Sapientiam Autem Non Vincit Malitia
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HUMILDADE, RIDÍCULO E IRONIA1
OLAVO DE CARVALHO
O senso do ridículo é um freio a todas as pretensões de grandeza. Os adversários
da grandeza tendem a louvá-lo por isto. Uma psicologia profana – e, no fundo,
desumana – diria que ele é o antídoto do orgulho. Mas para deter o orgulho basta a
humildade, a qual, se se alimentasse do senso de ridículo, não seria humildade e sim
apenas orgulho amedrontado. A humildade se alimenta da grandeza de Deus, que é, no
fundo, a única grandeza do homem: ela freia o orgulho, sem sufocar a grandeza. O
senso de ridículo é o sucedâneo diabólico da humildade: ele reprime as manifestações
exteriores do orgulho para preservar intacto o orgulho interior; ele alimenta o orgulho à
força de reprimi-lo e irritá-lo, o que o torna assim cada vez mais odiento e mau.
A verdadeira humildade não possui e não tolera o senso de ridículo; os santos
aceitam o ridículo sem amá-lo nem temê-lo, com a mesma naturalidade indiferente com
que a matéria inflamável aceita o fogo e a matéria pesante cai. O mártir não ama as
chamas, nem a espada do carrasco: ama a Deus, e aceita as consequências que a
contingência terrestre lhe impõe. O senso de ridículo seria um estorvo, apenas. Ele
contraria o princípio do vacare Deo.
A humildade também não poderia jamais tomar o homem como objeto de
orgulho ou de escárnio; quando muito, de gracejo afetuoso e inocente; e nos mais das
vezes nem disto, porém de compaixão e lágrimas. Indiferente ao ridículo que os outros
vêem nele, o homem humilde é cego para o ridículo que se mostra nele2.
Quando a humildade é, por sua vez, objeto de riso (“Não és tu, acaso, o Rei dos
Judeus?”), ela sabe que aquilo que move os homens a rir não é humano: é animalesco –
o espírito da horda em camaradagem festiva e sangrenta – ou diabólico: o riso da vitória
desigual das potências cósmicas sobre a impotência humana. É preciso todo o
artificialismo pedante de uma época sem coração para tornar objeto de riso o fato de que
alguns cristãos da Idade Média vissem algo de diabólico no gênero cômico 3. Pois rir de
1
Ensaio em forma de apostila para o curso Introdução à Vida Intelectual, em 11 de agosto de 1987.
2
Certas frases de cortante ironia proferidas por um S. Domingos ou um S. Bernardo parecem desmentir
isso, para não falar de satíricos católicos fervorosos como Chesterton e Belloc. É preciso estar apenas
ciente de que a sátira feita por um religioso nunca visa nem à humanidade nem ao indivíduo humano,
porém a idéias, instituições e poderes, ante os quais a compaixão é descabida.
3
O romance de Humberto Eco, O Nome da Rosa, gira em torno de uma suposta Segunda Parte da Poética
de Aristóteles, que trataria do gênero cômico, e a que alguns monges teriam dado sumiço por julgá-la
diabólica. O sr. Eco não vem ao caso, porque é apenas alguém empenhado em fazer do mais requintado
arsenal da pesquisa científica um instrumento a serviço do mundanismo afetado e diletante. Mas quem
conheça algo da função da paródia nas iniciações não pode deixar de admirar a clarividência desses
monges, se é que existiram. A comicidade de um Gurdjieff ou de um Idries Shah é por vezes irresistível:
suas vítimas baixam ao inferno entre gargalhadas. Não é impossível que algum monge esclarecido já
previsse isso no século X ou XII, porque uma antiga tradição hebraica já falava do potencial “satânico”
contido nas obras de Aristóteles: sua dialética, afirmava essa tradição, continha um “sentido secreto” que
só seria desvendado e utilizado no fim dos tempos, pelo Anticristo; e o papel que hoje a “lógica
matemática” desempenha na destruição da racionalidade humana leva a crer que essa profecia já se
realizou; não se vê por quê uma outra parte da obra de Aristóteles não poderia conter também algo de
potencialmente nocivo por sua possibilidade de uso perverso, sem prejuízo de seu valor intrínseco. Sobre
a função diabólica do cômico, v. René Guénon, Le Règne de la Quantité et les Signes de Temps, Chap.
XXXIX, “La Grande Parodie ou l`espiritualité à rebours” e Frithjof Schuon, “Le demiurge dans la
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um homem não é, acaso, recusar-se a compreendê-lo – desde dentro –, como o requer a
compaixão, e insistir em enxergá-lo apenas pelo lado da eventual incongruência
exterior?4 Quem poderia ter ensinado os homens a escarnecer de seus semelhantes, e a
temer o escárnio deles, senão o Diabo? E sob que pretexto sublime, senão o de reprimir
o orgulho? E com que consequência, senão a de produzir um orgulho mais interiorizado,
cerebral, premeditado e astuto?
O fato de que a nossa época tenha feito do senso do ridículo um sinal de
inteligência alerta já diz tudo sobre o espírito que a move: é preciso esquecer o
essencial, para poder viver atento a todas as mais mínimas casualidades que possam dar
margem ao ridículo, seja para explorá-lo nos outros ou para impedir que o explorem em
nós. Que jamais a concentração no essencial nos entregue distraídos nas garras de algum
gozador. Movido pelo senso do ridículo, o espírito moderno concede às coincidências e
casualidades do momento o monopólio da atenção. O essencial torna-se distante e
inverossímil5. Temendo que o vacare Deo o leve a cair, distraído, num poço, como
Tales, o intelectual moderno põe todas as suas forças à disposição de um empenho tenaz
de escapar ao escárnio da velhinha que ria de Tales. O intelectual moderno já não é um
oráculo do eterno: é uma antena do século, atenta às mais mínimas variações da energia
ambiente, das correntes psíquicas, da moda e do diz-que-diz-que. Ele não pensa:
responde somente a estímulos6.
Uma das demonstrações mais tristes da superficialidade e vazio da vida
brasileira é o papel preponderante que na psique da nossa população urbana letrada
desempenha o senso do ridículo, levado a um ponto de sensibilidade doentia para toda a
sorte de cacófatos e trocadilhos7. É um fator de bloqueio em toda comunicação do
pensamento – a atenção excessiva voltada para a camada sonora entorpece a apreensão
do sentido. E é um fator geral de inibição dos sentimentos mais autênticos. Isto acabou
fazendo do “sentimental reprimido e irônico” um tipo nacional8.
A obsessão de fugir ao sentimentalismo para fugir do ridículo descamba
facilmente para a inversão metafórica: a agressão irônica torna-se o único sinal válido
mythologie nord-americaine”, em Logique et Transcendance. A tradição sobre a dialética é mencionada
por Guénon em Formes Traditionelles et Cycles Cosmiques, pp. 111-112. Sobre a lógica matemática e a
nova linguística, v. Marina Scriabine, “Contre-initiation et contre-tradition”, em René Guénon et
l`Actualité e la Pensée Traditionelle. Actes du Colloque International de Cerisy-la-Salle, 13-20 juillet
1973. Há coisas de que o sr. Eco e seus admiradores nem de longe poderiam suspeitar. Os “intelectuais”
profanos não deveriam mexer em certos assuntos.
4
“Signalons... l`insensibilité qui accompagne d`ordinaire le rire... L`indifférence est son milieu naturel...
Je ne veux pas dire que nous ne puissons rire d`une personne qui vous inspire de la pitié, ou même de
l`affection: seulement alors, pour quelques instants, il faudra oublier cette affection, faire taire cette
pitié... Le comique exige donc, pour produire tout son effect, quelque chose comme une anesthésie
momentanée du couer”. Henry Bergson, Le Rire, Chap. I, §1. Cf. tb. Arthur Koestler, The Act of
Creation, Part. I, Chap. I/II.
5
Frithjof Schuon observa, em algum lugar, que o ambiente físico das cidades modernas parece ter sido
concebido com a finalidade de tornar Deus inverossímil. Diríamos o mesmo do seu ambiente linguístico e
cultural.
6
É uma inversão do “ensimesmamiento” que Ortega y Gasset colocava na raiz da vida intelectual. O
intelectual moderno, tal como os macacos de Ortega, vive “en perpetua alteración”. V.
“Ensimesmamiento y alteración”, em Obras completas, Vol. 7.
7
Esta sensibilidade que a música popular explora até o ponto da imbecilização, é documentada pelos
próprios gramáticos, com seus eternos debates de ortografia; não é preciso dizer que os “concretistas” a
elevam a preceitos e norma estética.
8
O romance brasileiro tem centenas de personagens desse tipo: o Amanuense Belmiro, o joão Valério de
Graciliano Ramos, o Gonzaga de Sá de Lima Barreto, etc.
2
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de afeto sincero9. Toda expressão direta está condenada, ou é tomada em sentido
contrário.
Mas, como o sentimentalismo originário que a ironia encobria não é nunca mais
expresso, a ironia acaba por substituí-lo: toda e qualquer ironia se torna sinal de afeto. É
assim que, jogando habilmente com as intenções subentendidas que os fracos desejam
ver neles, os mais cínicos e brutais terminam por ser vistos como “grandes figuras
humanas” – expressão da moda, com que a alma prostituída dos nossos jovens letrados
condecora todos aqueles que sabem judiar deles com uma certa classe.
9
Tanto que Nelson Rodrigues acabou por ser visto como autor sério – o que revela menos sobre Nelson
Rodrigues do que sobre a mentalidade do público letrado que o acolhe.