vitae: João Paulo Encontra Francis Schaeffer,”

em The Legacy of John Paul II, ed Tim Perry (Downers Grove, IL: InterVarsity, 2007).
11. N. T. Wright, Surpreendido pela Esperança (Nova York: HarperOne, 2008), 75.

12. Roger Lundin, A Cultura da Interpretação: Fé Cristã e o Mundo Pós-Moderno


(Grand Rapids, IL: Eerdmans, 1993), 102.
13. Peter Berkowitz, “Redescobrindo o Liberalismo”, The Boston Book Review, março de 1995, 14.
O termo “liberal” é útil porque nos permite falar de liberalismo secular e religioso.
14. George Gaylord Simpson resumiu a evolução darwiniana nestas palavras: “O homem é o
resultado de um processo natural e sem propósito que não o tinha em mente.” O Significado de
Evolução (New Haven: Yale University Press, 1967), 345.
15. Daniel Dennett, “As Origens dos Selfs”, Cogito , 3, 163–73, Outono de 1989. Dennett ele-
self não acredita que haja qualquer self ou alma. O conceito que ele descreve remonta a Platão, que
falou da alma usando o corpo.
278 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

16. Küng é citado em “Hans Küng Joins Abortion Debate in Mexico,” California Catholic Daily,
6 Abril de 2007. A citação de Peter Singer é de seu “The Sanctity of Life,” Foreign Policy ,
Setembro/Outubro de 2005. A citação de Joseph Fletcher é de seu Humanhood: Essays in
Biomedical Ethics (Buffalo, NY: Prometheus Books, 1979), 11, ênfase adicionada. Leon Kass,
presidente do Conselho de Bioética do Presidente Bush, resume dizendo que a bioética contemporânea

“dualisticamente estabelece o conceito de ‘pessoa’ em oposição à natureza e ao


corpo.” Leon R. Kass, Life, Liberty, and the Defense of Dignity: The Challenge for Bioethics (San
Francisco: Encounter Books, 2002), 17, 286.
17. De “FAQ” no site de Peter Singer em [Link]
18. John Harris, “Wrongful Birth,” em Philosophical Ethics in Reproductive Medicine, ed D. R.
Bromham, M. E. Dalton, e J. C. Jackson (Manchester: Manchester University Press, 1990),
156–71.
19. James Watson, “Children from the Laboratory,” Prism: The Socioeconomic Magazine
of the American Medical Association 1:2 (1973), 12–14, 33–34. Singer é citado em Mark
Oppenheimer, “Who lives? Who dies? The utility of Peter Singer,” Christian Century, 3 de julho
de 2002.

20. Stanley Fish, “Why We Can’t All Just Get Along,” First Things, 60 (Fevereiro de 1996):18–26.
21. Yuval Levin, “In the Beginning: The Democratic ticket confuses science and theology,”
National Review Online, 8 de setembro de 2008. As citações de Obama e Biden estão neste
artigo.
22. Citado em Deborah Danielski, “Deconstructing the Abortion License,” em Our Sunday
Visitor , 25 de outubro de 1998.

23. Paul Bloom, “The Duel between Body and Soul,” New York Times, 10 de setembro de 2004. Para
uma resposta, veja Patrick Lee e Robert P. George, First Things, 150 (Fevereiro de 2005), 5–7.
24. Jennie Bristow, “Abortion: Stop Hiding behind the Science,” Spiked, 22 de outubro de 2007.
25. N. T. Wright, Surprised by Hope (New York: HarperOne, 2008), 50.
26. John Richard Pearcey, “Christmas Spirit in the Dirt,” 30 de dezembro de 2007,
[Link]
27. “Three Tales,” uma ópera de 2002 de Steve Reich.
28. Court TV, 24 de março de 2005.
29. Wesley Smith, “Dehydration Nation,” The Human Life Review, Outono de 2003. Veja também Robert
Johansen, National Review Online , 16 de março de 2005.

30. Wesley Smith, “‘Human Non-Person’: Terri Schiavo, bioethics, and our future,” National
Review Online, 29 de março de 2005.
31. Wesley Smith, “Welcome to Our Brave New World,” entrevista com John Zmirak,
Godspy—Faith At the Edge , 15 de dezembro de 2004.

32. John Gray, Straw Dogs (London: Granta, 2002), capítulo um.
Notas 279

33. Nick Bostrom, “Valores Transumanistas”, publicado em seu site, [Link]


com/ethics/[Link].
34. Citado em Wesley Smith, “Biohazards: Avanços na ciência biológica levantam questões preocupantes

sobre o que significa ser humano”, San Francisco Chronicle, 6 de novembro de 2005.
35. Brian Goodwin, entrevista de David King, GenEthics News, Edição 11, março/abril de 1996,
6–8. Goodwin é autor de Como o Leopardo Mudou Suas Manchas (Princeton University Press,
1994, 2001).
36. Citado em E. O. Wilson, A Diversidade da Vida (Nova York: Norton, 1992, 1999), 302.
37. Adrian Woolfson, Um Guia para Genética para Pessoas Inteligentes (Nova York, NY: Overlook Press,

2006), prefácio.
38. Richard Rorty, “Universalismo Moral e Triagem Econômica”, artigo apresentado no Segundo
Fórum de Filosofia da UNESCO, Paris, 1996. Reimpresso em Diogenes, Vol 44, Edição 173 (1996).
39. Smith, “Bem-vindo ao Nosso Admirável Mundo Novo.”

40. Kathy Dobie, “Indo Até o Fim: Uma repórter argumenta que as jovens estão brincando
com sua saúde emocional”, The Washington Post, 11 de fevereiro de 2007. Benoit Denizet-Lewis,
“Amigos, Amigos com Benefícios e os Benefícios do Shopping Local”, New York Times, 30 de maio
2004.
41. Janet Reitman, “Sexo e Escândalo em Duke”, [Link], 1º de junho de 2006.

42. Wendy Shalit, Garotas que se Tornaram Boazinhas: Jovens Mulheres Reivindicam o Auto-Respeito e Descobrem que Não é Ruim

ser Boa. Para uma análise da visão de mundo defendida pelos arquitetos da revolução sexual, como
Margaret, Sanger, Alfred Kinsey e Mary Calderone, veja meu artigo “Criando o ‘Novo
Homem’: A Agenda Oculta na Educação Sexual”, Bible-Science Newsletter, maio de 1990. Eu atualizei
esse material em “Salvação Através do Sexo?” capítulo 25 em Como Viveremos Agora? um livro que

co-autoria com Charles Colson (Wheaton, IL: Tyndale, 1999), com contribuições de Harold
Fickett, que é creditado nos agradecimentos do livro por escrever os dez capítulos que
consistem em anedotas estendidas (os “capítulos de história”).

43. Kathy Dobie, “Indo Até o Fim”; Nona Willis-Aronowitz, “A Mística da Virgindade”,
The Nation, 19 de julho de 2007.

44. “O Que as Crianças Querem Saber Sobre Sexo e Crescimento”, Children’s Television Workshop,
1992, um programa especial “1-2-3 Contact Extra”.
45. John Francis Kavanaugh, S. J., Seguindo Cristo em uma Sociedade de Consumo: A Espiritualidade da
Resistência Cultural (Nova York, NY: Maryknoll, Orbis Books, 1986; ed. rev. 1991), 56, ênfase
adicionada.

46. Judith Butler, Problemas de Gênero(Nova York, NY: Routledge, 1999), 136.
47. Fred Bernstein, “No Campus, Repensando Biologia 101”, New York Times , 7 de março de 2004.
Veja também Gene Edward Veith, “Crise de Identidade”, World, 27 de março de 2004.
280 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

48. Bret Johnson, Na Família, julho de 1998. Citado em Laura Markowitz, “Um Tipo Diferente de
Casamento Queer: De repente, gays e lésbicas são parceiros de casamento do sexo oposto ,”
The Utne Reader, No. 101, setembro/outubro de 2000. Veja também Stephen F. Sternberg, “Podem
aqueles que se identificam como homossexuais experimentar mudanças?” Leadership U,
[Link] atualizado em 14 de julho de 2002.

49. Carol Queen e Lawrence Schimel, eds., PoMoSexuals: Desafiando Suposições sobre
Gênero e Sexualidade (São Francisco: Cleis Press, 1997).
50. Para um tratamento muito mais completo, veja Verdade Total , capítulo 12. Veja também dois dos meus artigos, “Um Apelo

por Mudanças no Local de Trabalho”, em Feminismo Pró-Vida: Vozes Diferentes, ed Gail Grenier Sweet

(Toronto: Life Cycle Books, 1985), “Por que eu não sou feminista (mais),” no Human
Life Review, Verão de 1987.
51. John W. Kennedy, “O Momento Transgênero: Evangélicos esperam responder com ambos
autoridade moral e compaixão bíblica ao transtorno de identidade de gênero”, Christianity Today ,
Fevereiro de 2008, Vol. 52, No. 2.
52. Mary E. Hunt, “Grace—é uma pessoa transgênero que ama mulheres e homens,” The Witness,
Julho/Agosto de 2001, Vol. 84, No. 7/8.
53. Muitos educadores seguem o exemplo do Conselho de Informação e Educação sobre Sexualidade

dos Estados Unidos (SIECUS). Sua publicação “Diretrizes para a Sexualidade Abrangente
Educação, 3ª edição: Jardim de Infância até o 12º ano” afirma que a identidade de gênero “refere-se
ao senso interno de uma pessoa de ser homem, mulher ou uma combinação destes” e “pode mudar
ao longo de suas vidas.”
54. Peter Osborne e Lynne Segal,” Gênero como Performance: Uma Entrevista com Judith Butler,”

Radical Philosophy, 67 (Verão de 1994).


55. Citado em Avery Dulles, “João Paulo II e o Mistério da Pessoa Humana,” America,
Vol. 190, No. 3, 4 de fevereiro de 2004, ênfase adicionada.
56. Os resultados da pesquisa são discutidos em unChristian: O que uma Nova Geração Realmente Pensa

Sobre o Cristianismo . . . e Por Que Isso Importa, por David Kinnaman (Grand Rapids, MI: Baker,
2007).
57. Dan Harris, “Os Jovens Evangélicos Estão Se Tornando Mais Liberais?” ABC News, 10 de fevereiro,
2008; Laurie Goodstein, “Obama Obteve Ganhos entre Eleitores Evangélicos Mais Jovens, Dados Mostram,”
New York Times, 6 de novembro de 2008; Vanessa Mendenhall, “Os Jovens Evangélicos Estão Se Inclinando

Esquerda?” PBS Newshour, Generation Next, 21 de novembro de 2006.

58. Citado em Wayne Slater, “Jovens eleitores evangélicos divergem dos pais,” The Dallas
Morning News, 15 de outubro de 2007.

59. O livro é de Robert Putnam e David Campbell, e como isso vai para a imprensa, não foi
publicado, mas algumas descobertas foram relatadas no blog do livro: [Link]
org/blog/?p=31.
Notas 281

Capítulo 4: Curso Intensivo sobre Arte e Visão de Mundo

1. Menotti conta a história em uma entrevista à NPR, “All Things Considered”,


apresentado por Robert Siegel, 24 de dezembro de 2001. Alguns detalhes
foram retirados de uma história de 1981 da Guideposts escrita por Richard H.
Schneider e reimpressa aqui: [Link]
Amahl%20StudyGuide%[Link]. 2. Henry Pleasants,
A Agonia da Música Moderna (Nova York, NY: Simon & Schuster, 1955),
39–40.
3. Citado em Bernard Holland, “Gian Carlo Menotti, Compositor de Ópera, Morre aos 95 Anos”, Nova York
Times, 2 de fevereiro de 2007.

4. Richard Gilman, “Introdução”, O Dramaturgo como Pensadorpor Eric Bentley (Nova York, NY:
Harcourt, Brace, Jovanovich, 1987 [1945]) xix, ênfase
no original. 5. Meyer Schapiro, “Estilo” em
, ed. Estética
Morris Hoje
Philipson (Cleveland, OH: World
Publishing, 1961), 106. O ensaio foi publicado pela primeira vez em 1953 em Antropologia Hoje. Finley

Eversole, “Retrospectiva de Jackson Pollock”, Teologia Hoje, Vol. 24, No. 2, julho de 1967. Hans
Rookmaaker, “Refletindo sobre quatro desenhos modernos”, em Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, o

Obras Completas de Hans Rookmaaker, Vol. 5, ed. Marleen Hengelaar-Rookmaaker


(Carlisle: Piquant, 2003), 227. David Gobel, “Construindo Babel: Arquitetura e Visão de
Mundo”, apresentado em uma conferência organizada pela Philadelphia Biblical
University intitulada “Beleza, Arte e a Igreja”, 8 de novembro de 2008. Discuti a relação
entre arte e visão de mundo no capítulo 42 de Como Viveremos?
Como Viveremos?

6. Dana Gioia, discurso de abertura proferido na conferência “Artistas como


Reconciliadores”, International Arts Movement, fevereiro de 2006. Condensei
ligeiramente seus comentários. 7. John Walford, “Sobre Escrever Grandes Temas na Arte”,
apresentado no Wheaton Women
(Intercessores) Group, fevereiro de 2006.

8. Louis Finkelstein, “Novo Olhar: Expressionismo Abstrato”, Art News, março de 1956, emTeorias
da Arte Moderna: Um Livro de Fontes de Artistas e Críticos, ed Herschel B. Chipp (Los Angeles, CA:

University of California Press, 1968), 572. 9.


Jean-Paul Sartre, “Sobre O Som e a Fúria”, em William Faulkner,O Som e a Fúria,

ed David Minter (Nova York, NY: Norton, 1994), 265, 271. Francis Schaeffer faz um ponto
semelhante: “Se a excelência técnica do artista é alta, ele deve ser elogiado por isso, mesmo
que discordemos de sua visão de mundo.” No entanto, mesmo quando “reconhecemos
que ele é um grande artista em excelência técnica e validade—se de fato ele o é—se fomos
justos com ele como homem e como artista, então podemos dizer que sua visão de mundo
está errada.” Arte e a Bíblia (Downers Grove, IL: InterVarsity, 1973) 42, 44.

10. Philip J. Davis, “Matemática e Arte: Compassos Frios contra Carne Quente?”
em Matemática, Educação e Filosofia: Uma Perspectiva Internacional,
ed Paul Ernest (Londres:

Falmer Press, 1994),


168. 11. E. John Walford,
Grandes Temas na Arte (Nova Jersey: Prentice Hall, 2002), 72.
282 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

12. Kenneth Clark, O Nu: Um Estudo da Forma Ideal (Nova York, NY: MFJ Books, 1956), 15,
25, 30, 38, 40–42.
13. Louis Dupré, Passagem para a Modernidade: Um Ensaio sobre a Hermenêutica da Natureza e da Cultura (Novo

Haven: Yale University Press, 1993), 36–38, 45–46.


14. Richard Kearney, O Rastro da Imaginação (Minneapolis, MN: University of Minnesota
Press, 1988), 8–9, 132–36; William Dyrness, Fé Visual: Arte, Teologia e Adoração em
Diálogo (Grand Rapids, MI: Baker, 2001), capítulo 1; E. H. Gombrich, A História da Arte (Novo
York, NY: Phaidon Press, décima sexta edição, 1995 [1950]), capítulo 6. Sobre a perda do realismo na
arte cristã, veja Michael Gough, As Origens da Arte Cristã (Nova York, NY: Praeger, 1973).
15. Roger French e Andrew Cunningham, Antes da Ciência: A Invenção da Filosofia Natural dos Frades
(Brookfield, VT: Ashgate, Scolar Press, 1996). Os Dominicanos surgiram na era dos
Cátaros, que ensinavam que o mundo material é mau, e que, portanto, deve haver dois
deuses—um bom e o outro mau. Para combater essa heresia ao estilo maniqueísta, os Dominicanos
redefiniram o termo “natureza”. Até então, ele era usado principalmente no sentido de essências—a
“natureza das coisas”. Agora, o termo tornou-se ligado mais diretamente à criação física, a boa
obra de Deus. “Os Dominicanos encontraram uma maneira muito simples de provar que o mundo material era

bom: ‘Natureza’ foi equiparada a ‘criação’.” Ou seja, a natureza das coisas é simplesmente outra maneira
de dizer como Deus os criou. Contra o ensinamento dos Cátaros de que o mundo material é
mau, a “mensagem dos Dominicanos era que Deus é bom, Sua criação é boa, a bondade e
a causalidade da Criação são evidências da bondade de Deus.” (140, 202) Este novo inter-
esse pela natureza influenciou não apenas a arte, mas também os estágios iniciais da ciência moderna. Veja meu ensaio,

“Desenvolvimentos Recentes na História da Ciência e do Cristianismo” e “Resposta”, Pro Rege 30,


No. 4 (Junho de 2002), 22.

16. Dupré, Passagem para a Modernidade , 36–38, 45–46.


17. Charles R. Mack, Olhando para o Renascimento: Ensaios para uma Apreciação Contextual,
(University of Michigan Press, 2005), 27, 29.
18. Stephen A. McKnight, A Era Moderna e a Recuperação da Sabedoria Antiga:
Uma Reconsideração da Consciência Histórica, 1450–1650 (Columbia, MO: University of
Missouri Press, 1991), 73, 76.
19. Charles Mack, Olhando para o Renascimento, 94–103. O desenvolvimento da perspectiva linear
em si tinha uma origem teológica. Os Franciscanos desenvolveram um misticismo complexo da luz como um sinal

da presença de Deus no mundo. Eles estudaram o funcionamento do olho e a aplicação de


geometria e matemática aos raios de luz. Livros sobre a história da ciência normalmente incluem
vários Franciscanos sob o título de O Desenvolvimento da Óptica, incluindo Robert
Grossteste e Roger Bacon. Como diz um historiador, “a perspectiva linear surgiu no início do
Renascimento”, porque os Franciscanos acreditavam que era um modelo ilustrando como “Deus espalha

Sua graça através do universo.” Eles acreditavam que a percepção da óptica levaria à percepção
Notas 283

na própria natureza de Deus. Veja David C. Lindberg, revisão de The Renaissance Rediscovery of
Linear Perspective por Samuel Y. Edgerton Jr. Isis, Vol. 68, No. 1 (Março de 1977), 150–52. Veja

também French & Cunningham, capítulo 10, “E Houve Luz!” A principal inspiração
para os Franciscanos foi o místico Dionísio, que ensinou um conceito neoplatônico
de emanações. Assim, para os Franciscanos, a luz tornou-se um símbolo da
emanação divina: “A Luz Espiritual é o que Deus é . . . A luz visível é o que Ele usa
para realizar Seus propósitos no mundo sensível. O estudo da luz visível, portanto,
diz mais diretamente sobre Deus e Suas ações”, 223–24, 230. 20. Stephen A.
McKnight, Sacralizing the Secular: The Renaissance Origins of Modernity (Baton

Rouge, LA: Louisiana State University, 1989),


57. 21. Mack, Looking at the Renaissance , 66.
22. Giovanni Gentile, “O Pensamento de Leonardo”, emLeonardo da Vinci (Nova York, NY: Barnes &

Noble, 1996), 174.


23. Jan Vermeer foi batizado e criado na Igreja Reformada Holandesa, a igreja
protestante dominante dos Países Baixos. Quando se casou com uma mulher
católica, converteu-se ao catolicismo e às vezes pintava no estilo de Caravaggio,
típico dos artistas católicos. “Suas cenas domésticas mais familiares, no entanto,
são repletas de uma luz que certamente é protestante e secular.” Patrick
Collinson, The Reformation: A History (Nova York, NY: Modern Library,
2003), 195.
24. E. John Walford, Jacob van Ruisdael and the Perception of Landscape (New Haven, CT: Yale
University Press, 1991), 19
–20. 25. Veja John M. King,Reformation Literature: The Tudor Origins of the Protestant
English
Tradition (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1982), 140, 147. John Phillips, The
Reformation of Images: Destruction of Art in England, 1525–1660 (Los Angeles, CA: University
of California Press, 1973); Carlos M. N. Eire, War Against the Idols: The Reformation of Worship
from Erasmus to Calvin (Nova York, NY: Cambridge University Press). Alguns protestantes, incluindo-
indo luteranos e anglicanos, retiveram coisas como velas, vestes e liturgia. Lutero até saiu do
esconderijo no castelo de Wartburg, correndo o risco de sua própria vida, para deter os
iconoclastas. Veja Gene Edward Veith, State of the Arts: From Bezalel to Mapplethorpe
(Wheaton, IL: Crossway,
1991), 62. E sem o amor de Lutero pela música, não haveria Bach, com seu enorme impacto em toda a tradição musical ocidental. No entanto, mesmo nessas igrejas, houve uma
mudança na ênfase da imagem para a palavra.

mous impact on the entire Western musical tradition. Nevertheless, even


in these churches there was a shift in emphasis from image to word.
26. Phillips, 11. Sobre controvérsias iconoclastas anteriores, veja Dyrness, 33–
38. Tendências iconoclastas surgiram também dentro do catolicismo. No final
do século XV, a cidade de Florença ficou sob a influência de Savonarola, um
padre dominicano fascinante. “Pinturas, juntamente com outros itens de luxo,
como roupas caras, foram destruídas como 'vaidades' em fogueiras públicas.”
Robert Williams, Art Theory, A Historical Introduction (Oxford:
Blackwell, 2004), 43.
284 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

27. Veith, Estado das Artes , 69–70. Gene Edward Veith, Pintores da Fé: O Espiritual
Paisagem na América do Século XIX (National Book Network, 2001), 59.
28. “No coração do transcendentalismo de Emerson, pode-se encontrar Platão e os Neoplatônicos,
especialmente Plotino.” Artigo não assinado, “A Alma do Mundo de Emerson”, Harpers , 7 de junho de 2009.

29. Veith, Pintores da Fé, 126.


30. Veith, Pintores da Fé , 126. James F. Cooper, Cavaleiros do Pincel: A Escola do Rio Hudson
e a Paisagem Moral (Nova York, NY: Hudson Hills Press, 1999), 59.
31. Martha Bayles, Buraco em Nossa Alma: A Perda da Beleza e do Significado na Música Popular Americana

Música (Chicago, IL: University of Chicago Press, 1996), 33.


32. Walker Percy, Sinais em uma Terra Estranha (Nova York, NY: Picador, 1991), 278.
33. Immanuel Kant, Crítica da Razão Pura, trad. Kemp Smith (Nova York, NY:
Macmillan, 1929), 528–29, ênfase adicionada.
34. David Goldston, “A Ilusão do Cientista” Nature, 452, 5 de março de 2008, 17; John Gray,
Cães de Palha (Nova York, NY: Farrar, Straus & Giroux, 2002, 2003), 120, 71; Steven Pinker,
“O Mistério da Consciência”, Time, 19 de janeiro de 2007.
35. Adrian Woolfson, Guia de Genética para uma Pessoa Inteligente (Nova York, NY: Overlook Press,

2005), s.p.
36. Veja Tim Adams, “O significado da vida”, uma resenha deO Que Acreditamos, Mas Não Podemos Provar, ed.
John Brockman, The Observer , 11 de dezembro de 2005.

37. Robert Solomon e Kathleen Higgins, Uma Breve História da Filosofia(Nova York: NY:
Oxford University Press, 1996), 215. E. L. Allen escreve: “Kant nos deu dois mundos,
um de liberdade e o outro de natureza.” De Platão a Nietzsche (Greenwich, CT: Fawcett
Publications, 1962 [1957]), 129. Herman Dooyeweerd descreve a divisão kantiana em
estas palavras: “Acima deste reino sensorial da ‘natureza’ existia um reino ‘suprassensorial’ de moral
liberdade que não era governada por leis mecânicas da natureza, mas por normas ou regras de con-
duta que pressupõem a autonomia da personalidade humana.” Raízes da Cultura Ocidental: Pagã,
Secular e Opções Cristãs (Toronto: Wedge, 1979; orig., Zutphen, Holanda: J. B.
van den Brink, 1959), 171.
38. Kant, Introdução à Lógica (Londres: Longmans, Green, & Company, 1885) , IX, 60,
ênfase no original.
39. West, 39. Veja Frederick Beiser, “Filosofia Pós-Kantiana”, em Um Companheiro para Continental
Filosofia, ed. Simon Critchley e William Schroeder (Oxford: Blackwell, 1998).
40. Stanley Hauerwas, Com o Grão do Universo (Grand Rapids, IL: Brazos Press, 2001) ,
37–38.
41. De um ensaio de 1954 sobre A Tempestade , citado emO Mar e o Espelho: Um Comentário sobre
Shakespeare’s The Tempest ed e intro Arthur Kirsch (Princeton: Princeton University Press,
2003), xiii.
Notas 285

42. Para uma história do idealismo filosófico, veja Robert C. Solomon, Filosofia Continental
Desde 1750: A Ascensão e Queda do Self (Nova York, NY: Oxford University Press, 1988).
43. “Diz-se frequentemente que Kant é o último ponto de contato entre a filosofia analítica e a continental

filosofia. Ele é um ponto comum de referência e influência para ambas as tradições.” Philip
Stratton-Lake, “Introdução”, The Edinburgh Encyclopedia of Continental Philosophy, de Simon
Glendinning (Routledge, 1999), 23. “Kant, cuja importância é reconhecida tanto nas
tradições analíticas quanto nas continentais, representa um ponto decisivo de transição ou mesmo ruptura.”

West, 3. Kant “de muitas maneiras é tanto a última grande figura comum às tradições analítica e
Continental quanto anuncia a separação de seus caminhos. . . . É discutível que grande
parte da diferença entre a filosofia analítica e a continental simplesmente se resume a como se lê
Kant e o quanto de Kant se lê.” Os pensadores analíticos se concentraram na primeira Crítica de Kant,
enquanto os pensadores continentais se concentraram em sua segunda e terceira Críticas. Simon Critchley,

“Introdução: O que é Filosofia Continental?”, em A Companion to Continental Philosophy,


ed. Simon Critchley e William Schroeder (Oxford: Blackwell, 1998), 1, 11.
44. Brian Leiter, “Filosofia ‘Analítica’ e ‘Continental’ ” The Philosophical Gourmet Report ,
Blackwell, 2009, ênfase no original em [Link]
“Sem exceção, os melhores departamentos de filosofia nos Estados Unidos são dominados pela
filosofia analítica, e entre os principais filósofos nos Estados Unidos, todos, exceto um punhado
seriam classificados como filósofos analíticos.” John Searle, The Blackwell Companion
Philosophy, ed, Nicholas Bunnin, e E. P Tsui-James (Blackwell, 2003), 1.
45. A pesquisa também perguntou aos filósofos com qual filósofo morto eles mais se identificavam. O
claro vencedor foi David Hume. Um relatório da pesquisa, juntamente com um bom resumo dos dois
tradições filosóficas, podem ser encontradas em Anthony Gottlieb, “O que os filósofos acreditam?”
Intelligent Life, Primavera de 2010.

46. Nas palavras de Kant, qualquer questão que vá além do mundo empírico é uma questão que
a razão “não é capaz de ignorar, mas que, ao transcender todos os seus poderes, também não é capaz de

responder.” Crítica da Razão Pura, Prefácio, 7.


47. Anthony Quinton, citado em Simon Critchley, “Introdução” A Companion to Continental
Philosophy, 7. Michael Dummett, Origins of Analytical Philosophy (Cambridge, MA: Harvard
University Press, 1996), 193. Simon Critchley, “Introdução”, A Companion to Continental
Philosophy, 14.
48. O sociólogo Christian Smith observa: “Os intelectuais mais responsáveis pela histórica
secularização da vida pública americana” vieram em grande parte de duas tradições—“eles eram científicos

intelectuais e intelectuais românticos.” Introdução, The Secular Revolution: Power, Interests,


and Conflict in the Secularization of American Public Life, ed Christian Smith (Berkeley, CA:
University of California Press, 2003), 33–34. O filósofo Alvin Plantinga oferece uma metáfora
emprestada de Agostinho, que descreveu a história humana como uma luta entre a Cidade de Deus
286 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

e a Cidade do Mundo. Hoje, Plantinga diz, a Cidade do Mundo—o reino secular—se dividiu
em duas subdivisões, o que ele rotula de naturalismo (modernismo) e antirrealismo (pós-
modernismo). “Filosofia Cristã no Final do Século Vinte”, em The Analytical

Teísta (Grand Rapids, IL: Eerdmans, 1998).


49. Robert Pirsig, Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas (Nova York, NY: HarperCollins,
1974, 1999), 61, 70–71, 134,
433. 50. M. H. Abrams,
O Espelho e a Lâmpada: Teoria Romântica e a Tradição Crítica
(Oxford: Oxford University Press, 1953), 299, 301. Veja também Barbara M. Shapiro, A Cultura de
Fato: Inglaterra, 1550–1720 (Ithaca, NY: Cornell University Press, 2000). Ironicamente, os críticos racionalistas

ecoaram muitas das mesmas críticas à arte feitas pelos puritanos. Veja Russell A.
Fraser, A Guerra contra a Poesia (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1970).
51. Ernest Lee Tuveson, A Imaginação como um Meio de Graça (Los Angeles, CA: Universidade
da California Press, 1960), 6, 80, 85. Veja também Basil Willey, Contexto do Século Dezessete:
Estudos sobre o Pensamento da Era em Relação à Poesia e Religião (Garden City, NY:
Doubleday, 1953 [1934]), 93.
52. George Santayana, O Sentido da Beleza, 16, citado em Tuveson 9.
53. Calvin Seerveld, Arco-íris para o Mundo Caído: Vida Estética e Tarefa Artística (Toronto:

Tuppence Press, 1980), 84, 91, 93.


54. Percy, Signposts, 215–16, 192.

55. Jeremy Begbie, Expressando o Louvor da Criação (Londres: T & T Clark International, 1991) ,196.
56. Donald Kuspit, “Revisitando o Espiritual na Arte”, apresentado na Ball
State University, 21 de janeiro de 2004, ênfase adicionada. Kuspit está falando
de Kandinsky em particular, mas sua análise se aplica aos artistas em geral.
57. Kuspit, “Revisitando o Espiritual na Arte”.
58. Jacques Barzun escreve sobre “duas correntes” na arte: “idealista e naturalista”. Uso e Abuso de

Arte (Princeton NJ: Princeton University Press, 1974) 58. Rookmaaker escreve: “Desde o

Iluminismo, o homem lidou com a realidade de uma maneira dupla: razão e romantismo, positivismo
e idealismo, realidade naturalista e o reino da liberdade humana nas artes.” Arte Moderna e

a Morte de uma Cultura (Wheaton, IL: Crossway, 1970, 1973, 1994), 203. Fritz Novotny escreve:
“Somente com o desenvolvimento de um naturalismo ‘total’ no decorrer do século XIX a arte
ocidental foi finalmente secularizada, e o antagonismo expresso em disputas entre ‘idealistas’ e
‘realistas’—em última análise, entre ‘idealistas’ e ‘naturalistas’.” “Naturalismo na Arte”, Dicionário
de
História das Ideias, Vol. 3, 343.

59. “A estética nos últimos cem anos tem sido dominada por expressionistas e formalistas.”
F. David Martin, “Sobre a Suposta Incompatibilidade de Expressionismo e Formalismo”, The
Journal of Aesthetics and Art Criticism, Vol. 15, No. 1 (Setembro de 1956), 94. Walford descreve
Notas 287

a “oposição moderna entre a arte que enfatiza valores formais e a arte que se concentra mais na
expressão de sentimento e da vida interior.” Great Themes, 404, ênfase adicionada.
60. Douglas Sloan, Fé e Conhecimento (Louisville, KY: Westminster John Knox Press, 1994),
92.
61. Abrams, Espelho,334. Veja também Willey, 92–93.
62. Gene Edward Veith, Lendo nas entrelinhas: um guia cristão para a literatura (Wheaton,
IL: Crossway, 1990), 169.

Capítulo 5: A beleza aos olhos da máquina (A herança do


Iluminismo
1. Simon Critchley, Filosofia Continental: Uma Introdução Muito Curta (Oxford: Oxford
University Press, 2001),
42. 2. Abrams, Espelho,
321–23. Na década de 1940, C. S. Lewis ofereceu uma crítica demolidora dessa sub-
visão objetivista em A Abolição do Homem. Nessa altura, já se tinha tornado a perspetiva inquestionável em

livros didáticos de
escolas públicas. 3. Stark,
“Para a Glória de Deus”: Como o Monoteísmo Levou a Reformas, Ciência, Caça às Bruxas,
e o Fim da Escravidão (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2003), capítulo 2. Os dois

céticos foram Edmund Halley e Paracelso. Mas muitos historiadores discordam sobre
Paracelso. Veja Christopher Kaiser, Criação e a História da Ciência (Grand Rapids, IL: Eerdmans,

1991), 116–20.
4. A. R. Hall, A Revolução Científica, 1500–1800: A Formação do Científico Moderno
Atitude (Boston: Beacon Press, 1954), 171–72. Randall, Making, 274. Para mais informações sobre a con-

tribuição do pensamento cristão para a ascensão da ciência, veja meu artigo, “O cristianismo é um iniciador de
ciência, não um bloqueador de ciência”, Areopagus Journal 5:1 (janeiro/fevereiro de 2005), ligeiramente revisado

em [Link] Veja também Nancy Pearcey, “Como


a Ciência se Tornou uma Vocação Cristã”, Reading God’s World: The Scientific Vocation, ed Angus

Menuge (St. Louis, MO: Concordia, 2004); e meus artigos no Bible-Science Newsletter,
“O Nascimento da Ciência Moderna”, outubro de 1982; “Como o Cristianismo Deu Origem à
Moderna Perspetiva Científica”, janeiro de 1989. Esses artigos se tornaram a base para o
capítulo de abertura em The Soul of Science. Convidei Charles Thaxton para se juntar a mim
nesse projeto para fornecer
expertise e revisão científica. Veja Nancy Pearcey e Charles Thaxton, The Soul of Science: Christian
Faith and Natural Philosophy (Wheaton, IL: Crossway, 1994).
5. Carl Becker, A Cidade Celestial dos Filósofos do Século XVIII (New Haven, NY: Yale

University Press, 1932), 55. 6.


Harvey Cox, The Secular City, rev. ed. (Toronto: Macmillan, 1966), 21.
7. Thomas Sieger Derr, Ecologia e Necessidade Humana (Filadélfia, PA: Westminster Press, 1975),

20, 26.
288 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

8. Ernst Benz, Evolução e Esperança Cristã (Garden City, NY: Doubleday, 1975), 123–25. Veja
também David F. Noble, A Religião da Tecnologia (Nova York, NY: Penguin, 1997, 1999); Nancy
Pearcey, “A Natureza da Natureza: Visões de Mundo Competitivas no Debate Ambiental”, apresentada
na conferência realizada pela Philadelphia Biblical University, 27 de março de 2010; Nancy Pearcey,
“Tecnologia, História e Visão de Mundo”, Ética Genética: Os Fins Justificam os Genes? (Grand
Rapids, MI: Eerdmans Publishing, 1997).
9. Lynn White, “O que Acelerou o Progresso Tecnológico na Idade Média Ocidental?”
Mudança Científica, ed. A. C. Crombie (Nova York, NY: Basic Books), 290–91.
10. Citado em Klingender, Arte e a Revolução Industrial (Londres: Noel Carrington, 1947) ,
24.
11. Richard Helgerson, Laureados Autocoroados (Berkeley, CA: University of California Press,
1983), 226–27.
12. Fred Licht, Goya: As Origens do Temperamento Moderno na Arte (Nova York, NY: Harper & Row,
1979), 116–27.
13. John Canaday, Correntes Principais da Arte Moderna (Nova York, NY: Holt, Rinehart, & Winston,
1959),75.
14. Mishoe Brennecke, “Double Début: Édouard Manet e A Execução de Maximiliano em
Nova York e Boston, 1879–80”, Arte Mundial do Século XIX, Vol 3, Edição 2, Outono
2004.
15. Canaday, 167, 166, ênfase adicionada.
16. Frederick Hartt, Arte: Uma História da Pintura, Escultura e Arquitetura, 4ª ed. (Nova York,
NY: Harry N. Abrams, 1989, 1993), 830.
17. Williams, 122–23.
18. Veja Richard Bauckham, Jesus e as Testemunhas Oculares: Os Evangelhos como Testemunho de Testemunhas Oculares
(Grand Rapids, MI: Eerdmans Publishing, 2006).
19. Roger Cotes, prefácio da segunda edição de Newton’s Principia, em Filosofia de Newton
da Natureza: Seleções de Seus Escritos, ed. H. S. Thayer (Nova York, NY: Hafner, 1953). Veja
Edward B. Davis, “A Rejeição de Newton da ‘Visão de Mundo Newtoniana’: O Papel da Divina
Vontade na Filosofia Natural de Newton”, Ciência e Crença Cristã, 3, No. 1, 117.
20. John Brooke e Geoffrey Cantor, Reconstruindo a Natureza: O Envolvimento da Ciência e
Religião (Oxford: Oxford University Press, 1998), 20, ênfase no original. Para mais detalhes
sobre como a teologia voluntarista levou a uma visão contingente da natureza, meu artigo, “O Cristianismo é um

Iniciador de Ciência, Não um Interrompedor de Ciência”, e “Desenvolvimentos Recentes na História da Ciência

e Cristianismo”, Pro Rege 30, No. 4 (junho de 2002): 1–11, 20–22. Veja também Alma da Ciência,
30–33, 81ff.
21. Richard Popkin, Prefácio, O Problema da Certeza no Pensamento Inglês, 1630–1690, por
Henry G. Van Leeuwen (The Hague: Martinus Nijhoff, 1963), xi. Veja também Richard Popkin,
Notas 289

The History of Scepticism: From Savonarola to Bayle, 3ª ed. (Oxford University Press, 2003);
Barbara Shapiro, Probability and Certainty in Seventeenth-Century England (Princeton, NJ:

Princeton University Press,


1983). 22. Erich Auerbach,
Mimesis: A Representação da Realidade na Literatura Ocidental (Princeton,

NJ: Princeton University Press, 1953, 2003), 555, 72. Significativamente, o


Antigo Testamento previu que o Messias vindouro não teria “beleza para
nos atrair a ele, nada em sua aparência que o desejássemos” (Isaías 53:2).
Adrienne Chaplin comenta que a humilhação de Cristo “estaria em forte
contraste com a adoração dos deuses gregos na época de Cristo, cujos
corpos musculosos – os ídolos de seu tempo – podiam ser admirados em
suas imagens esculpidas por todas as cidades”. “From Vision to Touch:
Returning Beauty to Lived Experience”, [Link], 27 de maio de
2009. 23. Hartt, Art, 908.
24. Alain Besançon, The Forbidden Image: Uma História Intelectual da Iconoclastia (Chicago, IL:
University of Chicago Press, 2000) 261.
25. Citado em Peter Fuller, “The Geography of Mother Nature,”The Iconography of Landscape, ed.

Denis Cosgrove e Stephen Daniels (Cambridge: Cambridge


University Press, 1988), 18. 26. Fuller, “The Geography of Mother
Nature,” 17. 27. Auerbach, 22–23.
28. Para uma descrição de como pode ser difícil para os recém-vistos aprenderem a identificar
visualmente forma, tamanho, altura e distância, veja Annie Dillard, Pilgrim at Tinker Creek (Harper

Perennial Modern Classics, 2007), 28 e seguintes. Dillard se baseia


em um livro de 1932 intitulado Space and Sight, de Marius von
Senden, que coletou dezenas de casos de adultos que recuperaram
a visão pela primeira vez após operações de catarata. 29. Williams,
137. 30. Rookmaaker,
Modern Art and the Death of a Culture,85.
31. H. W. Janson, History of Art (Upper Saddle River, NJ: Prentice-Hall, 1969), 492. Começando
com a 7ª edição, o capítulo de Janson sobre Realismo e Impressionismo
(capítulo 25) é intitulado “A Era do Positivismo”.
32. Canaday, 74, ênfases
adicionadas. 33. Licht, Goya, 135.
34. Bruce Cole e Adelheid Gealt, Art of the Western World: From Ancient Greece to
Pós-modernismo (Nova York, NY: Summit Books, 1989), 149–50. Veja também Walford, Great
Themes, 413–14.
35. Tom Lubbock, “Manet, Edouard: The Railway (1873),” série Great Art, The Independent,
18 Abril de 2008.
36. Donald Grout e Claude Palisca, A History of Western Music,6ª ed. (Nova York, NY:
Norton 2000), 664. Veja também Harold C. Schonberg, The Lives of the Great Composers (New
290 Nancy Pearcey | Salvando Leonardo

York, NY: Norton, 1970, 1981, 1997), 453, 462–63. Sobre tonalidade, veja a série de
palestras de Leonard Bernstein “A Questão Não Respondida” apresentada na
Universidade de Harvard, 1973. 37. Peter Fuller,(Londres:
Theoria: Chatto
Arte e &a Windus,
Ausência de Graça
1988), 125.
38. Robert Hughes, Visões Americanas: A História Épica da Arte na América (Nova York, NY:

Knopf, 1997), 239, ênfase adicionada.


39. Lionel Trilling, Além da Cultura (Nova York, NY: Viking Press, 1965).

40. Suzi Gablik, O Modernismo Falhou? (Nova York, NY: Thames & Hudson, 1985), 24,

ênfase adicionada.
41. Rookmaaker, Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, 67, 75–77.

42. Rookmaaker, Arte Moderna e a Morte de uma Cultura, 95.


43. Morris Kline, Matemática: A Perda da Certeza (Nova York, NY: Oxford University Press,

1980), 34–35. Para um relato histórico da relação entre o cristianismo e a matemática, veja Alma
da Ciência, capítulos 1, 6, 7. Estes capítulos são baseados em artigos que publiquei anteriormente

no Boletim Bíblia-Ciência, “Cuidado com sua Matemática: Uma Série em Duas Partes sobre o Papel da

Matemática na Ciência”, Março de 1990; “A Ascensão e Queda da Matemática”, Abril de 1990.


44. Dudley Shapere, Galileu: Um Estudo Filosófico (Chicago, IL: University of Chicago Press,

1974), 134–36, ênfase no original. Até Aristóteles, que ensinou que as formas ideais estão em
coisas, ensinou que o mundo material nunca se conforma totalmente às formas eternas. Assim,
ele esperava que os organismos biológicos reais exibissem uma ampla gama de
irregularidades—para serem erráticos, instáveis, variáveis. Conway Zirkle, “Espécies antes de
Darwin”, Anais da Sociedade Filosófica Americana

103, No. 5, (Outubro de 1959),


636–44. 45. C. F. von Weizsacker,
A Relevância da Ciência(Nova York, NY: Harper & Row, 1964), 163.
46. R. G. Collingwood, Um Ensaio sobre Metafísica (Chicago, IL: Henry Regnery, Gateway

Editions, 1972 [1940]), 253–57, ênfase adicionada. 47.


Vincenzo di Grazia, citado em Michael R. Matthews, Ensino de Ciências: O Papel da História
e Filosofia da Ciência (Routledge, 1994), 118, ênfase adicionada. Veja também E. A. Burtt, O
Fundamentos Metafísicos da Ciência Moderna, rev ed (Nova York, NY: Doubleday, 1954 [1932]),
38, 52; Richard Blackwell, “Galileo Galilei,” Ciência e Religião: Uma Introdução Histórica, ed
Gary B. Ferngren (Baltimore, MA: Johns Hopkins University Press, 2002). Nem todos os
aristotélicos rejeitaram a demonstração matemática em princípio; alguns simplesmente
pensaram que as provas de Galileu eram inadequadas. Veja Steven Harris, Catolicismo Romano
Desde Trento em Ferngren, 249, e William R.
Shea e Mariano Artigas, Galileu em Roma: A Ascensão e Queda de um Gênio Problemático (Oxford

University Press, 2004).


48. Collingwood, Um Ensaio sobre Metafísica , 250.

49. Kline, 52.


50. Veja Alexandre Koyré,Do Mundo Fechado ao Universo Infinito (Baltimore: Johns
Hopkins University Press, 1957), capítulo 5.

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